Como Marx, Gilberto Freyre pertence àquela categoria de pensadores sobre os quais, com freqüência, jornalistas, ideólogos, polemistas, funcionários e leitores de revista e jornal já têm, ou supõem ter, opinião formada antes mesmo do encontro com os textos. Se com as citações de Nietzsche você pode montar (com diferentes graus de edição, claro) tanto o “proto-nazista” como o semitófilo anti-germânico, tanto o positivista como o crítico radical da ciência, tanto o circunspecto prosador filosófico como o enlouquecido aforista, com Freyre ocorre algo análogo. Freyre, o celebrador da mestiçagem, adocica-a ao ponto de ofender a história de opressão real de negros e mulatos, mesmo tendo sido o texto de Freyre o momento mais intenso de descrição e de arqueologia dessa história de violência, mesmo tendo sido Freyre quem mais amou e compreendeu a cultura e a especificidade de negros e de mulatos brasileiros (e das negras e das mulatas, evidentemente). Freyre demolindo analiticamente o patriarcado escravocrata brasileiro com Casa-Grande e Senzala coexiste com o Freyre salazarista, do abraço a Magalhães Pinto, numa marcha binária bastante previsível.
Lidar com com essa “contradição” do texto de Freyre – que não é uma contradição real, claro, mas só a história de vida de um ensaísta e antropólogo multifacetado que viveu mais de 80 anos – não seria tão complicado se Casa-Grande e Senzala não representasse o relato, a historinha, a narrativa, a ficção, se queres, com que os brasileiros nos inventamos como país. Coincido com Darcy Ribeiro em que, da história do que se escreveu no Brasil, muitos livros poderiam ser retirados e sentiríamos uma lacuna irreparável por cada um deles. Mas só um livro, Casa-Grande e Senzala, não poderia sair sem que o Brasil mesmo não passasse, com essa ausência, a ser outra coisa.
Daí não se segue que CGS seja o “melhor” livro brasileiro. Mas ele é o que captura e dá a versão mais acabada ao complexo de mitos que fundam o país. Isso faz com que mesmo a bibliografia especializada sobre Freyre, com notáveis exceções (pdf), com freqüência recaia numa oscilação previsível entre dois pólos, a denúncia do adocicamento versus a celebração da mestiçagem. O Fla x Flu não seria daninho se não começasse a funcionar, neste caso, como desculpas para não se ler os textos.
Nessa história de desleituras de Freyre, alguns mitos se propagaram e passaram a “fazer parte” da própria obra, às vezes, para complicar a situação, com a cumplicidade do próprio Freyre. Sobre a vilificada “democracia racial”, ainda há quem acredite ter sido noção sintetizada, defendida ou apresentada em Casa-Grande e Senzala.* Os fatos históricos (pdf) são, claro, que 1) nem esse termo nem sinônimos dele jamais aparecem no livro; 2) Arthur Ramos usa-o num seminário em 1943; 3) ele passa a circular um bocado pela boca de Roger Bastide nos anos 40/50; 4) é utilizado por líderes do próprio movimento negro para descrever uma situação supostamente existente no Brasil nos anos 50 (veja o Discurso de Abdias ao Congresso Negro de 1950), antes de que Freyre o mencionasse num texto de 1962.
Nem o “mito da democracia racial” nem o “mito do mito da democracia racial” -- ou seja, o mito de que alguém no Brasil algum dia haja acreditado em tal fenômeno –- deveriam monopolizar o debate sobre Freyre, mas o fato é que o fazem. Entre os mitos que se propagam, nem todos são igualmente falsos e nem todos têm o mesmo poder de circular e gerar mini-mitos.Alguns são bem interessados e nefastos, como a citação e a edição seletivas que sustentam a queixa de que uma conspiração da esquerda com a USP tenha impedido que Freyre fosse bem lido no Brasil. Não há hipótese de que você veja o nome de Freyre mencionado, por exemplo, em blog pago pela maior revista semanal brasileira sem que essa cantinela seja repetida com abundantes pontos de exclamação.
