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segunda-feira, 17 de novembro 2008

Balanço da campanha de Obama

A revista Teoria e Debate me pediu um artigo de balanço da campanha de Barack Obama das primárias até a eleição. Segue aí o texto que será publicado no número deste mês da TD. Boa parte é inédita, ainda que não traga muitas novidades para quem acompanhou a cobertura por aqui. Alguns trechos já apareceram aqui no blog anteriormente.


Num artigo para a New Yorker, Ryan Lizza relata que em 2007, no início da campanha das primárias democratas dos Estados Unidos, a CNN e o YouTube promoveram um debate no qual se preguntou a Barack Obama: “você aceitaria se encontrar sem pré-condições, no seu primeiro ano de governo, em Washington ou qualquer outro lugar, com os líderes de Irã, Síria, Venezuela, Cuba e Coréia do Norte, para tentar superar a divisão entre os nossos países?” Obama respondeu: “Sim, aceitaria”. Massacrada por Hillary Clinton e outros presidenciáveis por essa resposta, a campanha discutia as formas de minimizar a afirmação. A equipe se preparava para a guerra do spinning. Obama entrou na conversa de forma peremptória: ninguém massagearia a declaração para desdizê-la. “A idéia de que não podemos nos reunir com Ahmadinejad é ridícula. Trata-se de um monte de sabedoria convencional de Washington que não faz o menor sentido. Não vamos fugir desse debate. Vamos estimulá-lo”, decretou Obama. Em vez de redigir um memorando à imprensa driblando a questão, a equipe escreveu uma nota afirmativa, que passava ao ataque. Foi a primeira troca de fogo aberta com Hillary Clinton. Foi também o momento em que seus assessores entenderam que se tratava de um candidato diferente.

Numa conversa em 2008, uma ativista da campanha de Obama me contava dos planos de derrotar os republicanos na Carolina do Norte, estado que não votava democrata desde 1976. Era mais ou menos como encontrar um comitê tucano convicto de se prepara para derrotar Lula numa eleição direta em Pernambuco. Mesmo Bill Clinton, um democrata sulista eleito duas vezes carregando vários estados do Sul, não vencera a Carolina do Norte. O nativo John Edwards, um democrata conhecido no país, posto que ex-candidato a vice-presidente, abandonou o Senado, já que sentiu que não conseguiria enfrentar o voto conservador na Carolina do Norte. Na era moderna, o único assento cativo do estado no Senado Federal havia pertencido a Jesse Helms, um ultra-reacionário da extrema-direita do já direitista espectro político americano. Ao ouvir os planos da campanha para a Carolina do Norte, eu dei uma gargalhada: “você está me dizendo que um negão democrata de nome Hussein formado em Harvard vai bater o São McCain no estado de Jesse Helms, no coração do Sul segregacionista?” Ela tirou um mapa da gaveta e passou à demonstração: “você conhece a Carolina do Norte. Veja como cresceu a área universitária desde que você morou lá. Agora veja a mudança na demografia do norte do estado de 2004 para cá. Agora veja os números da primárias. Agora observe quantos eleitores nós registramos.” Atônito, eu acompanhava a matemática e reconhecia que fazia sentido. Uma semana depois, saía uma pesquisa que já mostrava Obama virtualmente empatado com McCain na Carolina do Norte. No dia 04 de novembro, Obama colocou o estado na coluna democrata pela primeira vez desde Jimmy Carter.

As anedotas revelam duas belas novidades representadas pela campanha de Obam: o fim da política da triangulação e o fim do focalismo eleitoral, dois elementos do que poderíamos chamar a política do medo entre os progressistas americanos. Tratava-se, simplesmente, dos dois maiores dogmas do Partido Democrata nas últimas décadas, as crenças de que 1) mover-se para a centro-direita, “triangulando” e manipulando as próprias convicções pela conveniência era a única estratégia política capaz de derrotar os Republicanos; 2) a focalização em três ou quatro estados decisivos (e, dentro deles, em demografias específicas) era a única tática eleitoral viável, posto que os outros estados eram descartados como terrenos democrata ou republicano já sólidos. Como esses dois dogmas tinham a força de lei natural e a pré-candidata que os representava tinha o reconhecimento do nome e a máquina do partido, as primárias democratas pareciam uma cerimônia pró-forma para coroar Hillary Clinton.

