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quarta-feira, 17 de setembro 2008

O massacre de Pando

Inacreditavelmente, a imprensa brasileira noticiou o massacre de Pando, na Bolívia, na semana passada, como um “confronto” entre partidários e opositores de Evo Morales. Assim, como se tivesse sido um enfrentamento.

Vínhamos como fazemos sempre, acompanhados de mulheres e crianças, mas desgraçadamente encontramos uma emboscada no povoado Porvenir, recordou Rodrigo Medina, Secretário da Federação de Camponeses Mãe de Deus de Pando. Todos os veículos do governo do estado foram usados na caça aos camponeses. Em cada um deles, mais de trinta capangas com rifles e metralhadoras, pagos para assassinar. Um dos grupos perseguiu os camponeses entre o riacho Porvenir e o rio Tahuamano. O outro caçou-os estrada afora. O terceiro já esperava para matá-los no próprio povoado. Os camponeses que correram para o rio foram abatidos pelas costas ou assassinados na própria água, morrendo como cães.

Eles iam para uma reunião de federações camponesas bolivianas.

O autor intelectual dos massacres é Leopoldo Fernández, senhor de controle quase feudal sobre a região há décadas, empregado das ditaduras de Luis García Mesa (1980-81), Celso Torrelio y Guido Vildoso (1981-1982) e Hugo Banzer-Jorge Quiroga (1997-2002).
(fonte).

Veja o testemunho de dois sobreviventes, enquanto os cadáveres dos camponeses eram recolhidos:

(via Cidadania)

Eis aí o que a Folha de São Paulo, ainda hoje, chama de “confrontos” entre partidários e opositores de Morales.



  Escrito por Idelber às 04:43 | link para este post | Comentários (31)


Comentários

#1

Caro Idelber

É importante saber disso.
O noticiário referente a América do Sul na Mídia brasileira precisa ser repensado. Já estamos atrasados neste ponto.

P.S. Por falar em coisas importantes, agora já sei que 56 (cincoenta e seis) agentes da ABIN auxiliaram o delegado Protógenes em suas recentes operações. É por ESTA RAZÃO que o meu livro "Ministério do Silêncio" está em uma posição mais baixa na estante. Pelo que eu estou percebendo E AO CONTRÁRIO DO QUE TODOS NÓS ESPERÁVAMOS, o livro permanece atual.

Paulo em setembro 17, 2008 8:09 AM


#2

Meu caro,

Um elemento interessante nessa discussão: Evo Morales é apresentado, na imprensa brasileira, como presidente "esquerdista" que enfrenta uma oposição de "direita". Por que essas mesmas designações NUNCA são usadas para falar da política brasileira? No Brasil, simplesmente, não existe político de direita na mídia...

Leandro em setembro 17, 2008 8:20 AM


#3

Boa!

Essa história da Bolívia está muito mal contada. Para o espectador, a impressão que a imprensa mostra é quase de uma espécie de Ossétia do Sul às avessas (quase com uma espécie de legitimidade da revolta no ar).

Catatau em setembro 17, 2008 9:02 AM


#4

A bem da verdade a Folha está com uma boa cobertura da situação boliviana, dentro do que pode ser uma cobertura de grande imprensa. Clovis Rossi falou até mesmo em tentativa de golpe, e comparou Evo a Allende - um exagero evidente. O noticiário, que chega a ser auto-elogioso, ressalta o papel de Lula na Unasul. Não só há vários repórteres por lá, destacando os bloqueios e o vandalismo das maltas autonomistas, como há um relato de Laura Capriglione sobre o massacre (edição de ontem, creio). Hoje, aliás, na matéria principal, lê-se:
"Pando, no norte boliviano, foi posto sob estado de sítio na sexta-feira, um dia depois do massacre de 15 camponeses partidários de Morales. O governo acusa Fernández de envolvimento no episódio." A seguir vem entrevista com o secretário da presidência em que o mesmo afirma haver ocorrido o massacre, sem que a Folha coloque em dúvida tal fato.
E na matéria sobre a Unasul, também se lê: "Os países-membros da Unasul investigarão o massacre em Pando, que levou à morte de pelo menos 15 pessoas."
A Folha, me parece, só usa a palavra "confronto" no que se refere efetivamente a cofrontos, e não ao ocorrido em Pando.

