Se há um traço que subjaz à coerência do heavy metal como gênero, é a o power chord. Produzido ao se tocar o intervalo musical de uma quarta ou quinta perfeita numa guitarra elétrica fortemente distorcida e amplificada, o power chord é usado por todas as bandas que são chamadas de heavy metal e, até a enorme influência do metal em outros gêneros no fim dos anos 80, era usado por comparativamente poucos músicos fora do gênero. O power chord pode ser percussivo e rítmico ou mantido indefinidamente; é usado tanto para articular como para suspender o tempo. É um som complexo, feito de tons e sobretons resultantes, constantemente renovado e energizado pelo retorno. Ele é, ao mesmo tempo, a base musical do heavy metal e um metáfora bem apropriada dele, já que a articulação musical do poder é o fator mais importante na experiência do heavy metal. O power chord parece simples e cru, mas ele depende de sofisticada tecnologia, ajuste de tom preciso e hábil controle. Seu som em overdrive evoca excesso e transgressão, mas também estabilidade, permanência e harmonia. (p.2)
Está fazendo 15 anos que a etnomusicologia desmontou o clichê de que o heavy metal seria um gênero menos “variado”, musicalmente rico ou internamente diferenciado que qualquer outro na música popular. É uma pena que nenhuma editora brasileira (e nem precisava ser universitária) não tenha ainda percebido o enorme potencial que teria uma tradução de Running with the devil no Brasil. Combinando a análise musicológica com a cultural, Walser passa por tudo.
Dedica uma leitura atenta às apropriações eruditas no heavy metal (que são sempre consistentes e específicas: Bach, não Mozart; Paganini não Liszt; Vivaldi e Albinoni, em vez de Telemann ou Monterverdi, p. 63) Explica o trabalho do gênero com os modos: a maioria do heavy metal está em modo eólio ou dório, por exemplo, apesar de que o speed metal normalmente se toca em modo frígio ou lócrio; a maioria das canções pop estão ou em modo maior (iônio) ou misolídio mixolídio. . . as diferenças são fáceis de se ouvir: imagine (ou toque) o riff inicial de “Smoke on the Water”, de Deep Purple, na sua forma original blues-eólia (G-B♭-C, G-B♭-D♭-C); agora toque-o em maior/iônio (G-B-C, G-B-D-C) e parece uma cover de Pat Boone; dê-lhe um gíro frígio (G-A♭-D, G-A♭-E♭-D) e parecerá Megadeth (p.46-7).
Walser escreve um excelente capítulo sobre todo o teatro da masculinidade no metal que, como sabem os fãs do gênero, é um tema e tanto. Escolhe bem as canções que analisa (uma de Van Halen, uma de Ozzy Osbourne, uma de Yngwie Malmsteen) e desmonta não só os preconceitos musicais contra o metal, mas também os morais. Há todo um estudo a se fazer sobre a história do trabalho do metal com o timbre, e Walser oferece aí também as primeiras pistas para pesquisas futuras.
É um livro acadêmico, mas qualquer fâ de música popular lê com proveito e prazer. Walser é casado com Susan McClary, também etnomusicóloga e ainda melhor que ele.
Alô, editoras.
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Por falar em metal, recentemente um articulista de música do Yahoo resolveu fazer a lista das 25 bandas mais – segundo entendi – importantes para o que metal viria a ser (o que, suponho, é uma lista diferente das 25 melhores bandas de metal). A lista evidentemente foi massacrada por mais de 9.000 internautas.
Se captei o critério dele, certamente faz sentido incluir Hendrix e Led Zeppelin (mas não Rush). Não entendo uma lista com Thin Lizzy e Meshuggah e sem Anthrax ou Sepultura.
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Saiu o documentário da Bangers Production, Global Metal, que está em dez partes no Youtube:
Não há grandes novidades para os fãs do gênero, mas está bem feito. Há belas imagens e um bom naco é sobre o Brasil. Se não estou confundindo dois projetos diferentes, fui um dos entrevistados por telefone para esse documentário, numa tarde em que eu estava no Catete comendo feijoada e a menos de 20 metros de um sambão (inteiriço o sambão, com tantãs e tudo). É uma baita sensação, falar de Sarcófago com a batucada ao fundo.
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Sai em breve pela Duke University Press, organizado por Jeremy Wallach, Harris Berger e Paul Greene, o Metal Rules the World, a primeira coletânea de artigos acadêmicos sobre heavy metal. O metal brasileiro está representado por um trabalho meu que já botei no copyleft (pdf).