Apesar da novidade histórica que poderia representar a eleição da primeira mulher para presidente da super-potência, a perspectiva de uma presidência Hillary não era animadora para o setor mais progressista do Partido Democrata: a combinação entre a disposição de triangular e a estratégia polarizadora de buscar sempre os 50% + 1 fazia da candidatura Hillary uma espécie de mal menor com o qual os progressistas devíamos nos conformar. Esse caráter conservador reforçou-se quando Al Gore decidiu não ser candidato. Hillary se apresentava agora como “candidata inevitável”, a única em condições de derrotar John McCain no voto popular. O argumento em favor da inevitabilidade de algo termina sendo sempre conservador, claro. Hillary abraçou-o num ano em que o eleitorado dos EUA queria, desesperadamente, uma mensagem de mudança, algo novo, uma realidade possível mas ainda não imaginada. Neste ano os EUA queriam, digamos, justamente o oposto do inevitável. Foi seu primeiro erro.

O focalismo do setor dominante do Partido – o chamado DLC, o Conselho de Liderança Democrata, ao qual se vinculam os Clinton –, havia sido defendido com êxito por marqueteiros como Mark Penn, cuja condição de “guru” se baseava numa única vitória eleitoral nos anos 90. Esse focalismo foi responsável pelo segundo erro da campanha de Hillary Clinton, de caráter bem mais básico que o primeiro. Não leram as regras das primárias, não imaginaram que a disputa pudesse passar da Super-Terça (a quarta data das primárias, depois de Iowa, New Hampshire e Carolina do Sul, na qual 20 estados escolhem seus delegados), não se prepararam para os estados que escolhiam delegados através de assembléias. Enquanto isso, a equipe de Obama descobria que uma vitória num estado minúsculo como Idaho (com assembléias) poderia render mais delegados que uma vitória eleitoral num estado populoso como a Nova Jersey. Obama lançou-se a um trabalho de organização que foi também uma revisão no que se entendia por democracia. O voto universal e secreto, nas primárias democratas, coexistia com a democracia organizada e popular das assembléias. Nestas, a vantagem de Obama foi enorme. Na medida em que avançava, a liderança de Obama na contagem de delegados foi carregando também o voto popular, rumo a uma vitória incontestável nas primárias.

Tudo isso conspirou para que Obama conquistasse uma improvável indicação no Partido Democrata. Mas o fundamento mesmo do fenômeno, o ato que possibilitou a vitória e conferiu à “onda Obama” a sua âncora básica foi o posicionamento do jovem senador de Illinois em 2003, quando se colocou a questão política e moral definitiva do seu tempo: a invasão ilegal e criminosa do Iraque, baseada em mentiras fabricadas pela administração Bush. Num momento em que 75% do país se colocava do lado belicista e patrioteiro, Obama teve a coerência e a coragem de ser inequívoco na condenação à guerra. Num ambiente político como o norte-americano do começo da década, não era pouco. Essa foi a condição de possibilidade da candidatura. Logo depois, o discurso memorável na convenção democrata de 2004 o tornaria conhecido de todo o país.

É certo que, ao longo da sua viabilização como candidato, a negritude de Obama foi passando a ocupar um papel de destaque, mesmo que às vezes oblíquo, não mencionado. Ao princípio, entre o próprio eleitorado negro Obama não figurava com índices altos, posto que eles duvidavam da sua viabilidade. Na terceira data da primária democrata, na Carolina do Sul (Obama havia vencido em Iowa e Hillary em New Hampshire), Bill Clinton fez o famoso comentário com desdém sobre a candidatura de Obama: “Ah, Jesse Jackson também venceu a Carolina do Sul em 1984 e 1988...”. Não se tratava, nem de longe, de uma frase racista, que fique claro. Era uma suposição demográfica que Bill tentava usar como tática eleitoral divisionista, como parte da estratégia de inevitabilidade da campanha Hillary. Havia boas razões para se supor que um candidato como Barack Obama -- “inexperiente”, negro, liberal – não seria páreo para um suposto “herói de guerra” e Republicano moderado como John McCain. Mas 2008 não era um ano normal. Saía-se de oito anos da pior – da mais mentirosa, fiscalmente irresponsável e belicamente criminosa -- presidência da história dos Estados Unidos. Perceber essa singularidade epocal foi outro mérito de Obama.

Obama sabia que a questão racial apareceria e ela se instalou quando se desenterraram as declarações incendiárias do seu pastor, Jeremiah Wright, contra a injustiça “na América”. Sendo uma igreja negra, os sermões inevitavelmente continham trechos que testemunhavam a divisão racial profunda do país. Junto com a crítica à opressão, incluíam algumas teorias conspiratórias sobre a disseminação da AIDS ou pontos de vista pseudo-científicos sobre diferenças mentais entre euro- e afro-americanos. A reação de Obama à controvérsia, no discurso de 18 de março de 2008 que ficou conhecido como “Uma união mais perfeita”, foi um salto qualitativo gigantesco na maturidade das discussões sobre raça nos Estados Unidos. Grosso modo, poderia se dizer que foi a primeira vez que um candidato a presidente discursou aos compatriotas como adultos acerca do tema racial.

