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Um blog sobre política, literatura, música e futebol. Na rede desde outubro de 2004



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sexta-feira, 31 de outubro 2008

A Onda Verde e a substituição da política pela moral

trevo.jpgFoi bonita, entusiasmada e criativa a campanha que se armou em torno de Fernando Gabeira para prefeito do Rio. Pelo papel que cumpriu a blogosfera e pelas novidades na sua composição, teria sido de se esperar um balanço mais detido da candidatura. Não aconteceu, talvez pelo excesso de proximidade emocional, talvez pela falta de instrumentos de quem poderia fazê-lo. Em todo caso, este blogueiro – que por falta de afinidade política nem passou perto de sentir que podia apoiar, mas que quiçá no fundo torcesse secretamente pela vitória de Gabeira – oferece aqui seus dois centavos de análise. A onda verde foi a mais recente articulação de um fenômeno (que pode ter encarnações “legais” e “bacanas”, como Gabeira) próprio da política brasileira dos últimos anos: a constituição de uma frente de classe média que quer reescrever a política com o vocabulário da moral.

Poucas vezes no Brasil se viu tanta insistência em reduzir a diferença política entre dois candidatos a uma diferença ética. A campanha de Gabeira praticamente não falou de outra coisa senão da superioridade moral de seu candidato. Assinalo isso não para negar que esta realmente exista – é evidente que é possível fazer contraposições éticas entre Gabeira e Paes --, mas para sublinhar que a campanha de Gabeira trabalhou o tempo todo com a convicção de que esta contraposição era suficiente, não só no terreno eleitoral mas também no político. Não percebeu quão extremamente classe média é esse valor, e na maioria das vezes se irritava ante a simples análise da longitude geográfica do seu candidato.

Esta desqualificação do outro lado não se limitava à figura de Paes, mas incluía também o seu eleitorado, frequentemente caracterizado como comprável e sujeito ao fisiologismo, por oposição à “metade” que supostamente seria “consciente” no Rio. Este estereótipo sofreu um duro golpe dos números no domingo, ao se revelarem em Copacabana taxas de abstenção que rondavam os 30%, em muito superiores às observadas na Zona Oeste. A “metade” “consciente” do eleitorado carioca brindou seu candidato com taxas recorde de abstenção, num fenômeno que este blog ainda gostaria de ver melhor analisado. Porque o número chave não é o “menos de um Maracanã lotado” que foi a diferença entre Paes e Gabeira. O número chave para a análise são os quase vinte Maracanãs que se abstiveram. Calculando-se proporcionalmente a abstenção no território verde (no eleitorado de Gabeira), seriam, na verdade, uns trinta Maracanãs.

Discordo de gente inteligente que minimizou ou racionalizou fenômenos como o encontrão de Gabeira com a vereadora Lucinha ou a desastrada declaração sobre a feijoada e o samba. Desculpe, mas se você não vê nesses episódios algo que revela uma visão de mundo, é melhor ajustar a lente. Gabeira não disse só “analfabeta política” para caracterizar uma pessoa, o que seria perfeitamente aceitável. Ele associou esse analfabetismo a uma visão “suburbana” da política. É verdade que o fez numa sucessão de orações subordinadas, mas o vínculo causal estava explícito: analfabeta porque suburbana, não adianta negar. Negá-lo é como negar má intenção no comercial de Marta contra Kassab – só é possível com viseira. Que o estopim tenha sido a proposta de um aterro sanitário em Paciência só acrescentava involuntária ironia ao fato.

Da mesma forma, a campanha de Gabeira não compreendeu bem o imenso faux-pas que foi a declaração de que certos sambistas iriam a um evento com Paes por causa da feijoada. Não se trata de discutir se Paes seria capaz de suborno ou se haverá gente que se submeta a isso. A resposta é afirmativa nos dois casos. No entanto, o X da questão não era esse, e sim o singelo fato de que não se insulta o samba e a feijoada assim. O objeto da injúria não era Paes, portanto não adianta retrucar com a cantilena da diferença moral entre os dois candidatos. Os objetos do insulto eram duas instituições supra-partidárias, simbólicas e, sim, sagradas para muita gente. Não se tratava ali de deslizes ou tropeços, mas de episódios reveladores -- que a coalizão verde, por ter refletido pouco sobre sua origem de classe, talvez tenha subestimado.

Os partidos políticos estão tão estraçalhados no Rio de Janeiro que foi possível que um candidato apresentasse como virtude ética o plano de costurar o segundo turno e depois governar sem conversar com os partidos (entendendo-se aqui suas lideranças, candidatos a prefeito no primeiro turno, vereadores eleitos etc.). A proposta não era inédita, mas a compreensão dela como superioridade moral o era. Gabeira se propôs a conversar “com o eleitorado” dos outros candidatos diretamente, sem mediação. A mensagem ética, calculou-se, era suficiente. No domingo, enorme fração do eleitorado respondeu ficando em casa. Ou indo à praia. Ou viajando para a região dos Lagos. Ou indo à feijoada e ao samba porque, como se sabe, na Zona Sul também se faz feijoada e samba, e dos bons.

O problema com a redução da política à moral é a impossibilidade de realizá-la. Você pode se perguntar pelas relações entre esses dois termos, mas não conseguirá reduzir um ao outro. Pela milésima vez: isso não significa que não haja diferença ética entre Gabeira e Paes. É claro que há. Significa que no momento em que você decide responder todas as perguntas políticas com uma afirmação ética, você dinamita a própria ética. “Ser mais ético” é uma locução defectiva como o verbo “inovar”. Se você inova, há que dizê-lo o outro. Quando você é o candidato “da ética”, não pode fazer desse plus a sua única fonte de diferença política, sob o risco de abandonar a própria ética. Afinal de contas, se há algo que caracteriza o sujeito ético é a permanente suspeita de que não está sendo ético o suficiente.

