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sexta-feira, 21 de novembro 2008

20 de novembro e a dívida

lula-candido.jpgPara quem se lembra da época em que Aldir Blanc e João Bosco tiveram que substituir, por causa da censura, “o almirante negro” por “navegante negro” na letra de Mestre-Sala dos Mares, há algo de especial em se ver um presidente operário inaugurando uma estátua de João Cândido, o líder da Revolta das Chibatas, no Rio de Janeiro. João Cândido é daquelas idiossincrasias brasileiras: um negro rebelde, líder e revoltoso em 1910, que vinte anos depois se rende ao charme da Aliança Integralista Nacional, de Plínio Salgado. Em todo caso, um herói popular, especialmente do povo negro, pela memória gloriosa do que fez em 1910.

Foi lendo um belo texto da Cidinha que cheguei, este ano, à minha reflexão anual de todo 20 de novembro: a de que o Brasil é esse compósito singular de uma realidade sistêmica de discriminação coexistindo com a celebração universal da mistura e da mulatez. Em graus variados, em um ou outro discurso, a mitologia da mulatez vai “acolchoando” a realidade da segregação econômica e da discriminação cotidiana. Isso coloca os movimentos negros numa posição particularmente chata, pois sua demanda é vista como ameaçadora de um mito nacional muito querido. Num contexto assim, os movimentos negros estão certos de martelar o fundamental, que é o sistêmico e onipresente abismo racial no Brasil, dos hotéis às agências de propaganda, do elevador à reunião de chefia à blitz policial à sala de aula.

Antonio Risério tem razão que a importação de um paradigma binário americano para se pensar a raça no Brasil pode ser daninha. Mas até aí tem razão. Deixa de tê-la cada vez que permite que sua voz ecoe em conjunto com a cruzada Kamel-Magnoli contra as cotas raciais. Seja lá o que for que você pense sobre as cotas, o fato de que um professor universitário como Magnoli faça da cruzada contra elas o elemento definidor do seu perfil intelectual é triste, muito triste. Por isso, um pensador como Risério, que escreveu um livro absurdamente bom, agora deve manter a nuance e encarar o desafio de seguir pensando fora dessa aliança mais fácil e confortável, com a versão Globo-Veja da mitologia da mulatez nacional.

Não há realidade da mulatez nem singularidade brasileira que contorne o fato de que minha amiga e aluna Renata foi barrada ao tentar visitar meu quarto de hotel, às 20:15, sob a desculpa de que a partir de tal hora não subia ninguém, menos de 24 horas depois de que seu (ex)marido, branco, também aluno e amigo meu, subisse sem problemas às 20:45.

Hotel Rondônia, região ali do Catete, no Rio, se alguém quer saber onde foi.

Isso no Brasil acontece todo dia. Acontece uma vez para cada ocasião em que um profeta anuncia a nossa incomparável singularidade de povo totalmente mestiço.

Este blog, que se orgulha de ter participado desde o primeiro momento do debate sobre as cotas, considera essa discussão, até certo ponto, superada com a aprovação do projeto na Câmara. Que o Senado faça algum remendo numérico nas porcentagens ou não, o mais provável é que se reconheça que a maioria da sociedade brasileira resolveu encarar essa dívida dessa forma, pelo menos por algum tempo. O que é bom.


Links: Blog do Nei Lopes
Blog do Juarez
E se Obama fosse africano, no blog da Cidinha.
O Brasil Negro, da Ana César.
Adeus Césaire, do Salamandro.
O magnífico poema de Ricardo Aleixo sobre a negritude subterrânea em Paris.
Movimento Brasil Nagô.


PS: O Globo fez uma listinha meio furreca de filmes brasileiros sobre o negro, mas se esqueceram – não é mesmo, Rafex e Bia – do melhor deles: It's all true, de Orson Welles.



  Escrito por Idelber às 01:58 | link para este post | Comentários (78)


Comentários

#1

Lindo post!

Izabella em novembro 21, 2008 4:43 AM


#2

Olá, Idelber, novamente 'pesquei' seu artigo e o postei em nosso blog: www.guerrilheirosvirtuais.blogspot.com
Qualquer problema é só avisar.
Atenciosamente
Saroba

Luiz Settineri em novembro 21, 2008 6:50 AM


#3

Idelber,

acabei de ler o imprescindível "Veneno Remédio", do Zé Miguel Wisnik. Me lembrei dele agora, vendo você falar da o Brasil é esse compósito singular de uma realidade sistêmica de discriminação coexistindo com a celebração universal da mistura e da mulatez. Em graus variados, em um ou outro discurso, a mitologia da mulatez vai “acolchoando” a realidade da segregação econômica e da discriminação cotidiana.

O Livro (com L maiúsculo, mesmo) merece entrar para a lista dos "Intérpretes do Brasil".

Radical Livre em novembro 21, 2008 7:10 AM


#4
Seja lá o que for que você pense sobre as cotas, o fato de que um professor universitário como Magnoli faça da cruzada contra elas o elemento definidor do seu perfil intelectual é triste, muito triste.

Muito pelo contrário, se há alguém com esse histórico que toma esse posicionamento, é um bom motivo para ponderarmos e refletirmos sobre o nosso.

Este blog, que se orgulha de ter participado desde o primeiro momento do debate sobre as cotas, considera essa discussão, até certo ponto, superada com a aprovação do projeto na Câmara

Você que é um intelectual pode comemorar, mas eu que trabalho diretamente com 1500 jovens, em sua maioria mestiços e negros, sei que a realidade é um pouco diferente da teoria e da legislação.

E por falar nisso, eu fico intrigado quando abro o debate e até agora não achei um sequer desses jovens que fosse favorável à adoção de cotas.

O que está bem óbvio para nós é que os políticos e os intelectuais fazem uma reedição de 1888, ao desejar por decreto abolir uma realidade muito mais complexa do que ser barrado em um hotel de bacana...

Luiz Aquino em novembro 21, 2008 7:15 AM


#5

Pode ser que eu esteja sendo muito ingênuo, mas o caso do hotel, que você relata, não me pareceu conseqüência de racismo.

Alguns hotéis têm pavor de serem vistos como motéis, e por isso têm regras não escritas que proíbem ou dificultam a entrada de não-hóspedes nos quartos. No caso de um hóspede homem, é mais fácil a portaria abrir uma exceção para um visitante masculino, pois geralmente não se imagina que uma visita dessas tenha objetivos sexuais.

(esse comentário é apenas uma tentativa de explicação do caso, e não uma defesa dele; se eu estiver certo, o caso é de moralismo, sexismo ou outros ismos, mas não de racismo)

André Pessoa em novembro 21, 2008 7:32 AM


#6

Idelber,
depois queria ler uma análise sua sobre o estágio atual do racismo no esporte, especialmente no futebol.

A propósito, reproduzi no último texto lá na intimorata emissora uma charge do menino Cau Gomez que paga o ingresso.

Quando estiver menos assoberbado, confira.

Franciel em novembro 21, 2008 8:31 AM


#7

idelber:
ótimo o ricardo aleixo.sugiro,se possível,algo do
adão ventura(1946-2004),em "a cor da pele".obrigado.
romério

romério rômulo em novembro 21, 2008 8:47 AM


#8

Idelber, sinceramente, enquanto não sair a versão final do projeto e sua regulamentação prefiro aguardar. Pode sair uma emenda pior que o soneto...

Algo tem que ser feito, sem dúvida. Sou a favor de alguma modalidade de cotas raciais, mas ainda não consegui me fixar em um formato.

O projeto que saiu da Câmara prevê 50% das vagas para alunos das escolas públicas. Dessas vagas, metade seria para alunos de baixa renda (de qualquer origem étnica). As cotas para negros, índios e pardos também ficariam inclusas na cota das escolas públicas.

Ou seja, dependendo da versão final, pode dar uma tremenda confusão lá na ponta.

Luiz em novembro 21, 2008 9:12 AM


#9

Olá,

A Câmara aprovou destinação de 50% das vagas em Universidades Federais para egressos de escolas públicas (que tenham feito todo o ensino médio em escolas públicas). Dentro destes 50% distribuem-se cotas para negros, índios e baixa renda.

No Brasil há um problema racial: fato.

Esse problema, porém, não é de segregação.

Ninguém foi impedido de entrar na Universidade pela cor da pele.

Foi impedido pela concorrência com escolas menos ruins (as privadas no Brasil não são boas, são apenas menos caóticas que as públicas).

A destinação de cotas para escolas públicas é o mais lógico para atender a três demandas:
1) a social, afinal, os mais pobres estão na escola pública,
2) a racial, afinal há mais negros entre os mais pobres,
3) a histórica, afinal a universidade pública não deve formar a elite escolarizada em instituições privadas - deve dar preferência à massa, que, naturalmente, vem da escola pública.

Aliás, nada mais lógico que a Universidade PÚBLICA dê preferência à Escola PÚBLICA.

Creio que a discussão sobre cotas raciais foi boa para desenvolver uma reflexão sobre as "raças" no Brasil, porém, como você mesmo reconhece em seu texto, trazer a lógica binária norte-americana para cá não faz sentido.

Abraços,

Paulo

Paulo Roberto em novembro 21, 2008 9:16 AM


#10

A aprovação das cotas é um erro enorme e uma atitude inócua para o que se pretende, com conseqüências ruins mais amplas. Aprovar cotas porque negros, mulatos e mestiços são discriminados em recepções e outros lugares é algo que não possui ligação direta com o que realmente importa. Quer dizer que cotas diminuirão constrangimentos contingentes? As empresas vão adorar. Nada como não tocar no racismo delas, que poderão então fazer um programinha aqui, um ali, de inclusão racial, e tudo com o apoio entusiasmado do movimento negro.
A aprovação das cotas não é fruto de nenhuma movimentação popular de monta. É fruto de um movimento pequeno que se encastelou no Estado e, só por isso e pela ajuda de acadêmicos e políticos movidos pelos mais nobres sentimentos (e aos quais se deve o respeito justamente do debate), acabou impingindo goela abaixo das universidades a culpa que ela não carrega e os resultados que não conseguirá atingir.
Acho deprimente essa vilipendiação de Kamel e Magnoli. Quase ninguém se atreve a debater com eles, já que eles são culpados por associação e são, de antemão, excluídos do debate. Os argumentos que levantam são então chutados para escanteio, com a garantia que seus oponentes têm de que estão do lado certo, uma altivez moral que prescinde de argumentos, como se nestas questões é a companhia quem determina qual “lado” tomar. Se assim fosse, eu prefiriria ter a meu lado Kamel e Magnoli a Edson Santos e Matilde Ribeiro.
É meio estranho esse argumento de que fazer do tema das cotas um norte da sua atuação intelectual é sinal de tristeza. Por quê? Quer dizer que a favor pode, mas contra não? Ora, temos militantes negros que acham que as cotas são o alfa e ômega do resgate da dívida histórica com o negro, e é o Magnoli quem paga o pato? Isso me parece autoritarismo, a idéia de que há autoridades a falar acima de críticas, o que seria dado pelo posição e perfil delas, por questões apriorísticas, e não pelos argumentos, o que leva à conclusão de que se os que não são autoridade, os que não possuem o perfil adequado, podem ser assim estigmatizados e o debate então pode ser “superado” por decreto.
As cotas são uma cosquinha no racismo. Teremos alguns milhares de negros que ascenderão socialmente e farão as vezes de vitrine, um afago no ego do movimento negro, um baque na meritocracia, um cavalo de tróia para a reengenharia identitária que o movimento negro deseja além de outros problemas que seria longo desfiar.
Uma pena. Realmente, uma pena.