Falando na Filadélfia e evocando o documento fundador do país e sua grande chaga, a escravidão, Obama fez o contrário do que seria de se esperar numa situação embaraçosa de “culpa por associação”. Em vez de minimizar a polêmica ou descartá-la, discursou sobre as raízes do ressentimento que se via nos discursos de Wright, localizando-as na totalidade da experiência negra nos EUA. Em vez de “triangular” em volta da associação, encarou-a como parte integrante, no bom e no ruim, da sua experiência de vida. Condenou as declarações que julgava equivocadas, mas chegou a dizer que renegar seu pastor seria como renegar a sua avó branca. Ao falar do ressentimento, não deixou de mencionar os brancos pobres que, com freqüência, sentem que sua raça não lhes serviu de nada e que a culpa é dos negros beneficiados por ações afirmativas ou dos hispanos imigrantes que forçam para baixo os salários do mercado. Durante os quase 40 minutos de reflexão, o tom foi de compreensão das feridas raciais do país, mas também de convicção de que a unidade para transcendê-las era a forma de legar um futuro às novas gerações. Depois do discurso, já estava esvaziado de antemão qualquer intento de usar a questão racial como arma divisionista contra Obama.

O uso inteligente da internet e o mapa eleitoral montado pela jovem campanha de Obama fizeram o resto. Na Virgínia e Carolina do Norte, estados “vermelhos” (republicanos) sulistas com mudanças demográficas vinculadas à expansão universitária, Obama compreendeu que suas chances de vitória residiam nas matrículas de eleitores de 18-30 anos e no comparecimento afro-americano massivo. No Oeste, Obama abriu outra frente de vitória em estados vermelhos, ao entender a mudança demográfica do Colorado (o crescimento dos latinos) e manter a infra-estrutura herdada das assembléias das primárias em estados como Nevada. No cinturão industrial do meio-oeste, onde profetas do apocalipse decretavam que Obama não teria chances, pelo racismo dos eleitores operários brancos, seu discurso econômico transmitiu a mensagem que precisava. Ganhou o perene campo-de-batalha de Ohio e, a partir de sua força em Illinois, carregou um estado que não votava democrata desde 1964, Indiana. Com uma proposta de política externa sem histerias bélicas, conseguiu conquistar até o voto cubano da Flórida, velho reduto republicano.

Uma série de perguntas permanecem quanto ao grau de ruptura com o governo Bush de que será capaz Obama. Em todo caso, o que é mais animador na sua figura não é a posição que ele ocupa no espectro político, nem sua raça ou sua “mulatez”, mas a compreensão de que a política é uma prática que não se reduz a uma escolha entre a intransigência ressentida e a triangulação sem escrúpulos.

PS: Este texto também está publicado na Agência Carta Maior.



  Escrito por Idelber às 12:49 | link para este post | Comentários (40)


Comentários

#1

Caro Idelber, sei que é OT, mas gostaria de indicar este site, caso vc ainda não o conheça, é claro, que traz resumos diários traduzidos do que se escreve nos principais jormais dos países do Oriente Médio, excluindo-se Israel, infelizmente.

http://memri.org/


Antonio Holzmeister em novembro 17, 2008 1:06 PM


#2

Trolando um pouco(heehehe)

1-) As pesquisas indicavam que antes do início das primárias a maioria dos negros não sabiam que Barack era negro.

2-) Ainda acho que os principais fatores foram a rejeição a Bush, a rejeição entre os hispânicos(Note que no TEXAS Obama ficou a uns sete pontos de vencer) e os erros da campanha de McCain.

Desconfio que Kucinich ou mesmo Dodd teriam vencido neste ambiente. ;-)

3-) Helms tinha uma cadeira cativa, mas quase que nunca venceu de forma fácil. As eleições contra Harvey Gantt e Jim Hunt foram um tanto quanto amargas.

Andre Kenji em novembro 17, 2008 1:43 PM


#3

OFF TOPIC – Gente, estou divulgando com atraso, para a de hoje não dá mais tempo. Mas o PSOL está convocando manifestações “contra a corrupção”, segundo eles. Mas, na verdade, diretamente dirigidas contra o circo que se montou para desmontar a Operação Satiagraha e para afastar o Juiz De Sanctis do julgamento, garantindo a impunidade de Dantas. Acho que todas as pessoas de esquerda deste país, e mesmo as de direita de boa fé, devem participar disso, sejam do PSOL, PLUA, PESTRELA, PCOMETA, o diabo, o que importa agora não é o sectarismo partidário mas sim uma luta justa contra o crime organizado e, também e não menos importante, em defesa de funcionários públicos que estao sendo perseguidos pelo fato de cumprirem com o seu dever. Eis as datas: no dia 17 de novembro às 12h estarão em Porto Alegre, na Esquina Democrática; no dia 18, em São Paulo, em fren-te à Assembléia Legislativa; no dia 19, em Brasília, em frente ao Supremo Tribunal Federal. PS: A data coincide também com o prazo final para que o juiz Fausto De Sanctis dê a sentença a Dantas.

