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sábado, 27 de dezembro 2008
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Nos EUA, saiu pesquisa nova da CNN: três de cada quatro americanos se declaram felizes que Bush vai embora. Praticamente um de cada três o considera o pior presidente da história.
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Dentro de vinte e quatro dias, os EUA terão um presidente que nomeia, para lidar com questões referentes à ciência, nada menos que um ... cientista! Não é genial?
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Em Covina, na Califórnia, ocorreu mais um daqueles massacres que um ou outro profeta do laisser faire ainda não acredita ter nada que ver com a fácil disponibilidade das armas de fogo: um ex-marido vai a uma festa de Natal na casa dos familiares da ex-mulher, vestido de Papai Noel, e abre fogo indiscriminadamente. Foram nove mortos. Dez crianças ficaram órfãs. O cabra ainda explodiu a casa, o que lhe rendeu queimaduras de terceiro grau que parecem ter sido a razão de seu posterior suicídio, já que ele tinha uma passagem de avião para o Canadá na manhã seguinte. Acabei encontrando a cobertura local do massacre: Aqui, o jornal da região. Aqui, uma galeria de fotos. Aqui, o xerife conta a história. Aqui, a terrorífica gravação do telefonema ao 911 feito por uma sobrevivente.
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Uma das marcas de 2008 foi a radicalização do movimento estudantil, e ela chegou a uma das veneráveis instituições de ensino superior dos EUA, a New School, em Nova York. O prédio da pós-graduação foi tomado durante três dias e liberado pelos alunos ontem, com algumas conquistas. A reivindicação mais importante, a renúncia do impopular presidente Bob Kerrey, ainda terá que ser negociada. Kerrey já havia recebido um “voto de desconfiança” dos professores, por uma margem de 74 a 2. Em minha carreira de professor, já vi o magistério aprovar votos de desconfiança a administradores. Mas jamais por 74 a 2. Kerrey, no entanto, continua por lá. O movimento dos alunos incluía alas bem radicalizadas (obrigado ao leitor Evandro por me chamar atenção aos acontecimentos na New School).
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Depois de abrir mais de 30.000 processos contra usuários de música que compartilham arquivos, parece que a indústria fonográfica descobriu o que até Chico Bento sabia: esses processos não detêm a circulação de mp3 via internet e criam um desastre de relações públicas para a indústria. Pelo menos é o que afirma o Wall Street Journal, noticiando uma decisão que depois ecoou nas universidades, instituições onde essa questão é relevante e premente. A venda daqueles artefatos artificialmente inflacionados, os CDs, continua despencando.
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Lá no Bruno Ribeiro, há uma entrevista bacana com Elza Soares.
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Gostei demais, muito mesmo, da série pós-apocalíptica da CBS, Jericho, que durou menos de uma temporada e meia. Como podem cancelar aquilo? A série é baixável por aí, com legendas em português, inclusive. Merece um post, em breve.
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O Biscoito Fino e a Massa tem comunidade no Facebook. Se você usa o serviço, passe por lá.
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Atualização: O brasileiro Raphael Neves é aluno da New School e tem blog com fotos, vídeos e informações sobre a ocupação.
Escrito por Idelber às 04:54 | link para este post
| Comentários (39)
Luiz em dezembro 27, 2008 7:53 AM
#2
Caro Idelber
É lamentável que alguém use o disfarce de Papai Noel, em uma mostra de esperteza (mas que não parece uma inteligência muito acurada) para fazer o que fez. Parece que não foi só arma-de-fogo que ele usou, mas alguma coisa para provocar a queima da casa (a conferir posteriormente). Ou seja, o agressor matsria de qualquer maneira.
MAS, não há sombra de dúvida que a possibilidade da posse da arma de fogo é PERIGOSÍSSIMA!
No Rio de Janeiro da minha infância (pré-governos militares) armas talvez existissem em bom número, mas circulavam pouco e sua exibição não trazia boa indicação ao possuidor da mesma (com as ressalvas para aqueles que as conduziam profissionalmente). Havia (pelo que pude saber depois) muitos 32'. Há ponto do 38´ ser chamado de 'trezoitão' (essa expressão eu me lembro), em uma referência certamente a sua potência!
