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sexta-feira, 21 de novembro 2008
20 de novembro e a dívida
Para quem se lembra da época em que Aldir Blanc e João Bosco tiveram que substituir, por causa da censura, “o almirante negro” por “navegante negro” na letra de Mestre-Sala dos Mares, há algo de especial em se ver um presidente operário inaugurando uma estátua de João Cândido, o líder da Revolta das Chibatas, no Rio de Janeiro. João Cândido é daquelas idiossincrasias brasileiras: um negro rebelde, líder e revoltoso em 1910, que vinte anos depois se rende ao charme da Aliança Integralista Nacional, de Plínio Salgado. Em todo caso, um herói popular, especialmente do povo negro, pela memória gloriosa do que fez em 1910.
Foi lendo um belo texto da Cidinha que cheguei, este ano, à minha reflexão anual de todo 20 de novembro: a de que o Brasil é esse compósito singular de uma realidade sistêmica de discriminação coexistindo com a celebração universal da mistura e da mulatez. Em graus variados, em um ou outro discurso, a mitologia da mulatez vai “acolchoando” a realidade da segregação econômica e da discriminação cotidiana. Isso coloca os movimentos negros numa posição particularmente chata, pois sua demanda é vista como ameaçadora de um mito nacional muito querido. Num contexto assim, os movimentos negros estão certos de martelar o fundamental, que é o sistêmico e onipresente abismo racial no Brasil, dos hotéis às agências de propaganda, do elevador à reunião de chefia à blitz policial à sala de aula.
Antonio Risério tem razão que a importação de um paradigma binário americano para se pensar a raça no Brasil pode ser daninha. Mas até aí tem razão. Deixa de tê-la cada vez que permite que sua voz ecoe em conjunto com a cruzada Kamel-Magnoli contra as cotas raciais. Seja lá o que for que você pense sobre as cotas, o fato de que um professor universitário como Magnoli faça da cruzada contra elas o elemento definidor do seu perfil intelectual é triste, muito triste. Por isso, um pensador como Risério, que escreveu um livro absurdamente bom, agora deve manter a nuance e encarar o desafio de seguir pensando fora dessa aliança mais fácil e confortável, com a versão Globo-Veja da mitologia da mulatez nacional.
Não há realidade da mulatez nem singularidade brasileira que contorne o fato de que minha amiga e aluna Renata foi barrada ao tentar visitar meu quarto de hotel, às 20:15, sob a desculpa de que a partir de tal hora não subia ninguém, menos de 24 horas depois de que seu (ex)marido, branco, também aluno e amigo meu, subisse sem problemas às 20:45.
Hotel Rondônia, região ali do Catete, no Rio, se alguém quer saber onde foi.
Isso no Brasil acontece todo dia. Acontece uma vez para cada ocasião em que um profeta anuncia a nossa incomparável singularidade de povo totalmente mestiço.
Este blog, que se orgulha de ter participado desde o primeiro momento do debate sobre as cotas, considera essa discussão, até certo ponto, superada com a aprovação do projeto na Câmara. Que o Senado faça algum remendo numérico nas porcentagens ou não, o mais provável é que se reconheça que a maioria da sociedade brasileira resolveu encarar essa dívida dessa forma, pelo menos por algum tempo. O que é bom.
Links: Blog do Nei Lopes
Blog do Juarez
E se Obama fosse africano, no blog da Cidinha.
O Brasil Negro, da Ana César.
Adeus Césaire, do Salamandro.
O magnífico poema de Ricardo Aleixo sobre a negritude subterrânea em Paris.
Movimento Brasil Nagô.
PS: O Globo fez uma listinha meio furreca de filmes brasileiros sobre o negro, mas se esqueceram – não é mesmo, Rafex e Bia – do melhor deles: It's all true, de Orson Welles.
Escrito por Idelber às 01:58 | link para este post
| Comentários (78)
Izabella em novembro 21, 2008 4:43 AM
#2
Olá, Idelber, novamente 'pesquei' seu artigo e o postei em nosso blog: www.guerrilheirosvirtuais.blogspot.com
Qualquer problema é só avisar.
Atenciosamente
Saroba
Luiz Settineri em novembro 21, 2008 6:50 AM
#3
Idelber,
acabei de ler o imprescindível "Veneno Remédio", do Zé Miguel Wisnik. Me lembrei dele agora, vendo você falar da o Brasil é esse compósito singular de uma realidade sistêmica de discriminação coexistindo com a celebração universal da mistura e da mulatez. Em graus variados, em um ou outro discurso, a mitologia da mulatez vai “acolchoando” a realidade da segregação econômica e da discriminação cotidiana.
O Livro (com L maiúsculo, mesmo) merece entrar para a lista dos "Intérpretes do Brasil".
Radical Livre em novembro 21, 2008 7:10 AM
#4
Seja lá o que for que você pense sobre as cotas, o fato de que um professor universitário como Magnoli faça da cruzada contra elas o elemento definidor do seu perfil intelectual é triste, muito triste.
Muito pelo contrário, se há alguém com esse histórico que toma esse posicionamento, é um bom motivo para ponderarmos e refletirmos sobre o nosso.
Este blog, que se orgulha de ter participado desde o primeiro momento do debate sobre as cotas, considera essa discussão, até certo ponto, superada com a aprovação do projeto na Câmara
Você que é um intelectual pode comemorar, mas eu que trabalho diretamente com 1500 jovens, em sua maioria mestiços e negros, sei que a realidade é um pouco diferente da teoria e da legislação.