Esse terreno minado em volta de Freyre faz com que vários críticos e ensaístas que poderiam escrever sobre sua obra terminem não fazendo-o. Eu mesmo, que em vinte anos publiquei estudos sobre vários prosadores brasileiros, nunca havia escrito uma linha sobre Freyre. Gozando da magnífica paz de um maravilhoso Thanksgiving sem trabalho (rarará, contorça-se, leitor ressentido com a desconstrução das datas sagradas), pus fim a essa lacuna e concluí um mergulho de muitas semanas de trabalho com o texto de Gilberto Freyre, que rendeu um artigão gorducho.
Sim, acabei de escrever um calhamaço de 50 páginas sobre Freyre. É um estudo do arranjo dos gêneros e da sexualidade – em especial da masculinidade – na obra do pernambucano. Bom, na verdade em Casa-Grande e Senzala, Sobrados e Mucambos e até no chato e prolixo Ordem e Progresso. Estou contente, acho que ficou bom.
Não é, evidentemente, texto circulável na internet antes de que seja publicado pelos devidos – e lentíssimos -- canais acadêmicos. Mas penso, sim, usar o trabalho feito para gerar um ou dois posts sobre Freyre nas próximas semanas. Quem quiser se munir de um exemplar de Casa-Grande e Senzala, dos textos da Biblioteca Virtual Gilberto Freyre e do que mais desejar, que seja bem vindo. Pode ficar sendo um mini Clube de Leituras.
PS: Alex Castro fez um magnífico exame de admissão à tese doutoral, escrevendo um de seus ensaios sobre Freyre. Não só foi aprovado como foi merecedor de distinction, honraria rara em Tulane. Para o catatau que acabo de escrever, eu me nutri do trabalho do Alex, que levantou livros que eu não conhecia.
PS 2: A foto que ilustra o post é de 1954 e vem da Biblioteca Virtual.
* Contrariando a ética blogueira de sempre dar o link, omito o nome do(a) infeliz autor(a) de publicação acadêmica de 2002, onde se diz que o "conceito teórico" de democracia racial foi desenvolvido em Casa-Grande e Senzala. Seria anti-freyriano correr o risco de prejudicar a carreira de alguém com um post de blog.
Idelber, boa lembrança do livro do Benzaquen. Falando em comentadores, o que acha das biografias mais recentes, como a da Palhares-Burke (Um Vitoriano nos Trópicos)e a da dupla Giucci-Larreta (Gilberto Freyre: uma biografia cultural)? Teve oportunidade de lê-las? Eu li a segunda, que é um catatau, e gostei da parte sobre a formação européia e americana do Freyre. Serve para matizar bastante a ponte Franz Boas-Freyre...
Oi, João Marcelo, li as duas. Acho que o volume da Folha é um bom trabalho de divulgação e organização de coisas já sabidas, não muito mais que isso. Tem o mérito, claro, de botar tudo lá, num livrinho acessível. A pesquisa de Pallares-Burke, sim, já é imprescindível. É um estudo original sobre um período, vasculha e sistematiza informação nova. Há uma boa resenha do livro dela aqui.
Os equívocos e os mitos em torno de Freyre fizeram, ao final, que minha leitura de Casa Grande e Senzala fosse ainda mais prazerosa e proveitosa. Nada melhor que ir derrubando um absurdo, um preconceito e um erro a cada página.
Idelber,
sei que é um comentário fora do lugar, mas queria desfrutar, se possível, da gentileza das suas informações.
Penso em ficar em torno de 45 dias em Nova Orleans com minha esposa e meu filho pequeno, fazendo um curso de aperfeiçoamento de inglês.
Você teria como me informar:
a) os melhores meses do ano para se fazer esse tipo de viagem para Nova Orleans;
b) se há (se sim, quais) alguma escola que forneça cursos de inglês com essa duração de um mês e meio;
c) se há alguma imobiliária interessante para se contatar a fim de se conseguir alugar um apartamento para esse período.
Independentemente de você dispor ou não dessas informações, agradeço antecipadamente, porque frequentar "O Biscoito Fino e a Massa" foi um dos prazeres intelectuais de 2008 deste cara de esquerda e torcedor do Galo que hoje escreve procê.
