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quarta-feira, 03 de dezembro 2008

A questão racial brasileira e a ansiedade gringa

A Palgrave, prestigiosa editora acadêmica de Nova York, que nos últimos anos publicou verdadeiras obras-primas, além de volumes escritos por lideranças de destaque em suas disciplinas, já havia tido uma decaída publicando livros de blogueiros atleticanos. Mas neste ano de 2008, a editora cometeu um atentado ecológico que é de tema relacionado aos discutidos neste blog, razão pela qual eu rompo hoje o hábito de jamais publicar resenhas de livros acadêmicos aqui. O atentado se intitula White Negritude: Race, Writing, and Brazilian Cultural Identity e a autora se chama Alexandra Isfahani-Hammond. Nunca a vi na vida e não lhe desejo mal.

Romper o costume de não resenhar livros acadêmicos (correndo o risco de prejudicar no blog a carreira de alguém) foi decisão difícil, mas ela se baseou num fato: pela primeira vez, eu li um livro de gringo sobre o Brasil – e olha que eu já li besteira escrita por gringo sobre o Brasil – em que eu genuinamente não sabia: 1) se a autora é completamente analfabeta em cultura brasileira e língua portuguesa ou 2) se a autora escreve de má fé. Juro sobre o manto alvi-negro que a dúvida é genuína.

O livro é sobre Gilberto Freyre, Jorge de Lima e Joaquim Nabuco. Ela ignora não só esses três, mas todos os outros que cita. Como diria Macedonio Fernández, faltou tanta coisa no livro que não cabia mais nada. Comecemos pela página 6, onde ela comenta um artigo de Hermano Vianna. O que está em inglês é dela, o que está em português é Vianna:

Vianna observes that it was not easy 'inventar esse orgulho de ser mestiço no Brasil' in face of eugenic theories to which 'o pensamento brasileiro corajosamente tentou dizer o oposto: que misturar diferenças é bom'. He adverts that this tradition should not be abandoned in favor of identity politics, attributing to Racial Democracy a quasi-messianic potential: 'uma experiência única de valorização da mestiçagem, que não foi levada ainda às suas últimas libertárias conseqüências'.

A autora atribui a Hermano a crença “quase-messiânica na democracia racial” por causa da frase acima sobre a mestiçagem, em que Hermano, justamente, afirma que a mestiçagem, que não é a democracia racial, evidentemente, não foi levada às suas conseqüências mais libertárias.

Por que ensaístas brasileiros como Hermano Vianna, Antonio Risério (e, desta vez, vou ser imodesto e me incluir, principiante, nesta lista) continuamos a escrever a palavra mestiçagem e os gringos que se dedicam a estudar raça no Brasil continuam traduzindo-a como racial democracy? É imbecilidade ou é má fé? Professora, a Sra. fingiu que Hermano escreveu “democracia racial” ao invés de “mestiçagem” ou a Sra. acha que as duas coisas são sinônimas? Não deu para entender.

Continuemos com o mais catastrófico livro gringo sobre o Brasil que este blogueiro leu na última década. A parte sobre Gilberto Freyre é pior. Para que vocês tenham uma idéia: a figura traduz “mestiço” como “white”. Sim, sem mais nem menos, a palavra “mestiço” passa a significar “branco”. E com base nessa tradução monstruosa, logo depois, a autora acusa Gilberto Freyre de “apagar” [erase] o mestiço da cultura brasileira! Freyre pode ser acusado até de ser flamenguista. Mas de excluir o mestiço?

Sigo citando para que ninguém ache que invento. Página 74, onde ela alude a Freyre falando do troca-troca entre o sinhozinho e o muleque: troca troca as a symbol for the transmission of identity reflects an instability Freyre compensates for by insisting upon the inability of socioeconomically identified 'African descendants' to imitate or absorb whiteness.

Eu desafio a professora a me mostrar uma linha de Gilberto Freyre, escrita nos anos 30, 40, 50, 60, 70 ou 80 em que Freyre afirme ou sugira que afro-descendentes são 'incapazes' (inability) de imitar ou absorver qualquer coisa da cultura branca, européia, euro-brasileira, senhorial, patriarcal, luso-colonizadora ou o que seja (assim como esta, claro, também deles absorveu). Sobre essa bobagem, fiquemos por aqui, porque é longo o festival de atrocidades que a autora nos proporciona.

Num ato de suprema má fé, o livro se propõe a falar de “raça” e “cultura e identidade brasileira” numa língua em que desapareceram os vocábulos mestiço, mulato, cafuzo, mameluco, índio, mulato claro, escuro, bombom e caboclo. Como uma espécie de carimbadora racial SS, a autora divide os brasileiros entre “brancos” e “negros” e começa a falar do poeta alagoano Jorge de Lima como um branco sufocando e apropriando-se da voz da Nega Fulô. É sujeito branco pra lá, voz branca pra cá. Mas Jorge de Lima não é branco assim sem mais nem menos.

“Pode ser” branco, vestindo terno, circulando com poder num determinado ambiente. Muito especialmente num estado mais negro, como a Bahia. Vestindo camisa rasgada, de chinelo, com essa cabeça de cearense e esse nariz afro-mestiço, ele pode, muito bem, deixar de ser branco rapidinho, especialmente em São Paulo ou Rio Grande do Sul, digamos.

A julgar pelo livro que escreveu, a professora é incapaz de entender o dito no parágrafo anterior.

Num gesto de imensa ignorância e arrogância, a autora vai distribuindo rótulos de “branco” e “negro” e interpretando textos brasileiros sem entender o mais básico dessas sutilezas: que definir Jorge de Lima como “um poeta branco” não é tão simples assim. Acusar sua poesia de ser feita para “apropriar-se” da voz da mulata para um projeto “eurocêntrico” parece-me, sinceramente, um delírio. É possível fazer uma leitura feminista e / ou racial do poema de Jorge de Lima. Mas o que fez autora é um panfleto que está mais próximo à infâmia.

A difamação continua num capítulo sobre Gilberto Freyre, em que autora toma a valiosíssima pesquisa da brasileira Maria Lucia Pallares-Burke, sobre os albores da vida intelectual do pernambucano e, retalhando citações numa espécie de samba da loira doida, tenta desenterrar uma ou outra linha escrita na juventude de Freyre para justificar a idéia de que ele teria sido uma espécie de branco-supremacista, que alguma vez elogiou a Ku Klux Klan (pag. 125). Daí ela salta para as últimas décadas do Freyre vivo, salazarista e pró-militares, para dizer que era tudo uma coerência só, e que esse “intervalinho minúsculo pouco importante” de nomes Casa-Grande e Senzala, Sobrados e Mucambos e Ordem e Progresso – obras que a autora nunca estuda em seu livro -- não muda muito o quadro, pois afinal nele Freyre apaga negros e mestiços e promove uma visão eurocêntrica. Imagine alguém recortando citações para “provar” isso sem jamais ler nada desses três livros. Agora imagine que a pessoa erra na tradução dos termos mais básicos. Agora imagine que a figura tem uma agenda altamente panfletária, de total desrespeito pelo texto que “estuda”. É isso.

A grande qualidade do livro de Alexandra Isfahani-Hammond é que ele nunca é monótono. Em cada página há uma hecatombe. Na 132 ela se refere a Freyre's camouflaged biologism para sugerir, sim, é isso mesmo, que Freyre era um biologista. Todas aquelas centenas de parágrafos de Freyre que você já leu, dizendo que não é a “raça” nem a “biologia”, mas a história, a bagagem cultural, as trocas, as relações sociais etc. que serão o objeto do estudo? Lembra-se deles, leitor? Pois é, depois de traduzir “mestiço” por “branco” e “mestiçagem” por “democracia racial”, a autora nos diz que todos aqueles parágrafos eram uma “camuflagem” em que Freyre escondia seu secreto biologismo.

Voltando a falar do troca-troca, a autora alude a Freyre's paradigm for the unilateral, seignorial incorporation of black identity – and, by extension, for the unilateral capacity for the white to perceive and represent the black. De novo: eu desafio a autora a me mostrar uma linha de Freyre onde ele diga que é o branco que tem, unilateralmente, a capacidade de perceber e representar o outro. A autora não lê português, nunca leu Freyre ou age de má fé?

O monstruoso ato de condescendência racial que é sua leitura de um artigo de Marilene Felinto merece uma observação à parte. A situação da autora vai piorando consideravelmente, claro, porque Marilene é uma morena mulata brasileira que rejeita o rótulo “escritora negra” com que um certo ensaísmo gringo quer apropriá-la. Na Folha de 19 de março de 1995, Felinto escreve um artigo basicamente de apoio à visão freyreana da mestiçagem. É um texto lúcido (que não posso linkar mas que copiarei na caixa de comentários), em que Felinto se refere à visão freyreana dos colonizadores portugueses que se multiplicaram em filhos mestiços numerosos.