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A Galo Metal é um modelo de torcida organizada: nem um único lugar a mais vendido no ônibus, galera munida de ingressos, jamais envolvida em violência, sempre tranquila no Mineirão e nas viagens. Abração do blog para a primeira organizada metálica do Brasil.
O etnomusicólogo vai me desculpar, mas o power chord é uma estrutura básica para tocar rock em guitarra, e os punks já usavam antes que o Iron Maiden estivesse nos conclamando a correr para as colinas. A não ser que ele esteja se referindo ao "rock pesado" em geral, aí realmente faz sentido.
Caramba, quanto ecletismo hein Idelber? Um dia falando de Clara Nunes, outro dia falando de metal... Gosto de pessoas assim, pois também sou um cara de "mais de uma nota", musicalmente falando.
Muito bom o post. Só tenho duas coisas a acrescentar: a lista do crítico do Yahoo colocou as principais bandas na lista mas também trouxe uns desconhecidos incríveis para o caldeirão dos 25 mais - taí o motivo do massacre. Outra: você já ouviu a banda Massacration, uma gozação que os caras do "Hermes e Renato" fizeram com as bandas de metal? Não? Então vai lá no Youtube e procure pelos clássicos "Metal is the law" e "Lôro quer biscoito". É bom pra dar um pouco de risada.
Metaleiro? Taí algo que eu não esperava...
Então Almah é bom é? Não ouvi ainda, mas o Marcelo Barbosa é daqui de Brasília, grande músico e dono duma rede de escola de guitarra que cresce mais a cada dia. Ele tb toca no Kallice, segue a linha do Dream Theater, ele é meio que endeusado pela garotada.
E vem cá, não é O power cord?? é masculino não?
Idelber,
Embora eu não seja metaleiro - não por preconceito, mas talvez por ignorãncia musical - comprei um CD da Galo Metal para presentear minha irmã que gosta de músicas mais pauleiras. Galo Metal que é grande divulgadora do gênero no seio da Massa e que estava sempre presente também nos jogos do futsal. Fica aqui meu abraço para o Matheus, integrante da Organizada e atual diretor jurídico do Centro Atleticano de Memória.
Lincoln Pinheiro Costa em dezembro 11, 2008 8:30 AM
ah, mas que beleza de post! raridade completa, sabemos, não apenas por ser em português mas também pela autoridade e referências! obrigado! :D
sobre a lista do yahoo: eu vinha a odiando do 25 pra baixo, até ver que Sabbath está no topo - e eu me vejo relevando diante do respeito ao primeiro mandamento.
mas concordo contigo: tanto Sepultura quanto Anthrax deveriam estar por lá. os escolhidos farfalham muito no heavy clássico e cobrem um espectro muito curto. uma lista de 25 mais influenciais pediria Morbid Angel, Celtic Frost, Venom (ao invés de Kiss), Napalm Death...
a respeito de hard rock vs heavy metal, me parece que é uma distinção mais didática do que de fato. em 1969, hard rock não era heavy metal; hoje (e desde ~85) é, e subgênero. houve uma ruptura na forma, na composição, no público, na projeção e nas intenções do rock; o heavy metal como estilo, e tudo que veio depois, é um prolongamento deste início. sob um guarda-chuva melhor. hoje, seria no mínimo estranho não considerar Purple (antigo) ou Hendrix como metal.
e pra fechar, aviso: o melhor disco de tech death do ano é o Planetary Duality, do The Faceless. (tem uma provinha aqui)
Idelber, longe de mim me meter na pendenga em torno da origem exata do "heavy metal". Pessoalmente, pra mim tem a ver com aquelas bandas inglesas, tipo Saxon, Iron etc. Antes, era rock pesado. Minha pinimba tinha a ver com a associação entre heavy metal e power chord, apenas.
Ao leitor que perguntou, power chord é um jeito de tocar acordes na guitarra em que você utiliza apenas duas notas num intervalo de quinta. Dá mais pressão, potência e permite uma rapidez maior. Se você pegar aquelas revistinhas que ensinam a tocar músicas populares desenhando os acordes, irá reparar que há uma série de indicações de cordas, dedos etc. No power chord você simplifica aquilo.
Vou ler teu artigo, certamente. Nunca tinha visto este tema ser debatido seriamente no mundo acadêmico aqui no Brasil, embora saida de lagumas teses e dissertações, em geral feitas por estudantes que são fãs do gênero.
