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sexta-feira, 31 de outubro 2008

A Onda Verde e a substituição da política pela moral

trevo.jpgFoi bonita, entusiasmada e criativa a campanha que se armou em torno de Fernando Gabeira para prefeito do Rio. Pelo papel que cumpriu a blogosfera e pelas novidades na sua composição, teria sido de se esperar um balanço mais detido da candidatura. Não aconteceu, talvez pelo excesso de proximidade emocional, talvez pela falta de instrumentos de quem poderia fazê-lo. Em todo caso, este blogueiro – que por falta de afinidade política nem passou perto de sentir que podia apoiar, mas que quiçá no fundo torcesse secretamente pela vitória de Gabeira – oferece aqui seus dois centavos de análise. A onda verde foi a mais recente articulação de um fenômeno (que pode ter encarnações “legais” e “bacanas”, como Gabeira) próprio da política brasileira dos últimos anos: a constituição de uma frente de classe média que quer reescrever a política com o vocabulário da moral.

Poucas vezes no Brasil se viu tanta insistência em reduzir a diferença política entre dois candidatos a uma diferença ética. A campanha de Gabeira praticamente não falou de outra coisa senão da superioridade moral de seu candidato. Assinalo isso não para negar que esta realmente exista – é evidente que é possível fazer contraposições éticas entre Gabeira e Paes --, mas para sublinhar que a campanha de Gabeira trabalhou o tempo todo com a convicção de que esta contraposição era suficiente, não só no terreno eleitoral mas também no político. Não percebeu quão extremamente classe média é esse valor, e na maioria das vezes se irritava ante a simples análise da longitude geográfica do seu candidato.

Esta desqualificação do outro lado não se limitava à figura de Paes, mas incluía também o seu eleitorado, frequentemente caracterizado como comprável e sujeito ao fisiologismo, por oposição à “metade” que supostamente seria “consciente” no Rio. Este estereótipo sofreu um duro golpe dos números no domingo, ao se revelarem em Copacabana taxas de abstenção que rondavam os 30%, em muito superiores às observadas na Zona Oeste. A “metade” “consciente” do eleitorado carioca brindou seu candidato com taxas recorde de abstenção, num fenômeno que este blog ainda gostaria de ver melhor analisado. Porque o número chave não é o “menos de um Maracanã lotado” que foi a diferença entre Paes e Gabeira. O número chave para a análise são os quase vinte Maracanãs que se abstiveram. Calculando-se proporcionalmente a abstenção no território verde (no eleitorado de Gabeira), seriam, na verdade, uns trinta Maracanãs.

Discordo de gente inteligente que minimizou ou racionalizou fenômenos como o encontrão de Gabeira com a vereadora Lucinha ou a desastrada declaração sobre a feijoada e o samba. Desculpe, mas se você não vê nesses episódios algo que revela uma visão de mundo, é melhor ajustar a lente. Gabeira não disse só “analfabeta política” para caracterizar uma pessoa, o que seria perfeitamente aceitável. Ele associou esse analfabetismo a uma visão “suburbana” da política. É verdade que o fez numa sucessão de orações subordinadas, mas o vínculo causal estava explícito: analfabeta porque suburbana, não adianta negar. Negá-lo é como negar má intenção no comercial de Marta contra Kassab – só é possível com viseira. Que o estopim tenha sido a proposta de um aterro sanitário em Paciência só acrescentava involuntária ironia ao fato.

Da mesma forma, a campanha de Gabeira não compreendeu bem o imenso faux-pas que foi a declaração de que certos sambistas iriam a um evento com Paes por causa da feijoada. Não se trata de discutir se Paes seria capaz de suborno ou se haverá gente que se submeta a isso. A resposta é afirmativa nos dois casos. No entanto, o X da questão não era esse, e sim o singelo fato de que não se insulta o samba e a feijoada assim. O objeto da injúria não era Paes, portanto não adianta retrucar com a cantilena da diferença moral entre os dois candidatos. Os objetos do insulto eram duas instituições supra-partidárias, simbólicas e, sim, sagradas para muita gente. Não se tratava ali de deslizes ou tropeços, mas de episódios reveladores -- que a coalizão verde, por ter refletido pouco sobre sua origem de classe, talvez tenha subestimado.

Os partidos políticos estão tão estraçalhados no Rio de Janeiro que foi possível que um candidato apresentasse como virtude ética o plano de costurar o segundo turno e depois governar sem conversar com os partidos (entendendo-se aqui suas lideranças, candidatos a prefeito no primeiro turno, vereadores eleitos etc.). A proposta não era inédita, mas a compreensão dela como superioridade moral o era. Gabeira se propôs a conversar “com o eleitorado” dos outros candidatos diretamente, sem mediação. A mensagem ética, calculou-se, era suficiente. No domingo, enorme fração do eleitorado respondeu ficando em casa. Ou indo à praia. Ou viajando para a região dos Lagos. Ou indo à feijoada e ao samba porque, como se sabe, na Zona Sul também se faz feijoada e samba, e dos bons.

O problema com a redução da política à moral é a impossibilidade de realizá-la. Você pode se perguntar pelas relações entre esses dois termos, mas não conseguirá reduzir um ao outro. Pela milésima vez: isso não significa que não haja diferença ética entre Gabeira e Paes. É claro que há. Significa que no momento em que você decide responder todas as perguntas políticas com uma afirmação ética, você dinamita a própria ética. “Ser mais ético” é uma locução defectiva como o verbo “inovar”. Se você inova, há que dizê-lo o outro. Quando você é o candidato “da ética”, não pode fazer desse plus a sua única fonte de diferença política, sob o risco de abandonar a própria ética. Afinal de contas, se há algo que caracteriza o sujeito ético é a permanente suspeita de que não está sendo ético o suficiente.

Como dizemos por aqui, you can't have it both ways: se toda a sua diferença política se ancora na diferença moral, você não pode se recusar a aplicar a si mesmo o teste ético pelo qual o outro candidato não passaria – mesmo que o outro seja o candidato das milícias, do establishment da corrupção e do oportunismo. Ao contrário da política, a ética não é uma prática de trocas negociadas.

PS: Para uma avaliação da importância e também do limite da Onda Verde, considere-se os números claramente: dos 4,5 milhões de eleitores, quase 1 milhão se absteve. Dos 3,5 milhões, mais 4,8% votou nulo e 2% em branco. Dos restantes 3,3 milhões, Gabeira obteve 49%. Trata-se, portanto, de 36,5% do eleitorado, um número estupendo, mas bem mais próximo de “um terço do Rio” que de “metade do Rio”. É um número que merece ser comparado ao “piso / teto” de Marta Suplicy em SP, não por equivalência entre as duas pessoas, mas para se entender a política de alianças possível no Brasil hoje.

PS 2: Merece um super parabéns a iniciativa do amigo Pedro Doria em favor de seu candidato. Foi mais uma bela contribuição do seu blog à política. Que o amigo tenha cometido -- sem maldade, claro -- a injustiça de me atribuir "ojeriza irracional" ao Gabeira (numa tarde em que eu aterrizava em Georgetown, a convite de Bryan McCann, para palestrar analítica e elogiosamente sobre Gabeira!) não mudou em nada minha admiração pela dedicação do Pedro à candidatura em que acreditou e que ajudou a construir.

PS 3: Este blog completou 4 anos no dia 28 e o blogueiro completa 40 hoje. Sobre os poderes cabalísticos do 4, claro, Jorge Luis Borges escreveu um belo relato.



  Escrito por Idelber às 16:15 | link para este post | Comentários (114)


Comentários

#1

Não há muita coisa a se discutir quando eu e você concordamos alguma coisa linha por linha.

André Kenji em outubro 31, 2008 4:47 PM


#2

Idelber,
muito bom o post. E falo isso mesmo tendo votado no Gabeira no segundo turno, movido por uma idiossincrática recusa do voto nulo e por uma certa simpatia pela figura. Mas foi difícil passar por cima das numerosas gafes cometidas.
Espanta não apenas o clima na blogosfera, mas o modo como a própria imprensa escrita daqui tratou a vitória de Paes, tida como uma espécie de tragédia existencial. A retórica dos dois Rios foi brandida sem nenhum cuidado, ahan, "sociológico", e ganhou conotações valorativas fortes. A alta abstenção, ao invés de ser tomada como índice de esvaziamento cívico, foi tida apenas como sinal do "jogo sujo" do outro lado, espécie de golpe branco.
No artigo que escrevi, preocupava-me uma possível clivagem entre Crivella e Gabeira como reedição fácil do clichê da "cidade partida". Temia então o esmagamento da imaginação política carioca sob o peso dos estereótipos. Curioso foi ver isso acontecer numa eleição entre Paes e Gabeira, já que o primeiro sempre foi identificado com a Barra e com os setores médios que adoravam um "técnico".

João Marcelo em outubro 31, 2008 4:51 PM


#3

Parabéns, pelo aniversário e pela análise.

Vera Borda em outubro 31, 2008 4:52 PM


#4

Primeiro: parabéns pelo aniversário, coincidente com a data de nascimento do poeta Drummond.
Segundo: análise espetacular. A gente precisa de ler coisas assim, reflexões embasadas, raciocínios concatenados. Nem é preciso concordar. Eu concordo!

Cláudio Costa em outubro 31, 2008 5:02 PM


#5

Obrigado!

Drummond e John Keats, diga-se :-)

Idelber em outubro 31, 2008 5:04 PM


#6

Caríssimo prof. Idelber.

Primeiro, parabéns e abraço fraterno pelo aniversário. Dizem que "aos quarenta" encerramos um ciclo. Será?
Muito bom contar novamente com suas análises. Passava pelo blog todo dia. Senti a falta, já virou vício, como muitos dos que comentam afirmam.
Qunato ao conteúdo do post, volto mais tarde para comentar. agora vou trabalhar.
Marilda

Marilda S. Costa em outubro 31, 2008 5:16 PM


#7

Parabéns, meu amigo! Como diz um velho clichê da propaganda: o aniversário é seu mas quem ganha o presente somos nós! Hehehe. Belíssima análise. "Se há algo que caracteriza o sujeito ético é a permanente suspeita de que não está sendo ético o suficiente". Até me emociono. Obrigada.

Ju Sampaio em outubro 31, 2008 5:20 PM


#8

Quem viu os debates e a campanha sabe que o Gabeira não falou só de diferença ética - na verdade, os dois falaram basicamente das mesmas propostas. Eram, nos projetos, muito parecidos - e eu, que votei no Gabeira, me decepcionei bastante com o conteúdo de propostas mesmo, não só dele como de todo mundo. Não dava pra diferenciar ninguém por seus projetos. Daí, o diferencial dele ficou mesmo no "moral".

De qualquer forma, pode-se analisar os erros e acertos do Gabeira, mas a tarefa era muito, muito difícil. No fim do primeiro turno, eu concluí rapidamente que era impossível ele se eleger - simplesmente porque a soma dos votos do Paes com os do Crivella seria suficiente para a vitória, e que quem votava no Crivella não votaria no Gabeira de jeito nenhum. Quando veio a primeira pesquisa de opinião e vi os dois tão próximos, me supreendi e tive esperanças. Mas dava pra imaginar que não ia ser possível essa vitória.

De qualquer forma, o impressionante dessa campanha, pra mim, foi ver até onde se pôde chegar com uma campanha feita daquela forma, sem cartaz nenhum na rua, sem santinhos, sem figurões da política ajudando a angariar votos. Deu pra ver o poder que a internet pode ter, por mais que a campanha mesmo nem tenha usado tanto assim o meio - mas foi por onde a "mensagem" se disseminou, pra depois ganhar as ruas.

André Monnerat em outubro 31, 2008 5:33 PM


#9

Belo post e feliz aniversário!

Ia falar também em Drummond, mas o Cláudio chegou antes.

Muitas felicidades.

Milton Ribeiro em outubro 31, 2008 5:36 PM


#10

Idelber, se você me permitir, reposto aqui comentário que havia feito hoje no post anterior.
Grato.

Em geral as pessoas que aqui, e alhures, se apresentaram apoiando Gabeira, se justificaram com nada mais do que wishful thinking, e uma ingenuidade que chega a ser singela.
Me desculpem, mas falar que o Rio perdeu uma "oportunidade histórica", como muitos tem dito, é ridículo. O 2º turno no Rio foi disputado por dois candidatos conservadores, ou de direita, ou à direita como preferir.
Um, começou a carreira com o César Maia. O outro é aliado de primeira hora de César Maia. O discurso de ambos, naquilo que é fundamental, recicla o discurso (e a prática) com o qual César Maia hegemonizou a política municipal carioca no últimos 16 anos. 2 versões de mais do mesmo.
Acho notável que as pessoas consigam avaliar tão mal o fim desses 16 anos, e ao mesmo tempo não apresentem qualquer arremedo que seja de um balanço desse período. Conseguem definir uma eleição como "histórica", sem se dar ao trabalho de explicar o porquê dela ser "histórica", e o que é que se pretende mudar afinal. Fala-se como se ninguém tivesse governado a cidade nesse período. Não há, não houve, nenhuma atribuição de responsabilidade.
Pois "eleição histórica" my ass, como diriam os anglo-saxões!