João Paulo Rodrigues em novembro 21, 2008 10:34 AM


#11

Eu acho que a aprovação das cotas é um mínimo que podemos fazer para "pagar" nossa dívida histórica com os negros. Carregamos anos de abuso e exploração, num país racista como o nosso as cotas no mínimo vão alertar as pessoas a reconhecerem que os negros "existem" e que "foram" tratados como animais.

Izabella em novembro 21, 2008 10:55 AM


#12

Dívida? vocês enlouqueceram?
Destinar cotas a escola publica é a maneira mais sensata nesse momento. Mas isso não quer dizer que deve permanecer eternamente e se transformar numa desculpa para o governo não promover melhorias no ensino básico. Tem muito aluno chegando na universidade totalmente defasado.

leo seabra em novembro 21, 2008 11:08 AM


#13

Excelente texto.
Também sou a favor de todas as cotas possíveis para reparar o dano crônico da injustiça, mas se os governos continuarem omissos com relação à qualidade de ensino de nossas crianças, de nada valerão as cotas, pois ocorrerá nas faculdades públicas o mesmo fenômeno que está ocorrendo em algumas particulares: alunos semi-analfabetos sem formação básica para prosseguirem com dignidade a sua formação.
A educação não pode mais esperar. É necessária uma "revolução" no setor, com investimentos pesados, com valorização profissional e finaceira dos professores, e simultaneamente às políticas para os cursos superiores é urgente também uma estratégia de proliferação de escolas técnicas de excelência.
Abraço.

Mariano em novembro 21, 2008 11:46 AM


#14

devem ter pensado que a mulher negra estava ali para um programa. viva os mestiços e as cotas! Por que os mestiços existem sim. Eu tenho três primos que entram na conta dos afrodescendentes e dos árabedescendentes. Um não anula o outro. Agora, o preconceito é brutal. Viva o Brasil Afro. E a Paulicéia Afro também!

Jorge em novembro 21, 2008 1:46 PM


#15

Acho tão engraçado que quando se discute cotas a direita logo diz que isso´não deve ser feito porque é paliativo. A direita diz que deve melhorar o ensino público. Concordo inteiramente. Mas, como? Com professor estadual ralando para ganhar 800 por mês? Acho que tem que ser muito ingenuo para defender a melhora da educação básica pública e ser defensor ardoroso da "responsabilidade fiscal" e do superávit primário. Como? Sem poder aumentar o salário dos professores? Sou assumidamente kaleckiano-keynesiano. É incrível que se aceitou (a esquerda não tem nem capacidade para discutir isso) acriticamente no Brasil a necessidade de gerar enormes superávits primários. O Estado estaria no limite dos seus gastos. Se isso fosse verdade, porque a taxa de juros do governo é o piso da taxa de juros do mercado? Se os juros no Brasil não podem ser baixados, porque quase todos os principais países do mundo (emergentes e desenvolvidos) têm taxa de juros reais negativa atualmente? Quando banqueiro precisa de socorro aparecem trilhões, mas na hora de melhorar o ensino público, o Estado não teria poucos bilhões. A discussão de melhora (de verdade) do ensino público requer a discussão sobre a necessidade de ter superávit primário. Não dá mais para brincar, se quiser aumentar o salário do professor, vai ter que reduzir o gasto em saúde ou em transporte público ou desvincular o saláro mínimo da previdência. Se alguém é contra as cotas dizendo que é favor da melhora da educação pública, que se cobre dessa pessoa como o Estado deve fazer. É favor do superávit primário? Então, como faz para dar um salário digno para os professores? Acha que é impossível dar um salário digno pra os professores, então como faz? Se os juros no Brasil fosse igual a de países emergentes, como Indonésia, Colômbia, Peru, Marrocos, Polônia, Índia, China, México, etc., o Brasil conseguiria gastar uns R$ 80 bilhões a mais em educação, saúde, previdência e transporte públicos, etc. e haveria manutenção da dívida pública/PIB.
A economia do Brasil não permite ter uma taxa de juros real de países como Marrocos, Tunísia, Indonésia, Peru e Colômbia? Fala sério. Alias, não entendo porque o governo tem que manter essa relação em determinado patamar (hoje, isso é pior; o governo do Lula vem reduzindo sistematicamente essa relação e alega que não há dinheiro para saúde, educação, etc.). Qualquer empresa privada para fazer um investimento aumenta sem qualquer problema todos seus coeficientes de endividamento. Acreditar que o Estado, que emite moeda e estabelece a taxa de juros do mercado, tem mais restrições orçamentárias que as empresas é igual a acreditar em papai noel. Mas, voltando as cotas não vejo porque ser contra elas, uma vez que mesmo com uma política fiscal a la China e EUA, o nivelamento da educação pública e privada demoraria um pouco.

Bruno em novembro 21, 2008 3:47 PM


#16

Amigos, considerando a frequência e o detalhe com que este blog já tratou a questão racial -- e dentro dela, o tema das cotas -- imagino que conto com a compreensão dos leitores se me limito a registrar e agradecer os comentários, sem me estender muito em polêmicas.

Desde a inacreditável reunião de 1500 jovens na qual nenhum apóia as cotas -- deve ser um recorde: 1500 brasileiros com a mesma opinião sobre algo -- até os que acham natural que um hotel barre negras e não brancas, porque afinal há que se cuidar com a prostituição, os argumentos trazem aquele certo ar do já ouvido.

Incluindo-se, claro, os "argumentos" daqueles que se escandalizam à mera menção do termo "dívida" ou daqueles que sempre dizem que a "questão é mais complexa", sem nunca deixar essa complexidade aflorar naquilo que redigem num dos blogs que, com mais complexidade, tem tratado esse tema.

Noto com alegria, no entanto, que a quantidade de clichês tem diminuído bastante ao longo destes quatro anos em que o blog tem tratado do tema.

Idelber em novembro 21, 2008 4:20 PM


#17

Idelber,

valeu pelos links. :)

Se quiser clichês raciais, eu te empresto alguns. Meus comentários estão cheios... :)

Mas, pelo menos, apesar dos absurdos q tenho q ler, tenho a impressão q a maioria dos meus leitores se sente confuso e incomodado num nível profundo, e quer, de boa fé, pensar e entender melhor o assunto. Se não fosse isso, eu nem perdia tanto tempo com isso.

alex castro em novembro 21, 2008 5:27 PM


#18

Idelber,

É natural que um hotel barre uma mulher desacompanhada que pretenda visitar um hóspede do estabelecimento. Alguns hotéis tem regras explícitas neste sentido. Pode ser este o caso.

Você também não pode garantir que uma mulher branca tenha subido sozinha, depois da sua amiga.

Há uma outra característica neste caso: sendo sua amiga, deve ser informada, graças ao amigo que tem. Se houve racismo, houve crime. Por que a vítima não registrou queixa contra o hotel na delegacia?

Silvio em novembro 21, 2008 5:37 PM


#19

Pois é, professor... Tempos atrás eu e o senhor tivemos uma discussão pra lá de "animada" sobre as ações afirmativas e sobre as diferentes maneiras que o racismo opera tanto no Brasil quanto nos EUA. Não vou reeditar essa discussão aqui porque como você bem afirmou no seu ótimo texto a aprovação do projeto sobre cotas na Câmara dos Deputados deixou a questão meio que superada, ou pelo menos levou-a para outro nível. Aliás - acredite se quiser ou não - eu gostei que o projeto tenha dado mais enfâse para parte social do que racial. Todavia... Preciso fazer um desabafo, e usarei o seu blog para fazê-lo.

Uma das coisas que me deixa mais triste e aborrecido nas comemorações do 20 de Novembro é a legião de "historiadores" e "pesquisadores" (assim mesmo, entre aspas) que na tentativa de desacreditar o Movimento Negro Brasileiro simplesmente "provam" e "comprovam" que negros escravizavam negros, que Zumbi dos Palmares era um terrorista e escravista, que a escravidão no Brasil não foi racializada, que os negros e senhores de escravos tinham um relação maravilhosa em todos os sentidos, etc, etc, etc.

Puta que pariu! Todos nós sabemos que negros escravizaram negros e a história de Xica da Silva está ai para quem quiser conhecê-la... Todos nós sabemos que desde o começo da nossa História o português se encantou com o bumbum da índia e da negra... Todos nós sabemos que não existem certezas absolutas sobre Palmares e o seu papel no sistema colonial alagoano... O que parece que esses "historiadores" e "pesquisadores" não sabem é que negros senhores de escravos e donos de engenhos que tratavam bem as suas "propriedades" são exceções na História da Pátria-Amada-Brasil. Mas, se o objetivo é "detonar" o Movimento Negro Brasileiro, bem, aí vale tudo, não é mesmo? Afinal de contas, para muitas pessoas não há nada mais conveniente do que nivelar tudo por baixo e "provar" que no Brasil nunca existiram vítimas, e que todo mundo "sacaneou" todo mundo.

Eu poderia fazer aqui uma série de divagações sobre como o Negro foi e é tratado no Brasil, mas acho que isso pura e simplesmente só serviria para encher o saco de todo mundo. O que acho que é válido é usarmos o dia 20 de Novembro para refletirmos sobre o que aconteceu no passado, sobre que acontece no presente e principalmente para decidir o que faremos no futuro. Se fizermos isso, um dia, quem sabe, seremos de fato e de direito uma democracia racial.

Ah, só uma coisinha, Idelber: pô, foi muita "sacanagem" sua lembrar que o João Cândido pendeu para o Integralismo, cara! rs...rs...rs...rs... O Poetinha Vinicius de Moraes também teve suas simpatias integralistas, mas nem por isso deixou de ser um dos poetas mais queridos da Lingua Portuguesa. Brincadeiras a parte, deixo para você o meu abraço fraterno. Até a próxima!

Claudio Roberto Basilio em novembro 21, 2008 5:42 PM


#20

Caro Claudio, lembro-me bem daquele excelente debate! Sempre bom tê-lo por aqui.

Alex, está excelente aquela série sobre racismo no LLL. Muito boa mesmo.

Idelber em novembro 21, 2008 5:50 PM


#21

Ótimo texto Idelber, espero que as discussões sobre o assunto passem logo para a ação aqui na UFMG, que ainda está defasada nesse particular, apesar dos esforços de muitos professores e ativistas. A partir do ano que vem o novo curso de cinema de animação da Escola de Belas Artes, do qual farei parte, passará para o período noturno, como a maior parte dos novos cursos oferecidos na esteira do REUNI, o que espero ser mais um fator de inclusão e de resgate da nossa dívida social.

Off: depois queria saber sua opinião sobre Hillary na Secretaria de Estado...

Leo Vidigal em novembro 21, 2008 5:50 PM


#22

Gostei muito, Leo. Vamos ver se hoje faço um post. Mas gostei. Mostrou muita confiança no taco dele.