E por falar nisso, eu fico intrigado quando abro o debate e até agora não achei um sequer desses jovens que fosse favorável à adoção de cotas.
O que está bem óbvio para nós é que os políticos e os intelectuais fazem uma reedição de 1888, ao desejar por decreto abolir uma realidade muito mais complexa do que ser barrado em um hotel de bacana...
Luiz Aquino em novembro 21, 2008 7:15 AM
#5
Pode ser que eu esteja sendo muito ingênuo, mas o caso do hotel, que você relata, não me pareceu conseqüência de racismo.
Alguns hotéis têm pavor de serem vistos como motéis, e por isso têm regras não escritas que proíbem ou dificultam a entrada de não-hóspedes nos quartos. No caso de um hóspede homem, é mais fácil a portaria abrir uma exceção para um visitante masculino, pois geralmente não se imagina que uma visita dessas tenha objetivos sexuais.
(esse comentário é apenas uma tentativa de explicação do caso, e não uma defesa dele; se eu estiver certo, o caso é de moralismo, sexismo ou outros ismos, mas não de racismo)
André Pessoa em novembro 21, 2008 7:32 AM
#6
Idelber,
depois queria ler uma análise sua sobre o estágio atual do racismo no esporte, especialmente no futebol.
A propósito, reproduzi no último texto lá na intimorata emissora uma charge do menino Cau Gomez que paga o ingresso.
Quando estiver menos assoberbado, confira.
Franciel em novembro 21, 2008 8:31 AM
#7
idelber:
ótimo o ricardo aleixo.sugiro,se possível,algo do
adão ventura(1946-2004),em "a cor da pele".obrigado.
romério
romério rômulo em novembro 21, 2008 8:47 AM
#8
Idelber, sinceramente, enquanto não sair a versão final do projeto e sua regulamentação prefiro aguardar. Pode sair uma emenda pior que o soneto...
Algo tem que ser feito, sem dúvida. Sou a favor de alguma modalidade de cotas raciais, mas ainda não consegui me fixar em um formato.
O projeto que saiu da Câmara prevê 50% das vagas para alunos das escolas públicas. Dessas vagas, metade seria para alunos de baixa renda (de qualquer origem étnica). As cotas para negros, índios e pardos também ficariam inclusas na cota das escolas públicas.
Ou seja, dependendo da versão final, pode dar uma tremenda confusão lá na ponta.
Luiz em novembro 21, 2008 9:12 AM
#9
Olá,
A Câmara aprovou destinação de 50% das vagas em Universidades Federais para egressos de escolas públicas (que tenham feito todo o ensino médio em escolas públicas). Dentro destes 50% distribuem-se cotas para negros, índios e baixa renda.
No Brasil há um problema racial: fato.
Esse problema, porém, não é de segregação.
Ninguém foi impedido de entrar na Universidade pela cor da pele.
Foi impedido pela concorrência com escolas menos ruins (as privadas no Brasil não são boas, são apenas menos caóticas que as públicas).
A destinação de cotas para escolas públicas é o mais lógico para atender a três demandas:
1) a social, afinal, os mais pobres estão na escola pública,
2) a racial, afinal há mais negros entre os mais pobres,
3) a histórica, afinal a universidade pública não deve formar a elite escolarizada em instituições privadas - deve dar preferência à massa, que, naturalmente, vem da escola pública.
Aliás, nada mais lógico que a Universidade PÚBLICA dê preferência à Escola PÚBLICA.
Creio que a discussão sobre cotas raciais foi boa para desenvolver uma reflexão sobre as "raças" no Brasil, porém, como você mesmo reconhece em seu texto, trazer a lógica binária norte-americana para cá não faz sentido.
Abraços,
Paulo
Paulo Roberto em novembro 21, 2008 9:16 AM
#10
A aprovação das cotas é um erro enorme e uma atitude inócua para o que se pretende, com conseqüências ruins mais amplas. Aprovar cotas porque negros, mulatos e mestiços são discriminados em recepções e outros lugares é algo que não possui ligação direta com o que realmente importa. Quer dizer que cotas diminuirão constrangimentos contingentes? As empresas vão adorar. Nada como não tocar no racismo delas, que poderão então fazer um programinha aqui, um ali, de inclusão racial, e tudo com o apoio entusiasmado do movimento negro.
A aprovação das cotas não é fruto de nenhuma movimentação popular de monta. É fruto de um movimento pequeno que se encastelou no Estado e, só por isso e pela ajuda de acadêmicos e políticos movidos pelos mais nobres sentimentos (e aos quais se deve o respeito justamente do debate), acabou impingindo goela abaixo das universidades a culpa que ela não carrega e os resultados que não conseguirá atingir.
Acho deprimente essa vilipendiação de Kamel e Magnoli. Quase ninguém se atreve a debater com eles, já que eles são culpados por associação e são, de antemão, excluídos do debate. Os argumentos que levantam são então chutados para escanteio, com a garantia que seus oponentes têm de que estão do lado certo, uma altivez moral que prescinde de argumentos, como se nestas questões é a companhia quem determina qual “lado” tomar. Se assim fosse, eu prefiriria ter a meu lado Kamel e Magnoli a Edson Santos e Matilde Ribeiro.
