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Um blog sobre política, literatura, música e futebol. Na rede desde outubro de 2004



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sexta-feira, 28 de novembro 2008

Lista

Numa possível lista de pensadores dos quais se poderia extrair citações que sustentam leituras antagônicas de suas obras, teriam lugar cativo, certamente:

Friedrich Nietzsche
Jacques Lacan
Gilberto Freyre

Quem mais?

PS: Não vale pôr político na lista, evidentemente. Só pensadores.



  Escrito por Idelber às 19:24 | link para este post | Comentários (73)




Convites e links

Um convite aos paulistanos: O grande blogueiro, músico e nadador soteropolitano Ricardo Cury está lançando o seu livro, Para colorir, neste sábado. Sou velho fã do blog dele e recomendo o evento. Dia 29 de novembro, às 16h, na Livraria Pop, Rua Dr. Virgílio de Carvalho Pinto, 297, Pinheiros, São Paulo.

Um convite aos cariocas
: minha amiga, a jornalista e pesquisadora Carla Rodrigues, tem um artigo no livro organizado por Paulo Cesar Duque-Estrada, Espectros de Derrida, que será lançado no dia 3 de dezembro, quarta-feira, na livraria Argumento, no Leblon, a partir das 19h.

Parabéns ao Cury e à Carla e, quem puder, apareça.

Cardoso convidou e eu também gravei um trecho para o Mil Casmurros, um projeto em parceria com a Rede Globo.

O cartógrafo Thomas Lessman reúne numa só página sua vasta produção de mapas históricos. Aqui, o mapa-mundi de 800 DC, com o Emirado Ummayad ocupando uma enorme maioria do que hoje é a Espanha. Aqui, um outro mapa, do ano 1200, já com os reinos de Castilha e León, que se uniriam depois. Aqui, um belo livro sobre Al-Andalus, a região de controle islâmico na qual judeus, cristãos e muçulmanos viveram em (relativa) paz durante séculos.

Pedro Dória tem boas anotações sobre os ataques em Mumbai, na Índia. Em inglês, há uma cronologia do horror e uma série de links no Juan Cole, que lembra o recente ataque extremista hindu a cristãos no leste da Índia.


Nos EUA, Barbara Walters fez uma baita entrevista com Barack e Michelle:

Na medida em que Obama vai anunciando seu time, eu só consigo me lembrar do final de novembro/ dezembro de 1992, em que Bill Clinton iniciava aquela que seria uma das transições mais caóticas de todos os tempos: uma guerra de facções e interesses “plantava” notícias na mídia como estratégia de conquista de espaço; mulheres, negros, gays, latinos e todas as minorias imagináveis disputavam espaço “proporcional”; havia confusão de porta-vozes; a própria liderança, Bill, não anunciava o time compactamente porque ia usando as vagas para tentar administrar o caos. Um verdadeiro pesadelo para os progressistas, foi o fim de 92/começo de 93. O contraste com o que está sendo a transição de Obama é tão abismal que me excuso de fazê-lo.

Digby não se importa e Josh Marshall tem suas dúvidas. Eu, pelo contrário, achei Chanceler Hillary Clinton uma super escolha, epocal e inteligente (ao contrário do que teria sido escolhê-la para Vice). Hillary tem tudo para desfazer pelo menos parte da lambança dos oito anos de política externa de Bush.

Atualização: E sobre as eleições venezuelanas, quem matou a pau, de novo, foi Mauricio Santoro.



  Escrito por Idelber às 04:23 | link para este post | Comentários (20)



quarta-feira, 26 de novembro 2008

Doações a Santa Catarina

Thiago Berlim e Ricardo Aoki, de Santa Catarina, nos deixam aqui (via Biajoni) os números de contas para doações às vítimas das enchentes.

Contas do Fundo Estadual da Defesa Civil, CNPJ 04.426.883/0001-57:

Banco do Brasil - Agência 3582-3, Conta Corrente 80.000-7
Besc - Agência 068-0, Conta Corrente 80.000-0.
Bradesco - Agência 0348-4, Conta Corrente 160.000-1

São mais de 100 mortos e 60 mil desabrigados no lindíssimo estado barriga-verde. Ajude a divulgar ou deixe lá uma contribuição, se puder.

Atualização: Inagaki, claro, faz o supimpa serviço, inclusive indicando a importante iniciativa do Alles Brau.



  Escrito por Idelber às 12:40 | link para este post | Comentários (12)




Crônica de Thanksgiving

Natal ainda vai. Há algo no etos natalino – aquela história de amar ao próximo – que é bacana. A festa das crianças com o Papai Noel termina sendo, para quem é pai, um momento que vai encontrando seu espaço na galeria das lembranças. É fato que durante o Natal há que se ouvir patacoadas como esta (para assinantes), escritas como se o catolicismo cristianismo fosse uma minoria perseguida no Brasil. Esse tipo de discurso circula sem ser contestado porque, afinal de contas, retrucá-lo seria ofender parte daqueles 70% ou 80% de pessoas amadas que compõem o círculo de intimidade da maioria dos brasileiros ateus.

Mas, aqui entre nós, a pequena comunidade que lê este blog, combinemos: o Thanksgiving é um feriado irredimível.

Comemora um genocídio e escolhe fazê-lo da forma mais anti-ecológica possível, empanturrando-se de comida até o limite. Faz dessa grosseria o objeto das brincadeiras que envolvem o feriado. Marca, para muitas famílias, uma das únicas datas, senão a única, de reencontro, em geral cercada de ansiedade ou pavor de se rever o parente detestado. No cinema americano, há todo um sub-gênero que eu chamaria de Thanksgiving horror. Os mais eruditos que eu na sétima arte poderão fazer a lista.

