Meu Perfil
Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



Email: idelberavelar arroba gmail ponto com

No Twitter No Facebook No Formspring No GoogleReader RSS/Assine o Feed do Blog

O autor
Curriculum Vitae
 Página pessoal em Tulane


Histórico
 setembro 2015
 dezembro 2014
 outubro 2014
 maio 2014
 abril 2014
 maio 2011
 março 2011
 fevereiro 2011
 janeiro 2011
 dezembro 2010
 novembro 2010
 outubro 2010
 setembro 2010
 agosto 2010
 agosto 2009
 julho 2009
 junho 2009
 maio 2009
 abril 2009
 março 2009
 fevereiro 2009
 janeiro 2009
 dezembro 2008
 novembro 2008
 outubro 2008
 setembro 2008
 agosto 2008
 julho 2008
 junho 2008
 maio 2008
 abril 2008
 março 2008
 fevereiro 2008
 janeiro 2008
 dezembro 2007
 novembro 2007
 outubro 2007
 setembro 2007
 agosto 2007
 julho 2007
 junho 2007
 maio 2007
 abril 2007
 março 2007
 fevereiro 2007
 janeiro 2007
 novembro 2006
 outubro 2006
 setembro 2006
 agosto 2006
 julho 2006
 junho 2006
 maio 2006
 abril 2006
 março 2006
 janeiro 2006
 dezembro 2005
 novembro 2005
 outubro 2005
 setembro 2005
 agosto 2005
 julho 2005
 junho 2005
 maio 2005
 abril 2005
 março 2005
 fevereiro 2005
 janeiro 2005
 dezembro 2004
 novembro 2004
 outubro 2004


Assuntos
 A eleição de Dilma
 A eleição de Obama
 Clube de leituras
 Direito e Justiça
 Fenomenologia da Fumaça
 Filosofia
 Futebol e redondezas
 Gênero
 Junho-2013
 Literatura
 Metablogagem
 Música
 New Orleans
 Palestina Ocupada
 Polí­tica
 Primeira Pessoa



Indispensáveis
 Agência Carta Maior
 Ágora com dazibao no meio
 Amálgama
 Amiano Marcelino
 Os amigos do Presidente Lula
 Animot
 Ao mirante, Nelson! (in memoriam)
 Ao mirante, Nelson! Reloaded
 Blog do Favre
 Blog do Planalto
 Blog do Rovai
 Blog do Sakamoto
 Blogueiras feministas
 Brasília, eu vi
 Cloaca News
 Consenso, só no paredão
 Cynthia Semíramis
 Desculpe a Nossa Falha
 Descurvo
 Diálogico
 Diário gauche
 ¡Drops da Fal!
 Futebol política e cachaça
 Guaciara
 Histórias brasileiras
 Impedimento
/  O Ingovernável
 Já matei por menos
 João Villaverde
 Uma Malla pelo mundo
 Marjorie Rodrigues
 Mary W
 Milton Ribeiro
 Mundo-Abrigo
 NaMaria News
 Na prática a teoria é outra
 Opera Mundi
 O palco e o mundo
 Palestina do espetáculo triunfante
 Pedro Alexandre Sanches
 O pensador selvagem
 Pensar enlouquece
 Politika etc.
 Quem o machismo matou hoje?
 Rafael Galvão
 Recordar repetir elaborar
 Rede Brasil Atual
 Rede Castor Photo
 Revista Fórum
 RS urgente
 Sergio Leo
 Sexismo na política
 Sociologia do Absurdo
 Sul 21
 Tiago Dória
 Tijolaço
 Todos os fogos o fogo
 Túlio Vianna
 Urbanamente
 Wikileaks: Natalia Viana



Visito também
 Abobrinhas psicodélicas
 Ademonista
 Alcinéa Cavalcante
 Além do jogo
 Alessandra Alves
 Alfarrábio
 Alguém testou
 Altino Machado
 Amante profissional
 Ambiente e Percepção
 Arlesophia
 Bala perdida
 Balípodo
 Biajoni!
 Bicho Preguiça
 Bidê Brasil
 Blah Blah Blah
 Blog do Alon
 Blog do Juarez
 Blog do Juca
 Blog do Miro
 Blog da Kika Castro
 Blog do Marcio Tavares
 Blog do Mello
 Blog dos Perrusi
 Blog do Protógenes
 Blog do Tsavkko, Angry Brazilian
 Blogafora
 blowg
 Borboletas nos olhos
 Boteco do Edu
 Botequim do Bruno
 Branco Leone
 Bratislava
 Brontossauros em meu jardim
 A bundacanalha
 Cabaret da Juju
 O caderno de Patrick
 Café velho
 Caldos de tipos
 Cão uivador
 Caquis caídos
 O carapuceiro
 Carla Rodrigues
 Carnet de notes
 Carreira solo
 Carta da Itália
 Casa da tolerância
 Casa de paragens
 Catarro Verde
 Catatau
 Cinema e outras artes
 Cintaliga
 Com fé e limão
 Conejillo de Indias
 Contemporânea
 Contra Capa
 Controvérsia
 Controvérsias econômicas
 Conversa de bar
 Cria Minha
 Cris Dias
 Cyn City
 Dançar a vidao
 Daniel Aurélio
 Daniel Lopes
 de-grau
 De olho no fato
 De primeira
 Déborah Rajão
 Desimpensável/b>
 Diário de Bordo
 Diario de trabajo
 Didascália e ..
 Diplomacia bossa nova
 Direito e internet
 Direitos fundamentais
 Disparada
 Dispersões, delírios e divagações
 Dissidência
 Dito assim parece à toa
 Doidivana
 Dossiê Alex Primo
 Um drible nas certezas
 Duas Fridas
 É bom pra quem gosta
 eblog
 Ecologia Digital
 Educar para o mundo
 Efemérides baianas
 O escrevinhador
 Escrúpulos Precários
 Escudinhos
 Estado anarquista
 Eu sei que vivo em louca utopia
 Eu sou a graúna
 Eugenia in the meadow
 Fabricio Carpinejar
 Faca de fogo
 Faça sua parte
 Favoritos
 Ferréz
 Fiapo de jaca
 Foi feito pra isso
 Fósforo
 A flor da pele
 Fogo nas entranhas
 Fotógrafos brasileiros
 Frankamente
 Fundo do poço
 Gabinete dentário
 Galo é amor
'  Garota coca-cola
 O gato pré-cambriano
 Geografias suburbanas
 Groselha news
 Googalayon
 Guerrilheiro do entardecer
 Hargentina
 Hedonismos
 Hipopótamo Zeno
 História em projetos
 Homem do plano
 Horas de confusão
 Idéias mutantes
 Impostor
 Incautos do ontem
 O incrível exército Blogoleone
 Inquietudine
 Inside
 Interney
 Ius communicatio
 jAGauDArTE
 Jean Scharlau
 Jornalismo B
 Kit básico da mulher moderna
 Lady Rasta
 Lembrança eterna de uma mente sem brilho
 A Lenda
 Limpinho e cheiroso
 Limpo no lance
 Língua de Fel
 Linkillo
 Lixomania
 Luz de Luma
 Mac's daily miscellany
 O malfazejo
 Malvados
 Mar de mármore
 Mara Pastor
 Márcia Bechara
 Marconi Leal
 Maria Frô
 Marmota
 Mineiras, uai!
 Modos de fazer mundos
 Mox in the sky with diamonds
 Mundo de K
 Na Transversal do Tempo
 Nación apache
 Nalu
 Nei Lopes
 Neosaldina Chick
 Nóvoa em folha
 Nunca disse que faria sentido
 Onde anda Su?
 Ontem e hoje
 Ou Barbárie
 Outras levezas
 Overmundo
 Pálido ponto branco
 Panóptico
 Para ler sem olhar
 Parede de meia
 Paulodaluzmoreira
 Pecus Bilis
 A pequena Matrioska
 Peneira do rato
 Pictura Pixel
 O pífano e o escaninho
 Pirão sem dono
 políticAética
 Política & políticas
 Política Justiça
 Politicando
 Ponto e contraponto
 Ponto media
 Por um punhado de pixels
 Porão abaixo
 Porco-espinho e as uvas
 Posthegemony
 Prás cabeças
 Professor Hariovaldo
 Prosa caótica
 Quadrado dos Loucos
 Quarentena
 Que cazzo
 Quelque chose
 Quintarola
 Quitanda
 Radioescuta Hi-Fi
 A Realidade, Maria, é Louca
 O Reduto
 Reinventando o Presente
 Reinventando Santa Maria
 Retrato do artista quando tolo
 Roda de ciência
 Samurai no Outono
 Sardas
 Sérgio Telles
 Serbão
 Sergio Amadeu
 Sérgio blog 2.3
 Sete Faces
 Sexismo e Misoginia
 Silenzio, no hay banda
 Síndrome de Estocolmo
 O sinistro
 Sob(re) a pálpebra da página
 Somos andando
 A Sopa no exílio
 Sorriso de medusa
 Sovaco de cobra
 Sub rosa v.2
 SublimeSucubuS
 Superfície reflexiva
 Tá pensando que é bagunça
 Talqualmente
 Taxitramas
 Terapia Zero
 A terceira margem do Sena
 Tiago Pereira
 TupiWire
 Tom Zé
 Tordesilhas
 Torre de marfim
 Trabalho sujo
 Um túnel no fim da luz
 Ultimas de Babel
 Um que toque
 Vanessa Lampert
 Vê de vegano
 Viajando nas palavras
 La vieja bruja
 Viomundo
 Viraminas
 Virunduns
 Vistos e escritos
 Viva mulher
 A volta dos que não foram
 Zema Ribeiro




selinho_idelba.jpg


Movable Type 3.36
« novembro 2008 :: Pag. Principal :: janeiro 2009 »

terça-feira, 30 de dezembro 2008

Carta aberta de Uri Avnery a Barack Obama

avnery-arafat.jpg As humildes sugestões que se seguem são baseadas nos meus 70 anos de experiência como combatente de trincheiras, soldado das forças especiais na guerra de 1948, editor-em-chefe de uma revista de notícias, membro do parlamento israelense e um dos fundadores do movimento pela paz:

1) No que se refere à paz israelense-árabe, o Sr. deve agir a partir do primeiro dia.

