Sempre que penso em Ohio, me lembro de uma quase oferta de emprego que tive pelos idos de 1996, bons tempos da América clintoniana: era meu primeiro ano no mercado de trabalho e, por via das dúvidas, mandei papelada para todo canto, até para dar aulas de lunfardo. A quantidade de entrevistas acabou sendo absurda para os três dias de congresso do MLA, que naquele ano calhou de ser em Toronto. As universidades e os bons colleges, claro, marcavam as entrevistas para suas suítes em hotéis. As faculdades mais modestas tinham cubículos num pavilhão, o carinhosamente chamado meat market. Ali tive uma entrevista normal com um college de Ohio. Ele não ficava em nenhuma das três grandes cidades, Cleveland, Columbus ou Cincinnatti e, em vista do acontecido, permanecerá inomeado.
Para o final da entrevista, é protocolar que a universidade lhe dê a oportunidade de fazer alguma pergunta, e naquele dia eu lhes perguntei, sei lá, sobre a região, como era, o que faziam, como se entretinham. O fato é que já não me lembro bem qual foi a pergunta, mas a resposta foi uma troca de olhares insólita, desesperada entre meus entrevistadores, seguida da frase salvadora de um deles: bom, nós estamos a 10 minutos da auto-pista interestadual. Nesse dia, eu entendi que há lugares que podem se gabar de estar a 10 minutos da highway. Ali, naqueles lugares, Bush venceu a eleição de 2004 contra Kerry.
Um Republicano nunca chegou à Casa Branca sem Ohio. A última vez que o vencedor de Ohio não venceu a eleição nacional foi em 1960, quando John F. Kennedy perdeu o estado para Nixon. Este ano, Ohio é mais “essencial” para McCain que para Obama, no sentido de que há outros mapas de vitória possíveis para o Senador de Illinois. É difícil imaginar uma vitória para McCain que não mantenha Ohio na coluna republicana.
Ohio é representativo e chave também pela demografia: a população negra anda ali pelos 12.5%, mais ou menos o que tem no país todo. O interior é branco e religioso, mas não só protestante. Há mais de 2,2 milhões de católicos em Ohio, decisivos em 2004. É verdade que a marcha dos setores religiosos às urnas para Bush em 2004 foi maciça entre os evangélicos, escandalizados por uma emenda anti-casamento gay. Mas numa eleição contra o católico John Kerry, o voto católico de Ohio – nada desprezível numericamente: 26% do estado -- foi em 55% para Bush, e decidiu a parada.
Os católicos são considerados swing electorate nos Estados Unidos porque tendem a concordar com os democratas em tudo – sindicalização, benefícios sociais, política de impostos, política externa etc. -- exceto, claro, com o bicho-papão: Roe v. Wade, cuja defesa, pelo menos nominal, é ponto de honra para o Partido Democrata.
A vitória decisiva de Bush na eleição de 2004, a de Ohio, foi uma besta religiosa de duas cabeças: paranóia anti-casamento gay para arrancar, sei lá, 90% do voto evangélico e fúria anti-abortista para vencer entre os católicos por 55 a 44, contra um candidato católico com o qual o eleitorado católico concordava em todo o resto. Durma-se.
Obama pode vencer lá? Pode. Fácil? De jeito nenhum. Tem que 1) arrancar uma vitória homérica em Cleveland. Em Cuyahoga County, onde fica a cidade, Kerry venceu por 66 a 33, e Obama tem potencial para mais; 2) ter uma boa votação em Columbus e Cincinnatti; em Franklin County (Columbus) Kerry venceu por 54,5% a 45%, e Obama também pode aumentar essa diferença; 3) fazer uma mensagem populista-econômica chegar ao eleitorado da devastação pós-industrial do interior de Ohio para contrabalançar minimamente o voto conservador religioso dos grotões.