Boa tarde, pessoal. Está errado então o gênero do neologismo, né? No Brasil se diz o power chord? Valeu, tenho que corrigir o post.
(eu também dizia "a" laptop, até que me corrigiram...)
Valeu, Tiagón, por esse adendo na interminável história do hard/heavy... O Tiagón outro dia compartilhou no Google Reader uma página com a discografia do Slayer. Não sei se ainda está dando para baixar.
Danilo, desde o imbróglio com o Napster e a Guerra do Iraque que não tenho ouvidos isentos para ouvir nada do Metallica.... Deixei Master of Puppets e Kill 'em all no meu iPod e apaguei o resto.
Valeu, Ednei, conheço o Metal: A headbanger's journey, sim, e o documentário está por aí.
E o Motley Crue de 2009 entrou no radar, João, legal. Abraços.
O que me perturbou a leitura foi a imagem mental do Tiagón tendo repetidos orgasmos. Não consegui me livrar. Graças a deus, já ele comentou. Não quero nem ler o que ele escreveu, mas vi que longo.
Fino post mesmo. Curti muito o documentario linkado, Idelber. Mergulhada que tou nos estudos de antropologia cultural soh posso agradecer por ver um pouquinho de outra forma super interessante de fazer etnologia.
Valeu :) e sorry pelos acentos faltantes :(
O Idelber não me surpreende mais.
Ele é do tipo que, por seu interresse eclético, inteligente, coerente, sincero e sem preconceitos agente gostaria de ter como amigo.
Me lembro que em Naked Lunch aparece o termo Heavy Metal-" the Heavy Metal Kid"- . ˙Há até quem afirme que foi dai que tiraram o nome para o estilo.
Link Wray também foi credenciado como pai do termo pela canção protometal 'Rumble". Barulhenta demais para a época.
O Steppenwolf, que de certa forma era uma banda barulhenta, cantava " Heavy metal thunder' em Born to be Wild.
O curioso é que faltou, ou sobrou , termos para classificar o rock psicodélico como tal. Grateful Dead que o diga.
Mas acho que o termo vingou de vez quando os barulhentos quiseram se diferenciar dos faziam baladas pops no início do anos anos setenta. É apenas um chute.
Mas, entretanto Heavy Metal seja um termo de certa forma pejorativo para diferenciar quem faz 'barulho', assim como o termo Rock and roll, punk rock etc, você não acha extranho que exista regras, um tanto conservadoras apesar da postura rebelde, nas quais se restringe os estilos e atitudes dentro do universo do rock, como por exemplo o Heavy Metal?
Dito isso , acho que sou contemporâneo em demasia se considerar The Who e Cream como bandas proto-metal? Afinal The Who era considerada a banda que , como se diz em musica, 'descia a mão', tocava alto pacas. Aliás eles entraram para o Guiness book como a primeira banda a destruir os instrumentos, coisa que o Nirvana fazia até algum tempo atráz. Ou Grunge não é um estilo, 'despreconceitualizado', de Heavy Metal?
Abraços
É a primeira vez que chego aqui neste blog, via Milton Ribeiro. Só um pequeno adendo (respeitoso) à tradução de Walser: o quinto modo litúrgico, em português, chama-se "miXolídio" e não "miSolídio", certo? Havia percebido também o probleminha (já corrigido) com o gênero de "chord" que, inexistente em inglês, em português é masculino, pois "chord", como sabemos, é "acorde", e acorde é macho, sim senhor. Indo um pouco mais longe: não sei porque em inglês chamam de acorde o que é um intervalo... Acorde exige mínimo de três notas simultâneas. Intervalo, duas. Desculpe-me pela encheção de saco terminológica. É que, por razões profissionais/pessoais, os assuntos me interessaram, batendo em mim o espírito científico. Para fechar: enquanto escrevia esta mensagem ouvia (in the back of my mind) "What is this that stands before me? A figure in black...". Mas não agüento o Osbourne dos últimos 25 anos. Saudações coloradas.
O Death Magnetic é bom. Você tapa o nariz para o posicionamento político/ideológico e começa a só ouvir aquela riffaiada poderosa de Ride/Master/Justice... James Hetfield ainda consegue mandar bem.