Como dizemos por aqui, you can't have it both ways: se toda a sua diferença política se ancora na diferença moral, você não pode se recusar a aplicar a si mesmo o teste ético pelo qual o outro candidato não passaria – mesmo que o outro seja o candidato das milícias, do establishment da corrupção e do oportunismo. Ao contrário da política, a ética não é uma prática de trocas negociadas.

PS: Para uma avaliação da importância e também do limite da Onda Verde, considere-se os números claramente: dos 4,5 milhões de eleitores, quase 1 milhão se absteve. Dos 3,5 milhões, mais 4,8% votou nulo e 2% em branco. Dos restantes 3,3 milhões, Gabeira obteve 49%. Trata-se, portanto, de 36,5% do eleitorado, um número estupendo, mas bem mais próximo de “um terço do Rio” que de “metade do Rio”. É um número que merece ser comparado ao “piso / teto” de Marta Suplicy em SP, não por equivalência entre as duas pessoas, mas para se entender a política de alianças possível no Brasil hoje.

PS 2: Merece um super parabéns a iniciativa do amigo Pedro Doria em favor de seu candidato. Foi mais uma bela contribuição do seu blog à política. Que o amigo tenha cometido -- sem maldade, claro -- a injustiça de me atribuir "ojeriza irracional" ao Gabeira (numa tarde em que eu aterrizava em Georgetown, a convite de Bryan McCann, para palestrar analítica e elogiosamente sobre Gabeira!) não mudou em nada minha admiração pela dedicação do Pedro à candidatura em que acreditou e que ajudou a construir.

PS 3: Este blog completou 4 anos no dia 28 e o blogueiro completa 40 hoje. Sobre os poderes cabalísticos do 4, claro, Jorge Luis Borges escreveu um belo relato.



  Escrito por Idelber às 16:15 | link para este post | Comentários (114)



domingo, 26 de outubro 2008

Comentários -- eleições

Este post será atualizado -- em intensidade bem menor que na eleição do primeiro turno -- com alguns comentários sobre a votação deste domingo. Confirmou-se em São Paulo a vitória de Kassab por larga margem, o que deixa um ponto de interrogação sobre o futuro de Marta Suplicy como candidata a cargos majoritários na cidade e no estado. No Rio, parece que a onda verde não foi suficiente para levar Gabeira à vitória. Com 93% das urnas apuradas, Paes tem uma pequena vantagem e deve levar.

O PT conquista pela primeira vez a prefeitura de Canoas, vence em Anápolis e amarga uma derrota que eu, pelo menos, não esperava -- em Juiz de Fora.

18: 55. O RS Urgente relata mais um abuso da Polícia Militar do Coronel Paulo Roberto Mendes, no Rio Grande do Sul: eleitores presos em Canoas e Porto Alegre por portar bandeiras.

18:58. Nenhuma surpresa em Contagem (MG), onde Marília Campos (PT) é reeleita. O poder econômico de Ademir Lucas (PSDB), que já teve seus bens temporariamente embargados pela justiça, não foi suficiente.

19:07. O número que mais me surpreende até agora é a abstenção na cidade do Rio de Janeiro. Numa eleição acirradíssima, 20% dos eleitores cariocas, ou quase 1 milhão de pessoas, não votaram.

19:11. Eduardo Paes é eleito prefeito do Rio de Janeiro. Se pelo menos 7% do enorme eleitorado que se absteve tivesse ido às urnas sufragar Gabeira, teria sido suficiente para a onda verde.

19:29. O poste está eleito em Belo Horizonte com 59% dos válidos. Dos males, o menor. Parte da midia tentará apresentar este resultado como uma vitória de Aécio. Esse efeito tem o reforço da eleição (relativamente surpreendente) do tucano Custódio Mattos em Juiz de Fora. Considerando-se as expectativas que tinham de levar no primeiro turno em Belo Horizonte, esse veredito de "vitória" de Aécio precisará ser ligeiramente massageado. Fernando Pimentel sai derrotado, sem dúvida: terá que encarar correligionários furiosos com ele.

19:47. Em Macapá Roberto Góes (PDT) derrota Camilo Capiberibe (PSB). Para coisas do Amapá, me valho sempre do que escreve a jornalista e blogueira Alcinéa Cavalcante.

20:04: Contagem, S.B.do Campo, Guarulhos, Mauá, Joinville, Canoas, Petrópolis e Anápolis elegeram prefeitos do PT no segundo turno. O PT sofreu viradas em Juiz de Fora e Santo André e perdeu em Salvador pela margem prevista pelas pesquisas, o que não deixa de ser digno de nota.

20:18. Pense o que você quiser pensar sobre as forças políticas paulistanas, petistas e tucanos concordarão que a campanha de Kassab foi superior à de Marta. Parabéns ao Jayme Serva.

20:33. No Rio de Janeiro e em São Paulo, independente de por quem você estivesse torcendo no segundo turno, é inegável que se produziu um fenômeno interessante no voto: a polarização de classe, fortemente marcada na tensão centro x periferia em SP e na cisão Zona Sul x Zonas Norte e Oeste no Rio. Há que se escrever com mais calma sobre estas duas eleições, mas continua me impressionando que, numa abstenção municipal de 19%, a de Copacabana tenha sido 28%.