A boa notícia é que a máquina de manipulação que era a Secretaria do Estado nas eleições de 2004 já não está em mãos republicanas. Ajuda do juiz, como em 2004, o candidato republicano não terá. Este é o mapinha com o qual Bush levou o estado em 2004. As cores estão trocadas. Bush é azul e Kerry é vermelho:
Quem olha o mapa pode pensar que foi uma goleada. Mas Bush teve 2.859.768 votos contra 2.741.167 de Kerry. A região de vermelho mais forte, lá em cima, é a área metropolitana de Cleveland, Cuyahoga County. O único condado vencido por Kerry “no meio” do estado é Franklin County, onde fica Columbus. Mais uma vitória a oeste, na área metropolitana de Dayton, e outra a leste, no Condado de Athens, onde fica Ohio University. Outra lá em cima, na área siderúrgica de Trumbull County, no extremo nordeste do estado. De resto, Bush venceu tudo, tirando nos grotões a vantagem de Kerry nas urbes.
Em 1992 e 1996, Clinton levou Ohio, com seu perfil moderado para os grotões e maciço apoio entre os negros na região metropolitana de Cuyahoga County. Seis anos antes da primeira vitória, em 1986, uma certa banda de rock compôs, em homenagem ao rio que atravessa o condado, uma canção que seria quase um hino ecológico, um anúncio dos anos Clinton que viriam. É dessas canções que falam do passado antevendo o futuro. Cuyahoga é uma das pérolas do álbum Life's Rich Pageant, do REM:
As pesquisas dão, no momento, vantagem de 2 a 3 pontos para McCain no estado de Ohio. Big Dog esteve lá hoje, fazendo campanha para Obama.
A explicação sobre o panorama eleitoral de Ohio está realmente ótima!
Quanto a esta 'entidade', o swing electorate, que você bem citou, parece uma daquelas expressões de técnico de futebol para justificar derrotas (ou cantar vitórias).
E justamente pelo que você apresenta em Ohio (mas poderia ser outro estado) que não é indicado que no Brasil se adote o voto distrital!!!
P.S. Situação econômico-financeira do Brasil vai bem apesar so Sr. Mantega
Atenção, um novo capítulo se abre para o caso Satiagraha.
O governo Lula acertou um acordo com a Editora Abril – e, por extensão, com Daniel Dantas – para anular a Operação Satiagraha. O acordo foi montado da seguinte maneira:
1. É impossível interferir nos trabalhos em andamento do Ministério Público Federal e do juiz De Sanctis. A ofensiva de Gilmar Mendes foi um tiro no pé.
2. A estratégia acertada consistirá em tentar anular o inquérito de Protógenes, no âmbito da Polícia Federal. A versão preparada é que o inquérito continha irregularidades que precisariam ser sanadas. E a Polícia Federal colocou seus homens de ouro para “salvar” o inquérito. O trabalho dos “homens de ouro, na verdade, será o de garantir a anulação do inquérito.
Pegando carona nos comentários acima, o sistema político americano é o melhor argumento contra o voto distrital que conheço: reduz a competição eleitoral, favorece candidatos com grandes máquinas políticas e praticamente sufoca pequenos partidos. Adotado no Brasil, possivelmente uma boa parlamentar como Jandira Feghali jamais teria construído sua carreira pelo PCdoB. Localismo no Brasil nunca foi sinônimo de self-government, mas encastelamento de máquinas oligárquicas.
do link citado anteriormente: " Seu programa de governo, em todos os pontos substantivos (excluídas portanto somente algumas concessões verbais ao patriotismo americano), consiste sumariamente em demolir a economia americana por meio de impostos e legislações restritivas, em substituir a cultura americana tradicional pelo lixo “multiculturalista”, em transferir a organismos internacionais parcelas essenciais da soberania americana e em colocar os EUA de joelhos ante as “reivindicações legítimas” (palavras dele, porca miséria!) dos terroristas anti-americanos. " (http://www.olavodecarvalho.org/semana/080912dce.html).
