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Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



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sexta-feira, 30 de janeiro 2009

Em Los Angeles

A convite dessa magnífica instituição, vou passar uns dias em Los Angeles, cidade-véu por excelência que, por incrível que pareça, eu não conheço até hoje. Confiando que quem dirige em BH dirige em qualquer do lugar do mundo, aluguei um carrinho com GPS para o fim de semana na Califórnia. Volto na quarta e até lá o mais provável é que o blog fique meio largado.

Se você está na Costa Oeste dos States e quiser dar um pulo até a palestra, o papo é sobre estudos de masculinidade nas literaturas brasileira e hispanoamericana e acontece na segunda à tarde no Departamento de Espanhol e Português, sem dúvida um dos líderes da disciplina nos EUA.

Até já, pois.



  Escrito por Idelber às 16:41 | link para este post | Comentários (14)




Fotos do bombardeio de fósforo branco a Gaza

As fotos abaixo nos chegam de um professor da Universidade Islâmica de Gaza, Ameen Hammad, via Prof. Ricardo Berbara, do Rio de Janeiro. O blog agradece a ambos.


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  Escrito por Idelber às 16:32 | link para este post




Dania e Mohamed: Um testemunho de Gaza

O texto que se segue foi enviado por Dania e assinado por ela e o marido Mohamed, artista de Gaza e professor do Departamento de Belas Artes da Universidade Al Aqsa. A tradução ao português é uma gentileza de Sofia Vialatte, a quem agradeço.


dania.jpg
(Dania com suas crianças em Gaza)

Bom dia,
 
 Estamos ainda vivos...até agora ao menos...depois de uma semana de estresse e horror que temos vivido durante o bombardeio contínuo sobre Gaza. Perto de nossa casa já cairam 15 mísseis, os vidros das janelas se quebraram, o chão treme, as crianças estão aterrorizadas, não ousamos sequer ir ao banheiro de medo do teto cair sobre nosssas cabeças. Depois que as operações terrestres começaram, no decimo dia houve incursões no bairro de Atatra e Solatina, à 500 m de nossa casa. Foi o inferno á noite toda. Ouvíamos as explosões tão fortes que parecia que aconteciam diante de nossa porta. Vemos fumaça  no céu cinza, durante todo o dia; nos atacam de todos os lados.

  O pior é que desde o primeiro dia estamos sem eletricidade e sem água. Até as cisternas encima do teto foram furadas pelas explosões dos Obuses. O único meio de informação que temos é o telefone e o rádio. Ouvimos historias de massacres e recebemos novidades dos amigos. Creia-me, famílias inteiras foram massacradas. O irmão do meu vizinho estava na mesquita na hora do bombardeio; seus dois irmãos, então, saíram para tentar achá-lo debaixo dos escombros, quando caiu o segundo míssel encima das cabeças dos três irmãos que se tornaram pedaços de carne; não falamos de cadáveres, mas sim de pedaços de corpos irreconhecíveis.

  Após duas noites de inferno, decidimos sair - meus sogros saíram à força - vimos tanques bombardeando á esmo e mesmo assim assumimos o risco de sair com uma bandeira branca: eu, meu marido, meus dois filhos e meus dois sogros. Graças á Deus nenhum de nós foi atingido. Na mídia se falava de uma trégua diária das 13 ás 16 horas por razões humanitárias, mas era mentira. Duas mulheres do meu bairro saíram para buscar provisões para seus filhos e foram mortas. Fomos hospedadas pela irmã do meu marido no centro da cidade de Gaza. Outras pessoas não tinham aonde ir. Nas ruas havia muitas famílias que fugiram das suas casas.... uma nova geração de refugiados.

   Duas horas depois de nossa saída do bairro, os vizinhos que ficaram nos informaram que uma bomba foi jogada no nosso teto. Três dias depois, a Cruz vermelha nos informou que havia uma trégua entre as 7 e 11 horas para que as mulheres voltassem para casa, para pegar seus pertences. As ambulâncias eram impedidas de avançar para pegar os feridos. No bairro Al Atatra, a Cruz Vermelha descobriu 4 crianças do lado da mãe morta depois de 7 dias e morrendo de fome; foram salvas no último minuto.

   Todas as portas de minha casa foram quebradas. O exército israelense vasculhou todas as casas, incluindo a nossa. Todos nossos móveis foram danificados e nossos pertences espalhados pelo chão.

   Não posso resumir estas 2 semanas em algumas linhas. Eu saí da minha casa para morar num apartamento onde há 30 pessoas refugiadas. Muitas  pessoas  que habitam a periferia se dirigiram ao centro onde havia mais segurança.

   Na verdade, não há segurança para nenhum palestino em Gaza.

   Nos disseram que o objetivo desta guerra era exterminar os membros do Hamas, mas  é um pretexto como os anteriores, para exterminar e aterrorizar o povo palestino. São mais de 900 mortos civis dos quais 275 eram crianças e 97 mulheres - algumas grávidas; 15 paramédicos e 5 jornalistas em 2 semanas.

   A mensagem é clara. Fazem pagar ao povo palestino a liberdade de expressão e o voto no Hamas.

   Para que as pessoas detestem o Hamas, não param de transmitir mensagens nos canais locais dizendo-nos que a causa de tudo é o Hamas, que nos traiu e foi irresponsável porque não tomou o cuidado de proteger-nos. É isso.

   Eu, que sempre fui contra os islamicos extremistas, não sou imbecil ao ponto de acreditar nessas mentiras! Antes do Hamas, já nos bombardeavam ou nos insultavam nas fronteiras ou nos aprisionavam dentro de Gaza e perante o mundo disseram que se retiraram de Gaza e que nos deixaram livres e que não temos do que reclamar!

   Faz dois anos que sofremos o bloqueio que nos asfixia. Eu sonho em ter o direito de viajar como todas as pessoas do mundo, de ter um país, uma nação livre; o lançamento dos foguetes é outro pretexto para convencer o mundo que os israelenses são vítimas e que têm o direito de se proteger, fabricando armas proibidas internacionalmente (bombas de fósforo). Mesmo sabendo que a maior parte dos israelenses que foram internados tinham poucos ferimentos (mais pânico do que ferimentos verdadeiros), estes foram apresentados como vítimas. Ao mesmo tempo que 1 milhão e meio de palestinos vivem aterrorizados e nos hospitais de Gaza não há meios para fazer  intervenções cirurgicas para tantos feridos verdadeiros .

Acho que não conseguiremos nos recuperar deste choque. Tenho dúvidas se depois desta guerra, caso ela acabe, teremos uma casa onde morar. Se é para morrer, prefiro a morte de todos juntos. Não quero viver para ver meus filhos massacrados na  frente dos meus olhos.
Agradeço a  todos os amigos que nos enviaram mensagens de apoio... Aprecio as manifestações que houve no mundo, a ajuda recebida, os atos de solidariedade. Mas desculpem, estou tão desesperada e  ao mesmo tempo convencida de que Israel, bem protegido, não cessará o ataque. Só quando consegue seu objetivo que é atingir os civis. A decisão de terminar as operações virá dos generais e não da pressão da comunidade internacional.

  Fora isso, temos para comer, sem preocupação com isso. Israel deixa entrar  as provisões necessarias, para provar que é humanitario. Temos problemas de falta de assistência médica, por ausência de especialistas. Só temos Unrwa e Cruz Vermelha, exercendo seu trabalho em condições precárias.

 As pessoas não perderam o espírito solidário, mas a catástrofe está em cima de todos. Cada um tem sua propria história triste; eu mesma, que estou em estado de choque e mal tenho forças para escrever para você.
 
   Assinam: Dania e Mohamed.



  Escrito por Idelber às 16:16 | link para este post



quinta-feira, 29 de janeiro 2009

Basquete universitário, 09

Sim, são-paulinos chatos, eu também sei o que é torcer para um time que ganha sempre. Desfruto dessa maravilhosa sensação desde 1990, torcedor que sou dos North Carolina Tar Heels, nesse que deve ser o mais eletrizante-emocionante-espírita dos esportes, o basquete universitário americano. Este post é uma explicação sobre o que faço atualmente enquanto não estou assistindo aos Campeonatos Estaduais do Brasil no satélite gringo da Globo, que eu decidi que já não vale mais a pena pagar (o Campeonato Mineiro começou como sempre, com pênalti roubado para os Perrella).

Nós, brasileiros, gostamos de tirar onda com europeus e argentinos porque o Campeonato Brasileiro pode ser, teoricamente, vencido por 10 a 12 times sem que isso seja zebra. O torneio nacional universitário dos EUA, que reúne os 64 melhores do basquete em março -- depois do fim dos amistosos e das ligas regionais, que se jogam de outubro a fevereiro --, pode ser vencido por 20, 25, 30 equipes sem grandes surpresas. É o torneio mais sensacional que eu conheço, pau a pau com a Liga dos Campeões européia. As zebras sempre acontecem, claro, porque o torneio se joga no mata-mata. Vença seis jogos seguidos e você é campeão nacional.

A Universidade da Carolina do Norte, primeira universidade pública dos EUA, é o esquadrão que mais venceu jogos nesse torneio nacional. Foi dirigido, durante décadas, por um técnico que é uma lenda viva e figura histórica na luta contra o racismo no sul dos EUA. Do alto dos seus 1,60 e pouco, Dean Smith acompanhou muitos negros a protestos em lanchonetes.

Carolina é pentacampeão americano (1924/57/82/93 e 2005), segundo time que mais chegou entre os semifinalistas nessa grande festa que é a Final Four e potência hegemônica na liga regional mais forte do país, a Atlantic Coast Conference. É, sem dúvida, junto com Kentucky e UCLA, o programa mais legendário do college basketball. Nele jogou um certo Michael Jordan, que no seu primeiro ano de faculdade foi campeão nacional acertando o jumper decisivo. Jordan, para quem não sabe, estudou português na UNC. Aqui, o arremesso do título nacional de 1982:



Chapel Hill é um caso único de uma cidade de 55 mil habitantes que tem uma arena esportiva para 22 mil pessoas que lota todos os jogos. Você, que mora na BH de 3 milhões e vê 2 mil almas penadas irem ao Mineirão numa quarta-feira depois da novela para ver Atlético e Ituiutaba, imagina o que é uma cidade de 50 mil levar 20 mil ao ginásio duas vezes por semana? Esse é o eletrizante basquete que se vive todo ano, de outubro ao começo de maio, em Chapel Hill. É realmente uma pena que os canais de TV a cabo no Brasil não transmitam. É muito mais interessante que a temporada regular da NBA.

Até agora, vamos com 17 vitórias e 2 derrotas. Ontem, outra típica vitória de Carolina: em Tallahassee, o time de Florida State – traumatizado por ter perdido 20 dos últimos 23 jogos contra os Tar Heels – liderou até o final em casa, mas entregou o ouro, levando a cesta decisiva com 1 segundo:


(vá arrastando a linha aqui para ver a evolução de uma típica vitória de virada dos Heels)

Seria de mau agouro eu dizer que somos favoritos para chegar à Final Four, mas digamos que o melhor jogador do basquete universitário do ano passado – Tyler Hansbrough --- já poderia estar na NBA ganhando milhões. Só voltou a Carolina para jogar seu último ano de faculdade porque quer o caneco. Nosso último título nacional – o regional a gente ganha todo ano -- foi em 2005:



O site do ESPN transmite jogos, caso alguém se interesse. Em todo caso, combinemos que eu vou dando notícias da temporada do basquete universitário e vocês me avisam se acontecer algo fora do normal nos Campeonatos Estaduais – além da existência de um campeonato onde não há times da capital.



  Escrito por Idelber às 04:45 | link para este post | Comentários (34)



domingo, 25 de janeiro 2009

O Obâmetro

Eis aqui um link para se guardar nos próximos anos: o Obâmetro, que compilou mais de 500 promessas de campanha de Obama e está catalogando-as sob “cumpridas”, “em andamento”, “solução de compromisso”, “nenhuma ação”, “paralizadas” e “quebradas”.

Até agora, 5 cumpridas, 14 em andamento, nenhuma quebrada em definitivo.

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488 esperam ação.

Imaginem se seria sequer possível um site desses sobre o governo Bush. É aquela mágica palavrinha inglesa, accountability, que define o contexto onde o cidadão tem como saber o que está sendo feito e cobrar.

PS: Salve, salve ciência. Welcome back. O Science Blogs já respondeu ao chamado de Obama a uma discussão sobre o lugar da ciência na nova administração.



  Escrito por Idelber às 18:27 | link para este post | Comentários (21)



sábado, 24 de janeiro 2009

"Cinco EMBRAERs por ano": Chico de Oliveira e o pacto desenvolvimentista ao redor de Dilma

chico.jpgNuma entrevista que contém alguns momentos de análise econômica clara e brilhante e em outros surpreende pela revisão que faz o autor de suas posições políticas, o grande sociólogo brasileiro Francisco de Oliveira, talvez o principal crítico à esquerda que teve o PT nos últimos anos, propõe um pacto político – um “1930 varguista” para o século XXI, define ele – para impedir o retrocesso que seria uma vitória da coalizão serrista em 2010:

CMQue espaço sobra para a periferia do sistema, caso do Brasil, entre outros?
Chico – Estamos emparedados entre a concorrência chinesa e a desordem financeira no coração do capitalismo. A crise nos pega no meio do caminho e, naturalmente, não podemos regredir e adotar um padrão chinês de salários de miséria. Alguns até gostariam, mas não dá, felizmente não dá mais e tentar seria uma calamidade social de proporções incalculáveis.

CM - Qual opção à paralisia, se é que existe uma - e viável?
Chico – Não existiu Vargas em 1930? A opção é uma soma de coragem política e investimento público pesado. Criar algo como cinco EMBRAERs por ano em diferentes setores; promover uma superação do modelo ancorado-o agora em forças sociais da base da sociedade. Carlos Lessa sugeria isso no BNDES, no começo do governo Lula; não deixaram...

CM - Mas o Brasil de Vargas não existe mais...

Chico - Para Getúlio também não foi fácil, mas ele fez. E fez à revelia da plutocracia mais poderosa do país; enfiou seu projeto goela abaixo da burguesia paulista e se firmou como um estadista da nossa história. A elite paulista jamais admitirá, mas ele foi o grande estadista do desenvolvimento nacional.

[...]

CM - Internamente a elite talvez não veja as coisas assim, como propriamente complementares, quando se associa crescimento a um arranque pesado de investimento público.
Chico – Nossa burguesia se transformou em gangue. Expoentes nativos são figuras do calibre de um Daniel Dantas ou esse Eike Batista que opera dos dois lados da fronteira boliviana; não se pode contar com protagonistas dessa qualidade para qualquer coisa, menos ainda para uma agenda de desenvolvimento. Não há saída por aí. Mas o Brasil também não teria saído da crise de 30 se Vargas fosse esperar a mão estendida da plutocracia de São Paulo, por exemplo. Ele ocupou o espaço e fez.

CM - Logo...
Chico – Logo precisaria reinventar o PT; um PT com a ousadia de um Kubitschek e de um Vargas; para fazer por baixo o que eles tentaram e fizeram por cima; um arranque do desenvolvimento induzido pela base social para mudar a economia e a sociedade. Cinco EMBRAERs por ano e ponto final.

CM – O senhor acredita nesse aggiornamento do PT?

Chico - Se depender de torcida para que aconteça tem a minha. A lógica de acomodação de forças que a crise mundial impõe é de dimensões tão brutais, tão inauditas que exige da esquerda brasileira um desassombro igualmente inusitado.


Leia a íntegra no site da Carta Maior. Chico, vale lembrar, é o autor da ilustre tese que toma o ornitorrinco como metáfora do capitalismo brasileiro, dualismo expresso na polaridade PSDB / PT, na qual este último, para Chico, já estaria reduzido a partido representante dos administradores de fundos de pensão. A simpatia de Chico pelo PSOL durou pouco, e se esvaiu completamente no dia em que Heloísa Helena apareceu na TV dizendo que a solução para o crime era "construir mais prisões".