2) As eleições em Israel acontecerão em fevereiro de 2009. O Sr. pode ter um impacto indireto, mas importante e construtivo já no começo, anunciando sua determinação inequívoca de conseguir paz israelo-palestina, israelo-síria e israelo-pan-árabe em 2009.

3) Infelizmente, todos os seus predecessores desde 1967 jogaram duplamente. Apesar de que falaram sobre paz da boca para fora, e às vezes realizaram gestos de algum esforço pela paz, na prática eles apoiavam nosso governo em seu movimento contrário a esse esforço.

Particularmente, deram aprovação tácita à construção e ao crescimento dos assentamentos colonizadores de Israel nos territórios ocupados da Palestina e da Síria, cada um dos quais é uma mina subterrânea na estrada da paz.

4) Todos os assentamentos colonizadores são ilegais segundo a lei internacional. A distinção, às vezes feita, entre postos “ilegais” e os outros assentamentos colonizadores é pura propaganda feita para mascarar essa simples verdade.

5) Todos os assentamentos colonizadores desde 1967 foram construídos com o objetivo expresso de tornar um estado palestino – e portanto a paz – impossível, ao picotar em faixas o possível projetado Estado Palestino. Praticamente todos os departamentos de governo e o exército têm ajudado, aberta ou secretamente, a construir, consolidar e aumentar os assentamentos, como confirma o relatório preparado para o governo pela advogada Talia Sasson.

6) A estas alturas, o número de colonos na Cisjordânia já chegou a uns 250.000 (além dos 200.000 colonos da Grande Jerusalém, cujo estatuto é um pouco diferente). Eles estão politicamente isolados e são às vezes detestados pela maioria do público israelense, mas desfrutam de apoio significativo nos ministérios de governo e no exército.

7) Nenhum governo israelense ousaria confrontar a força material e política concentrada dos colonos. Esse confronto exigiria uma liderança muito forte e o apoio generoso do Presidente dos Estados Unidos para que tivesse qualquer chance de sucesso.

8) Na ausência de tudo isso, todas as “negociações de paz” são uma farsa. O governo israelense e seus apoiadores nos Estados Unidos já fizeram tudo o que é possível para impedir que as negociações com os palestinos ou com os sírios cheguem a qualquer conclusão, por causa do medo de enfrentar os colonos e seus apoiadores. As atuais negociações de “Annapolis” são tão vazias como as precedentes, com cada lado mantendo o fingimento por interesses politicos próprios.

9) A administração Clinton, e ainda mais a administração Bush, permitiram que o governo israelense mantivesse o fingimento. É, portanto, imperativo que se impeça que os membros dessas administrações desviem a política que terá o Sr. para o Oriente Médio na direção dos velhos canais.

10) É importante que o Sr. comece de novo e diga-o publicamente. Idéias desacreditadas e iniciativas falidas – como a “visão” de Bush, o “mapa do caminho”, Anápolis e coisas do tipo – devem ser lançadas à lata de lixo da história.

11) Para começar de novo, o alvo da política americana deve ser dito clara e sucintamente: atingir uma paz baseada numa solução biestatal dentro de um prazo de tempo (digamos, o fim de 2009).

12) Deve-se assinalar que este objetivo se baseia numa reavaliação do interesse nacional americano, de remover o veneno das relações muçulmano-americanas e árabe-americanas, fortalecer os regimes dedicados à paz, derrotar o terrorismo da Al-Qaeda, terminar as guerras do Iraque e do Afeganistão e atingir uma acomodação viável com o Irã.

13) Os termos da paz israelo-palestina são claros. Já foram cristalizados em milhares de horas de negociações, colóquios, encontros e conversas. São eles:

a) estabelecer-se-á um Estado da Palestina soberano e viável lado a lado com o Estado de Israel.

b) A fronteira entre os dois estados se baseará na linha de armistício de 1967 (a “Linha verde”). Alterações não substanciais poderão ser feitas por concordância mútua numa troca de territórios em base 1: 1.

c) Jerusalém Oriental, incluindo-se o Haram-al-Sharif (o “Monte do Templo”) e todos os bairros árabes servirão como Capital da Palestina. Jerusalém Ocidental, incluindo-se o Muro Ocidental e todos os bairros judeus, servirão como Capital de Israel. Uma autoridade municipal conjunta, baseada na igualdade, poderia se estabelecer por aceitação mútua, para administrar a cidade como uma unidade territorial.

d) Todos os assentamentos colonizadores de Israel – exceto aqueles que possam ser anexados no marco de uma troca consensual – serão esvaziados (veja-se o 15 abaixo).

e) Israel reconhecerá o princípio do direito de retorno dos refugiados. Uma Comissão Conjunta de Verdade e Reconciliação, composta por palestinos, israelesnses e historiadores internacionais estudará os fatos de 1948 e 1967 e determinará quem foi responsável por cada coisa. O refugiado, individualmente, terá a escolha de 1) repatriação para o Estado da Palestina; 2) permanência onde estiver agora, com compensação generosa; 3) retorno e reassentamento em Israel; 4) migração a outro país, com compensação generosa. O número de refugiados que retornarão ao território de Israel será fixado por acordo mútuo, entendendo-se que não se fará nada para materialmente alterar a composição demográfica da população de Israel. As polpuldas verbas necessárias para a implementação desta solução devem ser fornecidas pela comunidade internacional, no interesse da paz planetária. Isto economizaria muito do dinheiro gasto hoje militarmente e a partir de presentes dos EUA.

f) A Cisjordânia, Jerusalém Oriental e a Faixa de Gaza constituirão uma unidade nacional. Um vínculo extra-territorial (estrada, trilho, túnel ou ponte) ligará a Cisjordânia e a Faixa de Gaza.

g) Israel e Síria assinarão um acordo de paz. Israel recuará até a linha de 1967 e todos os assentamentos colonizadores das Colinas de Golã serão desmantelados. A Síria interromperá todas as atividades anti-Israel, conduzidas direta ou vicariamente. Os dois lados estabelecerão relações normais.

h) De acordo com a Iniciativa Saudita de Paz, todos os membros da Liga Árabe reconhecerão Israel, e terão com Israel relações normais. Poder-se-á considerar conversações sobre uma futura União do Oriente Médio, no modelo da União Européia, possivelmente incluindo a Turquia e o Irã.

14) A unidade palestina é essencial. A paz feita só com um naco da população de nada vale. Os Estados Unidos facilitarão a reconciliação palestina e a unificação das estruturas palestinas. Para isso, os EUA terminarão com o seu boicote ao Hamas (que ganhou as últimas eleições), começarão um diálogo político com o movimento e sugerirão que Israel faça o mesmo. Os EUA respeitarão quaisquer resultados de eleições palestinas.

15) O governo dos EUA ajudará o governo de Israel a enfrentar-se com o problema dos assentamentos colonizadores. A partir de agora, os colonos terão um ano para deixar os territórios ocupados e voluntariamente voltar em troca de compensação que lhes permitirá construir seus lares dentro de Israel. Depois disso, todos os assentamentos serão esvaziados, exceto aqueles em quaisquer áreas anexadas a Israel sob o acordo de paz.

16) Eu sugiro ao Sr., como Presidente dos Estados Unidos, que venha a Israel e se dirija ao povo israelense pessoalmente, não só no pódio do parlamento, mas também num comício de massas na Praça Rabin em Tel-Aviv. O Presidente Anwar Sadat, do Egito, veio a Israel em 1977 e, ao se dirigir ao povo de Israel diretamente, mudou em tudo a atitude deles em relação à paz com o Egito. No momento, a maioria dos israelenses se sente insegura, incerta e temerosa de qualquer iniciativa ousada de paz, em parte graças a uma desconfiança de qualquer coisa que venha do lado árabe. A intervenção do Sr., neste momento crítico, poderia, literalmente, fazer milagres, ao criar a base psicológica para a paz.


(esta é uma carta aberta escrita por Uri Avnery, 85 anos, ex-deputado do Knesset, soldado que ajudou a fundar Israel em 1948 e que há décadas milita pela paz. A tradução ao português é de Idelber Avelar. O obrigado pelo envio do link vai ao Daniel do Amálgama. O pedido de divulgação vai a todos os que desejam uma paz duradoura, nos termos já reconhecidos pela comunidade internacional).



  Escrito por Idelber às 00:29 | link para este post | Comentários (66)



segunda-feira, 29 de dezembro 2008

300 mortos e 1000 feridos em Gaza: Israel continua assassinando e os líderes mundiais se calam

A chacina começou a ser preparada há seis meses. Isso, por si só, desmantela qualquer uma das desculpas usadas por Israel para justificar o pior massacre da história de Gaza, desde o começo da ocupação ilegal da Palestina, em 1967. Enquanto durou a “trégua” (entendam as aspas: trégua na Terra Santa significa que os palestinos continuem vivendo calados, sem reagir, numa realidade de ocupação militar brutal, demolições de casas, cerco naval, terrestre e aéreo de Gaza, checkpoints humilhantes, colonização constante de suas terras na Cisjordânia, espancamentos em mãos de colonos fortemente armados, monopolização dos recursos hídricos, proibição de observadores internacionais etc.), Israel teve várias oportunidades de suspender o verdadeiro crime de guerra que é o bloqueio à entrega internacional de alimentos e remédios aos habitantes de Gaza. Quatro de cada cinco habitantes de Gaza dependem dessas entregas para sobreviver. Somente durante essa “trégua”, dezenas de palestinos foram assassinados por Israel.

gaza1.jpg

A estratégia é conhecida: forçar a população da maior prisão ao ar livre do mundo ao desespero e à destituição para, num segundo momento, usar suas reações como pretexto para mais um massacre. Afinal de contas, há eleições em Israel em fevereiro e, no estado sionista, assim como nos EUA, bombardeios às terras árabes rendem votos fáceis. Antes, os “terroristas” com os quais não se podia negociar era a OLP (atual Fatah), excluídos por Israel e pelos EUA da última rodada de conversações de paz que tiveram alguma chance real, as de Madri em 1991. Agora, o “terrorista” da vez já não é o humilhado Fatah, mas o Hamas. Para a ocupação colonial, interlocutor bom é interlocutor morto.