O então famoso 'Mineirinho' era temido por manejar duas 45'! Mas a imprensa insistia sempre no jargão "arma de uso exclusivo das Forças Armadas". Era como se 'Mineirinho' burlasse a linha da decência e usasse uma "arma de guerra" contra a "pobre" polícia. Esta última tinha algumas 45', especialmente nas mãos de Le Cocq (ver em O Cruzeiro, Manchete). E tinha as metralhadoras INA. As INA eram uma arma que, aos olhos infantis, timidamente se assemelhava as armas que víamos em seriados televisivos.
Ainda assim, a notícia de uma rajada de INA trazida por um colega de escola, e não noticiada na imprensa (e nem no Repórter ESSO) foi motivo de intensas confabulações sobre o poder (mortífero) da mesma. Foi ainda uma metralhadora INA que protagonizou (logo depois da Redentora) o primeiro assalto (pelo menos o mais divulgado), com armas automáticas.
Hoje na cidade do Rio de Janeiro TODO MUNDO CONHECE ARMAS, e consegue distinguir seus estampidos. Aliás a língua portuguesa também sofreu com esta situação bélica na cidade, o termo 'munição' que um dia quis dizer coleção de projéteis, hoje quer dizer uma bala (um projétil). Hoje quando se fala em arma, se fala em 'munições'!
Detalhe: em nosso país armas de fogo são controladas! BOAS FESTAS.
Paulo Z em dezembro 27, 2008 8:13 AM
#3
1 - Acho um tanto bobo pensar que ele não daria um jeito de conseguir uma arma por mais ilegal que fossem. Enfim, não dá pra fazer exercícios de "e se a realidade fosse outra", mas me parece ingênuo demais pensar num cara na situação dele pensando "oh puxa, queria matar aquelas pessoas, mas droga, não há armas no wal-mart".
2 - Jericho teve uma excelente primeira temporada, mas me parece uma série que foi feita só pra ter uma temporada mesmo.
O melhor da série é o clima de "não sabemos o que está acontecendo, só sabemos que é muito muito muito ruim"; é inevitável numa história dessa de que no que ela se extenda perca gradativamente seu realismo em prol de algo como ficção científica, que é o que aconteceu na segunda temporada com os governos paralelos, as cidades mercantes que enforcam pessoas em públicos, etc.
Sblargh em dezembro 27, 2008 9:31 AM
#4
Olá Idelber,
Comentando também no modelo "tópicos", como seu post:
1) É mesmo uma boa notícia a nomeação do cientista. Foi por essas e outras que a Nature, que é, ao lado da Science, a mais importante revista científica do mundo, escreveu em um editorial (que discutia as políticas para a ciência das candidaturas republicana e democrata), em 30/10/2008 : “This journal does not have a vote, and does not claim any particular standing from which to instruct those who do. But if it did, it would cast its vote for Barack Obama”.
2) É incrível como ainda há gente que não vê o perigo de se manter o acesso fácil às armas. Trabalhei em pronto-socorros de BH e via cotidianamente as catástrofes pessoais que tal medida causa. Lembro-me do desserviço que a Veja fez naquela reportagem de capa a favor da não proibição de venda de armas.
3) Não é só nos EUA que o movimento estudantil está ganhando força. Veja a Grécia. Mesmo aqui na França os alunos dos liceus estão em pé de guerra com o Sarkô, por causa do seu plano para reduzir o número de professores.
Abraço e boas festas para você e toda sua família! Beije Beagá por mim...
Leonardo
Lelec em dezembro 27, 2008 9:40 AM
#5
Como a maioria das coisas, Bush até teve o seu ponto positivo. Aliás, dois:
* Ele admitiu que errou na questão do Iraque. Coisa que nenhum presidente brasileiro faria em relação a erros muito menos sérios. Na verdade, eu não esperava isso dele.
* Posso estar errado, mas os povo americano não será o mesmo depois dele. Talvez seja ingenuidade minha, mas acho que a maioria dos norte-americanos típicos não se acham mais tanto o centro do universo. Não estou me referindo aos cidadãos de L.A., Boston, Chicabo, NY, Frisco ou Miami e, sim, ao daquele cinturão que inclui Missouri, Texas, Lousiana, Oaklahoma...vc sabe ao que me refiro.
Abração e ótimo 2009!