Idelber em novembro 21, 2008 5:52 PM


#23

Idelber,

Concordo com o texto e o seu comentário de número 16 também foi perfeitamente justo.

Concordo como os colegas que pontuam sobre a complexidade do tema, de fato - e de direito - ele é muito complexo, no entanto, isso não pode nem deve ser usado como justificativa para a inércia diante deste grave problema que se abate sobre nossa sociedade.

Qualquer pesquisa séria que trate do assunto prova que existe uma brutal disparidade de oportunidade entre descendentes de europeus e os descendentes de africanos - e o mesmo vale para os índios. Isso deixa claro que o Estado brasileiro deve pôr em prática uma política de ação afirmativa.

O Brasil é um país capitalista e a base de acumulação que resultou nesse sistema por essas bandas veio da exploração de mão-de-obra escrava que, por coincidência do destino, era negra africana. Não podemos olvidar também a própria forma que esse país foi criado, portanto, o mesmo deve ser levado em conta em relação aos índios.

Criar políticas que incluam os negros, mestiços e índios seja em universidades ou no mercado de trabalho não é dar privilégios a ninguém, é pagar uma dívida incalculável que a nação brasileira tem para com eles.

Quanto a misturar isso com o problema da escola pública não faz sentido; são dois problemas graves, porém diferentes que apesar de não raro se interseccionarem não podem ser misturados sob pena de não serem resolvidos.

PS 1: Idelber, essa questão dos integralistas vale um debate mais apurado; o Integralismo foi um fenômeno que apesar de suas inequívocas inspirações fascistas teve contornos pra lá de idiossincrásicos - como tudo no Brasil - e uma prova disso é o caso João Cândido.

PS 2: Demétrio Magnoli, o cara que andava a Cidade Universitária inteira de havaianas fazendo pregação revolucionária - bons tempos aqueles de LIBELU - virou o sujeito que aparece na TV para falar mal de cotas, entre outras coisas; cá entre nós, esse espécime não pode ser deixado de lado, ele é a prova viva de que os extremos se tocam na política - ou, quem sabe, de como a teoria do Dom Casmurro patriarca faz sentido.

PS 3: Alguém aí falou mal da Lei Áurea ou foi impressão minha?

Hugo Albuquerque em novembro 21, 2008 5:55 PM


#24

Excelente texto, mais uma vez. Agora, Idelber, já que você me pareceu, em outras postagens, tão crítico do movimento de judicialização da política, parece-me estranho que anime-se tanto com a aprovação do projeto da na câmara: além das alterações no congresso, temos de nos lembrar que ainda resta caos ríticos das cotas raciais impetrarem, por exemplo, uma "arguição de descumprimento de preceito fundamental" contra a lei, buscando proteger "os mais nobres valores constitucionais do estado democrático de direito brasileiro" exigindo do STF a anulação da lei por sua violação à isonomia jurídica. Afinal, sabemos que Gilmar Ferreira Mendes é muito melhor conhecedor das necessidades do país do que o congresso e qualquer movimento social. rsrs
Brincadeiras à parte, isso é apenas para lembrar que, mesmo dentro desse pequeno - e controverso - possível movimento em direção à igualdade que seria a adoção das cotas, foi dado apenas num passo ainda menor.

Igor Suzano em novembro 21, 2008 9:00 PM


#25

essa coisa de mulato. tem me incomodado um pouco. sempre, em qualquer contexto. eu acho que a palavra mulato já é maior do q a mistura reprodutiva entre um 'branco' e um 'negro'. eu acho q evoca a mistura cultural (daí algumas pessoas reclamaram da folha mais do obama se chamar "o mulato", por exemplo, e eu acho genial etc). entao nao gosto muito da expressao mitologia da mulatez. mas, enfim, pode ser freyriana demais a minha posiçao etc. mas nao consigo usar mulato no sentido q se usa.

mary w em novembro 22, 2008 12:40 AM


#26

sobre o hotel. eu acho q é meio comum preconceito se desdobrar. e racismo vir junto com machismo etc. potencializa bastante. ser mulher e negra. acende pavios e tal.

mary w em novembro 22, 2008 12:46 AM


#27

mary, tô adorando demais a história da Hillary SoS. Vale um post caprichado :-)

Idelber em novembro 22, 2008 1:30 AM


#28

Caro Idelber

Estou incluído neste "Seja lá o que for que você pense sobre as cotas". Vivo no Rio de Janeiro onde o nível de vida que atingimos (insegurança, violência e um governo do Estado vacilante) vai deixando todos os problemas urgentes. Saudações (ainda assim) cariocas.

Paulo Z em novembro 22, 2008 2:12 AM


#29

Idelber, acompanho e participo dessa discussão há alguns anos, com muita paixão e um olhar talvez um pouco diferente de muitos pelo fato de ter passado boa parte da infância no exílio (dos meus pais). Isso fez com que eu chegasse aqui no início da adolescência com um olhar estrangeiro (morei em Genebra, na 2a metade da década de 70 - cidade de imigração mto grande italiana e espanhola, na época).
Gostaria só de fazer um reparo inicial ao seu post: porque misturar e colocar no mesmo saco a discussão sobre o racismo existente no Brasil (que, acho, nem o Magnoli nem o Ali Kamel negam)e aquela sobre a política de cotas raciais como solução?
Será que não dá para imaginar que alguém possa ser um militante sincero anti-racismo, mas não queira copiar as soluções de um país (esse aí onde vc mora) em que havia apartheid legal até a década de 60? Em que se era punido por lei ao fazer um casamento birracial? Em que um 24avos de sangue negro tornava uma pessoa negra (o que formou uma percepção social do que é ser negro e branco absolutamente distinta da nossa)? Será que é absurdo querermos nos debruçar sobre nossa própria história, nossa cultura (como faz por exemplo o Risério, com o qual concordo, ou o Nei Lopes - sem chegar às mesmas conclusões que eu) para encontrar soluções com sabor de Brasil? Será que não dá para ver que os nordestinos pobres, os mais pobres do país, dificilmente serão incluídos em políticas de cotas raciais, já que ser nordestino não é raça (e que, em vários estados, a presença da população negra é mto menos marcada do que a indígena, dando aos traços e à cor das pessoas mais pobres um matiz que certamente não seria aceito pela banca eliminatória da UNB - aquela que por duas vezes aceitou um irmão gêmeo e negou o outro enquanto "negro")?
Conversemos mais. Mas com a idéia de que concordamos com o problema (racismo, exclusão social, preconceito), mas coloco em dúvida a solução. Em tempo: fiquei feliz da aprovação (apesar de ter achado o tempo de adaptação mto curto) das cotas socias, mais amplas do que as raciais. Essas sim, podem de fato fazer a diferença.

Renata L em novembro 22, 2008 4:30 AM


#30

Idelber, acompanho e participo dessa discussão há alguns anos, com muita paixão e um olhar talvez um pouco diferente de muitos pelo fato de ter passado boa parte da infância no exílio (dos meus pais). Isso fez com que eu chegasse aqui no início da adolescência com um olhar estrangeiro (morei em Genebra, na 2a metade da década de 70 - cidade de imigração mto grande italiana e espanhola, na época).
Gostaria só de fazer um reparo inicial ao seu post: porque misturar e colocar no mesmo saco a discussão sobre o racismo existente no Brasil (que, acho, nem o Magnoli nem o Ali Kamel negam)e aquela sobre a política de cotas raciais como solução?
Será que não dá para imaginar que alguém possa ser um militante sincero anti-racismo, mas não queira copiar as soluções de um país (esse aí onde vc mora) em que havia apartheid legal até a década de 60? Em que se era punido por lei ao fazer um casamento birracial? Em que um 24avos de sangue negro tornava uma pessoa negra (o que formou uma percepção social do que é ser negro e branco absolutamente distinta da nossa)? Será que é absurdo querermos nos debruçar sobre nossa própria história, nossa cultura (como faz por exemplo o Risério, com o qual concordo, ou o Nei Lopes - sem chegar às mesmas conclusões que eu) para encontrar soluções com sabor de Brasil? Será que não dá para ver que os nordestinos pobres, os mais pobres do país, dificilmente serão incluídos em políticas de cotas raciais, já que ser nordestino não é raça (e que, em vários estados, a presença da população negra é mto menos marcada do que a indígena, dando aos traços e à cor das pessoas mais pobres um matiz que certamente não seria aceito pela banca eliminatória da UNB - aquela que por duas vezes aceitou um irmão gêmeo e negou o outro enquanto "negro")?
Conversemos mais. Mas com a idéia de que concordamos com o problema (racismo, exclusão social, preconceito), mas coloco em dúvida a solução. Em tempo: fiquei feliz da aprovação (apesar de ter achado o tempo de adaptação mto curto) das cotas socias, mais amplas do que as raciais. Essas sim, podem de fato fazer a diferença.

Renata L em novembro 22, 2008 4:30 AM


#31

Idelber, acompanho e participo dessa discussão há alguns anos, com muita paixão e um olhar talvez um pouco diferente de muitos pelo fato de ter passado boa parte da infância no exílio (dos meus pais). Isso fez com que eu chegasse aqui no início da adolescência com um olhar estrangeiro (morei em Genebra, na 2a metade da década de 70 - cidade de imigração mto grande italiana e espanhola, na época).
Gostaria só de fazer um reparo inicial ao seu post: porque misturar e colocar no mesmo saco a discussão sobre o racismo existente no Brasil (que, acho, nem o Magnoli nem o Ali Kamel negam)e aquela sobre a política de cotas raciais como solução?
Será que não dá para imaginar que alguém possa ser um militante sincero anti-racismo, mas não queira copiar as soluções de um país (esse aí onde vc mora) em que havia apartheid legal até a década de 60? Em que se era punido por lei ao fazer um casamento birracial? Em que um 24avos de sangue negro tornava uma pessoa negra (o que formou uma percepção social do que é ser negro e branco absolutamente distinta da nossa)? Será que é absurdo querermos nos debruçar sobre nossa própria história, nossa cultura (como faz por exemplo o Risério, com o qual concordo, ou o Nei Lopes - sem chegar às mesmas conclusões que eu) para encontrar soluções com sabor de Brasil? Será que não dá para ver que os nordestinos pobres, os mais pobres do país, dificilmente serão incluídos em políticas de cotas raciais, já que ser nordestino não é raça (e que, em vários estados, a presença da população negra é mto menos marcada do que a indígena, dando aos traços e à cor das pessoas mais pobres um matiz que certamente não seria aceito pela banca eliminatória da UNB - aquela que por duas vezes aceitou um irmão gêmeo e negou o outro enquanto "negro")?
Conversemos mais. Mas com a idéia de que concordamos com o problema (racismo, exclusão social, preconceito), mas coloco em dúvida a solução. Em tempo: fiquei feliz da aprovação (apesar de ter achado o tempo de adaptação mto curto) das cotas socias, mais amplas do que as raciais. Essas sim, podem de fato fazer a diferença.