O crime israelense foi perpetrado na hora do rush, em que as crianças ainda não haviam voltado da escola. Bombardearam até a universidade. Tudo cuidadosamente planejado para matar o maior número de gente possível. O máximo que os jornalistazinhos conseguem dizer sobre a chacina -- com honrosas exceções -- é que se tratou de uma “reação” “desproporcional”. Eis aqui a "reação desproporcional" (vejam depressa, porque há uma verdadeira operação de censura sionista sobre o YouTube; vários vídeos já foram retirados):

Na Síria, na Turquia, no Líbano, na Indonésia, até em Londres, aumenta a cada dia a revolta contra os repetidos massacres que sofre o povo palestino. A cada dia, fica mais longe a solução biestatal com que a comunidade internacional e os palestinos já concordaram há tempos: uma partilha ao longo das fronteiras de 1967, que desse aos palestinos o direito de viver em 22% da sua terra original. O crime não é somente contra os palestinos. É também – não se iludam, jornalistazinhos que racionalizam cada chacina sionista – um crime contra as crianças israelenses, pois não há ocupação colonial que dure para sempre. Israel tem hoje todas as cartas na mão, dada a esmagadora diferença de forças.

Mas são 7 milhões de israelenses, dos quais 20%, árabes, jamais defenderiam o estado sionista. Em volta dele, 1 bilhão de muçulmanos. Essa irresponsabilidade do país que se recusa a ser adulto ainda custará muito caro a toda a humanidade.

Porque a vingança virá.

gaza2.jpg
(crédito das fotos)

Este blog considera que o jugo criminoso sob o qual vive o povo palestino é a questão humanitária definitiva do nosso tempo. Ela tem ramificações em todas as facetas da política internacional. É importante se informar sobre ela. Aqui vão alguns links, infelizmente quase todos em inglês.

Para uma documentação diária dos crimes perpetrados pela ocupação militar, acompanhe o International Middle East Media Center. Também é possível ter notícias diárias do horror no Palestine Information Center. Para uma coleção atroz de vídeos dos massacres em Gaza, consulte o Israel's Crimes e o Palestine Video. Se você quer dedicar 50 minutos a se informar sobre a catástrofe palestina, assista ao imperdível filme Palestine is still the issue. Para ler depoimentos terroríficos sobre o cotidiano em Gaza e na Cisjordânia ocupada, assine o feed do Electronic Intifada. No Facebook, você pode demonstrar solidariedade e ouvir um pouco das histórias dos palestinos que resistem à ocupação, trocando a foto do seu perfil, por alguns dias, por essa aqui, cuja inscrição em árabe diz "somos todos Gaza". Se você é membro de alguma associação profissional, confira se ela já faz parte do boicote a Israel. O boicote foi uma arma poderosa contra o Apartheid sul-africano e é um dos poucos instrumentos que temos para ajudar aos que lutam contra a infinitamente mais perversa ocupação sionista.

O blog se despede por 2008, promete para fevereiro, em data a se confirmar, um debate sobre o livro de Ilan Pappe, The Ethnic Cleansing of Palestine, confirma a reabertura da caixa de comentários no próximo post e deseja aos seus leitores um feliz, ou pelo menos tolerável, 2009.


Atualização: em português, leia, no Amálgama, a entrevista com Amira Hass e A "força" do inimigo de Israel, de Márcio Pimenta, e A "transferência compulsória" palestina, de Daniel Lopes.

Atualização II: Na chamada "blogosfera progressista" norte-americana, nem uma palavra. Silêncio sepulcral, com uma ou outra exceção.

Atualização III: Além, claro, do perene ponto luminoso que é o blog, não de um jornalista, não de um militante, não de um "blogueiro profissional", mas de um acadêmico: Professor Juan Cole, que há tempos esmiuça, estuda, traz informação nova, escreve com lucidez e sabe do que fala. Não é somente um leitor competente do "árabe" em geral, mas falante proficiente de três de suas variantes dialetais. Ler os arquivos do Informed Comment, nos dias de hoje, é instrutivo, revelador.



  Escrito por Idelber às 03:49 | link para este post



sábado, 27 de dezembro 2008

Links

Nos EUA, saiu pesquisa nova da CNN: três de cada quatro americanos se declaram felizes que Bush vai embora. Praticamente um de cada três o considera o pior presidente da história.

*****

Dentro de vinte e quatro dias, os EUA terão um presidente que nomeia, para lidar com questões referentes à ciência, nada menos que um ... cientista! Não é genial?

*****

Em Covina, na Califórnia, ocorreu mais um daqueles massacres que um ou outro profeta do laisser faire ainda não acredita ter nada que ver com a fácil disponibilidade das armas de fogo: um ex-marido vai a uma festa de Natal na casa dos familiares da ex-mulher, vestido de Papai Noel, e abre fogo indiscriminadamente. Foram nove mortos. Dez crianças ficaram órfãs. O cabra ainda explodiu a casa, o que lhe rendeu queimaduras de terceiro grau que parecem ter sido a razão de seu posterior suicídio, já que ele tinha uma passagem de avião para o Canadá na manhã seguinte. Acabei encontrando a cobertura local do massacre: Aqui, o jornal da região. Aqui, uma galeria de fotos. Aqui, o xerife conta a história. Aqui, a terrorífica gravação do telefonema ao 911 feito por uma sobrevivente.

*****

Uma das marcas de 2008 foi a radicalização do movimento estudantil, e ela chegou a uma das veneráveis instituições de ensino superior dos EUA, a New School, em Nova York. O prédio da pós-graduação foi tomado durante três dias e liberado pelos alunos ontem, com algumas conquistas. A reivindicação mais importante, a renúncia do impopular presidente Bob Kerrey, ainda terá que ser negociada. Kerrey já havia recebido um “voto de desconfiança” dos professores, por uma margem de 74 a 2. Em minha carreira de professor, já vi o magistério aprovar votos de desconfiança a administradores. Mas jamais por 74 a 2. Kerrey, no entanto, continua por lá. O movimento dos alunos incluía alas bem radicalizadas (obrigado ao leitor Evandro por me chamar atenção aos acontecimentos na New School).

*****

Depois de abrir mais de 30.000 processos contra usuários de música que compartilham arquivos, parece que a indústria fonográfica descobriu o que até Chico Bento sabia: esses processos não detêm a circulação de mp3 via internet e criam um desastre de relações públicas para a indústria. Pelo menos é o que afirma o Wall Street Journal, noticiando uma decisão que depois ecoou nas universidades, instituições onde essa questão é relevante e premente. A venda daqueles artefatos artificialmente inflacionados, os CDs, continua despencando.

*****

Lá no Bruno Ribeiro, há uma entrevista bacana com Elza Soares.

*****

Gostei demais, muito mesmo, da série pós-apocalíptica da CBS, Jericho, que durou menos de uma temporada e meia. Como podem cancelar aquilo? A série é baixável por aí, com legendas em português, inclusive. Merece um post, em breve.

*****

O Biscoito Fino e a Massa tem comunidade no Facebook. Se você usa o serviço, passe por lá.

*****

Atualização: O brasileiro Raphael Neves é aluno da New School e tem blog com fotos, vídeos e informações sobre a ocupação.



  Escrito por Idelber às 04:54 | link para este post | Comentários (39)



quarta-feira, 24 de dezembro 2008

Um link para o feriado

Junto com os votos de Feliz Natal e Próspero 2009, deixo aos leitores o link de um joguinho (visto na Mary, eu acho) que tem corrido sério risco de me viciar nos últimos dias. Você pensa num personagem -- real, literário, mitológico, não importa -- e o gênio vai fazendo perguntas que você pode responder com sim / não / não sei / provavelmente ou parcialmente / provavelmente não ou não realmente. Depois de uns minutos de interrogatório, o gênio cospe a resposta certa, com foto e tudo.

Até Tia Anastácia ele adivinhou certo. Eu só consegui derrotá-lo com Demócrito, Xangô e o Doutor Protógenes. De Xangô, claro, a máquina perde a pista no momento em que você responde corretamente a pergunta sobre se ele realmente existiu. Também derrotei a máquina com Garrincha e Reinaldo, ex-Galo, mas essas não valeram. O gênio só errou porque eu insisti em dizer que eles eram "parcialmente não brancos". Refazendo o jogo com Garrincha e Reinaldo brancos, ele acerta.

Avise aí se conseguir vencer com alguém mais. Tem que responder tudo certinho, claro, senão não tem graça.

PS: E por falar em futebol, fizeram uma lista dos 20 maiores jogadores de todos os tempos (via Marcus, no Google Reader) na qual não entraram Garrincha, Puskas, Di Stéfano ou Reinaldo. Mas entrou Roberto "meião" Carlos. Perdoai, Senhor. Eles não sabem o que fazem.



  Escrito por Idelber às 14:17 | link para este post | Comentários (69)



terça-feira, 23 de dezembro 2008

Um comentário a um blog da Folha

Aqui vai uma cópia do comentário que acabo de postar no blog de Fernando Rodrigues. Logo que ele for liberado -- e acredito que deve ser -- eu coloco uma atualização, avisando que o jornalista o publicou*:

Como acadêmico que acompanhou o jornalismo dos EUA dos últimos 20 anos, posso lhe garantir que um repórter que perguntasse a delegado de força policial (FBI), que conduziu uma investigação com colaboração de agentes de inteligência (CIA), JÁ COM CONDENAÇÃO, por que esses agentes não disseram “alô, bandido, sou o agente tal”, receberia uma gargalhada na cara com um convite a que voltasse ao primeiro semestre da faculdade ou ao ensino médio, onde se ensinam coisas como a possibilidade de anonimato de agentes da lei em investigação judicialmente autorizada. Você não sabe ou finge não saber? Ao ler o trecho que fala do áudio “mencionado”, você sabia ou fingiu não saber que se tratava da pag. 81? Sobre o grampo inventado na Veja, você já ouviu falar da expressão “ônus da prova”? Já leu o relatório inteiro do Protógenes? Tem alguma noção de Direito? Já leu o artigo 312 do Código de Processo Penal? Conhece algum blogueiro que, no próprio blog, receba 122 comentários, sendo 110 desfavoráveis? Como se explicar agora?

O leitorado do Biscoito tem uma das equipes de comentaristas de mais saber jurídico da blogosfera brazuca. Convido qualquer profissional do Direito que discorde do que temos colocado aqui a que se manifeste, com toda a liberdade e todo o espaço, na caixa de comentários.

