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quinta-feira, 18 de setembro 2008
Sobre três relatos de Arguedas, Borges e Guimarães Rosa
O antropólogo índio peruano José María Arguedas, o refinado bilíngüe argentino Jorge Luis Borges e o erudito poliglota matuto João Guimarães Rosa são autores de três relatos que retrataram de forma curiosa a figura do homem , pensaram de forma insólita a masculinidade. Apesar de sempre tê-los lecionado, hoje pela primeira vez conduzo um seminário sobre os três textos em conjunto. O efeito é revelador.
Arguedas era falante nativo de quechua, bilíngüe em espanhol só depois de moleque no colégio. Formado em antropologia, pioneiro em pesquisas antropológicas sobre as culturas andinas do Peru, ele vive a estranha cisão de ser ao mesmo tempo sujeito e objeto do que estuda. Vivia com a imagem da mulher gigantesca, invariavelmente índia, e mais sensual quanto mais sobredimensionada na memória. A mulher em Arguedas é uma espécie de Tia Anastácia bugre, hiper-sexualizada, ante a qual o garoto, assombrado, sucumbe no teste de macheza. Mas Arguedas vive um drama que é todo particular seu, diferente de outros escritores homens que trabalham essa imagem da iniciação adolescente com a mulher enorme sobre-erotizada. Essa fêmea é, quase sempre, em Arguedas, estuprada. É vítima da violência patriacal branca que vê a mulher índia como objeto. Sobre duas formas distintas de se receber o legado desse pai violador, José María Arguedas escreveu o relato Warma Kuyay (Amor de Niño).
Algum tempo depois, João Guimarães Rosa, de quem Arguedas gostava muito – de meu “irmãozinho” tratou-o uma vez –, escreveu A terceira margem do rio, uma espécie de versão condensada do poder rosiano de assombrar. O efeito do conto depende desse estranho postulado, um ponto localizado entre as duas margens mas não “meio” do rio, e sim numa terceira, impossível margem. Também se trata aqui de uma mulher sobre-dimensionada -- Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente -- e de um homem que foge à função masculina, se recusa a abraçá-la. Ao invés de adotar o ponto de vista da lei e da decência, instala-se num outro lugar – mantendo-se, ao mesmo tempo, visível para o filho que narra e que, atônito, tenta transmitir e justificar a escolha do pai.
Jorge Luis Borges, que não conhecia nem Arguedas nem Rosa muito bem, escreveu La intrusa num dos momentos em que mais teve raiva de sua onipresente e super-protetora mãe. No dia 25 de setembro de 1965, enquanto recebia a Ordem do Sol da Embaixada Peruana, Borges tinha também a notícia de que Maria Esther Vásquez se casava com o poeta peruano Horacio Armani. Maria Esther foi um dos muitos amores de Borges bloqueados pela mãe. Ele, que quase nunca incluía mulheres em seus relatos, imagina essa figura da mulher extra, compartilhada por dois irmãos que depois passam pela humilhação de ser apaixonarem por ela e terem que resolver o dilema tragicamente. Enquanto que a crítica tem se focalizado na óbvia viadagem presente no conto, só hoje, lendo a magnífica biografia de Borges escrita por Edwin Williamson, prestei a devida atenção a um fato curioso: “La intrusa” foi ditada por Borges a (adivinhem?) Dona Leonor, a mãe que, mesmo sem gostar do texto, ante a dificuldade de Borges para encontrar o fechamento da tragédia de Juliana, recita para o filho, sem hesitação, as frases finais do conto: A trabajar, hermano. Después nos ayudarán los caranchos. Hoy la maté. Que se quede aquí con sus pilchas. Ya no hará mas perjuicios.
Um dos relatos mais violentamente misóginos da literatura teve seu fecho inventado por Dona Leonor Acevedo de Borges, essa mulher odiadora de mulheres.
PS: Imperdível: Borges na televisão espanhola (em 9 partes).