E não é que a Profa. Isfahani-Hammond traduz “mestiço” como “branco” de novo e diz que Felinto substitui a criança mulata pelo penetrador branco como produto híbrido do contato europeu / africano (pag. 73)? Para piorar a situação, ela não se limita a desler o artigo de Marilene como desleu a obra de Freyre. Ignorando que o artigo da Folha é, ora bolas, só uma coluna de resumo, e que a obra de Freyre é uma obra – que a autora não parece ter lido --, ela sugere que no fundo Felinto compreendeu mais que Freyre, porque afinal Felinto, mesmo sendo “apologista” de Freyre, tem outro “background” étnico, ou seja, é negra.

Sobre as atrocidades cometidas contra Joaquim Nabuco nesse livro, deixo que se pronuncie Alex Castro, que conhece Nabuco melhor que eu. As infâmias sobre Freyre que eu deixei de mencionar aqui encheriam outro longo post.

Que fique claro que o problema não é “detonar” e criticar o Brasil. O papel de um acadêmico é fazer isso mesmo. Não importa de onde seja o seu passaporte, você tem direito de se dedicar ao estudo de qualquer coisa, e ter sobre ela uma visão tão crítica quanto lhe pareça apropriado. Mas não pode ser desqualificador, beirando o difamatório, sobre seu objeto de estudo, especialmente se demonstra ignorância de seus aspectos mais básicos.



  Escrito por Idelber às 03:31 | link para este post | Comentários (67)


Comentários

#1

19/03/95

Autor: MARILENE FELINTO
Origem do texto: Da Equipe de Articulistas
Editoria: MAIS! Página: 6-
Edição: Nacional MAR 19, 1995
Legenda Foto: Retratos de escravos realizados pelo fotógrafo Cristiano Jr
Crédito Foto: Museu Histórico Nacional/Acervo Cristiano Jr
Observações: COM SUB-RETRANCA
Selo: 300 ANOS ZUMBI

Visões do Negro
Da Equipe de Articulistas
A sociologia brasileira que trata de negros e sai pelos portões da academia hoje em dia —sociologia de maioria branca, embora tenha crescido o número de negros e mestiços dedicados ao assunto— gosta de chamar de "a problemática negra" seu tema.
A expressão, típica do jargão especulativo dessa ciência, tem pompa, não quer dizer muita coisa, mas é papagaiada de um para outro jovem (ou não) sociólogo ou antropólogo acadêmico, esvaziando-se pelo caminho.
Igual a esse, há outro cacoete típico da sociologia contemporânea brasileira: a crítica quase unânime que se faz a Gilberto Freyre —especialmente de "Casa Grande e Senzala"—, por uma infundada "democracia racial" divisada na obra do maior estudioso dos fundamentos da nossa sociedade.
Embora reconheçam que "Casa Grande e Senzala" é um livro-marco por ter tirado dos domínios da sociobiologia racista e levado para a sociologia histórica a discussão sobre o papel do negro na formação do povo brasileiro, acusa-se Freyre de dar pouca importância ou de ocultar a exploração do escravo negro pelo senhor branco.
Crítica infundada, já que Gilberto Freyre foi o primeiro a reconhecer que "o que houve no Brasil (...) foi a degradação das raças atrasadas pelo domínio da adiantada. Esta desde o princípio reduziu os indígenas ao cativeiro e à prostituição. Entre brancos e mulheres de cor estabeleceram-se relações de vencedores com vencidos (...)".
É bem verdade que Freyre fez o elogio da nossa sorte, a apologia do destino mestiçado brasileiro, branco apaixonado —mas nem por isso menos científico, metódico ou distanciado do que deve ser um estudioso— que era pela raça negra.
Sempre soube ver que, apesar do "constante estado de guerra" entre brancos e negros, nunca se excluiu a miscigenação nem a atração sexual entre as duas raças, muito menos o intercurso entre as duas culturas.
A feição anti-racista e democrática que o sociólogo traça da sociedade brasileira desde a sua formação não elimina, portanto, o conflito do ajuntamento racial.
É sobretudo uma feição desenhada a partir da comparação —que Freyre já fazia desde os anos 30— entre a sociedade brasileira e a americana etnocêntrica e organicamente racista: o Brasil foi incomparavelmente menos atingido que os Estados Unidos pelo suposto mal da "raça inferior", Gilberto Freyre observa em "Casa Grande e Senzala".
É daí que vem senão o elogio do sociólogo ao português (o luso-tropicalismo), pelo menos o reconhecimento de que tivemos a sorte de ser colonizados por um povo de formação antes religiosa que etnocêntrica; povo católico, mais tolerante e hospitaleiro, de moral sexual menos rígida que os reprimidos protestantes germânicos e holandeses do Norte —afinal estes últimos dariam nos boeres ultra-racistas da África do Sul.
A moral sexual dos portugueses, diz Freyre, era "a moçárabe, a católica amaciada pelo contato com a maometana, e mais frouxa, mais relassa que a dos homens do Norte. Nem era entre eles a religião o mesmo duro e rígido sistema que entre os povos do Norte reformado e da Castela dramaticamente católica, mas uma liturgia antes social que religiosa, um doce cristianismo lírico, com muitas reminiscências fálicas e animistas das religiões pagãs: os santos e os anjos só faltando tornar-se carne e descer dos altares nos dias de festa para se divertirem com o povo".
O Brasil formou-se, continua ele, despreocupados os seus colonizadores da unidade ou pureza da raça. Durante quase todo o século 16, a colônia esteve escancarada a estrangeiros, só importando às autoridades coloniais que fossem de fé ou de religião católica.
"O perigo não estava no estrangeiro nem no indivíduo disgênico ou cacogênico, mas no herege. Soubesse rezar o padre-nosso e a ave-maria (...) —e o estrangeiro era bem-vindo no Brasil colonial. (...) Ao passo que o anglo-saxão só considera de sua raça o indivíduo que tem o mesmo tipo físico, o português esquece raça e considera seu igual aquele que tem religião igual à que professa".
A perspectiva sob a qual Gilberto Freyre —perspectiva de um escritor, de um artista, não a de um simples sociólogo— vê a participação do elemento negro na formação da raça brasileira ainda é o mais original e amplo dos estudos que se tem por aqui nessa área.
Freyre viu por dentro a introdução e a penetração da raça negra no estofo social do nosso povo. Por dentro... talvez literalmente por dentro: como quem foi se misturando "gostosamente" com mulheres de cor, segundo ele próprio diz dos colonizadores portugueses que se multiplicaram em filhos mestiços numerosos.
Viu com conhecimento de causa —como quem, sinhozinho branco, fez troca-troca com negrinhos escravos, companheiros de brinquedos, nos esconderijos dos quintais do solar de Apipucos, em Recife— e viu de Pernambuco: o ponto mais perto da Europa, capaz de conservar, portanto (segundo Freyre), um equilíbrio entre as três influências, a indígena, a africana e a portuguesa.
Em Pernambuco, em Recife dos anos 60, me lembro que nós, crianças mestiças, umas mais negróides que outras, passávamos horas invejando uns olhos azuis do vizinho branco ou os cabelos lisos e longos de uma de nossas avós, filha de pai índio.
Sentíamos isso com uma naturalidade que soaria hoje "politicamente incorreta". Achávamo-nos talvez no direito de sentir, tínhamos o direito do mestiço (que tem doses das três raças pelo corpo). Dávamo-nos o direito da inveja, a mesma inveja que sentíamos, aliás, das crianças católicas da rua, que comiam as misteriosas —e proibidas para nós, filhos de protestantes- hóstias da missa.
Gilberto Freyre preocupou-se com a influência do escravo negro nos meandros da vida sexual e de família do brasileiro. Preocupou-se com o trânsito estabelecido entre a casa-grande e a senzala, viu a grande vantagem que é a mestiçagem, tirou daí a tese da atração natural (pura, por sadismo ou por masoquismo) e entre as raças negra e branca.
Não mostrou apenas o que há de harmonia nesse contato, mostrou também o que há de desarmônico, contraditório, antagônico e carnavalesco.
Sua teoria se aplica hoje do mesmo modo que no Brasil colônia. Peguemos um exemplo bem brasileiro do fim deste século: um jovem jogador de futebol escuro e semi-favelado toma como primeira providência, depois de conquistar fama e dinheiro, comprar o carro mais caro do mercado (que raramente sabe usar) e se casar com uma loira (aguada, às vezes oxigenada).
Exemplos desse fenômeno hilário são abundantes (basta ver Romário e o sempre Pelé). É como se no inconsciente do menino escuro morasse uma branca loira, do mesmo modo que morava o carro importado (acabará estranhando também a tecnologia da loira). Mas o inconsciente do menino escuro não difere do inconsciente do historiador burguês, branco e racista.
Gilberto Freyre teve, afinal, a coragem de apontar, na sociedade patriarcal brasileira, o convencionalismo social da superioridade da mulher branca, da inferioridade da preta e da preferência sexual pela mulata: "Branca para casar, mulata para f..., negra para trabalhar" diz ele, com todas as letras, e cita as taras de Nina Rodrigues e José Veríssimo:
"Entre nós, já vimos que Nina Rodrigues considerou a mulata um tipo anormal de superexcitada sexual; e até José Veríssimo, de ordinário tão sóbrio, escreveu da mestiça brasileira: 'um dissolvente de nossa virilidade física e moral'."
O que a crítica acadêmica parece querer fazer hoje é diminuir a importância dessa abordagem freyriana da "problemática negra". Como se ela fosse menos importante do que, por exemplo, a avaliação da importância do negro no progresso econômico do Brasil ou coisa que o valha.
Menos importante não pode ser, pois se trata exatamente da essência do que somos. Gilberto Freyre estava coberto de razão ao ressaltar, na formação da sociedade brasileira, o elemento anti-racista, a despeito da enorme carga de preconceito que as elites brancas arrastam pela história do mundo.
De resto, a obra de Freyre é vítima de uma tendência generalizada —de acadêmicos e não acadêmicos brasileiros— de avaliar as relações raciais no Brasil de hoje como se aqui fossem os Estados Unidos. Por falta de sensibilidade e informação histórica, por submissão à metrópole cultural, deve ser.
(Marilene Felinto)

Idelber em dezembro 3, 2008 5:30 AM


#2

'desler' é lindo.