Renata L em novembro 22, 2008 4:31 AM


#32

Perdão pela repetição do post(3 vezes!). Meu computador deu tilt.
Bruno, meu caro colega, entristece-me encontrar vc por aqui nessa discussão falando dos opositores às cotas raciais como "a direita". Olhe melhor e verá que há opositores à esquerda tb. Tem um cara do Movimento Negro Socialista que vale a pena ser lido (esqueci o nome dele, mas nada que o google naõ resolva). Abraço amigo. Renata

Renata L em novembro 22, 2008 4:39 AM


#33

Esse é o som de um amigo meu, atleticano doente, residindo em Porto Alegre:

http://www.myspace.com/brunomoraisnarede

Ele acabou de ficar em segundo lugar num festival de música em PoA

A letra da canção:

Sonego
Bruno Morais

Composição: Allan Dias/ Bruno Morais

Desde cedo aprendi, onde era o meu lugar
Mas eu nunca engoli as sobras do seu jantar
Não me diga onde ir, não me diga o que fazer
Meu agora meu aqui, não dependem de você

Sonego, não nego e vou sonegar
O que for imposto ao gosto do meu paladar
Sonego, não nego e vou sonegar
O que for imposto ou oposto do meu ser-estar

Eu sempre vivi no morro, mas não morro sem viver
Sem ter que pedir socorro quando precisar comer
Eu não quero piedade, de quem nunca deu um pio
Com vergonha da verdade, no sangue a cor do Brasil

Sonego, não nego e vou sonegar
O que for imposto ao gosto do meu paladar
Sonego, não nego e vou sonegar
O que for imposto ou oposto do meu ser-estar

Nosso país é puro, mas daquele jeito
Pura hipocrisia, puro preconceito
Você me disse um dia que ser negro é um fardo
E esclarece que não é negro, é pardo
Falou que na família nunca teve um mulato
E passa o tempo todo, escondendo os retratos
E eles vão revelar o que eu já descobri
Que a bizavó pulava a cerca toda noite com Zumbi

Sonego, não nego e vou sonegar
O que for imposto ao gosto do meu paladar
Sonego, não nego e vou sonegar
O que for imposto ou oposto do meu ser-estar

Jasão em novembro 22, 2008 11:11 AM


#34

Bisavó é com S, claro - erro de digitação

;)

Jasão em novembro 22, 2008 11:12 AM


#35

João Paulo,

Acredito que o problema não é a posição que essas pessoas adotam, de serem contra as cotas. O problema são os argumentos que elas usam pra justificar essa posição. Dizer que raças não existem, logo não existe racismo, é agir de má fé ou com muita, muita ignorância. Raças biológicas, entre humanos, realmente não existem, mas a discriminação por cor na nossa sociedade existe e é muito forte. No caso do Kamell eu cheguei a ler seu livro, “Não Somos Racistas”. Para ele o brasileiro discrimina o pobre, não o negro. Numa passagem do livro ele lembra o caso do dentista negro de São Paulo que foi assassinado por policiais que julgaram que ele seria um assaltante. Para Kamel os policiais não julgaram o dentista como um bandido porque ele era negro, mas porque acharam que seria um pobre. Pobre, em minha opinião, é esse argumento do Ali kamel. Foi difícil ler esse livro até o final.

Eduardo Prado em novembro 22, 2008 12:13 PM


#36

Claudio Roberto,

Existem historiadores muito sérios publicando suas pesquisas sobre nosso passado escravocrata. Muitas dessas publicações são releituras de outras pesquisas sob a luz de novas evidências ou de uma nova teoria historiográfica. Como diria meu professor, o passado é imprevisível.

O maior perigo, a meu ver, não são essas releituras, que sempre seram feitas, faz parte do da dinâmica da produção científica, mas o uso que alguns setores, fora do meio acadêmico em que são produzidas, fazem delas.

Segundo muitos historiadores a maioria dos quilombos não era contra a escravidão. Até o fim do século 18, pelo menos, a escravidão era tão natural como nascer e morrer, não se conhecia outro sistema. Citando Flávio dos Santos Gomes, os escravos lutavam pela liberdade de escolherem a sua escravidão, com um dono melhor, mais justo e que castigasse menos.

Hoje os trabalhadores reivindicam melhores condições de trabalho e remuneração e se o patrão for muito ruim, procura-se outro. Não se pretende _ falando da maioria dos trabalhadores _ acabar com o trabalho assalariado ou com o patrão. Pelo contrário, a maioria, se tiver oportunidade, vai querer virar patrão também. Daí a dizer que esses trabalhadores são potencialmente tão exploradores quanto seus patrões e por isso suas reivindicações não merecem crédito, vai uma distância muito grande.

Eduardo Prado em novembro 22, 2008 12:39 PM


#37

Que legal, Idelbas! Fui gravar um trecho no Mil Casmurros e te vi, todo bonitão lá fazendo uma gravação com a voz e a pronúncia pausada!

Gravatai Merengue em novembro 22, 2008 1:35 PM


#38

Não li todos os comentários, mas em relação ao meu comentário #5, queria deixar claro que eu não disse nem concordo que seja "natural" barrar alguém pressupondo prostituição.

Mas um preconceito é diferente de outro. E não há problema em ser preciso nisso aí.

André Pessoa em novembro 22, 2008 3:43 PM


#39

eu to adorando tb. mas queria ver entrevista dela etc. nao dá pra saber ainda q apito a politica externa vai tocar com ela.

mary w em novembro 22, 2008 4:32 PM


#40

Tentando, o que não é o meu forte, ser sintético sobre questões complexas.

1. Quotas (quotas, por favor; "cotas", só se forem de malha ou d'armas, vão à etimologia, daqui a pouco vocês vão achar que "desapercebido" e "despercebido" é a mesma coisa), sejam "raciais", "sociais" ou o que seja, são mero paliativo - mas, em um país tão arraigadamente desigual como o Brasil, um paliativo necessário e potencialmente útil, desde que não se transformem em único objetivo e objeto de discussão.

2. "Escola pública, universal e gratuita de boa qualidade", claro, em tese ninguém ousa ser contra, nem os demos, não de público pelo menos, beleza; mas vamos discutir o que, na prática, o que isso significa em termos *políticos*? Foram quarenta anos de desmantelamento; onde achar hoje as "tias" multitarefa que ministraram à minha geronta geração as "primeiras letras" e números no tempo em que ser professora primária era carreira profissional socialmente prestigiada, para a qual havia formação específica, os cursos normais, "Minha linda normalista rapidamente conquista meu coração sofredor", e em que a gente dava História do Brasil Contemporâneo aos oito anos? Bota de barato duas gerações nisso.

3. Tenho vários pseudopodos atrás com esse negócio de Dia disso, Dia daquilo. Soa como álibi, hoje tem festa, indulgência plenária para todos os opressores, amanhã e nos trezentos e sessenta e três subsequentes volta ao normal, lugar de - no caso - crioulo é na senzala, se se meter a besta no tronco. Mas, de novo, se servir pra sucitar discussões, pode até ser alguma coisa. Ou não.

4. Estátua do João Cândido. Já era tempo. Falta agora a gloriosa Marinha Brasileira rever sua posição oficial de que a Revolta da Chibata foi um "movimento sedicioso", nada mais que isso. E, a propósito, quantas pessoas será que *sabem* o que foi o "movimento sedicioso" e quem era esse tal de Almirante Negro?

Comentário colateral: Magnolli é indesculpável e irrecuperável. Canalha que se intitula "geógrafo" e perpetra "se não existem raças, por que falar em racismo" não tem perdão. Ao pelourinho com ele.

Digressão: Hillary como SoS me cheira a copout. Já se fosse na Saúde...

Carlos Martins em novembro 22, 2008 5:58 PM


#41

Obrigado, pelo comentário e especialmente pelos pontos 2,3,4, excelentes. Quanto ao 1, vários órgãos de imprensa e o próprio governo seguem, já há tempos, Antonio Houaiss, que na acepção 2 do verbete "cota" registra o sentido:

n substantivo feminino
1 quantia, parcela determinada de um todo
Ex.: cota da herança

alem do sentido que o Houaiss regristra como o 6, claro:

6 porção determinada ou não de alguma coisa (concreta ou abstrata)
Ex.: já recebeu sua c. de pão, era sua c. de sofrimento.

Ao definir "quota", Houaiss simplesmente registra:

n substantivo feminino
m.q. 2cota
.

Ou seja, quotas ou cotas, é questão de opiniotas.

Idelber em novembro 22, 2008 6:11 PM


#42

Lantejoulas suas.

"Quotas", "cotas", potatoes, potatos. Mas não é só "you say ee-ther and I say eye-ther", o buraco é como de praxe mais embaixo.

Tem a ver com a idiotização do idioma. Um imbecil, por desconhecimento - claro que não é seu caso -, escreve errado, sai em letra de forma - na "grandimprensa", what else -, imbecil é "repercutido", "todo mundo" adota, vira norma inculta embora, entra para os "manuais de redação", praga que substituiu o conhecimento de Português o que nos remete à questão do ensino, e logo logo vai parar nos cada vez mais subservientes e mais complacentes que hímem de filha de Coroné das antiga dicionários, e aí o certo vira errado, o errado vira certo e ai de quem corrigir ouse.

Tomatoes, tomatos. "Cota" vem do latim "cota", tipo de casaco (donde cota de malha etc. e, em inglês, "coat"); "quota", do também latim "quot", quanto, quantos (quantas partes de um todo, quantos Reais por um dólar, quantos metros acima do nível do mar etc.).

Quer mais exemplos? Tenho-os às pamparras. "À mão", "enquanto", "estadia", "extrapolar"...

Mas não digressionemos demais. Ou polemizemos. Não por coisas que, diante da idiotização generalizada e acachapante do discurso público, se tornam irrelevantes.

Carlos Martins em novembro 22, 2008 7:48 PM


#43

Claro que não. Especialmente se, na "polêmica", Houaiss e Aurélio já têm lado.

Idelber em novembro 22, 2008 7:51 PM


#44

Nunca tinha pensado nisso, mas sugerir, no lugar de cotas raciais, cotas para a escola pública ou a melhoria da mesma já é um baita racismo, não é não? Implica que lugar de preto é na escola pública... Concordo com quem diz que são problrmas diferentes. Se a escola pública de repente se tornar muito melhor do que é hoje provavelmente a maior parte dos negros não vão poder frequentá-la, e então estaremos discutindo cotas raciais no ensino médio. E se resolverem que vão haver cotas para alunos de escola pública nas faculdades, vai haver uma invasão de classe média e alta na escola pública. E então também estaremos discutindo cotas raciais no ensino médio...

Daniel em novembro 22, 2008 7:51 PM


#45

Daniel, na Escola 3-2 Deodoro em que cursei o Primário (na época era essa a designação), tive vário(a)s colegas mulatinhos. Nenhum preto retinto que eu me lembre, mas aí entrava outra discrimnação associada, a geográfica, era Zona Sul do Rio, e as "populações faveladas" do pedaço não eram tão numerosas.

E olha, os mulatinhos não eram os últimos da turma em aproveitamento escolar, não (é, tinha essas coisas de avaliação de aproveitamento também). Claro que nós brancazedos levávamos (ligeira) vantagem, sacomé, mais gerações de suficiência protéica.

Mas que serviu de breve contra o racismo brabo, tipo sai daqui crioulo nojento, lá isso...