É meio estranho esse argumento de que fazer do tema das cotas um norte da sua atuação intelectual é sinal de tristeza. Por quê? Quer dizer que a favor pode, mas contra não? Ora, temos militantes negros que acham que as cotas são o alfa e ômega do resgate da dívida histórica com o negro, e é o Magnoli quem paga o pato? Isso me parece autoritarismo, a idéia de que há autoridades a falar acima de críticas, o que seria dado pelo posição e perfil delas, por questões apriorísticas, e não pelos argumentos, o que leva à conclusão de que se os que não são autoridade, os que não possuem o perfil adequado, podem ser assim estigmatizados e o debate então pode ser “superado” por decreto.
As cotas são uma cosquinha no racismo. Teremos alguns milhares de negros que ascenderão socialmente e farão as vezes de vitrine, um afago no ego do movimento negro, um baque na meritocracia, um cavalo de tróia para a reengenharia identitária que o movimento negro deseja além de outros problemas que seria longo desfiar.
Uma pena. Realmente, uma pena.
João Paulo Rodrigues em novembro 21, 2008 10:34 AM
#11
Eu acho que a aprovação das cotas é um mínimo que podemos fazer para "pagar" nossa dívida histórica com os negros. Carregamos anos de abuso e exploração, num país racista como o nosso as cotas no mínimo vão alertar as pessoas a reconhecerem que os negros "existem" e que "foram" tratados como animais.
Izabella em novembro 21, 2008 10:55 AM
#12
Dívida? vocês enlouqueceram?
Destinar cotas a escola publica é a maneira mais sensata nesse momento. Mas isso não quer dizer que deve permanecer eternamente e se transformar numa desculpa para o governo não promover melhorias no ensino básico. Tem muito aluno chegando na universidade totalmente defasado.
leo seabra em novembro 21, 2008 11:08 AM
#13
Excelente texto.
Também sou a favor de todas as cotas possíveis para reparar o dano crônico da injustiça, mas se os governos continuarem omissos com relação à qualidade de ensino de nossas crianças, de nada valerão as cotas, pois ocorrerá nas faculdades públicas o mesmo fenômeno que está ocorrendo em algumas particulares: alunos semi-analfabetos sem formação básica para prosseguirem com dignidade a sua formação.
A educação não pode mais esperar. É necessária uma "revolução" no setor, com investimentos pesados, com valorização profissional e finaceira dos professores, e simultaneamente às políticas para os cursos superiores é urgente também uma estratégia de proliferação de escolas técnicas de excelência.
Abraço.
Mariano em novembro 21, 2008 11:46 AM
#14
devem ter pensado que a mulher negra estava ali para um programa. viva os mestiços e as cotas! Por que os mestiços existem sim. Eu tenho três primos que entram na conta dos afrodescendentes e dos árabedescendentes. Um não anula o outro. Agora, o preconceito é brutal. Viva o Brasil Afro. E a Paulicéia Afro também!
Jorge em novembro 21, 2008 1:46 PM
#15
Acho tão engraçado que quando se discute cotas a direita logo diz que isso´não deve ser feito porque é paliativo. A direita diz que deve melhorar o ensino público. Concordo inteiramente. Mas, como? Com professor estadual ralando para ganhar 800 por mês? Acho que tem que ser muito ingenuo para defender a melhora da educação básica pública e ser defensor ardoroso da "responsabilidade fiscal" e do superávit primário. Como? Sem poder aumentar o salário dos professores? Sou assumidamente kaleckiano-keynesiano. É incrível que se aceitou (a esquerda não tem nem capacidade para discutir isso) acriticamente no Brasil a necessidade de gerar enormes superávits primários. O Estado estaria no limite dos seus gastos. Se isso fosse verdade, porque a taxa de juros do governo é o piso da taxa de juros do mercado? Se os juros no Brasil não podem ser baixados, porque quase todos os principais países do mundo (emergentes e desenvolvidos) têm taxa de juros reais negativa atualmente? Quando banqueiro precisa de socorro aparecem trilhões, mas na hora de melhorar o ensino público, o Estado não teria poucos bilhões. A discussão de melhora (de verdade) do ensino público requer a discussão sobre a necessidade de ter superávit primário. Não dá mais para brincar, se quiser aumentar o salário do professor, vai ter que reduzir o gasto em saúde ou em transporte público ou desvincular o saláro mínimo da previdência. Se alguém é contra as cotas dizendo que é favor da melhora da educação pública, que se cobre dessa pessoa como o Estado deve fazer. É favor do superávit primário? Então, como faz para dar um salário digno para os professores? Acha que é impossível dar um salário digno pra os professores, então como faz? Se os juros no Brasil fosse igual a de países emergentes, como Indonésia, Colômbia, Peru, Marrocos, Polônia, Índia, China, México, etc., o Brasil conseguiria gastar uns R$ 80 bilhões a mais em educação, saúde, previdência e transporte públicos, etc. e haveria manutenção da dívida pública/PIB.