Agora, Pelo currículo dela aqui na USC, ela este 4 dias na UFPE em 2003.

Aliás, este currículo está recheado de papers e livros sobre o Brasil. Parece que falta de conhecimento não é.

Radical Livre em dezembro 3, 2008 7:33 AM


#3

Bem, quem bem "desler" pode bem "desconhecer". Por exemplo, conheço bem um departamento de sociologia em terras pernambucanas que insiste em ter "desdem" pelo mestre de Apipucos. Acusação básica: ele é ensaístico (entenda "descientífico"). Ora, ela poderia ter passado anos luz na UFPE e, dependendo de com quem troucou fugurinhas, ups... "deslizou" seu conhecimento "destemido" para tentar, forçadamente, como bem mostra o post de Idelber, "desdizer" do que foi realmente dito na obra de Gilberto Freyre.

Jampa em dezembro 3, 2008 7:55 AM


#4

voce tem que escrever isso em inglês e difundir por aí, para que ela não prejudique futuras pesquisas de pesquisadores dos EUA. Quem sabe uma palestra. Ou melhor, várias.

Jorge em dezembro 3, 2008 8:05 AM


#5

"A grande qualidade do livro de Alexandra Isfahani-Hammond é que ele nunca é monótono. Em cada página há uma hecatombe."

Cara, não consigo parar de rir com esse trecho.

Essa Alexandra é professora do quê e onde?

Idelber, como você vê o que foi escrito sobre Freyre por historiadores como o Peter Bruke, a própria Maria Lúcia e o Asa Briggs?

Como você considera o seguinte trecho sobre a "democracia racial"?:

"A idéia de que o Brasil pudesse ser caracterizado pela vigência de uma 'democracia racial' foi construída especialmente a partir da produção de Gilberto Freyre. Remetendo a origem de tal configuração de relações raciais ao período de vigência do escravismo, esse autor aponta que a intermediação do patriarcalismo tornou possível a acomodação dos pólos antagônicos daquela sociedade. Assim, a dualidade presente na sociedade escravista - em cujos extremos se localizavam o senhor e o escravo, o branco e o negro - pôde ser neutralizada, fazendo predominar a tendência à reciprocidade e à convivência social pacífica. Configurada dessa maneira, a sociedade escravista patriarcal teria encaminhado a democratização das relações raciais posteriores à vigência do escravismo."

O trecho é da historiadora Joseli N. Mendonça, no livro Cenas da Abolição. Você desmitificou no post passado a elaboração do conceito de democracia racial por Freyre. Ótimo, e a própria Mendonça diz que o conceito foi construído "a partir da". Mas fica claro no texto dela que ela considera a tar de democracia racial não apenas um desdobramento de leituras e apropriações, mas algo que estava mais ou menos posto nas obras de Freyre. Eu mesmo me habituei a essa idéia desde a graduação, e como Freyre e escravidão não são nem um pouco da minha praia, fiquei com a idéia na base da orelhada...

Danilo em dezembro 3, 2008 8:07 AM


#6

Como alguém publica algo desse nível? Ela não conhece a bibliografia e não entendeu o debate sobre relações raciais no Brasil. De onde vem essa professora? O que ela pesquisou antes? Esses trechos são de um equívoco absoluto.

De volta ao assunto do post anterior, no século passado eu assisti um curso do professor Frncisco de Oliveira no departamento de Sociologia da USP obre teoria social brasileira. É curioso que no curso ele não se dedicava a entender em qual lado do espectro político Gilberto Freyre estava. Parecia mais preocupado em entender as minucias dos dois livros principais do autor ( Casa Grande e Senzala e Sobrados e Mucambos) e pensá-lo como um teórico do proceso civilizatório e da violência contida nesse processo. As aulas, ministradas por alguém que conhece a tradição intelectual pernambucana de dentro, dissipavam qualquer prejulgamento da obra de Freyre. Nelas pareciam ter mais dores que delícias. E, dentro de um contexto de Silvios Romeros, Oliveiras Vianas e tals, era uma voz insistente na importância da contribuição dos negros no país. Mesmo sob violência brutal, eles acabaram por participar ativamente da criação de um país.
Acho que muitas das ambigüidades de Freyre são apontadas no livro do Ricardo Berzaquen, muitas dessas inclusive. Por que será que o debate em orno da democracia racial acabou a ofuscar, por exemplo, o que Freyre diz sobre as relações sociais brasileiras fundamentadas na escravidão?

Tiago Mesquita em dezembro 3, 2008 8:52 AM


#7

Danilo, o texto da Joseli é bastante problemático. O "a partir" de Freyre parece que salva, mas não salva.

"A idéia de que o Brasil pudesse ser caracterizado pela vigência de uma 'democracia racial' foi construída especialmente a partir da produção de Gilberto Freyre."

Foi construída por quem? Essas frases na voz passiva são muito fáceis e traiçoeiras. Se a frase é estruturada de modo a poder querer dizer que a idéia não estava em Freyre, mas que foi inspirada nele (o que, aliás, as frases posteriores da autora desmentem) quem foram esses outros intelectuais que fizeram essa construção? Quem foram esses ideológos que, com base em Freyre, escreveram esses livros e teses dizendo que, na sociedade colonial brasileira, os polos antagonicos estavam acomodados e que predominava a convivência pacífica e a tendência à reciprocidade (palavras dela)? Dá pra citar um nome? Uma citação?

Sinceramente, não conheço nenhum intelectual que pensou a história do Brasil desses termos. Deve ter havido algum conservador maluco que via um paraíso pacífico no Brasil colônia (e provavelmente desleu Freyre pra apoiar essa idéia) mas provavelmente não teve impacto. Os intelectuais que mais perto chegam disso (e mesmo assim passam longe) são os americanos, a partir de Tannenbaum, que fazendo estudos comparativos entre a escravidão brasileira e americana, fazem uma série de *elogios relativos* ao Brasil, mas somente em comparação com os EUA. Não eram idiotas que achavam que tudo no Brasil era lindo, mas escreveram no auge das agitações raciais e segregacionistas nos EUA e seu objetivo político era justamente fazer uma fortíssima crítica às políticas raciais do seu país e mostrar que era possível encarar raça de uma outra forma, como no caso do Brasil. Mas, mesmo assim, só parecem estar pegando leve com o Brasil porque estão pegando pesadíssimo com os EUA. E, depois, uma nova corrente de pensadores americanos precisou superar essa pensamento e fazer uma nova crítica das relações raciais no Brasil.

Enfim, meu ponto é dizer que o parágrafo da Joseli não só faz uma desleitura comum de Freyre como, aparentemente, se coloca em oposição a uma escola de pensamento que, ao que eu saiba, nem mesmo existe.

alex castro em dezembro 3, 2008 9:06 AM


#8

Faltou um "vi" ou um "li" na frase abaixo:

"...e olha que eu já "vi ou li" besteira escrita por gringo sobre o Brasil"

Victor Barone em dezembro 3, 2008 10:08 AM


#9

Caro Idelber,

A sua agressividade foi excessiva e desrespeitosa no estilo e tem como pressuposto um certo tempero dogmático que me desagradou (em termos epistemológicos, por assim dizer). Você poderia ter feito uma crítica aguda sem ser deselegante e desrespeitoso.
Ademais, tal excesso de agressividade (e desqualificação) - fazendo aqui uma leitura psicanalítica - se torna imediatamente suspeito. Por conseqüência, seu texto viperino terminou por aguçar a minha curiosidade em direção ao trabalho da autora criticada.
Atenciosamente, Fernando Trindade

Fernando Trindade em dezembro 3, 2008 10:30 AM


#10

Tem umas pérolas retóricas neste seu post ("numa espécie de samba da loira doida", "uma espécie de carimbadora racial SS") que eu ainda não tinha visto por aqui. Medida da irritação do autor, sem dúvida.

Para blog não vai mal, mas seguem os artigos sérios para o "Journal of Misguided Brazilian Studies" ou seja lá para onde vocês escrevem? Pois se só um quarto do que você diz for verdade, não digo a carreira mas o livro da moça precisa ser destruído de forma exemplar, para evitar danos futuros.