Nadie rebaje a lágrima o reproche nada do que vai acima. Padeço, mas de ressentimento nunca. Nos meus 18 anos ao norte do Rio Grande, os feriados de ação de graças sempre foram prazerosos; sem excesso, mas fartos; com ótimas companhias e cerveja boa. No calendário da universidade, o feriado de ação de graças precede a última semana letiva. É a oportunidade de finalizar o semestre e o anúncio do desafogo que se aproxima. Nada a reclamar, portanto.

Mas é visível a melancolia mal mascarada que cerca a data. Há uma regressão à fase oral que fica ali, tão claramente pedindo uma leitura freudiana que você tende a rechaçá-la, por óbvia demais: o excesso de comida como denegação e sublimação de uma sociedade fundada no genocídio e na escravidão. Nos ideais de liberdade, autonomia, livre mercado e democracia também, é evidente. Mas esses ideais só surgem no terreno material já arado pelo genocídio e pela escravidão.

Tudo isso costuma fazer dos jantares de Thanksgiving – com ou sem futebol americano ao fundo – uma espécie de grande celebração do esquecimento.



  Escrito por Idelber às 02:27 | link para este post | Comentários (50)



terça-feira, 25 de novembro 2008

Três livros indispensáveis

Sands, Philippe. Torture Team: Rumsfeld's memo and the betrayal of American values (Palgrave, 2008). Este é o livro que detalha como a institucionalização da tortura nos EUA sob Bush foi uma operação meticulosamente dirigida a partir do Ministério de Defesa de Donald Rumsfeld. Como uma espécie de cronista do mal absoluto, Philippe Sands reconstrói a trama dos memorandos, ordens executivas, substituições de pessoal. Vasculha cada reunião de gabinete em que Cheney / Rumsfeld se impuseram sobre Colin Powell. Documenta toda a programação da atrocidade nas mais altas esferas da administração americana, de novembro de 2001 (captura do detento 063 no Afeganistão) à saída de Rumsfeld, já nas ruínas da lambança, em dezembro de 2006. O recheio da história é o memorando escrito por Jim Haynes, advogado e conselheiro do Ministério de Defesa de Rumsfeld, propondo as novas “técnicas de interrogação.” Junto à assinatura de aprovação, o suplemento macabro, o mal na sua banalidade absoluta, a imagem que fornece a capa do livro de Sands: a anotação de Rumsfeld à mão, com a ordem, “defendo 8-10 horas por dia. Por que limitar o período em pé a 4 horas?”

É o argumento definitivo contra qualquer patacoada que se tente sugerir acerca do caráter supostamente fortuito ou ocasional da tortura em Guantánamo e no Iraque. Depois deste livro, não há como não reconhecer: a democracia mais antiga do mundo abriu o século desenhando um programa meticuloso e global de tortura, uma paulatina desmontagem de suas próprias regras militares e constituição, realizada por uma trituradora metódica que tinha seu eixo na Vice-Presidência e no Ministério da Defesa, Cheney e Rumsfeld. A prosa de Sands é factual, pouco adjetivada. O livro é abundamente documentado com notas. Li, confesso, só uns 80% das 250 páginas. Foi mais que suficiente para confirmar que, em muitas interpretações razoáveis dos direitos humanos e do direito internacional, Cheney e Rumsfeld seriam passíveis de aprisionamento por crimes de guerra em qualquer viagem que façam a território não-americano. Se esta é uma hipótese possível ou provável, é outra história. Mas a documentação reunida por Sands é inequívoca. Sands é advogado e esteve envolvido com o trâmite de casos de tortura como os de Pinochet e os dos detentos britânicos de Guantánamo.

Bugliosi, Vincent. The prosecution of George W. Bush for murder (Vanguard, 2008). Aqui está o caso jurídico, apresentado bonitinho, mentira por mentira, falsificação por falsificação. Bugliosi, segundo as pautas do direito internacional, explica o porquê da imputabilidade a George W. Bush tanto de crimes de assassinato como de crimes de guerra. A fabricação de mentiras com o objetivo deliberado de provocar a invasão do Iraque – primeiro o inexistente vínculo Sadam / Al Qaeda, depois as inexistentes armas de destruição em massa – está documentada o suficiente, argumenta Bugliosi, para que o caso de assassinato pelas mortes no Iraque seja cristalino. Em 17/09/2003, Bush reconhece ante advogados que não havia “nenhuma evidência” de que Saddam Hussein estivesse envolvido nos ataques de 11/09/01. Em incontáveis ocasiões depois de setembro de 2003, Bush continuaria a mentir à população americana e sugerir o oposto do que ele mesmo havia admitido em resposta aos advogados. Ao longo do livro, demonstra-se que não foram as “falhas de inteligência” ou “inteligência incompleta ou contraditória” que levaram à desastrada invasão do Iraque. Tratou-se de um plano que já estava na gaveta desde os primeiros anos da administração Bush e que seria implementado não importa qual mentira ele exigisse. Apesar de também bastante documentado, o livro de Bugliosi é escrito numa lingugem mais pop, que traz aquela indignação do senso comum ante a revelação de cada absurdo. Se você tem um amigo com interesse em política e que ainda não está convencido de que este foi o pior pesadelo da história presidencial americana, o livro de Bugliosi é um ótimo presente.