A economia do Brasil não permite ter uma taxa de juros real de países como Marrocos, Tunísia, Indonésia, Peru e Colômbia? Fala sério. Alias, não entendo porque o governo tem que manter essa relação em determinado patamar (hoje, isso é pior; o governo do Lula vem reduzindo sistematicamente essa relação e alega que não há dinheiro para saúde, educação, etc.). Qualquer empresa privada para fazer um investimento aumenta sem qualquer problema todos seus coeficientes de endividamento. Acreditar que o Estado, que emite moeda e estabelece a taxa de juros do mercado, tem mais restrições orçamentárias que as empresas é igual a acreditar em papai noel. Mas, voltando as cotas não vejo porque ser contra elas, uma vez que mesmo com uma política fiscal a la China e EUA, o nivelamento da educação pública e privada demoraria um pouco.
Bruno em novembro 21, 2008 3:47 PM
#16
Amigos, considerando a frequência e o detalhe com que este blog já tratou a questão racial -- e dentro dela, o tema das cotas -- imagino que conto com a compreensão dos leitores se me limito a registrar e agradecer os comentários, sem me estender muito em polêmicas.
Desde a inacreditável reunião de 1500 jovens na qual nenhum apóia as cotas -- deve ser um recorde: 1500 brasileiros com a mesma opinião sobre algo -- até os que acham natural que um hotel barre negras e não brancas, porque afinal há que se cuidar com a prostituição, os argumentos trazem aquele certo ar do já ouvido.
Incluindo-se, claro, os "argumentos" daqueles que se escandalizam à mera menção do termo "dívida" ou daqueles que sempre dizem que a "questão é mais complexa", sem nunca deixar essa complexidade aflorar naquilo que redigem num dos blogs que, com mais complexidade, tem tratado esse tema.
Noto com alegria, no entanto, que a quantidade de clichês tem diminuído bastante ao longo destes quatro anos em que o blog tem tratado do tema.
Idelber em novembro 21, 2008 4:20 PM
#17
Idelber,
valeu pelos links. :)
Se quiser clichês raciais, eu te empresto alguns. Meus comentários estão cheios... :)
Mas, pelo menos, apesar dos absurdos q tenho q ler, tenho a impressão q a maioria dos meus leitores se sente confuso e incomodado num nível profundo, e quer, de boa fé, pensar e entender melhor o assunto. Se não fosse isso, eu nem perdia tanto tempo com isso.
alex castro em novembro 21, 2008 5:27 PM
#18
Idelber,
É natural que um hotel barre uma mulher desacompanhada que pretenda visitar um hóspede do estabelecimento. Alguns hotéis tem regras explícitas neste sentido. Pode ser este o caso.
Você também não pode garantir que uma mulher branca tenha subido sozinha, depois da sua amiga.
Há uma outra característica neste caso: sendo sua amiga, deve ser informada, graças ao amigo que tem. Se houve racismo, houve crime. Por que a vítima não registrou queixa contra o hotel na delegacia?
Silvio em novembro 21, 2008 5:37 PM
#19
Pois é, professor... Tempos atrás eu e o senhor tivemos uma discussão pra lá de "animada" sobre as ações afirmativas e sobre as diferentes maneiras que o racismo opera tanto no Brasil quanto nos EUA. Não vou reeditar essa discussão aqui porque como você bem afirmou no seu ótimo texto a aprovação do projeto sobre cotas na Câmara dos Deputados deixou a questão meio que superada, ou pelo menos levou-a para outro nível. Aliás - acredite se quiser ou não - eu gostei que o projeto tenha dado mais enfâse para parte social do que racial. Todavia... Preciso fazer um desabafo, e usarei o seu blog para fazê-lo.
Uma das coisas que me deixa mais triste e aborrecido nas comemorações do 20 de Novembro é a legião de "historiadores" e "pesquisadores" (assim mesmo, entre aspas) que na tentativa de desacreditar o Movimento Negro Brasileiro simplesmente "provam" e "comprovam" que negros escravizavam negros, que Zumbi dos Palmares era um terrorista e escravista, que a escravidão no Brasil não foi racializada, que os negros e senhores de escravos tinham um relação maravilhosa em todos os sentidos, etc, etc, etc.
Puta que pariu! Todos nós sabemos que negros escravizaram negros e a história de Xica da Silva está ai para quem quiser conhecê-la... Todos nós sabemos que desde o começo da nossa História o português se encantou com o bumbum da índia e da negra... Todos nós sabemos que não existem certezas absolutas sobre Palmares e o seu papel no sistema colonial alagoano... O que parece que esses "historiadores" e "pesquisadores" não sabem é que negros senhores de escravos e donos de engenhos que tratavam bem as suas "propriedades" são exceções na História da Pátria-Amada-Brasil. Mas, se o objetivo é "detonar" o Movimento Negro Brasileiro, bem, aí vale tudo, não é mesmo? Afinal de contas, para muitas pessoas não há nada mais conveniente do que nivelar tudo por baixo e "provar" que no Brasil nunca existiram vítimas, e que todo mundo "sacaneou" todo mundo.
Eu poderia fazer aqui uma série de divagações sobre como o Negro foi e é tratado no Brasil, mas acho que isso pura e simplesmente só serviria para encher o saco de todo mundo. O que acho que é válido é usarmos o dia 20 de Novembro para refletirmos sobre o que aconteceu no passado, sobre que acontece no presente e principalmente para decidir o que faremos no futuro. Se fizermos isso, um dia, quem sabe, seremos de fato e de direito uma democracia racial.