Mas grandes coisas... o que importa é que o Radiohead vem pra cá em março e eu vou estar lá!!!
você ouviu falar do caso da Bienal deste Ano? Uma bienal vazia, dedicada apenas e tão somente ao debate sobre o status-quo da arte. Pois bem, um grupo de pichadores de SP invadiu, há cerca de dois meses atrás o segundo andar do pavilhão da Bienal e decidiu interagir com o debate. O resultado, para meu espanto, foi prisão para trẽs deles - uma está ainda presa até hoje e acaba de ter um habeas corpus negado.
A curadoria da Bienal - que chamou intelectuais e críticos para o debate - até agora mantém a posição de perseguir no processo contra a menina.
O que mais me espanta é o absoluto silêncio no meio artístico, como se todo mundo concordasse com a posição da Bienal e da curadoria (aliás, já se viu Bienal com pavilhão vazio?).
desculpe o Off-topic longo, mas esta é uma daquelas correntes de indignação que alguém tem que iniciar.
Idelber, realmente essa sua faceta metaleira eu também não conhecia... Confesso que não sou muito dessa praia. Lembro nos tempos do DCE Onda eu trabalhava no DCE Cultural, o pessoal do Sepultura fez alguns dos seus primeiros shows onde hoje é a Sala 1 do Cine Belas Artes. Eu não conseguia ficar cinco minutos dentro do auditório, talvez devesse prestrado mais atenção...
Sobre isso, aqui no Brasil conheço o trabalho do Jeder Janotti, da UFBa, que escreveu o livro "Heavy Metal com dendê", sobre os metaleiros da Bahia. Você já deve conhecer, mas pra quem se interessar tem uma mostra no Google Books.
Pela seara do reggae ainda há muito a fazer, a primeira tentativa de se realizar uma análise musicológica desse gênero foi o livro do Michael Veal, baixista e etnomusicólogo que tocou com Fela Kuti e com artistas de reggae. Ele escreveu o "Dub: Soundscapes and Shattered Songs in Jamaican Reggae", também dá para ler uma parte no GB.
curti muito o post, Idelber! eu estava atrás deste livro, ms nao lembrava o nome do autor. agora engrosso o coro pela tradução dele aqui pros headbangers brazucas.
acrescento duas coisas - sobre escalas, vc já viu a história da 'progressão maldita' que rendeu até o disco Diabolus in Musica, do Slayer? aqui tem um link interessante. a Igreja proibia este intervalo nas músicas, durante a Idade Média. http://davidcherubim.net/tritone.htm
e por falar no Pat Boone, há alguns anos ele lançou um disco com clássicos de heavy metal em ritmo de...mood! uma das faixas, Crazy Train, do Ozzy, é o tema do reality show The Osbournes: http://www.geocities.com/TheTropics/9325/patmetal.html
eu baixei e adorei. Boone acabou fazendo escola, seguido pelo Paul Anka e mais recentemente, as sátiras do Richard Cheese.
É uma surpresa, não o fato de seus gostos metálicos (por algum motivo seu visual barbado já me denunciava isso :-)), mas por ver música sendo discutida com propriedade aqui na blogosfera. A gente vê muita opinião e senso comum por aí, mas pouca informação e análise inteligente.
Eu também me surpreendi com esse seu lado metaleiro. Confesso que não curto rock muito pesado. O mais longe que fui na pauleira foi Led Zepellin e Jimmy Hendrix, que nem são pauleiras, se comparados com o Sepultura, por exemplo.
Mas, aproveitando sua enciclopédica cultura, lanço-lhe uma pergunta: por que o Brasil produziu bandas bem sucedidas de heavy metal (Sepultura, Shaman, Angra) e não em outros gêneros do rock? Por que essa "especificidade"? Por que foi Minas (terra do Clube da Esquina) que pariu a mais célebre banda heavy brasileira?
Há algumas semanas conheci um guitarrista francês super fã do Angra. É incrível a fama dos metaleiros brasileiros no exterior.
Ficaria feliz em ouvir sua opinião sobre essas questões.
Pessoal: acabei de chegar no Brasil. 38 horas de viagem, punk, punk. De longe, a pior viagem da história. Daí o fato do blog ter ficado um pouco largado nos últimos dias.
As perguntas estão anotadas aqui, serão respondidas, logo que o cansaço e a qualidade da conexão permitirem.
Lelec, sobre o fato de Minas Gerais ser o centro do metal brasileiro, há um trabalhinho meu por aí que tenta responder essa pergunta. Aí vai o link:
OT: "não há nada na ficção brasileira dos últimos 30 anos comparável com Roth, Sebald, Bolano, McEwan ou mesmo Saer" - Daniel Pizza, no Esatdao de hoje.
mais adiante:
"dom casmurro nao se martiriza por ter duvidas a respeito de ter sido traido por capitu ou nao. mas, em seu egocentrismo romantico, por saber que nao se conhece e, logo, nao foi capaz de conhecer capitu"
bom domingo proce.