Escrito por Idelber às 05:04 | link para este post
| Comentários (18)
#1
Incrível! Vou lá ver o Borges.
Abraço e obrigado!
Milton Ribeiro em setembro 18, 2008 9:36 AM
Pedrin em setembro 18, 2008 10:38 AM
#3
O Arguedas eu não conheço, mas os outros dois contos estão entre meus favoritos. Imperdível esse seu seminário!
Ju Sampaio em setembro 18, 2008 11:09 AM
#4
Muito interessante a relação entre os três relatos. Só pra enriquecer a conta, vale lembrar também duas canções compostas inspiradas em Rosa e Borges.
A primeira é "A terceira margem do rio", letra de Caetano Veloso e música de Milton Nascimento. Me parece uma densa leitura interpretativo-poética do sentido desse silêncio puro do pai e da postura de contemplação do filho, em que a mãe, primeiro "regente", aos poucos se dissolve. A canção vê o rio (é uma das muitas imagens) como a imagem do grande pai, suspenso na terceira margem, mas ainda exercendo sua "ausente" autoridade sobre o filho. O rio é o "rio, pau enorme, nosso pai". No fim das contas, ao se afastar da mãe e passar a vida a esperar a "ordem" do pai, que nunca vem, também o filho se suspende no curso de sua vida, num lugar sem pai nem mãe, por assim dizer, numa total invirilidade.
A outra canção é "O sacrifício", de João Bosco com letra de seu filho Francisco Bosco. É praticamente uma transcrição do conto de Borges em canção.
Maurício Ayer em setembro 18, 2008 11:48 AM
#5
É fora do tópico, mas é notícia relevante. Ziza acaba de renunciar. Viva o Galo.
Lincoln em setembro 18, 2008 11:52 AM
#6
Me parece que os 3 autores constroem algumas figuras masculinas ambíguas, onde elementos do "feminino" estão presentes, não é?
Vc. deve conhecer o filme "Un Amor de Borges", do argentino Javier Torre. Embora seja sobre o caso de Borges e Estela Canto, o filme explora bem a relação do escritor com a mãe.
Janaína Amado em setembro 18, 2008 12:20 PM
#7
Maurício, muito bacana a lembrança da canção -- "A terceira margem do rio" é a segunda (e última, acho) parceria entre Milton Nascimento e Caetano Veloso. A primeira havia sido em "Paula e Bebeto".
Idelber em setembro 18, 2008 12:45 PM
#8
Sim, conheço, Janaína -- e como todos os relatos sobre Borges e outras mulheres, termina sendo sobre a mãe...
Ju, gracias, sumida!
Idelber em setembro 18, 2008 12:52 PM
#9
Vou correr lá no Borges.
Idelber, do Caetano e Milton tem também "As várias pontas de uma estrela" do disco Anima.
PS: Ziza Valadares jogou a toalha no Galo.
Abraço
Mariano em setembro 18, 2008 1:56 PM
Idelber em setembro 18, 2008 1:57 PM
#11
Interessante...pesquisarei sobre o tema...
Abraços!!!
Aline Christal em setembro 18, 2008 4:46 PM
#12
FROTA AMERICANA NA BACIA DE SANTOS. POR QUE?
LEIAM COM MUITA ATENÇÃO
O JORNAL ARGENTINO EL CLARÍN NOTICIOU HOJE QUE FROTAS DE NAVIOS AMERICANOS ESTÃO EM ÁGUAS BRASILEIRAS, MAIS ESPECIFICAMENTE NA BACIA DE SANTOS (JUSTAMENTE ONDE A PETROBRÁS DESCOBRIU O QUE POSSA SER A MAIOR JAZIDA DE PETRÓLEO DA HISTÓRIA).
O PRESIDENTE LULA JÁ PEDIU EXPLICAÇÕES AOS EUA, MAS ATÉ AGORA NÃO OBTEVE NENHUMA RESPOSTA.