Paulo Candido em dezembro 3, 2008 10:32 AM


#11

Alex, só uma ressalva mais ou menos importante: esse trecho da Joseli é de um box explicativo do Cenas da Abolição, que trata da legislação abolicionista. O livro é da série "história do povo brasileiro", editada pela Perseu Abramo, voltada para um público mais amplo, menos acadêmico. O box não teria razão de ser num texto voltado para a academia ou específico sobre Freyre, e sua construção amplamente genérica pode ser explicada por isso. É preciso ser justo: seria difícil exigir uma análise em pormenores de um pequeno box explicativo (que, aliás, está na página 35).

Agora, isso não invalida as suas críticas. Como síntese, o trecho da Joseli parece mesmo sofrer dos problemas que enxerguei pelo Idelber e que você também mostrou (apesar de que o livro dela é muito bom).

Aliás, valeu por esse breve panorama que você traçou sobre a apropriação de Freyre pelos americanos. Sempre aprende-se por aqui...

E outra pergunta, então: esse imbróglio da democracia racial é fruto de paranóia marxistóide?

Danilo em dezembro 3, 2008 10:40 AM


#12

olá mestre. quando aconteceu o Katrina vc falou tanto sobre a tragédia social das pessoas pobres de New Orleans e agora com a tragédia de Santa Catarina vc não falou quase nada. que houve?

tomásio pinto em dezembro 3, 2008 12:57 PM


#13

danilo, eu já falei isso uma vez aqui na univ e levei pedrada, mas falo de novo: eu não confio em livro editado por partido político. Não confiaria numa história americana editada pelos republicanos e não confio numa história do Brasil editada pelos petistas. é partidarismo demais pra mim. eu já li esse livro da joseli e achei bem fraco.

esse imbróglio da democracia racial é fruto de paranóia marxistóide?

não, acho q tem marxistas dos dois lados da questão. acho q o assunto raça é tão complexo que transcende um pouco isso.

alex castro em dezembro 3, 2008 1:12 PM


#14

Oi Idelber,

Acontece que conheço a autora. Foi amiga minha quando estudamos juntos em São Paulo num programa universitário de intercâmbio. Não li o livro ainda, nem tenho muito contato com ela ultimamente, mas vou passar a sua resenha pra ela. Acho que vale a pena e espero que todos possam avançar através do diálogo.

(Pena termos desencontrado quando vc estava aqui em Madison. Fica pro próximo.)

Abraços - Steve

Steve em dezembro 3, 2008 1:29 PM


#15

"eu não confio em livro editado por partido político. Não confiaria numa história americana editada pelos republicanos e não confio numa história do Brasil editada pelos petistas."

Alex, acho que é o óbvio do óbvio o que eu vou falar agora, mas o mérito ou desmérito de um texto não pode ser procurado em quem edita, nem na pessoa do autor, mas no próprio texto. Dizendo assim como você disse parece que a Joseli forçou a história pra se encaixar no ideário petista, o que não acho que seja verdade. Aliás, fui aluno dela e não vi partidarismo qualquer que determinasse os resultados dos seus trabalhos. Gostaria de saber (se você tivesse tempo) o porquê de você ter achado o livrinho tão fraco. Eu não achei. Principalmente levando em conta a proposta editorial (não em termos ideológicos, mas de público-alvo).

Não me considero marxista, mas nem por isso caio no anti-marxismo. Gosto de muitas coisas dos marxistas, e gosto mais ainda de Marx. O termo que usei (paranóia marxistóide) foi pejorativo não a todo e qualquer marxismo. O problema está na ortodoxia, no despreparo e no espírito de patrulha que pode contaminar a avaliação de um autor complexo como Freyre.

Danilo em dezembro 3, 2008 2:04 PM


#16

Danilo,

eu nao disse que o livro é ruim por isso. na verdade, eu nem lembro pq nao gostei do livro, nao vou entrar nesse merito. cada obra tem q ser considerada por si só. mas...

quando se le um livro editado por um partido politico, qualquer livro por qualquer partido politico, isso jah levanta uma serie de questoes antes mesmo de vc abrir a primeira pagina... uma editora universitaria tem como objetivo (teoricamente) divulgar o saber... jah um partido politico tem como objetivo alcancar o poder e se manter lá... nada de errado com isso, claro, mas quando um partido politico se propoe a publicar livros, cabe a pergunta de como a publicacao desses livros se insere no quadro dos seus objetivos gerais, etc etc...

veja, nao digo q isso invalida o livro, ou q o livro eh desonesto, mas pede que o livro seja lido com essas questoes em mente....

e sao tantas, mas tantas questoes parecidas que se levantam que eu, a principio, nao confio. mas nao quer dizer que nao leio e nem que já rejeito a priori.

Alex

alex castro em dezembro 3, 2008 2:34 PM


#17

Concordo com o post de F.Trindade, Idelber. Pegou pesado. Talvez fosse interessante esperar a poeira baixar e pensar no que levou a autora a tais considerações.

Isis C. McElroy em dezembro 3, 2008 2:34 PM


#18

Acho engraçado alguém dizer que "peguei pesado".

Imaginem um brasileiro que escrevesse sobre a "identidade cultural americana" dedicando não mais que 20% de sua bibliografia ao que os americanos realmente escreveram sobre si próprios, cometendo um erro de tradução atrás do outro, um erro conceitual atrás do outro, fazendo afirmações cabalmente falsas sobre o que disseram importantes autores da tradição, e errando detalhes básicos até da nomenclatura usada no país que estuda.

Você acha que esse hipotético brasileiro conseguiria publicar isso em algum lugar que não fosse jornalzinho de graduação?

Não. Ele seria imediatamente "chamado às falas". Quando uma professora gringa faz isso com a tradição brasileira, e um intelectual brasileiro retruca de forma incisiva, há quem diz que ele "pegou pesado".

Eita, colonialismozinho véio de guerra.

Idelber em dezembro 3, 2008 2:46 PM


#19

Victor, corrigi o post, valeu.

Steve, meu caro, foi uma pena ter desencontrado de você nessa última visita minha a Madison. Um abração.

Idelber em dezembro 3, 2008 2:56 PM


#20

A parte do hecatombe foi a melhor...
Concordo que tem que ser duro. Não se pode publicar "n'importe quoi" por aí!! Isso é um absurdo.

Ananda em dezembro 3, 2008 3:08 PM


#21

Idelber e Alex Castro, obrigada por me fazerem realmente entender melhor CGS.
Alex, gostei muito disso que vc disse:

"'A idéia de que o Brasil pudesse ser caracterizado pela vigência de uma 'democracia racial' foi construída especialmente a partir da produção de Gilberto Freyre.'

Foi construída por quem? Essas frases na voz passiva são muito fáceis e traiçoeiras. Se a frase é estruturada de modo a poder querer dizer que a idéia não estava em Freyre, mas que foi inspirada nele (o que, aliás, as frases posteriores da autora desmentem) quem foram esses outros intelectuais que fizeram essa construção? Quem foram esses ideológos que, com base em Freyre, escreveram esses livros e teses dizendo que, na sociedade colonial brasileira, os polos antagonicos estavam acomodados e que predominava a convivência pacífica e a tendência à reciprocidade (palavras dela)? Dá pra citar um nome? Uma citação?"

Foi sobre isso a resposta de Idelber à minha pergunta ontem: Freyre não construiu a idéia de democracia racial, e eu já não me atiro a dizer que outros ideólogos o fizeram. Ainda tenho muito o que ler pra ser mais precisa sobre o assunto. A impressão que tenho é que a forma como ele escreve em seu livro deixa a impressão que uma "democracia racial" era parte da vida colonial, entretanto hoje é fácil a maior parte de nós leitores termos essa visão pois quando pegamos CGS pra ler (eu, pelo menos) já tínhamos visto zilhões de teorias e artigos e etc em torno da suposta "democracia racial de Freyre". Realmente um super-dimensionamento da questão toda ao longo dos anos.
Um grande abraço!

Ananda em dezembro 3, 2008 3:21 PM


#22

Belo texto, Idelber. Bom ver irascibilidade de vez quando. Mas fica aqui uma impressão: esse tipo de abordagem, além da ignorância básica da autora, parece refletir também uma certa tendência ideológica na abordagem do racismo no Brasil.

Outra coisa: só acrescentando algo, talvez redundante, ao texto da Marilene Felinto: a superioridade da moça branca em relação à mulata e à negra, segundo Freyre, já era velha conhecida de Portugal, onde as louras do norte representavam o ideal romântico e as morenas do sul, com bastante sangue mouro, o ideal sexual.

Rafael em dezembro 3, 2008 3:40 PM


#23

“Chamar às falas” também é engraçado Idelber.

Eu concordo. Sim, a bibliografia dos que teriam que ser chamados às falas é longa. E o colonialismo véio de guerra é onde a vaca torce o rabo.

É a forma incisiva, e o alvo único que me dão a impressão de uma punição em praça pública (merecida ou não).

Isis C. McElroy em dezembro 3, 2008 6:30 PM


#24

É verdade, Isis. O lance é que aqui, no caso, não havia alternativa. A alternativa era eu me calar.

Também acho que é isso, Rafex. Eu tenho uma adormecida tese de que os estudos freyreanos nos EUA são, em geral, uma forma dos próprios americanos liberarem -- via estereotipia comparativa com o Brasil -- o desconforto com a questão racial deles.