Ah, só uma coisinha, Idelber: pô, foi muita "sacanagem" sua lembrar que o João Cândido pendeu para o Integralismo, cara! rs...rs...rs...rs... O Poetinha Vinicius de Moraes também teve suas simpatias integralistas, mas nem por isso deixou de ser um dos poetas mais queridos da Lingua Portuguesa. Brincadeiras a parte, deixo para você o meu abraço fraterno. Até a próxima!
Claudio Roberto Basilio em novembro 21, 2008 5:42 PM
#20
Caro Claudio, lembro-me bem daquele excelente debate! Sempre bom tê-lo por aqui.
Alex, está excelente aquela série sobre racismo no LLL. Muito boa mesmo.
Idelber em novembro 21, 2008 5:50 PM
#21
Ótimo texto Idelber, espero que as discussões sobre o assunto passem logo para a ação aqui na UFMG, que ainda está defasada nesse particular, apesar dos esforços de muitos professores e ativistas. A partir do ano que vem o novo curso de cinema de animação da Escola de Belas Artes, do qual farei parte, passará para o período noturno, como a maior parte dos novos cursos oferecidos na esteira do REUNI, o que espero ser mais um fator de inclusão e de resgate da nossa dívida social.
Off: depois queria saber sua opinião sobre Hillary na Secretaria de Estado...
Leo Vidigal em novembro 21, 2008 5:50 PM
#22
Gostei muito, Leo. Vamos ver se hoje faço um post. Mas gostei. Mostrou muita confiança no taco dele.
Idelber em novembro 21, 2008 5:52 PM
#23
Idelber,
Concordo com o texto e o seu comentário de número 16 também foi perfeitamente justo.
Concordo como os colegas que pontuam sobre a complexidade do tema, de fato - e de direito - ele é muito complexo, no entanto, isso não pode nem deve ser usado como justificativa para a inércia diante deste grave problema que se abate sobre nossa sociedade.
Qualquer pesquisa séria que trate do assunto prova que existe uma brutal disparidade de oportunidade entre descendentes de europeus e os descendentes de africanos - e o mesmo vale para os índios. Isso deixa claro que o Estado brasileiro deve pôr em prática uma política de ação afirmativa.
O Brasil é um país capitalista e a base de acumulação que resultou nesse sistema por essas bandas veio da exploração de mão-de-obra escrava que, por coincidência do destino, era negra africana. Não podemos olvidar também a própria forma que esse país foi criado, portanto, o mesmo deve ser levado em conta em relação aos índios.
Criar políticas que incluam os negros, mestiços e índios seja em universidades ou no mercado de trabalho não é dar privilégios a ninguém, é pagar uma dívida incalculável que a nação brasileira tem para com eles.
Quanto a misturar isso com o problema da escola pública não faz sentido; são dois problemas graves, porém diferentes que apesar de não raro se interseccionarem não podem ser misturados sob pena de não serem resolvidos.
PS 1: Idelber, essa questão dos integralistas vale um debate mais apurado; o Integralismo foi um fenômeno que apesar de suas inequívocas inspirações fascistas teve contornos pra lá de idiossincrásicos - como tudo no Brasil - e uma prova disso é o caso João Cândido.
PS 2: Demétrio Magnoli, o cara que andava a Cidade Universitária inteira de havaianas fazendo pregação revolucionária - bons tempos aqueles de LIBELU - virou o sujeito que aparece na TV para falar mal de cotas, entre outras coisas; cá entre nós, esse espécime não pode ser deixado de lado, ele é a prova viva de que os extremos se tocam na política - ou, quem sabe, de como a teoria do Dom Casmurro patriarca faz sentido.
PS 3: Alguém aí falou mal da Lei Áurea ou foi impressão minha?
Hugo Albuquerque em novembro 21, 2008 5:55 PM
#24
Excelente texto, mais uma vez. Agora, Idelber, já que você me pareceu, em outras postagens, tão crítico do movimento de judicialização da política, parece-me estranho que anime-se tanto com a aprovação do projeto da na câmara: além das alterações no congresso, temos de nos lembrar que ainda resta caos ríticos das cotas raciais impetrarem, por exemplo, uma "arguição de descumprimento de preceito fundamental" contra a lei, buscando proteger "os mais nobres valores constitucionais do estado democrático de direito brasileiro" exigindo do STF a anulação da lei por sua violação à isonomia jurídica. Afinal, sabemos que Gilmar Ferreira Mendes é muito melhor conhecedor das necessidades do país do que o congresso e qualquer movimento social. rsrs
Brincadeiras à parte, isso é apenas para lembrar que, mesmo dentro desse pequeno - e controverso - possível movimento em direção à igualdade que seria a adoção das cotas, foi dado apenas num passo ainda menor.
Igor Suzano em novembro 21, 2008 9:00 PM
#25
essa coisa de mulato. tem me incomodado um pouco. sempre, em qualquer contexto. eu acho que a palavra mulato já é maior do q a mistura reprodutiva entre um 'branco' e um 'negro'. eu acho q evoca a mistura cultural (daí algumas pessoas reclamaram da folha mais do obama se chamar "o mulato", por exemplo, e eu acho genial etc). entao nao gosto muito da expressao mitologia da mulatez. mas, enfim, pode ser freyriana demais a minha posiçao etc. mas nao consigo usar mulato no sentido q se usa.
mary w em novembro 22, 2008 12:40 AM
#26
sobre o hotel. eu acho q é meio comum preconceito se desdobrar. e racismo vir junto com machismo etc. potencializa bastante. ser mulher e negra. acende pavios e tal.
mary w em novembro 22, 2008 12:46 AM
#27
mary, tô adorando demais a história da Hillary SoS. Vale um post caprichado :-)
Idelber em novembro 22, 2008 1:30 AM
#28
Caro Idelber
Estou incluído neste "Seja lá o que for que você pense sobre as cotas". Vivo no Rio de Janeiro onde o nível de vida que atingimos (insegurança, violência e um governo do Estado vacilante) vai deixando todos os problemas urgentes. Saudações (ainda assim) cariocas.