20:45. Vitórias do PMDB: Rio de Janeiro (RJ), Salvador (BA); Porto Alegre (RS); Florianópolis (SC); Campos (RJ); Montes Claros (MG); Bauru (SP), Campina Grande (PB) (compilação do leitor Marcos D.). O PMDB é uma espécie de Partido Peronista (Justicialista) Brasileiro, com as ligeiras diferenças de que nunca foi líder de porra nenhuma, nunca conquistou direitos sociais ou trabalhistas reais para o povo, nunca foi majoritário nacionalmente no voto livre e, bem, nunca teve Perón e Eva. Apesar de tudo isso, nunca esteve realmente fora do poder. É a garganta elástica e a carcaça sem a qual fica difícil governar, em geral, no Brasil. Neste sentido, e só neste, o PMDB é um equivalente brasileiro do Partido Justicialista. Num Brasil que tivesse uma reforma política real e justa, o PMDB não precisaria existir.

21:00. Derrota de Gabeira provoca noite melancólica na internet.

21.11. Fábio Carvalho argumenta acertadamente no blog do Pedro Dória que atribuir a derrota de Gabeira à esquerda é muito míope. Houve figuras de esquerda que o apoiaram (Marina Silva), outras que se mantiveram neutras (Chico Alencar, Alessandro Molon) e outras que o antagonizaram (Jandira). Gabeira escolheu um leque de alianças e sabia o que fazia. Inimaginável seria que unisse a esquerda. Mais em breve, em outro post.



  Escrito por Idelber às 17:40 | link para este post | Comentários (155)



sábado, 25 de outubro 2008

Endosso ao poste

Conterrâneos relatam que Belo Horizonte encontra-se num marasmo só para a eleição de domingo, ao contrário do que tem sido a tradição recente. Aconteça o que acontecer, a aliança idealizada por Aécio e Pimentel, da qual se esperava vitória no primeiro turno, já foi derrotada -- pelo menos na forma em que tomou. A idéia, mascarada como “superação do Fla x Flu entre PT e PSDB”, acabou criando um Fla x Flu entre a política e a verdade, o que é pior, muito pior.

Márcio Lacerda se revelou um candidato com fortes traços autoritários, práticas nebulosas e pouquíssimo comprometimento com a bem sucedida experiência de 16 anos da esquerda no leme em BH. O retrocesso já aconteceu e foi sacramentado no momento em que a dissidência de esquerda, aglutinada em torno a Jô Moraes(PC do B), não conseguiu encaixar uma campanha propositiva, perdeu-se no ressentimento e acabou em terceiro lugar. No segundo turno contra Lacerda, um anacronismo monstruoso do século XII, Leonardo Quintão: uma legítima versão tupiniquim de Sarah Palin, membro de um clã obscurantista com histórias que envolvem fanatismo religioso, perseguição a vozes discordantes, trabalho escravo e nepotismo. Barra pesadíssima. *

Por isso, já tendo exercido o sagrado direito de criticar e zombar da negociata Pimentel-Aécio -- e depois de entrevistar gente, ler e assistir materiais eleitorais, informar-se mais sobre os Quintão e lembrar-se bem da devastação que foi a prefeitura do PMDB de Sergio Ferrara em BH --, o blog adere ao slogan Merda por merda vote no Lacerda e convida seu leitor belo-horizontino a não se manter neutro neste domingo, mesmo que esta seja a eleição mais melancólica da história recente da cidade.

Convido também o leitor a abrir uma cervejinha depois da votação e torcer por uma vitória de Lacerda por 50,1%. O tapa de luvas das urnas já terá sido dado. Ainda está por se ver qual será o grau de controle de Aécio sobre uma eventual prefeitura Lacerda, mas não será pequeno. Manter as conquistas dos últimos 16 anos será uma batalha morro acima. É impossível, no entanto, brincar com um retrocesso como o representado por Quintão. Vale a pena tapar o nariz e sufragar o poste.

Depois, já é outra etapa do jogo.

* Atualização: sobre trabalho escravo no Brasil e alhures, ver o indispensável Blog do Sakamoto.



  Escrito por Idelber às 04:37 | link para este post | Comentários (69)



terça-feira, 21 de outubro 2008

Estados decisivos. 6) Pensilvânia

É melhor seguir com a série dos estados decisivos antes que eles desapareçam. Continua firme o movimento que caracterizou a campanha de Obama este ano: avançar sobre território vermelho e levar a batalha para o terreno republicano. Obama vem, basicamente, transformando os swing states em estados azuis e convertendo em swing states vários estados até então vermelhos. Nos últimos dias, na verdade, as pesquisas nacionais mostraram ligeiro movimento na direção de McCain, que os especialistas ainda discutem se é ruído ou se é tendência real. Essa é a boa notícia para McCain. A má notícia é que o ligeiro movimento nas diárias nacionais não tem se traduzido nos estados decisivos, que são os que contam.

Ontem, numa reportagem que gerou grande polêmica, a CNN relatou que diretores da campanha de McCain haviam concedido Colorado e Novo México, dois estados que Bush venceu em 2004. Houve desmentido, mas a se confirmar essa concessão – e o fluxo de grana da campanha de McCain parece confirmá-lo --, já não bastaria para o republicano defender Ohio e Flórida. Ele teria que avançar sobre território azul. Aí entra a Pensilvânia. O quadro nacional segundo o Pollster anda assim:


mapa-us.jpg

Obama precisa de 270 votos no Colégio Eleitoral. Colorado e Novo México são esses dois quadrados em azul claro na região sudoeste do país. Confirmando-se a vitória democrata em todo o território azul claro e escuro, está ganha a eleição, mesmo que McCain leve todos os amarelos, que são os que o Pollster hoje considera indefinidos. Parece que a campanha de McCain decidiu que sua melhor chance é tentar arrancar a Pensilvânia da coluna azul.