É a sensação que dá de vez em quando. O texto em questão é único no sentido que ele realmente produz a dúvida genuína sobre se é ignorância ou má fé.

Idelber em dezembro 3, 2008 6:38 PM


#25

Alex, sem querer alongar nossa discussão aí, mas eu discordo em parte de você. Concordo que algumas questões devem sempre ser colocadas quando abrimos um livro editado direta ou indiretamente por um partido político. Mas essas questões devem ser colocadas à prova com a própria leitura do que foi publicado (você não negou isso, mas eu dou um peso muito mais decisivo a isso). Acho que tenho de dizer isso pois, a não ser por um ou outro exemplar nessa série da Perseu Abramo, seus livrinhos são trabalhos sérios sem traço ou ranço ideológico. Óbvio que o PT não editaria um livro direitoba, óbvio que há um direcionamento político. Mas, como você mesmo sabe, isso por si só não invalida nem desmerece o que foi publicado.

Acho, também, que questões sobre interesses políticos e mercadológicos devem ser levantadas sobre qualquer obra publicada por qualquer editora. E a qualidade no fim só se garante pela pesquisa e pelo texto.

Danilo em dezembro 3, 2008 6:39 PM


#26

Independente do qualquer questão de fundo, é preciso deixar os parabéns ao Idelber por conseguir reiteradamente mobilizar tantos bons leitores a tantas boas leituras. O parabéns se estende a todos, claro.
É ótimo ter este espaço de discordância balizada e de qualidade, onde se aprende e se "ensina".
Um abraço a todos.

João Paulo Rodrigues em dezembro 3, 2008 6:41 PM


#27

Vou provocar: Alex, sua implicância com a Perseu Abramo parece coisa do Reinaldo Azevedo. Será que ela é financiada pelo Foro de S. Paulo?
Brincadeirinha...

João Paulo Rodrigues em dezembro 3, 2008 6:43 PM


#28

No que tange à questão da edição, claro, eu estou de acordo com o Danilo, não com o Alex.

Eu não desqualificaria um livro publicado por uma fundação tucana sem antes lê-lo.

Dito isso, digo que não conheço o texto da Joseli. Mas achei a observação do Alex sobre a vagueza da voz passiva bem aguda.

Idelber em dezembro 3, 2008 6:52 PM


#29

eu nao desqualifico um livro por ter sido editado por um partido, mas leio com pé atrás e tendo esse fato em mente durante a leitura. só isso.

alex castro em dezembro 3, 2008 6:58 PM


#30

Mas o artigo é bom, Alex?

Idelber em dezembro 3, 2008 7:01 PM


#31

meu velho problema, idelber... eu li esse livro da joseli, lembro que nao gostei de modo geral, mas nao lembro pq... mas juro que nao foi por ter sido editado pelo PT... :)

alex castro em dezembro 3, 2008 7:19 PM


#32

Eu também concordei com a crítica do Alex sobre o trecho que transcrevi aqui. Mas o livro como um todo, e para o que se propõe, é muito bom.

Aliás, não vai aqui nenhuma defesa pessoal da Joseli. Dos meus professores, acho que foi com quem menos tive proximidade e empatia.

Danilo em dezembro 3, 2008 10:13 PM


#33

E só pra emendar: não que eu defenderia o trabalho de quem gosto só por gostar da pessoa.

Danilo em dezembro 3, 2008 10:17 PM


#34

Idelber, já que teve msg de gente censurando sua tomada de posição, gostaria de expressar minha solidariedade com o texto que você escreveu, que eu achei até "leve" e respeitoso (incisivo porém respeitoso) no sentido de não deixar nada sem documentar, exemplificar, citar.
Quanto ao que leva um "intelectual" a escrever tamanha patacoada, ora, meus caros! Arrogância de americano. Simples assim. Os caras chegam e acham que com seus "óculos de black and white" (os linguistas chamam de "découpage du réel", ou recorte da realidade) acham que vão decodificar nossos duzentos anos de história, mistura, cultura, brigas, absorção, canibalismo, sincretismo. E que vão explicar prá gente que o Hermano Vianna é apólogo da religião da democracia racial, que os que falam de miscigenação não querem aceitar que só existe preto e branco, que, enfim, a realidade deles é que é a boa e a única chave para se entender o mundo. Me lembra a frase: "eu vi o mundo...e ele começava no Recife". Só que aqui começa no umbigo da Sra Alexandra. E acaba ali mesmo. Estou lendo nessa linha um clássico (bem mais respeitoso, diga-se, e melhor documentado), chamado "Neither Black nor White", de J.Degler. O livro começa muito bem fazendo o contraponto entre Brasil e EUA, mas na hora de interpretar,lá vem os tais óculos de ver em preto e branco.
Lembra-me um amigo angolano, escritor, que levou pancada do movimento negro na Bahia porque se diz mestiço, e não negro (o pai dele, diga-se, é branco). Ainda os tais óculos, chegando no Brasil através da absorção acritica pelo nosso movimento negro dos conceitos unicamente aplicáveis aos EUA... ou à Africa do Sul.

Renata L em dezembro 4, 2008 9:14 AM


#35

Faltou dizer onde ela publicou essa coisa? E de onde ela é? Que apito toca? Em que universidade?

aiaiai em dezembro 4, 2008 10:22 AM


#36

Idelber e pessoal dos comentários acima: fiquei impressionada com o post. Inacreditável ainda hoje essa interpretação americana usando os "óculos de ver em preto e branco" (adorei isso, Renata). Fiquei só lendo e aprendendo até agora, mas estou com uma pulga atrás da orelha: não consegui ainda "pegar" o que seria a tradução acadêmica de democracia racial (estou pegando de orelhada...). Alguém me explicaria?
Parabéns pelo post. Divulgue. abç.

Ana Carolina em dezembro 4, 2008 10:55 AM


#37

Querido Idelber,

Conheci a Profa. Hammond quando ela trabalhou de Lecturer em UCLA e estava completando a sua tese de doutorado. Naquela época (ufa, estou ficando velha!), eu era estudante de doutorado no departamento de Espanhol e Português. Logo travamos amizade, por ela ser uma pessoa muito amável e por encontrarmos correspondência em nosso trabalho (estudo a literatura afro-brasileira).

Desde aí, acompanho o trabalho da Dra. Hammond em conferências e simpósios e sempre me pareceu interessante e original. Tenho que afirmar que não li o seu livro (e deveras deveria, pois trabalho na área), então por agora não me sinto abalizada para exprimir uma opinião mais profunda sobre o mesmo.

Tenho também grande respeito, admiração e carinho por você e sua produção intelectual (não somente por você, mas por todo o departamento em Tulane). Aliás, uma apresentação do Chris Dunn que vi faz algum tempo atrás fez-me refletir longamente sobre várias questões ligadas à miscigenação brasileira. Tenho desejado, por estas mesmas razões, escrever um texto sobre o assunto. Talvez agora me anime, quem sabe...

Para aqueles que estiverem interessados, faço uma análise de dois poemas de Jorge de Lima em contraste/comparação a um poema de Jamu Minka (escritor do Quilombhoje) e Oliveira Silveira (poeta afro-gaúcho) no meu livro Writing Identity: the Politics of Contemporary Afro-Brazilian Literature (desculpem a “descarada” auto-propaganda, mas a informação vale para quem tiver interesse no tema). Os poemas são “Serra da Barriga” (Lima) e “Ser na Serra” (Minka) e o clássico “Essa Negra Fulô” (Lima) e “Outra Nega Fulô” (Silveira). No mesmo capítulo, analiso como os escritores negros brasileiros atuais reinterpretam o cânone modernista.

Um grande abraço a todos blogueiros e comentaristas,

Emanuelle

PS – Estou com saudades de Tulane! Adorei as visitas que tive à universidade e a BRASA em NOLA!

Emanuelle em dezembro 4, 2008 1:32 PM


#38

Querida Emanuelle, que bom vê-la por aqui. New Orleans continua com as portas abertas, para quando queira voltar a visitar. Obrigado também pelos dados sobre sua análise de Jorge de Lima. Vou conferir, sim. Um abração.

Renata L, incisivo e na mosca. Assino embaixo.

Ana Carolina: gracias :-)

Idelber em dezembro 4, 2008 2:12 PM


#39


Idelber,

Há um texto de Pierre Bourdieu e Loic Wacquant que poderia ajudar na discussão que você levanta. É o "On the Canning of Imperialist Reason" (http://sociology.berkeley.edu/faculty/wacquant/wacquant_pdf/CUNNINGIMPREASON.pdf) Nele Bordieu analisa o processo de "universalização" dos problemas particulares da sociedade americana. Ele fala especificamente da questão racial brasileira. O texto, como era de se esperar, causou muita polêmica nos EUA, já que os acadêmicos norte-americanos, obviamente, não se vêem como agentes do imperialismo cultural yankee. Não se pode fazer generalizações, mas me parece que, ironia à parte, esse é o caso do livro da Alexandra.

Toda essa imposição do modelo dual americano (negros X branco), acompanhada da eliminação das categorias intermediárias em sua análise, e tendo como pressuposto a idéia que só negros podem de fato falar de negros sugerem que o jeito americano de entender e resolver o problema racial deve ser o caminho a ser seguido.