Outra coisa. Os apoiadores de Gabeira precisam se definir. Se esse negócio de direita e esquerda é inaplicável, então não faz sentido algum cobrar da "esquerda" pela derrota e falta de apoio ao Gabeira, certo?
Ou então, a distinção existe e é aplicável, mas aí tem 2, pelo menos, problemas:
1)Gabeira não é...hhhmmm..assim...e-xa-ta-men-te "de esquerda" né?
2)Cobrar da "esquerda" pela derrota é mais ou menos, guardadas as DEVIDAS proporções, como se o PT cobrasse do DEM pela derrota em Salvador. Ridículo, não?

O que eu acho é que a Cidade do Rio de Janeiro até hoje não se recuperou de duas grandes perdas: a mudança da Capital para Brasília, e o fim do Estado da Guanabara.
Suas elites econômicas, intelectuais, e políticas, ainda não se mostraram capazes de liderar a cidade em uma necessária re-invenção.
Assim, as classes médias, da Zona Sul em particular, vivem em um estado de denial, negação. E essa "onda verde" foi uma manifestação um pouco mais espetacular dessa esquizofrenia coletiva.
Sua Utopia, é uma volta aos Anos Dourados, dos 50/60 do século passado. Um Rio sem favelas, com bem menos gente, com a violência devidamente confinada onde sempre esteve: longe.
Querem ordem....pros outros.
Querem os camelôs fora das calçadas, para que possam estacionar aí seus carros tranquilamente, sem pagar estacionamento.
Isto é, naquelas calçadas que já não estiverem ocupadas pelos bares, restaurantes e botecos, que gostam tanto de frequentar até altas horas, sem se preocupar com a vizinhança, que talvez ainda possua o antiquado hábito de dormir à noite.

À propósito, só para registro, sou carioca. Nasci e vivi na Zona Norte (i.é. subúrbio), de longe, a maior parte da minha vida. Moro em Laranjeiras (Zona Sul) há 15 anos.
No 2º turno votei nulo.

[]'s

Eneraldo Carneiro

Eneraldo Carneiro em outubro 31, 2008 5:59 PM


#11

Olá Idelber, você nasceu no mesmo dia que Vanilla Ice e Dunga eh eh eh.
Mas, além dos dois grandes, já citados, Jan Vermer e Claudete Soares são do mesmo dia.
Parabéns pelo aniversário, cara. O próximo gole já é em tua homenagem.
Mas presente mesmo, ganhamos nós.
Este post foi foda!!!
Valeu.

fm em outubro 31, 2008 6:02 PM


#12

Epa! Bom ler um post novo por aqui!

Feliz 40º aniversário, Idelber!

Jasão em outubro 31, 2008 6:09 PM


#13

Agora, o que me atemoriza é a insistência dos comentaristas de política não discutirem políticas públicas e nem os feitos de cada um dos candidatos à reeleição. O artigo do Wanderley Guilherme dos Santos reforça isso. ele mostra a vitória dos candidatos de situação em todo o país.

O Rio é um caso a parte. agora, o que faltou para o Gabeira, na minha opinião, foi o que ele dizia ser sua qualidade: a politização da campanha. Ele não articulou forças que representam os cidadãos e nem propôs plataformas a serem dialogadas com outras forças políticas e movimentos sociais.

Outro deslize inominável foi a proposta da barca para o aeroporto. Isso é de uma agressividade brutal com quem mora na favela da Maré, por exemplo. Assim acho que nem eu me animaria em votar em qualquer candidato.

Quem perdeu, portanto, não foi o símbolo, foi o político.

Tiago Mesquita em outubro 31, 2008 7:02 PM


#14

Resumindo: Gabeira "se acha"! O "neo-Gandhi" do Rio.

Ary da Silva Martini em outubro 31, 2008 7:11 PM


#15

Parabéns Idelber,

Pelos aniversários e pela clareza do post!
Estou aqui em ribeirão preto, trabalhando muito e resolvi dar uma olhada no seu blog para ler algo bom: não me decepcionei! O post valeu a pausa.

Agora, só mesmo indo ao Pinguim, tomar alguns chopps em celebração.

saudações

aiaiai em outubro 31, 2008 7:12 PM


#16

Feliz aniversário! Muitos anos de vida pra você e para o Blog. Admiro muito!

Pedro Lobato Moura em outubro 31, 2008 7:14 PM


#17

Já ia esquecendo: adorei a sutileza da foto do trevo!

aiaiai em outubro 31, 2008 7:14 PM


#18

Parabens pelo aniversário--faz todo sentido que você está completando quarenta, porque tem o currículo de quem tem cinquenta (ou mais) e o pique de quem tem trinta (ou menos). Parabens também pela ánalise excelente do Rio, e obrigado pelo link!
Bryan

Bryan em outubro 31, 2008 7:27 PM


#19

Idelber, só acho estranho o fato de essa abstenção maior ter ocorrido justo em Copacabana, porque é um bairro onde há uma mistura muito grande de pessoas - tem muitos idosos, tem gente com grana, tem gente "pobre", enfim...já Leblon, Ipanema, Gavea, Jardim Botanico são bairros onde, se isso tivesse ocorrido, eu não teria qualquer dúvida de que o Gabeira teria grandes chances de vencer se não houvesse tamanha abstenção. Seria legal comparar esses bairros e outros na zona sul com os do chamado suburbio.
Lendo sua análise me lembrei da época do escândalo do mensalão e das cpi's, e posteriormente das eleições, quando procuraram explicar a rejeição maior ao Lula na classe média por conta dessa suposta moralidade da classe média. Vc lembra disso? O que eu questiono é, até que ponto vai essa moralidade? Porque a corrupção é tão cultural, e acontece rotineiramente, nas mais diversas instâncias. Será que só pobre ou suburbano que paga uma cerveja pro guarda pra não ser multado? Isso é só um exemplo...
Pode parecer alienação da minha parte, ou até mesmo ignorância mesmo, mas detesto a política como ela é feita, tenho nojo, e a atitude da campanha do Gabeira no segundo turno, que caso tivesse sido bem sucedida geraria uma impossibilidade ou dificuldade grande do ponto de vista prático, é de certa forma um protesto e reflete a desaprovação das pessoas quanto à corrupção e a forma como as coisas funcionam.
E fico me perguntando tb se essa atitude, de ir à praia ou à feijoada ou viajar, não é no final das contas a cara do Gabeira, que por sua vez seria a cara da classe média carioca - e aí estou eu incluída, já que passei muito tempo justificando e anulando meu voto, e que mesmo sem muita conviccão acabei votando no Gabeira no segundo turno.
abraço
Renata

Renata em outubro 31, 2008 7:51 PM


#20

E parabens pelo anoversário!!!!
um beijo grande!
Renata

Renata em outubro 31, 2008 7:58 PM


#21

Idelber: a despolitização fica evidente num detalhe simples, mas crucial: no site de Gabeira, havia um link de "Voluntários", obviamente no lugar de "Militantes". Não se trata de uma mera mudança de palavras, mas de concepção (até porque por muito tempo o PT baseava suas campanhas quase totalmente em militantes voluntários). E a pergunta que fica é: se a campanha do Gabeira é sustentada e apoiada por voluntários e não por partidos e militantes, como botar a culpa no governador por ter adiantado o dia do servidor público para a segunda-feira? Talvez fosse melhor pensar porque faltou vontade aos voluntários na hora de ir votar - e porque não faltaria vontade a um militante.

Abração,

Alexandre Nodari em outubro 31, 2008 8:15 PM


#22

Parabéns! Pelo aniversário e pelo post. Acho que dá até pra extrapolar um pouquinho. O que assistimos no Rio foi uma espécie de "despolitização" da política. Um candidato tinha de ganhar por ser mais "ético" que o outro, não por eu concordar mais com suas idéias ou por achar que a minha vida vai melhorar com a sua vitória. "Mutatis mutandis", é o que aconteceu também em Belo Horizonte. Não existem diferenças entre tucanos e petistas, não existe diferença entre esquerda e direita, liberais e progressistas ou seja lá o que for. O que importa é que o candidato é um técnico experiente, bom administrador. A mesma coisa em São Paulo - não importa que ele seja do ex-PFL. De uma certa forma, é esse o discurso do "choque de gestão", do "melhor ministro da Saúde". O meu tio Tavinho acha esse negócio de política sem política muito perigoso, quase fascista. E eu acho que ele tem razão, porque, na política, não existe discurso "certo" ou "errado". Existe o discurso de que eu gosto mais, não o que é "melhor", por critérios "objetivos". Quando você se coloca nessa posição de superioridade por critérios não-políticos, no limite você tira o direito dos outros de terem posições diferentes da sua. Bom, era isso. Abração!

Manuel Amaral Bueno em outubro 31, 2008 8:25 PM


#23

Feliz aniversário, Idelber!

Sobre o Gabeira, prefiro não comentar... Para mim, caiu na mesma vala da Soninha. Hoje, ela declarou que aceitaria convite para participar do governo Kassab. Fundo do poço.

Luiz Alberto Pandini em outubro 31, 2008 8:54 PM


#24


"O problema com a redução da política à moral é a impossibilidade de realizá-la. Você pode se perguntar pelas relações entre esses dois termos, mas não conseguirá reduzir um ao outro."

A questão, principalmente nesse momento é essa. A midia vende como sendo "valores eticos" o mote da politica. Mas esconde, que a politica é a ciencia do bem comum, qdo se tenta trazer a etica (ciencia da moral) pra politica, reduz essa a um moralismo. A valores do individuo se sobrepondo aos da sociedade, "sociedade como um todo" (odeio essa expressão, mas se vc nao a usa, as pesssoas não compreendem, pois não pensam mais "no todo", tudo, hj é fragmentado).

Enfim, esse discurso só tem um objetivo, reduz tudo à agenda moralista da direita, não por acaso ideologicamente, o individuo esta acima de tudo. Nessa arena as esquerdas vao sempre perder, pois querem discutir "a sociedade" ante aos individuos.

A midia faz isso e tenta confundir valores eticos com corrupçao. Corrupção é uma doença, é um problema sistemico, mas só mais um problema como os buracos nas estradas. E algo tecnico, vc precisa de novos metodos, novas leis de compras publicas, novas formas de contrataçao, em que o fluxo do dinheiro publico flua diretamente e às claras, com controle social. Não é acreditando que A ou B é "mais ético" que o outro, que se vai acabar com a corrupção.

Mas isso é básico. Essa pessoas não são idiotas. Então a quem interessa a mídia levar o debate politico pra essa arena? Essa é a questão central.

Abraços,

the talk of the town em outubro 31, 2008 8:56 PM


#25

Desculpe as palavras, mas isso seria como as palavras de Paulo Betti, política é botar a mão na merda? Eu não voto no Rio e sim aqui no Sul, mas é que a análise ultrapassa contexto, eu quero saber porque a dimensão ética e a superioridade moral não bastam, sinceramente porque essa é a minha idéia - de todo modo acho que essa posição (a sua) é muito comum, apenas não é explicitada.

Abraço

Vinicius em outubro 31, 2008 9:16 PM


#26

Ô, Idelber, meus parabéns, tudo de bom - e do melhor - pra você, querido. Saúde e sorte, sempre. E apareça mais por estas bandas cariocas. (Ano que vem a gente se encontra com certeza, na Casa dos Quarenta; guarda o meu lugar e anima a festa).
Ah, e excelente análise, a melhor que li até agora.
Beijo.

Helê em outubro 31, 2008 9:36 PM


#27

Fiquei triste com o fato de que um suposto do Paes nas eleições tenha conseguido reunir 2000 pessoas, enquanto amanifestação contra o Gilmar Mendes 18 pessoas. É humilhante. Aquilo sim foi um grande ato contra a democracia e a igualdade brasileira. Mas, não mobiliza nada. Acho que a vitória do Lula fez as pessoas subestimarem o poder da imprensa. OU alguém vai questionar que o Gabeira era o candiddato da imprensa?