A Pensilvânia, junto com Ohio e Flórida, é a mãe de todos os swing states. Ao contrário dos outros dois, a Pensilvânia permaneceu azul em 2000 e 2004, e de lá para cá aumentou significativamente a proporção de democratas para republicanos no estado. O problema para McCain é que a última pesquisa que o mostrou na frente de Obama na Pensilvânia foi conduzida em abril. Desde então, Obama vem tendo vantagens que oscilam entre 8 e 15 pontos. Como virar um jogo desses? Uma olhada na demografia do estado ajuda a entender. Eis o mapinha da vitória de John Kerry sobre Bush em 2004 (de novo com as cores trocadas):

img.jpeg

Bush venceu no estado inteiro, com a exceção das cidades de Filadélfia, Pittsburgh, Allentown, Erie, Scranton e Wilkes-Barre. A questão é que todos esses condados que votaram republicano têm densidade populacional bem baixa. No total, Kerry teve 2.938.095 votos e Bush teve 2.793.847. A pontinha sudeste em vermelho mais escuro é o condado mais populoso, o da Filadélfia, de alta concentração afro-americana. 674.000 eleitores votaram ali em 2004 e o resultado foi um massacre. Kerry teve 80,4% e Bush, 19,3%. Não se surpreenda se Obama ampliar essa vantagem.

O outro condado importante é Allegheny, onde fica Pittsburgh. É o território vermelho quase no extremo oeste do estado, separado da fronteira com Ohio por outros dois condados também coloridos em vermelho. Ali votaram 645.000 eleitores, mas a vitória de Kerry foi bem mais apertada: 57,1% a 42,1%. Pittsburgh, que já foi tema de post aqui no blog, é região siderúrgica devastada pela desindustrialização. A campanha de McCain conta com a resistência de parte desse eleitorado a votar em candidatos percebidos como “intelectuais”. Conta também com um racismo residual no centro do estado, que pode aumentar a boa margem que Bush teve sobre Kerry por lá.

Os únicos condados com alta densidade populacional vencidos por Bush em 2004 foram York e Lancaster, no sul do estado, onde votaram, respectivamente, 221.000 e 179.000 eleitores. Bush venceu em ambos com cerca de 64% dos votos. Todos os outros condados republicanos são grotões com 20, 30, 40 mil eleitores, no máximo. Na peleja deste ano, tenho evitado fazer qualquer previsão, mas vou fazer uma: sem melhorar os 42% de Bush em Allegheny County, McCain não tem nenhuma chance de vencer a Pensilvânia.

Considerando-se que há 1.2 milhão de democratas a mais que republicanos na Pensilvânia e que Obama vem tendo desempenho superior a Kerry nos estados decisivos, parece impossível a tarefa para McCain, especialmente se nos lembramos da situação desesperadora da economia, que atinge em cheio a população pobre, tanto do interior como das cidades da Pensilvânia.

Se a Pensilvânia foi mesmo a escolhida pela campanha de McCain para tentar virar o jogo, restam dois caminhos: mobilizar um time de advogados para suprimir tantos eleitores quanto seja possível, o que eles já vêm fazendo (via), e preparar uma ofensiva furiosamente racista para as duas últimas semanas, incluindo-se aí imagens do já quase esquecido ex-pastor de Obama, Jeremiah Wright. É a escolha que alguns acreditam que McCain vai fazer. Sem isso, não há tortura de números que resolva. Sim, talvez você volte a ouvir falar de Jeremiah Wright nestas duas últimas semanas.




PS: Já sabíamos que Obama liderava entre os latinos com boa vantagem, mas não se sabia da grande diferença entre católicos e cristãos não católicos. Entre os hispânicos católicos, que evidentemente são a maioria, Obama massacra por 65 a 26. Entre os hispânicos cristãos não católicos, a diferença é bem menor: 51 x 41. Lembram-se de todos os comentaristas da mídia que peroraram sobre o “problema” de Obama com os latinos na época das primárias?

PS 2: Vocês não imaginam a quantidade de bobagens ditas por aí que estou cuidadosamente guardando para o dia posterior à eleição. Querem um primeiro exemplo? No dia 04 de agosto, um respeitado blog democrata pró-Hillary, o Talk Left, afirmou que a única chance de Obama vencer na Flórida era com Hillary como candidata a Vice. Assim, na tora, eles disseram que nem vale a pena gastar recursos na Flórida se Hillary não for a Vice. Última pesquisa da Flórida? Obama-Biden 48,7%, McCain-Palin 45,8%. Não estou dizendo que a vitória está garantida no Sunshine State. Estou dizendo que muita gente falou bobagem antes da hora.



  Escrito por Idelber às 14:21 | link para este post | Comentários (46)



domingo, 19 de outubro 2008

TRE-RJ censura, mídia e blogs se calam

Há tempos eu digo que a judicialização do debate político é daninha e deve ser combatida. Os blogs já foram vítimas desse processo várias vezes no Brasil. Os Tribunais Eleitorais Regionais e o Superior vêm empilhando absurdo em cima de absurdo, com decisões judiciais estabelecendo até mesmo quando pode ser dito o quê numa página pessoal. Quem acompanha este blog há anos sabe das incontáveis ocasiões em que intervim contra esses abusos, na maioria das vezes, inclusive, em defesa de pessoas cujas opiniões políticas são radicalmente diferentes das minhas (caso Imprensa Marrom, caso Marco Nascimento, caso Alcinéa, caso Álvaro, caso Novo Jornal, caso em que defendi os apoiadores de Gabeira quando ELES foram censurados, caso das fotos dos espancadores de prostitutas).