Abração.
Paulo Machado
Oi Idelber, estou esperando ansiosamente seus posts-filhos do artigo que acabou de terminar. Obrigada pelo link de Guimarães, eu não conhecia esse artigo.
Concordo 100% com vc de que o "conceito teórico" de democracia racial não foi desenvolvido no CGS, mas estou tentada a fazer uma pergunta pra você: essa "hipótese" de certa forma acreditada por tantos não seria fruto da forma como Freyre descreve as relações ditas de raça no livro?
Um grande abraço :)
As confissões e denúncias reunidas pela visitação do Santo Ofício ... Read Moreàs partes do Brasil constituem material precioso para o estudo da vida sexual e de família no Brasil do século XVI e XVII. [...] Deixam-nos surpreender, entre as heresias dos cristãos-novos e das santidades, entre os bruxedos e festas gaiatas dentro das igrejas, com gente alegre sentada pelos altares, entoando trovas e tocando viola, irregularidades na vida doméstica e moral cristã da família -- homens casados casando-se outra vez com mulatas, outros pecando contra a natureza com efebos de terra ou da Guiné, ainda outros cometendo com mulheres a torpeza que em moderna linguagem científica se chama, como nos livros clássicos, de felação, e que nas denúncias vem descrita com todos os ff e rr; desbocados jurando pelo "pentelho da Virgem"; sogras planejando envenenar os genros; cristão-novos metendo crucifixos por baixo do corpo das mulheres no momento da cópula ou deitando-as nos urinóis.
Ananda: Talvez, em parte. Mas o que muitos -- como Hermano Vianna, por exemplo -- argumentariam é que nem foram tantos assim que os acreditaram realmente nessa "hipótese".
Houve um sobredimensionamento do poder que teve essa idéia no Brasil, eu acho :-)
O Antonio Sérgio Guimarães publicou vários artigos sobre a falsa relação entre Freyre e a idéia de democracia racial, expressão que realmente ele nao usa em Casa Grande & Senzala, alias é o mesmo Guimarães que retraça a andança do termo entre Ramos, Bastide, etc, dois autores que na época conviveram com Freyre. Par contre, em CGS ele diz que de todas as Americas o Brasil eh a sociedade que se constituiu mais harmoniosamente quanto às relações de raça...assim com todas as letras, ou seja fala de harmonia racial sim... e também contribuiu (assim como outros antropólogos) pra construção do mito das três raças, a própria estrutura do CGS corrobora essa idéia, começando pelo indio, passando pelo português e indo terminar com o negro...e nao podia ser diferente, grande parte do trabalho dele é baseado nos textos e gravuras de relatos de viagem europeus...
Isso dito, ele é mesmo o pai do que vem a ser chamado de lusotropicalismo, tinha um bom número da revista Lusotopie sobre isso...Isso dito, ha muito que o trabalho do Freyre vem sendo usado e recuperado na academia brasileira e francesa pelo menos, com teses recentes sobre ele...além disso tem antropologo como o Peter Fry, que enxerga ainda hoje a democracia racial como um ideal a ser atingido...ou seja a discussão está longe de se esgotar...
muito legal (e engraçado como soa estranho!) esse estudo da representação da masculinidade na literatura. Parece que tira o macho do seu lugar de padrão, né? Como você ousa estudar isso? :)
Uma pergunta: você não acha que a luxúria, a tara, tem um grande papel nas leituras do Gilberto Freire?
Quando eu pude ler mesmo o Casa Grande e Senzala, eu já conhecia o mito. Eu aprend na escola os rudimentos do que era Casa Grande, do que era Senzala. E minha avó teve empregada, e etc. O mito de certa forma está na cultura popular, chega nela mesmo sendo - 0.1%? - o número de cidadãos brasileiros que leram o livro.
O texto do Alex Castro questiona: como pode um livro chamado Casa Grande e Senzala, que descreve violências e perversões, ser lido como celebrante da democracia racial? Acho que é tara de quem lê. E a tara do próprio Gilberto Freire. A tal luxúria portuguesa. Quê cê acha?