Sempre atento à conjuntura, ele aparece aí sugerindo um pacto desenvolvimentista ao redor de Dilma, se refere a Serra como 'um caso psiquiátrico' e fala do retrocesso que seria a vitória de uma coalizão privatista em 2010: 'eles ficariam por aí mais dez anos', prevê o sociólogo brasileiro.

Pode-se discordar de Chico, mas é sempre um sujeito que está pensando a realidade, sem importar frases feitas de ninguém.



  Escrito por Idelber às 18:07 | link para este post | Comentários (43)



sexta-feira, 23 de janeiro 2009

M. chega em tempo recorde ao ventilador

Há uma avalanche de notícias das primeiras 72 horas de Obama: ordem executiva decretando o fechamento de Guantánamo em um ano, reinstalação do Manual do Exército (que não admite tortura) como parâmetro para qualquer interrogatório, ordem de fechamento das prisões secretas da CIA fora do país, amplas medidas de aumento da transparência e possibilidade de escrutínio da Casa Branca (de site novo), uma boa nomeação para o Oriente Médio (George Mitchell), entre outras.

Mas não pode passar batida a entrevista de Russell Tice a Keith Obermann, na qual Tice, ex-analista da National Security Agency, bota a boca no trombone acerca do programa de espionagem da administração Bush, que foi pior do que qualquer um imaginava.



O resumo da ópera é que todo mundo estava sendo espionado: uma giganteca e orwelliana teia de escuta e leitura ilegal de telefonemas, emails e faxes cobria todas as comunicações do país, mesmo as que se davam entre “americanos normais”. Até as comunicações daqueles que jamais se relacionaram com o exterior eram monitoradas.

Tice sofreu pressões durante o governo Bush e já nos primeiros dias de Obama resolveu dar com a língua nos dentes. Entre os grupos especialmente visados, ele mencionou os jornalistas. Já dá para imaginar quais seriam alguns dos outros (árabe-americanos, por exemplo). Não está claro neste momento se haverá condições político-jurídicas de processar os responsáveis. Obama está lá, caladinho, o que é do seu feitio.



  Escrito por Idelber às 16:44 | link para este post | Comentários (25)



quarta-feira, 21 de janeiro 2009

Retrospectiva 2008

Em janeiro, os sábios do jornalismo descartavam a pré-candidatura de Obama como um breve prelúdio à coroação de Hillary. Em fevereiro, de um lado do mundo um adeus, de outro massacres que continuavam. Em março, enquanto Barack Obama se preparava para revolucionar a campanha eleitoral eletrônica e interativa, o judiciário brasileiro inventava a campanha eleitoral sem internet. Em abril, a oposição brasileira e seus aliados na imprensa batiam cabeça, enquanto só em maio, depois de meses de cobertura blogueira, o escândalo do DETRAN gaúcho estourava na grande imprensa. Em junho, claro, completamos 50 anos de existência adulta como país de verdade. Em julho, boa parte da grande imprensa brasileira se revelou bem amiga de Daniel Dantas e bem interessada em fulminar o Doutor Protógenes. Em agosto, John McCain deu um presente chamado Palin para Obama, mas os sábios do jornalismo falaram em “golpe de mestre”. Em setembro, começou a desabar o castelinho da desregulamentação do capitalismo Bush e desapareceram os profetas do livre-mercado, agora ocupados em pedir socorro financeiro do estado para seus patrões corporativos. Em outubro, a população brasileira fez de PPS, DEM e PSDB os três partidos que mais perderam votos em todo o território nacional, mesmo com a caipirice do PT mineiro e o lampejo de semi-cidadania da República Leblon. Em novembro, a noite inesquecível. Em dezembro, o jornalismo brasileiro nos proporciona dois espetáculos televisivos grotescos, com Gilmar Mendes e com o Doutor Protógenes.

Alexandre Inagaki não deixou de fazer, evidentemente, seu tradicional e imperdível balanço.



  Escrito por Idelber às 04:12 | link para este post | Comentários (85)




Palestina, Latuff: Um Tributo

Dez anos antes de que existisse o Biscoito Fino e Massa, Latuff já sabia

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e oferecia o seu trabalho como exemplo de que

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copyleft is the way e a informação deve ser livre

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e que sobretudo nenhuma restrição se aplica às imagens que documentam

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a expulsão e posterior ocupação militar de que foi e é objeto o povo palestino,

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pois elas configuram testemunho de crime lesa-humanidade.


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Sem ter tido tempo de fazê-la antes, deixo aí a homenagem a Latuff, cartunista brasileiro genial, conhecido no mundo árabe e adorado na Palestina. Ele é uma verdadeira história da consciência sobre esta questão no Brasil.



  Escrito por Idelber às 02:15 | link para este post




In mourning

Faltou, no Biscoito, a documentação deste cúmulo. O assassinato das filhas de um médico palestino que cuida de vidas israelenses e o registro de sua reação à chacina ao vivo, na TV de Israel. Um médico palestino que fala hebraico, que perdeu tudo.


Se alguém se julga em condições morais de julgar este pai caso ele decida se converter em homem-bomba, por favor, envie cartas para a redação.



  Escrito por Idelber às 02:01 | link para este post



terça-feira, 20 de janeiro 2009

Posse de Obama

Só para que não fique sem registro, aí vai um filminho de parte das celebrações da posse de Obama, em Washington. O Biscoito documentou toda a caminhada da vitória, desde o início.


Vi lá no Pictura Pixel.

No próximo post, voltamos ao esquema normal, com comentários e tudo o mais. Grato aos comentaristas pela paciência, neste período em que o blog funcionou em regime meio emergencial -- e mesmo assim sem conseguir documentar nem uma ínfima parte da atrocidade.



  Escrito por Idelber às 04:53 | link para este post



segunda-feira, 19 de janeiro 2009

Um link

Palestina Ocupada no blog do João Villaverde.



  Escrito por Idelber às 14:40 | link para este post




Balanço da devastação em Gaza

Milhares de pessoas apareceram nas ruas de Gaza. Todos tentam descobrir o que aconteceu com seus parentes, casas, regiões. Documentei devastação massiva ao longo do leste, norte e oeste da Faixa de Gaza. A devastação afeta tudo o que é necessário para a vida normal. Casas, escolas, hospitais, clínicas, delegacias de polícia, instituições de caridade, universidades e ruas total ou parcialmente destruídas.

Relata Sameh Habeeb, fazendo jornalismo de verdade.

Não consigo fazer que os seus rostos me deixem, os rostos que eu vejo sempre e em todos os lugares nesta cidade tão pequena. Não posso fechar os olhos para você, Sulaiman, movendo-se levemente; estou tentando evitar olhar para o lugar onde você se colocava na entrada da cidade -- sim, posso distingui-la apesar de que o cachecol a cobre. Todos os dias às 8 em ponto eu a vejo. Não sei qual é o segredo dessa hora, mas a janela se torna meu refúgio sem que eu o queira.

Mutasharrid, estudante, perdeu vários amigos (original aqui).



  Escrito por Idelber às 14:12 | link para este post



domingo, 18 de janeiro 2009

A nova arma: Explosivo de Metal Denso Inerte

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EM GAZA, ESTÃO USANDO UM NOVO TIPO DE ARMA.

Sophie Shihab.
Le Monde 12/01/2009 e Rebelión 13/01/2009.


Nos últimos dias, as redes de televisão árabes que transmitem da Faixa de Gaza vêm mostrando feridos de um novo tipo, adultos e crianças com munhões ensangüentados no lugar das pernas. No domingo, dia 11 de janeiro, dois médicos noruegueses, os únicos ocidentais que trabalham no hospital da cidade confirmaram isso.

Os médicos Mads Gilbert e Erik Fosse, que trabalham na região há vinte anos com a ONG norueguesa Norwac, conseguiram sair do território na véspera, com 15 feridos graves pela fronteira com o Egito. Não sem ter que driblar obstáculos: "Três dias atrás, o nosso comboio, apesar de identificado pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha, teve que dar meia volta antes de chegar em Khan Yunis, onde os tanques atiraram em nós para nos deter", declararam aos jornalistas presentes em Al-Arish.

Dois dias depois, o comboio pôde passar, mas os médicos e o embaixador da Noruega que haviam ido recebê-los foram retidos durante toda a noite "por razões burocráticas" no posto de fronteira egípcio de Rafah, semi-aberto somente para as missões de saúde. Na mesma noite, os vidros do posto foram quebrados pelo estampido de uma das bombas lançadas nas proximidades.

"No hospital Al-Shifa de Gaza não vimos queimaduras de fósforo nem feridos por bombas de fragmentação. Mas vimos vítimas de algo que tem todas as características de um novo tipo de arma testado pelos militares estadunidenses, conhecido como Explosivo de Metal Denso Inerte (DIME, pela sigla em inglês)", declararam os médicos.

Trata-se de pequenas bombas envolvidas por carbono e uma camada de tungstênio, cobalto, níquel ou ferro cujo enorme poder de explosão se dissipa num raio de dez metros. "A dois metros corta o corpo no meio, a oito metros serra as pernas, abrasando-as como se tivessem sido atravessadas por milhares de agulhas. Não vimos corpos partidos, mas sim muitos amputados. Em 2006, houve algo parecido no sul do Líbano e vimos isso em Gaza naquele mesmo ano, durante a operação israelense 'chuva de verão'. Os experimentos com ratos têm demonstrado que as partículas que permanecem no corpo são cancerígenas", explicaram os médicos.

Um médico palestino, entrevistado no domingo por Al Jazeera, relatou sua impotência em casos como estes: "Não há nenhum rastro visível de metal no corpo, mas há estranhas hemorragias internas. Uma matéria queima os vasos sanguíneos e causa a morte. Não podemos fazer nada". Segundo a primeira equipe de médicos árabes autorizada a entrar no território ocupado, que chegou no hospital de Khan Yunes vinda do sul, entraram aí "dezenas" de casos desse tipo.

Os médicos noruegueses têm se sentido na obrigação de informar o que viram devido à ausência em Gaza de qualquer outro representante do "mundo ocidental", seja ele médico ou jornalista. "Será que esta guerra é um laboratório para os fabricantes da morte? Em pleno século vinte, é possível fechar um milhão e meio de pessoas e fazer com elas o que se quer, chamando-as de terroristas?"

A íntegra da tradução está lá no Chiapas-Palestina.

(obrigado ao Thiago pela dica).

Foto: Independent.



  Escrito por Idelber às 15:33 | link para este post




Sobre as crianças de Gaza

Como morrer de medo aos 14 anos, um impressionante texto acerca das consequências do terrorismo de estado israelense sobre as crianças de Gaza.



  Escrito por Idelber às 01:25 | link para este post




Um link

Palestine Online Store (com Kuffiyehs).

Entregam não só nos EUA e no Canadá, mas em outros países também. E aceitam PayPal.



  Escrito por Idelber às 00:02 | link para este post



sábado, 17 de janeiro 2009

"Quem deu a Israel o direito de negar todos os direitos? ", por Eduardo Galeano

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Este artigo é dedicado a meus amigos judeus assassinados pelas ditaduras latinoamericanas que Israel assessorou.

Para justificar-se, o terrorismo de estado fabrica terroristas: semeia ódio e colhe pretextos. Tudo indica que esta carnificina de Gaza, que segundo seus autores quer acabar com os terroristas, acabará por multiplicá-los.

Desde 1948, os palestinos vivem condenados à humilhação perpétua. Não podem nem respirar sem permissão. Perderam sua pátria, suas terras, sua água, sua liberdade, seu tudo. Nem sequer têm direito a eleger seus governantes. Quando votam em quem não devem votar são castigados. Gaza está sendo castigada. Converteu-se em uma armadilha sem saída, desde que o Hamas ganhou limpamente as eleições em 2006. Algo parecido havia ocorrido em 1932, quando o Partido Comunista triunfou nas eleições de El Salvador. Banhados em sangue, os salvadorenhos expiaram sua má conduta e, desde então, viveram submetidos a ditaduras militares. A democracia é um luxo que nem todos merecem.

São filhos da impotência os foguetes caseiros que os militantes do Hamas, encurralados em Gaza, disparam com desajeitada pontaria sobre as terras que foram palestinas e que a ocupação israelense usurpou.

Leia a íntegra do artigo de Eduardo Galeano, em tradução de Katarina Peixoto, no RS Urgente (original no Brecha).



  Escrito por Idelber às 22:03 | link para este post




"Israel está criando homens-bomba". Amálgama traduz do Guardian

A convocação chegou por telefone, às 11h de um sábado. O celular de Yitzchak Ben Mocha mostrou "número não identificado", mas ele sabia. Uma voz gravada ordenava que se apresentasse à sua unidade do exército às 8h da manhã seguinte. Pôs o uniforme na mala, pensando que, dali, iria diretamente para a cadeia. Reservista israelense, 25 anos, Yitzchak saiu de casa apenas para informar a quem o recebesse que não aceitaria lutar naquela guerra, nem, em nenhum caso, participaria de qualquer ação relacionada à guerra de Gaza.

Apresentou-se e o mandaram montar barracas para os soldados em combate.

"Disse ao oficial 'Não. Não vou fazer isso.' Na manhã seguinte, mandaram-me de volta para casa. Disseram que me reconvocariam, se fosse necessário. Até agora, não convocaram. Antes, todos os 'refuseniks' passavam meses na cadeia. Depois soltavam, depois voltavam a prender, e era isso, meses a fio. Agora, mandam pra casa. Acho que o exército está dispensando quem se recusa a combater para não ter de admitir que há muitos 'refuseniks'. Seria prejudicial à imagem de que os israelenses e o exército estão unidos nessa guerra."

O exército tem informado que há tanto apoio à guerra de Gaza, que apresentaram-se mais soldados para lutar o que a imprensa local caracteriza como uma "guerra justa" do que o necessário, que muitos reservistas apresentaram-se e muitos foram dispensados, para serem reconvocados se necessário. Ben Mocha diz que isso só serve para encobrir o número cada vez maior de homens e mulheres em idade de servir o exército que se recusam a combater contra Gaza.

Uma organização de apoio aos que se recusem a combater, "Courage to Refuse", publicou manifesto em vários jornais, condenando a matança de centenas de civis palestinos e conclamando os convocados a recusar-se a combater em Gaza. "A violência brutal, sem precedentes, contra Gaza é chocante. É falsa a esperança de que tanta brutalidade trará alguma segurança aos israelenses, e é esperança perigosa. Não podemos nos manter passivos, quando centenas de civis são assassinados, na carnificina promovida pelo exército de Israel" - dizia o manifesto.

É difícil saber com segurança quantos recusaram-se a combater em Gaza, porque o exército os dispensa silenciosamente. Até hoje, só um reservista foi preso por recursar-se a combater em Gaza. No'em Levna, primeiro-tenente do exército israelense, foi posto em prisão militar por 14 dias. "Não há o que justifique matar civis inocentes", disse ele. "Nada justifica essa carnificina. É a arrogância dos israelenses, como se fosse lógica. É como se dissessem 'se os chacinarmos, ficará tudo bem'. Mas o ódio, a ira que estamos plantando em Gaza recairá sobre nós mesmos."

Ben Mocha não é militante pacifista nem é anti-Israel. Cresceu em família de judeus ortodoxos, frequentou escola religiosa e prestou serviço militar pleno numa unidade de paraquedistas de combate, considerada da elite do exército israelense.

Disse que se alistou pensando em combater "organizações terroristas". De repente, "estava matando palestinos que lutavam por independência e autodeterminação, ou espancando agricultores em protesto contra o roubo de suas terras." Também viu abusos, como soldados israelenses que mandavam mulheres e crianças entrar em casas abandonadas, para "verificar" se não estariam minadas. "Isso é usar escudos humanos" - disse.