Anarquista Lúcida em novembro 17, 2008 2:25 PM


#4

Começou mal: nomeando o sionista e ex-agente israelense Emmanuel, reafirmando o massacre do Arfeganistão e negociando nomes dos republicanos no seu governo.

Armando em novembro 17, 2008 2:33 PM


#5

Olá Idelber

Tô passando aqui para te sugerir o acréscimo de anexos com tradução em português dos discursos de Obama. Pois penso que um dos elementos essenciais da grandiosa vitória dele foi a qualidade vocal, o rigor crítico/histórico e a performance dos seus discursos...raros e muito poucos (sic) políticos tem estas três qualidades juntas. É uma lição de política que fará muito bem. Outra coisa é que ele vai precisar vencer o debate com os blue dogs e que a composição de um Gabinete tão heterogêneo pode ser uma vantagem, mas pode trazer muitas dificuldades. A crítica ao fundamentalista Rahm Emanuel...merece por si só um debate aberto e em detalhe. Mas parabéns pelo texto. Falta, portanto, algo sobre os desafios de Obama, incluso o tema pouco usual do contato por e-mail com seus eleitores e apoiadores. Um abração...

Daniel Boeira em novembro 17, 2008 3:25 PM


#6

Um texto animador, voce passa uma imagem muito positiva de Obama. Espero que esteja certo. Eu fiquei feliz com sua vitória, não pensava que fosse possível, não sei se o seria sem o tsunami da crise econômica - pelo que vi os votos dele foram 7 ou oito pontos à mais do que o adversário. Também conheci o seu blog através do Pedro Dória, em um link sobre eleição. O que foi ótimo. Espero que a democracia estadunidense se renove, será bom para o povo do EUA e também para os brasileiros.

Jorge em novembro 17, 2008 5:15 PM


#7

Boa, Idelber. Belo texto.

Alon Feuerwerker em novembro 17, 2008 5:16 PM


#8

Jesus Cristo.
Isso sim é um texto bem escrito.
Parabéns, Professor Idelber. Sempre salvando a sanidade mental de seus leitores.
Obrigado pelos esclarecimentos, indicações de leituras e links inteligentes.
Salves de DioLOVNI.

Diogo Silva em novembro 17, 2008 6:35 PM


#9

Idelber,

Texto sensacional.

Anarquista Lúcida,

Bem lembrado, amanhã estarei no ato em São Paulo.

Hugo Albuquerque em novembro 17, 2008 9:31 PM


#10

Belo texto, professor. Deu uma reanimada depois das primeiras nomeações. Tirou um pouco aquele gosto de mais do mesmo.

Por exemplo, vai botar um Clinton no governo?

Radical Livre em novembro 17, 2008 9:48 PM


#11

Idelber, seu post tá típico de comentarista de futebol elogiando todas as estrtégias do time vencedor após a partida.

Vejo que o o efeito Obama-mania já está passando. Gente, pelamordedeus...

Alguns comentários do Noam Chomsky:

"The United States has essentially a one-party system and the ruling party is the business party."

"This whole election campaign deals with soaring rhetoric, hope, change, all sorts of things, but not with issues."

Pedro em novembro 18, 2008 1:16 AM


#12

Com a diferença, Pedro, de que eu comecei a defender a estratégia antes do jogo começar.

Quanto a Chomsky, bem, ele perdeu a autoridade para dizer que não há diferenças entre Partido Democrata e Partido Republicano no momento em que assinou um documento dizendo que não havia diferenças entre Lula e Alckmin.

O clichê "dá tudo na mesma" tem lá seus limites, e eles têm ficado bem óbvios, aqui, aí e alhures.

Idelber em novembro 18, 2008 1:55 AM


#13

Caro Idelber

Ao ler estas suas palavras fico satisfeito em constatar no quanto os Estados Unidos são um país com um sistema político de práticas democráticas. Não é em qualquer lugar, no tempo e no espaço, que se pode fazer uma campanha (as 'primárias') tão longa, em que se tenha como objetivo a mudança de um eleitorado que se mostrava majoritariamente belicista e, o mais notável, lutando contra uma, como você classificou, "mentira fabricada" pelo próprio presidente desta grande nação. Lutar contra um presidente que foi sufragado por estes mesmos eleitores que acreditam que este sistema seja democrático, conseguir fazê-lo sem ferir a lei e o Estado e sua administração não terem armas (legais e moralmente aceitas) para impedir que tal mensagem possa ser propagada pela Mídia e por outros meios é incrível. Esta mensagem ter, finalmente, alcançado o poder mostra que há um lugar onde há a tal Democracia!