Paulo Z em novembro 22, 2008 2:12 AM
#29
Idelber, acompanho e participo dessa discussão há alguns anos, com muita paixão e um olhar talvez um pouco diferente de muitos pelo fato de ter passado boa parte da infância no exílio (dos meus pais). Isso fez com que eu chegasse aqui no início da adolescência com um olhar estrangeiro (morei em Genebra, na 2a metade da década de 70 - cidade de imigração mto grande italiana e espanhola, na época).
Gostaria só de fazer um reparo inicial ao seu post: porque misturar e colocar no mesmo saco a discussão sobre o racismo existente no Brasil (que, acho, nem o Magnoli nem o Ali Kamel negam)e aquela sobre a política de cotas raciais como solução?
Será que não dá para imaginar que alguém possa ser um militante sincero anti-racismo, mas não queira copiar as soluções de um país (esse aí onde vc mora) em que havia apartheid legal até a década de 60? Em que se era punido por lei ao fazer um casamento birracial? Em que um 24avos de sangue negro tornava uma pessoa negra (o que formou uma percepção social do que é ser negro e branco absolutamente distinta da nossa)? Será que é absurdo querermos nos debruçar sobre nossa própria história, nossa cultura (como faz por exemplo o Risério, com o qual concordo, ou o Nei Lopes - sem chegar às mesmas conclusões que eu) para encontrar soluções com sabor de Brasil? Será que não dá para ver que os nordestinos pobres, os mais pobres do país, dificilmente serão incluídos em políticas de cotas raciais, já que ser nordestino não é raça (e que, em vários estados, a presença da população negra é mto menos marcada do que a indígena, dando aos traços e à cor das pessoas mais pobres um matiz que certamente não seria aceito pela banca eliminatória da UNB - aquela que por duas vezes aceitou um irmão gêmeo e negou o outro enquanto "negro")?
Conversemos mais. Mas com a idéia de que concordamos com o problema (racismo, exclusão social, preconceito), mas coloco em dúvida a solução. Em tempo: fiquei feliz da aprovação (apesar de ter achado o tempo de adaptação mto curto) das cotas socias, mais amplas do que as raciais. Essas sim, podem de fato fazer a diferença.
Renata L em novembro 22, 2008 4:30 AM
#30
Idelber, acompanho e participo dessa discussão há alguns anos, com muita paixão e um olhar talvez um pouco diferente de muitos pelo fato de ter passado boa parte da infância no exílio (dos meus pais). Isso fez com que eu chegasse aqui no início da adolescência com um olhar estrangeiro (morei em Genebra, na 2a metade da década de 70 - cidade de imigração mto grande italiana e espanhola, na época).
Gostaria só de fazer um reparo inicial ao seu post: porque misturar e colocar no mesmo saco a discussão sobre o racismo existente no Brasil (que, acho, nem o Magnoli nem o Ali Kamel negam)e aquela sobre a política de cotas raciais como solução?
Será que não dá para imaginar que alguém possa ser um militante sincero anti-racismo, mas não queira copiar as soluções de um país (esse aí onde vc mora) em que havia apartheid legal até a década de 60? Em que se era punido por lei ao fazer um casamento birracial? Em que um 24avos de sangue negro tornava uma pessoa negra (o que formou uma percepção social do que é ser negro e branco absolutamente distinta da nossa)? Será que é absurdo querermos nos debruçar sobre nossa própria história, nossa cultura (como faz por exemplo o Risério, com o qual concordo, ou o Nei Lopes - sem chegar às mesmas conclusões que eu) para encontrar soluções com sabor de Brasil? Será que não dá para ver que os nordestinos pobres, os mais pobres do país, dificilmente serão incluídos em políticas de cotas raciais, já que ser nordestino não é raça (e que, em vários estados, a presença da população negra é mto menos marcada do que a indígena, dando aos traços e à cor das pessoas mais pobres um matiz que certamente não seria aceito pela banca eliminatória da UNB - aquela que por duas vezes aceitou um irmão gêmeo e negou o outro enquanto "negro")?
Conversemos mais. Mas com a idéia de que concordamos com o problema (racismo, exclusão social, preconceito), mas coloco em dúvida a solução. Em tempo: fiquei feliz da aprovação (apesar de ter achado o tempo de adaptação mto curto) das cotas socias, mais amplas do que as raciais. Essas sim, podem de fato fazer a diferença.
Renata L em novembro 22, 2008 4:30 AM
#31
Idelber, acompanho e participo dessa discussão há alguns anos, com muita paixão e um olhar talvez um pouco diferente de muitos pelo fato de ter passado boa parte da infância no exílio (dos meus pais). Isso fez com que eu chegasse aqui no início da adolescência com um olhar estrangeiro (morei em Genebra, na 2a metade da década de 70 - cidade de imigração mto grande italiana e espanhola, na época).