Esse Olavo de Carvalho é do mesmo tipo radicalmente boçal do Reinaldo Azevedo; ainda do mesmo link: " Se todos os inimigos dos EUA apóiam esse sujeito, é por um motivo inteiramente óbvio: ele é um traidor feito sob medida, um agente local a serviço de poderes extranacionais, um Quisling em toda a linha. Embora nem todos o declarem em voz alta, praticamente todo mundo nos EUA enxerga isso. "
Pode alguém soltar tanta bobagem de uma vez só? Falar de unanimidades que existem dentro da cabeça dele ? Que gente imunda !
Maxime Waters, Ron Paul, Jeff Flake, Robert Wexler, Dennis Kucinich são exemplos de deputados eleitos pelo voto distrital e tão a extremos quanto a Jandira...
Vou tentar poupar o Idelber do trabalho: para o velho reacionário, o grande problema do Obama é que ele é negro, e portanto "un-American". É o velho problema do Liberalismo: quando você propõe a igualdade FORMAL, vc, cria na hora a questão da igualdade REAL, e para isso há duas soluções: a conservadora, de fechar a porta da igualdade aos "inadequados" - as criaturas esfarrapadas, banguelas, mulatas - e a radical, de abrir as portas a todos dando-lhes condições reais de exercerem a liberdade. É por isso que o Obama é tão explosivo - mesmo contra as suas próprias intenções...
O mais engraçado é a depreciação que a "jornalosta" da Folha faz da filosofia e da literatura: "O delegado prefere utilizar textos filosóficos e metafóricos ao invés de apresentar diretamente seus argumentos sobre o caso."
Se Big Dog fizesse alguma diferença a favor de Obama no Arkansas, já seria uma baita ajuda. Mas pelo jeito, os republicanos devem levar o Arkansas novamente. A grande esperança de Obama deve ser o Colorado e Novo México.
Muito esclarecedor o seu post Idelber.
Será que essa eleições serão a prova de fogo do american dream? Os grotões que se chamam de vão deixar um candidato que os afronta tão explicitamente pelo simples fato de ser negro ganhar a parada?
Da minha parte, só quero que o tal Olavo, os racistas, os inimigos do Protógenes e os caras da Merryl Linch vão para o Ohio que os parta!
Em Cleveland, com a extraordinária sinfônica que eles mantêm há anos, só pode dar Obama de goleada. O problema são os grotões ignaros que ficam a 10 minutos das auto-estradas...
Kenji,
Kucinich e Paul foram eleitos pelas duas grandes máquinas partidárias (os outros não conheço). O sistema proporcional dilui a competição e permite que partidos minoritários elegam representantes. O PCdoB até já fez presidente da Câmara. Não estou necessariamente juízo de valor, mas constatando o maior arejamento partidário propiciado pelo sistema proporcional. Como último argumento, vale lembrar que sistemas políticos não peram no vazio, mas interagem com culturas políticas e realidades sociais distintas. O distrital americano encontra eco na tradição de auto-governo anglo-saxã e na própria "sociologia" destas sociedades, marcadas pela democratização da sociedade e por uma vida civil mais plural. Não sei se é o nosso caso.
Paul tem mais relações com os libertários que com os republicanos, que tentam sem sucesso derrubá-lo há anos. Idem para Kucinich. Não vejo vantagem, no fundo, é desvantagem, em se ter trinta partidos se a maioria não tem diferenças entre si.
Sério mesmo, qual a vantagem do presidente da Câmara ter sido do PC do B se este partido na prática depende do PT para existir? E apesar do "C" é um partido mais a direita que MUITOS democratas?
Eu sinto que não tenho representação em nível municipal, estadual e federal. Não sei para quem reclamo quando vejo problemas nessas esferas. E quando trabalhei com supletivo sentia o mesmo com meus alunos. Eu moro numa região que não tem deputado federal nem estadual, há regiões paupérrimas em SP na mesma situação(Vide a região de Caieiras-Cajamar-Franco da Rocha). Isso sem contar a "brancura" do nosso legislativo.