Suskind, Ron. The way of the world. A story of truth and hope in the age of extremism (HarperCollins, 2008). De longe, o mais bem escrito dos três. Combina um exame minucioso da degeneração dos serviços de inteligência americanos – manipulados pela patota que se apoderou da Casa Branca – com o acompanhamento de alguns personagens: um estudante afegão, de intercâmbio, que vai levando sua família anfitriã, no Kansas, a enfrentar-se com os limites do seu próprio progressismo; um jovem de ascendência paquistanesa, formado nas melhores universidades americanas, que passa a viver um pesadelo depois do 11 de setembro; uma advogada abnegada que enfrenta uma montanha de burocracia para tentar rever o caso de um homem injustamente encarcerado em Guantánamo. Suskind vai intercalando essas histórias num relato que se lê como um romance. Mas o livro que não deixa nada a dever aos outros dois na documentação da atrocidade.

Serão três livros fundamentais para o amargo veredito que história reserva para o governo Bush.



  Escrito por Idelber às 06:29 | link para este post | Comentários (21)



sexta-feira, 21 de novembro 2008

20 de novembro e a dívida

lula-candido.jpgPara quem se lembra da época em que Aldir Blanc e João Bosco tiveram que substituir, por causa da censura, “o almirante negro” por “navegante negro” na letra de Mestre-Sala dos Mares, há algo de especial em se ver um presidente operário inaugurando uma estátua de João Cândido, o líder da Revolta das Chibatas, no Rio de Janeiro. João Cândido é daquelas idiossincrasias brasileiras: um negro rebelde, líder e revoltoso em 1910, que vinte anos depois se rende ao charme da Aliança Integralista Nacional, de Plínio Salgado. Em todo caso, um herói popular, especialmente do povo negro, pela memória gloriosa do que fez em 1910.

Foi lendo um belo texto da Cidinha que cheguei, este ano, à minha reflexão anual de todo 20 de novembro: a de que o Brasil é esse compósito singular de uma realidade sistêmica de discriminação coexistindo com a celebração universal da mistura e da mulatez. Em graus variados, em um ou outro discurso, a mitologia da mulatez vai “acolchoando” a realidade da segregação econômica e da discriminação cotidiana. Isso coloca os movimentos negros numa posição particularmente chata, pois sua demanda é vista como ameaçadora de um mito nacional muito querido. Num contexto assim, os movimentos negros estão certos de martelar o fundamental, que é o sistêmico e onipresente abismo racial no Brasil, dos hotéis às agências de propaganda, do elevador à reunião de chefia à blitz policial à sala de aula.

Antonio Risério tem razão que a importação de um paradigma binário americano para se pensar a raça no Brasil pode ser daninha. Mas até aí tem razão. Deixa de tê-la cada vez que permite que sua voz ecoe em conjunto com a cruzada Kamel-Magnoli contra as cotas raciais. Seja lá o que for que você pense sobre as cotas, o fato de que um professor universitário como Magnoli faça da cruzada contra elas o elemento definidor do seu perfil intelectual é triste, muito triste. Por isso, um pensador como Risério, que escreveu um livro absurdamente bom, agora deve manter a nuance e encarar o desafio de seguir pensando fora dessa aliança mais fácil e confortável, com a versão Globo-Veja da mitologia da mulatez nacional.

Não há realidade da mulatez nem singularidade brasileira que contorne o fato de que minha amiga e aluna Renata foi barrada ao tentar visitar meu quarto de hotel, às 20:15, sob a desculpa de que a partir de tal hora não subia ninguém, menos de 24 horas depois de que seu (ex)marido, branco, também aluno e amigo meu, subisse sem problemas às 20:45.

Hotel Rondônia, região ali do Catete, no Rio, se alguém quer saber onde foi.

Isso no Brasil acontece todo dia. Acontece uma vez para cada ocasião em que um profeta anuncia a nossa incomparável singularidade de povo totalmente mestiço.

Este blog, que se orgulha de ter participado desde o primeiro momento do debate sobre as cotas, considera essa discussão, até certo ponto, superada com a aprovação do projeto na Câmara. Que o Senado faça algum remendo numérico nas porcentagens ou não, o mais provável é que se reconheça que a maioria da sociedade brasileira resolveu encarar essa dívida dessa forma, pelo menos por algum tempo. O que é bom.


Links: Blog do Nei Lopes
Blog do Juarez
E se Obama fosse africano, no blog da Cidinha.
O Brasil Negro, da Ana César.
Adeus Césaire, do Salamandro.
O magnífico poema de Ricardo Aleixo sobre a negritude subterrânea em Paris.
Movimento Brasil Nagô.


PS: O Globo fez uma listinha meio furreca de filmes brasileiros sobre o negro, mas se esqueceram – não é mesmo, Rafex e Bia – do melhor deles: It's all true, de Orson Welles.



  Escrito por Idelber às 01:58 | link para este post | Comentários (78)



segunda-feira, 17 de novembro 2008

Balanço da campanha de Obama

A revista Teoria e Debate me pediu um artigo de balanço da campanha de Barack Obama das primárias até a eleição. Segue aí o texto que será publicado no número deste mês da TD. Boa parte é inédita, ainda que não traga muitas novidades para quem acompanhou a cobertura por aqui. Alguns trechos já apareceram aqui no blog anteriormente.