"Não sou pacifista. Reconheço que é importante para Israel ter um exército eficiente de defesa, mas não quero mais participar de uma operação de ocupação que já tem 40 anos. Comuniquei ao exército que me apresentarei para treinamento, de modo que sempre estarei preparado para defender Israel. Mas atacar Gaza e perpetuar a ocupação não é defender Israel."

Leia a íntegra do artigo de Chris McGreal, em tradução de Caia Fittipaldi e Daniel Lopes, no Amálgama.



  Escrito por Idelber às 15:29 | link para este post



sexta-feira, 16 de janeiro 2009

Axioma

Ante a barbárie absoluta, os que reclamam da "visão em branco-e-negro das coisas" são invariavelmente os dedicados a justificar, racionalizar e minimizar as chacinas.



  Escrito por Idelber às 00:04 | link para este post



quinta-feira, 15 de janeiro 2009

Um link

Os que defendem o genocídio palestino.



  Escrito por Idelber às 22:30 | link para este post




Decadência

É a decadência completa o Observatório de Imprensa publicar uma coleção esfarrapada de mentiras e sofismas como essa.



  Escrito por Idelber às 02:54 | link para este post




Norman Filkenstein dá nome aos bois. Amálgama traduz

filkenstein.jpgOs registros existem e são muito claros. Qualquer pessoa encontra na internet, na página do governo de Israel e, também, na página do seu ministério das Relações Exteriores. Israel desrespeitou o cessar-fogo, invadiu Gaza e matou seis ou sete (há controvérsia quanto ao número de assassinados, não quanto ao crime de assassinato) militantes palestinos, dia 4/11. Depois, o Hamas respondeu ou, como se lê nas páginas do governo de Israel, “o Hamas retaliou contra Israel e lançou mísseis.”

Quanto aos motivos, os documentos oficiais também são claros. O jornal Haaretz já informou que Barak, ministro da Defesa de Israel, começou a planejar o massacre de Gaza muito antes, até, de haver acordo de cessar-fogo. De fato, conforme o Haaretz do dia 12, a chacina de Gaza começou a ser planejada em março de 2008.

Quanto às principais razões do massacre, acho, há duas. Número um: restaurar o que Israel chama de “capacidade de contenção do exército”, o que, em linguagem de leigo, significa a capacidade de Israel para semear pânico e morte em toda a região e submetê-la mediante a pressão das armas, da chantagem, do medo. Depois de ter sido derrotado no Líbano em julho de 2006, o exército de Israel entendeu que seria importante comunicar ao mundo que Israel ainda é capaz de assassinar, matar, mutilar e aterrorizar quem se atreva a desafiar seu poder pressuposto absoluto, acima de qualquer lei.

A segunda razão pela qual Israel atacou Gaza é culpa do Hamas: o Hamas começou a dar sinais muito claros de que deseja construir um novo acordo diplomático a respeito das fronteiras demarcadas desde junho de 1967 e jamais respeitadas por Israel.

Em outras palavras, o Hamas sinalizou que está interessado em fazer respeitar exatamente os mesmos termos e conceitos que toda a comunidade internacional respeita e que, em vez de resolver os problemas a canhão e com campanhas de mentiras por jornais e televisão, estaria interessado em construir um acordo diplomático.

Aconteceu aí o que Israel poderia designar como “uma ameaçadora ofensiva de paz chefiada pelos palestinos”. Imediatamente, para destroçar a ofensiva de paz, o governo e o exército de Israel desencadearam campanha furiosa para destroçar o Hamas.

A revista Vanity Fair publicou, em abril de 2008, em artigo assinado por David Rose, baseado, por sua vez em documentos internos dos EUA, que os EUA estavam em contato estreito com a Autoridade Palestina e o governo de Israel, organizando um golpe para derrubar o governo eleito do Hamas, e que o Hamas conseguira abortar o golpe. Isso não é objeto de discussão: esse fato é estabelecido, documentado e há provas.

A questão passou a ser, então, impedir o Hamas de governar, e ninguém governa sob bloqueio absoluto, bloqueio que desmantelou toda a atividade econômica em Gaza. Ah!, vale lembrar: o bloqueio começou antes de o Hamas chegar ao poder (eleito!). O bloqueio nada tem ou jamais teve a ver com o Hamas.

É Norman Filkenstein, bem no seu estilo, dando nome aos bois no Amálgama.



  Escrito por Idelber às 02:30 | link para este post




Mais um blog

Somos todos palestinos: novidades, coordenação, notícias etc.



  Escrito por Idelber às 02:18 | link para este post



quarta-feira, 14 de janeiro 2009

Glossário Macabro da Ocupação, 4: “A oferta generosa de Camp David” ou "a oportunidade perdida por Arafat"

O pensador esloveno Slavoj Žižek lembra, em um de seus livros, uma anedota contada por Freud para ilustrar a estranha lógica dos sonhos. Um sujeito empresta um bule a um amigo. Recebe de volta o bule danificado. Ante a reclamação do dono, retruca:

1. Eu jamais tomei nenhum bule seu emprestado.
2. Aliás, eu lhe devolvi o bule inteirinho!
3. Inclusive, quando você me emprestou o bule, ele já estava estragado!

Desmentida ponto por ponto não só pelo livro monumental de Robert Fisk, mas também por uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez fontes online, cada uma delas original a seu modo, a cantilena de que Arafat rejeitou uma oferta “generosa” em Camp David, em 2000, tem a estrutura da história do bule. Ela é repetida ad nauseam não só pelos chamados “amigos de Israel” (que, a longo prazo, são seus piores inimigos, evidentemente), mas também por um jornalismo superficial, preguiçoso, mal equipado linguisticamente e disposto a fazer vista grossa ante os fatos para privilegiar os poderosos. Resumindo com minhas palavras o que o leitor encontrará nos links cedidos acima:

1.O bule nunca existiu. Para começo de conversa, há que se falar da forma. Pergunte ao jornalista que menciona a “oferta recusada” por Arafat. Pergunte-lhe onde ele a viu. Onde ela existe. Qual documento oficial está impresso com a oferta. Ninguém sabe. Feitas como ultimatos, as “ofertas” israelenses em Camp David muitas vezes nem sequer vinham por Barak, e sim na condição de “idéias” americanas sempre apresentadas como o absoluto máximo a que Israel aceitaria chegar. A oferta não existe. Ela jamais foi escrita, apresentada como documento de negociação, nada. O jornalista que fala da “oportunidade perdida por Arafat” lhe sonega essa informação, leitor, e está repetindo um press release israelense. Ignorância ou má fé?

2.Aliás, eu lhe devolvi o bule inteiro. Israel, sim, apresentou algo em Camp David e em certo sentido não é inexato dizer que ofereceu mais que jamais havia oferecido. Considerando o fato de que poucos anos antes Israel ainda desqualificava Arafat como o terrorista com quem não havia que se sentar, e os religiosos do Hamas como a força que havia que apoiar, digamos também que esse ineditismo não significava muito. Israel jamais havia oferecido o fim da ocupação, concretamente.

Qual era, pois, a tal “oferta” (que, sabemos, jamais foi tal) de Camp David? Leia o jornalismo “ponderado” e ele lhe dirá que Arafat rejeitou uma oferta de “96% da Cisjordânia, toda Gaza e Jerusalém Oriental” para um estado palestino, de forma que parece que meros 4% da Cisjordânia separavam a oferta israelense da lei internacional que exige retorno de Israel às fronteiras de 1967.

A verdade, evidentemente, está a quilômetros de distância disso. Não só jamais houve oferta, como a oferta não era essa.

Robert Fisk: Na realidade, oficiais palestinos e fontes americanas – as últimas sabiamente evitam a condenação israelense permanencendo anônimas – apontaram que o número 96% representava a porcentagem de terra sobre a qual Israel estava disposto a negociar – não 96% de toda a Cisjordânia e de Gaza.

Fora da equação ficava a Jerusalém Oriental árabe – ilegalmente anexada por Israel depois da guerra israelo-árabe de seis dias em 1967 --, o enorme cinturão de colonias judaicas, incluindo-se Male Adumim, em volta da cidade e uma zona militar de separação em volta dos territórios palestinos.

Junto a isso vinha a obrigação de alugar de volta as colônias – construídas ilegalmente de acordo com a lei internacional em terra árabe – para Israel por 25 anos, e a totalidade da terra palestina da qual Israel estava disposto a recuar chegava a somente 46% -- bem distantes dos 96% alardeados depois de Camp David.

Uau! Veja como 96% vira 46% quando você trabalha com a informação sonegada pela grande imprensa. O jornalismo servil aos poderosos esquece de lhe fornecer esse importante dado, leitor: no "cálculo" dos 96%, já estavam excluídas terras ilegalmente anexadas.

3. Inclusive, quando você me emprestou o bule, ele já estava estragado! Mas a mentirada das manchetes compiladas aqui não termina nos números. A sua total perversidade só é apreciada quando você vê o mapa. De acordo com a lei internacional, o estado palestino teria que ter essa pinta aqui (com cessão de soberania à Palestina sobre Jerusalém Oriental, algum arranjo que ligue Gaza à Cisjordânia e, mais espinhosa das questões, algum direito de retorno para refugiados palestinos que respeite as preocupações demográficas de Israel):

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A “oferta” de Barak em Camp David, se ela tivesse existido, seria esse bule aqui:

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Ao invés de um estado, a “oferta” – que não existiu – apresentava uma coleção de bantustões que não controlavam suas fronteiras, haviam sido separadas militarmente de seus recursos hídricos e continuavam rodeadas das hostis colonias de grilagem de terra. Ela nem tocava no tema dos refugiados e não transmitia soberania real sobre a Jerusalém árabe à Palestina.

Que país era esse, o da "oferta generosa" que Arafat "recusou", aos 44 do segundo tempo, tanto do governo de Clinton como do de Barak?

Junto com a oferta-ultimato, o governo de Barak ia aceleradamente aumentando o número de colonos em terras árabes e não dando qualquer indicação de recuo das terras ocupadas, incluindo-se aí a recusa a uma simbólica cessão de três vilas árabes de Jerusalém Oriental que o próprio Barak havia autorizado Clinton a fazer a Arafat (só para depois se recusar a cumpri-la, suscitando de Clinton o comentário de que pela primeira vez alguém havia feito dele um “falso profeta” ante um líder estrangeiro).

Nada disso quer dizer que Arafat e a equipe palestina não tenham cometido seus erros. Desconfiados de uma negociação pontuada pelas “exigências” de Barak a que Clinton “desmascarasse” Arafat, a equipe palestina – a verdade é essa – não tinha nem mapas apropriados. Negociadores preocupados com o custo político de um fracasso agiam descoordenados. Num fogo cruzado político complexo – e o povo que tiver sido expulso de suas terras, só para 20 anos depois começar a viver quatro décadas sob ocupação militar estrangeira que atire a primeira pedra --, os palestinos em Camp David foram presa fácil do que Fisk chamou de “um dos maiores triunfos de relações públicas de Israel”.

E, apesar do comentário privado de Clinton sobre ser transformado em "falso profeta" por Barak, ele não hesitou em aparecer na TV israelense culpando os palestinos pelo fracasso das "negociações". Logo depois, Ariel Sharon, o carniceiro de Shatila e Sabra, levava 1.000 soldados israelenses armados à região da Mesquita Al Aqsa, em Jerusalém Oriental, um tapa na cara da população árabe e palestina. Sem nem um único movimento israelense na direção do supostamente oferecido em Camp David, com a construção de mais colonias de grilagem se acelerando, com a realidade da ocupação mantida, os palestinos começavam a segunda Intifada.

Esse foi o contexto da "generosa oferta", que nem oferta foi.

Mas o nosso servil jornalismo repete a mentira como se fosse verdade.



  Escrito por Idelber às 23:45 | link para este post




Al Jazeera traz imagens de Gaza em licença Creative Commons

A Al Jazeera criou um site que compila uma seleção de vídeos da matança israelense contra o povo de Gaza:

Os vídeos estão sob licença Creative Commons, o que permite seu uso e disseminação. Dica da Bibi.



  Escrito por Idelber às 17:35 | link para este post




Às ruas, mineiros! Quinta, dia 15/01, às 15 horas, na histórica Praça Afonso Arinos

pca-afonso-arinos.jpg (foto)

O Comitê Mineiro de Solidariedade ao Povo Palestino, formado por várias entidades, sindicatos, partidos políticos e personalidades, convoca:

Concentração Popular na histórica Praça Afonso Arinos, amanhã, quinta-feira, dia 15/01, às 15 horas. Para os leitores belo-horizontinos, nenhuma outra referência é necessária: Praça Afonso Arinos.

Para os leitores de outras comarcas, o Biscoito relembra: essa é a histórica praça onde incontáveis mineiros deram o sangue na peleja contra a ditadura militar.



  Escrito por Idelber às 16:16 | link para este post




Bolívia rompe relações diplomáticas com Israel

A Bolívia tinha relações diplomáticas com Israel. [Mas] considerando esses graves ataques contra ... a humanidade, a Bolívia cessará suas relações diplomáticas...

[...]

Morales disse ao corpo diplomático de seu país que o ataque de Israel ameaça seriamente a paz mundial e que o Primeiro Ministro Ehud Olmert e seu gabinete devem responder por crime.

Morales criticou o “Conselho de Insegurança” das Nações Unidas por sua resposta morna à crise e disse que a Assembléia Geral da ONU deve condenar a invasão.

A notícia é do Haaretz. Na imprensa de La Paz, até agora, só o La Razón deu uma nota. La Prensa, El Diario e La Jornada ainda não noticiaram.



  Escrito por Idelber às 16:03 | link para este post




Um trecho de Robert Fisk

fisk.jpgDe estatísticas que ele chama de damning ("condenatórias", "incriminatórias"), Robert Fisk, na mais monumental introdução jornalístico-historiográfica ao Oriente Médio recente, escreve, na página 429 (tradução minha):

Entre 1967 e 1982, meros 21.000 colonos tinham se mudado para a Cisjordânia e para Gaza. Em 1990, o total era 76.000. Em 2000, sete anos após os acordos de Oslo, o número estava em 383.000, incluindo-se os colonos da Jerusalém Oriental anexada. Em 17 de maio de 2001, René Kosimik, chefe da delegação da Cruz Vermelha Internacional a Israel e aos territórios palestinos, sentiu que era necessário lembrar o mundo que, sob a Convenção de Geneva, "a instalação de população do poder ocupante dentro dos territórios ocupados é considerada uma medida ilegal e qualifica como uma 'grave violação'... A política de assentamentos colonizadores como tal, na lei humanitária, é um crime de guerra". E mesmo assim, enquanto Arafat estava morrendo em 2004, e quando o muro de "segurança" de Israel roubava ainda mais terra árabe, a ocupação e o confisco sobre os palestinos continuava.

E, um pouco antes, na página 428:

Se não estavam se ocupando de contruir casas para israelenses em terra palestina, os israelenses se ocupavam de demolir casas palestinas. Entre a assinatura dos acordos de Oslo em 1993 e março de 1998, 629 casas palestinas foram destruídas por bulldozers israelenses, 535 na Cisjordânia e 94 em Jerusalém, mais de um terço sob o governo trabalhista e o resto sob o Likud. Outras 1.800 ordens de demolição esperavam execução. A indignação palestina ante essa tentativa de expulsá-los de Jerusalém por atacado -- em muitos casos porque Israel não emitia autorizações para os árabes que morassem lá -- só foi exacerbada pela decisão de um comitê ministerial israelense de recomendar a construção de mais 116.000 casas para colonizadores nos próximos vinte anos.

