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domingo, 28 de setembro 2008
Eleições americanas. Estados decisivos: 2) Flórida e Michigan
As avaliações da Flórida e de Michigan vão juntas porque a Flórida é, para McCain, o que Michigan é para Obama: o estado que há que se defender a qualquer custo. A Flórida foi decisiva nas últimas duas vitórias republicanas e Michigan vota democrata desde 1992. Eu apostaria que a Flórida é o estado que mais preocupa McCain e que Michigan é o estado que mais preocupa Obama.
Vamos aos nossos tradicionais mapinhas, pois. Na Flórida, o mapa da vitória de Bush sobre Kerry por 52 x 47 foi este (de novo as cores trocadas, o azul é Bush e o vermelho é Kerry):

A pontinha sul, claro, é a grande região urbana de Miami e Fort Lauderdale. Em Miami-Dade, no extremo sul, lado leste, Kerry venceu, mas não foi por goleada: 52,8% a 46,6%. A explicação para a alta votação de Bush numa área metropolitana é óbvia. Trata-se da alta concentração de cubano-americanos obcecados com Fidel Castro. Eles tendem a votar nos Republicanos, ao contrário do resto da população latina dos EUA. Isto tem mudado um pouco nos últimos anos, na medida em que conseguem cidadania cubanos de uma imigração recente, de caráter econômico. Eles tendem a ser menos obsessivos com Fidel e um pouco mais pragmáticos em política interna. Tudo indica que Obama tem chances melhores que Kerry por lá, apesar das corajosas declarações de Obama, de que vai, sim, sentar-se para conversar com Raúl Castro. 50,9% da população de Miami-Dade nasceu em outro país. É uma porcentagem mais alta que a de qualquer outro condado dos EUA. 61,3% dos habitantes de Miami-Dade são latinos, muitos deles de ascendência afro (cubanos, haitianos, dominicanos etc.). Obama tem tido uma pontuação boa entre eles, desmontando o mito de que latinos não votam em negros.
Imediatamente ao norte de Miami-Dade, estão os condados de Broward (onde se encontra Fort Lauderdale) e Palm Beach. Neles, sim, Kerry venceu por goleada com, respectivamente, 64,2% e 60,3% dos votos. O medo inicial este ano era que Obama não conseguiria repetir a performance de Kerry no sul da Flórida, tanto pela importância do voto latino como pelo alto número de judeus, que supostamente se afastariam da sua tradição de votar democrata por causa do fantasma do “Obama muçulmano”. Nenhum dos dois medos se confirmou. Obama vai bem no sul da Flórida. Mas precisa estancar a sangueira no miolo do estado e no extremo noroeste, a chamada região do panhandle (o cabo da frigideira). Ali, a concentração de militares é muito alta. Bush venceu naqueles condados com porcentagens absurdas, tipo 77, 80 por cento. McCain tem chances de repetir a performance ou até melhorá-la.
Os outros condados onde Kerry venceu foram os esperados: região metropolitana de Orlando, Gainesville (onde fica a Universidade da Flórida) e Tallahassee (capital do estado, onde se encontram duas universidades importantes: a Flórida A & M e Flórida State). O resto é tudo grotão.
Além da alta presença de militares, a Flórida tem enorme concentração de idosos. É tradição por aqui aposentar-se e ir morar na Flórida. Ou seja, é terreno de McCain. Para complicar a situação de Obama, houve a ridícula briga das primárias democratas, nas quais Flórida e Michigan anteciparam as datas de suas votações, para aumentar sua influência. Foram punidos pelo Partido Democrata com a anulação dos seus delegados e o compromisso de que os candidatos não fariam campanha nesses dois estados. Essa anulação foi feita com anuência de todos os candidatos. Quando começou a perder, Hillary foi à Flórida fazer campanha, vencendo, evidentemente, a primária fictícia por lá. E daí passou a dizer que Obama queria desqualificar os eleitores da Flórida. A campanha democrata na Flórida começou, pois, morro acima.
E eis que os números são surpreendentemente positivos. A Rassmussen dá vantagem de McCain por um ponto e a NBC/Mason-Dixon dá Obama por dois. Ou seja, o estado está indefinido. Sem a Flórida, praticamente não há mapa de vitória para McCain.