O que eu quero dizer é o seguinte: agora vai ser mais difícil e levar mais tempo, mas restaura à vera o velho sonho de meu "ídalo" Anísio Teixeira, joga um Paulo Freire na idéia, inclui os inevitáveis prolegômenos familiares - emprego, renda, comida, saneamento, saúde, moradia - e daqui a umas duas, três, cuíca quatro gerações esse lero de *quotas* no ensino pelo contário terá se tornado cediço.

Não o racismo, de resto apenas uma dos oito milhões de histórias na Cidade Nua. Esse, na melhor das hipóteses, vai levar vários séculos.

Se a mudança climática, Yellowstone ou o asteróide que já está a caminho, não são mutuamente excludentes "au contraire", não nos pegarem adrede e acabarem com esta não tão bem sucedida experiência de Gaia.

Carlos Martins em novembro 22, 2008 8:35 PM


#46

Caramba, Idelber, tô zonza com a leitura desses comentarios. Eh realmente muito rico ler um bom post como o seu e todos os comentarios que resultam da reflexao deste.

Essa questao toda das "quotas"/ "cotas" pra mim acaba sendo valida no final, e eu tinha muita resistência em relaçao à isso antigamente. Mas enfim, também fico me perguntando onde estaremos daqui ha um tempo com tantas medidas paliativas tipicas da nossa naçao o Brasil, como explicou Daniel. E hoje o uol publica na sua pag. principal a chamada "Pais é racista, mas eu nao sou, diz brasileiro" (http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u470628.shtml). Refere-se à uma pesquisa feita pela datafolha, cuja primeira versao data de 1995 (tenho ela em casa), e que aborda a questao do racismo com dados quantitativos; a pesquisa tem a sua importância na analise da questao do "ser ou nao ser racista" apesar de ter me deixado a lembrança de tratar a questao de forma muito simples. E a proposta de entrada de disciplinas sobre "historia das culturas africanas", obrigatorias no ensino fundamental? Ao meu ver seria também uma "soluçao" à médio prazo; nem sei se existe a mesma medida para as culturas indigenas também, caso alguém saiba informar eu agradeceria...

Enfim, quanto mais leio sobre o tema concluo que fica muito dificil "estabelecer" uma soluçao pois o Brasil jah tem tantas outras questoes que implicam sobre o desenvolvimento do tema (o desenvolvimento da educaçao, a economia, a inflaçao) que as medidas paliativas tornaram-se parte da tentativa eterna de resoluçao.

Na verdade, Idelber - caso vc dê uma passada por aqui pela França em fevereiro ou março - eu gostaria muitissmo de saber se vc nao estaria disposto a discursar sobre o tema em uma "journée d'études" (na université de Strasbourg) sobre o racismo e os nomes que giram em torno da questao (raça, racial, cor da pele, origem, etc). Acho que sua vinda deve ser improvavel, mas ai fica o convite :)
Um beijo grande!

Ananda em novembro 23, 2008 8:44 AM


#47

Adrede, pamparras.. Adorei! Que maravilha de texto, Carlos Martins!

Alba em novembro 23, 2008 11:03 AM


#48

...só pra aproveitar o Paulo Freire do comentário acima... ele (que era de "classe média baixa" pernambucana) só completou a escola porque teve bolsa integral (dada por uma escola privada), escreveu sobre isso e nunca esqueceu. Por isso seu sonho era a universalização da alfabetização, do ensino, à vera, pra crianças, adultos de todas as cores e "raças" (que, como todo mundo sabe, não existem, e no entanto, como as bruxas, que las hay...). A questão, eu acho, é que o caminho a ser seguido define em boa medida o resultado obtido. Por exemplo: recentes pesquisas mostram que a desigualdade não diminuiu na sociedade americana desde a adoção de políticas de cotas - ao contrário, aumentou. O Katrina mostrou como a pobreza é negra nos EUA. Os estudos do sociólogo francês Loïc Wacquant mostram como é negra a população carcerária americana.
Em Cuba, por oposição, existe racismo explícito. E no entanto, as escolas, as universidades, as propagandas têm gente e crianças de todas as cores. Isso, na prática, é que acaba com a diferença.

Renata L em novembro 23, 2008 11:30 AM


#49

Renata L, no caso dos EUA, esse "grande equívoco" apud Herr Doktor Professor Sigmund Freud que sabia das coisas, não são coisas mutuamente exclusivas. A desigualdade, leia-se concentração de renda e riqueza, vem aumentando desde pelo menos os anos quarenta, e aumentou mesmo durante o surto de prosperidade do pós-guerra. Só que não é linear. O que as ditas políticas de ação afirmativa permitiram foi a formação e / ou ampliação de uma classe média negra, com acesso a padrões de consumo anteriormente só desfrutáveis pelos brancos. O "alumnus" de Harvard Barack Obama é um exemplo disso. São quase todos profissionais, a maioria de nível universitário, mas em áreas como grande indústria e finanças continuam fora dos "boards" e das altas gerências (Idelber, você conhece algum CEO crioulo?). Agora, vai em South Center e vê quem é a raspa do tacho, donde a população carcerária.

De certa forma, isso até acentuou o racismo dos brancos pobres e de classe média baixa ou média-média, os Joe the Plumber da vida, que não gostaram nem um pouquinho de ver a negrada invadindo-lhes a praia ou, pior, os deixando para trás. Vão colher algodão e engraxar sapatos, "boys"!

Carlos Martins em novembro 23, 2008 3:39 PM


#50

idelba, como diz o rafael, lista é uma merda.
;>)
vi você no milcasmurros. bacana, vai dizer? e nosso soneto?
:>)
tem livro novo pintando. coisa de mais uns dias.
:>*

Biajoni em novembro 23, 2008 3:50 PM


#51

Vamos publicar aquele soneto, sim, né :-)

Idelber em novembro 23, 2008 3:54 PM


#52

Bom, Carlos, pelo que entendi do seu comentário vc concorda comigo então que ação afirmativa e desigualdade/racismo não tem relação necessária. Pois então: minha questão é justamente que muita gente que eu respeito (o pessoal desse blog aqui por exemplo) tende a unir "ação afirmativa", "cotas" e "luta contra o racismo" num silogismo absoluto. Ou seja: se a pessoa é contra as cotas, é imediatamente acusada de racista. Sem que se escutem seus motivos. E a discussão não acontece e não evolui. Cada um fica "só no seu quadrado". O Idelber, diga-se, é uma exceção, pelo que acompanhei aqui no blog desde quando ele se posicionou inicialmente a favor das cotas, depois moderando essa opinião a partir da leitura do Risério. As cotas aprovadas para a escola pública me parecem uma boa coisa: atingem todos os que precisam, sem discriminação. Acredito que devesse ser mais paulatino, pois com 50% de uma hora para outra isso vai prejudicar justamente as famílias mais pobres que, com esforço, tentaram dar uma educação melhor (particular) para os filhos - e agora se vêem de fora. Mas o subconjunto "raça" me parece nocivo (além de confuso etc.).

Renata L em novembro 23, 2008 4:19 PM


#53

Renata,

Parabéns pelos seus comentários. Faço coro a eles.

Alba em novembro 23, 2008 5:55 PM


#54

É bem interessante a frase: "Pais é racista, mas eu não sou, diz brasileiro". Nós brasileiros achamos que, quando a idéia é negativa, ela não nos diz respeito individualmente. Apenas no coletivo. Como se o caráter de uma nação não fosse determinado pelos indivíduos (e pelas ações destes indivíduos) que a compõem. Como se "molhar a mão do guarda", "sonegar um impostinho aqui ou acolá", "dar um jeitinho em algo", não contribuísse para a perpetuação da corrupção ou de uma ética um tantinho distorcida à conveniência.

Aí então surge o conceito de dívida, ou dívida histórica, pela qual muita gente não quer ser responsável. "Não fui eu quem contraí", "Eu não sou racista, logo, não tenho nada a ver com isto que está acontecendo". Eu acho muito errado o Movimento Negro pegar por aí. Querer cobrar dívida retroativa. Senhores de escravos e escravos não estão mais vivos, para que possam acertar suas contas financeiras e morais, como seria de direito. Querer continuar levando a questão do racismo atual e todos os problemas que ele acarreta na nossa sociedade, é dar brecha para que as pessoas fujam da discussão que interessa, não assumam seu papel e sua responsabilidade numa sociedade que é racista. A frase "Pais é racista, mas eu não sou, diz brasileiro", deveria envergonhar todo mundo, ao invés de aliviar a barra de quem acha que não tem nada com isto por não permitir ou propagar o racismo. Mas isto não vai acontecer enquanto a culpa pelo racismo continuar sendo jogada (só) na escravidão.

120 anos se passaram da Abolição. Em muito menos tempo, países inteiros se recuperaram de guerras, de extermínios em massa, de pragas devastadoras. Florestas se recuperam de incêndios, ecossistemas se reequilibram. Só o Brasil não se recupera da escravidão. Porque é comodo continuar jogando a culpa no passado, é cômodo continuar fingindo que "não é comigo", é cômodo dar sobrevida e voz aos mortos. É cômodo continuar se enganando e pregando que a culpa do racismo é (só) do passado escravocrata, quando com um pouquinho de inteligência as pesquisas e os dados estão aí para provar que o Brasil É (presente) um país racista, que o racismo É prejudicial a boa parte da população, e que qualquer um que viva NESTE TEMPO PRESENTE deveria se envergonhar muito de deixar isto como herança. Herança que ainda tem traços acumulativos.

Sabe, Carlos Martins, será que você nunca parou para pensar (ao invés de jogar a culpa na suficiência protéica), que os mulatinhos seus colegas não tinham aproveitamento melhor porque talvez não conseguissem condições melhores de estudo? Sacomé, talvez da escola já fossem direto para algum tipo de trabalho para ajudar na renda de uma casa onde os pais não tinham emprego qualificado, ou então, indo para casa, tinham que tomar conta dos irmãos menores, ou então, tentar se concentrar para estudar em um ambiente minúsculo que dividia com mais 10 mulatinhos? Pode ser que os brancazedos tivessem quartos só pra eles, aulas de reforço, tempo ocioso, ambiente propício, apoio dos pais... Sei lá. Microcosmos que o racismo vai ajudando a criar... cada vez mais separados, cada vez mais impenetráveis para outros microcosmos.

Uma dúvida, Eduardo Prado, você sabe me dizer em que contexto o Flávio dos Santos Gomes falou isto sobre os quilombos nem sempre serem contra a escravidão, ou que "os escravos lutavam pela liberdade de escolherem a sua escravidão, com um dono melhor, mais justo e que castigasse menos"? Fiquei curiosa, realmente interessada em saber.