* Atualização: como previsto, comentário publicado.O que é notável -- além do espírito de tolerância à crítica do administrador do blog -- é a contenção dos comentários. Praticamente nenhum comentarista, da imensa maioria que o criticou, proferiu insulto ou algo limítrofe. Não deixa de ser importante também.



  Escrito por Idelber às 16:35 | link para este post | Comentários (99)




Mix

É meio vergonhosa para o jornalismo dos grandes veículos a justaposição entre as duas últimas edições do Roda Viva, o espetáculo de servilismo a Gilmar Mendes proporcionado por todos (menos Eliane Cantanhêde) na semana passada e o espetáculo de indignação irrelevante e corporativista que proporcionaram outros quatro jornalistas nesta segunda à noite com o Delegado Protógenes Queiroz. O sujeito investiga a fundo a organização criminosa de mais longos tentáculos do capitalismo brasileiro, publica um relatório de 210 páginas e os jornalistas não têm uma única pergunta sobre o conteúdo que foi revelado ali? Têm que dedicar um bloco inteiro a insistir que um delegado da Polícia Federal especule sobre como uma revista de pouca credibilidade inventou um grampo acompanhado de uma acusação? Será que perderam completamente a noção do significado da expressão ônus da prova? Fernando Rodrigues quis interrogar o delegado sobre o pedido de prisão a Andrea Michael, da Folha. Não pré-julgo a jornalista, mas se Rodrigues queria se referir ao “áudio citado” por Protógenes, não teria que ter lido o trecho anódino que leu, mas por exemplo a página 81 (pdf). Fica difícil diferenciar, às vezes, o que é ruindade pura e simples do que é má fé no jornalismo brasileiro. Leram o raio do relatório inteiro ou não? O último segmento do programa foi um baile de Protógenes, a quem o blog deixa seus parabéns. De minha parte, reduzi radicalmente, nas últimas semanas, o tempo dedicado a consumir o jornalismo dos grandes veículos: 20 minutos diários no máximo. O Roda Viva desta segunda, com certeza, foi meu último por um bom tempo.

*****

A Carta Capital publicou um editorial demolidor sobre o Roda Viva da semana passada.

*****

Aconteceu em Santa Teresa e no Santa Efigênia, domingo, uma cervejada d'O Biscoito Fino e a Massa com alguns dos seus leitores belo-horizontinos e as ilustres presenças de Cibbele (se gosta de crianças, veja esse blog), Túlio, Cynthia, Cláudio, Ana Letícia, Thiago, Bruno, Ana e uma turma de não-blogueiros, incluindo-se alguns dos melhores comentaristas jurídicos que conheço na blogosfera. No cardápio, um papo sobre os rumos do nosso Judiciário em que, evidentemente, houve bastante concordância -- e lamentos pelo nosso querido 312, enterrado como princípio universal.

*****

No Amálgama, muita gente bacana falou dos seus livros de 2008.

*****

Lucia Malla escreve um post importante sobre Peter Rost.

*****

Está imperdível a série de posts do Liberal Libertário Libertino sobre o racismo brasileiro. O Alex encontrou lá um método de revirar as típicas denegações que aparecem na caixa de comentários para, logo depois, transformá-las em post. A coisa vai ficando irresistível.

*****

O Governador Aécio Neves tem o direito de namorar quem quiser, mas ser pego nisso aqui, ainda por cima em Santa Catarina, enquanto as enchentes devastam o interior de Minas, convenhamos, fica um pouco feio.

*****
angu.jpg

Tem lugar no Estúdio B, na Av. do Contorno, às quintas-feiras, uma daquelas experiências musicais belo-horizontinas típicas: seis músicos absurdamente talentosos – todos com projetos paralelos, três deles já com história na música da cidade – se reúnem e produzem as versões mais insólitas de um repertório que vai de Kraftwerk a Nelson Cavaquinho, além de composições próprias (ou que eu, pelo menos, não identifiquei como covers). A banda se chama Angu Estéreo Clube e não tem nada na internet: nem mp3, nem disco, necas. Tem que ir lá pra ver. A música de algumas regiões é associada à força de um gênero; de outras, a certos padrões rítmicos; de outras, a um certo tipo de instrumentação. O que marca toda a boa música feita em Belo Horizonte, independente de seu gênero (e como há gêneros diferentes aqui!) é a originalidade do seu trabalho harmônico. Com o Angu Estéreo Clube não é diferente.

*****

Estou lendo Transparência Pública, Opacidade Privada: O Direito como instrumento de limitação do poder na sociedade de controle (2007, Ed. Revan), do Doutor em Direito e amigo Túlio Vianna. É uma análise jurídica fascinante das relações entre o privado e o público na era do biopoder, da monitoração de comunicações, das vigilâncias eletrônicas. É leitura essencial para os nossos dias.



  Escrito por Idelber às 03:52 | link para este post | Comentários (44)



sexta-feira, 19 de dezembro 2008

Gilmar Mendes perde a compostura: Balanço do Roda Viva

Eu faço um balanço positivo do ruim programa de entrevistas da TV Cultura na última segunda. Fraco de qualquer ponto de vista que tenha um mínimo de rigor jornalístico, consistindo principalmente, como prevíamos, em “levantadas de bola” para o entrevistado, o programa não foi, no entanto, o que ele teria sido se não tivesse havido a mobilização de blogs como o do Nassif, do PHA, do Mello, deste próprio espaço e de uma legião de outros blogueiros e leitores que entraram em contato com a TV Cultura. Sim, sei que fazer história contra-factual, imaginar o que “teria sido”, é sempre hipotético. É evidente. Mas esta é minha hipótese: não que o programa “tenha repercutido” na internet mas, pelo contrário, a internet repercutiu dentro dele, exercendo influência especialmente na postura da colunista Eliane Cantanhêde -- a quem devemos parabéns -- e também na coordenadora Lilian Witte Fibe. Os outros foram o que esperávamos.

Da colunista da Folha de São Paulo sempre achei que é inteligente e autora de boa frase, mas também sempre me pareceu que ela ganharia muito em credibilidade se explicitasse seus vínculos pessoais e de simpatia com o tucanato. Não há nada de errado em tê-los e os tucanos são uma força política importante e legítima no Brasil. O problema é deixá-los nebulosos e pretender / fingir / supor que fala a partir de uma posição politicamente equânime.

Em todo caso, não há dúvida que a enxurrada de bits que circularam na internet influíram nela. Não me cabe julgar se Cantanhêde – cuja coluna na página 2 da Folha não foi exatamente combativa na época da Satiagraha – estava sendo “sincera” ou “fazendo média” com a maioria do público brasileiro ou se foi mesmo sendo convencida de que há que se interrogar Mendes. O fato é que, dentro de seus limites, tentou fazer jornalismo de verdade. Lilian também não foi mal, apesar do absurdo gesto pedindo contenção a Eliane no momento do bate-boca com Mendes, quando havia sido este que a interrompera.

Confrontado por Eliane com perguntas acerca do grampo fajuto e da quase unanimidade jurídica contra ele na época do segundo habeas corpus a Dantas, Gilmar Mendes foi grosseiro com uma dama que lhe fizera uma pergunta legítima. Falsamente acusou-a de estar querendo ensinar-lhe. Perdeu a compostura de magistrado. Lamentável. Parabéns, Eliane.

Aliás, salvo engano, nenhum comentário sobre o Roda Viva até agora notou o óbvio: as únicas a se comportarem com um mínimo dignidade jornalística na bancada foram as duas mulheres, enquanto um dos marmanjos, Carlos Marchi, se omitia, e os outros dois, Reinaldinho e Márcio Chaer, se esforçavam para levantar bolas, não como Ricardinho, mas como um tosco, desajeitado e afobado levantador que tivesse nas mãos, não nove, mas somente seis ou sete dedos.

Se o portal Consultor Jurídico ainda tinha qualquer credibilidade no meio jurídico, maculou-a severamente na segunda à noite, com a postura indigna do Sr. Chaer, que confundiu jornalismo com puxa-saquismo. Incrivelmente, na mesma noite em que tentava ajudar a coroar Gilmar Mendes como o paladino da liberdade de expressão, o Sr. Chaer sugeriu enquadrar “jornalistas de aluguel” por .... formação de quadrilha! Isso sem citar nomes ou fazer acusação concreta (qual é o problema? É Paulo Henrique Amorim? É Luiz Nassif? Diga o que tem a dizer então e coloque as cartas na mesa).

Reinaldinho, coitado, é aquilo ali. Pelo menos acredita no que diz. Usa o programa para traficar a imputação de terrorismo a quem lutou contra a ditadura. Transforma a bancada em palanque para tentar nos fazer crer que é inverossímil a hipotese de que um senador pefelê, Mendes e a revista de menos credibilidade do Brasil tenham sido pegos na mentira. Corrige, coitado, no post das 18:47 de 16/12, o “Schmidt” do ombudsman só para ir lá e, ele mesmo, escrever que “o sobrenome do Carl não é "Schmidt", mas Schimitt” errado também. A mesma fúria com que seus leitores anônimos defendiam a TV Cultura antes do programa foi dirigida contra ela depois que o ombudsman notou o óbvio (aliás, não sei se Ernesto Rodrigues reparou que implicitamente, depois do programa, ele deu razão à “reação em cadeia” da internet que antes ele criticara. Tínhamos ou não tínhamos razão, meu chapa, em atacar a composição da bancada? Estávamos “pré-julgando” ou simplesmente notando o óbvio?).

A pergunta 8 da lista formulada por mim na segunda-feira foi feita durante o programa: O sr. tem alguma idéia do porquê das mais de 30 ações impetradas contra o seu irmão ao longo dos anos jamais terem chegado sequer à primeira instância? . Faltou-lhe, evidentemente, uma palavrinha: julgamento. Por que não foram a julgamento? Disso se tratava, como saberia qualquer um com um mínimo de contexto e boa fé. A responsabilidade pela formulação imprecisa da pergunta é única e exclusivamente minha, já que a magnífica reportagem de Leandro Fortes, na qual ela se baseava, havia formulado a dúvida certinho.

Favorecido pela falta da palavra que teria tornado a pergunta juridicamente exata, Mendes escapou pela tangente e, desqualificando a indagação, só deixou claro seu desconforto com ela.

A isso, mes amis, o gênio de Oswald de Andrade chamou a contribuição milionária de todos os erros. Havia 24 perguntas formuladas em termos factuais. Aquela que continha uma imprecisão vocabular, uma errata, um piolho nas palavras – como diria Flaubert – foi a que acabou sendo a mais reveladora.