Bruno em outubro 31, 2008 9:57 PM


#28

Concorde ou não com suas ideias, o Marcos Matamoros fez um post muito interessante sobre a escolha de Kassab e Paes, em São Paulo e Rio.
E na parte que me toca , São Paulo, o post é bastante correto na avaliação sobre o prefeito eleito na capital bandeirante.
O título do post é 'Homens vazios':
http://atorredemarfim.apostos.com/
Embora em alguns momentos ache que o Marcos cuspa no prato que comeu, ou quer comer. Já que Kassab, privatizando à saúde, como vem fazendo, cumpri de certa forma, sua ( e a dele, Marcos) tão desejada agenda de um estado mínimo.
Para ele-Marcos-deveria ser um gesto elogiável, embora vazio de ideias , como ele próprio afirma.
Sua crítica é de certa forma, à ideologia, ou à falta de uma , no rapaz.
Mas como bem disse o Marcos, o sujeito que foi eleito em São Paulo, '... foi malufista. Kassab foi secretário de Planejamento de Celso Pitta. Quem tem essa folha corrida não merece confiança."
Mas continuando alivia, derrapa, se esquecendo das privatizações e das negociatas para a reeleição. E afirma convicto:
'Se fez um governo razoável, foi porque manteve em postos-chave alguns tucanos que, ao que tudo indica, não têm tradição de rapinagem e têm alguma competência. Quem garante que eles continuarão no segundo mandato? Quércia vai querer e vai obter cargos. Será que o modus afanandi de governar do quercismo não vai prevalecer? É uma pergunta que quem votou em Kassab deveria se fazer. Além disso, o que pensa Kassab? Quais são as suas idéias, além de insistir na eficiência administrativa? Nada mais burocrático do que ter eficiência administrativa como a grande bandeira.pertenceu aos quadros da gestão Maluf e Pitta, é do DEM, enfim , do PFL."
Querendo crer, ou fazer crer, que, os tucanos paulistas, ou qualquer outro, tenham qualquer lustro ético.
Até compreendo, do ponto de vista biológico, que um tucano não seja exatamente uma ave de rapina. Mas politicamente... aja fígado!!!

Ao contrário dele, que afirma;" Como Kassab, nínguém sabe o que pensa Paes'. Eu não tenho nenhuma dúvidas quanto as ideias do Kassab. Nunca tive.
É um pensamento reacionário de direita. Que sempre tive, como pauta, a eficência adminitrativa. Porque estranhar agora?
É a mesma 'ideia, vazia, Borhausem'. Que ganhou sobrevida, graças a Sao Paulo. E durmam com ela, paulistanos, com todos seus desejos de ideias, seja lá o que isso signfique.
A fina flor, a cereja do bolo, é a soninha, com esse minúsculo mesmo, desejar uma secretaria na gestão kassab!
Viva a Marina.

fm em outubro 31, 2008 10:10 PM


#29

desqualificaçao do eleitorado. no rj sempre tem isso. eu pressuponho que o eleitor do gabeira também se sinta *o* ético etc. nao que eu nao desqualifique eleitores brasil afora. mas. enfim. nao deixa de ser revelador.

Para os parabéns, nada melhor que o clássico: parabéns pra vc/nessa data querida/muitas felicidades/ e muitos anos de vida.

te adoro e um beijo.

mary w em outubro 31, 2008 10:25 PM


#30

Gostaria de ser sintético. Mas tão eloquente quanto a Mary W.

fm em outubro 31, 2008 10:43 PM


#31

O problema disso, é claro, é que o estilo, a forma sobrem a ideia!!!

fm em outubro 31, 2008 11:03 PM


#32

Alô, Idelber. Fico satisfeito de ver uma inflexão na maneira como você vinha apresentando a candidatura Gabeira em seu blog.

Não sei se você tem acompanhado o anúncio dos nomes do secretariado do Eduardo Pães. O primeiro nome divulgado - para o posto de secretário-chefe da Casa Civil - foi o do deputado estadual Pedro Paulo, do mesmo PSDB de Luiz Paulo Corrêa da Rocha, que saiu como vice na chapa de Gabeira. A notícia me parece incoerente com a forma como você caracterizou a polarização direita x esquerda no segundo turno do Rio.

A propósito, a se acreditar no que noticiou hoje (sexta) o Ancelmo Gois, Molon, o inexpressivo nome do PT no primeiro turno, não hesitou em votar em Gabeira no domingo passado.

Na condição de eleitor esquerdista belo-horizontino residente há oito anos no Rio que decidiu enfim transferir seu título após o anúncio da candidatura de Gabeira, só fico mais convicto, diante de fatos como esses, de ter feito a escolha certa.

De resto, parabéns e bola pra frente com o blog! É um prazer renovado te ler a cada post.

Bernardo em outubro 31, 2008 11:06 PM


#33

Esperei a semana inteira por esta análise. De fato, valeu muito a pena. Excelente! Ficou ainda uma questão, ou eu que não percebi a resposta no texto: é possível um candidato se eleger a partir da bandeira da ética, simplesmente, deixando as gafes de lado? Além disso, propostas de campanha, por mais eficientes que sejam e por melhor apresentadas que venham, elegem um candidato no Rio?

Guilherme Póvoas em outubro 31, 2008 11:12 PM


#34

Essas eleições, pra mim, serviu para consolidar de vez minha opinião de que o sistema político-partidário brasileiro é totalmente falido. Não há qualquer coerência entre os candidatos do mesmo partido. O PV por exemplo, toda essa mobilização 'de esquerda' no rio e o apoio do DEM nem Natal-RN. O PT, com candidaturas comprometidas socialmente, como em porto alegre, mas totalmente reacionária em SP. E ainda vemos analises PARTIDÁRIAS e não das candidaturas. As 'ondas' são cada vez mais coloridas

Lukas Darien em outubro 31, 2008 11:16 PM


#35

Tô com o André. Concordo em gênero, número, grau, tempo, modo e voz. Mesmo não tendo acompanhado com lupa a campanha carioca, concordo com o exposto (aliás, bem exposto) com a tradicional verve.
Parabéns. Exponho minha admiração lembrando-o o quão feliz eu teria se tivesse a oportunidade de ter sido seu aluno.
Continue firme e forte por outros quarenta, no mínimo. Sempre nos agraciando com posts tão bons quanto este.
E concordo com o Rafa: vc é trotskista! E teria se saído muito bem como político.
Abs e felicidades!!!

Ed em outubro 31, 2008 11:27 PM


#36

Parabéns pelo aniversário e pela analise

Marcelo L em outubro 31, 2008 11:28 PM


#37

Idelber,

parabéns pelo aniversário e pelo post.

Acho que a onda verde tem um significado simbólico muito forte, que pode se expandir para o resto do Brasil. Representa as a ojeriza que boa parte do eleitorado adquiriu com as promessas vazias, a desonestidade dos políticos.

Não sei se isso é bom, mas Gabeira representou para nós do Rio a esperança de que uma pessoa ética e com boa vontade, apenas, poderia ser a solução. Claro que não é, mas é interessante que isso esteja sendo batalhado pelos eleitores.

Além do mais, essa campanha é marcante por usar a internet e tirar nós, jovens, do marasmo político. Hoje, 3 mil pessoas foram ao Centro protestar contra a eleição de Paes num manifesto dito suprapartidário. Mas é claro que era por causa de Gabeira, que nos deu a esperança de que a ética e uma campanha limpa poderiam vencer. Não venceu, mas deu esperança de que algo está mudando. E tenha certeza, a raiva maior dos que apoiaram Gabeira não é nem vê-lo perder, mas ver Paes ganhar com uma das campanhas mais sujas que já presenciamos.

Fica a lição que você deu e que tenho certeza que Gabeira aprendeu. Não basta a figura do candidato, não basta a ética. É preciso propostas, é preciso um esforço para dialogar com todas as camadas da população. Mas de modo limpo, sem fisiologismo, sem alianças-sopa-de-letrinhas.

Um abraço e parabéns de novo, Idelber!

Marcio em outubro 31, 2008 11:42 PM


#38

Parabéns! Nada como uma sexta-feira para comemorar.
Belo post,não sou carioca e não gosto do Gabeira.Acompanho sempre as atividades do congresso e acho o Gabeira um ativista verde tão falso quanto uma nota de 3 reais.

Nana em novembro 1, 2008 12:01 AM


#39

Ótimo post e análise.
Concordo com o Eneraldo Carneiro.Mary W disse pouco e disse tudo.Sou analista de projetos de uma ONG (sem verbas públicas,rsrs) sócio-ambiental e concordo com a Nana também.Fiquei em dúvida muito tempo,não gosto de votar nulo,mas foi inevitável.Acrescento que a tal onda verde me afastou mais ainda do voto em Gabeira.Me lembrou o "Cansei" e mais alguns movimentos apartidários (sei) lutando pela moral e bons costumes.Pode ter sido só a sensação,mas...

Any-RJ em novembro 1, 2008 12:50 AM


#40

Caro Idelber

Parabéns pelo aniversário!

Muito interessante o teu relato. Mas não foi isso que ocorreu aqui no Rio nestas eleições!

A impressão que dá é que desde que inventaram esta unidade política, inicialmente com o nome de Município Neutro, os habitantes do Rio de Janeiro convivem com contradições aparentemente irreconciliáveis.

Mais uma vez parabéns.

P.S.: O problema que você aponta na política carioca e fluminense, o da “redução da política à moral”, não nasceu nestas últimas semanas. E creio que a chave para o entendimento deste resultado eleitoral deve ser buscado na época da re-estruturação dos partidos políticos.

Paulo Z em novembro 1, 2008 1:58 AM


#41

Idelber,

numa tradução de fim de noite: muitas boas voltas!
Legal que um monte de gente pré e quarentona estava por perto para passar a tocha, te dar as boas vindas e espionar. Eu já cruzei a barreira dos 50, em verdade vos digo, não temais, the best is yet to come !
Sobre o post em si, também concordo e me preocupa também esse uso da ética como bandeira, tipo "in hoc signo vinces".
Quero concordar com o Luiz Alberto, sobre o fundo do poço, só porque ouvi um ditado do Mississipi assim: First you fall, then you rock and roll. Ou seja, estamos prontos para o rock!

Márcia W. em novembro 1, 2008 6:56 AM


#42

Caro Idelber,

Excelente post. O melhor presente de aniversário que posso te dar de longe e virtualmente é afirmar que considero teu blog dos melhores que existem por aí.

Sinto falta de alguns argumentos e ênfases no texto. São, a meu ver, complementos interessantes:

1 - Como o Pedro Doria, lembrar que Crivella e Wagner Montes eram reais possibilidades. Gabeira foi um dos motivos dessa desgraça não acontecer. Paes, por pior que seja, e acho que é, não é pior que esses dois.

2 - Reforçar que há um real movimento de indignação de uma boa parte da sociedade - mesmo que seja a caricata parte carioca que abraça a lagoa pela paz e compra um papelote de cocaína à noite como já disse alguém, mas há sim uma parte da sociedade que reclama do seu jeito e forma da situação da podridão em que se encontra nossa política nacional. Ok, nós brasileiros não somos os únicos "privilegiados" mas somos candidatos à campeões mundiais aqui. As esquerdas assumiram o Brasil e o país está melhor. Não aqui nesse ponto. Aqui há é uma frustração grande.

3 - Dar ênfase na questão que a tecnologia da comunicação é uma arma que se estabelece para dar voz à sociedade desmobilizada, ou, em outras palavras, há uma esperança qualquer que podemos ver de uma possível remobilização social com essas ferramentas, o que me parece muito bom, haja vista que considero a desmobilização da sociedade civil um dos piores sub-produtos da ditadura que nos é tão próxima.

Abraços!

Pax em novembro 1, 2008 8:12 AM


#43

meus calorosos parabéns! vc é uma pessoa especial que, gratuitamente (hehe), aponta um luzinha (quase) todos os dias. seu trabalho é devéras inspirador. grande abraço, deste leitor apaixonado pelo biscoito.

Demaisão em novembro 1, 2008 8:29 AM


#44

Idelber, meus parabéns duplamente. Você é um dos melhores blogueiros do Brasil e ando sempre por aqui para entender o que se passa no mundo.

Um abraço de seu admirador,
Sidarta

Sidarta Cavalcante em novembro 1, 2008 10:18 AM


#45

Meus sinceros parabéns!
A data é sua e nós recebemos o presente.
Longa vida ao Biscoito!

Mariano em novembro 1, 2008 10:25 AM


#46

Parabéns e aproveite essa alegria toda
abração

Tiago Mesquita em novembro 1, 2008 10:44 AM


#47

Idelber, parabéns pelos 40! E que venha muita massa pela frente. Seus textos frequentam APonte bastante e acho que os visitantes de lá também já aprenderam o caminho do Biscoito Fino. Sobre o seqüestro da Política pela Moral, concordo contigo e, pelo que tenho visto e apontado, o fenômeno chegou também no Direito, especialmente na Justiça Eleitoral. O ministro-poeta-presidente do TSE, Britto, joga pra torcida da opinião pública as manchetes prontas, como se tudo dependesse apenas da vontade virtuosa dos juízes e não do próprio Direito. Se a troca da Política pela Moral pode acabar com esta, creio que no Direito a coisa caminha no mesmo sentido, ou seja, se todas as decisões judiciais forem apenas baseadas em princípios vagos de moral e não em direitos assegurados por regras claras e democráticas, é a própria ética que sai perdendo tudo no final, pois as decisões jurídicas passam a flertar com o arbítrio e o preconceito. Nem todos os juízes são tão virtuosos assim, né. E os que são em demasia podem querer impor seus padrões morais católicos, por exemplo, sobre os demais. Acho que você matou a charada: no Rio, a abstenção de 30% em Copacabana foi o que decidiu a eleição - a indiferença é uma resposta política curiosa à soberba moralista. Em relação ao meu problema - a Justiça - a resposta à campanha dos "quatro anos é muito tempo" é que 70% dos prefeitos foram reeleitos. A campanha do TSE sub-liminarmente dizia que o povo não sabe votar.