João Paulo Rodrigues em setembro 17, 2008 9:27 AM


#5

Por mais que um ou outro grande veículo de informação tente um pouco de imparcialidade, é vergonhosa a cobertura. Ninguém toca na verdadeira dimensão do ocorrido em Pando.Um massacre. Ontem, o JN deu destaque ao Fernandez, entrevistando-o pouco antes de sua prisão. Um despropósito. Espero que a UNASUL, conforme noticiado hoje, denuncie o tal governador aos tribunais internacionais. Quem sabe assim a mídia comece a tratar o assunto com um mínimo de atenção aos fatos.

Maria em setembro 17, 2008 9:42 AM


#6

eu ia falar sobre isso. sobre o clóvis rossi desde o começo estar falando sobre ser um golpe etc. E ontem o Marcos Nobre dizendo que nao deveria haver intervençao externa, que o morales mil vezes ja disse q nao quer ajuda etc. Mas tratando como se fosse uma questao de oposição mesmo. tem mais coisa na cobertura de ontem que me incomodou. Uma estudiosa da america da sul dizendo q violencia faz parte do processo de democratizaçao e tal. uma coisa assim. eu achei um olhar tao historiador. tipo historicamente é assim, fazer o q etc. me incomoda demais essa analise durante. mas demais mesmo. pq nem é sobre o processo, a analise. enfim.

ai. saiu uma entrevista com o lider da oposição (sic). ele é chamado de lider da oposiçao durante a entrevista, mas fica claro q é um bandido.

mary w em setembro 17, 2008 9:55 AM


#7

nossa. ficou super confuso o meu comment. o que eu quero dizer é q o clovis rossi trata como massacre e golpe.

mary w em setembro 17, 2008 9:58 AM


#8

A cobertura brasileira é fraca, distorcida e tendenciosa. Briga com os fatos para esconder a notícia. A Globo News repete à exaustão que o governo de Evo Morales impede a presença da imprensa e o envio de ajuda humanitária à região do massacre, palavra proibida na emissora, que ignorou também a reunião da Unasul. A imprensa, que não economiza adjetivos para desqualificar a Operação Satiagraha, alivia o noticiário sobre a tentativa de golpe na Bolívia.

No primeiro comentário deste post, o Paulo fala que 56 agentes da Abin auxiliaram o delegado Protógenes Queiroz. Trata-se de mais uma distorção dos jornais dentro da campanha para anular o inquérito. A informação é, inclusive, corroborada (ou comemorada) pela CPI dos Amigos do Dantas. O que o diretor da Abin disse é que a colaboração ocorreu em 56 ocasiões. O envolvimento de 56 pessoas da Abin é conclusão dos gênios da CPI, adequada à defesa e difundida pelos isentos repórteres. A atuação da CPI do Itagiba (pqp), que tem o petista Nelson Pellegrino como cúmplice, digo relator, só é tratada com seriedade nas páginas dos jornalões. No futuro, ela será estudada como fenômeno de aquisição de deputados no atacado.

Jeferson Melo em setembro 17, 2008 11:20 AM


#9

João, a Folha usou as palavras "confrontos" e "enfrentamentos" para se referir ao massacre de Pando no dia 13, dia 14, dia 15 e dia 16 (links para assinantes).

Idelber em setembro 17, 2008 11:53 AM


#10

Leandro, muito bem visto. "Direita", no Brasil, é uma espécie de substantivo sem referente. É como se ela não existisse no país.

Idelber em setembro 17, 2008 12:22 PM


#11

Mary, também acho que você foi na mosca. O discurso "histórico" às vezes pode ser a coisa mais mistificadora que existe. Todas as vezes que vejo a expressão "conflitos ancestrais" para falar dos Andes ou dos Balcãs, vejo a mesma operação de mistificação se desenhando. É uma forma de não ler o presente.

Idelber em setembro 17, 2008 12:24 PM


#12

É a velha história do manual não escrito de redação:

Confronto = Quando interessa a eles
Massacre = Quando nos interessa
Invasão = Quando interessa a eles
Ocupação = Quando nos interessa
Roubo = Quando interessa a eles
Realocação de recursos = Quando nos interessa

Além disso, esperam que o sujeito assine o Uol quando pode ter informação decente sem pagar um centavo. É o maior jornal do país, com tiragem de 100 mil exemplares, é a maior revista do país, com tiragem de 1 milhão... Alguém precisa avisar a esses caras que os leitores têm cérebro...

Corazza em setembro 17, 2008 1:51 PM


#13

Gostei da expressão!
Vamos guardar nos nossos registros.

Fenômeno de aquisição de deputados no atacado = Mensalão, práticada ocorrida em 2005. Não se descarta que possa ser posteriormente utilizado.