"é impressionante a quantidade de atrocidades, torturas e estupros que um leitor precisa relevar ou esquecer para fechar Casa Grande & Senzala e tachá-lo de livro 'promotor da democracia racial'" (Do Alex Castro).
mas eu vou discordar com vc e com o risério em algo... eu acho que o mito do mito da democracia racial é um mito... :)
a maior descoberta dos meus dois meses falando em raça no LLL é que a maioria dos leitores até nao usa essa expressão mas acredita fielmente nesse conceito, e pregam que o problema do brasil é só economico, é só de classe, não é racial... oras, se o problema nao é racial, se o problema racial está resolvido, e resta o problema economico, da desigualdade, etc, entao é pq parece que somos, para essas pessoas, uma democracia racial sim.
Esse post é um belo complemento aos posts sobre raça do LLL. São as maravilhas da Internet, né? Os posts do LLL, com os respectivos comentários, junto com esse post aqui, e mais sabe-se lá o que vai se juntar a eles no futuro, vão formando uma "obra", talvez pudesse ser até um livro, mas é uma coisa diferente, aberta, de múltipla autoria e que vai se formando espontaneamente, praticamente impensável em épocas pré-blogs.
Nos blogs existem os tags, que agrupam posts com assunto similar. Será que existe alguma espécie de tag "inter-blogs"? Ou seja, algum tag que, usado simultaneamente aqui e no LLL, e em qualquer outro blog que queira participar da discussão, agregue os posts similares de vários blogs em um mesmo lugar?
hahaha, o Alex nos leva ao terceiro grau da brincadeira: o mito do mito do mito da democracia racial :-)
Eu não discordo, Alex. Mas a forma contemporânea do mito, eu acho, é pouco diferente. A forma preferida é "no Brasil o problema não é racial, é social." Esse mito anda aí firme e forte. O que acho é não dá para sobredimensionar o papel do Freyre na produção desse mito.
Daniel, não conheço, mas seria boa idéia, sim :-)
Pedrin, sim, a tara é parte da equação, claro. Trata-se de um mundo hiper-sexualizado. Curiosamente, a senzala é dessexualizada em Freyre, com a exceção dos avanços do senhor sobre a mulher negra e mulata. Há um esforço nítido de Freyre de dessexualizar o homem negro.
Há, inclusive, um trecho de Casa-Grande e Senzala que afirma que os pretos têm paus menores.
Está lá no livro. É um trecho hilário. Comecinho do quinto capítulo.
QUe belo post, Idelber. Ha algum tempo tenho meditado sobre a obra de Freyre e concordo inteiramente contigo como eh dificil mexer nesse vespeiro.
Sobre a dessexualizacao do negro, eh importante entende-la como "estrategia de defesa". Numa epoca em que a negra e a mulata eram sempre hipersexualizadas e vistas como agentes corruptoras da boa moral da familia brasileira, mostrar os senhores brancos como responsaveis pela hiperssexualizacao era uma maneira de responder aos ataques racistas do seculo XIX e do inicio do seculo XX.
Sobre o conceito da "democracia racial", ha muito que ser dito, e acho que a questao foi retomada com outros olhos por gente como DaMatta, Riserio, Peter Fry.
Esses autores tentam estabelecer uma diferenca entre "democracia racial como representacao do Brasil", isto eh, como descricao do estado atual das relacoes raciais no Brasil; e "democracia racial como utopia", em que o ideal de um mundo nao-racializado eh mantido como horizonte e baliza para o combate ao racismo.
A "democracia racial como representacao do Brasil" ajuda a perpetuar e reproduzir o racismo no Brasil. O juiz que nao pune um cidadao que chama o outro de "negro safado" baseado na premissa que no Brasil nao existe racismo, estah obviamente alimentando o racismo.
Ja a "democracia racial como utopia" serviria como paradigma alternativo ao racialista (das cotas, por exemplo) para combater o racismo. A discussao no final se resume a isso: poucas mentes criticas negariam a existencia do racismo no Brasil. A discordancia se dah na forma de combate-lo.