Por isso acho cínico e intolerável que algum blogueiro passe a considerar natural que um partido político seja proibido de, caramba, imprimir um panfleto.

O Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro mandou apreender um panfleto produzido por PT, PSB, PDT e PC do B, que simplesmente trazia as fotos de Fernando Gabeira e César Maia e, no verso, as frases Diga não à continuidade do prefeito César Maia. Pense nisso! No panfleto não havia mais nada: nenhuma injúria, nenhuma calúnia, nenhum ataque à honra de ninguém. O volante vinha assinado pelos quatro partidos e continha CNPJ. Tudo dentro da lei. Considerando o fato de que o Partido Verde esteve com César Maia em 1996, 2000, 2004 e 2008, ele simplesmente apresentava uma versão sobre um fato político real e verdadeiro. Seja qual for sua opinião sobre essa versão, ela está a milhas de distância de qualquer coisa que deveria ser censurada numa sociedade democrática.

Se, em algum país da América do Norte ou da Europa, eu relatar que um panfleto como este

panfleto.jpg

foi apreendido pela Justiça em meio a uma campanha eleitoral, algum interlocutor mais desavisado pensará que o Brasil ainda vive sob ditadura militar. O conteúdo do panfleto é idêntico, ipsis litteris, às dezenas de comerciais que Barack Obama vem fazendo há meses contra John McCain: McCain representa mais quatro anos de Bush. Ele nada tem a ver com os comerciais de McCain que insinuam que Obama tem ligações com terroristas, calúnia cujo equivalente carioca seria imprimir um panfleto chamando Gabeira de, por exemplo, seqüestrador e maconheiro. A simples idéia de que um panfleto que contém a afirmação Diga não à continuidade do prefeito Cesar Maia possa ser censurada seria incompreensível em outro país.

Mas, no Brasil, como o autor do panfleto é o PT, não se ouviu um pio dos que falam de “estado policial”. Não se viu um único protesto nos jornais paladinos da “liberdade de expressão”. O juiz Fábio Uchôa, responsável pela pérola, explicou que o panfleto é irregular porque não apresenta o nome de Eduardo Paes como beneficiado pela crítica a Gabeira. É uma piada. O juiz quer legislar como o panfleto deve ser escrito.

Na horda fanaticamente anti-petista que freqüenta o blog do Noblat, a apreensão dos panfletos foi suficiente para que uma pilha de comentários escritos em algo que vagamente se assemelha à língua portuguesa pedisse a prisão dos responsáveis! Que se prenda aquele que ousa insinuar que Gabeira representa uma continuidade de César Maia! Um único leitor, Alexandre Porto, deu um baile de argumentos na turba inteira.

Evidentemente, não se ouvirá um único protesto dos colunistas do Globo, da Veja e da Folha, sempre tão solícitos nas insinuações de que o governo Lula cerceia a “liberdade de imprensa”. Espero, sinceramente, ler um pouco mais de repercussão nos blogs, que devem examinar com carinho a hipótese de que é hipócrita protestar contra a censura somente quando o censurado compartilha nossas opiniões.

PS: O ombudsman da Folha faz o balanço do é casado? Tem filhos? do comercial de Marta contra Kassab. A Folha dedicou a essas duas frases exatamente quatro chamadas de capa, 11 abres de página, 24 matérias, oito colunas, seis notas e 1.172 centímetros de texto.

* Crédito da foto: Marcos Tristão.



  Escrito por Idelber às 04:36 | link para este post | Comentários (107)



sábado, 18 de outubro 2008

Dois links

O pai de todos os jornais conservadores, o Washington Post, endossa Barack Obama num magnífico e revelador editorial. Trata-se daquele tradicional gesto de transparência que a mídia brasileira -- com a exceção da Carta Capital -- continua recusando-se a fazer, o de declarar suas preferências numa eleição. Enquanto mantêm suas escolhas supostamente encobertas, Folhas e Globos escondem cenas como esta:

que certamente estariam sendo exibidas dezenas de vezes por dia na TV e priorizadas nas primeiras páginas dos jornais caso o governador do estado de São Paulo se chamasse Marta Suplicy ou Aloizio Mercadante.

Dois pesos, duas medidas, sempre. O que falta à mídia brasileira é, sobretudo, transparência. Na contra-corrente da dissimulação, os blogueiros tendem a declarar suas escolhas abertamente. Este blog é, com muito orgulho, membro do coletivo Blogueiros com Marta Suplicy. Se você apóia Marta, pegue lá seu selinho e deixe a autorização para a inclusão do seu blog.

PS: O RS Urgente vem documentando a terrorífica atuação de outra polícia militar, a do Rio Grande do Sul.



  Escrito por Idelber às 06:24 | link para este post | Comentários (96)



sexta-feira, 17 de outubro 2008

Dois mineirim

-- Só precisamos encontrar um candidato maleável, sabe como é?

-- Eu já tenho. Vai ser o Márcio mesmo.

-- Será que cola? Ninguém conhece. Além de tudo tem a fortuna dele, a história do valerioduto, aquela falcatrua na CEMIG....

-- Deixa de ser bobo, Fernando. Como está a aprovação da prefeitura?

-- Por volta de 82%.

-- Mais a máquina do estado. A imprensa já está orientada. O Estado de Minas, como sempre, fiel. O MG TV já está martelando a idéia da unidade para o bem de Minas. Transcender as divisões artificiais que nos separam, aquela coisa toda. Vai ser no primeiro turno.

-- Tem legenda?