PS: Parabéns, Fernando Meirelles.

PS 2: Aguarde-se, claro, um Roda Viva bem mais duro com o Delegado Protógenes, na próxima segunda.

PS 3: Cobrem-me um post sobre a imensa desonestidade intelectual das menções a Carl Schmitt no programa: uma levantada capenga de Reinaldinho para uma cortada – indigna de um acadêmico – em que Gilmar Mendes tentava enlamear o Juiz Fausto de Sanctis.



  Escrito por Idelber às 17:57 | link para este post | Comentários (69)



segunda-feira, 15 de dezembro 2008

Gilmar Mendes entrevistado na TV Dantas

Como já sabem a torcida do Corinthians e os leitores do Mello, do Luiz Nassif e do Paulo Henrique Amorim, o Roda Viva, da TV Cultura, vai ao ar nesta segunda com uma entrevista a Gilmar Dantas Mendes, o presidente do Supremo Tribunal Federal. Até mesmo para os padrões do horrendo jornalismo que se pratica no Brasil, é vergonhosa a operação realizada pela TV Cultura com o Roda Viva desta segunda. Os escalados para entrevistar Gilmar Mendes são Eliane “vacinem-se contra a febre amarela!” Cantanhêde, Reinaldo Azevedo, cuja ignorância, truculência e hidrofobia dispensam comentários, Carlos Marchi, do Estadão e Márcio Chaer, editor do site Consultor Jurídico, de conhecidas ligações com Gilmar Dantas Mendes.

O Roda Viva escalou quatro levantadores de fazer inveja a Ricardinho. A TV Cultura realizaria algo mais próximo do jornalismo se escalasse como entrevistadores quatro capangas ou funcionários de Mendes. A obviedade da manobra terminou, pelo que parece, saindo pela culatra. Uma enxurrada de protestos chegou ao site da TV Cultura.

Mas a coisa ainda piora. O ombudsman – cargo que Houaiss define como jornalista que, de maneira independente, critica o material publicado e responde às queixas dos leitores – resolveu tecer suas próprias teorias sobre a avalanche de protestos que lhe chegaram. Num texto em que abdica completamente da função para a qual foi contratado, Ernesto Rodrigues afirma, sobre os emails, que em todos eles, exatas 10380 palavras, independentemente se eram de remetentes simpáticos ou não à bancada escolhida de entrevistadores, não houve uma única linha com sugestões de perguntas, cobranças ou acusações específicas a serem feitas ao ministro Gilmar Mendes na entrevista. O que só reforça a sensação de que esses telespectadores remetentes, em especial, não pareciam muito interessados no conteúdo da entrevista. Parece brincadeira, mas essas são as palavras de um ombudsman -- um sujeito que é pago para te representar, leitor.

Tendo acompanhado a reação na internet, fica difícil acreditar que nem um único email contivesse sugestões de perguntas a serem feitas a Gilmar Dantas Mendes. No espírito, então, de colaborar com o ombudsman da TV Cultura, enviei-lhe o seguinte email:

Prezado Jornalista Ernesto Rodrigues:

No texto em que Sr. comenta a indignação que tomou conta dos telespectadores da TV Cultura ante a escalação da bancada que entrevistará Gilmar Mendes nesta segunda-feira no Roda Viva, o Sr. afirma que nem um único email continha sugestões de perguntas a serem feitas ao entrevistado. Confesso que não entendi a frase acerca dos emails conterem 10380 palavras, talvez por deficiência minha na decifração de anacolutos. Confio que este email não repetirá o cabalístico número.

No espírito de corrigir o que certamente terá sido uma indesculpável desatenção dos missivistas, incluo aqui 25 perguntas que eu – e, tenho certeza, muita gente mais – gostaria que fossem feitas ao Presidente Gilmar Mendes.

1.O sr. sabe algo sobre o assassinato de Andréa Paula Pedroso Wonsoski, jornalista que denunciou o seu irmão, Chico Mendes, por compra de votos em Diamantino, no Mato Grosso?

2.Qual a natureza da sua participação na campanha eleitoral de Chico Mendes em 2000, quando o sr. era advogado-geral da União?

3.Qual a natureza da sua participação na campanha eleitoral de Chico Mendes em 2004, quando o sr. já era presidente ministro do Supremo Tribunal Federal?

4.Quantas vezes o sr. acompanhou ministros de Fernando Henrique Cardoso a Diamantino, para inauguração de obras?

5.O sr. tem relações com o Grupo Bertin, condenado em novembro de 2007 por formação de cartel? Qual a natureza dessa relação?

6.Quantos contratos sem licitação recebeu o Instituto Brasiliense de Direito Público, do qual o sr. é acionista, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso?

7.O sr. considera ética a sanção, em primeiro de abril de 2002, de lei que autorizava a prefeitura de Diamantino a reverter o dinheiro pago em tributos pela Faculdade de Ciências Sociais e Aplicadas de Diamantino, da qual o sr. é um dos donos, em descontos para os alunos?

8.O sr. tem alguma idéia do porquê das mais de 30 ações impetradas contra o seu irmão ao longo dos anos jamais terem chegado sequer à primeira instância?

9.O sr. tem algo a dizer acerca da afirmação de Daniel Dantas, de que só o preocupavam as primeiras instâncias da justiça, já que no STF ele teria “facilidades”?

10.O segundo habeas corpus que o sr. concedeu a Daniel Dantas foi posterior à apresentação de um vídeo que documentava uma tentativa de suborno a um policial federal. O sr. não considera uma ação continuada de flagrante de suborno uma obstrução de justiça que requer prisão preventiva?

11.Sendo negativa a resposta, para que serve o artigo 312 do Código de Processo Penal segundo a opinião do sr.?

12.Por que o sr. se empenhou no afastamento do Dr. Paulo Lacerda da ABIN?

13.Por que o sr. acusou a ABIN de grampeá-lo e até hoje não apresentou uma única prova? A presunção de inocência só vale em certos casos?

14.Qual a resposta do sr. à objeção de que o seu tratamento do caso Dantas contraria claramente a súmula 691 do próprio STF?

15.O sr. conhece alguma democracia no mundo em que a Suprema Corte legisle sobre o uso de algemas?

16.O sr. conhece alguma Suprema Corte do planeta que haja concedido à mesma pessoa dois habeas corpus em menos de 48 horas?

17.Por que o sr. disse que o deputado Raul Jungmann foi acusado “escandalosamente” antes de que qualquer documentação fosse apresentada?

18.O sr. afirmou que iria chamar Lula “às falas”. O sr. acredita que essa é uma forma adequada de se dirigir ao Presidente da República? O sr. conhece alguma democracia onde o Presidente da Suprema Corte chame o Presidente da República “às falas”?

19.O sr. tem alguma idéia de por que a Desembargadora Suzana Camargo, depois de fazer uma acusação gravíssima – e sem provas – ao Juiz Fausto de Sanctis, pediu que a "esquecessem"?

20.É verdade que o sr., quando era Advogado-Geral da União, depois de derrotado no Judiciário na questão da demarcação das terras indígenas, recomendou aos órgãos da administração que não cumprissem as decisões judiciais?

21.Quais são as suas relações com o site Consultor Jurídico? O sr. tem ciência das relações entre a empresa de consultoria Dublê, de propriedade de Márcio Chaer, com a BrT?

22.É correta a informação publicada pela Revista Época no dia 22/04/2002, na página 40, de que a chefia da então Advocacia Geral da União, ou seja, o sr., pagou R$ 32.400 ao Instituto Brasiliense de Direito Público - do qual o sr. mesmo é um dos proprietários - para que seus subordinados lá fizessem cursos? O sr. considera isso ético?

23.O sr. mantém a afirmação de que o sistema judiciário brasileiro é um “manicômio”?

24.Por que o sr. se opôs à investigação das contas de Paulo Maluf no exterior?

25.Já apareceu alguma prova do grampo que o sr. e o Senador Demóstenes denunciaram? Não há nenhum áudio, nada?

Se pelo menos duas ou três dessas perguntas forem feitas ao entrevistado nesta segunda-feira, caro jornalista, eu me juntarei a V. Sra. na avaliação de que a revolta que se viu na internet não é representativa do pensamento da maioria dos telespectadores do Roda Viva.

Atenciosamente, me despeço, desejando boa sorte à sua credibilidade,

Idelber Avelar


PS. Escreva para o ombudsman você também. Faz diferença. Vai lá.

PS 2: O Palestino foi escandalosamente roubado, e mesmo assim arrancou um heróico 1 x 1 na primeira partida da decisão do Clausura chileno contra o Colo-Colo, o time chapa-branca de Pinochet. Recuerdo / cuando Pinocho / te compró un estadio entero / con la plata que a mi pueblo le robó é um conhecido cântico chileno.

PS 3: Cardoso Czarnobai, pioneiro da internet brasileira, fez bacaníssima referência a este blog. Mil gracias.



  Escrito por Idelber às 03:50 | link para este post | Comentários (145)



quinta-feira, 11 de dezembro 2008

Drops de metal

walser.jpgTraduzo de Running with the devil, de Robert Walser:

Se há um traço que subjaz à coerência do heavy metal como gênero, é a o power chord. Produzido ao se tocar o intervalo musical de uma quarta ou quinta perfeita numa guitarra elétrica fortemente distorcida e amplificada, o power chord é usado por todas as bandas que são chamadas de heavy metal e, até a enorme influência do metal em outros gêneros no fim dos anos 80, era usado por comparativamente poucos músicos fora do gênero. O power chord pode ser percussivo e rítmico ou mantido indefinidamente; é usado tanto para articular como para suspender o tempo. É um som complexo, feito de tons e sobretons resultantes, constantemente renovado e energizado pelo retorno. Ele é, ao mesmo tempo, a base musical do heavy metal e um metáfora bem apropriada dele, já que a articulação musical do poder é o fator mais importante na experiência do heavy metal. O power chord parece simples e cru, mas ele depende de sofisticada tecnologia, ajuste de tom preciso e hábil controle. Seu som em overdrive evoca excesso e transgressão, mas também estabilidade, permanência e harmonia. (p.2)

Está fazendo 15 anos que a etnomusicologia desmontou o clichê de que o heavy metal seria um gênero menos “variado”, musicalmente rico ou internamente diferenciado que qualquer outro na música popular. É uma pena que nenhuma editora brasileira (e nem precisava ser universitária) não tenha ainda percebido o enorme potencial que teria uma tradução de Running with the devil no Brasil. Combinando a análise musicológica com a cultural, Walser passa por tudo.