Ao meu ver, a obra de Freyre acaba dando suporte as duas maneiras de encarar o conceito: ha muita "democracia racial como representacao" e muita "democracia racial como utopia", alem, eh claro, de muitas narrativas riquissimas que negam qualquer idilio racial no Brasil. Ha um grande non-sequitur na obra de Freyre, como se a partir das vividas narrativas de Freyre sobre a vida intima dos brasileiros no sec XIX, nao se pudesse concordar com as conclusoes a que ele chega sobre a "mais bem sucedida civilizacao nos tropicos". E essa fissura dah muito assunto.
Acho que Nietzsche e Freire são bem diferentes. Não dá pra falar em um fenômeno análogo. Nietzsche era muitas vezes propositalmente auto-contraditório. Sua preocupação sempre foi maior com a construção de frases (belíssimas, por sinal) que com a coerência de um sistema filosófico. O poeta (que para mim é mais poeta, um grande poeta, que filósofo) chega a literalmente afirmar e negar a mesma proposição em pontos distintos de uma mesma obra. Um Nietzsche completamente coerente e determinado não seria Nietzsche.
Freire, ao contrário, não tentou ser controvertido ou incoerente. As maiores controvérsias sobre seu trabalho resultam da não leitura e da natureza apaixonante do tema. Não se trata de um poeta, mas um pensador (embora com notável talento literário), com proposições e argumentações claras.
Embora não concorde exatamente com a analogia do início do texto, gostei bastante do seu artigo. Parabéns.
Quando eu entrei na faculdade, Freyre estava sendo redescoberto. Daí que era uma coisa da crítica à crítica e etc. Por pura contaminação, eu penso que talvez ele seja um pouco como Marcel Mauss, que o Lévi-Strauss disse que chegou tão perto de "descobrir" o estruturalismo, mas sempre recuava. Por conta das categorias analíticas que usava e coisas assim. Não conseguiu fazer a revolução. Embora tenha deixado todos os escritos para que a revolução fosse feita. Daí que eu penso, e não só hoje, eu já pensava antes, que o Freyre não conseguiu fazer a grande revolução. E abandonar categorias e coisas assim. Mas ele chegou bem perto. E ler Casa Grande & Senzala, com o que a gente tem hoje é uma experiência maravilhosa mesmo. eu acho também, e aí é uma opiniao bastante precária porque baseada em quando estudei CGS na graduação, que ficamos presos no "adocicamento", porque ele fala de afetividade o tempo todo, e aí concluimos que há um "se importar", mesmo que seja violento. é afetivo e ponto. mas o caso é que toda contradição e possibilidade de multiplas leituras, pra mim, vem disso aí. Dele ter na mão um material "maior" que a antropologia da época.
Por acaso estou lendo Casa Grande e Senzala e tenho gostado muito. Mas, acho que esse troço dele exagerar nas péssimas condições de vida do escravo liberto dizendo que ele vivia melhor protegido pela Casa Grande do que após a abolição me parece ser de alguém que vê a escravidão como algo saudoso (vários já falaram isso e me parece meio correto).
E tb esse negócio de dizer que o escravo tinha alimentação até melhor do que o senhor. Acho que é uma idealização da vida do escravo. Ele tem documentos, mas acho estranho essa afirmação.
pode parecer anti-freyriano, mas em nome do pai, do filho do Espirito Santo, de sua capital Vitória, de Minas Gerais, de todas os santos e orixás, faça o favor de, EM NOME DA PRESERVAÇÃO DA IDENTIDADE NACIONAL, derrotar o Grêmio no próximo domingo.
Seria a desmoralização da maior instituição nacional, o ludopédio, se o time treinado por Celso Roth ganhasse o campeonato.
Sei que você tem o trauma de 77, sei que o Sumpaulo é um time ordinário, de meninos amerelos, sei disso tudo e etc e tals, mas não é possível permitir que um time treinado por, com o perdão da má palavra, Celso Roth seja campeão.
O brioso Galo deve repetir a menina Dolores Ibarruri: "No passarán".