Num artigo para a New Yorker, Ryan Lizza relata que em 2007, no início da campanha das primárias democratas dos Estados Unidos, a CNN e o YouTube promoveram um debate no qual se preguntou a Barack Obama: “você aceitaria se encontrar sem pré-condições, no seu primeiro ano de governo, em Washington ou qualquer outro lugar, com os líderes de Irã, Síria, Venezuela, Cuba e Coréia do Norte, para tentar superar a divisão entre os nossos países?” Obama respondeu: “Sim, aceitaria”. Massacrada por Hillary Clinton e outros presidenciáveis por essa resposta, a campanha discutia as formas de minimizar a afirmação. A equipe se preparava para a guerra do spinning. Obama entrou na conversa de forma peremptória: ninguém massagearia a declaração para desdizê-la. “A idéia de que não podemos nos reunir com Ahmadinejad é ridícula. Trata-se de um monte de sabedoria convencional de Washington que não faz o menor sentido. Não vamos fugir desse debate. Vamos estimulá-lo”, decretou Obama. Em vez de redigir um memorando à imprensa driblando a questão, a equipe escreveu uma nota afirmativa, que passava ao ataque. Foi a primeira troca de fogo aberta com Hillary Clinton. Foi também o momento em que seus assessores entenderam que se tratava de um candidato diferente.

Numa conversa em 2008, uma ativista da campanha de Obama me contava dos planos de derrotar os republicanos na Carolina do Norte, estado que não votava democrata desde 1976. Era mais ou menos como encontrar um comitê tucano convicto de se prepara para derrotar Lula numa eleição direta em Pernambuco. Mesmo Bill Clinton, um democrata sulista eleito duas vezes carregando vários estados do Sul, não vencera a Carolina do Norte. O nativo John Edwards, um democrata conhecido no país, posto que ex-candidato a vice-presidente, abandonou o Senado, já que sentiu que não conseguiria enfrentar o voto conservador na Carolina do Norte. Na era moderna, o único assento cativo do estado no Senado Federal havia pertencido a Jesse Helms, um ultra-reacionário da extrema-direita do já direitista espectro político americano. Ao ouvir os planos da campanha para a Carolina do Norte, eu dei uma gargalhada: “você está me dizendo que um negão democrata de nome Hussein formado em Harvard vai bater o São McCain no estado de Jesse Helms, no coração do Sul segregacionista?” Ela tirou um mapa da gaveta e passou à demonstração: “você conhece a Carolina do Norte. Veja como cresceu a área universitária desde que você morou lá. Agora veja a mudança na demografia do norte do estado de 2004 para cá. Agora veja os números da primárias. Agora observe quantos eleitores nós registramos.” Atônito, eu acompanhava a matemática e reconhecia que fazia sentido. Uma semana depois, saía uma pesquisa que já mostrava Obama virtualmente empatado com McCain na Carolina do Norte. No dia 04 de novembro, Obama colocou o estado na coluna democrata pela primeira vez desde Jimmy Carter.

As anedotas revelam duas belas novidades representadas pela campanha de Obam: o fim da política da triangulação e o fim do focalismo eleitoral, dois elementos do que poderíamos chamar a política do medo entre os progressistas americanos. Tratava-se, simplesmente, dos dois maiores dogmas do Partido Democrata nas últimas décadas, as crenças de que 1) mover-se para a centro-direita, “triangulando” e manipulando as próprias convicções pela conveniência era a única estratégia política capaz de derrotar os Republicanos; 2) a focalização em três ou quatro estados decisivos (e, dentro deles, em demografias específicas) era a única tática eleitoral viável, posto que os outros estados eram descartados como terrenos democrata ou republicano já sólidos. Como esses dois dogmas tinham a força de lei natural e a pré-candidata que os representava tinha o reconhecimento do nome e a máquina do partido, as primárias democratas pareciam uma cerimônia pró-forma para coroar Hillary Clinton.

Apesar da novidade histórica que poderia representar a eleição da primeira mulher para presidente da super-potência, a perspectiva de uma presidência Hillary não era animadora para o setor mais progressista do Partido Democrata: a combinação entre a disposição de triangular e a estratégia polarizadora de buscar sempre os 50% + 1 fazia da candidatura Hillary uma espécie de mal menor com o qual os progressistas devíamos nos conformar. Esse caráter conservador reforçou-se quando Al Gore decidiu não ser candidato. Hillary se apresentava agora como “candidata inevitável”, a única em condições de derrotar John McCain no voto popular. O argumento em favor da inevitabilidade de algo termina sendo sempre conservador, claro. Hillary abraçou-o num ano em que o eleitorado dos EUA queria, desesperadamente, uma mensagem de mudança, algo novo, uma realidade possível mas ainda não imaginada. Neste ano os EUA queriam, digamos, justamente o oposto do inevitável. Foi seu primeiro erro.

O focalismo do setor dominante do Partido – o chamado DLC, o Conselho de Liderança Democrata, ao qual se vinculam os Clinton –, havia sido defendido com êxito por marqueteiros como Mark Penn, cuja condição de “guru” se baseava numa única vitória eleitoral nos anos 90. Esse focalismo foi responsável pelo segundo erro da campanha de Hillary Clinton, de caráter bem mais básico que o primeiro. Não leram as regras das primárias, não imaginaram que a disputa pudesse passar da Super-Terça (a quarta data das primárias, depois de Iowa, New Hampshire e Carolina do Sul, na qual 20 estados escolhem seus delegados), não se prepararam para os estados que escolhiam delegados através de assembléias. Enquanto isso, a equipe de Obama descobria que uma vitória num estado minúsculo como Idaho (com assembléias) poderia render mais delegados que uma vitória eleitoral num estado populoso como a Nova Jersey. Obama lançou-se a um trabalho de organização que foi também uma revisão no que se entendia por democracia. O voto universal e secreto, nas primárias democratas, coexistia com a democracia organizada e popular das assembléias. Nestas, a vantagem de Obama foi enorme. Na medida em que avançava, a liderança de Obama na contagem de delegados foi carregando também o voto popular, rumo a uma vitória incontestável nas primárias.