Paulo Z em novembro 18, 2008 5:05 AM


#14

O problema de dizer que "são todos iguais" ou que "dá tudo na mesma" é o plano/dimensão em que se fala. Dizer que são todos (Lula, Alckmin) iguais e apoiar Heloisa Helena, por exemplo, é contraditório, porque no plano em que são iguais, ela também é (faz parte do jogo da democracia representativa, faz uso do pessoalismo, não irá acabar com o capitalismo, etc. etc.). Se ela é diferente, a diferença, do plano onde são todos iguais, é mínima (e também existe entre Lula e Alckmin). O problema dessa esquerda pseudo-revolucionária-partidária é falar num plano e agir num bem mais baixo. É como formar uma chapa contra o capitalismo num DCE de província. Ave maria é pouco.

Abraço,

Alexandre Nodari em novembro 18, 2008 7:42 AM


#15

A propósito, Idelber, belo texto sobre o conjunto da campanha de Obama.

Alexandre Nodari em novembro 18, 2008 7:44 AM


#16

Idelber, mudando de assunto, dê uma olhada nesta matéria do Estadão de hoje: Torquemada ressuscitou e está em ação no Mato Grosso do Sul, onde processa 1.500 mulheres pelo abominável crime de aborto. 26 já foram condenadas e cumprem pena.

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20081118/not_imp279301,0.php

Luiz Eduardo Brandão em novembro 18, 2008 9:14 AM


#17

Excelente texto, Idelber, estou indicando para todos os que ainda não entenderam bem essa eleição e acham que os Estados Unidos são uma espécie de reino mágico, onde coisas sobrenaturais acontecem (bem, semanas antes da eleição encontrei um americano adepto das religiões afro-brasileiras que disse ter recomendado para o pessoal dos terreiros que fossem sacrificados muitos animais em prol do candidato democrata... Mas no creo en brujas). Digo isso porque o texto deixou claro que as condições para essa eleição foram bem peculiares e aproveitá-las demandou muito trabalho e estudo por parte de Obama e seu staff.

Agora é que são elas, porque aqui no Brasil aprendemos a duras penas a diferença entre a retórica de campanha e a realidade da política. O lado bom é que amadurecemos à beça. Espero que os americanos amadureçam também.

P.S.: De Sanctis foi mantido no inquérito. Será um sinal de amadurecimento?

Leo Vidigal em novembro 18, 2008 10:15 AM


#18

Grande notícia essa do De Sanctis. Mas lembremos: foi 2 x 1.

Só para deixar registrado mesmo :-)

Idelber em novembro 18, 2008 10:23 AM


#19

Caso haja, talvez não seja com Ahmadinejad a conversa. O líder iraniano parece estar em processo de fervura lenta e quem está colocando a pimenta é um tal de Hassan Rowhani que, dizem, está muito a fim de ser o próximo presidente.

Cláudia em novembro 18, 2008 11:19 AM


#20

O CONSELHO DO GOVERNADOR
18/novembro/2008 10:05

Davi Lacerda, 36 anos, graduado em Medicina pela USP e residência em dermatologia pelo Johns Hopkins Hospital (Baltimore, EUA), é dermatologista em consultório e no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

Leia trecho do artigo que ele escreveu na pág. 3 "Tendências e Debates", da Folha de SP, 3ªf, dia 18:


DAVI DE LACERDA

O pragmatismo do conselho que o governador me deu reflete o descaso do Estado com os médicos da rede pública de saúde

A São Paulo Companhia de Dança realizou no dia 7 deste mês uma magnífica apresentação em comemoração ao seu primeiro ano de existência. Entre as várias autoridades presentes estava José Serra.

Ao me apresentar, contei ao governador que sou médico, que fiz graduação na USP, pesquisas em Harvard, residência em dermatologia no hospital Johns Hopkins (EUA) e especialização em cirurgia dermatológica em Paris.

Contei também que há 5 dias fora contratado como médico concursado do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.


Ele sorriu e me deu parabéns. Ao agradecê-los, muito constrangido, informei-o de meu espanto ao descobrir que o salário-base para o médico do HC era de R$ 414 mensais para uma carga horária de 20 horas semanais.

O governador buscou me consolar dizendo que eu não ganharia só isso.

Respondi que estava ciente das gratificações e que, mesmo assim, meu salário bruto seria de R$ 1.500.