P.S A prova de que este campeonato não merece respeito é que chegamos à última rodada tendo como protagonistas Hélio dos Anjos e aquele outro que não mais ouso dizer o nome.
Idelber, excelente texto. Obrigada por tantas informações, principalmente os links. Fui lá conhecer o Alex Castro, simplesmente ótimo, gostei muito. Não declarei ao próprio em um comentário, porque tem que se inscrever, coisa e tal.
Sobre a obra de GF fui uma leitora comum,sem nenhuma análise mais acurada. Entretanto, como hoje trabalho com questões relacionadas à noção de raça, racismo, etnocentrismo, etc., lembrei-me de um texto de Clóvis Moura - Sociologia do Negro Brasileiro (série Fundamentos, Ática, 1986). No capítulo III - Miscigenaçao e democracia racial: mito e realidade - lemos no segundo parágrafo:
"Em outras palavras: estabeleceu-se uma ponte ideológica entre a miscigenação (que é um fato biológico) e a democratização (que é um fato sociopolítico) tentando-se, com isto, identificar como semelhantes dois processos inteiramente independentes. Todos nós sabemos que a miscigenação é um fenômeno universal, não havendo mais raças ou etnias puras no mundo. A Antropologia demonstra esse dinamismo miscigenatório milinar, quer na Europa, quer na África, Ásia ou América. Nada tem, pois, de especial ou específico o fato do português, em determinadas situações especiais, estabelecer contato e intercâmbio sexual com as raças das suas colônias, fato que, em absoluto, significaria democratização social nesse contato e intercâmbio".
Como já disse, não sou especialista em GF (aliás, não sou especialistas em coisa alguma), não sei se a idéia de democracia racial está ou não na obra do mestre em questão, mas sei que dita noção - democracia racial - pode ser um mito social, mas está presente fortemente no imaginário dos brasileiros. Miscigenação, sem dúvida; democracia, no sentido amplo da palavra: democracia social, econômica, política, cultural, ainda não temos. Nem com esse governo que um dia se pensou de esquerda.
P.S. Idelber, pequena modificação no meu e-mail, como você poderá notar. Mudança institucional.
Forte abraço e, novamente, obrigada por indicações preciosas no post, além do post propriamente dito, lógico.
Marilda Costa
Ai meu D(d)eus (?), depois de ler todos esses posts estou confusa de novo: concordo com o que alguém mais acima disse que Freyre deixa meio "claro" que o Brasil é o país que melhor representava a miscigenação nas Américas. Tudo bem que houve um sobredimensionamento do mito da democracia racial no Brasil, realmente concordo, mas tenho a impressão de que Freyre de certa forma mostrou isso - não intencionalmente, mas deixou essa frase no ar, com todas as significações que se pudesse tirar dela.
Idelber, amei mesmo o seu post.
Cesar, não há nada que desculpar pelo comentário belíssimo. Estou com você -- acho que na estratégia de dessexualizar o negro há uma reação ao racismo pseudo-antropólico que o bestializava.
Mas também é nítida a tentativa de auto-defesa de Freyre, ante uma sexualidade que apresentava elementos mais perturbadores para seu esquema.
Mantenhamos o papo sobre Freyre, porque tenho muita curiosidade de saber sua opinião sobre o rumo que estou tomando.
mary, adorei essa frase final sua, sobre Freyre ter um material maior que a antropologia da época. Também isso é nítido -- a abertura à literatura, à história. Em Sobrados e Mucambos, há uma lambada bem afiada na turma da sociologia quantitativa.
Bruno, o exagero que você nota é real. Sem dúvida, há uma nostalgia de um mundo que lhe parecia ordenado. Mas, neste aspecto, é legal ler Sobrados e Mucambos também, porque é o livro que examina o momento de decadência daquele mundo. Quanto à comida, teríamos que ver cada trecho. Freyre costuma diferenciar o escravo da senzala do escravo "da casa" -- e para a questão da alimentação essa diferença é chave.
Parabéns pro Alex Castro! Isso de mito do mito do mito parece uma boneca russa, vamos ver onde vai dar.