A Grande Guerra pela Civilização: A Conquista do Oriente Médio, de Robert Fisk, 1.111 páginas na edição original, já foi lançado em português. Os quatro primeiros capítulos da obra, em tradução, estão disponíveis em pdf na internet.



  Escrito por Idelber às 13:48 | link para este post




Ato pelo fim do massacre em Gaza, São Paulo, Sexta-feira, 16/01

blogforpalestine.pngA notícia me chega via Blog da Maria Frô:

A Frente de Defesa do Povo Palestino, que reúne mais de 50 instituições, entre centrais Sindicais, movimentos sociais e entidades árabe-brasileiras e islâmicas, além de indivíduos solidários à causa, convoca para o ato em defesa do povo palestino nesta sexta-feira, dia 16 de janeiro, em São Paulo.

A concentração será na Praça da República, a partir das 17 horas, com caminhada rumo à Praça da Sé, onde haverá um ato ecumênico, vigília e projeção de imagens do massacre.

A Frente de Defesa do Povo Palestino convida o público a trazer velas para iluminar a vígilia.


PS: Candlelight Vigil in New Orleans. Theme: "We Mourn the Victims of Gaza". Saturday, Jan. 17th, 2009, 5:30pm - 7:00pm. Begin at Rogers Memorial Chapel, by the entrance to Newcomb College (Tulane), and march to end in front of Audubon Park.



  Escrito por Idelber às 13:25 | link para este post




Para ajudar Israel, vamos dizer: não concordamos com sua política!, por Ilana Polistchuck

E por que não podemos escutar as vozes dos soldados israelenses que se recusam a lutar ou servir em territórios ocupados? Por que não podemos considerar que bombardear hospitais, casas, universidade para “caçar terroristas” é um delírio militar? Por que não podemos ficar estarrecidos como fato de o governo israelense não ter reconhecido o Hamas como representante eleito pelos palestinos e ter imposto um embargo econômico, na verdade um cerco de guerra, deixando a região sem água, sem comida, sem direitos civis, políticos, sem nada? Por que aceitamos que Israel não cumpra os acordos diante de manifestações bélicas de quinta categoria (não por isso menos letais e assassinas) do ponto de vista militar, como homens bomba e mísseis mambembes? Se fosse assim, guerras jamais terminariam.

Isto não tem nada a ver com ser ou não sionista e muito menos com preconizar o fim do Estado de Israel. Outro delírio. Invasões e ocupações estão na história, não costumam ser revistas, mas não se abafa esta história com o extermínio dos que foram desocupados ou expulsos. Lamento se palestinos reivindicam o fim do Estado de Israel, é um direito, e uma posição ideológica ou fundamentalista, uma estratégia de propaganda ou um desejo coletivo, sei lá, mas não muda os fatos estabelecidos. O Estado de Israel é um fato estabelecido. Entretanto, na verdade, quem está pondo em prática o fim do suposto Estado Palestino é Israel. De fato, com todas as cores e, o que é mais importante, com todas as armas, inclusive os bumerangues: mísseis e homens-bomba.


Vamos tentar ajudar Israel a parar com isso. Conclamo os judeus - sionistas, progressistas, religiosos, leigos, laicos, chassidim, ashkenazim, sefardim, seja lá o que forem - a não aceitarem a política de Israel. Reivindico que todos tenham o direito de dizer não. Não aceitamos a matança do povo palestino. Não aceitamos o embargo. Queremos que os acordos sejam cumpridos. Queremos que a Onu condene as ações bélicas de Israel e, agora, envie forças militares para conter o exército de Israel enlouquecido. Vamos ouvir as vozes isralenses que dizem não ao seu governo. Que elas possam chegar urgente ao poder, com nosso apoio judaico. Com certeza, um dia, quando houver respeito às deliberações da cultura palestina, os atentados de homens-bomba serão história.


Não subscrevo todos os termos que ela usa (o povo palestino jamais teve "mísseis", nem mesmo mambembes; Qassams são rojões ou, no máximo, foguetes), mas vale a pena ler o texto de Ilana Polistchuck, jornalista e médica carioca. Ela tem outro pedindo força de paz. Consta que ela enviou os textos a vários veículos de imprensa, mas nenhum quis publicá-los. Está no (ótimo) A Lenda, que também tem uma sessão de artigos traduzidos sobre a Palestina.



  Escrito por Idelber às 13:15 | link para este post



terça-feira, 13 de janeiro 2009

O que eles disseram, 1: Amos Oz

Existe um setor do ainda autointitulado "campo da paz" no espectro político de Israel -- com seu equivalente também no lobby pró-Israel de outros lugares -- que, a cada agressão militar cometida pelo país, repete com macabra previsibilidade alguns tiques. Primeiro, Israel prepara a agressão enquanto eles repetem a cantilena do que o problema na Palestina Ocupada são os "extremistas dos dois lados". As forças de ocupação agem com brutalidade inominável nos primeiros dias e eles continuam dizendo que a culpa é dos invadidos.

E a matança se prolonga por semanas, ante o silencioso observar do mundo, provando categoricamente quem é que queria guerra, e aí, só aí, o filistinismo supostamente pacificista estilo Amos Oz, que acredita que o problema são os "extremistas dos dois lados", lança uma carta dizendo que "chegou a hora de um cessar-fogo".

Fazem continhas obscenas com o número de mortos palestinos: x pode, x vezes cinco talvez seja "a hora do cessar-fogo". Já perdeu completamente o norte moral, esse escritor.

Corajosa e digna foi a escritora anglo-egípcia (e grande autoridade na história da Palestina) Ahdaf Soueif que, na FLIP de 2006, logo depois que Israel havia esmigalhado o sul do Líbano com bombas, recusou-se a participar da palhaçada que se esperava que ela cumprisse, desfilando ao lado do "pacifista" Oz que havia apoiado a guerra. Ahdaf insistiu em sua privacidade e preferiu ficar conversando com gente menos famosa mas que, talvez, estivesse mais em sintonia com o que ela sentia no momento.



  Escrito por Idelber às 22:35 | link para este post




Olmert ordenou, Rice obedeceu: Abstenção numa moção preparada por ela mesma

rice.jpg Só a tradução é do Biscoito. Quem relata é o Yahoo News:

"Ela ficou lá com a cara envergonhada. Uma resolução que ela preparou e organizou, e pela qual no fim das contas ela não votou", disse Olmert num discurso na cidade sulista de Ashkelon. O Conselho de Segurança da ONU passou uma resolução na última quinta-feira, chamando um cessar-fogo imediato no conflito de três semanas na Faixa de Gaza e uma retirada israelense de Gaza, onde centenas já foram mortos.

"Ponham o Presidente Bush no telefone", disse Olmert. "Eles disseram que ele estava no meio de um discurso na Filadélfia. Eu disse: 'não estou nem aí'. 'Quero falar com ele agora'. Ele saiu do pódio e falou comigo. Eu disse a ele que os Estados Unidos não podiam votar a favor de tal resolução. Ele imediatamente ligou para a secretária de estado e disse a ela para não votar a favor".

'Ela ficou com a cara da vergonha. Uma resolução que ela tinha preparado e rascunhado, e no final ela não votou a favor', disse Olmert num discurso na cidade sulista de Ashkelon."



  Escrito por Idelber às 04:46 | link para este post | Comentários (42)




Um terço são crianças

São pelo menos 919 palestinos assassinados por Israel.

Pelo menos 284 são crianças.

Mais de 100 mulheres.

Pelo menos 4.260 feridos.

Sem contar, evidentemente, as centenas de milhares de crianças irreversivelmente traumatizadas. Aqui, neste cantinho da internet, contaremos até o último morto.



  Escrito por Idelber às 03:40 | link para este post




Carta aberta de Uri Avnery a Barack Obama (de novo em português)

De forma independente d'O Biscoito Fino e a Massa, um blog português havia publicado também uma bela tradução da carta aberta de Avnery a Obama.

(via de-grau).



  Escrito por Idelber às 03:13 | link para este post



segunda-feira, 12 de janeiro 2009

Entrevista com uma jovem palestina

O que se segue é a tradução de uma conversa minha com B., 19 anos, palestina, residente em Jerusalém Oriental e estudante em Nablus (Palestina Ocupada). Tanto a publicação da conversa como a proteção à identidade de B. são feitas com sua autorização. A conversa aconteceu em inglês.

B.
Oi

Idelber
Oi, Salam.

B.
Como vai?

I.
Com raiva, e você? Você está na Cisjordânia?

B.
Estou em Jerusalém.

I.
Você sabe me dizer se a Mesquita de Al Aqsa foi cercada pelo exército de ocupação? Ouvi esse relato dos meus amigos palestinos.

B.
Sim, é o que vejo quando visito. É péssimo. Péssimo.

I.
Vai aí meu coração para você e para todos os palestinos. Tenho tentado fazer o que posso no meu blog. Aqui vai o link. Está em português, mas há imagens. E vídeos e links em inglês.

I.
Algumas pessoas no Brasil estão acompanhando por lá. Vocês não estão sozinhos, pelo menos em espírito.

B.
Sim, sim, que Deus o abençoe.

B.
Você é de que país?

I.
Sou brasileiro, mas divido a moradia entre os EUA e o Brasil.

B.
Uau, bacana. Muito bacana.

I.
Puxa, você só tem 19 anos.

B.
Muito prazer de te conhecer, de verdade. Sim. Rs

I.
Eu espero que você herde um mundo melhor. Estamos meio desesperados, fazendo o que podemos.

B.
Obrigado mesmo. Qual sua profissão?

I.
Sou professor de literatura.

I.
As coisas estão piores nestas duas semanas para os palestinos de Jerusalém? Em termos de ocupação mais brutal? Devem estar meio nervosos em Jerusalém Oriental.

B.
Sim, e estamos só rezando para as pessoas de Gaza.

I.
Que você e sua família sejam abençoadas, B. Vocês não estão sozinhos.

B.
Sim, só desejo que as pessoas pelo mundo estejam com Gaza para parar a guerra.

I.
Você estuda em Jerusalém?

B.
Sim, estou na universidade.

B
Não, eu moro em Jerusalém mas estudo em Nablus. .
Estudando farmácia.

I.
Legal, meus parabéns.

B.
Obrigado.

I.
Você tem que passar por postos policiais da ocupação para chegar à escola?

B.
Sim, três barreiras.

I.
TRÊS????????????

B.
Tenho um lugar para ficar em Nablus. Volto a Jerusalém toda semana.

I.
Três checkpoints entre Nablus e sua casa em Jerusalém?

B.
Sim, é isso.


I.
Uau. Às vezes deve demorar, suponho.

B.
Só no caminho de volta para casa.


I.
O que mais nós podemos fazer no Ocidente além de escrever, protestar, disseminar informação e organizar boicotes?

B.
aumentar conscientização do mundo sobre o que Israel está fazendo.

I.

Sim, é o que tentamos fazer. Mas confesso que a sensação de impotência é foda: 41 anos e nada muda.

B.
Sim, para que o mundo decida quem tem a culpa.

I.
Escute, posso traduzir esta conversa ao português e colocar no meu blog, PROTEGENDO E OMITINDO O SEU NOME, chamando você só de B.?

B.
Mesmo?


I.
Se você não quiser, não tem problema. Não o farei sem sua permissão.

B.
Não! Eu quero, sim. É bacana da sua parte.

I.
OK, eu vou traduzir deixo o link para você como mensagem pessoal.
I.
Você teve aula na universidade nos últimos dias?

B.
Agora estamos de férias.

I.
Você tem ido à Mesquita Al Aqsa?

B.
Sim, dá para ir.

I.
Está cercada?

B.
Sim, há guardas em volta e na porta.

I.
Quando começam suas aulas de novo?

B.
24-1-09

I.
Espero que as coisas estejam pelo menos mais calmas então. Vocês merecem paz na sua terra.

B.
Sim, é terra sagrada e deveria ser respeitada.

I.
Que você tenha vida longa e em paz, B. Você merece.

B.
Obrigado mesmo, de verdade.

I.
Vou colocar a conversa no blog e lhe aviso.

I.
Que a paz esteja com você, B.

B.
Muito, muito legal te conhecer. Que Deus te abençoe.

I.
O prazer é meu. Vamos manter o contato.

B.
Você tem filhos?

I.
Tenho dois, que moram no Brasil.

I.
O que mata qualquer pai é ver as cenas das crianças em Gaza.

B.
Sim, morte desumana.

I.
Com cumplicidade dos líderes americanos e europeus. Esta foto me partiu o coração. Nenhuma família deveria ter que agitar lenços brancos em frente de um tanque de guerra.


B.
Só o presidente da Turquia disse algo forte.

I.
Sim, um país não-árabe. A verdade é que os líderes árabes deixaram vocês sozinhos.

I.
É uma tragédia, porque os EUA concordam com qualquer coisa que faça Israel. Esperemos que algo mude com Obama. É uma possibilidade pequena, mas existe.

B.
Sim, meus conhecidos na América votaram nele.

I.
Ele teve simpatias pela causa palestina no começo. Mas o establishment de Washington é muito pró-Israel. Ele terá que ter cuidado.

B.
Eu espero que Deus o ilumine.

B.
Estou tentando aprender espanhol.

I.
Uau, ¡qué bueno! É uma língua fácil. São só 5 sons de vogais.

B.
Sim, tenho um monte de livros para aprender.

I.
O seu inglês é muito, muito bom. Como você aprendeu?


B.
Na escola, por mim mesma.

I.
Você escreve muito bem. Quero lhe mandar um livro meu. Você pode me mandar seu endereço por email ?

B.
Sim, mesmo? Muito obrigado. Adoro ler!

I.
Sim, me mande seu endereço de casa, ou da universidade, se preferir, por email, e eu lhe mando um exemplar.

B.
Pra cá?

I.
Sim, claro. Eu já mandei exemplares para amigos palestinos antes. É um livro sobre a violência.


I
Entendi. Você prefere que eu mande os arquivos eletrônicos do livro, por email?

B.
Sim, por email é melhor.

I.
Entendo.

B.
Eu não tenho correio normal.

I.
Você mora perto de colonos?

B.
Sim, colonos por toda parte. Entre nós.

I.
Violentos.

B.
Sim.

I.
Eu mando por email, sem problemas.

B.
Obrigado!

I.
Salam.

B.
Salam.



  Escrito por Idelber às 22:45 | link para este post




O escolasticídio em Gaza

Uma nova palavra emergiu da carnificina em Gaza: “escolasticídio” -- a sistemática destruição, realizada pelas forças israelenses, dos centros de educação queridos à sociedade palestina. O Ministério da Educação foi bombardeado, a infraestrutura do magistério destruída e as escolas em toda a Faixa de Gaza foram alvo de ataques aéreos, terrestres e marítimos.

“Aprenda, baby, aprenda” foi um lema do movimento de direitos civis dos negros nos guetos da América, uma geração atrás, mas ele também emblematiza a idéia de educação como pilar central da identidade palestina –- uma recompensa tradicional para o estudo, que é endurecida pela ocupação, algo que os israelenses “não toleram e tentam destruir”, de acordo com a Dra. Karma Nabulsi, que leciona política em St. Edmund Hall, Oxford. “Já sabíamos antes, e vemos mais claramente que nunca agora, que Israel está tentando aniquilar o palestino instruído”, diz ela.

Os palestinos estão entre os povos de mais instrução no mundo. Ao longo de décadas, a sociedade palestina – na Cisjordânia e em Gaza e esparramada pela diáspora – tem enfatizado singularmente o aprendizado. Depois das expulsões de 1948 e da ocupação de 1967, ondas de refugiados criaram uma intelligentsia palestina influente e uma presença marcante nas disciplinas de medicina e de engenharia no mundo árabe, na Europa e nas Américas.


Com a paciência obsessiva dos enlutados, vamos documentando os crimes de guerra, um por um. Dos mais perversos, sem dúvida, é o escolasticídio, a deliberada destruição das estruturas educacionais que a sociedade de Gaza, precária, mas competentemente, havia construído.