Tudo isso conspirou para que Obama conquistasse uma improvável indicação no Partido Democrata. Mas o fundamento mesmo do fenômeno, o ato que possibilitou a vitória e conferiu à “onda Obama” a sua âncora básica foi o posicionamento do jovem senador de Illinois em 2003, quando se colocou a questão política e moral definitiva do seu tempo: a invasão ilegal e criminosa do Iraque, baseada em mentiras fabricadas pela administração Bush. Num momento em que 75% do país se colocava do lado belicista e patrioteiro, Obama teve a coerência e a coragem de ser inequívoco na condenação à guerra. Num ambiente político como o norte-americano do começo da década, não era pouco. Essa foi a condição de possibilidade da candidatura. Logo depois, o discurso memorável na convenção democrata de 2004 o tornaria conhecido de todo o país.

É certo que, ao longo da sua viabilização como candidato, a negritude de Obama foi passando a ocupar um papel de destaque, mesmo que às vezes oblíquo, não mencionado. Ao princípio, entre o próprio eleitorado negro Obama não figurava com índices altos, posto que eles duvidavam da sua viabilidade. Na terceira data da primária democrata, na Carolina do Sul (Obama havia vencido em Iowa e Hillary em New Hampshire), Bill Clinton fez o famoso comentário com desdém sobre a candidatura de Obama: “Ah, Jesse Jackson também venceu a Carolina do Sul em 1984 e 1988...”. Não se tratava, nem de longe, de uma frase racista, que fique claro. Era uma suposição demográfica que Bill tentava usar como tática eleitoral divisionista, como parte da estratégia de inevitabilidade da campanha Hillary. Havia boas razões para se supor que um candidato como Barack Obama -- “inexperiente”, negro, liberal – não seria páreo para um suposto “herói de guerra” e Republicano moderado como John McCain. Mas 2008 não era um ano normal. Saía-se de oito anos da pior – da mais mentirosa, fiscalmente irresponsável e belicamente criminosa -- presidência da história dos Estados Unidos. Perceber essa singularidade epocal foi outro mérito de Obama.

Obama sabia que a questão racial apareceria e ela se instalou quando se desenterraram as declarações incendiárias do seu pastor, Jeremiah Wright, contra a injustiça “na América”. Sendo uma igreja negra, os sermões inevitavelmente continham trechos que testemunhavam a divisão racial profunda do país. Junto com a crítica à opressão, incluíam algumas teorias conspiratórias sobre a disseminação da AIDS ou pontos de vista pseudo-científicos sobre diferenças mentais entre euro- e afro-americanos. A reação de Obama à controvérsia, no discurso de 18 de março de 2008 que ficou conhecido como “Uma união mais perfeita”, foi um salto qualitativo gigantesco na maturidade das discussões sobre raça nos Estados Unidos. Grosso modo, poderia se dizer que foi a primeira vez que um candidato a presidente discursou aos compatriotas como adultos acerca do tema racial.

Falando na Filadélfia e evocando o documento fundador do país e sua grande chaga, a escravidão, Obama fez o contrário do que seria de se esperar numa situação embaraçosa de “culpa por associação”. Em vez de minimizar a polêmica ou descartá-la, discursou sobre as raízes do ressentimento que se via nos discursos de Wright, localizando-as na totalidade da experiência negra nos EUA. Em vez de “triangular” em volta da associação, encarou-a como parte integrante, no bom e no ruim, da sua experiência de vida. Condenou as declarações que julgava equivocadas, mas chegou a dizer que renegar seu pastor seria como renegar a sua avó branca. Ao falar do ressentimento, não deixou de mencionar os brancos pobres que, com freqüência, sentem que sua raça não lhes serviu de nada e que a culpa é dos negros beneficiados por ações afirmativas ou dos hispanos imigrantes que forçam para baixo os salários do mercado. Durante os quase 40 minutos de reflexão, o tom foi de compreensão das feridas raciais do país, mas também de convicção de que a unidade para transcendê-las era a forma de legar um futuro às novas gerações. Depois do discurso, já estava esvaziado de antemão qualquer intento de usar a questão racial como arma divisionista contra Obama.

O uso inteligente da internet e o mapa eleitoral montado pela jovem campanha de Obama fizeram o resto. Na Virgínia e Carolina do Norte, estados “vermelhos” (republicanos) sulistas com mudanças demográficas vinculadas à expansão universitária, Obama compreendeu que suas chances de vitória residiam nas matrículas de eleitores de 18-30 anos e no comparecimento afro-americano massivo. No Oeste, Obama abriu outra frente de vitória em estados vermelhos, ao entender a mudança demográfica do Colorado (o crescimento dos latinos) e manter a infra-estrutura herdada das assembléias das primárias em estados como Nevada. No cinturão industrial do meio-oeste, onde profetas do apocalipse decretavam que Obama não teria chances, pelo racismo dos eleitores operários brancos, seu discurso econômico transmitiu a mensagem que precisava. Ganhou o perene campo-de-batalha de Ohio e, a partir de sua força em Illinois, carregou um estado que não votava democrata desde 1964, Indiana. Com uma proposta de política externa sem histerias bélicas, conseguiu conquistar até o voto cubano da Flórida, velho reduto republicano.