Forte abraço. Quarenta é um número muito bom, eu chego lá em mais dois, se Deus quiser.

Mauro Noleto

Mauro Noleto em novembro 1, 2008 11:08 AM


#48

idelber:
boa análise sobre o rio.cumprimentos pela data.
romério

romério rômulo em novembro 1, 2008 11:10 AM


#49

Parabéns pelos 40 anos, Idelber.

Seu texto é um caso raro de lucidez neste país tão acostumado ao primitivismo de grande parte da análise política que, habitualmente, se faz.

Gabeira falou mal dos 'marmiteiros' (como se diz que o então Brigadeiro Eduardo Gomes teria feito, na eleição presidencial de 1950, o que muito ajudou a eleger Getúlio Vargas Presidente em 1950, pois Vargas ganhou, justamente, graças aos votos dos 'marmiteiros') e esses lhe deram o troco no dia 26/10.

Ninguém insulta amantes da Feijoada, como é o meu caso também, e do belo Samba brasileiro (de Cartola e cia.) e fica impune, certo?

Bem-feito para Gabeira!

Na próxima vez em que se candidatar ele, Gabeira, que venha um pouco mais humilde e deixe sua postura arrogante e imperial fora da campanha.

Marcos D. em novembro 1, 2008 11:26 AM


#50

Ah, Idelber, você viu a programação de campanha de Obama/Biden e de McCain/Palin para hoje, segundo o site 'Daily Kos'?

Enquanto Obama/Biden estarão em Nevada, Colorado, Missouri, Indiana e Ohio, estados que, quase sempre, votam nos Republicanos em eleições presidenciais mas que, neste ano, podem dar a vitória para Obama, McCain/Palin estarão na Virginia, Pennsylvania e na Flórida, estados que quase sempre votam nos Republicanos, mas onde Obama está à frente de McCain segundo as pesquisas mais recentes.

Assim, enquanto Obama ataca os Republicanos em seus tradicionais redutos, McCain tenta defender outros tradicionais estados Republicanos.

Essa campanha eleitoral nos EUA, Idelber, está me parecendo um jogo de Futebol em que um dos times (o de Obama, claro) está ganhando por 2 ou 3 X 0, mas continua atacando, sem dó nem piedade, para fazer mais gols, enquanto que o adversário (McCain) somente tenta não perder de mais, para não ser goleado de forma vergonhosa.

http://www.dailykos.com/

Marcos D. em novembro 1, 2008 11:34 AM


#51

putz, melhor análise que li sobre as eleições do Rio. moro na cidade e o clima na zona sul era tal maniqueísmo que quem questionasse o voto no gabeira estava do lado "mau". creio que a substituição da política pela moral é um fenômeno geral. e nessa troca rola uma onda de super valorizar o indivíduo e, inclusive, de se aproveitar das contribuições do multiculturalismo (que são ganhos reais e não retóricos) em detrimento da "sociedade como um todo" (tb odeio esta expressão!). escrevo próximo do que li recentemente do zizek e de acordo com "the talk of the town", comentarista de n 24 deste post.
parabéns pela data, pelo blog e pelo post. aquelabraço, dr. e.

Dokstra em novembro 1, 2008 12:01 PM


#52

Olá, Idelber, feliz anibercário (com b mesmo) e bem-vindo ao "...enta"! Como dizia o povo em Montes Claros, daqui pra frente é só "...enta"...
Abraços do amigo
Jair

Jair Fonseca em novembro 1, 2008 12:46 PM


#53

Parabéns a vc pela quarentidade e ao Biscoito, cada dia mais interresante.

Axé!
Beijo carinhoso,

Cipy em novembro 1, 2008 2:30 PM


#54

ô, rapaz!

espero q vc tenha passado um feliz dia do saci ontem. parabéns!

abs,

dra em novembro 1, 2008 3:05 PM


#55

Idelber,

Parabéns! 40 é realmente uma data daquelas datas-ponte, ou algo assim, como várias pessoas observaram com muito mais graça antes de mim. De toda forma, muitas felicidades!

Quanto ao post, desculpe, mas acho que ao opor "política X moral" você está desconsiderando vários dados de realidade, embora aponte outros de igual importância. Seu texto é, como notaram todos que me precederam, soberbamente escrito, mas sinto que algumas questões merecem melhor equacionamento, de alguma forma. Daí, perdoe o atrevimento de uma modesta professora do litoral paulista, ôuquêi?

Como disse, não sou carioca, nem eleitora no Rio de Janeiro. Mas vários dos excelentes comentaristas que frequentam o biscoito chamaram a atenção para o fato de que Gabeira TAMBÉM teve boa atuação nos subúrbios. Claro, de outra forma, como explicar a diferença tão pequena?

Isso, parece-me, tem a ver com a sensação generalizada de que a preocupação central é a de escolher alguém que PODERIA ser uma opção ao triste histórico de governos municipais no Rio, mais ou menos ignorando a articulação de forças que sustenta uma candidatura ou outra.
Em São Paulo, por exemplo, eu votaria em Marta, APESAR do projeto de atrelar a sua candidatura ao governo federal e ignorando a antipatia que sua arrogância me desperta (eu a conheço pessoalmente). Isso porque considero que sua gestão foi muito boa sob vários pontos de vista para a capital. Ignoraria até, e isso achei particularmente repugnante, aquela tentativa dela de explorar a opção sexual de Kassab.

Agora, e isso é chaga secular, o fisiologismo está incrustado nas nossas rotinas políticas e a postura do governo federal está a quilômetros de mostrar uma preocupação real em lutar contra essa chaga. Ao contrário, postura classe média ou não, o PT jogou no lixo um capital de credibilidade duramente acumulado ao longo de 20 anos para acomodar-se ao velho jogo das oligarquias de sempre e manter o poder. Lutar pelo poder é justamente o objetivo de qualquer partido, em qualquer lugar do mundo, desculpe pelo óbvio, mas considerando a nossa história de conciliações pelo alto e desconsiderações pelo resto, acho mesmo que a indignação da classe média procede, embora seja algo difusa. Aliás, no quesito moralismo, ninguém suplanta os setores mais pobres, como se vê a cada escândalo passional que pipoca de tempos em tempos e é trombeteado pelas tvs em tons de apocalipse.

Daí, parece-me perigoso coonestar a prática política de alianças espúrias em nome de viabilizar um projeto de poder, como se a política que se faz aqui não fosse resultado de toda uma história beeem antiga e que tende a se perpetuar se as forças que chegaram lá não se derem conta de que é preciso mais do que se acomodar a interesses de momento. É preciso pensar o país a médio prazo, o que incluiria propostas sérias de reforma política e reforma tributária. Dessas, nem sombra, némêss?

Bom, eu teria mais observações, mas já escrevi demais. De novo, mil felicidades!

Alba em novembro 1, 2008 3:25 PM


#56

Sobre o post: parabéns, bons pontos. E pelo jeito, agradou a gregos e troianos ;)
Sobre a abstenção, duas observações:
1. nada maior que no primeiro turno, não há grande questão. Acredite.
2. fez sol. *Muito* sol. Eu moro no Rio. Aqui preferimos ir à praia. Especialmente se potenciais eleitores do Gabeira formos.
Sobre o aniversário: o de sempre, Ira. Envelheço na cidade. Feliz Aniversário.
Sobre a "ética" na política: lemos Maquiavel,vai. Sabemos que isso, se não somos Lacerditas, é uma espécie de piada sem graça. Como assim, pessoas fofas e gracinhas achavam MESMO que Gabeira, tucanos e DEM iriam MESMO fazer um tipo de política *diferente*? Nem a ingenuidade conta ponto.

kelly em novembro 1, 2008 4:02 PM


#57

Acho extremamente perigosa essa "substituição da política pela moral" que você corretamente aponta. De um lado, abre ainda mais espaço para o proto-fascismo (cada vez menos proto-) da "classe média", e sobretudo da classe méRdia - e quem quiser saber o que é a claase méRdia carioca tudo que tem a fazer é, após tomar preventivamente meia caixa de Eucil, ler os "colunistas" de Ziglobi. De outro lado, desqualifica o "subúrbio" como reduto de "analfabetos políticos", o que só faz jogá-los nos braços do populismo clientelista mais escrachado, dos "centros sociais" aos "pastores" que vendem sucesso material como sinal de virtude, amém e aleluia. Desnecessário dizer que ambas as vertentes, a "nós somos éticos" (bandeira que o PT equivocadamente empunhou durante um bom tempo, e lhe valeu o epíteto, muito bem pespegado pelo Engenheiro, de "UDN de macacão"), e o "eles se vendem por qualquer dentadura", refletem o pensamento da direita.

Carlos Martins em novembro 1, 2008 4:40 PM


#58

Caríssimo Idelber, tenho andando excessivamente atarefada, o que tem me impedido de participar por aqui, embora continue sempre lendo tudo, que eu não sou besta de abrir mão de suas análises e comentários. Mas não tem como deixar de vir lhe dar um abraço e votos de felicidades pelo aniversário, seu e do Biscoito! Live long and prosper!

Ana Paula Medeiros em novembro 1, 2008 4:41 PM


#59

Parabéns Idelber!
As eleições municipais recém-terminadas foram das mais desafiantes para quem se propõe a fazer análises que transcendam o horizonte do banal. É para poucos. Parabéns também pela coragem e por ter compartilhado conosco as suas reflexões. Sobre o tema, lembro daquele professor do hoje romântico "Jonas que terá 25 anos no ano 2000": a justiça é um conceito alheio à História. A sociedade atual está cada vez mais udenista: o preço da liberdade é a eterna vigilância. Haja vista as câmeras da polícia em diversos cantos de BH. Esse assunto necessitaria de um livro inteiro para ser discutido com propriedade e você certamente é um dos que podem contribuir para essa discussão, pelo que pude ler aqui no blog (parabéns de novo) no "Letters of Violence".

Bem-vindo aos "enta"!

Leo Vidigal em novembro 1, 2008 4:57 PM


#60

Quanto à abstenção... Vamos aos números. As áreas em que Gabeira "ganhou", Zonas Sul, Centro e Norte, somadas representam apenas cerca de 25% do eleitorado carioca, donde a abstenção mais alta nessas regiões não tem tanto peso assim, somou menos de 250.000 votos. Se a taxa de abstenção aí tivesse seguido a média histórica - que nessas áreas já é mais alta, em torno de 16% - seriam cerca de 90.000 votantes a mais. Donde, para Gabeira compensar a diferença de 55.000, precisaria ter mais de 60% *do total* desses votos (descontados brancos e nulos, chegaria a mais de 2/3). Quem foi mesmo que falou em "wishful thinking"?

(Especificamente sobre Copacabana, vale lembrar que tem uma das maiores proporções de idosos da cidade, o que talvez explique porque, historicamente, também tende a ter taxas de abstenção acima da média geral.)

Carlos Martins em novembro 1, 2008 5:05 PM


#61

Só mais um adendo: a antecipação do feriado de terça 28/10 para segunda 27 já estava prevista no calendário estadual desde janeiro. Achar que o Governator (mistura de governador com exterminador, não é de minha lavra, estou só espalhando pra ver se cola) já havia antecipado, por quase dez meses, como seria o segundo turno das eleições na cidade é lhe atribuir poderes de presciência dignos de um Cayce.

Carlos Martins em novembro 1, 2008 5:15 PM


#62

Idelber,
Parabéns, pelo aniversário e por tão instigante análise.

Como comentário inicial, de quem quase sempre discorda de vc e sempre te lê, começando pela parcialidade de vários posts e terminando pela paixão por alvinegro distintos (tua estrela solitária te conduz...), gostaria de enfatizar a enorme superioridade dos seus posts que deixam de lado um conceito narcotizante e obsoleto de esquerda e que buscam uma análise mais funda e profunda da alma humana e suas motivações, propondo então soluções e visões de extrema potencia e clareza. Isto sem falar dos sempre sensacionais posts de análise e dicas literárias...

Agora, voltando ao tema Gabeira, vou regatar um pouquinho essa história de que ele sempre ganha quando perde. Crei que aí está o sentido real da sua derrota/vitória. Está na busca incessante da derrota mínima, que será transformada em vitória. Imagino quão grande deve ter sido o alívio dele em verificar que perdeu, que não teria que passar quatro anos administrando a cidade e seus imensos problemas e que, então, poderia voltar a fazer discursos e proposições, por melhores que fossem, que teriam de se executadas por outros. Então, para mim, existe um mêdo da vitória, vitória que seria transformada em derrota ao verificar que teria de arregaçar as mangas, botar a mão na massa e na m*** e realmente trabalhar, como o seu tão estimado PT a duras penas, e com enormes resistências internas, vem, apesar de muito mais devagar do que seria desejável, aprendendo a fazer.

Agora, o ponto mais visionário e realista ao mesmo tempo dos seu post, e de longe o mais importante, e que escapou ao comentários apresentados: não há forma de passar do 33/35%para o 50+1% sem uma política clara e definida de alianças com grupos e associações com as quais a afinidade pode não ser a desejável, mas que são imprescindíveis para a chegar à vitória e para poder governar, e que devem estar baseadas em princípios e compromissos éticos e transparentes.