É paradoxal que um estudo pós-colonial acabe adotando de maneira tão "naturalizada" as categorias e soluções do Império - ainda que o Império na sua face mais humana, dos Civil Rights, affirmative action, etc. É como se todas as lutas do negro nos EUA constituissem um caminho inexorável que, cedo ou tarde, será seguido até por aqueles negros nos trópicos que, graças a um grupo de letrados brancos se acham morenos.

Creio que é o excessivo engajamento - não má-fé ou ignorância - nessa moldura do "identity politics" que faz com Alexandra deixe de ver tanta coisas, e veja tantas outras que talvez não existam.

Acho que temos muito assunto pra debate. Um abraço!

Cesar em dezembro 4, 2008 4:27 PM


#40

Cesar,

Opa, aqui vou eu de novo sem nunca antes ter deixado um comentário sequer, mas agora me vejo participando (vejo que você faz milagres, Idelber!)...

Uso as teorias do Bourdieu extensivamente no meu livro e conheço o artigo do Bourdieu e do Wacquant, e é verdadeiramente muito ruim (aliás, se abrirmos o texto de Alexandra, veremos que ela também cita este mesmo ensaio). Na época em que li o artigo achei até engraçado o Bourdieu e o Wacquant criticarem a imposição das idéias raciais americanas a outros países como imperialismo, utilizando-se justamente do exemplo do Brasil, do qual sabem muito pouco.

Poderíamos aqui fazer uma longa lista de leituras necessárias ao estudo das relações raciais brasileiras, de Carl Degler, passando por Thomas Skidmore, Florestan Fernandes, Carlos Hasenbalg, Nelson do Valle Silva, Michael Hanchard e muitos outros citados pelo Idelber e comentaristas. Mas acho que o melhor livro recentemente escrito sobre o assunto vem de Edward Telles, professor de sociologia na Universidade de Princeton, o Racismo à Brasileira (Race In Another America). Inclusive ele aponta para as características regionais brasileiras no problema da representação racial, algo que poucos pesquisadores levam em conta e que Idelber bem apontou aqui.

Um abraço,

Emanuelle

Emanuelle em dezembro 4, 2008 4:53 PM


#41

O negócio tá ficando bom por aqui. Pena não ser possível se prolongar muito em comentário de blogue. Ai que vontade que dá! Acho incrível como ficamos expostos em debates como esse aos limites de tempo e espaço (claro, mesmo sabendo a tolerância do Ildelber quanto a isso, é questão de bom senso não se exaltar em prolixia como em terreno mais acadêmico). Mas eu percebo algumas dificuldades de entendimento na terminologia, na apreciação dos critérios de qualidade de certas idéias, entre outros barulohos e ruídos na comunicação que são próprios do limite desse pequeno e valioso espaço de debate. Por exemplo, entre o comentário de Cesar e o de Emanuelle vejo duas maneiras de apreender o artigo polêmico de Bourdieu e Wacquant. A de Cesar capta um elemento triturador da idéia de imperialismo, que em Bourdieu, sabemos, tem uma dimensão muito específica (referente às idéias de posição e imposição de capitais simbólicos) e que, para o propósito do artigo, dava visibilidade a um fêmomeno bem conhecido de transferência de pontos da agenda científica americana para os trópicos(entre outras paragens).(Se lembro bem desse artigo, acho que o exemplo do racismo do Brasil não chega a ser central na argumentação) A de Emanuelle traz um fato verdadeiro de que Bourdieu e Wacquant não serem nem de longe especialistas no Brasil. Para mim, leigo, mas intrometido, o livro do Eduard Telles, por exemplo, confirma e muito as teses de que é preciso pautar problemáticas a partir da especificidade histórica de um contexto local. As teses contra-intuitivas de Telles que mostram ao mesmo tempo mescla (em classes populares) e homogeneidade de relações (nas classes mais abastadas)se distanciam e muito de reflexões pão pão queijo queijo sobre raça do tipo (Branco x Preto).
O fato é que precisariamos de espaço e tempo para destrincar esses conceitos-cadiado que guardam o significado dos contextos que eles(os conceitos) tentam dar conta.
Fico por aqui na alegria de ver um debate tão bom e poder dele participar em tão boa companhia.
Abraço a todos.
Jampa

Jampa em dezembro 4, 2008 6:23 PM


#42

"Eu não desqualificaria um livro publicado por uma fundação tucana sem antes lê-lo. "

Aham, você faz isso com os livros publicados pela Regnery? ;-)

Andre Kenji em dezembro 4, 2008 6:43 PM


#43

Prezada Emanuelle,

Seria certamente um erro fazer generalizações sobre a academia americana, e seu fecundo diálogo com a tradição sociológica e historiográfica brasileira no que tange os temas da escravidão e das relações raciais.

Suas observações são pertinentes e coincidem com as restrições das boas resenhas sobre o artigo de Bourdieu(vêm-me à mente a resenha de Mark Healey na "Nepantla" que faz críticas semelhantes às suas).

No entanto, Bourdieu e Wacquant, no artigo, falam muito especificamente de uma postura e dão o exemplo de Michael Hanchardt:

This is the claim of of Afro-American political scientist Michael Hanchard in "Orpheus and Power" (1994): by applying North American racial categories to Brazilian situation, this book makes the particular history of US Civil Right Movements into the universal standard of all groups opressed on the grounds of color (4).

Hanchard é bastante criticado por Peter Fry e Antonio Riserio, exatamente por não propor um diálogo, e por apontar um caminho que deve ser seguinte.

E voltando à discussão inicial: ao eliminarmos as categorias intermediárias abundantes no debate racial brasileiro (ou simplesmente tratar tais categorias intermediárias como meros epifenômenos do racismo cordial-mascarado brasileiro), e ao empregarmos tão-somente o dualismo negro X branco para descrever as relações raciais, não estaríamos usando as categorias do Império para resolver os seus problemas, sem questionar as especificidades das situações regionais? Esse me parece ser um dos pontos centrais da crítica de Idelber. O que você acha?

Um abraço

Cesar em dezembro 4, 2008 6:47 PM


#44

"Eu tenho uma adormecida tese de que os estudos freyreanos nos EUA são, em geral, uma forma dos próprios americanos liberarem -- via estereotipia comparativa com o Brasil -- o desconforto com a questão racial deles."

Eu diria que é fato.

Andre Kenji em dezembro 4, 2008 6:50 PM


#45

Prezado Cesar,

Eu também realizo uma crítica ao já clássico livro do Hanchard, Orpheus and Power, principalmente no tocante as suas posturas quanto ao que ele denomina “culturalismo” no movimento negro. Entretanto, o próprio Hanchard já revisou algumas das posturas de Orpheus and Power em artigos posteriores.

Quanto aos seus questionamentos, recordo-me da interessante fala do Chris Dunn que analisava o discurso de posse de Gilberto Gil ao Ministério da Cultura, celebrando a mestiçagem. Lembro-me que ele se perguntou “como não lançar o bebê fora da bacia junto com a água?”, referindo-se à noção de mestiçagem. Acho mesmo que a celebração da mestiçagem é um ponto central—e positivo—dentro da cultura brasileira. Não concordo, entretanto, com o apagamento das estruturas de poder nas relações entre brancos e negros no Brasil. Assim, volto-me a um outro autor, infelizmente bem pouco conhecido no Brasil: Manuel Zapata Olivella, escritor afro-colombiano. Quando li o extraordinário Levantáte Mulato, percebi que sua celebração da mestiçagem de forma nenhuma apagava o martírio dos negros e indígenas na Colômbia, muito ao contrário, lembrava-o a cada capítulo.

Concordo com o Idelber que a mestiçagem não é sinônimo de democracia racial, mas também acho que, por muitas vezes, esta tem historicamente servido mais a ideais “branqueadores” do que uma idéia de negritude brasileira. Oxalá a mestiçagem brasileira possa ser mais entendida—e celebrada—em termos do exemplar escritor colombiano. Como uma celebração de elementos positivos de nossa cultura, mas sem que se excluam as relações de poder que condenam negros e mulatos a posições subalternas em nossa sociedade.

Mas podemos continuar a discussão... Realmente aqui há muito “pano pra manga”...

Um abraço,

Emanuelle

Emanuelle em dezembro 4, 2008 7:26 PM


#46

Querido Idelber e comentaristas dessa erudita tertúlia.

Eu fico fulo da vida com as besteiras e grosseirias que muitos gringos irrefletidos falam do Brasil. A minha conclusão é que esse povo não entende a gente e a gente não se entende e eles lá no fundo não entendem eles mesmos e querem dominar o mundo. Mas é impossível imaginar um trabalho acadêmico com metade das coisas apontadas pelo Idelber (que fez uma crítica ponderada e até delicada do trabalho), sem ter naúseas. Porém, há aqueles que apreciaram o livro e em defesa da autora vem mais um erudito professor da universidade de Tulane. Leiam abaixo.