Uma série de perguntas permanecem quanto ao grau de ruptura com o governo Bush de que será capaz Obama. Em todo caso, o que é mais animador na sua figura não é a posição que ele ocupa no espectro político, nem sua raça ou sua “mulatez”, mas a compreensão de que a política é uma prática que não se reduz a uma escolha entre a intransigência ressentida e a triangulação sem escrúpulos.

PS: Este texto também está publicado na Agência Carta Maior.



  Escrito por Idelber às 12:49 | link para este post | Comentários (40)



sábado, 15 de novembro 2008

Na dança da degola

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Já rebaixado:

Ipatinga-MG, 31 pontos: Que me desculpe o amigo do Vale do Aço, mas eu não poderia rir mais dessa sequência de desgraças. O Ipatinga, o clube, precisava de uma dose de humildade. O ex-pretendente a "segunda força de Minas" foi rebaixado no Campeonato Mineiro e pego no vexame de uma tentativa de suborno a jogadores de um clube infinitamente maior que ele -- o Leão do Bonfim, glorioso tricampeão mineiro de 1932/33/34, instituição que o Ipatinga ainda tem que comer muito feijão para alcançar. Depois, no Nacional, o Ipatinga não deu para a saída. Está mais próximo da Série C que de voltar à A: um triste fim para a soberba e falta de sentido de proporções. Tchau, Itair Machado. Vá fazer piadinha com o Atlético de Três Corações, que é do seu tamanho. O Galo lhe mostrou por que o epíteto Vingador é conhecido no Brasil todo.

Na dança da degola (em ordem decrescente de desespero):

Figueirense. 35 pontos: O Avaí, do meu amigo Joca Wolff, já subiu, numa épica campanha. Depois de uma década sendo sinônimo de "sucesso" em Santa Catarina, o Figueira pode virar time de segunda, justo no ano em que o maior rival chegou à primeira. Ah, a fortuna.

Portuguesa, 36 pontos: Anda alto no ranking da simpatia por aqui. Se vai subir um Santo André da vida, que fique a Lusa também. Hoje tem um pega-pra-capar com o Fluminense, num jogo de "seis pontos". Depois, duas boas chances de pontuar, em casa, contra Goiás e Sport, ambos já sem ambições. A Lusa fica, oxalá.

Vasco, 37 pontos, um jogo a mais: Seria um castigo dos deuses o Vasco descer justo no ano em que Eurico foi posto pra fora. Em seu favor no ranking da simpatia por aqui está o fato de que, bem, no Rio eu sou Vasco. Contra ele, está o secreto desejozinho de que o Vasco passe pelo purgatório da Série B e volte numa campanha que deixe clara a extensão do desastre que foi a herança de Eurico Miranda. Pode descer à beça depois da rodada deste fim de semana; semana que vem, pega o São Paulo. Reforçando a secação, está, claro, a vontade de ver o Renato Gaúcho pagar pela língua também.

Náutico, 37 pontos: O Náutico chegou a fazer barulho no começo do campeonato, mas daí foi morro abaixo. Contra ele, no ranking da simpatia, há o fato de que os Aflitos são a casa mais problemática -- e possivelmente a de pior gramado -- da Série A. O Timbu tem dois jogos de vida ou morte, contra o Figueira, em Floripa, e contra o Atlético-PR, em casa. Sério candidato à degola.

Fluminense, 37 pontos: No ranking da simpatia, só tem a seu favor os bacaníssimos torcedores como Lucia Malla. De justiça poética, o rebaixamento teria o fato de que o Flu nunca subiu da B para a A jogando bola. Só ganhou a C mesmo, na época do mergulho no inferno. O Flu pega Inter e São Paulo fora de casa, além da desesperada Lusa no Rio. Se chegar à última rodada dependendo só de si, salvar-se-á: o jogo é com o Ipatinga no Maracanã. Mas pode chegar lá já quase rebaixado, ou dependendo de ganhar e secar os outros.

Atlético-PR, 38 pontos: Dos muito ameaçados, é o que está em situação melhorzinha. Tem jogo em casa contra o Vitória (time que não quer mais nada) e chance de confirmar a vaga na última rodada, também em casa, contra o Flamengo. Entre uma data e outra, tem Botafogo no Rio e um duelo do desespero com o Náutico em Recife. Se conseguir bater o Timbu nos Aflitos, praticamente se garante na Série A, já que o Furacão deve conseguir alguns pontinhos em casa.

Santos, 40 pontos: O Santos do meu querido Zé Miguel só cai mesmo numa tragédia daquelas.

Faça aí o seu bolão. A torcida -- não o palpite -- deste blog é Ipatinga, Vasco, Fluminense e, para a última, Figueira ou Náutico. Seria bonito ver a Segundona com dois grandes do Rio.

PS: Eu já quase não escrevo sobre futebol, desprovido que ando (por escolha) de satélite global. Mas continuo lendo e aprendendo com o Balípodo, Impedimento, Futepoca, Além do Jogo, Jucão , PVC e outros ótimos blogs de futebol que há por aí. Vejam este chutômetro do Balípodo, que primor.



  Escrito por Idelber às 01:42 | link para este post | Comentários (74)



sexta-feira, 14 de novembro 2008

Balanço das atrocidades israelenses da semana

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Acordei com os gritos da minha mãe: “Levanta! Levanta! O exército está aqui!” Meu pai não estava em casa naquela noite [...] Dois soldados me pegaram e me levaram para fora. Aí eu vi que queriam me prender. Fiquei com medo, comecei a chorar e chamei meu tio para ir comigo.