Parabéns uma vez mais...

Jiló.

Jiló em novembro 1, 2008 5:45 PM


#63

Idelber, dê uma olhada nisso. Cadê os jornalões que defendem a intimidade, a vida privada dos candidatos, a política limpa, etc etc etc? Apoiar o moralismo de ocasião não se justifica nem por ingenuidade, como bem argumenta a Kelly aí acima. Abraço.

Alexandre Nodari em novembro 1, 2008 6:11 PM


#64

Parabéns atrasados, a você e a seu blog.

Luiz Eduardo Brandão em novembro 1, 2008 6:16 PM


#65

Fora de tópico total, mas é que acabei de ver na CNN que Al Franken é candidato a senador por Minnesota.

Patrick em novembro 1, 2008 7:55 PM


#66

Primeiramente parabéns pela entrada na casa dos "enta" , cuidado!!!! são demoníacos, principalmente quanto a velocidade, parece que foi ontem que entrei nos quarenta e já estou nos quarenta e cinco, mas por outro lado ficamos mais sensatos e aprendemos a ouvir como nunca, apesar de ser apenas mais um número, não deixa de causar uma ruptura na nossa vida, felicidades na nova empreitada.
Quanto ao seu post, só uma palavra para definir: Perfeito!!!! O Gabeira e seus mais ferrenhos seguidores sofrem de uma soberba vazia, aquele ar blasê que parece ter sempre uma visão de reprovação sobre tudo que não foi feito por eles, em que pese que nunca fizeram nada, sua coluna dorsal é composta principalmente por trintões e quarentões que ainda vivem na casa dos pais e possuem profissões e atividades difusas tipo produtores de eventos, analistas, artistas das mais variadas estirpes, quase todos escondem mais ainda vivem de mesadas e "ajudas" do "reacionário" do pai, vá entender essa tribo....
Engraçado é que essa tribo eclética tem em comum um enorme apreço pelo fim do preconceito, pena que esse preconceito combatido seja apenas o do seu interesse pessoal, tipo liberdade sexual, liberação de aborto e discriminalização das drogas "leves", agora quanto aos "outros" seu grau de intolerância e preconceito não deve nada ao mais radical "demo", se consideram éticos , morais, modernos e antenados, e por ironia destilam o mais denso preconceito por quem não faz parte da taba.
O Gabeira em sí é uma figura política sem nenhuma densidade moral, guerrilheiro por acaso, não passava de um guri de recados que mal sabia o que fazia naquele sequestro do embaixador americano, pegou carona nessa figura de "guerrilheiro e inconformado" para traçar uma trajetória política que é a ponte que liga nada a coisa nenhuma, um verde que deveria viver vermelho de vergonha por ter feito parte da base de apoio do desgoverno tucano que quase jogou o Brasil do barranco, não é de esquerda, não é de centro, não é de direita, não é de nada, é apenas isso que citei acima; Embaixador de uma zona sul que não tem coragem de votar na Jandira e tem vergonha de votar no Paes, outra caracteristica marcante de seus "cabos eleitorais" e entusiastas é que quase todos são portadores de ergofobia crônica, que nada mais é do que o pavor pelo trabalho, pode ser preconceito meu, mas nada muito diferente do que adjetivar pejorativamente alguém de suburbana ou achar que qualquer sambista crioulo ou não é suscetível de se vender por uma tijela de feijoada.....

Rubem Rodriguez Gonzalez em novembro 1, 2008 8:02 PM


#67

Não só Franken é candidato: ele está quase vencendo.

André Kenji em novembro 1, 2008 8:04 PM


#68

Professor,
Parabéns pelo conjunto da obra.
Muito, mas muito bom mesmo esse texto sobre a eleição no Rio. Matéria pra jiboiar com calma.
Um abraço do
Ricardo Amaral

ricardo amaral em novembro 1, 2008 8:50 PM


#69

Parabéns pelo aniversário ao blog e ao blogueiro.

O moralismo não é novo: UDN na veia...

A rejeição a Lula e ao PT na classe média explica-se não pela ética, mas por uma questão bem mais mesquinha: uma inflaçãozinha comendo a renda, impostos arrochando, diminuição nos empregos de alta qualificação (nada disso é novo, começou no governo FHC). Mas o pior de tudo é ver os pobres "subindo na vida" - afinal a classe média se define por "ser melhor de vida" que os pobres. Quando essa diferença diminui demais os classe média se revoltam.

Só dois tipos de solução: ou dá um jeito de a classe média subir ou acaba com essa festa de melhorar a vida dos pobres...

André Egg em novembro 1, 2008 10:17 PM


#70

''Só dois tipos de solução: ou dá um jeito de a classe média subir ou acaba com essa festa de melhorar a vida dos pobres...''.

Discordo, André. Isso não é solução coisa alguma. Isso está mais para um gigantesco retrocesso.

Deixar de melhorar a vida dos pobres resultará no fim da Democracia (o que temos dela, ainda, pelo menos), pois daí os pobres irão preferir qualquer general que lhes prometa e que faça alguma coisa por eles do que um político civil safado que não lhes beneficie em nada. E se não tiver um general, então serve uma milícia ou um traficante, mesmo.

E isso de dizer que a classe média brasileira não se beneficiou com o crescimento da economia é balela. A classe média nunca viajou tanto ao exterior, nunca trocou tanto de carro zero como agora, no governo Lula. Então, está reclamando do que? A situação apertou? reclamem com o pateta do Reagan, com o Greenspan, com o imbecil do Bush, com o Greenspan e com os patetas que ele levou para o governo junto com ele, que ficaram repetindo essa baboseira de mercado auto-regulador que somente existe em panfletos de quinta categoria escritos por economistas medíocres e que defendem interesses escusos e retrógrados.

A classe média não quer viver num país civilizado, de Primeiro Mundo? então, ela que aproveite as viagens que faz, frequentemente, aos EUA e Europa para verificar se lá temos tanto esgoto a céu aberto como aqui, tantas favelas, barracos, cortiços, palafitas, tanta fome e miséria como há no Brasil.

A concentração de renda no Brasil ainda é uma das maiores do mundo e temos que continuar reduzindo-a, caso essa classe média queira viver num país minimamente civilizado.

Do contrário, ela que não reclame quando algum general, miliciano ou traficante 'tomar conta do pedaço' e impor a sua autoridade, pelo fato de que ela, classe média, não permitiu que o Estado fizesse isso.

Assim, quem tem que mudar é a classe média.

Marcos D. em novembro 2, 2008 12:48 AM


#71

Idelber, meus cumprimentos atrasados pelo seu aniversário! Pela densidade de suas análises, sempre o vi como (bem) mais velho! rs

Marcos D. (#70),
Não creio que o André Egg tenha dito que deseje uma das tenebrosas alternativas. Foi mais uma tentativa de explicar esse aspecto 'moralista classe média' de algumas pessoas (às vezes, sequer classe média), dizendo de seu incômodo em ver os pobres 'chegando'. Não sei se é relevante o contingente de pessoas que pensam assim (espero que não), mas não imagino alguém defendendo isso abertamente como política.

Douglas em novembro 2, 2008 1:47 AM


#72

Douglas, eu sei que o André não defendeu nenhuma destas alternativas que ele citou e que eu critiquei.

Eu apenas quis mostrar que as pessoas que as defendem (e elas existem, sim) estão equivocadas e pelos motivos que apontei.

O André é inteligente e civilizado demais para defender políticas tão retrógradas quando as que ele citou.

Mas, posso garantir que, pelo menos em São Paulo, tem muitas pessoas que defendem estas alternativas que o André colocou na mensagem. Politicamente, as coisas não são ditas, assim, na cara-dura, mas tais pessoas defendem isso, sim.

Existe, sim, uma forte rejeição de uma certa 'classe média' à ascensão social dos mais pobres. É coisa do tipo "o que esse pobretão está fazendo estudando na mesma faculdade que eu?". Ou então "Onde já se viu pobre comprar DVD, TV de LCD e carro?. Isso é o fim do mundo. Assim, onde é que nós vamos parar?".

Então, o André está corretíssimo quanto à análise que ele fez, sobre essa forte resistência, da 'classe média', à ascensão social, econômica e política dos mais pobres.

Marcos D. em novembro 2, 2008 6:39 AM


#73

Parabéns, Idelber.

Um pitaco em referência aos últimos comentários (69 e 70):
Há uma classe média que refere-se a si mesma no passado como tendo tipo um passado "humilde" e o "quanto deram duro" para chegar ao seu lugar. Lugar que "lhe é direito" Mas é muita balela. Ela se acha sofrida, mas sempre conviveu com pequenos privilégios e nem imagina ( porque sequer tem pálida idéia) o que é ser pobre. Então esta ascenção dos pobres incomoda e assusta, porque a competição por postos de trabalho, por exemplo, fica mais acirrada: se o filho do pobre também chega á faculdade (via Pró- Uni) e depois a uma pós-graduação, poderá competir em igualdade de condições e daí o filhinho que sempre estudou no colégio particular vai ter que enfrentar competição mais dura.
No fundo ela sempre defendeu a inconfessável idéia do "farinha pouca, meu pirão primeiro".

tereh em novembro 2, 2008 9:00 AM


#74

Caro Idelber.

Reduzir a política à moral(ética) é tão desarrazoado quanto reduzir o direito à moral.
Não se pode olvidar que os ideólogos do Golpe Militar que derrubou um governo constitucionalmente eleito (João Goulart)- Carlos Lacerda à frente, Marcha com com Deus e a Família, Igreja Católica, etc - tinham um discurso ancorado na moralidade.
Fernando Gabeira me traz à lembrança Carlos Lacerda.
Parabéns pelo seu aniversário e pelo blog-recanto de análises políticas equilibradas-do qual sou leitor assíduo.
Um forte abraço.

Cléversonn Faria Costa

Cléverson Faria Costa em novembro 2, 2008 10:23 AM


#75

Idelber,

Parabéns pra você e para o Biscoito: muitos e felizes anos de vida pros dois!

grande abraço,

Cleber

Cleber em novembro 2, 2008 10:49 AM


#76

PS: post extraordinário, ainda mais em plena ressaca pela vitória do Fogaça... onde mesmo é que foi parar a política, hein?

Cleber em novembro 2, 2008 10:53 AM


#77

Meu caríssimo Idélber, seja muito bem vindo ao cada
vez mais numeroso time dos "enta". Que você tenha
muita saúde para continuar brindando amigos e
admiradores com seus escritos e seu brilhante trabalho intelectual. Tenho esperança de que o nosso Galo, com o Alexandre Kalil, renasça das cinzas. Pelo menos Bel e eu tivemos a glória de
conhecer o Maracanã naquela tarde em que o Galo derrotou o Flamengo por 3 X 0. Lembramos de você lá, foi divertido. Então, parabéns para você e nosso melhor abraço (Sérgio e Bel)

Antônio Sérgio Bueno em novembro 2, 2008 11:41 AM


#78

Considerar Gabeira sinônimo de ética, dá bem a medida de como o termo "ética" anda tão degradado nesta nossa época.

Para ficar em dois exemplos:
1.a sua coligação e seus apoiadores (psdb, armínio fraga, etc) são éticos???

2.As votações e posicionamentos de Gabeira como deputado. Alguém já ouviu uma declaração crítica sobre o "reinado" FHC????

Renato em novembro 2, 2008 12:07 PM


#79

Parabéns pela análise e pelo aniversário!

Belo tema para aprofundar discussões : ética , política e moral.Valeu muito. Você poderia coordenar leituras e discussões sobre o tema.
excelentes comentários, dá vontade de participar e debater o tema com um grupo/pessoas que comentaram aqui.

liz em novembro 2, 2008 2:35 PM


#80

Um abraço afetuoso a todos os amigos que passaram por aqui. O tema do post me é muito caro e deve voltar ao blog em breve.

Estou me recuperando da ressaca da festa de aniversário e devo voltar mais tarde com um post sobre as eleições americanas.

Idelber em novembro 2, 2008 2:42 PM


#81

Caro Idelber,

Parabéns pelos 40 anos, e parabéns pelo magnífico post. Essa redução da política à moral é o inverso do malufismo, não? É o "não faz, mas também não rouba", no fundo tão pobre, ingênuo e ao final perigoso quanto seu inverso.

E é também questão parecida com o "fim da divisão esquerda/direita" que foi tão falado na eleição de Sao Paulo. Curioso como os que defendem essa idéia só faltam terminar suas defesas com a frase "esse pessoal de esquerda não percebe que esquerda/direita não existe mais?"

Curioso também como a junção das duas idéias ("moral sobre política" e "fim da dualidade esq/dir") foi a base do discurso que serviu para eleger como prefeito de SP justamente um direitista com carteira política de ética para lá de duvidosa. Interessante perceber a que tipo de políticos esses dois discursos beneficiam.