Dedica uma leitura atenta às apropriações eruditas no heavy metal (que são sempre consistentes e específicas: Bach, não Mozart; Paganini não Liszt; Vivaldi e Albinoni, em vez de Telemann ou Monterverdi, p. 63) Explica o trabalho do gênero com os modos: a maioria do heavy metal está em modo eólio ou dório, por exemplo, apesar de que o speed metal normalmente se toca em modo frígio ou lócrio; a maioria das canções pop estão ou em modo maior (iônio) ou misolídio mixolídio. . . as diferenças são fáceis de se ouvir: imagine (ou toque) o riff inicial de “Smoke on the Water”, de Deep Purple, na sua forma original blues-eólia (G-B♭-C, G-B♭-D♭-C); agora toque-o em maior/iônio (G-B-C, G-B-D-C) e parece uma cover de Pat Boone; dê-lhe um gíro frígio (G-A♭-D, G-A♭-E♭-D) e parecerá Megadeth (p.46-7).

Walser escreve um excelente capítulo sobre todo o teatro da masculinidade no metal que, como sabem os fãs do gênero, é um tema e tanto. Escolhe bem as canções que analisa (uma de Van Halen, uma de Ozzy Osbourne, uma de Yngwie Malmsteen) e desmonta não só os preconceitos musicais contra o metal, mas também os morais. Há todo um estudo a se fazer sobre a história do trabalho do metal com o timbre, e Walser oferece aí também as primeiras pistas para pesquisas futuras.

É um livro acadêmico, mas qualquer fâ de música popular lê com proveito e prazer. Walser é casado com Susan McClary, também etnomusicóloga e ainda melhor que ele.

Alô, editoras.

*****

Por falar em metal, recentemente um articulista de música do Yahoo resolveu fazer a lista das 25 bandas mais – segundo entendi – importantes para o que metal viria a ser (o que, suponho, é uma lista diferente das 25 melhores bandas de metal). A lista evidentemente foi massacrada por mais de 9.000 internautas.

Se captei o critério dele, certamente faz sentido incluir Hendrix e Led Zeppelin (mas não Rush). Não entendo uma lista com Thin Lizzy e Meshuggah e sem Anthrax ou Sepultura.

*****

Saiu o documentário da Bangers Production, Global Metal, que está em dez partes no Youtube:

Não há grandes novidades para os fãs do gênero, mas está bem feito. Há belas imagens e um bom naco é sobre o Brasil. Se não estou confundindo dois projetos diferentes, fui um dos entrevistados por telefone para esse documentário, numa tarde em que eu estava no Catete comendo feijoada e a menos de 20 metros de um sambão (inteiriço o sambão, com tantãs e tudo). É uma baita sensação, falar de Sarcófago com a batucada ao fundo.

****

Sai em breve pela Duke University Press, organizado por Jeremy Wallach, Harris Berger e Paul Greene, o Metal Rules the World, a primeira coletânea de artigos acadêmicos sobre heavy metal. O metal brasileiro está representado por um trabalho meu que já botei no copyleft (pdf).

******

A Galo Metal é um modelo de torcida organizada: nem um único lugar a mais vendido no ônibus, galera munida de ingressos, jamais envolvida em violência, sempre tranquila no Mineirão e nas viagens. Abração do blog para a primeira organizada metálica do Brasil.

****

Nas rodas de power metal, não há muita dúvida: o melhor disco de 2008 é Fragile Equality, do Almah.



  Escrito por Idelber às 04:31 | link para este post | Comentários (47)



terça-feira, 09 de dezembro 2008

Ladainhas da mídia: A suposta decepção da esquerda com Obama

Os memes da mídia se repetem com tediosa previsibilidade. Enquanto no Brasil as Folhas e Globos tentam desesperadamente – e cada vez com menos sucesso -- fabricar algo que atinja Lula, nos EUA o meme da vez na grande mídia é a “decepção” da esquerda com os nomes escolhidos por Obama para compor seu ministério. É impossível ligar a televisão ou abrir um jornal sem topar com a ladainha de que a esquerda estaria decepcionada com um gabinete recheado de centristas. O curioso é que essa versão da realidade nunca chega pela boca de alguém realmente de esquerda. Na maioria das vezes, são os mesmos que, há dois meses, nos apresentavam Obama como um perigoso esquerdista. Não é sensacional?

Esmiucemos a história. Quem vem repercutindo o meme da “decepção” da esquerda com Obama? Wall Street Journal, National Review, Politico, Pat Buchanan: a fina flor da direita americana. Nas incontáveis histórias acerca da tal “decepção”, invariavelmente, nenhuma figura de esquerda é citada, a não ser algumas poucas vozes que já eram antagonistas do projeto de Obama desde o começo, como, por exemplo, a turma do Counterpunch.

Esses memes vão criando vida própria e, de tanto serem repetidos, começam a influir na realidade que a princípio apenas falsificavam. Um alto assessor de Obama, Steve Hildebrand, chegou a escrever um artigo para acalmar a esquerda. Ele não cita um único desses supostos críticos progressistas que estariam nervosos com o presidente eleito. A vagueza e a condescendência da acusação acabaram, aí sim, gerando um monte de críticas entre a esquerda.

No mundo real, quais são os fatos? 89% dos democratas apoiamos a transição e as escolhas feitas pelo presidente eleito. Não há a menor semelhança entre a organizada e metódica transição de Obama e o caos dos primeiros meses de Clinton. Quem se lembra de 1992 sabe disso. O Media Matters, um grupo de observação dos meios de comunicação de massa, compilou um extenso material e concluiu que a tal “decepção” da esquerda com Obama é uma pura invenção. Trata-se da mesma mídia que, durante meses, insistiu no “problema” de Obama com os trabalhadores brancos, com as mulheres e com os latinos, enquanto nós aqui no Biscoito, desde março, avisávamos que os níveis de apoio de Obama entre esses setores eram iguais ou maiores aos historicamente conseguidos pelos candidatos democratas. O resultado foi o que se viu: votação recorde, inclusive entre as mulheres.

Entre os que participamos da campanha desde o primeiro momento, ninguém tinha a ilusão de que Obama fosse um Miguel Rossetto gringo. Ao longo das primárias, ele repetiu insistentemente que aproveitaria talento de vários lados. Já em 2005, na época da confirmação do juiz conservador John Roberts no Senado, Obama adotou uma estratégia pragmática e deu-se ao trabalho de ir ao Daily Kos – o maior coletivo de esquerda da internet americana – para explicar sua posição. É esse tipo de atitude que alimenta minha admiração por Obama: a convicção de que pragmatismo, ponderação e bipartidarismo não são sinônimos de traição aos próprios valores. Obama é, acima de tudo, um centrista que entende que o centro não é estático. O centro do espectro político americano se moveu para a direita durante três décadas e, no último ano, ele vem no movimento oposto. “Regular Wall Street”, por exemplo, há alguns anos seria uma bandeira que identificaria seu defensor como alguém de esquerda. Hoje trata-se quase de um consenso no país.

Hillary Clinton é uma magnífica escolha para a Chancelaria. Depois de oito anos de desprezo pela ONU, o representante americano na Organização terá estatuto de ministro e a escolhida para o cargo é a notável Susan Rice. A opção por manter Robert Gates no Ministério de Defesa revela um presidente que tem confiança no seu taco. Ele aposta que o trânsito de Gates no Pentágono será importante para que se implemente a política que ele, Obama, estabeleceu como promessa de campanha. Não há nada que indique que ele não cumprirá essas promessas – por exemplo, a de uma saída do Iraque ao longo de 16 meses, mais ou menos, com os detalhes dependendo das condições reais no país.

Se essas promessas não forem cumpridas, eu serei o primeiro a criticar. Mas não vou sair desse time aos cinco minutos do primeiro tempo, muito menos antes do jogo começar. Os Babás e os João Fontes, que romperam com o governo Lula logo depois do apito inicial, estão hoje na lata de lixo da história, enquanto o sapo barbudo surfa nos seus 70% de aprovação.


PS 1: Fiquem à vontade se quiserem usar esta caixa para comentar também os últimos memes da mídia brasileira, especialmente o meme da “crise”.

PS 2
: Enquanto isso, o Almirante descobre uma importante certidão de nascimento.



  Escrito por Idelber às 03:32 | link para este post | Comentários (81)



domingo, 07 de dezembro 2008

O envelope de Tardelli

Corrupção e histórias mal contadas existem em qualquer lugar mas, convenhamos, há certos enredos que só ocorrem com a Confederação Brasileira de Futebol. Longe de mim querer comentar um campeonato cujos jogos não acompanhei, mas os acontecimentos deste sábado merecem registro. A CBF cancelou a escalação do árbitro Wagner Tardelli para o jogo Goiás x São Paulo, um dos dois embates que definem o título da temporada (o São Paulo precisa de um empate para levantar o caneco; se perder, e o Grêmio vencer o Galo, o título é dos gaúchos). A explicação dada pela entidade é que ela inteceptou um envelope com dinheiro destinado a ele. A CBF diz que não desconfia de Tardelli e que sabe quem é o autor da tentativa de suborno. Mas não diz.

Num segundo momento, foi acrescentado à história o dado de que Wagner Tardelli teria recebido ingressos para o show da Madonna, no Morumbi. O São Paulo ofereceu sua explicação para a história. Segundo Marcelo Damato, membros do Superior Tribunal de Justiça Desportiva teriam confirmado que a trama foi descoberta por acaso pela polícia, durante interceptações telefônicas de terceiros, autorizadas pela Justiça. O Ministério Público teria avisado a CBF.

O novo árbitro do jogo, Jaílson Macedo Freitas (BA), não é do quadro da FIFA e foi o único juiz brasileiro a marcar uma falta por retenção de bola do goleiro por mais de seis segundos durante este campeonato. Foi justamente a favor do Grêmio, num jogo no Olímpico contra o Figueirense. O Tricolor perdia por 1 x 0 e só empatou na cobrança dessa infração que, segundo Juca Kfouri, não aconteceu (curiosamente, nem mesmo os compactos do jogo postados no YouTube mostram a falta). Na época, Mário Sérgio, técnico do Figueirense, saiu revoltadíssimo com a arbitragem. Agora, o São Paulo se diz prejudicado com o bafafá.