  Escrito por Idelber às 18:14 | link para este post




Visionário, Gilles Deleuze previu muito em 1978

Deleuze.jpg No dia 07 de abril de 1978, no Le Monde, o filósofo Gilles Deleuze profeticamente escrevia:

Como os palestinos poderiam ser “parceiros legítimos” em conversações de paz, se não têm país? Mas como teriam país, se seu país lhes foi roubado? Os palestinos jamais tiveram escolha, além da rendição incondicional. Só lhes ofereceram a morte.
[...]
Desde 1969, Israel bombardeia sem descanso o sul do Líbano. Israel já disse, claramente, que a recente invasão do Líbano não foi ato de retaliação pelo ataque terrorista em Telavive (11 terroristas contra 30 mil soldados); de fato, a invasão do Líbano é o ponto culminante de um plano, mais uma, numa sequência de operações a serem iniciadas como e quanto Israel decida iniciá-las. Para uma “solução final” para a questão palestina, Israel conta com a cumplicidade quase irrestrita de outros Estados (com diferentes nuances e diferentes restrições).

Um povo sem terra e sem Estado, como o palestino, é como uma espécie de leme, que dá a direção em que andará a paz de todos que se envolvam em suas questões. Se tivessem recebido auxílio econômico e militar, ainda assim teria sido em vão. Os palestinos sabem o que dizem, quando dizem que estão sós.
[...]
Essa população do sul do Líbano, em exílio perpétuo, indo e vindo sob ataque militar dos israelenses, não vê diferença alguma entre os ataques de Israel e atos de terrorismo. Os últimos ataques tiraram 200 mil pessoas de suas casas. Agora, esses refugiados vagam pelas estradas.

O Estado de Israel está usando, no sul do Líbano, o método que já se provou tão eficaz na Galileia e em outros lugares, em 1948: Israel está “palestinizando” o sul do Líbano.
A maioria dos militantes palestinos nasceram dessa população de refugiados. E Israel pensa que derrotará esses militantes criando mais refugiados e, portanto, com certeza, criando mais terroristas.
[...]
O conflito Israel-Palestina é um modelo que determinará como o ocidente enfrentará, doravante, os problemas do terrorismo, também na Europa.

A cooperação internacional entre vários Estados e a organização planetária dos procedimentos da polícia e dos bandidos necessariamente levará a um tipo de classificação que cada vez mais incluirá pessoas que serão consideradas “terroristas”. Aconteceu já na Guerra Civil espanhola, quando a Espanha serviu como laboratório experimental para um futuro ainda mais terrível que o passado do qual nascera.

Israel inteira está envolvida num experimento. Inventaram um modelo de repressão que, devidamente adaptado, será usado em vários países.

Há marcada continuidade nas políticas de Israel. Israel crê que as resoluções da ONU, que condenam Israel verbalmente, são autorizações para invadir. Israel converteu a resolução que o mandava sair dos territórios ocupados em direito de construir colônias!
[...]
Esse conflito é uma estranha espécie de chantagem, da qual o mundo jamais escapará, a menos que todos lutemos para que os palestinos sejam reconhecidos pelo que são: “parceiros genuínos” para conversações de paz. De fato, estão em guerra. Numa guerra que não escolheram.


Sublinhamos: São palavras publicadas numa época em que Atlético-MG e São Paulo tinham o mesmo número de títulos do Campeonato Brasileiro: abril de 1978. Ou, dito em outras palavras, 23 anos, 5 meses e 4 dias antes dos atentados terroristas da Al Qaeda nos EUA, que nos levam a outra etapa deste inferno -- também prevista, aliás, por Deleuze. Em 1978, a ocupação ilegal dos territórios palestinos completava sua primeira década. Hoje, já são mais de quatro: a mais longa ocupação colonial da era moderna. Deleuze foi um dos primeiros, no Ocidente, a alertar. A íntegra do texto está publicada no Amálgama, em tradução de Caia Fittipaldi. Há uma versão em inglês aqui.



  Escrito por Idelber às 17:18 | link para este post




Mais uma imagem do nosso tempo

Que jamais, jamais se esqueça esta imagem:

DSC04283.JPG


Esta fotografia, conhecida dos historiadores, mostra o porto de Haifa em 31 de janeiro de 1949, em que uma multidão se reuniu para dar as boas vindas a 1.500 refugiados judeus que chegavam.

O Biscoito Fino e a Massa entende que nenhuma lei de copyright se aplica à história das imagens da catástrofe imposta ao povo palestino, pois elas configuram documento de crime lesa-humanidade. Em todo caso, esta foto foi retirada do monumental livro de Ilan Pappé, The Ethnic Cleansing of Palestine.



  Escrito por Idelber às 04:42 | link para este post




Jerusalem Post lies

O jornal Jerusalem Post é um porta-voz da ocupação e do genocídio. O Biscoito já documentou amplamente o uso israelense de armas de fósforo contra civis palestinos.



  Escrito por Idelber às 04:30 | link para este post




Um número

São aproximadamente 800.000 crianças em Gaza. Dessas, algumas centenas já foram assassinadas, no que a imprensa ainda continua chamando o "conflito entre Israel e o Hamas".

gaza14.jpg


Sobre o trauma indescritível que a aviação israelense está perpetrando contra as centenas de milhares de crianças de Gaza, talvez o grande psicanalista e ficcionista Sérgio Telles, autor de deliciosos livros que já li, possa um dia escrever algo.

Aqui, neste cantinho da internet, o número não passou batido: do milhão e meio de seres humanos sob bombardeio e cerco total, 800 mil são crianças.



  Escrito por Idelber às 03:19 | link para este post




Mohammed Fares Al Majdalawi escreve de lá: Gaza está afundando num rio de sangue

gaza13.jpg Quero escrever sobre o sofrimento do meu povo e da minha família nestes dias de cerco contra a população de Gaza. Pelo menos 888 pessoas já foram assassinadas e mais de 3.700 feridas. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha acusou o exército israelense de repetidamente recusar entrada a ambulâncias na região de Al Zeitoun na Cidade de Gaza. Como consequência, os feridos logo passam a ser os mortos, uma violação premeditada e deliberada dos direitos humanos.

Em minha casa já não temos as necessidades básicas. Não há comida. Pão. Ou combustível. Ou futuro. Ontem, meu pai foi à padaria às 5 da manhã. Esperou 5 horas para conseguir um pedaço de pão, que não é suficiente para minha família, porque somos 11. Hoje foi minha vez. Fui a todas as padarias -- fechadas.

Não temos para onde ir. Não podemos nos comunicar com nossos amigos ou parentes -- todas as comunicações já caíram, enquanto despejam mísseis nas nossas casas, mesquitas e até hospitais.

Na única faixa de terra do planeta onde uma população sofre cerco aéreo, naval e terrestre de um exército estrangeiro, além de bombardeio cerrado incessante durante vários dias, Mohammed Fares Al Majdalawi descreve o horror.

A foto é de Wissam Nassar, está no Mean Images, e mostra o luto no Hospital Al Shifa, na Cidade de Gaza.



  Escrito por Idelber às 02:52 | link para este post




Valeu, São Paulo

redSolidariedade_Palestina_11-01-09_245.jpg


do Blog do Bourdoukan.



  Escrito por Idelber às 01:50 | link para este post



domingo, 11 de janeiro 2009

Glossário Macabro da Ocupação, 3: “Terrorista”

1. A palavra “terror” entra na língua como designação de um ato político justo ali no momento de fundação da democracia moderna. Houaiss, “terror”, acepção 6: nome por que se designa o período da Revolução Francesa compreendido entre 31 de maio de 1793 (queda dos girondinos) e 27 de julho de 1794 (queda de Robespierre). Este é o primeiro tapa que os fatos dão na cara do argumento que implícita ou explicitamente associa o “terrorismo” aos árabes: o “terror” não é o oposto da democracia, não é antônimo de “liberalismo”, não é o contrário nem o antagonista do Ocidente. O terror nasce ali, juntinho com a democracia. É seu irmão ou primo – ou “brimo”, como diria alguma jornalista.

2. Já “terrorista” é termo mais recente – entrada na língua em 1836, para o substantivo, e 1881, para o adjetivo, segundo Houaiss. Ganha circulação mesmo com grupos como o Narodnaya Volya, na Rússia, jovens que tinham plataforma de democracia radical mas que começaram a recorrer a táticas como o assassinato seletivo (o mais famoso o do Czar Alexandre II, em 1881). Sobre eles, Dostoiévski escreveu um grande romance, em que o genial prosador conservador-russófilo alertava para os perigos do “niilismo”. Mas quem os derrotou politicamente foi o bolchevismo, que sempre criticou os métodos do populismo Narodnaya. Foi quem os botou para correr da Rússia: segundo tapa na cara que os fatos dão nos argumentos dos que associam as lutas de esquerda, populares e/ ou nacionais de libertação, ao “terrorismo”.

3. Até a primeira metade do século XX, o terrorismo entendido como atentado em massa a vidas de civis inocentes não era parte do jogo político na Palestina histórica. Ele chega ali com Haganah, Irgún e o grupo Stern, todas elas organizações sionistas cuja atividade principal eram atos de terrorismo no sentido estrito definido acima. No entanto, na Wikipédia você encontrará os Narodnaya russos definidos como “terroristas”, enquanto as organizações sionistas terroristas que cumpriram papel central na fundação de Israel são listadas com os eufemismos "grupo militante" ou, no "melhor" dos casos, “grupo paramilitar”. Experimente questionar essa distinção por lá e você terá uma aula sobre como funciona a Wikipédia -- e também sobre como funciona o lobby pró-Israel na internet.

4. Haganah comete os primeiros atentados terroristas contra árabes na Palestina já nos anos 20, quando ainda não havia nascido o pai do primeiro homem-bomba palestino. As organizações sionistas cometem amplos crimes definíveis como terroristas ao longo dos anos 40, caminho histórico pelo qual se fundou o estado de Israel – muito, muito antes de que nascesse o primeiro homem-bomba palestino.

5. No entanto, o estado de Israel – que ao longo de sua existência e, especialmente, desde 1967, comete crimes definíveis como terrorismo de estado contra os palestinos – usa e abusa do termo “terrorista” para caracterizar quaisquer interlocutores que construa a nação palestina como seus representantes. Tudo isso ao mesmo tempo em que, oficialmente, se recusa a reconhecer o papel do terrorismo em sua fundação, já demonstrado amplamente pela historiografia.

6. O Hamas, organização militante, assistencialista, militar, que combina islamismo com nacionalismo palestino, destina boa parte de seu orçamento à assistência social e à educação – e também é responsável, desde os anos 90, por atentados contra civis israelenses definíveis como atos de terrorismo no sentido estrito. O Hamas somente passou a ser organização majoritária em Gaza depois de décadas e décadas de ocupação militar estrangeira em territórios palestinos, incluindo-se aí uma história curiosa que inclui a sistemática destruição, sabotagem e cooptação da secular Organização para Libertação da Palestina por parte de Israel. Essa atividade incluiu, diga-se, apoio ao próprio Hamas, por parte de Israel, nos albores do grupo islamista.

7. Os poderosos há tempos utilizam o rótulo de “terrorismo” para desqualificar as lutas populares. Ao longo da colaboração dos EUA com o regime segregacionista da África do Sul, o Congresso Nacional Africano e seu líder principal, Nelson Mandela, eram caracterizados como “terroristas”. Aliás – mais um tapa na cara que os fatos dão no filistinismo – ainda em 2008, catorze anos inteiros depois do fim do Apartheid, nove anos inteiros depois que Mandela havia concluído sua presidência na África do Sul, os EUA ainda o catalogavam como terrorista, coisa que ninguém menos que Condoleeza Rice definiu como “embaraçosa”.

8. Se é certo que há tempos o rótulo de “terrorista” é manipulado pelos poderosos, essa manipulação chegou ao auge depois de 2001, quando Bush e cia., incluindo-se aqui o estado sionista, sem dúvida, transformaram o termo em sinônimo de quem-quer-que-seja-que-eu-defina-agora-como-inimigo-no-mundo-árabe-ou-muçulmano. A definição de "terrorismo" do estado americano, bem razoável e próxima dos dicionários -- violência premeditada e politicamente motivada perpetrada contra alvos não combatentes -- convenientemente acrescenta a expressão realizada por grupos subnacionais ou agentes clandestinos, de forma que nenhum ato de Israel é listado.

9. Ao longo dessa história, o estado de Israel continuou a cometer sistematicamente, contra os palestinos que vivem sob ocupação, uma série de atos definíveis como terrorismo de estado no sentido estrito, incluindo-se: o assassinato seletivo, a tortura, a demolição de casas, o bombardeio indiscriminado, a punição coletiva, a colonização, roubo, cerco e monopólio de terras por colonos fortemente armados, a picotagem do território palestino com postos policiais de controle de alta truculência, etc. Todos esses atos começaram e se mantiveram muito antes de que nascesse ou operasse o primeiro homem-bomba palestino e continuaram independentemente de qualquer frequência em atentados suicidas contra civis israelenses.

São algumas entre as muitas provas incontestes de que a raiz do problema na Palestina Ocupada é o terrorismo de estado que promove a ocupação militar, à qual o terrorismo do homem-bomba desesperado é uma entre várias reações.

Apesar de tudo isso, são os palestinos e árabes, em geral, que são associados ao “terrorismo”, explícita ou implicitamente. O cinismo chega ao ponto da capa da Veja dizer que entre os mortos de Gaza “há culpados e inocentes”. Como se não coubesse perguntar se alguém ali pode ser culpado sem ter tido direito a um julgamento. Como se não coubesse perguntar pela culpa que realmente importa, a dos autores do massacre.

"Terrorista" é dos itens mais obscenos do glossário macabro da ocupação.



  Escrito por Idelber às 20:44 | link para este post




Vozes da maioria silenciada

Im-per-dí-vel documentário. Reserve 90 minutos. Está legendado em português.


Dica do leitor Thiago P., a quem agradeço.



  Escrito por Idelber às 14:34 | link para este post




Boicote Israel: Centenas de israelenses se juntam à campanha de incontáveis entidades pelo mundo

naomiklein.jpgJá é hora. Já passou da hora há tempos. A melhor estratégia para acabar com a ocupação crescentemente sangrenta é fazer de Israel o alvo de um movimento global do tipo do que pôs fim ao apartheid na África do Sul. Em Julho de 2005, uma ampla coalizão de grupos palestinos estabeleceu planos para fazer isso. Convidaram “as pessoas de consciência em todo o mundo para impor amplos boicotes e implementar iniciativas de desinvestimento contra Israel, semelhantes àquelas aplicadas à África do Sul na era do apartheid.” Nascia a campanha Boicote, Desinvestimento, Sanções.

Cada dia que Israel massacra Gaza converte mais gente para a causa BDS – até mesmo entre judeus israelenses. Em meios aos ataques, por volta de 500 israelenses, dúzias dos quais são acadêmicos e artistas conhecidos, enviaram uma carta aos embaixadores estrangeiros em Israel. Ela conclama a “adoção de sanções e medidas restritivas imediatas” e estabelece um claro paralelo com a luta anti-apartheid. “O boicote à África do Sul funcionou, mas com a Israel a regra é luvas de pelica . . . Esse apoio internacional tem que acabar.”

É a reconhecida intelectual Naomi Klein pronunciando-se a favor do boicote
. A campanha Boicote, Desinvestimento, Sanções é apoiada por incontáveis associações – incluindo-se blogs brasileiros como o RS Urgente, o Reinventando Santa Maria e o Biscoito, que o convida, blogueiro, a informar-se sobre o boicote a Israel e repercuti-lo no seu blog.