Daniel em novembro 2, 2008 3:26 PM


#82

Desde a Era Vargas, o eixo dominante da política brasileira é a aliança do Sotão, com o Porão, do interesse burguês com a classe operária e o lumpen, do tipo eu-te-reconheço-minimamente-e-você-aceita-ser-explorado, o que deixa a pequeno burguesia emergente , especialmente em época de crise, tiririca, e a leva a propor um consenso burguês mais exclusivo e "meritocrático", em cima de uma ênfase pseudo-kantiana numa Ética supostamente universal - quando a verdadeira solução seria que esta mesma pequeno-burgursia aceitasse liderar os de baixo contra o consenso burguês dominante. Como o Governo Lula é a expressão ampliada deste consenso populista (Alta Finança+Burocracia Sindical+Bolsa Família) nada mais natural que seus inimigos sejam o neomalufismo do Kassab e o neolacerdismo do Gabeira. Só que o Rio e uma cidade por demais deprimida para que este tipo de jogada possa funcionar. Bem ou mal, a pergunta que se coloca é: se a Ética meritocrática é um universal, se você declinasse até o nível do "suburbano", você aceitaria ter de enfrentar a vida sem direito a qualquer benesse fisiológica? Sem a proverbial "feijoada"?

Carlos em novembro 2, 2008 3:58 PM


#83

Alba, li com atenção suas objeções. Prometo voltar ao tema, mas deixo para você e os interessados estes números com a diferença entre Paes e Gabeira por zona eleitoral. Infelizmente, o link não inclui as taxas de abstenção, que são chave também. Mas, analisando esses números, fica difícil dizer que Gabeira foi bem "nos subúrbios".

Quanto às alianças espúrias, bem, a minha posição sempre foi a de que o primeiro passo realmente efetivo contra elas seria uma reforma política real e justa.

Mas desta, nem sinal, por enquanto :-(

Idelber em novembro 2, 2008 4:44 PM


#84

Oi Idelber, gostei muito de sua análise, que é muito pertinente. Abraço.

Miguel do Rosário em novembro 2, 2008 4:57 PM


#85

"carreira política", não "carteira política"

Daniel em novembro 2, 2008 6:01 PM


#86

Idelber,

meio off-topic, mas interessante o ponto levantado pelo Cesar Maia:

"ONDE ESTAVAM OS PREFEITOS ELEITOS NAS ÚLTIMAS ELEIÇÕES?

Fogaça, eleito em Porto Alegre, estava no PPS. Paes, eleito no Rio, estava no PSDB. João Henrique, eleito em Salvador, estava no PDT. Hoje os três no PMDB!"

z.e.h. em novembro 2, 2008 6:16 PM


#87

Miguel, vi o mui hiperbólico elogio que você me fez no seu blog. Obrigado :-)

Idelber em novembro 2, 2008 6:29 PM


#88

Uma explicação para a abstenção na eleição do RIO:
Gabeira perdeu milhares de votos quando ele se revelou por inteiro. Não, não foi só no caso da "vereadora analfabeta e suburbana". Foi no apoio do Clube Militar. Ficou patente (ops!) que ele é um candidato do projeto político da direita, com Serra à frente.

Marco Vitis em novembro 2, 2008 7:16 PM


#89

Parabéns, Idelber, pelo aniversário e lúcida análise das eleições no RJ. A abstenção no RJ sempre foi elevada, em especial na Zona Sul. Se somos favoráveis ao voto facultativo não deveríamos teorizar se o eleitor prefere ficar em casa a votar em algum candidato. Acho que o discurso ético do Gabeira não sensibilizou esse eleitor o suficiente para que ele fosse à seção eleitoral votar.

André Galvão em novembro 3, 2008 6:03 AM


#90

muitos PARABÉÉÉÉÉNS, maestro.
:>)
bijucas mil.
:>*

Biajoni em novembro 3, 2008 9:00 AM


#91

Idelber,

Parabéns pelo seu aniversário.

Desculpe a sinceridade, mas essa nova análise da "onda verde" é tão inconsistente quanto as anteriores que vi durante e após as eleições, daqueles que apoiaram dissimuladamente Paes, dizendo-se apenas contrários ao Gabeira.


O primeiro argumento insustentável, ao meu ver, é o da "ausência de propostas". Ora, dizer que Gabeira não apresentou propostas só pode vir de alguém que não leu nem assistiu atentamente aos materiais de campanha. O fato é que havia uma semelhança entre não apenas Paes e Gabeira, mas entre os outros candidatos também, quanto ao "o que" deve ser feito. Aliás, Paes, como político astuto que é, aderiu rapidamente a todas as propostas e promessas populares de seus adversários. Sendo assim, nada mais óbvio que focar nas diferenças, em vez de insistir na mesma tecla. As diferenças mais marcantes entre os dois - a busca de Paes pelo apoio estadual e federal como garantia de recursos, contraposta à busca de Gabeira de parcerias principalmente com a iniciativa privada, a longa experiência política de Gabeira, e a maior experiência administrativa de Paes, além da questão ética - foram exploradas por ambos os candidatos.

A diferença ética, longe de ser a bandeira inicial de Gabeira, passou a sê-lo quando Paes assumiu para si a carapuça de político desonesto. No princípio do segundo turno, você deve se lembrar bem, tudo indicava que teríamos uma campanha civilizada, de embate de idéias. Infelizmente Paes iniciou um movimento baseado em difamações, uso despudorado de recursos oriundos sabe deus de onde, intimidação com o uso de violência física etc. Nesse caso, não seria possível que a ética não se tornasse a questão central. Quem tratou de "reduzir a política à ética", ainda que de forma negativa, foi Paes, que lançou o princípio de que vencer em política é apenas uma questão de ter MENOS ESCRÚPULOS.

Quanto à "despolitização do discurso político", só posso entender essa avaliação como míope e irracionalmente auto-centrada. Em toda sua carreira política, desde que voltou do exílio, Gabeira manteve seu compromisso com a agenda verde, e o demonstrou em todas as suas campanhas. A defesa da discriminalização dos crimes sem vítimas e da flexibilização da sociedade quanto à forma como o indivíduo decide viver e expressar-se sempre estiveram em seu discurso. A integração da cidade à comunidade internacional, a busca do turismo enquanto fonte de riqueza e forma de viabilizar a preservação ambiental, a gestão sustentável das cidades, a opção por soluções que diminuam a dependência da cidade em relação aos carros - tudo isso faz parte do programa verde, e tudo isso esteve presente nas propostas de Gabeira para a prefeitura do rio e são claramente propostas políticas.

E, claro, é sim uma proposta política a do exercício de democracia de forma mais direta, com as negociações se dando mais diretamente com os cidadãos que com os partidos. Se você se der ao trabalho de ler o programa de governo do PV, encontrará uma menção às formas de "democracia direta", especialmente em questões locais. Dizer que essa forma de se fazer política é "despolitização" é dizer que só a sua forma ou do seu partido de tecer alianças é o único que é concebível. Não é. Claro que todos tem o direito de não concordar com esse discurso, e de rejeitá-lo nas urnas - como o fizeram. Mas negar que seja político é negar a existência de vontades, de reivindicações legítimas a parcela da população que não se enquandra no sistema de polarização que tem em uma das pontas as SUAS reivindicações.

Quanto à "desqualificação do eleitorado" do adversário como característica da campanha de Gabeira, mais uma vez peço desculpas pela sinceridade, mas isso sim é que cinismo. Tenho visto neste blog, no "vermelho" e outros da dita "equerda", inúmeras generalizações e ataques à "burguesada", à "classe média hipocrita", "classe média alienada", "classe média culpada", "riquinhos da zona sul", "elite burra", entre outros. O próprio Paes fez toda sua campanha em cima do conceito de que Gabeira é "candidato das elites", "candidato da Zona Sul", indicando claramente que morar na Zona Sul para ele é algo pejorativo (apesar de ser onde ele mesmo mora).
Não me lembro de nenhuma palavra de Gabeira ou de seus eleitores e apoiadores desqualificando aqueles que votam em Paes (você poderia citar um exemplo?). Nos comentários deste blog por exemplo, só me lembro de anti-gabeiras desqualificando generalizadamente todo os que votam em Gabeira, discutindo "o problema dos eleitores de Gabeira" etc.

Aliás, essa é prática mais comum da "velha esquerda". Desqualifica o seu próprio eleitorado, impondo-lhe a agenda da "vanguarda política", classificando-o em classes - elites e trabalhadores - que só não votam sempre em seus "verdadeiros" representantes porque são facilmente manipuláveis pela "mídia". Como se o povo não pudesse votar na dita "direita" porque acredita que esta representa melhor alguns de seus interesses que a "esquerda".

Ainda não vi manifestação dos eleitores ou apoiadores de Gabeira menosprezando o resultado das eleições com base em uma "falta de politização" dos eleitores de Paes. Quando muito, vi pessoas indignadas com a possibilidade de que os tais 55mil votos tenham sido obtidos com força bruta e fraude. Por outro lado, mesmo antes das eleições, o partido de Jandira já desqualificava a possível vitória de Gabeira como fruto da "classe média hipócrita".

Aliás, qualificar de "apolíticas" ou "despolitizadas" as reivindicações da população é o maior desrespeito aos eleitores, tenham votado em quem seja: é negar-lhes o direito de querem aquilo que os líderes não querem.


abraço,
Lucas

lucas em novembro 3, 2008 10:03 AM


#92

Parabéns duplo.
Pelo aniversário, mesma data natalícia deste seu leitor.
Pelo post. Bela análise, sobretudo por pairar acima das dicotomias rasas do tipo classe média retrógrada, voto popular progressista.
E que terça seja um dia para se comemorar.

João Paulo Rodrigues em novembro 3, 2008 10:28 AM


#93

Desculpe Lucas, mas tendo a concordar com o Idelber. Uma das primeiras propagandas do Gabeira tinha aquela musiquinha horrível, sem ginga, repetitiva, meio claustrofóbica, que repetia: "O Rio de Gabeira, Gabeira, Gabeira", com, ao fundo imagens dele rompendo com a política fisiológica e anti-ética (dele e Jungman lutando com os seguranças da Câmara). Outra propaganda já do início usava os discursos dele contra Severino. O fato é que Gabeira se baseou sim no que o Idelber aponta.

João Paulo Rodrigues em novembro 3, 2008 10:32 AM


#94

Apenas exemplificando, de comentário acima:

"sua coluna dorsal é composta principalmente por trintões e quarentões que ainda vivem na casa dos pais e possuem profissões e atividades difusas tipo produtores de eventos, analistas, artistas das mais variadas estirpes, quase todos escondem mais ainda vivem de mesadas e "ajudas" do "reacionário" do pai, vá entender essa tribo...."

É assim que se referem aos eleitores de Gabeira. Chamara Lucinha (veja bem: uma vereadora e não os eleitores todos) de analfabeta política com visão suburbana não é nada.

Precisa mais alguma coisa?

Incrivelmente, a esquerda não saiu do lugar desde a década de 60, quando excluia de seus partidos os homossexuais e jogava ovos em artistas por usarem guitarras elétricas.

lucas em novembro 3, 2008 10:40 AM


#95

João Paulo,

Seria burrice do Gabeira não utilizar imagens de um episódio que o deram notoriedade nacional. Assim como seria burrice do Paes não utilizar sua experiência como sub-prefeito. Isso não significa que as campanhas se reduzam a apenas isso.

abraço,
Lucas

lucas em novembro 3, 2008 10:42 AM


#96

Parabéns. Desejo pra ti, e pra nós todos, uma belíssima vitória de Barack Obama. Por tudo que ela representa para esta nova ordem mundial.
um abraço

socorro em novembro 3, 2008 10:46 AM


#97

As reivindicações da classe média em processo de descarte pela acumulação capitalista (outra previsão certeira de Marx) são plenamente legítimas, o que é absurdo é que ela queira fazer da sua agenda o centro do universo e vilificar os que não podem se dar ao luxo de sustentar seus pruridos morais. Em outras palavras: se eu estou sem comida ou saúde e a maneira imediata que tenho de obter um ou outro é vendendo meu voto, quem me critica deve oferecer-me um programa político alternativo ou abster-se de me dar lição de moral...

Carlos em novembro 3, 2008 1:14 PM


#98

Carlos,

Obviamente o problema da compra de votos não é de alguém que esteja morrendo de fome e sim dos políticos que compram votos - que deveriam ir para a cadeia.
Assim como o problema da coação física não é das vítimas mas do criminoso.

Agora, em que momento a "classe média em processo de descarte" pretendeu dar lição de moral nos que não podem "sustentar seus pruridos morais"? Quando acusou Paes de cometer crimes eleitorais? Então se opor a um crime é se opor à vítima!?

Esse papo todo está muito esquizofrênico: parece que se nós criticamos um candidato estamos necessariamente sendo preconceituosos contra quem o apoia. Mas não funciona assim, pelo menos pra quem acredita que as pessoas são indivíduos e não meros membros de castas.

Tem gente que tem mania de projetar nos outros seus próprios preconceitos e falhas...


lucas em novembro 3, 2008 1:57 PM


#99

Idelber,

Onde exatamente a campanha de Gabeira tentou mostrar que quem vota em Paes não é "consciente"? Que quem vota em Gabeira é a "metade" "consciente"?