Paulo em setembro 17, 2008 1:57 PM


#14

Paulo, isso já foi feito. Durante o terceiro congresso nacional do PT, no ano passado, o tema foi tratado o tempo todo como "a crise de 2005". Tem coisas que só o eufemismo faz por você...

(em tempo, não sou tucano, demo, petista, psolista ou qualquer coisa que o valha. nem no anarquismo consegui me encaixar ainda)

Abraços

Corazza em setembro 17, 2008 2:27 PM


#15


Meu caro,

a imprensa agiu como sempre, mas os circuitos de difusão dos movimentos sociais funcionaram muito bem e as notícias sobre o massacre circularam em grande velocidade.

Foi importante a Cúpula da Unasul ter dado destaque ao massacre e criado comissão para investigá-lo. Foi belo momento em que a região atuou unida, em respaldo à democracia e ajudou bastante a conter o surto de violência na Meia Lua.

Abraços

Mauricio Santoro em setembro 17, 2008 2:35 PM


#16

Idelber,
Fiquei em dúvida.
"Direita", no Brasil, é uma espécie de substantivo sem referente. É como se ela não existisse no país.
E esquerda, existe?
Creio que o mais correto é nos definir como ambidestros.
A Esquerda no Brasil flexibiliza direitos de aposentados e é idolatrada pelo setor bancário. Enquanto a direita faz campanha contra a privatização.
Agora, veja você que a base de governo, seja ele qual for, é sempre a mesma. Assim, direita e esquerda no Brasil, não dá.
Tem governo e oposição. Acho que é isso.

abs.
Rodrigo-uberlândia

Rodrigo Eduardo em setembro 17, 2008 2:35 PM


#17

Todos aqueles que acompanham tudo isso.
Fora da mídia oficial.
Suspeitávamos duma emboscada.
Dos donos do poder.
Que covardes.
Terceirizam a matança!
Ainda bem que a UNACUL.
Deixou claro que os responsaveis.
Serão levados diante da justiça.
E a justiça.
Agora.
É de toda a América Latina.
Que reclama por seus mortos.
Somos todos Bolivianos!

sergio em setembro 17, 2008 2:35 PM


#18

Pô, já eu acho que está tendo uma cobertura razoável.
Pelo menos pelos feeds que eu assino (folha online, do Estadão e do diario do grande ABC), estou recebendo todo tipo de interpretação.
Desde que os opositores do Evo são golpistas fascistas anti-autonomia indigena até que o Evo Morales é um peão do Hugo Chavez jogando a democracia no lixo pelo projeto bolivariano.
Dito isso, estou recebendo tantas opiniões divergentes que eu nem me arrisco em usar a palavra "verdade".

Sblargh em setembro 17, 2008 2:57 PM


#19

Todos aqueles que acompanham tudo isso.
Fora da mídia oficial.
Suspeitávamos duma emboscada.
Dos donos do poder.
Que covardes!
Terceirizam a matança!
Ainda bem que a UNACUL.
Deixou claro que os responsaveis.
Serão levados diante da justiça.
E a justiça.
Agora.
É de toda a América Latina.
Que reclama por seus mortos.
Somos todos Bolivianos!

sergio em setembro 17, 2008 3:15 PM


#20

Sblargh, no evento em questão, há uma verdade estabelecida: o governador de Panda pagou capangas para assassinar camponeses a queima-roupa porque eles:

1) são camponeses
2) são indígenas
3) são "masistas" -- apóiam Morales.

Ou seja, massacre de motivação genocida.

Idelber em setembro 17, 2008 4:22 PM


#21

Mauricio, obrigado pela sua cobertura, que sempre faz a diferença.

Idelber em setembro 17, 2008 4:23 PM


#22

Em momento eleitoral, falar em mensalão não é nada oportuno. Aliás, o mensalão foi o primeiro refúgio que a mídia tentou dar a Daniel Dantas. Não foi uma boa idéia. O pequeno Malvadeza já disse que era imaturo naquela época, quando queria dar uma surra no presidente por causa do mensalão. O efeito desse assunto nas eleições de Belo Horizonte também é indesejado. No Rio, se perguntado, Eduardo Paes nega tudo o que disse.