Os soldados algemaram minhas mãos com algemas de plástico, o que doeu muito. Um soldado me agarrou pela camisa e começou a andar e me empurrar. A camisa apertava meu pescoço e eu não respirava direito. Tentei me liberar e ele me deu um soco nas costas e apertou mais a camisa, me sufocando ainda mais. Outro soldado me socou também e puxou meu cabelo quando andávamos. Chorei e gritei por meu tio e meu pai. Os soldados me batiam e diziam “quieto, quieto!” Me levaram para um beco entre as casas, onde há cactos. Estávamos andando perto de uns cactos quando um soldado me empurrou sobre eles. Os espinhos me cortaram nas mãos e nas pernas. O soldados continuaram me empurando e batendo ao longo do caminho.

Segue por um bom tempo o inferno vivido por Muhammad Salah Muhammad Khawajah, garoto de 12 anos espancado e detido pelas forças de ocupação israelense recentemente em Nilin, Distrito de Ramalá, Palestina Ocupada. 12 anos de idade: arrancado de dentro de sua própria casa.

Que não se perca de vista, em nenhum momento, um fato que está amplamente documentado. Se você não está ouvindo falar de Israel na imprensa, o mais certo é que continua a rotina de assassinatos, demolição de casas, violência contra crianças, anexação de terra palestina com o muro, bloqueio naval e terrestre, humilhações nos postos de controle que picotam e enjaulam a terra palestina, agressões e encarceramentos de deputados e observadores internacionais e agora, incrivelmente, a proibição da entrega de comida. Como uma espécie de gang adolescente birrenta e agressiva que se vê de posse de granadas e metralhadoras semi-automáticas, Israel vai desrespeitando, uma por uma, todas as leis internacionais que regulam a convivência com os vizinhos. Violam, inclusive, em níveis inimagináveis, as convenções humanitárias que regem o próprio conceito de ocupação colonial.

É um exemplo inaudito de um estado criminoso o suficiente para não caber nem mesmo no padrão humanitário internacionalmente recomendado às potências coloniais ocupantes. Em meio a tantos crimes, encontra tempo para censurar contatos diplomáticos feitos pela soberana República Federativa do Brasil.

Em Gaza, Israel vai pouco a pouco esmagando a população de 1,5 milhão de palestinos com o fechamento das fronteiras terrestre e marítima, disparos contra barcos de pescadores, proibição da entrada de víveres e séries intermitentes de atos de sabotagem econômica e assassinato político. Um cotidiano de terror vai criando desnutrição, desemprego e desespero. O especialista Juan Cole, professor da Universidade de Michigan, qualifica a situação atual de 3 milhões de palestinos como de escravidão e o bloqueio de comida como crime de guerra.

Se de ética se trata, que fique dito: a ocupação e a escravidão vividas pelo povo palestino representam a questão moral incontornável do nosso tempo. Sem uma solução que termine de vez com a ocupação israelense e garanta ao povo palestino um estado contínuo e viável nas fronteiras internacionalmente reconhecidas, as de 1967, não há vislumbre de paz duradoura para o planeta.



  Escrito por Idelber às 01:47 | link para este post | Comentários (54)



terça-feira, 11 de novembro 2008

Cristovão Tezza: O filho eterno

tezza.jpgVencedor dos prêmios Jabuti e Portugal-Telecom, entre outros, e aclamado pela crítica, O filho eterno (2007), de Cristovão Tezza, leva a representação da experiência pessoal na ficção a um nível de auto-reflexividade raramente visto na literatura contemporânea. O protagonista do romance recebe a notícia de que será pai em meio a uma profusão de golpes à sua auto-estima. Sustentado pela mulher, seu trabalho é a escrita, mas nela fracassa, acumulando cartas de recusa das editoras e notas de eliminações em concursos literários. Na profissão, por outro lado, ele também experiencia a derrota: relojoeiro, seu ofício é, por excelência, anacrônico. Como escritor, ele ainda não é, além de não dar indicação de que poderá vir a ser; como relojoeiro, já não tem razão de existir. Esse intervalo termina se desdobrando numa temporalidade suspensa entre o fantasma da paralisia que espreita, de perto, e o resquício de atividade e iniciativa que lhe resta. Assim se encontra ele quando recebe a notícia de que será pai.

A abordagem desse inominado personagem à vida é um exame hipercrítico e cínico da natureza arbitrária, absurda, lotérica, errática dos fatos (p. 49). Trata-se da história de como o protagonista lidará com a paternidade em meio um colapso de outras zonas de sua masculinidade – história que é narrada numa terceira pessoa singular, original, caracterizada pelo uso do discurso indireto livre em quase a totalidade do volume. O efeito é de proximidade ao pensamento do personagem, já que o narrador fala como se estivesse “dentro” da sua cabeça. Essa vizinhança, no entanto, se inverte na relação do protagonista com o mundo, que é marcada pela distância. Revise-se os grandes mestres do indireto livre, de Jane Austen em adiante, e se encontrará poucos exemplos de exploração tão hábil da tensão entre a hiper-proximidade entre voz narrativa e personagem e, ao mesmo tempo, o hiper-distanciamento entre personagem e mundo. Vemos de perto um homem que só sabe ver de longe. O efeito é o de uma empatia impossível, agônica, entre protagonista e leitor.