-- Claro, o PSB daqui está no bolso.

-- Se vamos de PSB, não é melhor a Ana Lúcia, que tem história, é conhecida na cidade?

-- Vetada. Não é maleável. Tem mania de ser independente demais. Não dá para confiar. E os radicais do PT?

-- Fica tranqüilo. Esses a gente esmaga na convenção. Só no Santa Inês ontem nós filiamos mais 300. Com as Kombis, os sanduíches, coisa e tal.

-- E o Patrus e o Dulci?

-- Estão lá com o Lula. Não vão arriscar o desgaste.

-- Se o Patrus baixa aqui em BH, ele ganha eleição direta até para presidente do Cruzeiro.

-- O Patrus é atleticano.

-- Pois é.

-- Não se preocupe. A gente solta a notícia quando já for fato consumado.

-- E se os radicais lançam um Rogério Correia da vida com o PC do B?

-- Não têm fôlego, não têm grana. Não dão nem para a saída.

-- Então está limpo o terreno.

-- Limpíssimo.

-- É, meu caro, você pode ir pensando no seu vice para o Palácio da Liberdade em 2010.

-- Tenho a sua palavra, então.

-- Claro. E para a minha jornada ao Planalto já está tudo acertado com o PMDB se o Vampiro encrespar lá em São Paulo.

-- Conte comigo. E como começamos a campanha?

-- Um ato conjunto pela unidade do estado. Minas volta ao protagonismo na cena nacional. Retoma sua tradição de reconciliação e negociação.

-- Seu avô se orgulharia de você, amigo. E depois?

-- Já está marcada a caminhada de sábado com o Márcio no Mercado Central.

-- Nos encontramos lá então?

-- Sim, mas tem que mandar o motorista buscar o Márcio.

-- Por quê?

-- Ele não sabe chegar no Mercado Central.

-- Qual o seu cálculo de resultado?

-- Venceremos no primeiro turno com 65%. É só esperar abrir as urnas.



  Escrito por Idelber às 05:50 | link para este post | Comentários (68)



quarta-feira, 15 de outubro 2008

Para discussão do debate Obama-McCain

Hoje, às 22 horas de Brasília, Barack Obama e John McCain se enfrentam no último debate para a presidência dos States. Lá no Pedro, com certeza, haverá blogagem ao vivo. Não haverá exatamente cobertura por aqui, porque ando corrigindo trabalhos e preparando aulas. Mas entre um A- e outro B+, vou dar uma espiada no debate e é possível que atualize este post com algumas observações. A expectativa é saber se McCain vai dizer cara-a-cara com Obama o que andou dizendo nos comícios.

De qualquer forma, mesmo que as minhas atualizações sejam parcas, fica aí a caixa para quem quiser ir comentando o debate. São 40 minutos do segundo tempo para a campanha de McCain.

22:43: Essa mídia esquerdista americana é fogo! Acabaram de tirar a câmera do rosto de Obama, que não conseguia controlar a risada enquanto McCain falava.

22: 56: Até agora, o moderador deixou que McCain tivesse a última resposta em todas as rodadas de perguntas.

Balanço: Não há muito a acrescentar ao que já disse o Pedro sobre essa quarta vitória consecutiva da chapa democrata nos debates. Quando o resultado é 60 x 30 entre os eleitores independentes, não há muito mais o que discutir. Na realidade, foi o melhor desempenho de McCain até agora, mas quando 1) os fatos não estão do seu lado, 2) você tem um péssimo temperamento, que se traduz em muxoxos, caretas, expressões de raiva etc. e 3) enfrenta um adversário que é mais hábil retoricamente, a coisa fica muito difícil.

Para piorar, McCain teve um deslize fatal: fez pouco caso da cláusula "salvo em caso de risco à saúde da mãe", para os abortos de terceiro trimestre. Para o eleitorado feminino de meia-idade que ainda está indeciso, lá nos confins da Pensilvânia, foi o tiro de morte. O outro dado interessante é que pela primeira vez apareceu a América Latina. McCain falou de sua oposição às tarifas sobre o etanol brasileiro, o que lhe teria rendido votos no Brasil, com certeza. Defendeu também o tratado de livre comércio com a Colômbia, que Obama quer reformular, sob o argumento -- verdadeiro -- de que líderes trabalhistas são constantemente assassinados na Colômbia. Os números da vitória de Obama segundo o Media Curves estão aqui. Algumas fotos interessantes de McCain podem ser vistas aqui.



  Escrito por Idelber às 20:37 | link para este post | Comentários (25)




Homofobia e falsa indignação

Nos EUA, costuma-se distinguir entre racismo e o que chamamos race-baiting, que é usar o racismo alheio para benefício próprio, geralmente político-eleitoral. Ninguém em sã consciência diria que Bill Clinton é racista, mas parece-me inegável que ele tentou se aproveitar do racismo sulista contra Barack Obama nas primárias democratas da Carolina do Sul. Há que se conhecer o contexto americano para saber tudo o que se escondia na aparentemente inocente frase ah, não se preocupe, Jesse Jackson também ganhou as primárias da Carolina do Sul em 1984 e 1988.