JULIO CORRÊA em dezembro 27, 2008 9:53 AM
Raphael Neves em dezembro 27, 2008 11:31 AM
#7
idelber:
amanhã,à meia noite,entrevista com o juiz sanctis
na rede tv!
romério
romério rômulo em dezembro 27, 2008 11:44 AM
#8
Oi, Raphael, valeu! Já coloquei uma atualização no post enviando o pessoal ao seu blog.
Idelber em dezembro 27, 2008 11:47 AM
#9
É muito bom ver o movimento estudantil voltando a mostrar sinais de vida depois de alguns anos de letargia total - tendo ficado tão quieto justo em um momento que ele precisava ter gritado alto.
É verdade que antes dos acontecimentos na New School e na Grécia, tivemos um 2007 bem agitado aqui no Brasil - com ocupações de reitoria pela país, a começar pelo caso da USP causado pelos famosos e bisonhos decretos serristas.
No entanto, ver casos análogos em países desenvolvidos tem um significado especial, principalmente na Europa, ora infectada pelo vírus do racismo, da xenofobia e do fascismo - e não é exagero da minha parte, é real.
Aqui pelo Brasil, por exemplo, fiquei sabendo que os alunos que ocuparam a reitoria da PUC-SP há um ano, reagindo contra um processo de desmonte e descaracterização feito pela última gestão, felizmente foram inocentados em um dos processos que sofreram, ainda que tenham sofrido punições administrativas da Universidade.
Quanto às armas de fogo, antes de mais nada, eu gostaria de deixar claro o meu repúdio a um Estado que permite sua livre circulação assim como penso que a simples posse delas por parte dos cidadãos é contrário à civilidade.
Nos Estados Unidos, onde o sistema judiciário assim como a polícia funcionam relativamente bem, seria muito fácil resolver o problema simplesmente proibindo a sua livre circulação.
No Brasil, entretanto, as coisas não são tão simples - na verdade, nunca é por aqui. O problema nessas terras diz respeito a um caso que envolve desde a porosidade das fronteiras até a corrupção e a incompetência do sistema judiciário.
O recente plebiscito que tivemos, por exemplo, foi uma grande pasmaceira. O governo apareceu propondo que se acabasse com a venda de armas de fogo, ao mesmo tempo que não apresentou sequer um plano para combater o tráfico de armas - que envolve até armamento pesado de guerra. Ressalte-se que também não foi apresentado nada concreto em relação a um sistema nacional de combate ao crime.
Com isso, foi perdida uma ótima oportunidade para se acabar com a venda de armas no país porque não se ofereceu uma contrapartida miníma para população; é elementar que a retirada de um direito tem sempre de vir acompanhada de garantias reais de segurança na medida que essa é a regra básica de civilização; deu-se os argumentos necessários para eles vencerem, porque trabalhar com o medo alheio é o que ainda os mantém vivos. Será que foi incompetência ou desonestidade mesmo?
Hugo Albuquerque em dezembro 27, 2008 1:42 PM
#10
Parece que a votação contra o Kerrey foi 269 a 8, segundo o NYT.
João Paulo Rodrigues em dezembro 27, 2008 2:31 PM
#11
JPR, parece que entre os professores, segundo o NYT, foi 74 a 2 mesmo. Provavelmente essa é uma votação mais ampla, incluindo-se instrutores, professores de tempo parcial, etc. Pelo menos é o que eu entendi.
Idelber em dezembro 27, 2008 3:36 PM
#12
Idelber, rápido: um post sobre a [mais nova] chacina israelense em Gaza.
Guilherme Póvoas em dezembro 27, 2008 8:23 PM
#13
Idelber, rápido, recupere aquele debate sobre Israel e Palestina, com ou sem o Pedro Dória.
Melhor seria com ele, afinal ele me obrigou a ler Alan Dershowitz.
fm em dezembro 27, 2008 10:29 PM
#14
Cara, que legal vc ter gostado de Jericho!!!! Eu amei! E odiei o cancelamento, claro!
* * *
Veja The West Wing! Sério, corra e veja! E leia esse último livro de Grisham, "O Recurso", que se passa no Mississipi e lida com pressões da indústria para nomear um juiz ao Tribunal de Apelações daí. Leio sempre as obras dele, que são ambientadas onde você leciona.
* * *
Feliz ano novo, meu caro!