Gostaria só de fazer um reparo inicial ao seu post: porque misturar e colocar no mesmo saco a discussão sobre o racismo existente no Brasil (que, acho, nem o Magnoli nem o Ali Kamel negam)e aquela sobre a política de cotas raciais como solução?
Será que não dá para imaginar que alguém possa ser um militante sincero anti-racismo, mas não queira copiar as soluções de um país (esse aí onde vc mora) em que havia apartheid legal até a década de 60? Em que se era punido por lei ao fazer um casamento birracial? Em que um 24avos de sangue negro tornava uma pessoa negra (o que formou uma percepção social do que é ser negro e branco absolutamente distinta da nossa)? Será que é absurdo querermos nos debruçar sobre nossa própria história, nossa cultura (como faz por exemplo o Risério, com o qual concordo, ou o Nei Lopes - sem chegar às mesmas conclusões que eu) para encontrar soluções com sabor de Brasil? Será que não dá para ver que os nordestinos pobres, os mais pobres do país, dificilmente serão incluídos em políticas de cotas raciais, já que ser nordestino não é raça (e que, em vários estados, a presença da população negra é mto menos marcada do que a indígena, dando aos traços e à cor das pessoas mais pobres um matiz que certamente não seria aceito pela banca eliminatória da UNB - aquela que por duas vezes aceitou um irmão gêmeo e negou o outro enquanto "negro")?
Conversemos mais. Mas com a idéia de que concordamos com o problema (racismo, exclusão social, preconceito), mas coloco em dúvida a solução. Em tempo: fiquei feliz da aprovação (apesar de ter achado o tempo de adaptação mto curto) das cotas socias, mais amplas do que as raciais. Essas sim, podem de fato fazer a diferença.
Renata L em novembro 22, 2008 4:31 AM
#32
Perdão pela repetição do post(3 vezes!). Meu computador deu tilt.
Bruno, meu caro colega, entristece-me encontrar vc por aqui nessa discussão falando dos opositores às cotas raciais como "a direita". Olhe melhor e verá que há opositores à esquerda tb. Tem um cara do Movimento Negro Socialista que vale a pena ser lido (esqueci o nome dele, mas nada que o google naõ resolva). Abraço amigo. Renata
Renata L em novembro 22, 2008 4:39 AM
#33
Esse é o som de um amigo meu, atleticano doente, residindo em Porto Alegre:
http://www.myspace.com/brunomoraisnarede
Ele acabou de ficar em segundo lugar num festival de música em PoA
A letra da canção:
Sonego
Bruno Morais
Composição: Allan Dias/ Bruno Morais
Desde cedo aprendi, onde era o meu lugar
Mas eu nunca engoli as sobras do seu jantar
Não me diga onde ir, não me diga o que fazer
Meu agora meu aqui, não dependem de você
Sonego, não nego e vou sonegar
O que for imposto ao gosto do meu paladar
Sonego, não nego e vou sonegar
O que for imposto ou oposto do meu ser-estar
Eu sempre vivi no morro, mas não morro sem viver
Sem ter que pedir socorro quando precisar comer
Eu não quero piedade, de quem nunca deu um pio
Com vergonha da verdade, no sangue a cor do Brasil
Sonego, não nego e vou sonegar
O que for imposto ao gosto do meu paladar
Sonego, não nego e vou sonegar
O que for imposto ou oposto do meu ser-estar
Nosso país é puro, mas daquele jeito
Pura hipocrisia, puro preconceito
Você me disse um dia que ser negro é um fardo
E esclarece que não é negro, é pardo
Falou que na família nunca teve um mulato
E passa o tempo todo, escondendo os retratos
E eles vão revelar o que eu já descobri
Que a bizavó pulava a cerca toda noite com Zumbi
Sonego, não nego e vou sonegar
O que for imposto ao gosto do meu paladar
Sonego, não nego e vou sonegar
O que for imposto ou oposto do meu ser-estar
Jasão em novembro 22, 2008 11:11 AM
#34
Bisavó é com S, claro - erro de digitação
;)
Jasão em novembro 22, 2008 11:12 AM
#35
João Paulo,
Acredito que o problema não é a posição que essas pessoas adotam, de serem contra as cotas. O problema são os argumentos que elas usam pra justificar essa posição. Dizer que raças não existem, logo não existe racismo, é agir de má fé ou com muita, muita ignorância. Raças biológicas, entre humanos, realmente não existem, mas a discriminação por cor na nossa sociedade existe e é muito forte. No caso do Kamell eu cheguei a ler seu livro, “Não Somos Racistas”. Para ele o brasileiro discrimina o pobre, não o negro. Numa passagem do livro ele lembra o caso do dentista negro de São Paulo que foi assassinado por policiais que julgaram que ele seria um assaltante. Para Kamel os policiais não julgaram o dentista como um bandido porque ele era negro, mas porque acharam que seria um pobre. Pobre, em minha opinião, é esse argumento do Ali kamel. Foi difícil ler esse livro até o final.
Eduardo Prado em novembro 22, 2008 12:13 PM
#36
Claudio Roberto,
Existem historiadores muito sérios publicando suas pesquisas sobre nosso passado escravocrata. Muitas dessas publicações são releituras de outras pesquisas sob a luz de novas evidências ou de uma nova teoria historiográfica. Como diria meu professor, o passado é imprevisível.