"Isfahani-Hammond has made a very significant scholarly contribution to the vast and complex field of comparative racial discourse in the Americas. Riffing on Norman Mailer's notion of the 'White Negro,' she explores the interesting and troubling ways in which white patrician intellectuals have positioned themselves as uniquely endowed to speak about and for black people in post-plantation societies. While her focus is squarely on Brazil and its architects of national identity, like statesman Joaquim Nabuco, sociologist Gilberto Freyre, and poet Jorge de Lima, her scope is resolutely transnational, engaging texts and contexts from the English, French, and Spanish-speaking Caribbean, and from the southern US."
--Christopher Dunn, Associate Professor and Chair of Brazilian Literary and Cultural Studies, Tulane University

Luiz Goulart em dezembro 4, 2008 8:50 PM


#47

boa,idelber.
romério

romério rômulo em dezembro 4, 2008 8:54 PM


#48

A mestiçagem ocorre da seguinte forma: o problema não é a mistura de raças, mas de espectros sociais. Um negro de classe média muitas vezes nem encontra mulheres negras no seu ciclo de convivio social.

Andre Kenji em dezembro 4, 2008 10:05 PM


#49

Faço coro a Jorge - você precisa divulgar isso em inglês.

Abraço,

Iêda

Iêda em dezembro 4, 2008 10:09 PM


#50

Queridos Cesar e Emanuelle: estou acompanhando e gostando muito do papo. Segui mais ou menos de perto o imbróglio Hanchard / Bourdieu / Wacquant e, infelizmente, como estou de saída para Maryland, não dá para elaborar muito. Mas eu tenho restrições dos dois lados.

Acho, sim, que Bourdieu e Wacquant trabalham com um modelo primário do que é troca intelectual. Não me preocupa nem um pouco, por exemplo, a idéia de que algum intelectual brasileiro seja "colonizado" por modelos importados dos EUA. Acho que essa forma de colocar a coisa com frequência não é a melhor.

Dito isso, me parece difícil negar que há um desespero danado dos gringos envolvidos com estudos raciais brasileiros para negar a experiência da mestiçagem -- desespero mesmo, horror, pânico! Dá uma dó danada ver um atrás de outro jovem scholar gringo dizendo que está fazendo um trabalho de "crítica da mestiçagem", descobrindo pela milésima vez que uma ideologia da mestiçagem serviu para rasurar o negro e, também, cegando-se pela milésima ao que há de específico há na experiência brasileira.

Um abração e conversem à vontade.

Idelber em dezembro 5, 2008 1:26 AM


#51

Idelber, (quase off-topic)

permita-me discordar um pouco do seu segundo parágrafo. Talvez no artigo discutido isso que vou dizer não apareça com tanta clareza, mas o fato é que dificilmente alguém como Bourdieu trabalharia com o que você chamou de modelo primário de troca intelectual. Digo isso porque a idéia de "colonização" tem uma dimensão toda especial quando associada ao trato analítico do sociólogo francês. Posso estar equivocado, mas, talvez por estar no Brasil, não consigo não achar central, apesar de incompleta, a análise do problema das relações de poder que se estabelecem entre centros de produção. Tanto que as impressões que tive durante o BRASA em Nola( http://ooxymore.blogspot.com/2008/04/o-oxymore-volta-oxigenado.html)foram muito oriundas de apreciações disso que ocorre quando "formas de fazer e produzir o conhecimento" elaboram de maneira normativa "formas e maneiras mais corretas e legítimas de conceber e avaliar conhecimentos produzidos". Eu concordo em dizer que naquele artigo de Bourdieu e Wacquant o modelo analítico pode estar simplificado. Porque por certo existe um sistema de produção de legitimidade própro que se estabelece no Brasil(que também obedece certas lógicas específicas a serem consideradas), o que não é levado em conta com a devida ênfase naquele texto.
Dito isso acho que cabe também falar de "colonização" e "imperialismo" quando vemos com que força idéias como de campo e habitus são transpostas (muitas vezes sem muitos critérios de transposição)ao estudo de casos brasileiros. Veja que não falo da transposição em si, mas acho que as "formas de apropriação do conhecimento" que estão na pauta bourdieusiana da análise das relações de poder no mundo acadêmico tem muito a dizer sobre nosso "jeitinho colonizado de pensar". Claro, pensando que convém refletir também sobre mais essa imposição de agenda, agora vinda de além mar...

Jampa em dezembro 5, 2008 6:16 AM


#52

Jampa, caríssimo, não acho que discordemos realmente. Estou contigo em que o modelo que encontramos na obra de Bourdieu não pode ser chamado de primário -- na realidade, é um modelo que me atrai muito. Eu me refiro só mesmo ao artigo, onde encontro uma preocupação genuína com uma relação poder altamente assimétrica, mas explicada através do modelo do "imperialismo cultural", que me parece limitado, porque até hoje nunca vi ninguém falar de "imperialismo cultural" sem pressupor um receptor passivo do lado "dominado". E, convenhamos, hoje em dia, as relações entre Brasil e EUA são bem mais multifacetadas que isso.

Precisamos de um modelo mais sofisticado para pensar o fenômeno, porque ele é daninho, sem dúvida. Especialmente porque os gringos nele envolvidos acreditam, genuninamente, que estão sendo benevolentes e ajudando a causa da justiça social no Brasil.

Esse é a pior parte: eles são bem intencionados.

Não há nada pior que uma pessoa bem intencionada.

Idelber em dezembro 5, 2008 9:08 AM


#53

Enquanto isso, o silêncio sobre a obra de Manoel Bomfim continua no anonimato. Manoel Bomfim escreveu em 1905 "América Latina - Males de Origem" escreveu e como o que tinha dito ali era um atentado contra a elite pós-abolição, calaram-no. E hoje continuamos falando bem ou mal de Freyre e a instigação a leitura da Obra de Freyre continua e continua seja para o bem, seja para o mal. Desafio um blogueiro a adentrar em Manoel Bomfim, e gostaria que fosse um que tivesse uma grande audiência, para que pudesse passar ao público o que aquele médico por profissão e sociólogo por paixão expunha em pleno 1905, muito antes do livro "Casa Grande e Senzala"(que li para acolher algo em minha TCC de final de curso, oportunidade em que fiz críticas a este sociólogo pernambucano). Então, fiquem a vontade e leiam Manoel Bomfim e vamos para um pouco de passar para frente os escolhidos dos vencedores da história.

Chico Mendes em dezembro 5, 2008 10:17 AM


#54

wow, parece que preciso le-lo so' pra ter posicao contra que argumentar no meu presente trabalho sobre "branquitude" ...

fred em dezembro 5, 2008 11:36 AM


#55

Opa! O silêncio sobre Manoel Bomfim não inclui este atleticano blogueiro. Jä publiquei sobre ele. É verdade que foi nos EUA, em revistas que circulam pouco no Brasil.

Mas vou aceitar seu desafio -- em breve, um post sobre Bomfim aqui no blog. Você tem toda a razão. É um silenciado na história brasileira.

Idelber em dezembro 5, 2008 12:44 PM


#56

Manoel Bomfim - mais um para minha longa lista de leituras devidas. Achei algum bom material na internet sobre ele - dois artigos acadêmicos aqui e aqui .

este blog é um problema para minha angústia de leitura...

Radical Livre em dezembro 5, 2008 4:39 PM


#57


----------------------------------------
URGENTE! MORTE DE IRMÃOS QUILOMBOLAS!

Os assassinatos, dos dois companheiros se deu de forma covarde e vil sem qualquer possibilidade de defesa, na medida em que a comunidade não possui armas.

Importante frisar que o assassino ; segundo informações trabalha como vigilante; com parentes no município de Eldorado do Sul, RS; vinha atacando os Quilombolas de forma racista de olho no controle da comunidade e do território, e no final de semana passado deu tiros para o alto em via pública para intimidar a comunidade, sendo que a Brigada Militar foi acionada mas nenhuma providência foi tomada, ao argumento que o mesmo possuía porte de arma.

Necessário reforçarmos nossa resistência e total solidariedade com a Comunidade Quilombola dos Alpes , Porto Alegre, RS.

Pela Punição do Assassino

Pela Titulação Imediata

Onir

MNU/RS

Rafael Galliez em dezembro 5, 2008 9:58 PM


#58

Total off topic num sábado de sol, só pra lembrar sua promessa, Idelber, de fazer um post sobre o estranho ritual pré-acasalamento do "dating" nos EUA... fui chamada à atenção do tema pelo documentário "The truth about sex & the city", onde se falava das famosas "the rules" (ex: nunca dormir com o cara na primeira saída, nunca deixá-lo subir etc.) e tb tinha um engraçado depoimento de um escritor britânico, contando que achava que não ia ter problema nessa área nos EUA, mesma língua etc. Ledo e Ivo engano. Dizia ele que não se entendeu com a instituição dating e suas regras hipercodificadas. Aguardo esclarecimentos e comentários do povo que mora aí, assim como de americanos lusófonos. Abs, Renata (indo pro sol)

Renata L em dezembro 6, 2008 8:54 AM


#59

Idelber,
Posso estar dando uma idéia já discutida aqui, mas lá vai: que tal colocar tags nos seus posts? Ajudaria a gente a voltar aos que mais nos interessam.
Um abraço.