:>/
Hum... esse povo metal adora uma masturbação musicológica. Nada contra o conhecimento super específico, mas ele é só isso: conhecimento super específico. É como entender da mecânica dos aviões. Música é muito, mas muito mais.
E, Lelec, é bacana algumas bandas heavy metal brasileiras serem conhecidas lá fora, mas é só porque são boas no gênero. O Brasil produziu e produz outras coisas rock de expressão internacional, sim, como Mutantes e Paralamas do Sucesso. Acho que o que ajuda tanto essa turma heavy é o fato de cantar em inglês. Se você canta em inglês e faz algo bom no gênero, tem repercussão (ainda mais num mercado específico como o heavy metal). Se você é bom mas canta em português, fica desconhecido. Se você canta em inglês, mas é ruim, aí não há nada que resolva. Acho que é por aí.
Uma das coisas mais irritantes da internet -- e contra a qual, ao longo dos anos, eu fui me vacinando, a tal ponto que hoje já não me afeta -- é o inevitável paraquedista que chega a uma conversa e simplesmente desqualifica o saber apresentado ali (e que ele, diga-se, não parece dominar e lê porque quer) como "masturbação".
Suponho que o caro comentarista preferisse um mundo onde não existisse essa "masturbação" de conhecer de mecânica de aviões. Vai ver o prezado acha que seria um mundo melhor ou mais seguro.
É essa "masturbação musicológica" que garante que o conhecimento musical acumulado poderá ser colocado no papel, passado para os novos músicos, transmitido nas escolas e conservatórios etc., de tal forma que os que chegam não precisem reinventar a roda.
Nem todo mundo tem que dominar musicologia para apreciar música. Nem todo mundo tem que dominar teoria literária para discutir literatura. De forma nenhuma. Mas se há uma coisa que ajuda à beça é o respeito ao conhecimento alheio. É sempre útil, e impede a redação de bobagens.
Não tive a intenção de ofender você ou qualquer comentarista, nem de diminuir seu post. Acho que me expressei mal e usei uma expressão de gosto duvidoso("masturbação musicológica"). Apenas quis dizer que me incomoda o valor que boa parte dos amantes de heavy metal dão ao virtuosismo na música, às vezes em detrimento do que a música tem de melhor, na minha opinião: seu impacto social e sua capacidade de emocionar e influenciar as pessoas.
Algumas das melhores revoluções do rock, como o punk ou o grunge, foram no sentido de simplificar as coisas, resgatar o que o rock tem de mais primitivo. Mas isso não me impede de amar, por exemplo, os Smiths, que parecem mais simples do que de fato são (Johnny Marr é praticamente um virtuose).
Conhecimento, de fato, é sempre bom, seja ele "útil" ou não, sobre música, aviões, filosofia ou qualquer outra coisa. Não entendo detalhes técnicos sobre música, li o post porque quis, mas não pretendi desqualificar quem passa anos dedicado a um assunto. Foi só um comentário, certamente mal colocado e inoportuno, que acabou não contribuindo para o debate.
E não me considero um paraquedista. Li o post, li quase todos os comentários e sou leitor do blog, no qual fiz diversos observações sobre outros assuntos. Algumas vezes, discordei frontalmente de suas opiniões, e o debate foi bastante enriquecedor.
Muito obrigado pelo seu texto sobre o Metal em MG. Já o salvei aqui no meu computador e irei lê-lo com atenção.
Agradeço também ao Ricardo Bandeira, por também ter dado uma resposta à minha pergunta.
Realmente, a questão do sucesso no exterior de bandas brazucas certamente passa pelo idioma. É o caso do Cansei de Ser Sexy, que tem arregimentado multidões em todo o globo (vai entender...).
Muito interessante esse texto! Nunca imaginei que o "quadradinho" (forma carinhosa que chamávamos o power chord na adolescência) pudesse se traduzir em tanto sentimento!
Falando nos lançamentos, esse ano foi ótimo pras velhas bandas do gênero! Metallica e Motley descobriram como soar modernos fazendo o que faziam há 20 anos atrás.
E vou concordar com o colega que falou do Johnny Marr... o trabalho de guitarra do Smiths é bem mais complicado do que soa.