Quem acha que "se não vota na gente está sendo manipulado" é o PT.


abraço,
lucas

lucas em novembro 3, 2008 2:16 PM


#100

Idelber,

Essa de desqualificar os eleitores do outro candidato como não tendo "consciencia" é a onda do PT, do PCdoB, a "onda vermelha".

De fato, o mesmo preconceito: se levantam outras bandeiras que não são as minhas é porque são vendidos, dissimulados, hipócritas. Ninguém tem direito de querer algo a não ser o que ditam os líderes da "classe". E não apresenta qualquer evidência dessa suposta mentalidade. É porque é.

Sua argumentação é apenas uma forma um pouco mais educada do texto abaixo.


Do blog "vermelho" (Gilson Caroni Filho):


Um estrato que se enxerga como inovador no trabalho, nas manifestações artísticas e na política, mas como nenhum outro representa a cultura da submissão ao poder e de intolerância a quem não partilha sua cultura de classe.


Esconde seu conservadorismo autoritário empunhando bandeiras que vão da liberação sexual a movimentos ecológicos e descriminalização de usuários de drogas, mas, quando confrontada com perda de privilégios, não hesita em expressar a verdadeira face ideológica: aquela que revela seu caráter histórico submisso e seu velho hábito de festejar formas de poder que recusam a cidadania, não distinguindo o público do privado.


É dessa tensa dialética entre ideal do eu e sua verdadeira subjetividade que nasce a identidade entre a classe média carioca e Fernando Gabeira. Ambos sabem que não são como se apresentam, mas não podem viver sem a auto-imagem construída por meio de omissões espertas.


Precisam repetir como mantra: ”Somos éticos, progressistas e democratas". E se a realidade não confirmar nada disso, não haverá problema. Pois tal como na letra de Adriana Calcanhotto, “cariocas são modernos/cariocas são espertos/ cariocas são diretos/ cariocas não gostam de dias nublados”.

lucas em novembro 3, 2008 2:54 PM


#101



1) A candidatura Gabeira nasceu e cresceu sob o impulso da ideologia udenista: do moralismo pequeno-burguês (os políticos são todos iguais;não me submeto aos partidos) ao elitismo (vou acabar com o crescimentos das favelas e mandar os imigrantes de volta para o Nordeste). Essa ideologia embasou o apoio da classe média ao golpe em 64 e desgraçadamente permanece hegemônica entre os de "nível superior" no Brasil desde então, alcançando inclusive muitos à esquerda.

Essa a razão do seu sucesso na zona sul.

Há gente na esquerda que pretende disputar com a direita a base social udenista Para mim, esse pessoal está é sendo engolido pela direita (o FHC é exemplo disso). Aliás, a candidatura Gabeira para mim evidenciou isso. O apoio velado do General Gilberto a Gabeira, no Clube Militar, evidencia isso. A propósito, como defendo outra herança ideológica, a da antiga aliança PSD/PTB não deixei de apreciar esse apoio, pois os oficias 'legalistas' e profissionais (que querem distância do Clube Militar) perceberam bem quem são hoje as 'viúvas' de Lacerda, as vivandeiras de quartéis, como dizia Castelo Branco.

O curioso é que antes, era o PT que disputava a base social udenista com a direita (não me alio com populista e fisiológico,diziam meus adversários petistas no ME). Por isso Brizola disse, no passado, que o PT era a UDN de macacão.

Mas para os que como eu querem resgatar a tradição da aliança trabalhista/pessedista, felizmente o PT se afastou do neoudenismo e se aproximou da herança trabalhista e popular. Na verdade, o processo político e o povo pobre obrigaram ao PT a se aproximar dessa herança, que deu sustentação a Lula, nos momentos mais difíceis do seu Governo e é a única que de fato pode levar "os de baixo" a apoiarem um processo de reformas sociais e a fazer frente à avassaladora hegemonia ideológica udenista, representada especialmente pela grande mídia, de que a TV Globo é o mais expressivo porta-voz.

2) Negrão de Lima foi candidato do PSD, apoiado pelo PTB e pelo PCB, contra o udenismo (o regime de 64 foi o Estado Novo da UDN, disse Tancredo, numa tirada tão genial quanto a de Brizola a que me referir atrás).
Gabeira foi o candidato do neoudenismo de hoje. Paes (que felizmente deixou a PSDB/UDN, ele que foi um 'campeão' do udenismo no episódio do "mensalão") foi candidato do PMDB (que representa hoje o velho PSD) e teve no segundo turno o apoio dos partidos de esquerda e dos movimentos populares e trabalhistas.
O "suburbana" e "analfabeta política" ditos pelo Gabeira (o mais significativo e irônico é que falava sobre uma sua aliada!) tem tudo a ver com o seu novo entorno político. Não é à toa que teve 70% dos votos de Ipanema e ganhou com folga também lá na Barra da Tijuca. Ou seja, Gabeira ganhou na 'velha' e na 'nova' "elite branca" do Rio.

3) O fato mais promissor da eleição de Paes foi a aliança entre o centro reformista , que ele representa, a esquerda popular e trabalhista (PT/PCdoB/PDT/PSB), o centro fisiológico (oPTBdaIvete e o PP) e o neopetencostalismo, esse importante movimento religioso de base popular- que é desprezado pelo elitismo neoudenista e que tem proporcionado auto-estima a parcelas expressivas do povo pobre do Rio, desprezado pelo catolicismo zona sul dos filhos e netos dos que "marcharam com Deus pela família...".

Essa aliança representa um aprofundamento da unidade democrático e popular no Rio de Janeiro, que foi retomada em 2006, com a histórica aliança Lula/Sérgio Cabral no segundo turno das eleições.

Como disse um decepcionado eleitor de Gabeira, sobre o sentido político relevantíssimo do fato que ele constatou corretamente na derrota do Gabeira: "os pobres têm interesses diferentes dos que votaram em Gabeira".

Saudações janguistas,

Fernando Trindade

PS: Uma das grande contribuições do Governo Lula para o Brasil é ter possibilitado a retomada do 'fio da meada" da política brasileira, rompido pelo Golpe de 64. As grandes linhas político ideológicas que deitam raízes em nosso passado (udenismo, pessedismo, trabalhismo) foram reprimidas pela ditadura (embora contraditoriamente ela mesma tenha sido uma combinação de UDN/PSD, com predomínio da UDN). A ditadura tentou 'zerar' a política e a sociedade brasileiras, mas isso é impossível. Aos poucos, com a redemocratização, as linhas ideológicas básicas foram retornando e no Governo Lula o 'o fio da meada' está se completando. Não se pode 'zerar' a herança cultural dos povos e nações (aliás, essa uma das razões do fracasso do socialismo e da URSS, mas isso fica pra outro dia...)


Fernando Trindade em novembro 3, 2008 4:11 PM


#102

Então, após uma semana de comemorações pela vitória do candidato da “base de sustentação do presidente Lula” no Rio, de ter passado a dormir tranqüilo após a “onda vermelha” ter inundado também esta cidade, o professor Idelber vem nos ensinar como os deméritos, fraquezas, inconsistências e, é claro moralismo pequeno-burguês e elitismo do Gabeira, resultaram em sua derrocada . Eu sei que ele teve o cuidado de não utilizar essas duas últimas expressões, pois é um intelectual “de esquerda” muito mais esperto do que a grande maioria. Mas não tem como escapar: a maior parte do post é pura mistificação.

A maior delas, que lastreia todo o post é a premissa que em política não há lugar para moral, para ética, que tentar exercê-la é uma pretensão absurda, uma idiotice, algo “de uma frente de classe média que quer reescrever a política com o vocabulário da moral”. Compreendo sua posição. O Idelber teve que desistir de qualquer cobrança de moralidade no exercício de funções públicas desde que o “governo do presidente Lula” disse a que veio. Não gastarei o espaço deste blog listando as alianças com o pior da política tradicional, com as compras de votos, com as inúmeras falcatruas cometidas, todos aqui conhecem tudo isso. Este foi o preço a pagar para continuar apoiando o “governo de esquerda”, coisa que o Gabeira não topou. Aliás, me parece que esta foi a origem da “ojeriza irracional” que o Pedro Dória acredita que o Idelber sente pelo Gabeira. É explicável, é uma sensação muito ruim, freqüentemente insuportável, que se sente quando se vê alguém desprezar solenemente algo que se julga muito precioso. O Gabeira poderia ter seu quinhão na partilha do estado brasileiro, mas simplesmente não quis. Esnobe filho da puta!

Me diga, Idelber, alguém com o currículo, ou melhor, prontuário, do Paes ou de qualquer um dos seus grandes padrinhos, teria um mínimo de condições para se candidatar a algum cargo eletivo nos EUA? Estariam todos na cadeia, não é mesmo? Por que aí não pode, mas aqui pode? Por que os americanos podem escolher seus dirigentes baseados também em padrões éticos e morais e nós não podemos? Por que, neste particular, o que é bom para os EUA não é bom para o Brasil?

Voltando ao texto, a campanha não era baseada em mera “superioridade moral” do Gabeira ante o Paes. Este é uma figura irrelevante, abaixo da crítica. A grande diferença era entre a proposta de um governo exercido com lisura, transparência e comprometido com o interesse público, e o velho modo de fazer política no Rio (não só no Rio, é claro), que simplesmente arruinou a cidade, tornou a vida dos cidadãos um martírio constante, a bagunça, a sujeira, o vale-tudo, o “ilegal, e daí?”, a divisão entre “os que tudo pagam e os que tudo podem”, a privatização dos espaços públicos, a favelização de todo e qualquer espaço vago, inclusive do asfalto e das calçadas, a associação entre o poder público e a contravenção e a criminalidade, as mil formas de desvio do dinheiro dos contribuintes etc. etc. etc. Paes é a garantia de continuidade de tudo isso, que ninguém se iluda. Era para combater todo esse horror que se votava no Gabeira, mesmo sabendo que dificilmente ele conseguiria sucesso. Uma tentativa, uma aposta em algo diferente, um “new deal”, mesmo sem alguém com a estatura e recursos de um Roosevelt. Simples assim. Mas, como já foi observado por vários outros comentaristas deste blog, a “grande política nacional” não hesita um só instante em sacrificar o Rio no altar dos “interesses maiores do programa do governo do presidente Lula”. E estes determinaram que não há espaço para nada diferente para o Rio: é mais do mesmo e não encham o saco! O Idelber concorda, tanto que admite que “o outro (Paes) é o candidato das milícias, do establishment da corrupção e do oportunismo”. Em termos ainda mais claros, “ É um filho da puta sim, mas é o noso filho da puta!”. O que dizer depois disto?

Tudo o mais é detalhe, não vale a pena alongar-se neles em demasia, mas alguns tópicos valem comentários:

- Abstenção elevada nos redutos do Gabeira: Concordo que é um fenômeno que deva ser melhor analisado, até por que foi a causa da derrota do candidato. Pelo meu conhecimento da mentalidade hedonista dos cariocas, um feriadão de tempo bom é um convite irrecusável ao lazer. Isto também é válido para o pessoal da Zona Oeste, só que estes ficam jogando bola, bebendo e fazendo churrasco perto de casa, enquanto que os da Zona Sul vai se engarrafar na Região dos Lagos e na Serra. Os primeiros podem votar, os outros, não. Qualquer proposta de não viajar para votar seria considerada absurda, “os outros” elegeriam o Gabeira no lugar deles. Deu no que deu. A agulhada do Idelber que “os conscientes” brindaram o Gabeira com abstenção é válida, lamentavelmente. Em tempo: a apresentação do percentual dos votos obtidos em relação ao total de votantes é um recurso clássico de desqualificação dos candidatos, em geral dos vencedores (mas o Gabeira quase venceu...). O que você diria se alguém usasse o mesmo recurso com o Obama? Aposto que, caso vencer, terá um percentual de votos inferior ao do Gabeira;

- Desprezo pela “Suburbanada”: Foi um vacilo do Gabeira, sem dúvida, e largamente explorado pela publicidade do Paes. Agora, não posso acreditar que alguém tão ilustrado como o Idelber tenha realmente tomado a palavra ao pé da letra, morador do subúrbio. Esta é uma expressão mais geral, que significa pessoa de mentalidade curta e comportamento pouco polido, que pode ser empregado inclusive em pessoas que moram “bem”, em geral, novos-ricos de primeira geração. É o oposto de “cosmopolita”, o que o Gabeira é. Imagino o quanto ele sofreu com pessoas desse tipo. Já sei, político tem que aturar essas coisas, mas foi um desabafo em particular. Em tempo: ser “suburbano” não é o mesmo que não ter moral ou ética, é algo perfeitamente transável;

- Dicotomia “eleitores ignorantes x eleitores esclarecidos”: O simples fato de conseguir superar a fabulosa máquina publicitária do Paes já conta muitos pontos quanto ao nível de esclarecimento dos eleitores do Gabeira. Não é tudo, mas é bastante. Após a eleição, eu conversei com diversos eleitores do Paes e nenhum deles tinha boa idéia do que tinha feito. “Está mais próximo dos pobres” (o grande mote da propaganda), “Vai conseguir mais dinheiro para a cidade (outro mote), “O Gabeira é muito esquisito” (não há como discordar, ele não é óbvio), foi o que mais ouvi. Dos eleitores do Gabeira: “Não agüento mais este vale-tudo e o Paes vai dar continuidade a tudo isto”. No Rio há uma quantidade absurda de gente que não somente vive na desordem e se acostumou com isso, mas também que vive da desordem e topa qualquer parada, inclusive associação com a criminalidade (não se julgam criminosos por isto) para garantir “o seu”. Neste ambiente, onde o voto não pode ter qualquer sentido mais profundo, o fisiologismo e a compra de votos são comuns, alguém como o Paes sempre se dá bem. Elitismo da minha parte? Não, apenas convivência com os mais diversos extratos sociais e localidades do Rio sem antolhos ideológicos;

- Desprezo pelo samba e pela feijoada: É o argumento mais absurdo e apelativo que já vi. Deve ser a “versão Idelber” do pastiche de luta de classes que o “presidente Lula” não perde chance em fazer: para ele, qualquer um que não seja “povão” (como ele) despreza o povo, é seu inimigo etc. Então os “sambistas” foram ao encontro regado a samba, suor e ouriço para discutir política no mais elevado nível. É claro, é claro...