Para terminar, gente, acho importante que a conversa sobre este assunto seja o mais honesta possível. As discussões sobre raça e racismo deveriam ser separadas, já que raça é do campo da Biologia, enquanto racismo é problema sócio-cultural. Mas não tem jeito, a coisa anda junto. Então, sim, existe o conceito biológico de raça e existem raças. Mas o que deveria ter ficado apenas no campo da Biologia, foi apoderado e distorcido social, política e culturalmente, em benefício de uns e, é claro, em detrimento de outros. Conversei bastante sobre isto com a excelente bióloga Lucia Malla, quando estava para lançar meu livro, e depois ela acabou fazendo um post bastante esclarecedor:
http://www.interney.net/blogs/malla/2007/05/28/algumas_consideracoes_sobre_racas_e_afin/

Este post também é bastante claro:
http://cienciaeideias.blogspot.com/2007/05/o-que-so-raas.html

E para quem quiser se aprofundar mais no assunto, em inglês:
http://evolvethought.blogspot.com/2006/04/races-geography-and-genetic-clusters.html
http://evolvethought.blogspot.com/2006/04/some-more-on-race.html
http://evolvethought.blogspot.com/2006/04/last-one-on-race.html
http://scienceblogs.com/gnxp/2006/04/race.php
http://scienceblogs.com/gnxp/2006/04/race_ii.php
http://www.gnxp.com/blog/2006/04/in-search-of-good-metaphors.php
http://scienceblogs.com/evolgen/2006/04/race_or_whatever_1.php
http://scienceblogs.com/pharyngula/2006/04/that_question_of_race.php
http://contingencytable.blogspot.com/2006/04/race-useful-concept.html

Ana em novembro 23, 2008 7:50 PM


#55

Brasil, o país de todos, de todas as minorias que reivindicam suas migalhas! e querem muito...mamar nas testas do ESTADO é bom demais, viver as custas da "misericordia" dos outros sem ter que lutar pra conquistar. Meritocracia zero. viva o Brasil

leo seabra em novembro 23, 2008 8:55 PM


#56

Ana,

Comentário sensacional.

Leo Seabra,

As minorias não querem mamar nas tetas do Estado, elas sempre mamaram - e já o faziam antes mesmo dele existir como tal, ou seja, desde quando ele ainda não passava de uma mera organização administrativa colonial. Nesse país quem sempre levou na bunda são as maiorias.*

*por "maioria" entenda-se: Os pretos, os descendentes de portugueses pobres e os índios, quando ainda eram maioria (sendo que só vieram a ter algum benefício ou reparação quando já tinham quase sumido do mapa, portanto, quando já tinham virado minoria, o que nunca é de um todo mau por aqui).

Hugo Albuquerque em novembro 23, 2008 10:36 PM


#57

Ana,

Fiz a citação de cabeça do artigo “Escravos e Coiteiros no Quilombo do Oitizeiro - Bahia, 1808.”, do livro “Liberdade por Um Fio”, cujos organizadores são os historiadores João José Reis e Flávio dos Santos Gomes (Cia das Letras, 1996). É um ótimo livro que faz parte da nova geração de hsitoriadores que lançam outros olhares sobre o período da escravidão (Que não deve exclui a leitura de historiadores anteriores, como Emilia Viotti, que continua produzindo pesquisa, ou Florestan Fernandes e Fernando Henrique).

Citei sem procurar o livro, que já fazia um bom tempo que tinha lido, e cometi um erro grave: Errei o nome do autor. Na verdade esse artigo é do João José Reis e não do Flávio S. Gomes.

O artigo trata do quilombo do Oitizeiro, de um tipo muito mais comum no Brasil, segundo o autor, que os quilombos tradicionalmente mais conhecidos como o de Palmares.

Idelber,

Peço licença para transcrever alguns trechos aqui:

No final da página 355, Falando sobre os escravos que se refugiavam ali, O autor diz o seguinte:

“Pelo menos alguns dos escravos refugiados no Oitizeiro não estavam fugindo da escravidão, mas procurando trocar de senhor. Não era um comportamento incomum entre os escravos em muitas regiões, dentro e fora do Brasil. Trata-se de mais um desses comportamentos que desacreditam os esquemas rígidos de análise da escravidão.”

No último parágrafo da página 357 o autor descreve um destes casos que resultou em inquérito:

“Ele [Francisco Xavier Nogueira] relatou que, estando a carregar a lancha de Felipe Lima, este lhe disse que encontrara um negro fugido o qual lhe pedira que o comprasse. Felipe Lima confirmou essa informação: Indo ele ao Oitizeiro para cobrar uma dívida, por ocasião da última Quaresma, fora abordado por um negro armado de espingarda, faca e pau-de-ponta pedindo que ele o fosse comprar a seu senhor Bento Correia no Cairu. [...] Um escravo armado até os dentes, a própria imagem do herói quilombola que se bate pela liberdade, nada mais queria que um senhor que o tratasse melhor".

Para terminar, no último parágrafo da página 358:

“Como se vê nesses casos os quilombolas não estavam empreendendo uma fuga sem retorno da escravidão, mas tentando negociar melhores termos dentro da escravidão. Eles tinham suas visões da escravidão tanto quanto da liberdade. A liberdade de escolher sua escravidão. [...] O quilombo seria então um abrigo temporário, não um lugar onde construir uma vida livre numa sociedade alternativa.”

Eduardo do E S Prado em novembro 23, 2008 11:04 PM


#58

Eduardo,
Bem vinda sua lembrança da imensa historiografia da escravidão.
Acho que você simplificou muito os argumentos contrários às cotas. Há vários, e dizer que se sai da verdade de que não há raças para afirmar a ausência de racismo não encontra respaldo nos textos anti-cotas. O que, por exemplo, está no manifesta contra as cotas (o segundo) é que, uma vez que não há raças, você não pode identificar pelo fenótipo o grau de origem genética de uma pessoa, Portanto, um preto retinto pode ser menos africano até que um branquelo. Se isso for verdade, a despeito do preconceito que o primeiro seja vítima, significa que não há dívida que ele deva receber, ou seja, a tal história de exclusão não passa pela cor dele, ou, eventualmente pela escravidão. Seus ancestrais podem ter sido menos discriminados que os do tal branquelo. Num país fortemente miscigenado, esta é uma questão essencial. Como saber quem tem um passado “correto” para receber as cotas? Mais uma vez, conhecer a escravidão fora do pastiche apresentado pelo movimento negro, ajuda a complicar ainda mais este quadro “racial”.
Eu gostei do livro do Kamel, que não se restringe ao episódio que você menciona (que está ao final, após capítulos muito bons). É claro que tem falhas. Ele não nega o racismo, mas o diminui acima do aceitável, é verdade. Mas os capítulos sobre o FHC, sobre as estatísticas do IBGE e das condições econômicas, sobre o Estatuto da Igualdade Racial são precisos. Não vi respostas à altura. Já o capítulo “Negros e brancos no mercado de trabalho” é simplório, com o total apagamento do racismo nas empresas.
O que remete, aliás, à extrema covardia da questão das cotas tal como apresentada pelo movimento negro. É uma inversão total. Todos sabemos da questão da “boa aparência”, bem lembrada pelo Idelber. E números recentes mostram que a distância salarial entre brancos e negros é maior APÓS a universidade, do que antes, dentro das mesmas carreiras. Ora, há prova maior de que não é a universidade pública e gratuita (detalhe essencial se comparado com o sistema americano) quem discrimina, mas o mercado? Que é justamente quando dois “white collars” de cores distintas concorrem às mesmas vagas e recebem salários distintos (o mesmo ocorre com os gêneros) que o racismo aflora? E não na universidade, onde todos recebem bolsas do mesmo valor, comem no mesmo bandejão, têm acesso à mesma biblioteca, se funcionários ou professores recebem o mesmo salário, estão sob o mesmo regime de cobrança etc. E o interessante é que o movimento negro é todo cordial com as empresas, faz parcerias e tal, mas desce a lenha num dos poucos espaços em que negros e outras minorias não são discriminados como o são em outros espaços. O lugar do respeito ao diferente, da escuta e do diálogo independente de quem você seja, é a universidade. Veja o exemplo dos gays na USP, atacados por guardas terceirizados e encontrando apoio na comunidade acadêmica. Frei David veio em minha instituição pregar as cotas, e iniciou sua cantilena elogiando os bancos (!) por serem a vanguarda da conscientização no Brasil, pois adotam cotas internas! Agora os bancos fazem justiça social no Brasil! Aquilo foi um emblema do que a Renata apontou: as cotas não diminuem desigualdade, apenas selecionam uns poucos quase-lá para darem o pulo do gato, deixando uma massa de fora. As cotas, mesmo as ditas sociais, vão penas selecionar um extrato pequeno entre aqueles que num vestibular ficariam entre os primeiros da lista dos de fora, tirando os últimos dos que entraram. Em vista da disparidade no ensino público e privado no Brasil, vai tirar alunos pobres ou de classe média baixa que pagam escolas ruins para colocar alunos de escolas públicas ruins, já que boas escolas privadas e públicas aprovam sem necessidade de um extra (com exceção de medicina e um ou outro curso que só recebe gente as boas escolas privadas). Como disse um colega meu: “ora, eu quero é que haja negros na elite”. Como se a cor de quem fosse de alguma elite que não se faça pelo mérito tivesse alguma importância sobre a questão da desigualdade. Enfim, enquanto o movimento negro se centra na universidade, que não discrimina pobres, negros, homossexuais, atleticanos ou botafoguenses por que são pobres, negros, atleticanos, homossexuais, atleticanos ou botafoguenses, pois postula critérios meritocráticos (que se define pelo julgamento impessoal e imparcial) para entrada e permanência que excluem critérios subjetivos, o mesmo movimento deixa barato o que ocorre cotidianamente no mercado que barra negros, nordestinos, gays etc., pois nele os critérios acima elencados não valem ou não são mandatórios. Após algum estardalhaço nos anos 90 em portas de shoppings, nunca mais se viu mobilização contra as lojas que só contratam menininhas tipo zona sul. E aí temos o movimento negro exaltando a bondade do mercado (o que não deixa de explicitar as afinidades ideológicas do tipo que meu colega acima revelou) no Brasil e execrando o serviço público, no que ele é, curiosamente, apoiado por uma parte da esquerda que, com isso, abandona seu universalismo e a centralidade da questão classista (ou de renda) para adotar este tipo de discurso pró-mercado.
Aprendemos, portanto, a curiosa lição de que historicamente não foi no mercado, ou seja, na rua, no comércio, no emprego, que o racismo se exerceu no Brasil, mas na universidade e no Estado. E ainda querem que aceitemos passivamente esta carga como racista contritos.

João Paulo Rodrigues em novembro 24, 2008 12:54 PM


#59

Querem ver a importância da cotas? Vejam os comentários do reitor da Universidade Federal da Bahia, que já adota o sistema há algum tempo. Ele diz que os estudantes das escolas públicas que estão ingressando através das cotas são os mais esforçados, tiram boas notas e estão movimentando as bibliotecas dos cursos, que antes ficavam vazias. Ainda não se formou a primeira turma da Ufba, mas conheço pessoas formadas pela Uneb, a universidade do estado, que já adota o sistema há mais tempo, e vejo o quanto elas são mais engajadas, como são profissionais que trabalham pensando na comunidade.
Posso estar enganada, mas penso que se isso já tivesse acontecido antes, talvez não tivéssemos a violência que temos hoje. Porque a maioria desses meninos negros aqui em Salvador, que estão morrendo nessa guerra do tráfico, não tinha nenhuma perspectiva de futuro. Ou tinha?