O maior perigo, a meu ver, não são essas releituras, que sempre seram feitas, faz parte do da dinâmica da produção científica, mas o uso que alguns setores, fora do meio acadêmico em que são produzidas, fazem delas.
Segundo muitos historiadores a maioria dos quilombos não era contra a escravidão. Até o fim do século 18, pelo menos, a escravidão era tão natural como nascer e morrer, não se conhecia outro sistema. Citando Flávio dos Santos Gomes, os escravos lutavam pela liberdade de escolherem a sua escravidão, com um dono melhor, mais justo e que castigasse menos.
Hoje os trabalhadores reivindicam melhores condições de trabalho e remuneração e se o patrão for muito ruim, procura-se outro. Não se pretende _ falando da maioria dos trabalhadores _ acabar com o trabalho assalariado ou com o patrão. Pelo contrário, a maioria, se tiver oportunidade, vai querer virar patrão também. Daí a dizer que esses trabalhadores são potencialmente tão exploradores quanto seus patrões e por isso suas reivindicações não merecem crédito, vai uma distância muito grande.
Eduardo Prado em novembro 22, 2008 12:39 PM
#37
Que legal, Idelbas! Fui gravar um trecho no Mil Casmurros e te vi, todo bonitão lá fazendo uma gravação com a voz e a pronúncia pausada!
Gravatai Merengue em novembro 22, 2008 1:35 PM
#38
Não li todos os comentários, mas em relação ao meu comentário #5, queria deixar claro que eu não disse nem concordo que seja "natural" barrar alguém pressupondo prostituição.
Mas um preconceito é diferente de outro. E não há problema em ser preciso nisso aí.
André Pessoa em novembro 22, 2008 3:43 PM
#39
eu to adorando tb. mas queria ver entrevista dela etc. nao dá pra saber ainda q apito a politica externa vai tocar com ela.
mary w em novembro 22, 2008 4:32 PM
#40
Tentando, o que não é o meu forte, ser sintético sobre questões complexas.
1. Quotas (quotas, por favor; "cotas", só se forem de malha ou d'armas, vão à etimologia, daqui a pouco vocês vão achar que "desapercebido" e "despercebido" é a mesma coisa), sejam "raciais", "sociais" ou o que seja, são mero paliativo - mas, em um país tão arraigadamente desigual como o Brasil, um paliativo necessário e potencialmente útil, desde que não se transformem em único objetivo e objeto de discussão.
2. "Escola pública, universal e gratuita de boa qualidade", claro, em tese ninguém ousa ser contra, nem os demos, não de público pelo menos, beleza; mas vamos discutir o que, na prática, o que isso significa em termos *políticos*? Foram quarenta anos de desmantelamento; onde achar hoje as "tias" multitarefa que ministraram à minha geronta geração as "primeiras letras" e números no tempo em que ser professora primária era carreira profissional socialmente prestigiada, para a qual havia formação específica, os cursos normais, "Minha linda normalista rapidamente conquista meu coração sofredor", e em que a gente dava História do Brasil Contemporâneo aos oito anos? Bota de barato duas gerações nisso.
3. Tenho vários pseudopodos atrás com esse negócio de Dia disso, Dia daquilo. Soa como álibi, hoje tem festa, indulgência plenária para todos os opressores, amanhã e nos trezentos e sessenta e três subsequentes volta ao normal, lugar de - no caso - crioulo é na senzala, se se meter a besta no tronco. Mas, de novo, se servir pra sucitar discussões, pode até ser alguma coisa. Ou não.
4. Estátua do João Cândido. Já era tempo. Falta agora a gloriosa Marinha Brasileira rever sua posição oficial de que a Revolta da Chibata foi um "movimento sedicioso", nada mais que isso. E, a propósito, quantas pessoas será que *sabem* o que foi o "movimento sedicioso" e quem era esse tal de Almirante Negro?
Comentário colateral: Magnolli é indesculpável e irrecuperável. Canalha que se intitula "geógrafo" e perpetra "se não existem raças, por que falar em racismo" não tem perdão. Ao pelourinho com ele.
Digressão: Hillary como SoS me cheira a copout. Já se fosse na Saúde...
Carlos Martins em novembro 22, 2008 5:58 PM
#41
Obrigado, pelo comentário e especialmente pelos pontos 2,3,4, excelentes. Quanto ao 1, vários órgãos de imprensa e o próprio governo seguem, já há tempos, Antonio Houaiss, que na acepção 2 do verbete "cota" registra o sentido:
n substantivo feminino
1 quantia, parcela determinada de um todo
Ex.: cota da herança
alem do sentido que o Houaiss regristra como o 6, claro:
6 porção determinada ou não de alguma coisa (concreta ou abstrata)
Ex.: já recebeu sua c. de pão, era sua c. de sofrimento.
Ao definir "quota", Houaiss simplesmente registra:
n substantivo feminino
m.q. 2cota.
Ou seja, quotas ou cotas, é questão de opiniotas.
Idelber em novembro 22, 2008 6:11 PM
#42
Lantejoulas suas.
"Quotas", "cotas", potatoes, potatos. Mas não é só "you say ee-ther and I say eye-ther", o buraco é como de praxe mais embaixo.
Tem a ver com a idiotização do idioma. Um imbecil, por desconhecimento - claro que não é seu caso -, escreve errado, sai em letra de forma - na "grandimprensa", what else -, imbecil é