Informei-o ainda de que o custo para manter meu consultório fechado durante as horas em que estarei no HC é o triplo do valor que receberei do Estado.

Àquela altura, quando já não mais sorríamos, pedi sua opinião. O governador me aconselhou a deixar o HC, dizendo que o HC não é um bom negócio para mim.

íntegra: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1811200809.htm

alex em novembro 18, 2008 11:40 AM


#21

Pois é professor... Tá certo que o senhor é um "obamista" convicto e juramentado, o que de certa forma "prejudica" a sua "imparcialidade", mas... Que puta análise interessante da eleição americana, cara! Eu já tinha o conhecimento prévio de que o Obama soube usar como ninguem as novas tecnologias e o novo eleitorado que surgiu, mas não sabia que os estudos demográficos da campanha do Senador de Illinois chegavam a tal nível de granularidade, como você descreveu logo no início do seu artigo. Sem mais a acrescentar, eu só lamento que você seja um professor universitário... Pessoalmente acho que você seria um ótimo analista político. Pelo menos melhor que certas criaturas que circulam na mídia brasileira com certeza você seria!

Claudio Roberto Basilio em novembro 18, 2008 11:43 AM


#22

Excelente texto, Idelbas! Ponto para a TD. Espero que o chamem mais e mais vezes para escrever.

Grande abraço.

Gravataí Merengue em novembro 18, 2008 1:39 PM


#23

Excelente artigo.
Não só dá uma dimensão acurada do que ocorreu nesta campanha, algo que nenhum comentador brasílico chegou perto, mas ajuda a entender por que diachos, no fim das contas, aquela democracia dá certo. Nós aqui no papel com coisas muito mais avançadas que eles (voto eletrônico, eleição direta para presidente, pluripartidarismo, quase 100% de votantes, justiça eleitoral com regras universais), mas eles com militância real (e não essa pasmaceira daqui), engajamento dos eleitores, campanhas populares etc.
Só vou discordar (bom, nem é uma discordância) quanto à guerra do Iraque. Havia gente apoiando o correto por motivos errados dos dois lados. Assim como gente apoiando o errado pelos motivos certos.
Eu sou dos que viu com bons olhos a invasão não pelos motivos bushistas, mas pelo que parece que pinta por aí: um Iraque sem ditadores, sem limpeza étnica, sem ser fator de preocupação internacional, levemente democrático e plural, com maior margem de controle sobre seu destino. Como dizem os argentinos, "a ver".

João Paulo Rodrigues em novembro 18, 2008 2:40 PM


#24

Parabéns pela análise; é para copiar e arquivar em meus artigos favoritos. Agora, será que você poderia explicar essa "novela" de Hillary sim, Hillary não para o cargo de secretária de Estado? Vamos que as contas do casal Clinton e os negócios internacionais do Bil não recomendem a senadora para o cargo, por "conflito de interesses" (é este o caso?), como é que o Obama vai poder "desconvidá-la" (se é que realmente a convidou)? Isso não poderia criar um constrangimento insanável para a senadora e o marido e jogá-los numa oposição ao governo Obama? Precisava mesmo encontrar pessoalmente a senadora para sondar o interesse dela pelo cargo? Isso já não poderia ter sido feito muito tempo antes das eleições - se é que não foi feito? Creio que para examinar as contas pessoais do casal, especialmente os negócios internacionais do Bill, precisava realmente da autorização deles, mas não haveria um meio mais discreto de fazê-lo - por meio de um mensageiro de confiança - do que convidá-la a Chicago às vistas de toda a imprensa? Será que o Obama caiu numa armadilha do casal Clinton que está usando a mídia para forçar uma nomeação dela? Se caiu, o Obama não teria como desfazer a coisa, ele que é tão esperto? Ou será que é isso mesmo que ele planejou? Coisa confusa! Não entendo nada de política norte-americana, mas sempre pensei que ela fosse convidade para ministra da Saúde (ou lá que nome for), especialmente agora que o senador Edward Kennedy afirmou que vai apresentar um projeto de universalização do sistema de saúde americano - algo do tipo do nosso SUS?

Vera Borda em novembro 18, 2008 3:02 PM


#25

gostei,idelber.
romério

romério rômulo em novembro 18, 2008 4:33 PM


#26

Excelente, Idelber, postei em nosso blog: www.guerrilheirosvirtuais.blogspot.com
um abraço
Saroba

Luiz Settineri em novembro 18, 2008 5:19 PM


#27

Ótimo texto, Idelber. E já que se tocou noutro assunto, boa notícia essa de que o juiz Fausto De Sanctis renunciou a ser desembargador para continuar no caso Daniel Dantas. Ele não assinou o pacto fáustico, apesar do nome.