Socorro em novembro 24, 2008 1:24 PM


#60

nas Universidades brasileiras, hoje, tem menos negros que nas universidades da Africa do Sul ao tempo do apartheid..se isso mao quer dizer nada, nada quer dizer nada.

Sanchupança em novembro 24, 2008 4:20 PM


#61

os brasileiros são realmente engraçados, são todos absolutamemte contra todas as injustiças sociais, contra a discriminação, contra o racismo..estão todos exalando boa consciencia por todos os poros..mas..desde que nao se mude absolutamante nada no status quo...que fique tudo exatamente como está.

genital lacerda em novembro 24, 2008 4:25 PM


#62

Não foi só o João Cândido que teve a idiossincrasia de admirar o Integralismo em comparação com a história da sua vida. Aos nomes citados acima acrescento mais um notável brasileiro que também teve: D. Hélder Câmara.
Saiu em quadrinhos a história da Revolta da Chibata, escrita por Olinto Gadelha e desenhada por Hemeterio.
http://www.submarino.com.br/produto/1/21389858/chibata!+:++joao+candido+e+a+revolta+que+abalou+o+brasil

Te em novembro 24, 2008 9:05 PM


#63

1. Quem precisa de estátua quando tem por monumento um dos versos mais bonitos já escritos em português e possivelmente em qualquer idioma (aquele das "pedras pisadas do cais")?

2. O "presidente operário" VETOU, há coisa de poucos meses, um dispositivo de lei que promovia a única reparação possível aos marinheiros de 1910: a promoção póstuma às patentes que deixaram de atingir pelas represálias da Marinha. Algo mais a respeito em http://www.anovademocracia.com.br/index.php/Com-anistia-mas-sem-patentes.html

3. Idelber, volte a escrever sobre futebol.

Henrique em novembro 24, 2008 9:30 PM


#64

Ana,

Esqueci de lhe dar os parabéns pelo comentário.

João Rodrigues,

Eu não sei em que ponto uma releitura da história dos quilombos brasileiros feita por um pesquisador, mesmo um renomado como João José Reis, pode servir de argumento contra políticas de ações afirmativas como as cotas.

Também acho complicado falar em reparação ou “dívida”. A idéia não é essa. Que dívida? Isso confunde as coisas e leva as pessoas a serem contra as cotas, ou outras políticas afirmativas, por acharem que estão “pagando uma dívida” que não foram elas que contraíram, e não porque acreditam que possa haver soluções melhores.
A escravidão do negro no Brasil durou quase quatrocentos anos e terminou _ oficialmente_ a cento e vinte anos sem que os ex-escravos recebessem do Estado qualquer condição que lhes permitissem acumular renda para transmiti-las as gerações posteriores. Nenhum escravocrata continua vivo para poder reparar o que seus escravos sofreram. Nem esses ex-escravos continuam vivos para receber essa reparação. Seus descendentes sim, mas a questão nem é essa.

A maioria dos brasileiros pobres é negra, mas também existem muitos brancos pobres. Não tenho o livro do Kamil aqui, mas acho que ele cita em 33% de brancos pobres. Seria isso? Cotas para negros, em tese, representariam prejuízo para esses brancos que vivem nas mesmas condições. Mas tem um ponto em que eu discordo totalmente do Ali Kamel: Mesmo tendo indicadores sociais e econômicos parecidos, no Brasil, o branco já leva vantagem sobre o negro só por ser branco, principalmente na busca de trabalho.

Seu comentário sobre a universidade e o mercado de trabalho é válido. Uma professora dizia que no Brasil não existe racismo, desde que cada um fique no seu lugar. Caso contrário será lembrado, de uma forma ou de outra, que seu lugar não é aquele. Recentemente uma reportagem do Estadão sobre alunos cotistas da UNB vai na linha do que vc escreveu, mostrando que apesar do desempenho deles não ficar a dever nada aos dos alunos não-cotistas, a interação ainda é complicado e as panelinhas entre os dois grupos não difíceis de furar. Os alunos cotistas são mais questionados com relação as notas, como se tivessem mais obrigação de tirar notas melhores que os demais alunos. Mas todos os alunos negros da universidade, sejam eles cotistas ou não, encontram mais dificuldade que os brancos na hora de conseguirem o estágio necessário (e exigido) para sua formação profissional e acadêmica. Será que essa dificuldade vai desaparecer depois que esses alunos estiverem formados e forem concorrer no mercado pelas mesmas vagas que os formados brancos?

As cotas não vão resolver o problema do racismo, mas podem dar uma vantagem a mais a quem já é preterido por causa da cor.

Outro ponto a favor das cotas é que ela pode ajudar a aumentar a presença de negros em muitas profissões e conseqüentemente em muitos ambientes geralmente só freqüentados por brancos. Não é saudável para um país como o Brasil, em que só a metade da população é branca, mas que essa metade praticamente monopolize as profissões mais remuneradas. Certamente há dentistas, médicos e engenheiros negros, mas eles representam uma pequena minoria. O Brasil é multicolorido nas ruas, mas monocromático nos aeroportos, nos restaurantes mais sofisticados, entre os hospedes de hotéis, entre os pacientes de hospitais particulares, entre bancários, entre comerciários, entre os consumidores de soppingcenters, entre moradores dos bairros de classe média das nossas cidades. A nossa diversidade de cores precisa se estenderem a todos os ambientes e não ficar apenas restrita as ruas.

Pode parecer que eu estou argumentando a favor das cotas nas universidades, mas eu mesmo não tenho uma opinião formada a respeito. Tenho amigos negros que são categoricamente contra. O que eu tenho certeza é que o Estado Brasileiro (e a sociedade qeu ele representa) precisa criar mecanismos que diminuam as desigualdades raciais existentes no país, e que são muito, muito grandes.

Eduardo do E S Prado em novembro 25, 2008 12:22 AM


#65

João Paulo Rodrigues,

Antes de postar o comentário eu tentei corrigir um parágrafo e apaguei uma poste do texto. Tentei concertar mas acabei me atrapalhando todo e, com medo de perder todo o texto que havia escrito (sem salvar), acabei clicando em "enviar".

Enquanto escrevo este outro comentário, o meu comentário anterior ainda havia sido publicado, por isso eu me antecipo e peço desculpas se ele parecer sem sentido em alguma parte ou arrogante com relação ao seu comentario. Não é minha intenção. Gostei da sua análise, mas fiquei com uma dúvida: Vc seria a favor de cotas empregatícias?

Abraços!

Eduardo do E S Prado em novembro 25, 2008 12:56 AM


#66

Gostaria de deixar registrado meu total acordo com o último comentário do João Paulo, acrescentando que às "parcerias sistêmicas" do movimento negro com bancos e quejandos, adiciona-se (o que me incomoda particularmente) uma subserviência ao modo de fazer americano que Paulo Freire, Anibal Teixeira,Monteiro Lobato, Sérgio Buarque, Milton Santos e tantos outros rejeitariam, pois buscavam, esses sim, um modo de fazer essencialmente brasileiro. Respeitoso da nossa história e das nossas conquistas.
Repito que não discuto a afirmação de que há racismo no Brasil. Mas disputo, sim, a afirmação de que os EUA sejam, em algum sentido, mais "evoluídos" que a gente com relação a essa questão. As questões levantadas por João Paulo Rodrigues sobre as empresas, a "boa aparencia", têm que ser enfrentadas. Eu que olho pra isso há muito tempo vejo leves sinais de fumaça: bonecas negras mais e mais, modelos e propagandas com negros (não de produtos "étnicos", mas de produtos para todos). Isso, eu acredito, pode mudar algo na forma de olhar. Assim como acredito que o único lugar onde talvez cotas façam sentido - para mudar o olhar - seja nos cargos de representação. Já pensaram um chanceler negro, diplomatas negros, bastante gente em cargos altos do executivo, do judiciário? Seria bonito de ver. Mas isso não muda o essencial: a desigualdade. E eu, filha e neta de nordestinos, sei que a cor da pobreza no nordeste não é negra. E acho que o ideal socialista é pra todos.

Renata L em novembro 25, 2008 5:56 AM


#67

Muito obrigada, Eduardo.
Já tinha ouvido falar neste livro, mas ainda não li. Agora vou procurar. Você não faz idéia das barbaridades que ouço por aí, tipo "na página tal, você diz que os libertos pediram para voltar a ser escravos", ou "mas os fujões não pediam para voltar para os donos?", querendo insinuar que "as coisas não eram tão ruins assim, que muitos africanos preferiam a escravidão à vida que tinham antes em África". Por isto gosto de ir nos textos, ver o contexto, a situação. Duas outras hostoriadoras de quem gosto bastante são a Laura de Mello e Souza e a Kátia Mattoso. Vale a pena ler o trabalho delas. Quanto ao João José Reis, um livro que acho essencial, e desculpe-me se você já conhece, é o Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês em 1835