Mini-FAQ sobre a campanha Boicote, Desinvestimento, Sanções a Israel:

1. Trata-se de uma campanha contra o povo judeu? Absolutamente não. Incontáveis judeus, dentro e fora de Israel (quantos mais precisamos citar? Que tal essas bravíssimas oito judias canadenses?), participam da campanha em favor de sanções a Israel como forma de forçar o país a respeitar tanto a lei internacional como os padrões humanitários.

2. A campanha afirma que Israel é igual à África do Sul do apartheid? Absolutamente não. Não existem dois momentos históricos política ou moralmente idênticos. A campanha simplesmente mostra como pode ser bem sucedido um movimento pacífico de desinvestimento contra uma nação que se recusa a respeitar a lei internacional e os padrões humanitários.

3. Há paralelos e diferenças entre as situações dos negros sul-africanos na época do apartheid e dos palestinos sob ocupação? É evidente. Diferenças? Os ônibus na África do Sul eram segregados, mas eles viajavam nas mesmas estradas. A Ocupação israelense inventa essa infinitamente perversa maquininha-apartheid: as estradas segregadas. Ao fim e ao cabo, são incontáveis as personalidades sul-africanas que já testemunharam que a situação dos palestinos sob ocupação é pior. Esses incontáveis incluem um certo homem chamado Desmond Tutu, que vem conclamando ao boicote há tempos. Trata-se de um testemunho corroborado por relatório das Nações Unidas.

4.O boicote vai funcionar? Só responde essa pergunta categoricamente quem está disposto a fazer futurologia, mas o fato é que ante o completo sequestro do establishment político americano pelo lobby pró-Israel mais belicista, a inépcia das Nações Unidas e a covardia medrosa dos líderes árabes, é impossível abrir mão dos instrumentos de luta que restam.

Todo o apoio à campanha Boicote, Desinvestimento, Sanções.



  Escrito por Idelber às 14:03 | link para este post



sábado, 10 de janeiro 2009

Dr. Ehab não está mais lá

office.jpg



Já são mais de 800 os palestinos mortos pela chacina israelense. Desumanizados, sempre suspeitos de “terrorismo” -- outra palavrinha que esmiuçarei em breve no Glossário Macabro --, os mortos palestinos com muito pouca frequência tem um rosto. O Biscoito inicia agora uma breve série que dá rosto e nome a essas vítimas.

Dr. Ehab era dermatólogo e seu filho ainda está no ventre da mulher amada. Ele se formou numa Universidade na Ucrânia. Amado, querido em Gaza. A dermatologia é uma área importante em Gaza, dada a crueldade das armas que Israel tem usado contra essa população, que é a única do planeta a viver sob um bloqueio terrestre, naval e aéreo completo de um exército ocupante (não só de suas fronteiras, mas de seus outros irmãos palestinos).

ehab.jpg

"A pena mais amarga", diz Nancy, grávida, "é que meu bebê nunca verá seu pai". Viúva, aos 28, ela é mãe de um garoto e uma garota, que acabam de perder o pai. O Dr. Ehab al-Shaer abriu, primeiro, uma clínica no centro de Rafah em 2006 -- estabelecendo-se como respeitado dermatólogo. Um ano depois, a partir da reputação, abriu uma filial em Nuseirat, campo de refugiados na região central da Faixa de Gaza. (fonte)

Pelo menos aqui neste cantinho da internet, está registrada, em luto, a morte do Dr. Ehab.



  Escrito por Idelber às 19:45 | link para este post




Robert Fisk desmascara mentiras da Ocupação. Amálgama traduz

Meu momento preferido aconteceu quando eu disse que jornalistas têm de ter lado, e que o lado dos jornalistas têm de ser o lado dos que mais sofrem. Se me mandassem cobrir o tráfico de escravos no século 18, eu jamais daria destaque, no que escrevesse, à opinião do capitão do navio mercador de escravos. Se me mandassem cobrir a libertação num campo de concentração nazista, eu não entrevistaria o porta-voz da SS. Nesse ponto, um jornalista do Jewish Telegraph em Praga "argumentou" que "o exército israelense não é Hitler". Claro que não. Eu não disse que é. Aqueles jornalistas, sim, é que temem que seja.

É o Amálgama, fazendo o inestimável serviço de traduzir Robert Fisk.



  Escrito por Idelber às 17:09 | link para este post




Duas fotos do nosso tempo

A primeira, conhecida: Gueto de Varsóvia, 1941.

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A segunda: Gaza, Palestina Ocupada, 2009:

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A primeira imagem foi amplamente memorializada nos últimos sessenta e poucos anos.

Que a segunda jamais seja esquecida.

Ela é da impressionante coleção Scenes from the Gaza Strip (via Nassif).


PS: Digníssima US House of Representatives (com exceção de Dennis Kucinich e quatro outros), como é possível que desse tanque, ante o qual essa família palestina caminha agitando lenços brancos em frente de suas próprias casas, já na prisão ao ar livre à qual Israel os confinou, vocês tenham a cara-de-pau de dizer que age em auto-defesa? Qual o limite do cinismo para satisfazer a milionária truculência do lobby pró-Israel nos EUA?



  Escrito por Idelber às 16:42 | link para este post




Nove eurodeputados embarcam para Gaza

portas.jpgSomos 9 eurodeputados em missão por conta e risco, com o objectivo de recolher informação in loco que nos permita intervir na sessão plenária de quarta-feira - onde se irá discutir a invasão - com conhecimento de causa, nomeadamente no plano humanitário.

Os 9 eurodeputados pertencem a diferentes grupos políticos no PE - Esquerda, Verdes, PSE, Liberais e UEN - e representam diferentes países. Eis os seus nomes: Luísa Morgantini (Itália), Helene Flautre (França), David Hammerstein (Espanha), Kyriacos Triantaphylides (Chipre), Feleknas Uca (Alemanha), Graham Davies (Reino Unido), Verónique de Keyser (Bélgica) e eu próprio.

A visita foi preparada com a colaboração das autoridades egípcias e, no interior da faixa, contará com a diligência da organização das Nações Unidas para os refugiados palestinianos, a UNRWA. A entrada far-se-á pela fronteira de Raffa.

Enquanto o Congresso americano dá mais uma vez um espetáculo de cinismo, o deputado português Miguel Portas e oito colegas honram o seu mandato arriscando a vida. Portas é eurodeputado pelo Bloco de Esquerda e autor de No Labirinto: O Líbano entre guerras, política e religião, livro escrito depois da mais recente agressão israelense ao Líbano.

A dica veio do Thiago.



  Escrito por Idelber às 08:41 | link para este post



sexta-feira, 09 de janeiro 2009

Um link importante

Uma das boas fontes para acompanhar a chacina contra o povo palestino tem sido o Twitter da Al Jazeera (em inglês). Há boa informação também no site da emissora. A Al Jazeera relata que a Câmara dos Deputados americana aprovou uma moção, por 390 votos a 5, que afirma que "Israel tem o direito de se defender contra os ataques de Gaza". A esse ponto chega o cinismo.

Um ilha de dignidade em meio às mentiras patrocinadas pelo lobby pró-Israel, o deputado Dennis Kucinich, de Ohio, perguntou-se: como reinvindicar autodefesa num ataque contra Gaza, que não tem exército, marinha ou força aérea?



  Escrito por Idelber às 18:26 | link para este post




Israel continua disparando contra ambulâncias

Mohammed Shaheen, um voluntário com o Crescente Vermelho Palestino, estava na primeira das ambulâncias que chegaram ao local da explosão em Zeitoun, desde que ela foi ocupada e depois bombardeada pelo exército israelense. O seu testemunho confirma os relatos dos sobreviventes do clã Al Samouni, publicados primeiro pelo Telegraph, que diziam que eles temiam que entre 60 e 70 membros haviam sido mortos.

“Dentro da casa dos Samouni eu vi cerca de 10 corpos e do lado de fora outros 60”, disse o Sr. Shaheen. “Não fui capaz de contá-los exatamente, porque não havia muito tempo e estávamos procurando feridos. Encontramos quinze pessoas ainda vivas mas feridas, então as levamos para as ambulâncias. Vimos um bulldozer militar israelense destruindo casas na região, mas já não tínhamos tempo e os soldados israelenses começaram a disparar contra nós.”


Como confirma o artigo do Telegraph, cerca de 100 membros do clã Samouni receberam ordens de soldados israelenses para que se reunissem naquela casa, logo que Zeitoun foi tomada, no sábado à noite. Ali mesmo, dezenas foram triturados.

O relato de Mohammed Shaheen confirma também, pela milésima vez, o que já sabemos: a política israelense de disparar contra ambulâncias.



  Escrito por Idelber às 16:53 | link para este post




Tempo dos virtuosos, por Gideon Levy

levy.jpgEssa guerra, talvez mais que as anteriores, está expondo as veias profundas da sociedade de Israel. Racismo e ódio erguem a cabeça, a sede de vingança e de sangue. A "tendência do comando" no exército de Israel hoje é matar, "matar o mais possível", nas palavras dos porta-vozes militares na televisão. E ainda que falassem dos combatentes do Hamas, ainda assim essa disposição seria sempre horrenda.

A fúria sem rédeas, a brutalidade é chamada de "exercitar a cautela": o apavorante balanço do sangue derramado – 100 palestinos mortos para cada israelense morto é um fato que não está levantando qualquer discussão, como se Israel tivesse decidido que o sangue dos palestinenses valesse 100 vezes menos que o sangue dos israelenses, o que manifesta o inerente racismo da sociedade de Israel.

Direitistas, nacionalistas, chauvinistas e militaristas são o bom-tom da hora. Ninguém fale de humanidade e compaixão. Só na periferia ouvem-se vozes de protesto - desautorizadas, descartadas, em ostracismo e ignoradas pela imprensa -, vozes de um pequeno e bravo grupo de judeus e árabes.


Além disso tudo, soa também outra voz, a pior de todas. A voz dos cínicos e dos hipócritas. Meu colega Ari Shavit parece ser o seu mais eloquente porta-voz. Essa semana, Shavit escreveu neste jornal ("Israel deve dobrar, triplicar, quadruplicar a assistência médica em Gaza" - Haaretz, 7/1): "A ofensiva israelense em Gaza é justa (…). Só uma iniciativa imediata e generosa de socorro humanitário provará que, apesar da guerra brutal que nos foi imposta, nos lembramos de que há seres humanos do outro lado."

Para Shavit, que defendeu a justeza dessa guerra e insistiu que Israel não poderia deixar-se derrotar, o custo moral não conta, como não conta o fato de que não há vitória possível em guerras injustas como essa. E, na mesma frase, atreve-se a falar dos "seres humanos do outro lado".

Shavit pretende que Israel mate e mate e, depois, construa hospitais de campanha e mande remédios para os feridos? Ele sabe que uma guerra contra civis desarmados, talvez os seres mais desamparados do mundo, que não têm para onde fugir, é e sempre será vergonhosa.

Continue lendo Tempo dos virtuosos, de Gideon Levy, um legítimo herdeiro do humanismo judaico, lá no Amálgama.



  Escrito por Idelber às 15:46 | link para este post




Glossário macabro da ocupação, 2: “equilíbrio”, “ponderação", “ver os dois lados”

Qualquer bom profissional da área de Letras, com um mínimo de formação em retórica, poderá lhe explicar, caro leitor, como seria relativamente simples escrever um panfleto racista que parecesse “ponderado”, uma monstruosidade pró-Apartheid que soasse “equilibrada”, uma justificativa do colonialismo mais bárbaro que parecesse estar “vendo os dois lados”. Basta ir fazendo um pingue-pongue pretensamente neutro entre verdugo e vítima, e você engana os incautos.

No caso das discussões acerca da catástrofe que assola o povo palestino desde 1948 e, muito especialmente, desde 1967, esses termos, “ponderação”, “equilíbrio”, constituem a faceta mais perversa do glossário macabro. O nosso jornalista “ponderado” dirá: sim, é verdade que Israel usa força desproporcional, mas o Hamas provocou com os foguetes, omitindo que a “trégua” -- e eu já expliquei aqui e aqui porque uso aspas nesse termo – foi rompida no dia 04 de novembro por Israel, com uma invasão seguida de sete assassinatos. O jornalista “equilibrado” dirá: sim, é verdade que os israelenses estão bombardeando Gaza por motivos eleitorais, mas o Hamas não é muito melhor, omitindo o fato de que quando a liderança inconteste dos palestinos era a secular OLP de Arafat, a política de extermínio e desumanização de Israel era absolutamente a mesma. Ou seja, como já explicou a especialista Jenniffer Loewenstein, o Hamas não tem nada a ver com o bombardeio a Gaza. Qualquer liderança que os palestinos construíssem, e que não compactuasse com sua escravização, estaria sofrendo o mesmíssimo massacre.

Nada tenho contra quem escreve sobre o tema com temperatura menos fervente que a minha. Mas não é essa temperatura que determina a forma como avalio o texto. Julgo-o, principalmente, por sua determinação em buscar a verdade. E o filistinismo da “ponderação” muitas vezes não está nem um pouco interessado na verdade, e sim em parecer “equânime” e bonitinho.

Há muita gente bem intencionada que acredita nessa história de “ver os dois lados”. Em qualquer conversa minimamente civilizada, alguém que se propusesse a estudar o nazismo ou o Apartheid “vendo os dois lados” seria ridicularizado. Mas ante a catástrofe palestina, esse filistinismo pretensamente neutro tem ampla circulação. Há jornalistas que, presenciando o nosso horror ante a chacina em Gaza, falam de “indignação seletiva”. Ora, o que teríamos que fazer para que nossa indignação não fosse “seletiva”? Chorar pelos soldados israelenses que estão com as unhas encravadas?

gaza11.jpg "um lado"

Uma vez, convidei um defensor das chacinas israelenses a uma conversa sobre o monumental trabalho historiográfico de Ilan Pappé, que demonstra a expulsão, o confisco e a política explícita de limpeza étnica contra os palestinos, tudo exaustivamente documentado. A resposta dele foi que leria o livro de Pappé tendo ao lado um texto de Alan Dershowitz. Em qualquer Faculdade de História minimamente séria, tal justaposição seria motivo de gargalhada ou ridicularização. Você não justapõe o trabalho de um historiador que passou anos desenterrando os fatos aos escritos raivosos de um ideólogo pró-Ocupação. Se você nunca leu Pappé ou Dershowitz, imagine que um historiador brasileiro propusesse um curso sobre a ditadura militar, utilizando as pesquisas de Elio Gaspari e Jacob Gorender, e alguém dissesse que para que o curso fosse “equilibrado”, seria necessário incluir o Manual de OSPB da ditadura militar.

É esse filistinismo pretensamente neutro que grassa sobre o sangue do povo palestino.

gaza12.JPG "o outro lado". (crédito)

Por isso, o Biscoito Fino e a Massa trabalha com um axioma bastante simples: ante a barbárie inominável, ante o crime contra a humanidade, qualquer “ponderação” entendida nos termos acima é um gesto de cumplicidade com o verdugo. Por isso, aqui no Biscoito não há “ponderação”. Por isso, aqui não há “dois lados” porra nenhuma. Nós temos um lado: a busca da verdade. E em épocas de bárbarie, a verdade costuma estar do lado das vítimas.



  Escrito por Idelber às 15:03 | link para este post




Best Blogs Brasil 2008

O Biscoito Fino e a Massa está entre os dez finalistas do Best Blogs Brasil na categoria política. Para votar, é só clicar aqui. O cadastro é simples e rápido.

Seria impossível agradecer individualmente a todos os blogs que estão me ajudando na cobertura da matança israelense em Gaza, mas deixo o link da repercussão com o agradecimento a todos.

Logo que eu conseguir algumas horas de sono, publico o segundo verbete do glossário macabro. As palavras e expressões escolhidas são "ponderação", "equilíbrio" e "ver os dois lados".