O mais interessante nesse circo é ver as ilibadas figuras que denunciavam o mensalão, inflamados de indignação nas tribunas, hoje unidas àqueles que eram os acusados. Heráclito Fortes, Arthur Virgílio, José Dirceu, Pellegrino unidos na mesma causa. Adotaram Veja como Bíblia e cantam no mesmo coro. Marcos Valério era o operador. De onde saiu o dinheiro? O know-how que se vê hoje é uma excelente pista...

jeferson melo em setembro 17, 2008 4:35 PM


#23

Os links postados remetem a notícias com o seguinte conteúdo:
Dia 13:
A machete é "La Paz decreta estado de sítio em Pando, palco de massacre". A palavra enfrentamentos vem no corpo da notícia, que deixa claro que o repórter só teve acesso a informações parciais, não sabendo como se desenrolou.
Dia 14: nenhuma referência a "massacre", sendo matéria escrita de apuração por telefone e TV. É nítido que o repórter, já que ouviu os dois lados, escolheu enfrentamento por que cada lado lhe passou uma narração diferente. Ao menos é assim que ele narra.
E note-se que no mesmo dia o jornal noticia que os governadores oposicionistas chamaram o ocorrido em Pando de "genocídio" e pediram investigação independente internacional.
Dia 15: a matéria usa enfrentamentos e massacre. É escrita da redação. A matéria anterior fala em massacre.
Creio que nestes dias é nítido que o massacre em si é tratado como massacre. E que confronto ou enfrentamento é para se referir, enfim, ao confronto mais amplo entre governo provincial e grupos apoiadores e os evistas, que, obviamente, não se limita à emboscada em si.
Por fim, dia 16:
Manchete e chamadas: "Agentes de Pando atuaram em massacre - Vídeo mostra que funcionários do governo de oposição a Evo Morales atiraram em camponeses que fugiam por um rio - Polícia assistiu à cena sem intervir; marcas do embate que deixou pelo menos 15 mortos e 106 desaparecidos ainda são vistas em Porvenir".
Ou seja, apenas no dia 16 a Folha teve acesso ao vídeo, e não apenas à TV boliviana ou a entrevistas por telefone. É preciso destacar que a Folha noticiou a fuga de bolivianos de Pando para o Brasil.

Se aqui mesmo a notícia só teve dimensão agora, não me parece justo com a imprensa (quer dizer, pelo menos a Folha), num contexto tão conturbado, com dificuldades de locomoção, exigir de forma alarmada que em horas, ou mesmo uns poucos dias, uma precisão tão difícil de alcançar.

João Paulo Rodrigues em setembro 17, 2008 4:44 PM


#24

Dito tudo isso, acho que o tal governador vai ser julgado e que os demais vão fazer apenas uma defesa retórica dele. Preferirão se afastar do massacre. E acho que o sujeito será punido. Não parece que neste ponto, corretamente, o governo Morales vá recuar.

João Paulo Rodrigues em setembro 17, 2008 4:48 PM


#25

Estamos nos referindo a Fernández como o genocida de Pando. E torcemos, para que o governo boliviano não recue na punição exemplar dessa criatura.
Abraço!

Claudia Cardoso em setembro 17, 2008 6:39 PM


#26

Nassif revela o acordo entre o PIG e Lula, "o presidente que tem medo".

http://www.projetobr.com.br/web/blog?entryId=8997

Bino em setembro 17, 2008 6:55 PM


#27

Não era de se esperar outra coisa; o Brasil é um dos poucos países no mundo que pode se orgulhar em ter Forças Armadas e uma mídia que pensam e agem como partidos políticos. Ora, que coisa simpática, tanta gente para cuidar da política local e externa, pena que eles tenham de deixar um pouco de lado a sua real função, mas isso é um mero detalhe...

Hugo Albuquerque em setembro 17, 2008 8:16 PM


#28

Esperar o que da mídia...

Rogério Felício em setembro 17, 2008 8:44 PM


#29

Bom, falando em "imprensinha" ...

PRENSA NA IMPRENSA...

http://www.youtube.com/watch?v=-l9Vr71TH94

Vejam a "prensa" que o Rodrigo Amarante, guitarrista do Los Hermanos, da na "imprensa". Desconcertante pessoal. Olha o nível da nossa Imprensa. Vale a pena vcs assistirem ao constrangimento! O cara ironiza as perguntas do repórter desinformado.

alex em setembro 17, 2008 10:13 PM


#30

O PIG sempre enganou os analfabetos e o inocentes uteis. Coitado daqueles que se deformam com a midia brasileira, que é uma vergonha. Há muito não lei jornal e revista so leio a CARTA CAPITAL.

ana em setembro 18, 2008 10:14 AM


Rafael Martins em setembro 23, 2009 4:20 PM