A campanha de Marta Suplicy errou, e errou feio, ao introduzir as perguntas é casado? tem filhos? no final de um comercial em que fazia uma série de indagações legítimas sobre o passado político de Gilberto Kassab. Se existe algum falante de português deste lado do Atlântico que ainda não viu o anúncio, ele está aqui. Não me parece honesto negar que essas perguntas tentavam jogar com a homofobia alheia. Não me parece honesto dizer que “são perguntas como quaisquer outras”. Não me parece respeitoso com a inteligência alheia tergiversar, como o fez Jilmar Tatto (PT-SP), dizendo que “quando vou à periferia, me perguntam se sou casado, essas coisas”. A pergunta claramente tentava induzir uma reação homofóbica. A resposta do grupo LGBT de apoio à Marta, criticando o comercial, foi na veia. Acho que Marta errou uma segunda vez ao não assumir a responsabilidade pelo anúncio, colocando-o nas costas do marqueteiro. Um anúncio veiculado por uma campanha é de responsabilidade do candidato. Se viu ou não viu, se aprovou ou não aprovou, importa pouco. Ela é responsável pelo que sua campanha veicula. Reitero: condeno o comercial e condeno o fato de que Marta lavou as mãos.

Mas é no mínimo curioso ver os dois pesos e duas medidas da mídia brasileira. A Folha de São Paulo dedicou praticamente metade de seu caderno Brasil desta terça a essas duas frases no comercial de Marta. Vejamos qual é o histórico da Folha de São Paulo no respeito à vida pessoal da própria Marta Suplicy. Infelizmente, os links são restritos a assinantes.

No dia 28/10/2002, a Folha publicou coluna de Danuza Leão que dizia: Os estrangeiros usavam camisa esporte, e o único de terno e gravata era Luis Favre, com seu olhar de mormaço. No dia 18/05/2002, o Painel se preocupou em dizer: Depois de cada ato ou inauguração, a prefeita de SP, Marta Suplicy (PT), invariavelmente telefona para Luis Favre. Para relatar como foi o evento. Como se isso fosse notícia relevante. Ou como se tivesse sido notícia no caso de um político homem. O jornal não demonstrou nem meia linha de indignação no dia 10/08/2002, quando Garotinho disse: prefiro falar sobre o assunto com o franco-argentino que é de fato prefeito de São Paulo. Tampouco apareceu indignação alguma no dia 29/10/2001, quando Paulo Maluf se referiu a Favre como “gigolô”. Pelo contrário, o jornal designou a reação dos petistas contra a injúria como “discurso ensaiado”. No dia 15/02/2002, a Folha publicou coluna de Bárbara Gancia que concluía com a monstruosidade: Sabe por que ele é franco-argentino e não vice-versa? Porque não existe argentino-franco.

Não, leitores, essa baixaria xenófoba não saiu na Veja nem na Capricho. Saiu na Folha. O mais respeitado jornal brasileiro.

No dia 21/04/2001, a Folha reproduziu um texto de Cláudio Humberto – sim, aquele mesmo – que continha tantos insultos contra Marta Suplicy e Luis Favre que o Biscoito, simplesmente, se recusa a linkar. Era um anúncio pago de pura difamação, publicado pelo maior jornal brasileiro. Procurem no google. O fato é que o próprio ombudsman sugeriu um “erramos”, que jamais foi feito.

Eu poderia continuar até amanhã de manhã, linkando matérias em que a vida de Marta foi enxovalhada e ridicularizada, numa mescla perversa de sexismo e xenofobia. Que ela seja criticada pelas duas frases sobre Kassab que jogavam com a homofobia alheia. Mas quando será que os mesmos arautos da falsa indignação reconhecerão o seu telhado de vidro? Será que o jornal O Globo tem autoridade para criticar Marta por envolvimento na vida privada do adversário quando esse mesmo jornal, no dia 14/12/1989, publicou esse editorial sobre a infinitamente mais desprezível tática de Collor contra Lula no caso Miriam Cordeiro? No blog do aprendiz de pitbull da Veja, é hora de indignação contra o comercial de Marta. Talvez o blogueiro da Veja tenha se esquecido de que seu histórico de referências a gays e lésbicas é uma coleção de monstruosidades.

Comentando a repercussão do comercial em seu blog sob o título “O milagre de Dona Marta”, Noblat afirma que nunca antes na história deste país os mais destacados blogueiros haviam falado a mesma língua, defendido o mesmo ponto de vista. A lista de links fornecidos por Noblat é, salvo um, de funcionários da grande mídia. Com a exceção de Pedro Dória, não reconheço nenhum deles como “destacado blogueiro”. Suponho, caro Noblat, que há diferentes listas de “destacados blogueiros”. A minha inclui Alexandre Inagaki, Marco Aurélio Weissheimer, Fal Azevedo, Mary W. Certamente não inclui Daniel Piza ou Rosane de Oliveira. Na minha lista de “blogueiros destacados” não houve unanimidade nenhuma. O post mais inteligente, de longe, foi o da Mary W. Outra coisa que talvez valesse a pena dizer a Noblat é que o epíteto “Dona Marta” é insuportavelmente sexista.

Suponho que é consenso entre os leitores do Biscoito que a vida privada de cada um é problema de cada um. Suponho que também seja consensual que, para gays e lésbicas, sair ou não sair do armário é decisão de foro íntimo, que inclui consideração de tantos fatores que a última palavra é sempre decisão pessoal e intransferível. Mas quando há suspeitas de que um prefeito cria uma secretaria de desburocratização para abrigar seu suposto companheiro, a pergunta sobre o nepotismo e a transparência é, sim, de interesse público. A campanha de Marta não soube levantá-la. Espero que a indignação moral contra Marta leve a nossa mídia a um pouco de reflexão sobre o seu próprio telhado de vidro.