Jair Fonseca em novembro 18, 2008 9:48 PM


#28

Olá Idelber, belo texto. Leio teu blog sempre. Sou professor de negocios internacionais no sul, terra de "Alemães", vou usar teu texto para fechar o semestre...

Diego Chevarria em novembro 19, 2008 6:42 AM


#29

Desculpe se invado seu post. Mas essa nota de ontem do juiz Fausto de Sanctis, pela qual ele explica por que desistiu de concorrer à vaga de desembargador no TRF de SP, merece ser divulgada aos seus leitores que ainda não tiveram a oportunidade de lê-la, porque nos causa orgulho e admiração:
"Diante do interesse público gerado acerca da inscrição para a promoção por antiguidade deste magistrado ao Egrégio Tribunal Regional Federal da 3ª Região, cabe-me esclarecer o que segue:

1. Este magistrado tem conhecimento da relevância do cargo de Desembargador Federal do Tribunal Regional Federal da 3ª Região, maior Corte Federal brasileira, que compreende causas oriundas dos Estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul;

2. Manifestações apoiando a minha promoção foram realizadas, como também não a apoiando, estas últimas em especial por parte de brasileiros que desconheço, mas que confiam no trabalho deste magistrado. Agradeço a todos sem exceção;

3. Durante os últimos 30 dias do prazo para a inscrição à promoção, houve de minha parte intensa reflexão, que tem sido para mim árdua porquanto a antiguidade, como critério objetivo, constitui-se, por ocasião de sua incidência, o momento natural de promoção do magistrado, daí a relevância deste esclarecimento à população;

4. A perplexidade, contínua, tem me revelado, quiçá, que a decisão não se encontraria madura para ser adotada de imediato. Tratar-se-ia de decisão pautada na incerteza, fato que poderia levar a interpretações equivocadas e teoricamente incompreensíveis para um magistrado;

5. Não se trata de menoscabo ou desprezo de cargo relevante, muito menos de apego ou desapego;

6. De certo em alguns meses novo edital de promoção possivelmente se efetivará e novas vagas surgirão, de molde que esta minha decisão é temporária;

7. Importante pontuar que num Estado de Direito não há espaço para pessoas insubstituíveis, caso em que significaria a total falência das instituições;

8. O trabalho que está sendo executado na Sexta Vara Federal Criminal de que sou titular por muitos anos, com a importante ajuda de um corpo de abnegados funcionários, não se restringe a esta ou àquela hipótese, mas a uma soma de ações que visa a melhor entrega da tutela jurisdicional;

9. A inamovibilidade do magistrado afigura-se prerrogativa justamente para permitir a sua remoção ou promoção quando do momento considerado apropriado. Trata-se de um direito subjetivo e necessário;

10. Não é a primeira vez que um magistrado deixa de se promover a um Tribunal por vontade própria e, provavelmente, nem será a última. Há muitos casos tanto na esfera federal, quanto na estadual;

11. O Tribunal Regional Federal da 3ª Região e seus membros são merecedores de grande respeito pelo que representam e realizam. Acredito na Corte Federal e na sua importância. Contudo, não é possível adotar uma decisão sem estar inteiramente convencido de seu acerto;

12. Acima de tudo, o respeito e a dignidade do ser humano sempre têm que ser preservados, não importando a profissão ou o cargo que ocupa ou o local onde é exercido. Juiz é sempre juiz, independentemente da instância ou de sua nomenclatura."

Vera Borda em novembro 19, 2008 8:34 AM


#30

Durante toda a leitura uma palavra ficou dançando lindamente na minha cabeça: autêntico.

Até agora me parece que o cara gosta de ser autêntico e tem se dado muito bem dessa forma. Quando todo mundo era a favor da guerra ele não era e deixou isso bem claro...quando as pessoas ficaram com medo da reação do eleitorado sobre a proposta de DIÁLOGO dele com TODO MUNDO QUE QUISESSE ele falou: tenho medo não, é isso mesmo, vamos conversar. Quando falaram que ele era o candidato dos negros ele disse que não era bem assim, porque não é mesmo, e explicou e explicitou a questão racial como ele a vê.
Ele podia ter optado por diversas ESTRATÉGIAS, mas resolveu ser AUTÊNTICO.
Acho que está faltando muito disso no mundo...tá todo mundo sempre querendo ter uma estratégia - em geral falsa - que acaba sendo desmontada pela realidade, essa sim, impossível de ser controlada. Quando se é autêntico e se acredita no que se propoe - me parece que é o caso do Obama - não é necessário ter estratégia. É deixar acontecer porque se vencer, venceu com a verdade, se perder, perdeu com a verdade e sempre poderá retomar a luta, mantendo a verdade.