Gravatai Merengue em dezembro 27, 2008 10:45 PM
#15
Gravata, meu querido, confesso que nunca tinha ouvido falar desse livro do Grisham. Sugestão anotada.
Sobre a chacina de hoje: não estou em condições de escrever, ainda. Tenho pilhas de links, imagens, vídeos.
Mas, pela primeira vez, a máquina assassina conseguiu me privar de uma das minhas amigas. Se até nos blogs brasileiros que justificam as chacinas israelenses, o título é "Israel bombardeia de olho nas eleições", o que mais há que se dizer? Nojo, nojo infinito da máquina assassina.
Por enquanto, aqui, luto pela minha amiga. Tentarei escrever algo para segunda.
Idelber em dezembro 28, 2008 3:09 AM
#16
Puxa, Idelber, que triste... Sinto muito pela sua amiga.
Que você encontre serenidade nesses momentos trêmulos.
E que sua dor se converta, aqui no blog, em um pungente manifesto contra a barbárie assassina.
Abraço,
Leonardo
Lelec em dezembro 28, 2008 5:53 AM
#17
"Melhor seria com ele, afinal ele me obrigou a ler Alan Dershowitz"
Isso deveria proibido pela Convenção de Genebra.
Andre Kenji em dezembro 28, 2008 7:33 AM
#18
Acho que Kerrey é difícil de cair porque ele trouxe muito dinheiro para a New School. Inclusive via Hillary Clinton.
Andre Kenji em dezembro 28, 2008 7:34 AM
#19
Aliás, o Grisham é um dos principais financiadores do Innocence Project(Aquele que usa testes de DNA para exonerar pessoas inocentes da cadeia) no Mississipi.
Andre Kenji em dezembro 28, 2008 7:51 AM
joêzer em dezembro 28, 2008 9:54 AM
#21
Antes de mais nada, minhas condolências, Idelber.
No entanto, não me causa surpresa essa recente - e tétrica - ação. Desde a recente atuação de Israel no Líbano creio que as coisas ficaram suficientemente claras: É a banalização do mal; é a guerra convertida em atividade econômica perene de um país e como arma eleitoreira de seus políticos. Se por aqui nossos dôtores fazem cálculo eleitoral em cima do quanto podem se beneficiar com obras nas vésperas das eleições para poder chegar ou se manter no pudê, por lá os marqueteiros estão calculando quantos pontos você sobe se você bombardear uma vilazinha palestina. Isso sem falar que esse é o ramo do qual boa parte dos magnatas daquele país vivem; a guerra é eterna porque dá lucro - e não é pouco.
Hugo Albuquerque em dezembro 28, 2008 12:04 PM
#22
Oi Idelber, o Israel publicou essa matéria aqui no Tempo (http://www.otempo.com.br/otempo/colunas/?IdColunaEdicao=7418) de sábado. Espero que goste. Grande abraço, foi um prazer enorme conhecêlo e um ano novo muito feliz, mesmo com o horizonte sombrio no oriente.
Lauro Mesquita em dezembro 29, 2008 10:56 AM
#23
O mascate de idéias e o pós-jornalismo independente
Final de ano é comilança, beberança e falação. E uma das boas surpresas desta temporada em Belo Horizonte foi um encontro de blogueiros em que estive de contrabando - num convite de última hora do Lauro, meu "sobrinho postiço", à saída da sessão do mafioso "Gomorra".
Há tempos escrevo sobre a vitalidade dos blogs e a sua importância nesta encruzilhada em que meteram[-SE] o jornalismo - a música, o audiovisual... E o convescote em Santa Tereza [e, alta madrugada, Santa Efigênia], com uma dúzia de amigos virtuais/reais, deu co[R]po e [C]alma a esta percepção [ou, a esta altura, constatação].
De todos os blogueiros presentes, os dois únicos jornalistas éramos eu [a rigor, um semi-blogueiro, se é que isso existe] e o Lauro [um "blogueiro oral" que fala com vivacidade sobre tudo e todos, pendura posts onde haja um varal de letrinhas, mas não mantém um cafofinho virtual pra chamar de seu - fala sério, Laurão!!!].
A mesa era dominada por profissionais do direito, além de um psiquiatra e uma escritora. E o ímã desta conjunção de forças e interesses foi um cara carismático [inteligente, perspicaz] chamado Idelber Avelar.