O sensacional é que nenhuma teoria conspiratória que se possa inventar carece de verossimilhança quando se trata da CBF.



  Escrito por Idelber às 02:28 | link para este post | Comentários (54)



quinta-feira, 04 de dezembro 2008

O Dia de São Crispim (tradução: Nelson Moraes e Cynthia Feitosa)

Desde a noite de 04 de novembro, está muito presente na minha memória um trecho de Henrique V, de Shakespeare, em que o rei discursa sobre o dia de São Crispim. Sabendo que eu não era a pessoa mais indicada para traduzi-lo, fiz o pedido aos dois melhores tradutores literários da internet brasileira e eles foram generosos. A jóia que você lerá agora, portanto, não tem qualquer mérito meu, a não ser o de ter tido a idéia. A tradução é um presente à língua portuguesa dado por Nelson Moraes e Cynthia Feitosa.

Quem é que deseja isso?
Meu primo Westmoreland? Não, meu caro primo;
Se estamos destinados a morrer, já somos o máximo
Que nosso país pode perder; e, se vivermos,
Quanto menos formos, maior a honra que partilharemos.
Deus! Te imploro, não queiras nenhum homem mais,
Por Júpiter! Não sou avarento com o ouro,
Nem me importo que vivam às minhas custas;
Não me incomoda que outros vistam minhas roupas:
Tais coisas de aparência não estão entre meus valores;
Mas se for pecado cobiçar a honra,
Sou a alma mais pecadora de todas.
Não, tenha fé, primo, não queiras mais nenhum homem da Inglaterra!
Pelo amor de Deus! Eu não perderia uma honra tão grande
Ainda que um só homem fosse dividi-la comigo,
Porque espero o melhor. Não, não peças mais nenhum homem! Melhor proclamar,
Westmoreland, a todos os meus soldados,
Que àquele que não tiver estômago para lutar,
Deixem-no ir: nós lhe daremos um passaporte
E poremos uns escudos para viagem, em sua bolsa;
Jamais morreríamos na companhia de um homem
Que teme morrer como nosso companheiro.
Este dia é o da festa de São Crispim;
Aquele que sobreviver a esse dia, e voltar são e salvo para casa
Ficará na ponta dos pés quando esta data for mencionada,
Ele crescerá ainda mais, diante do nome de São Crispim.
Aquele que sobreviver a esse dia e chegar à velhice,
Em toda véspera deste dia, comemorará com os vizinhos
E lhes dirá: "Amanhã é São Crispim".
Então arregaçará as mangas e mostrará as cicatrizes,
E dirá: "Estas feridas eu ganhei no dia de São Crispim."
Os velhos se esquecem; tudo mesmo acaba esquecido
Mas ele se lembrará, com orgulho
Das proezas que realizou naquele dia. E então nossos nomes,
Tão familiares em sua boca quanto os de seus parentes –
O rei Harry, Bedford e Exeter,
Warwick e Talbot, Salisbury e Gloucester –
Serão, nos copos transbordantes, vivamente lembrados.
Esta história o bom homem ensinará ao seu filho;
E nenhuma festa de São Crispim acontecerá
Desde este dia até o fim do mundo
Sem que nela sejamos lembrados –
Nós poucos, nós poucos e felizes, nós, bando de irmãos;
Pois quem hoje derramar seu sangue comigo,
Será meu irmão; seja ele o mais vil que for,
Este dia enobrecerá sua condição
E os cavalheiros ingleses que agora dormem
Se acharão amaldiçoados por não estarem aqui,
E sentirão sua honra decair, ao ouvir um outro contar
Que combateu conosco no dia de São Crispim.


PS 1: Nelson e Cynthia, de novo, obrigado.

PS 2: Se você está na região de Washington, DC ou em Maryland hoje, apareça ali (pdf) às 3:30 para essa mesa-redonda comigo e com o mestre José Quiroga.



  Escrito por Idelber às 23:37 | link para este post | Comentários (12)



quarta-feira, 03 de dezembro 2008

A questão racial brasileira e a ansiedade gringa

A Palgrave, prestigiosa editora acadêmica de Nova York, que nos últimos anos publicou verdadeiras obras-primas, além de volumes escritos por lideranças de destaque em suas disciplinas, já havia tido uma decaída publicando livros de blogueiros atleticanos. Mas neste ano de 2008, a editora cometeu um atentado ecológico que é de tema relacionado aos discutidos neste blog, razão pela qual eu rompo hoje o hábito de jamais publicar resenhas de livros acadêmicos aqui. O atentado se intitula White Negritude: Race, Writing, and Brazilian Cultural Identity e a autora se chama Alexandra Isfahani-Hammond. Nunca a vi na vida e não lhe desejo mal.

Romper o costume de não resenhar livros acadêmicos (correndo o risco de prejudicar no blog a carreira de alguém) foi decisão difícil, mas ela se baseou num fato: pela primeira vez, eu li um livro de gringo sobre o Brasil – e olha que eu já li besteira escrita por gringo sobre o Brasil – em que eu genuinamente não sabia: 1) se a autora é completamente analfabeta em cultura brasileira e língua portuguesa ou 2) se a autora escreve de má fé. Juro sobre o manto alvi-negro que a dúvida é genuína.

O livro é sobre Gilberto Freyre, Jorge de Lima e Joaquim Nabuco. Ela ignora não só esses três, mas todos os outros que cita. Como diria Macedonio Fernández, faltou tanta coisa no livro que não cabia mais nada. Comecemos pela página 6, onde ela comenta um artigo de Hermano Vianna. O que está em inglês é dela, o que está em português é Vianna:

Vianna observes that it was not easy 'inventar esse orgulho de ser mestiço no Brasil' in face of eugenic theories to which 'o pensamento brasileiro corajosamente tentou dizer o oposto: que misturar diferenças é bom'. He adverts that this tradition should not be abandoned in favor of identity politics, attributing to Racial Democracy a quasi-messianic potential: 'uma experiência única de valorização da mestiçagem, que não foi levada ainda às suas últimas libertárias conseqüências'.

A autora atribui a Hermano a crença “quase-messiânica na democracia racial” por causa da frase acima sobre a mestiçagem, em que Hermano, justamente, afirma que a mestiçagem, que não é a democracia racial, evidentemente, não foi levada às suas conseqüências mais libertárias.

Por que ensaístas brasileiros como Hermano Vianna, Antonio Risério (e, desta vez, vou ser imodesto e me incluir, principiante, nesta lista) continuamos a escrever a palavra mestiçagem e os gringos que se dedicam a estudar raça no Brasil continuam traduzindo-a como racial democracy? É imbecilidade ou é má fé? Professora, a Sra. fingiu que Hermano escreveu “democracia racial” ao invés de “mestiçagem” ou a Sra. acha que as duas coisas são sinônimas? Não deu para entender.

Continuemos com o mais catastrófico livro gringo sobre o Brasil que este blogueiro leu na última década. A parte sobre Gilberto Freyre é pior. Para que vocês tenham uma idéia: a figura traduz “mestiço” como “white”. Sim, sem mais nem menos, a palavra “mestiço” passa a significar “branco”. E com base nessa tradução monstruosa, logo depois, a autora acusa Gilberto Freyre de “apagar” [erase] o mestiço da cultura brasileira! Freyre pode ser acusado até de ser flamenguista. Mas de excluir o mestiço?

Sigo citando para que ninguém ache que invento. Página 74, onde ela alude a Freyre falando do troca-troca entre o sinhozinho e o muleque: troca troca as a symbol for the transmission of identity reflects an instability Freyre compensates for by insisting upon the inability of socioeconomically identified 'African descendants' to imitate or absorb whiteness.

Eu desafio a professora a me mostrar uma linha de Gilberto Freyre, escrita nos anos 30, 40, 50, 60, 70 ou 80 em que Freyre afirme ou sugira que afro-descendentes são 'incapazes' (inability) de imitar ou absorver qualquer coisa da cultura branca, européia, euro-brasileira, senhorial, patriarcal, luso-colonizadora ou o que seja (assim como esta, claro, também deles absorveu). Sobre essa bobagem, fiquemos por aqui, porque é longo o festival de atrocidades que a autora nos proporciona.

Num ato de suprema má fé, o livro se propõe a falar de “raça” e “cultura e identidade brasileira” numa língua em que desapareceram os vocábulos mestiço, mulato, cafuzo, mameluco, índio, mulato claro, escuro, bombom e caboclo. Como uma espécie de carimbadora racial SS, a autora divide os brasileiros entre “brancos” e “negros” e começa a falar do poeta alagoano Jorge de Lima como um branco sufocando e apropriando-se da voz da Nega Fulô. É sujeito branco pra lá, voz branca pra cá. Mas Jorge de Lima não é branco assim sem mais nem menos.

“Pode ser” branco, vestindo terno, circulando com poder num determinado ambiente. Muito especialmente num estado mais negro, como a Bahia. Vestindo camisa rasgada, de chinelo, com essa cabeça de cearense e esse nariz afro-mestiço, ele pode, muito bem, deixar de ser branco rapidinho, especialmente em São Paulo ou Rio Grande do Sul, digamos.

A julgar pelo livro que escreveu, a professora é incapaz de entender o dito no parágrafo anterior.

Num gesto de imensa ignorância e arrogância, a autora vai distribuindo rótulos de “branco” e “negro” e interpretando textos brasileiros sem entender o mais básico dessas sutilezas: que definir Jorge de Lima como “um poeta branco” não é tão simples assim. Acusar sua poesia de ser feita para “apropriar-se” da voz da mulata para um projeto “eurocêntrico” parece-me, sinceramente, um delírio. É possível fazer uma leitura feminista e / ou racial do poema de Jorge de Lima. Mas o que fez autora é um panfleto que está mais próximo à infâmia.