Apesar de tudo, não estou muito otimista quanto ao estado. Na Flórida, são as raposas que tomam conta do galinheiro. A fraude come solta. Na eleição de 2004, eu fiz boca-de-urna para Kerry por lá. Vi coisas que não havia visto nem na ditadura militar brasileira. Cobrem-me a história que um dia eu conto.
*********
Michigan é outra demografia, bem diferente. A última vez que os Republicanos ganharam por lá foi em 1988. Trata-se de um estado industrial, fortemente golpeado pela crise econômica. Etnicamente, ele é bem mais homogêneo que a Flórida. 83% de seus habitantes são brancos. A população hispânica é minúscula. Os negros estão concentrados em Detroit. Vamos ao mapinha da vitória de Kerry em Michigan em 2004:

Esse condado quase no extremo sudeste é Wayne County, onde fica Detroit, centro da indústria automobilística americana. Nada menos que 81% da população de Detroit é negra, uma das mais altas concentrações dos EUA. Ali, Kerry venceu Bush por 69 x 29. Obama deve vencer com margem ainda maior. Ao norte de Wayne, fica Oakland County, populosa área de subúrbios da região metropolitana de Detroit. Ali, Kerry também venceu, mas por diferença muito menor: 49,7% a 49,3%. Não acredito que Obama vença em Oakland County. Imediatamente a oeste de Wayne fica Washtenaw County, também parte da área metropolitana de Detroit. Ali ficam as cidades montadoras de Flint e Warren. É região de classe trabalhadora, mas é outro mapa para Obama. 77% são brancos. Como eu já afirmei antes, nada indica que o racismo seja um fator entre essa população, mas ainda há gente que aposta que pode aparecer o efeito Bradley (eleitores que declaram, nas pesquisas, que vão votar num candidato negro, mas que na solidão das urnas votam com seu racismo). Eu aposto que não é o caso. Mas já errei antes.
Também em Washtenaw County fica Ann Arbor, sede de uma das mais espetaculares universidades públicas do mundo, a potentíssima University of Michigan. Ali, sem dúvida, é goleada de Obama, sem efeito Bradley nenhum. Ao noroeste de Wayne e Washtenaw, também há um quadradinho vermelho, onde Kerry venceu por goleada, com 57% dos votos, já no interior do estado. Por quê? Trata-se de Ingham County, sede da Michigan State University. Kerry também venceu em dois condados do norte de Michigan: Marquette e Algers, ali na região dos lagos. É onde fica a Northern Michigan University.
Um recente acontecimento político que pode prejudicar a candidatura de Obama em Michigan é a seqüência de escândalos com prostitutas envolvendo o prefeito negro de Detroit, Kwame Kilpatrick, que acabou renunciando no último dia 04. O que ele tem a ver com Obama? Nada, a não ser o fato de ser Democrata e negro. Mas a cada aparição de Obama em Michigan, ele tem que responder perguntas sobre Kilpatrick. Imaginem se a mesma situação seria verossímil com McCain e um prefeito Republicano branco.
As pesquisas recentes em Michigan mostram que as chances de Obama manter o estado são muito boas. Prestem bastante atenção aos votos de Detroit, nem tanto à porcentagem de vitória de Obama, que será alta, mas ao número absoluto de eleitores que comparecerão às urnas. Em 2004, 864.728 eleitores votaram em Wayne County. Se Obama aumentar significativamente esse comparecimento, McCain não tem chance nenhuma no estado. Qual a estratégia dos republicanos no momento em Michigan? Tentar passar uma incrível lei – impensável no Brasil – que determina que se você perdeu sua casa, você não pode votar. A batalha em Michigan é em torno ao comparecimento às urnas. Presença massiva de eleitores é garantia da vitória de Obama.
PS: Vejam a sensacional estratégia da campanha de McCain: marcar o casamento da filha de Sarah Palin para antes da eleição. Um operador republicano afirmou: toda a televisão estaria lá, pararíamos a campanha por uma semana. Agora imaginem se Obama tivesse uma filha grávida aos 17 anos de idade. Estaríamos falando de crack, maconha e falta de responsabilidade familiar.
Escrito por Idelber às 19:29 | link para este post
| Comentários (25)
#1
Idelber, sua análise está tão boa que não dá pra não perguntar: quais os próximos estados e quando vc publica?