Ana em novembro 25, 2008 8:45 AM


#68

Eduardo,
De maneira alguma seu comentário foi sem sentido ou arrogante. Me pareceu instigante.
A questão da escravidão, pelo que hoje se sabe da variedade de experiências e realidades que engendrou e representeou (inclusive nas suas alterações ao longo do tempo e de regiões) representa para o debate, na minha opinião, um desmonte das teses do tipo “reparatórias” (o que você frisou tão bem) e da idéia de que há uma divisão histórica dicotômica fundante no Brasil entre brancos (escravocratas exploradores) e negros (escravizados e rebeldes), exploradores e explorados, que começaria em 1550 e chegaria em linha direta até hoje – o que é um dos mais firmes sustentáculos do discurso em apoio a políticas de “ação afirmativa”. É óbvio que a escravidão deixou um legado de desigualdades e de preconceito, mas isso num nível amplo da análise – ou em questões específicas, como a questão da terra para os descendentes de quilombolas. Chegando mais perto há tantos fatores envolvidos (sobretudo pelo fato de haver muita água entre 1888 e 2008 que se deixa de lado), que as cotas perdem relação com esse legado. Num regime de escravidão em que havia altos índices de alforrias, miscigenação ampla, possibilidades (limitadas, é claro) de ascensão social para pardos (mais) e pretos (menos) livres ou alforriados, escravos donos de escravos, escravos com contrato de trabalho, escravos em condições materiais melhores do que trabalhadores livres, em que a letra da lei, ainda que não totalmente imune a preconceitos, ficou longe do Jim Crow, escravos usados em expedições contra índios, escravos vivendo em quilombos com índios etc. etc., o fato é que a história, ou as histórias, da escravidão não sustentam uma lógica que liga os negros de hoje a negros na escravidão de forma homogênea, heróica, linear e totalizante. Negros, brancos, pardos (para ficar na limitada paleta de cores do IBGE) de hoje não são excluídos porque todos seus antepassados o foram da mesma maneira. Um negro pobre pode até mesmo ter na família legítimos representantes da elite. Ou pode descender de índios, ou de nordestinos, ou lavradores imigrantes europeus pobres, com várias histórias, inclusive de exclusão que não necessariamente se ligam ao racismo, mas a outras discriminações ou falta de oportunidades.
A outra “lição” que eu acho que essas histórias trazem nem é original. Apenas reforça um dado sociológico básico: o uso das categorias. E acho que isso o Kamel, além de outros, mostra bem: qual o sentido de agrupar “negros” (pretos + pardos) e “brancos”, como entidades homogêneas hoje, se nem no passado isso foi assim? Se não há uma clivagem racial nítida e única (sendo apenas um fator entre outros) ligada a uma exclusão pelos mesmos motivos, qual a base para do fato de que “negros” possuem uma média abaixo (em alguns critérios, como escolaridade, nem tão abaixo) da dos “brancos”? Será que eles compõem sociologicamente grupos unívocos em mútua oposição? O que liga o Hans Johann Peter Gerdau com os brancos de olhos azuis miseráveis da periferia de Porto Alegre? E o Joaquim Barbosa a um bóia fria negro do interior de São Paulo? Ora, é claro que muito pouca coisa. Desta forma, se distorce os dados, pois se faz uma média que lança sobre todos os membros de um grupo uma realidade criada (pois não é vivida nem por uma maioria do grupo, sendo um tipo ideal), o que permite que brancos pobres sejam discriminados frente a negros de classe média, ou mesmo frente a seus colegas de pobreza. Qual o sentido disso tudo? Evitar que a polícia (incluindo os pardos e pretos policiais) barbarize pobres e negros? Evitar que os comissários brasileiros da AA discriminem cantores negros de sucesso? Aumentar a renda salarial média, elevando uns poucos escolhidos, do segmento “negros” do IBGE? Ter alguns profissionais de carreiras de maior projeção com outras cores de pele, sem que o país como um todo avance? Tudo isso ao mesmo tempo agora? Políticas públicas não são feitas com este escopo e ritmo. Eu discordo das cotas raciais (as sociais não são tão grave, mas ainda assim são um problema, mas parece que isso não está sendo discutido, pelo que relevo a questão) por que em boa medida não entendo o que se quer exatamente. A cada vez que você pressiona boa parte dos defensores das cotas sobre um ponto específico (dívida histórica; base histórica racista das disparidades sociais; preconceito na sociedade; ausência de representantes na elite e diversificação dos estratos sociais superiores; resgate de indivíduos já com mérito, mas “excluídos” de um direito à educação), eles pulam para outro ponto, como se ele desse suporte ao ponto anterior questionado. E tudo isso ao custo de dar campo a um processo maior que é o de propor uma reengenharia identitária, legitimar um discurso histórico complicado sobre nossa história, colocar na lei a discriminação por cor, desviar o debate sobre os problemas reais da educação, permitir estratégias “espertas” para os que quiserem burlar a entrada na universidade, e enfraquecer a noção de mérito na universidade. Já há, por exemplo, concursos para professores universitários negros no Mato Grosso e Tocantins; não me surpreenderá quando tivermos cotas para pós-graduação, para bolsas de pesquisa, etc., o que, para mim são coisas graves e contraproducentes. A lógica deste mecanismo é perigosa.
Por fim, eu não sei também se cota no sistema privado faz sentido. O que eu acho é que reforçando o discurso do mérito, reforçando a educação básica, técnica e reformulando a universidade em outros quesitos, e sendo mais militante no que conta (cadê o movimento negro em passeata na frente da AA?!), fazendo valer as leis pesadas contra o racismo, estaremos no rumo certo – em vez de tentar atalhos “afirmativos” que não substituiriam (quando em toda parte substituíram efetivamente sem os resultados esperados) política universais igualitárias e meritocráticas. Como disse o Gandhi: “não adianta você ir rápido se você vai na direção errada”.
Um abraço,
João Paulo

João Paulo Rodrigues em novembro 25, 2008 11:12 AM


#69

Idelber,

Acredito que essa discussão já estava superada desde da condenação dos nazistas por crimes contra a humanidade.

Nesse caso não importa se a maioria quer ou não - cotas raciais são políticas de discriminação racial estatal, racismo do pior tipo.

Fico extremamente triste por ter que criar meus filhos em um país em que tais monstruosidades são institucionalizadas.

A maioria não tem o direito de segregar a população no Brasil, assim como não tinha na Alemanhã. Democracia não é ditadura da maioria.

um abraço,
lucas

lucas em novembro 26, 2008 7:57 AM


#70

Idelber,no Brasil é difícil combater o racismo por ser o mesmo camuflado,não assumido pelas pessoas, o que poderá ser vencido com a educação e com a consciência de que só se constrói uma nação justa com o respeito às diferenças, sejam elas de cor,de sexo,religião, etc.

geraldo magela ramalho em novembro 26, 2008 9:28 AM


#71

Só completando: aliás, a idéia de que a aprovação de algo pelo congresso "ponha fim" à discussão sobre alguma coisa é o princípio da ditadura - se é a vontade do povo, não deve ser questionada.

lucas em novembro 26, 2008 11:42 AM


#72

então estamos combinados:
nao existe esse negocio de raça (para reparar o mal feito)... mas existe para pagar a metade do salario, para condenar a viver na favela, para ser excluir da educação, para ser humilhado pela policia a cada esquina...

Sanchupança em novembro 26, 2008 11:54 AM


#73

idelber, o povo quer saber:

veio um amigo me falar no msn:

"é verdade q o idelber voltou a apoiar as cotas?"

e eu respondi:

"que eu saiba, nao. ele leu o livro do riserio e fez um post mudando publicamente de opiniao e se declarando contra."

"bem," disse o amigo, "olha lá o post dele que eu acho que ele mudou de idéia de novo."

Aí eu reli o post com cuidado, e vi que vc fala que o congresso passou a lei, mas sem fazer comentários pró ou contra... e, num post comemorativo do 20 de novembro, a falta de afirmações pró-cotas parece sugestiva... aí reli seu texto sobre o livro do Risério, e tb reparei que vc nunca afirma explicitamente ser contra cotas, somente diz que tudo o que vc falou sobre o livro torna óbvia sua nova posição...

enfim, agora fiquei curioso. não é um desafio, claro, mas vc sabe que estou pesquisando o assunto e estou curioso. e os leitores podem estar confusos, como esse meu amigo. ele presumiu que vc agora é a favor, eu tinha presumido que vc era contra.

o pedido entao é: idelber avelar, pró ou contra cotas/reparações raciais no brasil, e pq? :)

só pra constar, eu era contra, e sou a favor desde esse texto aqui, bem antigo, q eu ainda vou reescrever como parte da nova série sobre racismo:

http://liberallibertariolibertino.blogspot.com/2006/03/favor-das-cotas.html

alex castro em novembro 26, 2008 6:37 PM


#74

É mais triste ainda é a picaretagem de colocar um exemplo de uma pessoa de pele preta para tentar dizer que é exclusivo delas

Os que fazem isto estão erradíssimos - voluntariamente ou não.

Eu, que não sou preto, já fui jogado dentro de viatura, acusado de ladrão por dono de loja de conveniência etc.
Reparação o cacete; isso se chama discriminação racial. E é horrível.

João em novembro 27, 2008 11:59 PM


#75

O sistema de cotas é o sonho de todo político: posar de bonzinho a custo zero!

Ou melhor, custo zero para o estado, mas um imenso custo para a população.

As afirmações de apoio às cotas sempre caem em alguma contradição óbvia. Exemplos:

"Ele diz que os estudantes das escolas públicas que estão ingressando através das cotas são os mais esforçados, tiram boas notas e estão movimentando as bibliotecas dos cursos, que antes ficavam vazias."
Ora, se os alunos são capazes de se esforçar e tirar boas notas, seriam igualmente capazes de se esforçar e passar no vestibular. Então pra que cotas? Só há duas alternativas: ou os alunos cotistas tem um deficit irremediável de formação (e não seriam capazes de enfrentar outros vestibulandos em condições de igualdade), ou eles são capazes de, com esforço, superar quaisquer deficiências. Julgar o primeiro como verdade e defender cotas é ser racista contra os negros. Julgar o segundo verdade e defender cotas é ser racista contra os não negros.
Se os alunos cotistas são tão bons, porque precisaram de cotas para entrar na faculdade? Não podiam apenas ser "esforçados" como foram depois de entrar na graduação?
Porque não criar cursos de pré-vestibular gratuitos então?

"nao existe esse negocio de raça (para reparar o mal feito)... mas existe para pagar a metade do salario, para condenar a viver na favela, para ser excluir da educação, para ser humilhado pela policia a cada esquina..."
Acho que é auto-explicativo. Quem é contra o racismo e a definição pelo estado de raças torna-se hipócrita. Poderiamos aplicar o mesmo ao roubo. Se tantos políticos roubam, os que pedem a cassação dos ladrões é que estão errados!
Essa é a visão de alguem para quem o mundo JÁ É dividio em raças. Se um branco é racista, então todos são racistas! Se um policial branco maltrata um cidadão negro, então todos os brancos são culpados!

Francamente...


lucas em novembro 28, 2008 11:38 AM


#76

a pobreza é sempre, principalmente e antes de tudo a pobreza de espirito..

Dons Onça em dezembro 4, 2008 9:08 AM


#77

tudo que foi dito aqui ja foi sintetizado num charge bacana publicada no jornal dia desses:
o capataz chicoteando o negro pq ele cometeu a ousadia de dizer que o país era racista...
ou como fazia a ditadura militar que torturava quem dizia que tinha tortura no país pq o elemento estava "denegrindo a imagem do país no exterior",,quer dizer: temos aqui um monte de branco dizendo o que os negros devem pensar sobre sua situação no país..e é enorme crime punivel com a execração eterna dizer que deve haver alguma compensação pela miserias inflingidas aos ex escravos..pq isso significa "racismo'..discriminação..etc..e isso nao pode...

Ted Tarantula em dezembro 4, 2008 9:14 AM


#78


Brancos não têm graça
Alex Castro
A história aconteceu nos Estados Unidos, na década de 40, mas poderia ter sido ontem, em qualquer parte do Brasil.
O Comitê de "Fair Employment Practices" (algo como Práticas Justas de Contratação) do Sindicato dos Ferroviários barrou a presença de sindicalistas negros das suas deliberações sobre racismo no ambiente de trabalho. A alegação: "não deveria haver no comitê nenhum representante de nenhuma raça ou interesse especial." (fonte)

Como se os brancos não tivessem raça.
Parece aquelas pessoas que reclamam do Dia da Consciência Negra e dizem que isso é racismo reverso: "E por que não temos um Dia da Consciência Branca?"

E dá vontade de dar um pirulito e explicar: "Criança... Todo dia é dia da Consciência Branca..."

(subtitulo) Racismo reverso
Brancos são 95% dos médicos, 98% dos diretores de empresa, blá blá, mas tudo bem, o mundo é assim mesmo, paciência.

Sempre que os negros tentam inverter o placar de 100 X 0 para 100 X 1, tipo criar uma lei que reserve 20% das vagas universitárias para negros, a maioria privilegiada fica histérica: injustiça!, revanchismo!, racismo inverso!

O termo racismo inverso surgiu no mundo do jazz americano, quando músicos, fãs e críticos brancos começaram a se sentir injustamente excluídos. Começaram até a dizer que, no mundo do jazz, vigorava a lei do Crow Jim (ou seja, o oposto da lei segregacionista Jim Crow). Saindo da Sarjeta: a Autobiografia de Charles Mingus

tião medonho em dezembro 18, 2008 12:53 PM