Professor de literatura latino-americana na Universidade de Tulane, em Nova Orleans, Idelber é o homem à frente de um dos mais bem-sucedidos [e qualificados] observatórios "não-profissionais" [?!?]do emaranhado político do país, o blog O Biscoito Fino e a Massa [www.idelberavelar.com].
Ex-líder estudantil, ex-metaleiro e Ph.D pela norte-americana Duke University, Idelber amealhou o primeiro lugar dentre os 86 ensaios submetidos ao Concurso Internacional de Monografias Machado de Assis, promovido pelo Ministério das Relações Exteriores em 2006.
Torcedor do Galo e fuçador inveterado do fabulário futebolístico tupiniquim, alterna-se também entre a literatura e a música, com igual fervor. Mas é a "cobertura" política que dá sabor [frescor, lastro] especial ao seu biscoito, além de sustança para as 5.000 visitas diárias que recebe, em média.
O Biscoito Fino e a Massa veio à luz em outubro de 2004. Seu grande feito é simples: a capacidade de posicionar-se criticamente, com clareza e objetividade, sem perder a ternura. Pode-se divergir de Idelber aqui ou acolá, mas é preciso reconhecer a capacidade argumentativa e a pertinência de suas opiniões, geralmente bem fundamentadas. Em suma: nada que o jornalismo não devesse ser.
É esta a questão trazida à mesa pela nova ordem digital, na era da informação: se o tráfego de informação não é mais uma prerrogativa de quem detém os meios [ou seja, dos donos dos jornais e das emissoras de rádio e TV] e se um blog feito por não-jornalistas e desvinculado de corporações pode desfrutar de respeito e credibilidade [em certo circuito, que seja], o que, raios, dará sentido aos veículos de origem analógica?
O diferencial do pós-jornalismo [este que prescinde de jornalistas] talvez resida justamente na sua independência - uma bandeira que, um dia, o jornalismo desfraldou em seu favor. E é bom, aqui, não confundir independência com desatrelamento a interesses - porque não há idéia flexionada no plural que não esteja revestida de alguma ideologia, no sentido da visão de classe ou de grupo.
Mas há uma diferença. O blog é uma tribuna privilegiada de manifestação da opinião individual. Com vocação real [supostamente, ao menos] para a defesa de interesses da sociedade - e não das corporações ou governos, financiadores dos altos custos de produção da indústria de informação [e entretenimento].
É o espaço em que o jornalista de ambições independentes pode de fato se posicionar, para além do papel de mascate de idéias que a lida diária [e esta antiga mania de se rabalhar sob soldo, para sustentar o velho vício de comer] impõe.
É onde pode despir-se da formularização imposta pelo formato [leia-se, a linha gráfica e editorial] ou os mil e dois podes e não-podes dos manuais de redação e dos chefes.
O Biscoito Fino e a Massa é um belo retrato destes tempos. Se sua amplitude provém do fato de ser feito por um pesquisador acadêmico talentoso, sua legitimidade tem origem na audiência qualificada e atuante [um exército de fontes de informação técnica ou de alcova] e sua independência mora no fato de ninguém precisar dele para viver [ou, de outro modo, dos mais atuantes terem renda assegurada de outros lados].
O pós-jornalismo se erige sobre os escombros de um jornalismo engessado, envelhecido e defasado. É o jornalismo em versão 2.0: desencastelado, de carne e osso. E sem atravessadores.
Lauro Mesquita em dezembro 29, 2008 11:40 AM
#24
Acho sensatas as considerações do Pedro Dória sobre a situação na Palestina...
"Não existe um único conflito armado no mundo no qual há mais diplomatas envolvidos e recursos internacionais voltados do que aquele entre Israel e seus vizinhos palestinos. Tais recursos provavelmente seriam melhor empregados alhures. Afinal, há muitos cantos do mundo onde há conflitos mais sérios e para os quais quase nenhum recurso é dedicado.
Isto posto: é difícil justificar a morte de 280 pessoas. Há muitos civis na conta.
Mas, para compreender esta história, é preciso escapar ao maniqueísmo da Israel cruel contra palestinos indefesos. Este ataque a Gaza é um jogo de cartas marcadas onde no comando de um lado, do outro, e nos arredores, não há um só inocente.