  Escrito por Idelber às 04:57 | link para este post




Um PDF para quem quer estudar

Alguns dos constantes comentários sobre a Palestina Ocupada são de que “tudo é muito confuso”, “é uma briga milenar” ou “não entendo por que judeus e árabes não se entendem”. Confesso que não tenho muita paciência para esse tipo de comentário, por mais bem intencionado que ele seja.

De “milenar”, caro leitor, esse massacre não tem nada. Ele tem data, bonitinho, para começar: 1948, com a expulsão de 750.000 palestinos de suas terras. Depois, outra data: 1967, o início da ocupação ilegal das terras que não pertencem a Israel. E não são “judeus e árabes” que não se entendem. Eles se entendem muito bem nas ruas de Nova York ou de São Paulo. É de uma ocupação militar estrangeira sobre um povo que estamos falando.

Se você tem interesse em estudar um capítulo importante dessa história – a construção do muro do Apartheid, que rouba mais terras palestinas e separa vilas e cidades palestinas umas das outras --, o Biscoito recomenda o trabalho feito pela Coordenação de Questões Humanitárias das Nações Unidas. Se você tem paciência para baixar um PDF pesadinho (com muitos mapas), clique aqui.

Mesmo sem ser cartógrafo, é possível observar a imensa crueldade do Muro do Apartheid. É só procurar, nos mapas, a “linha verde”. Essa é a linha do armistício de 1967, que define as fronteiras dentro das quais Israel é um país legalmente reconhecido pela comunidade das nações. Agora, procure a linha grossa vermelha que é o muro. Observe como o muro, por exemplo, elimina qualquer contato entre Ramallah – capital provisória da Autoridade Palestina – e Jerusalém Oriental. A distância entre as duas cidades? 10 quilômetros.

Clique aqui para baixar o PDF e estudar a cartografia do horror.



  Escrito por Idelber às 04:25 | link para este post




Uma mulher de dignidade infinita

Todos se lembram da imagem do rapaz chinês enfrentando os tanques na Praça Tiananmen, em 1989. A imagem correu o globo, em parte porque interessava ao mundo ocidental mostrar as (mui reais, diga-se) violações dos direitos humanos na China. Os incontáveis heróis populares palestinos -- e, muito especialmente, suas heroínas -- não têm a mesma sorte, dado o interesse das potências ocidentais em esconder sua cumplicidade com a política de limpeza étnica de Israel.

Vejam a determinação com que essa mulher enfrenta, de peito aberto, à frente de uma população desarmada, as baionetas do exército sionista de ocupação. Vejam a determinação nos seus olhos. Vejam como os soldados da ocupação evitam o contato visual, envergonhados, desumanizados pela tarefa de verdugos:

(valeu, Mello)



  Escrito por Idelber às 03:39 | link para este post




Jimmy Carter conta como Israel rompeu o cessar-fogo

jimmy_carter.jpgO escalão superior do Hamas em Damasco, no entanto, concordou em considerar um cessar-fogo em Gaza desde que Israel prometesse não atacar e permitisse a entrega de ajuda humanitária aos cidadãos palestinos.

Depois de extensas discussões, os líderes do Hamas também aceitaram qualquer acordo de paz que pudesse ser negociado entre os israelenses e o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, que também lidera a OLP, desde que fosse aprovado pela maioria dos palestinos em um referendo ou por governo de unidade eleito.

Uma vez que éramos apenas observadores, não negociadores, passamos a informação aos egípcios e eles buscaram uma proposta de cessar-fogo. Depois de cerca de um mês, os egípcios e o Hamas nos informaram que a ação militar dos dois lados e os foguetes iam parar em 19 de junho, por um período de seis meses, e que a ajuda humanitária seria restaurada ao nível normal que existia antes da retirada de Israel em 2005 (cerca de 700 caminhões por dia).

Fomos incapazes de confirmar isso em Jerusalém por causa da decisão de Israel de não admitir qualquer negociação com o Hamas, mas os lançamentos de foguetes logo pararam e houve aumento na entrega de comida, água, remédios e combustível. Ainda assim o aumento foi para cerca de 20% do nível original [de 700 caminhões]. E esse cessar-fogo frágil foi parcialmente rompido em 4 de novembro, quando Israel lançou um ataque em Gaza (fonte em português; original em inglês aqui).

Nesse ataque, Israel assassinou sete palestinos. A posição do Biscoito Fino e a Massa é de que jamais houve “trégua” nenhuma, pois não se pode falar de trégua quando uma população vive enjaulada, sem ter sequer o direito de recolher seus impostos ou controlar suas fronteiras. Mas mesmo que usemos o termo “trégua” no sentido em que a mídia, em geral, utiliza-o para se referir à Palestina Ocupada -- ou seja, “trégua” consiste em que os palestinos continuem vivendo calados, como escravos, nas suas próprias terras --, mesmo assim, o fato, a verdade, é que a trégua foi rompida por Israel, quando invadiu Gaza no dia 04 de novembro e assassinou sete palestinos, depois de meses inteiros em que o Hamas não havia lançado rojões Qassam sobre território israelense.

Stephen Zunes, especialista da Universidade de San Francisco, disse com todas as letras: foi uma enorme, enorme provocação, e agora me parece que o objetivo era mesmo fazer com que o Hamas rompesse o cessar-fogo. Amigo leitor: nada, nada, nada disso foi relatado pela mídia ocidental. É como se a invasão do 04 de novembro não tivesse acontecido.

Por que Israel escolheu o dia 04 de novembro para romper a trégua? Ora, caro leitor, lembre-se do que acontecia nos EUA no dia 04 de novembro. Não é difícil adivinhar. O obviedade é gritante.



  Escrito por Idelber às 03:18 | link para este post




Glossário macabro da ocupação, 1: “conflito”

O Biscoito Fino e a Massa começa hoje a publicar um glossário macabro da ocupação: uma análise de como as palavras são usadas para mascarar, distorcer, esconder. A primeira escolhida é o termo “conflito”.

Ao definir “conflito”, Houaiss usa os sinônimos “choque” e “enfrentamento”. Certamente, podem existir conflitos entre fortes e fracos. A simetria perfeita de forças não é um requisito para a aplicabilidade do termo. Mas se você vir um garoto de 15 anos sendo espancado por cinco brutamontes, você dificilmente usará a palavra “conflito” para descrever o que acontece.

Pode ser, caro leitor, que em algum momento da história catastrófica que se inicia em 1948, a palavra “conflito” possa ter tido algum grau de aplicabilidade. Mas observar as cenas de Gaza, o massacre de civis, as bombas de fósforo branco contra crianças, o bombardeio de escolas e o enjaulamento de 1,5 milhão de pessoas realizado pelo exército israelense, e ainda assim falar de “conflito israelo-palestino” é de um cinismo inominável ou de uma distração imperdoável.

O nome correto é matança. Chacina. Carnificina. Promovida por uma ocupação militar. Jornalistas, por favor, dêem o nome correto às coisas.



  Escrito por Idelber às 02:25 | link para este post



quinta-feira, 08 de janeiro 2009

Kanouté: Um cartão amarelo que dignifica o futebol

kanoute.jpg

Ao marcar um gol ontem, na partida contra o Deportivo La Coruña, pela Copa do Rei, da Espanha, o atacante malinês Frederic Kanouté, do Sevilha, mostrou uma camisa com a inscrição Palestina, num gesto de solidariedade ao povo banhado em sangue. Aí na foto, com ele, o seu companheiro de equipe brasileiro, Luis Fabiano. O árbitro Mateu Lahoz, cumprindo as regras, exibiu o cartão amarelo a Kanouté no reinício do jogo. O gesto de Kanouté correu o mundo.

Pode até levar uma multa da Federação Espanhola, mas já inscreveu seu nome na história, ao lado de Muhammad Ali, Tommie Smith e John Carlos.



  Escrito por Idelber às 21:48 | link para este post




Relembrando um notável judeu

benjamin.jpg

Não é a imagem dos netos libertos, mas a dos ancestrais escravizados a que nos inspira, ensinou Walter Benjamin, esse genial pensador judeu que nunca caiu no conto do sionismo.



  Escrito por Idelber às 10:04 | link para este post




Atualização, com singularidade

Já são mais de 700 mortos palestinos.

palestinian-flag.jpg

Preciso dar algum link para confirmar? Palestinas, as mortes essas que se medem às centenas ou aos milhares, com o filistinismo calculando qual era a porcentagem de "civis" entre os cadáveres, como se existissem militares numa nação que não tem estado.

Neste momento, de verdade, em que só vejo a mídia calcular qual porcentagem desses mortos "eram civis", só consigo pensar em um possível cadáver, só um.

Ibi, minha amiga de Gaza, sumiu da internet. Evidentemente. Já não há água nem luz em Gaza, quanto mais internet. Ainda não pude averiguar se Ibi está morta ou viva. Eu gostava, gosto muito dela. Nenhuma das nossas divergências internéticas tinha a ver com o Hamas. Eu e ela coincidíamos, sempre, na avaliação do que é positivo e do que é negativo no Hamas, e também na avaliação do pouco que essa organização islamista-nacionalista-palestina tem a ver com o genocídio atual perpetrado por Israel. Tudo isso, Jennifer já explicou.

Eu e Ibi saíamos na porrada mesmo sobre Tears for Fears. Ela gostava de Tears for Fears. Eu insistia em que ela ouvisse Joy Division com mais atenção. O retrato que você, leitor, recebe de Gaza pela mídia é absolutamente incapaz de imaginar isso: eu, 40, brasileiro-americano; Ibi, 21, moderna, árabe, inteligente, poliglota, secular e fã do Tears for Fears.

Se houver confirmação da morte -- ou da vida -- da minha amiga Ibi, eu aviso aqui.

PS: O que é absurdamente comovente nesses momentos é ver os amigos palestinos de Hebron, Ramalá, Nablus, Jerusalém Oriental Ocupada, etc. preocupando-se -- eles, que estão vivendo em situação tão difícil -- com o fato de que eu (que estou, obviamente, em situação bem confortável) possa ter perdido uma amiga.



  Escrito por Idelber às 09:20 | link para este post




Correspondente da Globo no Oriente Médio foi do exército de Israel, escreveu – e apagou – um blog racista, belicista, anti-árabe e pró-ocupação

Quem faz essa acusação de racismo, caro leitor, é o blogueiro que assina o Biscoito – talvez o blog que mais abertamente, junto com o LLL, discutiu questões raciais no Brasil nos últimos anos. Este blogueiro jamais, ao longo de 4 anos, milhões de visitas, centenas de discussões e dezenas de milhares de comentários, jamais, jamais acusou alguém de racista, de ter ponto de vista racista, de escrever algo racista. Com a autoridade de quem jamais fez isso, eu acuso agora.

Nada do mérito das descobertas que se seguem é meu, que fique claro. O mérito é todo do Cloaca News, que deu o furo. Eu simplesmente resumo a história com as minhas palavras.

A Globo tem uma “correspondente” no “Oriente Médio”, Renata Malkes, que, obviamente, fica em Israel. Até aí, tudo normal. Já estamos acostumados a um relato que diz “aqui” para se referir a uma matança que, na verdade, ocorre num “ali” ao qual o repórter não tem acesso. O “aqui” se refere ao lugar em que a matança é planejada, não ao lugar em que a matança ocorre. Até aí, reitero, tudo normal. “Israel” e “Palestina”, os dois lados, como dizem os jornalistas “ponderados”.

Mas acontece que a atual correspondente da Globo, Renata Malkes, assinou durante anos um blog em que se compilam algumas das coisas mais horrendas, racistas, bélicas e desumanizadoras que já se escreveu em lusitana língua blogueira. Ela apagou o blog. Mas acontece que na internet ficam arquivos. Cito, com um pouco de nojo:

Aqui, ela celebra o fato de ter sido escolhida como "blog de guerra". Aqui, ela descamba para o racismo anti-árabe puro e simples. Aqui a generalização é "árabe mentiroso" e aqui ela celebra a entrada no exército de ocupação. Os arquivos do que essa moça assinou são uma monstruosidade racista.* O selinho que ela tinha no blog dizia, com uma imagem de um árabe ao fundo, associado à figura de um terrorista, claro: não lhes dê um estado.

Hoje, na Globo, ela assina um blog que se quer "ponderado", que "mostra os dois lados". No compartimento hipocritamente nomeado "nossos vizinhos palestinos", o primeiro que há é um link quebrado. É a farsa da nossa mídia.

Valeu, Cloaca.

* Atualização do dia 12/01: links agora quebrados, já que a jornalista mandou retirar os arquivos do seu antigo blog da Wayback Machine.



  Escrito por Idelber às 07:58 | link para este post




Relator da ONU expulso por Israel confirma uso de bombas de fósforo contra civis

falk.jpgEntre a sua infindável repetição de boletins de imprensa do exército israelense e a igualmente infindável reiteração dos clichês “ponderados”, que olham “os dois lados” do “conflito”, a Folha de São Paulo conseguiu, reconheçamos, imprimir uma matéria decente nesta quinta-feira. Não é do “enviado” a Israel, mas da reportagem local: uma entrevista com o Professor Emérito de Princeton University, Richard Falk, que foi nomeado pela ONU relator para a situação humanitária nos territórios palestinos.

Falk é gringo de ascendência judaica. Foi nomeado pela ONU. Ao tentar chegar à Cisjordânia, Palestina Ocupada, via Israel, Falk foi enjaulado por 15 horas e chutado para fora de lá. O argumento? Aquele, velho: seu relatório seria “enviesado” [biased]. O detalhe é que não lhe foi dada a possibilidade de escrever o relatório. Trechos da entrevista (link para assinantes):


FOLHA - O Hamas infiltrou organizações humanitárias?

FALK - É uma acusação absurda. A ONU é muito rigorosa no esforço constante de se manter à distância de movimentos políticos. Mas como o Hamas é a principal força em Gaza, é possível que indivíduos isolados tenham algum tipo de simpatia com o Hamas, nada mais.

FOLHA - Há quem ache exagero falar em crise humanitária.

FALK - É uma das mais graves crises humanitárias da história recente. O pior é Israel impedir os civis de abandonarem Gaza. Os israelenses estão usando armas muito sofisticadas, algumas delas ilegais, como bombas de fósforo e projéteis que entram decepando o corpo. Israel também não provê suprimentos básicos e remédios, numa violação clara do direito humanitário internacional que representa um crime de guerra e contra a humanidade. Os responsáveis devem ser julgados.


No que se refere a essas armas químicas conhecidas como bombas de fósforo, caro leitor – lembra-se que a invasão do Iraque foi justificada com a cantilena de que Saddam Hussein supostamente tinha armas químicas e de destruição em massa? --, a história se repete com a tediosa previsibilidade de sempre. Para benefício de quem não acompanha o assunto há vinte e cinco anos, resumamos: primeiro, as vítimas denunciam que Israel está usando bombas de fósforo, que causam queimaduras químicas e são proibidas pela Convenção de Genebra. Depois, aparecem fotos que provam que Israel usou bombas de fósforo contra civis. Que as vítimas diziam a verdade.

fosf.jpg

O próximo passo também é conhecido por quem acompanha o assunto há tempos: Israel nega o uso da gerigonça, mesmo tendo o relator das Nações Unidas, um professor judeu emérito de Princeton, confirmado o crime de guerra. Na última vez em que Israel aterrorizou o sul do Líbano, foi a mesma coisa. O resultado: as vítimas diziam a verdade e o próprio exército de Israel reconheceu. Quer brincar de Google, caro leitor? Faça uma busca com "Israel denies" e "phosphorous" e depois outra busca com "Israel admits" e "phosphorous".

Você verá Tio Google documentando um filminho que se repete com a tediosa e macabra previsibilidade de um pesadelo recorrente para quem acompanha o assunto há décadas.