  Escrito por Idelber às 03:43 | link para este post | Comentários (193)



terça-feira, 14 de outubro 2008

Jabá

lei-exp.jpgAcaba de sair aí no Brasil mais um volume com um artigo meu. Aproveito para fazer a divulgação do livro e convidar os leitores interessados em crítica literária e estudos culturais a que o adquiram. Ele é intitulado Leitura e experiência: teoría, crítica, relato. Os organizadores são Evando Nascimento e Maria Clara Castellões de Oliveira, da Universidade Federal de Juiz de Fora, que edita o livro em parceria com a Annablume. São 16 ensaios sobre temas que vão de Machado de Assis a Woody Allen, com pesquisadores da UFJF, PUC-RJ, UFC, UERJ, UFBA, UFSC, PUC-GO, UFSM e UFES. Contribuo com um texto sobre a experiência do chamado "multiculturalismo" nos Estados Unidos, do qual reproduzo abaixo os cinco primeiros parágrafos. A íntegra, só no livro mesmo. Por coincidência, a Folha de São Paulo publicou hoje uma monstruosidade (para assinantes) sobre o mesmo assunto.


O Multiculturalismo nos Estados Unidos: História e Crítica

O termo multiculturalismo está associado a uma série de lutas simbólicas cujo principal terreno foram os meios acadêmicos norte-americanos nas últimas décadas. Tributárias dos movimentos de direitos civis dos negros e chicanos e das reivindicações feministas dos anos 1960 e 1970, essas lutas só adquirem essa rubrica específica ao se converterem numa prática acadêmica que passa a guiar não só boa parte da pesquisa produzida nas ciências humanas, como também a própria administração do aparato universitário. As lutas multiculturais conseguem alterações significativas na representação das minorias, mas são, por outro lado, incorporadas e neutralizadas por uma série de práticas de administração da diversidade, que passam a fazer parte do próprio poder econômico, estatal e militar do país. Refletir sobre o multiculturalismo é, então, refletir sobre uma experiência contraditória: democratizadora, mas sujeita a severos limites e demonstravelmente passível de absorção pelas formas mais reacionárias de poder, incluindo-se aí o bushismo, cujo gabinete “multicultural” leva a cabo a política externa mais sanguinária da história do país. O legado do multiculturalismo é, portanto, um debate sobre os limites e as realizações efetivas de uma política de reparação simbólica. A discussão não é simples.

Não há “um” multiculturalismo, e não se trata de uma “teoria” ou “ideologia”. Pensemos, para início da reflexão, no multiculturalismo como uma rubrica sob a qual se reúnem uma série de práticas, projetos e intervenções intelectuais, muitas vezes contraditórios entre si. Várias práticas de administração da diversidade étnica têm sido adotadas com inspiração nos movimentos multiculturais dos 80 e 90, e o termo está incorporado à língua inglesa em definitivo. Como sempre acontece no campo das conquistas simbólicas, boa parte da polêmica sobre o legado do multiculturalismo se resume a avaliar quais terão sido os efeitos “reais”, as conseqüências “sociais” ou “políticas” desses embates simbólicos. No caso específico desse fenômeno, há alguns efeitos bastante reais que se desentranhar, embora seja possível dizer que o auge do multiculturalismo termina com os ataques de 11 de setembro de 2001 e com a manipulação deles depois feita pelo governo Bush, ou seja, a instalação da guerra sem fim. Isso não quer dizer, claro, que políticas e trabalhos acadêmicos inspirados pelo ideal multicultural não continuem a ser produzidos, mas hoje, sem dúvida, eles deixaram de ser a forma dominante de se lidar com a diferença nos EUA.

Há vários momentos da história da luta pelos direitos civis nos EUA dos anos 60 que poderiam ser tomados como fundacionais para a história dessa tecnologia social da inclusão que é o multiculturalismo: as passeatas lideradas por Martin Luther King, a recusa de Rosa Parks em ceder seu lugar no ônibus, a pregação incendiária de Malcolm X pelo país, o encontro entre a luta afro-americana e a militância revolucionária de esquerda dos Black Panthers. As primeiras leis anti-segregação, impostas policialmente no sul dos EUA, poderiam ser consideradas as precursoras das políticas de reparação que depois estariam no centro do multiculturalismo. O movimento negro americano realiza essa ampliação fundamental da noção de direito ao argumentar que há uma esfera que é propriamente do direito civil, do direito à cidadania, mais além ou mais aquém do conceito de direitos humanos que, naquele momento, já completava cerca vinte anos de codificação relativamente universal e sancionada na Carta das Nações Unidas.

Quando se insiste sobre a noção de direito civil, fala-se de direito ao mesmo tempo num sentido mais restrito e mais amplo. Como sempre ocorre no momento em que um grupo oprimido qualifica, adjetiva um universal – neste caso, o direito –, o resultado é uma redefinição daquele conceito que tendencialmente o universaliza mais, ao apontar a limitada universalidade que ele possuía antes. Note-se que o grupo oprimido, subalterno, não entra na luta recusando o universal enquanto tal. Pelo contrário, ele diz: esse universal tem sido até agora falso, ele não se realizou ainda na sua plenitude, ele não nos inclui – a nós, como negros. O conceito de direitos civis, tal como usado modernamente, se cristaliza no momento em que a população à qual se havia negado o direito de cidadania se insurge para reclamar uma verdadeira universalização desse direito. A operação é desconstrutiva no sentido estrito da palavra. Ela toma um universal – o direito à cidadania – e demonstra como a sua constituição repousa sobre a delimitação de um lá-fora constitutivo e necessariamente excluído: o não-cidadão (negros, mulheres, índios, imigrantes, crianças, escravos). Esse lá-fora confere ao universal sua condição de possibilidade e demarca seu limite. Nesse primeiro momento, a operação desconstrutiva desvela o fato de que não há oposição binária que não seja, ao mesmo tempo, uma hierarquia. É o movimento negro norte-americano que rea