João Paulo Rodrigues em dezembro 6, 2008 9:01 AM


#60

Caro Idelber:

1. não lembro direito se, em sua detonação sobre o texto da moça, você cita a nacionalidade dela.
Trata-se mesmo de uma americana? Pergunto porque, logo no começo, ao dizer (traduzido para o português) que alguém "aderte" etc, e coisa e tal, ela usa o verbo "adverts".
Você, que vive há anos nos EUA, não acha isso bizarro? Para mim, doeu no ouvido. Não deveria ser "warns"?
2. Depois, sobre essa questão de "branco", "negro", "mulato", "mestiço" e assim por diante, "vocês, americanos" (desculpe a piadinha bobs, mas não resisti...) são notoriamente menos flexíveis que os brasileiros.
Rio muito quando nos filmes os americanos se referem a alguém de ascendência ibero-americana como "a latino". Será que eles sabem o que estão dizendo? "Latinos",para mim, são Dante Alighieri, Luís XIV, Cervantes, de Gaulle, Catherine Deneuve e Alain Delon, entre outros.
Quanto a "mestiçagem", quando interessa aos conterrâneos (o que não significa necessariamente leitores de Mark Twain, Faulkner, Fitzgerald e cia.), esse é um conceito ao qual, quando interessa aos americanos, eles costumam recorrer. Não me vem à mente como deveria ser em inglês-americano, mas penso que "halfbreedness" não seria de todo incorreto.
Desculpe-me pela extensão, mas como sou seu leitor habitual e várias vezes, já, pensei em lhe escrever, mas a preguiça sempre predomina, tento com esse post compensar de alguma forma.
3. Foi graças a você que descobri a existência de "Palestina do Espetáculo Triunfante" da supreendente e veemente Katarina Peixoto, kantiana da mais fina estirpe e dona do mais fino humor, a quem uma vez já postei e que, por sua vez, gentilmente me repostou.
Lamento que ela não venha atualizando seu blog.
Um abraço do leitor paulista, paulistano e são-paulino, uma prova, espero, de que nesta cidade e neste Estado, embora abundem, não haja apenas representantes das "elites boçais", tão merecidamente criticadas,
Jairo Arco e Flexa

jairo em dezembro 6, 2008 4:41 PM


#61

JPR, está na lista. Agora, na transição para o Word Press, vamos providenciar isso.

Renata, eu prometi um post sobre "dating"? Puxa, eu não me lembrava... Como pouco me lembro de como funciona na prática...

Jairo, 1) parece que a autora é porto-riquenha; 2) o hispanismo mestizo é de moeda corrente em inglês, já está dicionarizado e é compreendido por qualquer um que leia bibliografia especializada; num livro acadêmico em inglês, não há por que não usá-lo quando se trata de traduzir o nosso "mestiço"; 3) eu considero Katarina a maior inteligência da blogosfera brasileira. Ela anda traduzindo alguns textos para a Agência Carta Maior mas, infelizmente, não voltou a escrever na Palestina. Aguardemos...

Idelber em dezembro 7, 2008 2:45 AM


#62

Bom, Idelber se vc fizer isso, trazendo um tratado sobre alguém(MANOEL BOMFIM) que dá de 10 a 0 em Gilberto Freyre,todos nós que defendemos que nunca houve abolição neste pais agradecemos. Inclusive gostaria de poder colaborar digitando aqui 'em comentários' deste futuro tópico sobre passagens do livro "América Latina - Males de Origem", para desespero das viúva de Oliveira Vianna e Gilberto Freyre.
.
.
Para vocês verem como não estou exagerando no tocante a prejudicabilidade de tanto falar em Freyre(pois toda hora que se fala no homem, trazem pontos negativos e positivos, mas prevalece em nossa sociedade racista apenas os pontos positivos do que ele escreveu), vou citar o que está ocorrendo no site da Livraria Cultura. Recentemente a editora Expressão Popular lançou uma série de livros sobre personagens que dificilmente vêm à tona no mundo das letras jornalísticas. São livrinhos pequenos que variam entre R$ 3,00 e R$ 5,00, bem populares(Comprei uns 13 por enquanto de Bomfim para presentear).

Ocorre que na capa do livro está assim escrito:

MANOEL BOMFIM - COMBATE AO RACISMO
EDUCAÇAO POPULAR E DEMOCRACIA RADICAL
.
E o anestesiado que digitou na página da cultura escreveu assim:
.
MANOEL BOMFIM - COMBATE AO RACISMO
EDUCAÇAO POPULAR E DEMOCRACIA RACIAL
.
Ou seja, ele leu rápido a palavra "RADICAL" na capa do livro e digitou "RACIAL". Para uns é besteira, para nós que somos acusados de patrulheiros faz uma diferença danada. Salve uma página para o caso de um bisbilhoteiro da cultura correr lá e avisar, mas eu mesmo vou fazer isso.
.
Está vendo Idelber? É nisso que dar o bombardeio de Freyre, Freyre, Freyre....Freyre.... durante todo o século em nossa mídia. Democracia Racial um termo tornado público se não me engano lá pela década de 40 ou 50 do século passado atribuída no site da cultura inadvertidamente ao nome de Bomfim que escreveu seu melhor livro em 1905(40 anos antes da tragédia de Casa Grande e Senzala para os negros)

Chico Mendes em dezembro 7, 2008 9:34 AM


#63

Idelber,

Sobre a dúvida crucial, se a autora do livro é uma analfabeta a respeito de Brasil ou se escreveu de má fé, acaba dando na mesma, pois, se é analfabeta sobre nossa cultura e nossa língua e escreveu este livro, então ela agiu de má fé. simples assim.

Arnaldo em dezembro 10, 2008 3:30 PM


#64

Como ex-brasilianista, produto do departamento de português e estudos luso-brasileiros da Universidade de Wisconsin, Madison, posso afirmar que o tipo de análise utilizado por Alexandra em seu livro é infelizmente bastante comum entre os brasilianistas da minha geração.

Quer uma nota de "A" em seu próximo trabalho sobre o Brasil? Pega Casa Grande e Senzala e faz uma análise do livro como se ele tivesse sido escrito HOJE nos EUA por americano. Ignora o contexto histórico e cultural do livro e do autor: simplesmente concentra naqueles momentos em que Freyre parece dar algum apoio à noção que raça biológica pode, de fato, existir. Análise como ele categoriza negritudes em "inferiores" e "superiores". E, em cima de tudo, se demonstrar chocado e enjoado ao fascínio que Freyre teve por sexo inter-racial. Pronto! Você também pode desmantelar "o mito da democracia racial" e, assim fazendo, demonstrar sua superioridade àquela cambada de intelectuais elitistas e racistas (para não dizer primitivos) que infesta a academia brasileira.

Thomas Skidmore ain't got nothin' on you, Slick!

Infelizmente, ao que me parece, a Alexandra não progrediu para além desses truques de calouro.

Thaddeus Blanchette em dezembro 11, 2008 5:47 PM


#65

Na mosca o que você diz, Thaddeus.

Idelber em dezembro 11, 2008 6:04 PM


#66

But hey, she's published in English and we're not, so guess who gets to inform the next generation of students out there in the world about race in Brazil?

Thaddeus em dezembro 12, 2008 2:55 PM


#67

Um saudoso tio meu costumava repetir que "o importante é não perder a capacidade de se indignar". O que acontece entre a indignação e ação é problema de "forno íntimo": existe sempre um custo emocional em baixar o fogo da caldeira, antes de soltar os cachorros. Agora, mais nas Condições Normais de Temperatura e Pressão, acredito ser o momento de me posicionar.

Meio na base de "nihil humanum a me alienum puto", comecei a ler esse post, completamente fora da minha área de competência, quando fui surpreendido pela seguinte afirmação: "não confiaria em uma História do Brasil editada por petistas". Ooooops... pera lá.

Não tenho procuração nem qualificação para defender ou justificar nem a Editora, nem a autora, que aliás nem conheço. Muito menos o Partido dos Trabalhadores. Talvez devesse defender a memória do meu pai, que empresta nome à Fundação e à Editora. Mas isso é outra história, que não vem ao caso nem seria correto colocar neste fórum.

O que a mim incomoda é essa postura pretensamente científica de ser imparcial. Que ser partidário implica necessariamente em distorção. Isso é ignorância, ingenuidade ou má-fé (e como minha formação é em lógica, o conector "ou" é sempre inclusivo, portanto, pode ser um arranjo qualquer destes três termos).

Ler com suspeição é dever obrigatório, quer a obra seja editada sob os auspícios de uma organização partidária ou não. Agora, supor que um autor, cientista, distorça seu trabalho em função de orientação partidária ad hoc é uma acusação leviana. Nessa linha, deveríamos suspeitar de todo o material editado pelo CEBRAP, uma vez que foi financiado pela CIA?

Não tenho nada contra o comentarista em si. Essa atitude é extremamente arraigada, principalmente nos jornalistas atuais, que fingem, numa atitude olímpica, estar acima do bem e do mal, e que se julgam detentores da Verdade.

É por isso, caro Idelber, que a próxima vez que vc quiser "pegar pesado", pode me chamar que eu seguro.

Atenciosamente,

Mario Abramo

Mario Abramo em dezembro 17, 2008 10:39 AM


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