O MAIS INCRÍVEL É QUE A IMPRENSA BRASILEIRA NÃO NOTICIA ABSOLUTAMENTE NADA SOBRE O ASSUNTO. ORA, LEMBRO VOCÊS QUE A IV FROTA AMERICANA - A QUE ESTÁ NA BACIA DE SANTOS- É A MESMA QUE BOMBARDEOU OS NAVIOS MERCANTES BRASILEIROS NO NORDESTE, NA DÉCADA DE 40, ACUSANDO A ALEMANHA PELO FEITO - A FIM DE QUE O PRESIDENTE GETÚLIO VARGAS ADERISSE À II GUERRA MUNDIAL. ELA TAMBÉM ESTEVE PRESENTE AQUI NA DE´CADA DE 60, QUANDO DO GOLPE DE 64, DANDO APOIO LOGÍSTICO E MILITAR AO MESMO.
PORTANTO, OLHOS ABERTOS…
INFORMEM A TODOS QUE PUDEREM, POIS PROVAVELMENTE ALGO MUITO SÉRIO ESTÁ POR ACONTECER E NÃO É JUSTO QUE O POVO BRASILEIRO FIQUE SEM SABER DISSO.
R.PINHEIRO - PRESS Brasil
gildagenni em setembro 18, 2008 8:02 PM
#13
Caro Idelber,
Estou com crise de abstinência de sua análise da corrida presidencial na América do Norte. Têm surgido informações no blog do Pedro Dória dando conta de mudanças significativas.
Um abraço.
João Paulo Rodrigues em setembro 18, 2008 10:44 PM
#14
misoginia não é viadagem não. os gays (ou "viados", como queira)geralmente adoram o universo feminino e destacam as qualidades matriarcal e antirepressora de que a imagem da mulher está freqüentemente imbuída - como imagem e simbologia, claro, posto que existem mulheres como a mãe de borges no caminho.
além do que, não vejo nenhum indício de homoerotimo no conto, o que me leva a crer que o termo "viadagem" aí aparece mais como pólo negativo ou aspecto lamentável "em si" a que se recorre sempre que se pretende colocar sob suspeita um "positivo" que seria o desejado ideal de masculinidade.
não obstante, esse ódio todo é coisa de macho mesmo, e a meu ver é a própria noção de masculinidade que carrega os elementos capazes de revelá-la tantas vezes ultrajante.
fátima em setembro 18, 2008 10:52 PM
Biajoni em setembro 18, 2008 11:14 PM
#16
Quando eu tinha 17 anos e cursava o Etapa Vestibulares, fui apresentado À Terceira Margem do Rio.O professor disse que quando a mãe do narrador mudou o tratamento ao pai de cê para ocê e depois você estava indo da intimidade para o distanciamento. Felizmente os examinadores da FUVEST não me questionaram sobre esse texto naquele ano e eu estou aqui para relembrar essa história. Depois, leitor voraz que sou, encarei outros textos de Guimarães Rosa. Mas como é difícil para um leitor comum! Esperava encontrar algumas pistas aqui no seu Blog, mas os comentários cessaram. Vou continuar lendo, ainda que não entenda.
Saudações Atleticanas,
Lincoln.
Lincoln em setembro 20, 2008 11:08 PM
#17
Idelber,
Eu já assisti um filme nacional, no tempo que a Rede Manchete passava filmes nacionais, com o mesmo roteiro de La Intrusa. Mas não conhecia o conto de Borges.
Lincoln.
PS: ainda não comecei a ler os livros indicados por você e que comprei na Argentina
Lincoln em setembro 21, 2008 12:18 AM
#18
Caro: recomprei O Aleph na versão Companhia das Letras e o livro veio sem o conto da Intrusa.
Qual o mistério?
Será que foi o fantasma da dona Leonor?
Toninho em outubro 21, 2008 10:56 PM
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