No sábado à noite, o ministro das relações exteriores egípcio, assim como todos seus pares árabes, mostrou sua indignação contra Israel. Mas, quando perguntado especificamente, Ahmed Aboul Gheit disse: Israel havia deixado claro que se o lançamento de foguetes continuasse, haveria retaliação. O aviso foi feito mais de uma vez. ‘O responsável pelo ataque é o Hamas.’
Quando começou a despejar foguetes contra Israel, o Hamas esperava um contra-ataque. O Hamas precisa de Israel no ataque, porque raiva de Israel alimenta suas vitórias eleitorais. O Hamas precisa do Likud no poder em Israel porque isto garante o confronto. Negociações de paz, hoje, favorecem ao Fatah.
O Fatah, no comando da Cisjordânia, imediatamente condenou o ‘ataque covarde’ de Israel a Gaza. Mas também de presto fez informar à imprensa israelense que estava pronto para assumir o governo de Gaza tão logo o Hamas caísse. Não há nada que o Fatah deseje mais do que a derrubada do Hamas.
Israel é, freqüentemente, condenada internacionalmente pelo bloqueio que impõe a Gaza. A vida fica muito difícil na faixa, por conta. Mas Gaza faz fronteira com o Egito que também lhe impõe um bloqueio. O Egito, país árabe, raramente é lembrado quando as críticas aparecem. O Hamas, no entanto, é filhote da Irmandade Muçulmana egípcia e a ditadura do país não quer a irmandade nem longe. O Egito, parece claro, foi informado anteriormente por Israel que o ataque viria e as condenações são só isso: um aceno para as ruas árabes. Israel sai como vilã mas cumpre o papel que o Egito deseja.
O Egito não está sozinho. Também a Arábia Saudita faz críticas a meia boca mas bem preferia ver o Hamas pelas costas. Ambos os países, como inúmeras outras nações árabes, vêem o grupo político e terrorista como uma extensão do governo iraniano. E o Irã é uma ameaça para os árabes.
E: Israel ofereceu negociação. O governo Kadima-Trabalhista queria a renovação do cessar-fogo. A continuidade do lançamento de foguetes os faz parecer fracos; a ofensiva militar não é seu forte, o Likud sempre parece melhor nisso. Israel ofereceu afrouxar o bloqueio, pediu ao Egito que interviesse, sugeriu soltar mais prisioneiros. Foi uma opção do Hamas não atender aos pedidos.
Reação desproporcional? Trezentos mortos é a conta da política. Com eleição pela frente, um governo fraco quer parecer ao menos tão forte quanto quem promete sangue.
É uma encurralada política da qual não há saída. O Hamas não é vítima – vítimas são os palestinos civis mortos. Vítimas, diga-se, não apenas de Israel, mas também de uma opção política de seus líderes. No cálculo do Hamas, sua sobrevivência política depende de seu povo continuar sangrando. O ataque de Israel, no entanto, desperta a raiva na rua árabe. E mais inimigos lhe cria. Países como Egito e Arábia Saudita não vêem opção que não condenar, chamar de desproporcional – mas as palavras nada têm a ver com suas opiniões reais.
Há diplomatas demais, dinheiro demais, organizações demais, dedicadas ao conflito entre Israel e Palestina. O nó continua lá. O nó continua com o mesmo tamanho. Melhor seria dedicar o esforço a outros conflitos às vezes bem mais sangrentos, uns tantos na África, onde talvez haja alguma chance de encerrar o problema.
Uma correção: No post de sábado, afirmei que desde o cessar-fogo, quase 60 foguetes haviam sido lançados contra Israel. A informação estava errada. Desde o fim do cessar-fogo, dia 21 de dezembro, é que quase 60 foguetes foram lançados."
Clines em dezembro 29, 2008 12:28 PM
#25
grande post do Idelber sobre a matança israelense!
HRP Mané em dezembro 29, 2008 12:39 PM
#26
Eu também gostei muito de Jericho, inclusive do final alternativo. Pelo que eu tinha lido a grande maioria das críticas sempre foram muito favoráveis à série, porém acho que não emplacou muito devido à concorrência com Lost.
Andei lendo que a série voltaria. Vou voltar a procurar. Mas realmente vale a pena ver.