No corredor do hospital, esperando a mulher dar à luz, ele fuma, marcha descompassadamente, se angustia. Marcado pelo destempo, ele chega atrasado à cena que o constitui. Só no dia seguinte ao parto, junto aos indefectíveis parentes, ele inteira-se: a criança nascera com Síndrome de Down. O filho eterno é a meticulosa mas sucinta narração desse encontro da paternidade “fracassada” com uma masculinidade já em frangalhos, num mundo em que a Síndrome de Down vai progressivamente adquirindo o caráter de emblema, alegoria de uma outra relação com o tempo, que poderíamos chamar de presente perpétuo.

Estamos no Brasil de 1980, onde “Síndrome de Down” ainda é termo exclusivamente médico. No léxico possível de seu tempo, o seu filho era um mongolóide, vocábulo que carrega essa curiosa herança do colonialismo inglês, que batizou descapacitações com o nome de etnias. A natureza arbitrária, absurda, lotérica, errática dos fatos dera o veredito de trissomia daquele vigésimo-primeiro cromossomo, daquele em particular. A partir daí o protagonista, um pequeno burguês que solta a franga, como bem disse Ney Reis em sua resenha, está condenado ao contato com uma classe que despreza – a dos médicos – e ao mesmo tempo a viver a medicina como desdemonização do mundo por excelência, antídoto definitivo contra as explicações mágicas. A medicina entra no relato de Tezza como confirmação da natureza lotérica da existência.

Um dos primeiros devaneios que visita o personagem é o de que, por tudo o que lera, as crianças com Síndrome de Down morrem mais facilmente e, em geral, mais cedo. O pesadelo talvez não dure tanto, afinal. O leitor tem acesso a essas fantasias monstruosas através de uma voz narrativa que esvazia, de antemão, todo julgamento moral. Só uma gigantesca viseira poderia levar a uma leitura d' O filho eterno como parábola moralizante. O texto, claramente, se recusa a submeter o personagem à prova moral, e opta pela observação da sua labuta de ir compreendendo a amoralidade essencial de todas as coisas. Ele não é, claramente, um “além-homem” nietzscheano. Não vive no mundo afirmativo da alegria. Trata-se, ao contrário, do espécime ressentido e hiper-interpretativo que em língua nietzscheana chamaríamos de “último homem.”

As matérias-primas do romance de Tezza são, portanto, uma masculinidade em frangalhos, a paternidade “fracassada” e depois lentamente reaprendida, e um tempo repartido entre o presente-intervalo (do pai) e o presente-perpétuo (do filho). Nas 220 enxutas páginas, com freqüência se alternam parágrafos que descrevem o período anterior ao nascimento de Felipe -- os anos do pai em Portugal e na Alemanha, como trabalhador ilegal -- e o presente em que vai crescendo o garoto, entre 1980 e 2005. Em algumas ocasiões, o deslocamento temporal se produz, habilmente, no interior do mesmo parágrafo. Os saltos ao presente retratam o aprendizado descontínuo, quebrado, capenga de Felipe, que um dia, acidentalmente descobre o futebol como imagem da contigência, da natureza pendente e inacabada do mundo.

Felipe, 20 e poucos anos, não lê, não escreve, mas viaja na seqüência interminável de páginas da internet. Constrói pastas que nomeia como ATLTEICO ou ALTLETICO, sempre com uma letra trocada (p.217). Procura no Google o ônibus do Clube Atlético Paranaense. Começa a viver as partidas de futebol como experiências que, ao contrário do joguinho da FIFA que ele roda no computador, são imprevisíveis, nesse que é o mais fatalista e contingente dos esportes. A imprevisibilidade do futebol vai dando a Felipe uma idéia de “futuro” e através do conceito de campeonato ele entende o de calendário. O encadeamento de jogos funciona como metáfora inteligível do devir, da passagem do tempo, mesmo que continue uma tremenda confusão sobre o que é Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil, Libertadores ou Campeonato Paranaense. Na medida em que Felipe vai vislumbrando algo para além do presente-perpétuo, o próprio protagonista passa a tecer outra relação – ainda precária, mas parcialmente efetiva – com sua existência no tempo e sua condição de homem e de pai.

Esse sutil deslocamento, modesto, limitado, nada triunfante, é o irredutível gesto afirmativo d'O filho eterno, sem dúvida um dos poucos romances realmente extraordinários publicados no Brasil no século que se inicia.



PS 1:

PS 2: Este post é parte de um trabalho bem mais longo, sobre a masculinidade na narrativa brasileira, de Fernando Gabeira – O que é isso, companheiro? (1979) e Crepúsculo do macho (1980) – a Caio Fernando Abreu – Morangos mofados -- (1988) e Cristovão Tezza. Apresento-o (em inglês) nesta quarta-feira no meu ex-lar, a Universidade de Illinois, em Urbana-Champaign, a cujos professores -- especialmente o compatriota Luciano Tosta -- agradeço pelo convite. U of I é uma das melhores universidades públicas dos EUA e dona orgulhosa da terceira maior biblioteca universitária americana.

PS 3: Leonardo Bernardes e Germano dos Santos Leite escreveram bem sobre os últimos (lamentáveis) desenvolvimentos do processo de criminalização do trabalho de Protógenes Queiroz e Fausto de Sanctis. A Associação dos Juízes Federais do Brasil divulgou nota que a Consultor Jurídico insistiu em publicar com o título "Contra o STF", em contradição com o conteúdo do texto, que se limita a defender a independência dos juízes federais antes os recentes ataques ao seu trabalho.



  Escrito por Idelber às 05:58 | link para este post | Comentários (39)



sexta-feira, 07 de novembro 2008 <