A difamação continua num capítulo sobre Gilberto Freyre, em que autora toma a valiosíssima pesquisa da brasileira Maria Lucia Pallares-Burke, sobre os albores da vida intelectual do pernambucano e, retalhando citações numa espécie de samba da loira doida, tenta desenterrar uma ou outra linha escrita na juventude de Freyre para justificar a idéia de que ele teria sido uma espécie de branco-supremacista, que alguma vez elogiou a Ku Klux Klan (pag. 125). Daí ela salta para as últimas décadas do Freyre vivo, salazarista e pró-militares, para dizer que era tudo uma coerência só, e que esse “intervalinho minúsculo pouco importante” de nomes Casa-Grande e Senzala, Sobrados e Mucambos e Ordem e Progresso – obras que a autora nunca estuda em seu livro -- não muda muito o quadro, pois afinal nele Freyre apaga negros e mestiços e promove uma visão eurocêntrica. Imagine alguém recortando citações para “provar” isso sem jamais ler nada desses três livros. Agora imagine que a pessoa erra na tradução dos termos mais básicos. Agora imagine que a figura tem uma agenda altamente panfletária, de total desrespeito pelo texto que “estuda”. É isso.

A grande qualidade do livro de Alexandra Isfahani-Hammond é que ele nunca é monótono. Em cada página há uma hecatombe. Na 132 ela se refere a Freyre's camouflaged biologism para sugerir, sim, é isso mesmo, que Freyre era um biologista. Todas aquelas centenas de parágrafos de Freyre que você já leu, dizendo que não é a “raça” nem a “biologia”, mas a história, a bagagem cultural, as trocas, as relações sociais etc. que serão o objeto do estudo? Lembra-se deles, leitor? Pois é, depois de traduzir “mestiço” por “branco” e “mestiçagem” por “democracia racial”, a autora nos diz que todos aqueles parágrafos eram uma “camuflagem” em que Freyre escondia seu secreto biologismo.

Voltando a falar do troca-troca, a autora alude a Freyre's paradigm for the unilateral, seignorial incorporation of black identity – and, by extension, for the unilateral capacity for the white to perceive and represent the black. De novo: eu desafio a autora a me mostrar uma linha de Freyre onde ele diga que é o branco que tem, unilateralmente, a capacidade de perceber e representar o outro. A autora não lê português, nunca leu Freyre ou age de má fé?

O monstruoso ato de condescendência racial que é sua leitura de um artigo de Marilene Felinto merece uma observação à parte. A situação da autora vai piorando consideravelmente, claro, porque Marilene é uma morena mulata brasileira que rejeita o rótulo “escritora negra” com que um certo ensaísmo gringo quer apropriá-la. Na Folha de 19 de março de 1995, Felinto escreve um artigo basicamente de apoio à visão freyreana da mestiçagem. É um texto lúcido (que não posso linkar mas que copiarei na caixa de comentários), em que Felinto se refere à visão freyreana dos colonizadores portugueses que se multiplicaram em filhos mestiços numerosos.

E não é que a Profa. Isfahani-Hammond traduz “mestiço” como “branco” de novo e diz que Felinto substitui a criança mulata pelo penetrador branco como produto híbrido do contato europeu / africano (pag. 73)? Para piorar a situação, ela não se limita a desler o artigo de Marilene como desleu a obra de Freyre. Ignorando que o artigo da Folha é, ora bolas, só uma coluna de resumo, e que a obra de Freyre é uma obra – que a autora não parece ter lido --, ela sugere que no fundo Felinto compreendeu mais que Freyre, porque afinal Felinto, mesmo sendo “apologista” de Freyre, tem outro “background” étnico, ou seja, é negra.

Sobre as atrocidades cometidas contra Joaquim Nabuco nesse livro, deixo que se pronuncie Alex Castro, que conhece Nabuco melhor que eu. As infâmias sobre Freyre que eu deixei de mencionar aqui encheriam outro longo post.

Que fique claro que o problema não é “detonar” e criticar o Brasil. O papel de um acadêmico é fazer isso mesmo. Não importa de onde seja o seu passaporte, você tem direito de se dedicar ao estudo de qualquer coisa, e ter sobre ela uma visão tão crítica quanto lhe pareça apropriado. Mas não pode ser desqualificador, beirando o difamatório, sobre seu objeto de estudo, especialmente se demonstra ignorância de seus aspectos mais básicos.



  Escrito por Idelber às 03:31 | link para este post | Comentários (67)



segunda-feira, 01 de dezembro 2008

Relendo Gilberto Freyre

Frey-54.jpg Como Marx, Gilberto Freyre pertence àquela categoria de pensadores sobre os quais, com freqüência, jornalistas, ideólogos, polemistas, funcionários e leitores de revista e jornal já têm, ou supõem ter, opinião formada antes mesmo do encontro com os textos. Se com as citações de Nietzsche você pode montar (com diferentes graus de edição, claro) tanto o “proto-nazista” como o semitófilo anti-germânico, tanto o positivista como o crítico radical da ciência, tanto o circunspecto prosador filosófico como o enlouquecido aforista, com Freyre ocorre algo análogo. Freyre, o celebrador da mestiçagem, adocica-a ao ponto de ofender a história de opressão real de negros e mulatos, mesmo tendo sido o texto de Freyre o momento mais intenso de descrição e de arqueologia dessa história de violência, mesmo tendo sido Freyre quem mais amou e compreendeu a cultura e a especificidade de negros e de mulatos brasileiros (e das negras e das mulatas, evidentemente). Freyre demolindo analiticamente o patriarcado escravocrata brasileiro com Casa-Grande e Senzala coexiste com o Freyre salazarista, do abraço a Magalhães Pinto, numa marcha binária bastante previsível.

Lidar com com essa “contradição” do texto de Freyre – que não é uma contradição real, claro, mas só a história de vida de um ensaísta e antropólogo multifacetado que viveu mais de 80 anos – não seria tão complicado se Casa-Grande e Senzala não representasse o relato, a historinha, a narrativa, a ficção, se queres, com que os brasileiros nos inventamos como país. Coincido com Darcy Ribeiro em que, da história do que se escreveu no Brasil, muitos livros poderiam ser retirados e sentiríamos uma lacuna irreparável por cada um deles. Mas só um livro, Casa-Grande e Senzala, não poderia sair sem que o Brasil mesmo não passasse, com essa ausência, a ser outra coisa.

Daí não se segue que CGS seja o “melhor” livro brasileiro. Mas ele é o que captura e dá a versão mais acabada ao complexo de mitos que fundam o país. Isso faz com que mesmo a bibliografia especializada sobre Freyre, com notáveis exceções (pdf), com freqüência recaia numa oscilação previsível entre dois pólos, a denúncia do adocicamento versus a celebração da mestiçagem. O Fla x Flu não seria daninho se não começasse a funcionar, neste caso, como desculpas para não se ler os textos.

Nessa história de desleituras de Freyre, alguns mitos se propagaram e passaram a “fazer parte” da própria obra, às vezes, para complicar a situação, com a cumplicidade do próprio Freyre. Sobre a vilificada “democracia racial”, ainda há quem acredite ter sido noção sintetizada, defendida ou apresentada em Casa-Grande e Senzala.* Os fatos históricos (pdf) são, claro, que 1) nem esse termo nem sinônimos dele jamais aparecem no livro; 2) Arthur Ramos usa-o num seminário em 1943; 3) ele passa a circular um bocado pela boca de Roger Bastide nos anos 40/50; 4) é utilizado por líderes do próprio movimento negro para descrever uma situação supostamente existente no Brasil nos anos 50 (veja o Discurso de Abdias ao Congresso Negro de 1950), antes de que Freyre o mencionasse num texto de 1962.

Nem o “mito da democracia racial” nem o “mito do mito da democracia racial” -- ou seja, o mito de que alguém no Brasil algum dia haja acreditado em tal fenômeno –- deveriam monopolizar o debate sobre Freyre, mas o fato é que o fazem. Entre os mitos que se propagam, nem todos são igualmente falsos e nem todos têm o mesmo poder de circular e gerar mini-mitos.Alguns são bem interessados e nefastos, como a citação e a edição seletivas que sustentam a queixa de que uma conspiração da esquerda com a USP tenha impedido que Freyre fosse bem lido no Brasil. Não há hipótese de que você veja o nome de Freyre mencionado, por exemplo, em blog pago pela maior revista semanal brasileira sem que essa cantinela seja repetida com abundantes pontos de exclamação.

Esse terreno minado em volta de Freyre faz com que vários críticos e ensaístas que poderiam escrever sobre sua obra terminem não fazendo-o. Eu mesmo, que em vinte anos publiquei estudos sobre vários prosadores brasileiros, nunca havia escrito uma linha sobre Freyre. Gozando da magnífica paz de um maravilhoso Thanksgiving sem trabalho (rarará, contorça-se, leitor ressentido com a desconstrução das datas sagradas), pus fim a essa lacuna e concluí um mergulho de muitas semanas de trabalho com o texto de Gilberto Freyre, que rendeu um artigão gorducho.

Sim, acabei de escrever um calhamaço de 50 páginas sobre Freyre. É um estudo do arranjo dos gêneros e da sexualidade – em especial da masculinidade – na obra do pernambucano. Bom, na verdade em Casa-Grande e Senzala, Sobrados e Mucambos e até no chato e prolixo Ordem e Progresso. Estou contente, acho que ficou bom.

Não é, evidentemente, texto circulável na internet antes de que seja publicado pelos devidos – e lentíssimos -- canais acadêmicos. Mas penso, sim, usar o trabalho feito para gerar um ou dois posts sobre Freyre nas próximas semanas. Quem quiser se munir de um exemplar de Casa-Grande e Senzala, dos textos da Biblioteca Virtual Gilberto Freyre e do que mais desejar, que seja bem vindo. Pode ficar sendo um mini Clube de Leituras.


PS: Alex Castro fez um magnífico exame de admissão à tese doutoral, escrevendo um de seus ensaios sobre Freyre. Não só foi aprovado como foi merecedor de distinction, honraria rara em Tulane. Para o catatau que acabo de escrever, eu me nutri do trabalho do Alex, que levantou livros que eu não conhecia.

PS 2: A foto que ilustra o post é de 1954 e vem da Biblioteca Virtual.

* Contrariando a ética blogueira de sempre dar o link, omito o nome do(a) infeliz autor(a) de publicação acadêmica de 2002, onde se diz que o "conceito teórico" de democracia racial foi desenvolvido em Casa-Grande e Senzala. Seria anti-freyriano correr o risco de prejudicar a carreira de alguém com um post de blog.



  Escrito por Idelber às 15:44 | link para este post | Comentários (34)