========
No Brasil em 2004 foram vendidas pouco mais de 7 mil armas de fogo legalmente. Levando-se em consideração que todo policial pode comprar um pistola 380 para uso pessoal veremos que o índice de venda de armas de fogo no Brasil é baixíssimo.
Infelizmente, como não produziu os resultados esperados por um grupo específico, pouca gente leu o Relatório Final da CPI sobre Tráfico de Armas. Recomendo. Leiam.
A legislação brasileira é uma das mais restritivas do mundo. E nem por isso resolveu o problema da violência.
Parem de culpar a Veja por algo que é única e exclusivamente culpa do Estado.
Porque será que ninguém se deu o trabalho de comparar os índices de assassinatos por armas de fogo do Brasil com os EUA? Não pode? Porque não?
Pablo Vilarnovo em dezembro 29, 2008 1:22 PM
#27
Oi, Idelber. Passei pra dar um beijo e desejar feliz ano novo.
O post sobre Israel está com os comentários desabilitados? De qualquer forma, denúncia importantíssima e excelente análise. O biscoito, como sempre, em cima do lance.
christiana em dezembro 29, 2008 2:36 PM
#28
Obrigado, Chris, sim, estão desabilitados. É a política editorial para esse tema, a não ser muito esporadicamente. Igualmente, para você e os seus, um beijão e um super 2009.
Idelber em dezembro 29, 2008 4:27 PM
#29
Idelber,
O Paulo Lacerda foi definitivamente afastado da ABIN.
Hugo Albuquerque em dezembro 29, 2008 5:12 PM
#30
Uau. Esperaram a hora exata do fim de ano, hein? Que vergonha.
Idelber em dezembro 29, 2008 5:15 PM
#31
idelber, eu perdi a explicação, desculpe: por que vc tirou os comentários no seu post sobre os ataques de israel a faixa de gaza? por que essa "política editorial"?
abraços.
lu em dezembro 29, 2008 7:10 PM
#32
nossa, professor. estou chocada. porque tô achando a shakespeare sister TÃO mole em relação à chacina. ela apresentou uns links ok (http://shakespearessister.blogspot.com/2008/12/open-thread-on-israel-strike-on-hamas.html), mas não se posiciona mesmo. é inacreditável isso. e aquela ministra disse q vai estabelecer uma nova realidade. eu acho q eles vão ocupar gaza, embora os especialistas digam q não. como vc nao deixou espaço pra comment, pode apagar à vontade.
outra coisa é pra vc ler a entrevista do rodrigo de grandis na folha. foi algo.
mary w em dezembro 29, 2008 7:29 PM
#33
Lu, você não perdeu a explicação. Ela não foi dada. É uma política editorial que não está em discussão, embora quem conheça o assunto por dentro possa imaginar meus motivos.
Idelber em dezembro 29, 2008 7:40 PM
#34
Eu compreendo os motivos, das piores maneiras possíveis.
Andre Kenji em dezembro 29, 2008 7:54 PM
#35
Idelber,
Como disseram, veja "The West Wing". E, se não conhece, veja "Sopranos", "A Sete Palmos" e "In Treatment" (Em Terapia). Todos melhores que Jericho...
Heberth Xavier em dezembro 30, 2008 5:07 PM
#36
O video eh chocante. Eh um sonho pra quem precise de razao pra detestar israelis.
Eu nao preciso.
Ivan Moraes em janeiro 1, 2009 1:25 AM
#37
"um de cada três o considera o pior presidente da história":
NOSSA!
Vai ver que so entrevistarm petistas!
Eu tambem moro aqui nos EUA, Idelber: os EUA ficaram tao poderosos que foi preciso um americano pra destruir tudo que eles construiram. Lamentavel.
Ivan Moraes em janeiro 1, 2009 1:29 AM
#38
Paz, bem e feliz 2009!
Caro Idelber:
Feliz com Al Franken?
No mínimo o Senado dos EE.UU.A.
ficará mais divertido...
Eugenio Hansen em janeiro 5, 2009 8:16 PM
#39
Idelber, muito se fala nos escudos humanos. No caso desse vídeo abaixo seria um escudo humano voluntário? E qual a diferença dessa cena para aquela da praça da paz celestial?
A garota e os soldados:
http://br.youtube.com/watch?v=SQyIKyd2gqA
wilson cunha junior em janeiro 8, 2009 8:36 PM
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