Clines em setembro 28, 2008 9:26 PM
#2
Clines, a idéia é fazer uma série com, sei lá, os oito ou nove swing states mais importantes. Esta semana publico mais uma. Gracias :-)
Idelber em setembro 28, 2008 9:39 PM
#3
Idelber, outro dia li uma entrevista do John Zogby onde ele disse que o estado que irá decidir a eleição será a Virgínia, onde Obama abriu 5 pontos de vantagem, segundo a pesquisa Rasmussen mais recente.
Mas, o Gallup já trouxe Obama 8 p.p. à frente de McCain em termos nacionais e para ele ter aumentado tanto a diferença é porque ele está crescendo em muitos estados.
Estados que eram considerados certos como tendo prováveis vitórias de McCain viram a diferença diminuir muito em relação à Obama.
O estouro da crise financeira e o debate de Sexta-Feira fizeram com que Obama passasse a liderar as pesquisas e a aumentar cada vez mais a sua vantagem sobre McCain. E como o 'efeito Palin' acabou há muito tempo, creio que as armas que McCain poderia usar contra Obama já foram utilizadas.
Tentar vender Obama como sendo um 'terrorista islâmico, um elitista que não entende o povo, um pedófilo ou estuprador', como tentou fazer a campanha de McCain, já não funcionou.
Que outras armas a campanha de McCain poderá vir a usar contra Obama, Idelber? Creio que eles já descarregaram a sua artilharia mais pesada, contra Obama, no começo da campanha e não deu certo.
Acho que o tempo está acabando para McCain...
http://www.rasmussenreports.com/public_content/politics/election_20082/2008_presidential_election/virginia/election_2008_virginia_presidential_election
Marcos em setembro 28, 2008 9:40 PM
#4
Legal ler suas análises de novo,Idelber, ainda mais da Florida, que aguça a curiosidade de todos depois das falcatruas de 2000. Aguardo as histórias sobre as eleições de 2004...
Se o estado do Michael Moore não ficar com o Obama, realmente fica difícil... A impressão daqui é que se Obama, futebolisticamente falando, "jogar sério", dá pra levar... Estamos fazendo figa!
Leo Vidigal em setembro 28, 2008 9:43 PM
#5
Marcos, é verdade que esta semana a coisa voltou a pender para o lado de Obama. Qual a próxima tática da campanha de McCain? Não tenho a menor idéia, mas tenho certeza que o arsenal não acabou. Na medida em que a eleição se aproxima, aguarde ataques mais pesados ainda. Não têm funcionado, mas só sei uma coisa: nos EUA, eu só comemoro vitória sobre os Republicanos depois da eleição homologada.
Um breve detalhe sobre a entrevista que você cita: este blog considera a Zogby a menos confiável de todas as pesquisas.
Leo, é isso. Perder em Michigan seria como estrear no Ruralito perdendo para o Ituiutaba em casa. Fica difícil recuperar...
Idelber em setembro 28, 2008 10:09 PM
#6
Idelber,
Uma duvida. Será que o baque da crise financeira sobre a poupanca de velhinhos nao pode ajudar o Obama a ganhar votos decisivos na Florida (falo isso sem embasamento nenhum, é apenas uma conjectura).
Att
Arthur em setembro 28, 2008 10:12 PM
#7
1-) Acho que a diferença com 2004 na Flórida é que não há um candidato republicano cubano ao Senado, não é? ;-) Mas acho que pelos números e pela demografia o estado não é tão preocupante para McCain.
Por outro lado, o Colorado, aonde os democratas tem uma *organização invejável* é outra história.
2-) Acho difícil McCain vencer em Michigan. Mesmo com ajuda da NRA e do fator Sarah Palin. Talvez a Pensilvânia fosse mais vulnerável, mas aí tem o fator Filadélfia, na prática uma cidade da Costo Nordeste.
3-) O que, claro, deixa a hipótese de um empate no Colégio Eleitoral bem provável(ISso ocorre se Obama vencer todos os estados de Kerry, menos New Hampshire, e mais Novo México, Iowa e Colorado).
O que não deixaria de ser divertido.
André Kenji em setembro 28, 2008 10:13 PM
#8
Acabo de ver no RealClearPolitics.com que Obama está na frente na Carolina do Norte, tradicional reduto republicano.
Professor, por que a disputa em New Hampshire é acirrada? Achei que o nordeste americano fosse solidamente democrata.