- Proposta de conversar com o eleitorado dos outros candidatos diretamente, sem mediação: Esta também é ótima! Quer dizer que um candidato a uma eleição direta não deve se dirigir aos eleitores “dos outros candidatos”, como se os votos pertencessem aos candidatos e não ao eleitor, mas negociá-los com os políticos derrotados, retalhar a máquina pública entre interesses privados, prometer cargos (as secretarias A e B para o partido X, as secretarias C, D e E para o partido Y, a secretaria F, que é mixinha, para o partido Z, que tinha poucos votos etc. e tal) para depois governar com um Frankenstein incontrolável de interesses díspares. Exatamente o que vem sendo feito há décadas no Rio (e no resto do país) com os resultados que vemos. Enfim, o Gabeira tinha que se comportar exatamente como todo mundo, ser mais um, ser “normal”. Se fosse para isso, não precisava ter saído do PT, da “base de apoio do presidente Lula”.

Um último comentário. Idelber, você disse que “não se governa sem o PMDB”, o que alguns comentaristas do blog acharam uma frase lapidar. Pode ser, mas eu acrescento: “Mas que tipo de governo se pode esperar de tais alianças?”. Eu mesmo respondo: a continuidade do modo de administrar a coisa pública como uma ação entre amigos. Aposto que um dia você já foi contra isto. Agora que, o governo é “de esquerda”, isto lhe basta.

Luiz Candido em novembro 3, 2008 6:52 PM


#103

"a premissa que em política não há lugar para moral, para ética, que tentar exercê-la é uma pretensão absurda"...

Erro comum da Direita ao falar da Esquerda. Vou resumir citando Trotsky: "quem quer colher trigo, deve plantar uma semente de trigo". Para colher trigo, todos os meios são bons...desde que envolvam uma semente de trigo. Não se pode colher trigo jogando sal no solo, e não se pode aprefeiçoar a Democracia por um esnobismo de classe média que trata pobres como provincianos e ratardados que trocam voto por colher de feijoada...

Carlos em novembro 3, 2008 7:20 PM


#104

Carlos, vamos ver se entendi o que você quis dizer em seu curto comentário. Primeiro, você acha que o autor do trecho citado, o degas aqui, é de direita. Bem, se eu disser que a trilogia do Isaac Deutcher sobre Trotsky são os livros mais preciosos que tenho em minha modesta biblioteca, você não vai acreditar. Segundo, você considera a luta por um mínimo de moralidade no trato da coisa pública não passa de "esnobismo da classe média" (nova versão da velha expressão "moralidade pequeno-burguesa"). OK, mas nunca mais reclame quando as falcatruas dos governantes - de qualquer partido - forem reveladas. Terceiro, você acha que eu disse que o povão troca seu voto por uma colher de feijoada. Eu creio ter dito que a troca muitas vezes existe, mas quando acontece é por muito mais do que isto. Ou você não acredita que no Brasil há o comércio de votos, nas mais diversas formas? Tal crença seria o exercício de uma moralidade totalmente desvinculada da realidade.

Luiz Candido em novembro 3, 2008 8:52 PM


#105

Carlos, somente agora eu pude ler os comentários anteriores. Achei alguns excelentes, como os do Lucas - parabéns, cara! - e um seu, o #97, com um trecho digno de nota:

"...se eu estou sem comida ou saúde e a maneira imediata que tenho de obter um ou outro é vendendo meu voto, quem me critica deve oferecer-me um programa político alternativo ou abster-se de me dar lição de moral"

Não resta dúvida que você considera a venda de votos aceitável sob certas circunstâncias. Sendo assim, como você vem me acusar de pertencer a uma "classe média que trata pobres como provincianos e retardados que trocam voto por colher de feijoada"? Foi você quem disse tal coisa, não eu.

Luiz Candido em novembro 3, 2008 9:54 PM


#106

Acredito que uma crítica ao marxismo, não ao pensamento de Marx, mas ao marxismo vulgar, que confunde aliancionismo com revolução, como se esses políticos fisiológicos pudessem ser dobrados para se conseguir políticas públicas, apoiando-se em um passado político, histórico e social que, se não foi superado, creio fortemente que estamos em perigo, é urgentemente necessária. Devemos sepultar de vez os camaradas estalinistas que andam escondidos por aí. Creio que, se figuras como José Dirceu, depois do caso do assassinato do prefeito de Santo André, e pior ainda, depois do escândalo do mensalão, não tomou jeito com relação aos seus impulsos estalinistas, coisas bem piores vêm por aí.

Bruno Marcondes em novembro 3, 2008 11:29 PM


#107

Acho que talvez não tenha me explicado bem. O fisiologismo a la velho PSD/ atual PMDB é algo abominável, mas sua causa é o desamparo real de grande parte dos eleitores brasileiros. Campanhas como a do Gabeira - que se limitaram , na prática, a vilificar e desqualificar os eleitores "de baixo" e suas práticas de voto - são claramente elitistas e representam um retorno ao aristocratismo da República Velha e da UDN ("Não preciso do voto de marmiteiros", disse uma vez o brigadeiro Eduardo Gomes). A revolta da classe média é legítima, mas ela só terá um sentido historicamente progressista se se propor a uma aliança com os de baixo (o que já aconteceu, de forma muito limitada, em alguns momentos da década de 1960, e foi o suficiente para criar a maior efervescência intelectual da nossa história). Se isso não acontecer, vamos permanecer numa luta política estéril entre um bloco fisiológico liderado pelo PT e um bloco do reacionarismo puro e duro liderado pelo PSDB, o que levará a tensões de ruptura golpista sobre o pano de fundo de uma degradação acelerada de nossas práticas políticas.

Carlos em novembro 4, 2008 6:34 AM


#108

Carlos,

Mais uma vez: em que momento a campanha do Gabeira foi contra "os de baixo"? Se ele foi contra alguma coisa foi contra "os de cima", os senhores Eduardo Paes da vida.

E mais uma vez: não confunda o crime com a vítima. Há os que vendem seu voto deliberadamente sim, mas creio eu que a maioria o faz simplesmente porque precisa disso. Sem contar os que são ameaçados, vivem sob a mira de fuzis etc.

Então se queremos acabar com a compra de votos, com a coação, com o toma lá dá cá, estamos agindo contra o povo?

A alternativa é simples: aplicar os recursos públicos em serviços públicos, e não nos partidos. E buscar todas as formas possíveis para aumentar a produção de riqueza e sua distribuição.

um abraço,
lucas

lucas em novembro 4, 2008 7:45 AM


#109

Idelber,


Essa coisa toda de confundir o crime com a vítima, de achar que criticar o fisiologismo é o mesmo que criticar o povo, é bem característica de uma forma mais sinistra de elitismo - o de esquerda.

É coisa de quem pensa que os indivíduos só tem direitos - não, sejamos mais diretos - só merecem ser deixados vivos enquanto são vítimas, enquanto participam de alguma "classe oprimida" que necessita de líderes para reinvindicar mais migalhas por eles.

É a ideologia de que o povo só merece existir enquanto base de sustentação para líderes de partidos, para garantir temas para teses de intelectuais etc. Se for para falarem diretamente por si, é melhor que nem existam.

Para a "esquerda" do século XXI os pobres são apenas isso - pobres.

E quem ouse defender direitos universais, quem ouse dar voz ao cidadão, é "reacionário", está "contrário as classes populares".


abraço,
lucas

lucas em novembro 4, 2008 8:01 AM


#110

Lucas, por total falta de tempo eu só tenho uma coisa a lhe dizer: FALOU E DISSE! Sua breve análise do relacionamento entre povo e certas elites vai num ponto raramente abordado, por tabu: a manutenção das condições precárias da grande maioria do povo brasileiro é condição essencial não só para os políticos à "direita" e à "esquerda", mas também para toda uma categoria de intelectuais que vivem de estudar a pobreza e fazer discursos ocos em sua defesa. Mas se a pobreza acabar, eles perdem o ganha-pão.

Um grande abraço deste outro "reacionário do blog".

Luiz Candido em novembro 4, 2008 8:29 AM


#111

Lucas, se você enumerar as propostas programáticas do Gabeira para a inclusão dos destituídos- habitacional e ocupacional - talvez me convença. Mas como eu já disse em outro post deste blog, o programa habitacional do Gabeira era mais fraco do que o da candidata do César Maia, que pelo menos propunha criar o Banco municipal da habitação, enquanto o Gabeira propunha entregar favelas `a especulação imobiliária ("parceria com a iniciativa privada"); ele concordou com o Paes que o Rio deveria fundar seu desenvolvimento em empreendimentos de alta tecnologia, abandonando com isso qualquer proposta de um programa de obras públicas para absorver mão de obra não-qualificada; e jamais falou sequer na panacéia neoliberal de um programa de microcréditos.

Carlos em novembro 4, 2008 9:23 AM


#112

Carlos,

Conforme Pedro Dória já disse vários dias atrás aqui neste blog, parceria com a iniciativa privada não é entregar a favela para a especulação imobiliária. Especuladores são os que dominam o mercado imobiliario das favelas hoje, em geral pessoas ligadas às milíicas, que cobram aluguéis absurdos por um barraco - e ai de quem não pagar...

Se você acha que a iniciativa privada é necesseriamente ruim, não vai concordar com nenhuma proposta do Gabeira. E não sou eu quem vai te convencer, é algo mais fundamental.


Mas não é essa a questão. Mesmo que o Gabeira não tenha boas propostas para as pessoas de mais baixa renda, isso não justifica sua posição.

A minha pergunta é a seguinte: você realmente acha que combater o fisiologismo, a compra de votos etc. é agir contra o povo?

abraço,
Lucas

lucas em novembro 4, 2008 11:40 AM


#113

Lucas: se combater o fisiologismo é tratá-lo como uma mera questão policial, sem fornecer alternativas (como expansão dos serviços públicos e direitos sociais), então, sou contra este combate, por ser inútil - perda de tempo e dinheiro.

Carlos em novembro 4, 2008 4:58 PM


#114

Carlos, creio que entendi seu ponto. Lamento ter que dizer-lhe que ele está completamente furado. O erro é tratar o desvio como opção válida, na base do "Se Deus não existe, tudo é permitido" (Ivan Karamazov). Desta forma, o que era consequência se torna causa, provocando um círculo vicioso que impossibilita qualquer solução para os problemas.

Por exemplo, se utilização dos recursos públicos para sustentar os "centros sociais" dos vereadores e deputados for encarada como aceitável, uma vez que o serviço público de saúde não funciona, a solução do problema da saúde pública nunca será obtida, pois os recursos - materiais e políticos - sempre serão desviados para os tais "centros", impedindo o funcionamento da rede oficial de saúde e a compreensão da população quanto aos seus direitos, tudo sempre dependerá da bondade e boa-vontade dos "defensores dos carentes".

O fisiologismo é caso de polícia, sim, e seu combate implica de forma quase que automática em ir de encontro às verdadeiras soluções. No exemplo acima, o "enquadramento" dos deputados ou vereadores, com a cassação dos seus mandatos e suas condenações à penas em regime fechado, acabaria ou restringiria tremendamente com esse tipo de delinquência. Um poder público que levasse tal iniciativa adiante seria o mesmo que faria o uso correto dos recursos públicos, deixando evidente à população que isto é seu direito, não favor. Esta é a verdadeira promoção da cidadania, não papo furado das ONG faveleiras.

É claro que o exposto acima é muito mais complicado, perigoso e exige muito mais tempo do que simplesmente aderir ao bunda-lelê que rola no Brasil, principalmente no Rio. Quem quiser entrar nessa, tudo bem, mas não me venham com teoriazinhas sem-vergonhas para defender o indefensável.

Luiz Candido em novembro 4, 2008 9:57 PM