Acho que me alonguei...mas foi de coração.
Estou junto com você e muitos outros que acreditam que o cara tá falando a verdade e vai realizar tudo o que for possível de sua plataforma. O mundo que gostava das mentiras do bush, está prestes a ruir, espero! Política não precisa ser a arte da mentira, pode ser a arte da autenticidade.

aiaiai em novembro 19, 2008 5:08 PM


#31

É esquisitérrimo a gente escrever para alguém que no nosso bom entendimento é bem mais do que as outras pessoas. Eu venho aqui há meses e leio tudo, todo dia, antes de dormir. Durmo feliz.
Não tenho vocação pra blogueira, escrevo mal. Mas tenho um, apenas pra conversar com família e amigos que por aí ficaram, no Brasil.
Nada de muito interessante. Mas tê-lo me permite vir aqui e me expôr, e esperar de cá que você mande me prender porque falei que é casado com Ana Maria Gonçalves. Sei lá se é. Foi um tiro para um espaço bem negro.
Mas acho que se fosse fácil assim unir pessoas pelo recheio, te casaria com ela. No meu blog já te casei.
Whatever, vim aqui pra falar que é mais que merecido você estar entre os 80 imperdíveis blogs do mundo.
Na minha lista é o primeiro (blog). Com todo respeito ao seu casamento, qualquer que seja a mulher.


Mi Lima em novembro 19, 2008 6:28 PM


#32

Pra variar, mais um grande texto!
Ele já falou em matar o Osama, num sei não!

Mas mudando de assunto, eu descobri o Paulo Leminski a pouco tempo, gostei muito de seus contos e o livro Agora é que são elas. Você tem alguma coisa sobre ele?
Abraço!

Gui Losilla em novembro 20, 2008 8:50 AM


#33

Told ya 'bout Chomksy! :-)

Nelson Moraes em novembro 20, 2008 10:46 AM


#34

Aliás, há uma bela resposta de Slavoj Zizek ao texto do Chomsky: Use suas ilusões contra os cínicos. Gostei muito :-)

Idelber em novembro 20, 2008 3:38 PM


#35

Acabei de conhecer este excelente blog. Parabéns

Igor Suzano em novembro 20, 2008 9:11 PM


#36

Texto impecável como sempre, embora não endosse um microm as suas ideias.
Da parte de um humilde servo da ignorância latina que não teve oportunidade de ir à corte compartilhar a mesa?
A um houseblack seria permitido infringir?
Aos céticos, o que virá apos o Obamismo?

Pedro pereira em novembro 20, 2008 10:56 PM


#37

Belo texto, Idelber.

Obama soube, como nenhum outro candidato (a), captar e interpretar o desejo de mudança da imensa maioria dos norte-americanos e sua candidatura personificou esse desejo.

Obama não provocou a 'change', ou seja, a mudança. O desejo de mudar do povo norte-americano é que gerou Obama.

As pessoas estão questionando se ele irá mudar alguma coisa em seu governo, sendo que isto não é o mais importante. Tais pessoas ainda não perceberam que a vitória de Obama já é um reflexo deste desejo de mudança. A mudança, portanto, já aconteceu.

Quando estados como Indiana, Virgínia e Carolina do Norte dão a vitória à Obama, bem como estados com 90% de brancos (como a Pensilvania) e cubanos anti-Fidel da Flórida, é porque a mudança já aconteceu (obs: hoje eu posso escrever algo assim em função de tudo o que aprendi lendo os seus textos aqui no blog. Valeu pelas aulas, Mestre Idelber!).

Caberá ao governo de Obama, portanto, apenas dar continuidade à este processo.

Marcos D. em novembro 21, 2008 8:48 AM


#38

Sensacional para explicar aos meus pais. Tanta coisa que não sei explicar sozinha e que esse texto abrange! Obrigada, Idelber.

Flávia Stefani em novembro 21, 2008 7:55 PM


#39

Parabéns ao Dr. Davi de Lacerda pelo texto e pela coragem; ele merece todo nosso apoio!
Segui a evolução dos artigos na folha onde a réplica xula do governador, acompanhada da elegante tréplica do Dr. Davi, somente piorou a imagem do Serra. O Brasil todo precisa conhecer esse lado sombrio do Serra. Este evento revela sua incapacidade de perceber que é essencial pagar bem aos profissionais da sau'de. Quero ver quanto ele vai dar de aumento aos médicos do HC até 2010. Muito bom!

Feranando em novembro 22, 2008 3:53 PM


#40

Idelber,

Quero saver o que acha voce sobre Hillary como a secretaria do estado dos ee.uu.

Mac Williams em novembro 22, 2008 8:11 PM


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