Não li ainda o Gilberto Freyre, mas uso muito as palavras casa grande e senzala pra denotar diferenças de classes, de tratamento, de cidadãos que vejo no Brasil.
obrigada pela informação sobre a facilidade de comentar no blog do Alex. Acho que cometi um engano com relação ao blog. Em um dos que visitei ontem era necessário cadastrar-se (que palavra horrível). Mas, estou voltando lá para ler os textos do Alex, que pelo pouco que li ontem são ótimos.
Forte abraço aos dois: Idelber e Alex.
Marilda
Idelber e todos, esse post é absolutamente pessoal... já comentei em outro q eu sou (de família) pernambucana. Pois... o G.Freyre, quando eu era criança, era apenas um senhor simpático que era avô dos meus primos, pai da minha tia Sônia, que gostava de frequentar o restaurante Amazonia e ficava hospedado no hotel Flórida, quando vinha ao Rio. E por isso, quando eu morava em Genebra por força da ditadura (meus pais, né), li aos onze anos boa parte de Casa Grande & Senzala... em francês. Na biblioteca da escola (pública). E não consegui convencer quem tava comigo que aquele sujeito era meu conhecido... pois não é que ficou? O texto dele é barroco, mas flui, e eu guardei em algum arquivo mental o que aprendi ali. tanto que resgatei depois, em discussões sobre (justamente) a diferença do racismo no Brasil e nos EUA. Só mais tarde é que vim saber que a esquerda o rejeitava em bloco, por conta do que vc contou aí no post. Mas só que eu já tinha lido, o que permitia que eu visse como era obscurantista essa atitude de misturar tudo num saco só - e deixar de ler essa obra que nunca foi mais atual. Até hoje vejo uma quantidade de gente que critica sem ter lido.
Por isso atrevo-me a sugerir aqui que não façam o mesmo com o Ali Kamel: pode-se não concordar (e eu não concordo com os capítulos finais do livro dele, onde ele apresenta suas soluções), mas vale a pena ler e refletir. Continuo achando o livro dele das melhores coisas que foram escritas sobre o tema (e sei que me arrisco a levar muita pancada por essa opinião. Mas preferia levar de gente que leu...).
O salazarismo brindou o nosso Freyre, meu caro Idelber, com uma visita a Goa na antevéspera do desmantelamento do Estado da India (portuguesa). E isto não é pouco, pois este prazer certos estudiosos do passado brasileiro devem ter invejado.
Não sei se Freyre poderia ter se esquivado do abraço de Magalhães. Mas, como um colecionador que quer completar o álbum com aquela derradeira figurinha carimbada, e por esta razão começa a mover céus e terras, Freyre teve que se encontrar com o "Professor Salazar" (literal) para cumprir o protocolo. Vida que segue.
Muito interessante seu texto. Fiquei com água na boca pensando nos posts que virão sobre CSG. Na verdade, talvez todos os "mitos" que cercam a obra de Freyre advenham do fato de se tratar de um clássico. E clássico, como lembra Hemingway, "é um livro sobre o qual todos falam, mas que ninguém leu".
Eu mesmo (ainda) não o li. Enquanto não me lanço nessa leitura, aguardo seus textos...
Enquanto isso, o silêncio sobre a obra de Manoel Bomfim continua no anonimato. Manoel Bomfim escreveu em 1905 "América Latina - Males de Origem" escreveu e como o que tinha dito ali era um atentado contra a elite pós-abolição, calaram-no. E hoje continuamos falando bem ou mal de Freyre e a instigação a leitura da Obra de Freyre continua e continua seja para o bem, seja para o mal. Desafio um blogueiro a adentrar em Manoel Bomfim, e gostaria que fosse um que tivesse uma grande audiência, para que pudesse passar ao público o que aquele médico por profissão e sociólogo por paixão expunha em pleno 1905, muito antes do livro "Casa Grande e Senzala"(que li para acolher algo em minha TCC de final de curso, oportunidade em que fiz críticas a este sociólogo pernambucano). Então, fiquem a vontade e leiam Manoel Bomfim e vamos para um pouco de passar para frente os escolhidos dos vencedores da história.