NSDD em setembro 28, 2008 10:22 PM
#9
Arthur, o seu raciocínio tem sentido. Os aposentados estão sofrendo um golpe duro com a crise. Ainda está por se ver se esse golpe se traduzirá em boa votação para Obama. Numa pesquisa recente da Research 2000, Obama perdia para McCain entre os eleitores de mais de 60 anos por uma diferença de 48 a 41. É um excelente número para Obama. Mas na Flórida há que se descontar a fraude.
André, agora entendi. Você está torcendo por um empate no Colégio Eleitoral para ver o circo pegar fogo!
NSDD, New Hampshire sempre foi uma anomalia no Nordeste americano. New Hampshire votou em Bush contra Kerry em 2000. Os dois senadores são republicanos. Eles são cheios de idiossincrasias: é o único estado sem leis que tornam obrigatório o uso do cinto de segurança, por exemplo. Têm uma tradição de republicanismo libertário, anti-governo. É swing state, sim, mas Obama tem boas chances.
Idelber em setembro 28, 2008 10:35 PM
#10
Idelber
Não é que eu esteja torcendo por um empate. É que analisando friamente é um dos cenários mais prováveis.
New Hampshire sempre foi o estado mais conservador da Nova Inglaterra, mas vários fatores(Incluindo aí a migração de gente de Massachusetts) mudaram a geopolítica do Estado. Aliás, até 1992 poucas vezes que um democrata havia levado o Estado.
Mas Kerry vinha de Massachusetts, estado vizinho que inclusive fornece parte dos sinais de TV ao Estado. Se Kerry venceu por pouquíssimos votos acho difícil Obama vencer lá. E McCain se aproxima mais do conservadorismo mais ambiental a la John Sununu pai que Bush.
André Kenji em setembro 28, 2008 11:37 PM
#11
E empate não seria ver o circo pegar fogo. Ver o circo pegar fogo seria um empate com McCain ganhando no voto popular e toda a pressão nos democratas de estados conservadores, com um ou outro estado em recontagem(Colorado, por exemplo).
André Kenji em setembro 28, 2008 11:46 PM
#12
"Na eleição de 2004, eu fiz boca-de-urna para Kerry por lá. Vi coisas que não havia visto nem na ditadura militar brasileira. Cobrem-me a história que um dia eu conto.". Q maldade, Idelber... só para dar vontade, é?
Ulisses Adirt em setembro 29, 2008 2:48 AM
#13
Mas pode cobrar que eu conto. É que a história é longa pra cacete :-)
Idelber em setembro 29, 2008 2:55 AM
#14
"The selection of Palin, 44, the moose-hunting governor of Alaska"
-
A mulher oficialmente virou uma caricatura.
Sblargh em setembro 29, 2008 4:12 AM
Idelber em setembro 29, 2008 5:13 AM
Anna C. em setembro 29, 2008 5:39 AM
#17
4. Learns to use computer. => hahahhhahahahahaha. tadinho. fiquei com dó dessa aí.
estou amando essa série dos swing states (3459)
mary w em setembro 29, 2008 8:59 AM
#18
E o "sells Alaska to Russia for $700 billion" também é muito bom!
Que legal que está gostando :-)
Anna, prometo contar, sim. É que é uma história longa pra caramba...
Idelber em setembro 29, 2008 9:25 AM
#19
Da FOLHA hoje...
Eleições nos EUA
Pastores norte-americanos pedem a seus
fiéis que não votem em Barack Obama
Em alguns casos, os pastores estimularam seus fiéis
a votarem no candidato republicano, John McCain.
ai ai ai... dureza!
Jasão em setembro 29, 2008 5:56 PM
#20
Ah, Jasão, isso aí é todo ano. Ganharam em 2004 nessa base, especialmente em Ohio, que foi o estado decisivo.
Idelber em setembro 29, 2008 6:00 PM
Eneraldo Carneiro em setembro 29, 2008 8:09 PM
#22
Verdade que o Maccain tem 13 carros e 5 casas??
Izabella em setembro 29, 2008 8:25 PM
Idelber em setembro 29, 2008 9:19 PM
#24
Já viu a "campanha" da Sarah Silverman, The Great Schlep? "It aims to have Jewish grandchildren visit their grandparents in Florida, educate them about Obama, and therefore swing the crucial Florida vote in his favor." Da uma olhada.
Ana Barroso em setembro 30, 2008 11:30 PM
#25
É bacana essa campaha, Ana. Vi, sim. Gracias :-)
Idelber em setembro 30, 2008 11:39 PM