Mas, mesmo assim, se você fuçar a grande mídia, você encontrará: “alega-se” que Israel “possa ter usado” bombas de fósforo. Na melhor das hipóteses, você encontrará que "acredita-se que" (veja só, neste artigo, a luta entre a imagem e o texto).

Os crimes de guerra israelenses com bombas de fósforo são fato documentado, fotografado e comprovado. Crime de guerra. Crime contra a humanidade. Não há outro nome, jornalistas.

Quem deliberadamente tenha lançado fósforo contra civis pode terminar sendo julgado pelo Tribunal de Haia. O fósforo branco também é uma arma utilizada para difundir terror. Essas palavras não são de um blogueiro atleticano de extrema-esquerda ou de um simpatizante do Hamas. São de Charles Heyman. Quem é Charlie? Ex-major do exército britânico.



  Escrito por Idelber às 05:39 | link para este post




Três espaços indispensáveis em português

Se você não lê nadica de inglês ou de outras línguas e se informa só em português, não deixe de acompanhar, enquanto durar o horror sofrido pelo povo de Gaza e de toda a Palestina, três espaços que estão oferecendo textos, links, análises e informações de qualidade certamente superior aos da grande imprensa brasileira: Agência Carta Maior, Amálgama e RS Urgente.

Salaam, Marco, Daniel e equipe. César Animot também está lá, atento, com ótimos links.

PS: Brétemas é um blog em galego – essa língua tão bela e tão absurdamente parecida com a nossa – que também tem acompanhado a matança genocida em Gaza.



  Escrito por Idelber às 04:49 | link para este post




O êxodo de Rafah: Mais um testemunho blogueiro

gaza9.jpg

Um pouco antes da meia-noite, começaram a despejar mísseis sobre Rafah, num dos ataques aéreos israelenses mais pesados desde que se iniciaram as atuais atrocidades. Os bombardeios caíram sobre o sul da Cidade de Gaza por mais de 12 horas. Muitas casas foram destruídas ou severamente danificadas, especialmente nos bairros ao longo da fronteira com o Egito.

Os moradores desses bairros relataram um massivo lançamento de panfletos pelos aviões israelenses esta tarde. Os papéis ordenavam que eles deixassem suas casas nas áreas que vão da linha de fronteira de volta até a Rua do Mar, a rua principal que atravessa o coração de Rafah, paralelamente à fronteira. Essa é uma área de centenas de metros de comprimento e milhares de casas. A maioria dessas áreas são de campos de refugiados; os moradores passaram a ser refugiados a partir das demolições em massa de suas casas em 2003 e 2004 pelos tratores militares israelenses D-9.


Rafah Kid é um jovem palestino de Gaza, testemunha do horror em seu blog. Rafah Kid também mantém um Flickr, com fotos da devastação causada pelo exército invasor.



  Escrito por Idelber às 03:47 | link para este post



quarta-feira, 07 de janeiro 2009

A dignidade infinita dos Shministim

Eu já rascunhava um post sobre esses bravos garotos, mas o RS Urgente chegou primeiro e já disse tudo:

Os Shministim são jovens estudantes israelenses, todos com idade entre 16 e 19 anos, no final do segundo grau. Eles recusam o alistamento no exército de Israel por objeção de consciência. Estão presos por isso. Esses estudantes defendem um futuro de paz para israelenses e palestinos e negam-se a pegar em armas. Além da prisão, enfrentam uma enorme pressão da família, de amigos e do governo de Israel. No dia 18 de dezembro foi iniciada uma campanha mundial pela libertação desses jovens.

Traduzo da declaração de Tamar Katz, no site dos Shministim:

Eu me recuso a alistar-me nas forças militares de Israel por objeção de consciência. Não estou disposta a me tornar parte de um exército de ocupação que é invasor de terras estrangeiras há décadas, que perpetua um regime racista de roubo nessas terras, tiraniza civis e torna a vida difícil para milhões sob um falso pretexto de segurança.

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Numa época em que o filistinismo, bem ou mal pago, invariavelmente tira do bolso a acusação de anti-semitismo ou, na melhor das hipóteses, a de desconsideração pela "existência de Israel" contra os que criticamos a ocupação ilegal por sua catástrofe humanitária e seus crimes de guerra, esses valentes garotos judeus são uma inspiração ética, um norte moral. Comprometidos com a existência de seu país dentro das fronteiras internacional, legalmente reconhecidas, eles se recusam a servir uma brutal ocupação militar que já dura mais de quatro décadas. Encaram o cárcere e, pior, muitas vezes o opróbrio dentro de seu próprio país. Mas sabem do que falam. Sabem que a ocupação militar e a escravização dos palestinos não tem nada a ver com a “segurança” de Israel.

Você pode mandar uma mensagem de apoio e pedido de libertação para esses bravos garotos lá no site dos Shministim.



  Escrito por Idelber às 18:33 | link para este post




O verdadeiro jornalismo

Mas não é na mídia oficial ocidental, israelense ou árabe que encontrarão alento os que anseiam pelos fatos.

São os relatos de civis, de gente comum que ainda consegue se comunicar com o mundo, que mais chamam a atenção pela crueza e perplexidade com que o horror da guerra é narrado. De acordo com o Technorati, site que indexa posts do mundo inteiro, somente no domingo (4) foram escritos mais de quatro mil textos sobre Gaza mundo afora.

Mïdia, blog, cidadãos jornalistas e as notícias de Gaza: um excelente resumo da verdadeira insurreição informacional que estamos presenciando. Está no blog Escrevinhamentos.



  Escrito por Idelber às 12:10 | link para este post




Mais bombardeios a escolas

Pelo menos 42 palestinos que se abrigavam numa escola das Nações Unidas, no campo de refugiados de Jabaliya, foram mortos na terça-feira à tarde, depois de bombardeios de tanques israelenses. Centenas de palestinos aterrorizados, desesperadamente tentando escapar das bombas, haviam buscado abrigo lá, pressupondo que uma escola claramente marcada não seria um alvo.

Outro prédio da ONU, a escola Ash-Shouka, em Rafah, no sul da Faixa de Gaza, foi bombardeado na segunda-feira à noite. A Agência de Socorro da ONU, antes do início do massacre, havia cedido às autoridades israelenses todas as coordenadas GPS de suas instalações em Gaza.

A notícia completa, em inglês, aqui.



  Escrito por Idelber às 04:06 | link para este post




Israel não tem nenhuma intenção de admitir um estado palestino: Se o Hamas não existisse, por Jennifer Loewenstein

PJ-1.jpgDeixemos uma coisa perfeitamente clara. Se a degradação e a mutilação por atacado da Faixa de Gaza for continuar; se a vontade de Israel é uma com a dos Estados Unidos; se a União Européia, a Rússia, as Nações Unidas e todas as organizações e agências legais internacionais espalhadas pelo globo vão continuar sentadas como manequins ocos sem fazer nada a não ser os repetidos “chamados” por um “cessar-fogo” de “ambos os lados”; se os covardes, obsequiosos e supinos Estados Árabes vão continuar de braços cruzados vendo seus irmãos serem trucidados de hora em hora enquanto a Super-Potência valentona do mundo olha-os ameaçadoramente de Washington, no caso de que digam qualquer coisinha que a desgoste; então vamos pelo menos dizer a verdade sobre por que está tendo lugar este inferno na terra.

O terror de estado disparado neste momento dos céus e do chão contra a Faixa de Gaza não tem nada a ver com o Hamas. Não tem nada a ver com o “Terror”. Não tem nada a ver com a “segurança” a longo prazo do Estado Judeu ou com o Hezbolá, a Síria ou o Irã, exceto na medida em que agrava as condições que levaram até a crise de hoje. Não tem nada a ver com alguma conjurada “guerra” -- um eufemismo cínico e gasto que não representa mais que a escravização por atacado de qualquer nação que ouse reclamar seus direitos soberanos; que ouse afirmar que seus recursos são seus; que não queira uma das obscenas bases militares do Império assentada em suas queridas terras.

Esta crise não tem nada a ver com liberdade, democracia, justiça ou paz. Não é sobre Mahmoud Zahhar ou Khalid Mash'al ou Ismail Haniyeh. Não é sobre Hassan Nasrallah ou Mahmoud Ahmadinejad. Eles são todos peças circunstanciais que ganharam um papel na tempestade atual só agora, depois de que se permitiu por 61 anos que a situação se desenvolvesse até a catástrofe que é hoje. O fator islamista coloriu e continuará a colorir a atmosfera da crise; ele alistou líderes atuais e mobilizou amplos setores da população do mundo. Os símbolos fundamentais hoje são islâmicos – as mesquitas, o Alcorão, as referências ao profeta Maomé ou à Jihad. Mas esses símbolos poderiam desaparecer e o impasse continuaria. PJ-2.jpg

Houve uma época em que o Fatah e a FPLP eram a bola da vez, quando poucos palestinos queriam ter qualquer coisa a ver com políticas ou medidas islamistas. Esta política não tem nada a ver com foguetes primitivos sendo lançados do outro lado da fronteira ou com túneis de contrabando ou com o mercado negro de armas, assim como o Fatah de Arafat tinha pouco a ver com as pedras e os atentados suicidas a bomba. As associações são contingentes; criações de um dado ambiente político. Elas são o resultado de algo completamente diferente do que os políticos mentirosos e seus analistas estão lhe dizendo. Elas se tornaram parte da paisagem dos acontecimentos humanos no Oriente Médio de hoje; mas incidências tão letais, ou tão recalcitrantes, mortais, enraivecidas ou incorrigíveis poderiam muito bem ter estado em seus lugares.

PJ-3.jpgDescasque os clichês e o blá-blá-blá estridente e vazio da mídia servil e de seu patético corpo de servidores estatais voluntários no mundo ocidental e o que você encontrará é o desejo nu de hegemonia, de poder sobre os fracos e de domínio sobre a riqueza do mundo. Pior ainda, você encontrará o egocentrismo, o ódio e a indiferença, o racismo e a intimidação, o egoísmo e o hedonismo que tentamos tanto mascarar com nosso jargão sofisticado, nossas teorias e modelos acadêmicos refinados, que na verdade ajudam a guiar nossos desejos mais feios e baixos. A insensibilidade com que nos rendemos a eles já é endêmica à nossa cultura; nela floresce como moscas sobre um cadáver.

Descasque os atuais símbolos e linguagem das vítimas dos nossos caprichos egoístas e devastadores e você encontrará os gritos desafetados, simples e cheios de paixão dos pisoteados; dos “condenados da terra” implorando para que você cesse sua agressão fria contra suas crianças e seus lares; suas famílias e seus vilarejos; implorando que os deixe em paz para que tenham seu peixe e seu pão, suas laranjas, suas olivas e seu tomilho; pedindo primeiro educadamente e depois com crescente descrença no porquê de você não poder deixá-los viver sem serem incomodados nas terras de seus ancestrais, sem serem explorados, livres do medo de serem expulsos, violados ou devastados; livres dos carimbos e dos bloqueios de estrada e dos postos policiais de controle e cruzamentos; dos monstruosos muros de concreto, torres de guarda, bunkers de concreto e arame farpado; dos tanques, das prisões, da tortura e da morte. Por que é impossível a vida sem essas políticas e instrumentos do inferno?

A resposta é: porque Israel não tem qualquer intenção de permitir um estado palestino viável e soberano ao lado de suas fronteiras. Não tinha qualquer intenção de permiti-lo em 1948, quando arrancou 24% mais terra do que havia sido legal, ainda que injustamente, alocado pela Resolução 181 das Nações Unidas. Não tinha qualquer intenção de permiti-lo ao longo dos massacres e complôs dos anos 1950. Não tinha qualquer intenção de permitir dois estados quando conquistou os 22% que restavam da Palestina histórica em 1967 e reinterpretou a Resolução 248 do Conselho de Segurança da ONU a seu bel prazer, apesar do esmagador consenso internacional que estabelecia que Israel receberia completo reconhecimento internacional dentro de fronteiras reconhecidas e seguras se recuasse das terras que havia recentemente ocupado.

Não tinha qualquer intenção de reconhecer direitos nacionais palestinos nas Nações Unidas em 1974, quando – sozinho com os Estados Unidos – votou contra uma solução biestatal. Não tinha qualquer intenção de permitir um acordo de paz completo quando o Egito estava pronto para realizar, mas só recebeu, e obedientemente aceitou, uma paz separada que excluía os direitos dos palestinos e dos outros povos da região. Não tinha nenhuma intenção de trabalhar na direção de uma solução biestatal justa em 1978 ou em 1982, quando invadiu, bombardeou, esmigalhou e demoliu Beirute para que pudesse anexar a Cisjordânia sem ser incomodado. Não tinha qualquer intenção de admitir um estado palestino em 1987, quando a primeira Intifada se espalhou pela Palestina Ocupada, na Diáspora e nos espíritos dos despossuídos do mundo, ou quando Israel deliberadamente auxiliou o nascente movimento Hamas, como forma de implodir a força das facções mais seculares-nacionalistas.

Israel não tinha qualquer intenção de admitir um estado palestino em Madrid ou em Oslo, quando a OLP foi superada pela trêmula e titubeante Autoridade Palestina, muitos de cujos chapas perceberam a riqueza e o prestígio que ela lhes dava, às custas dos seus. Enquanto Israel alardeava nos microfones e satélites do mundo o seu desejo de paz e de uma solução biestatal, ele mais que duplicava os assentamentos colonizadores judeus, ilegais, nas terras da Cisjordânia e em volta de Jerusalém Oriental, anexando-as na medida em que construía e continua a construir uma superestrutura de estradas e autopistas sobre as cidades e vilarejos sobreviventes, picotados da Palestina. Anexou o Vale do Jordão, a fronteira internacional da Jordânia, expulsando quaisquer dos “nativos” que habitassem a terra. Fala com uma língua de víbora sobre os múltiplos amputados da Palestina, cujas cabeças serão logo arrancadas do corpo em nome da justiça, da paz e da segurança. PJ-4.jpg

Através das demolições de casas, dos ataques à sociedade civil que tentavam lançar a cultura e a história palestinas num abismo de esquecimento; através da indizível destruição dos cercos aos campos de refugiados e dos bombardeios à infraestrutura na Segunda Intifada, através dos assassinatos e das execuções sumárias, pela grandiosa farsa do desengajamento até a nulificação das eleições livres, democráticas e justas da Palestina, Israel já nos fez saber qual é a sua visão, uma e outra vez, na linguagem mais forte possível, a línguagem do poder militar, das ameaças, das intimidações, do acosso, da difamação e da degradação.

Israel, com o apoio aprovador e incondicional dos Estados Unidos, já deixou dramaticamente claro ao mundo todo, várias vezes, repetindo em ação atrás de ação que não aceitará um estado palestino viável ao lado de suas fronteiras. O que mais é preciso para que escutemos? O que será necessário para terminar com o silêncio criminoso da “comunidade internacional”? O que será preciso para ver mais além das mentiras e da doutrinação acerca do que tem lugar diante de nós, dia após dia, claramente, no raio de visão dos olhos do mundo? Quanto mais horrorosas as ações no terreno, mais insistentes são as palavras de paz. Ouvir e assistir sem escutar nem ver permite que a indiferença, a ignorância e a cumplicidade continuem e aprofundem, a cada túmulo, a nossa vergonha coletiva.

A destruição de Gaza não tem nada a ver com o Hamas. Israel não aceitará qualquer autoridade nos territórios palestinos que ele, em última instância, não controle. Qualquer indivíduo, líder, facção ou movimento que não aceda às exigências de Israel ou que busque genuína soberania e igualdade de todas as nações da região; qualquer governo ou movimento popular que exija a aplicabilidade da lei humanitária internacional e a declaração universal dos direitos humanos para seu próprio povo será inaceitável para o Estado Judeu. Aqueles que sonham com um estado devem ser forçados a perguntarem-se: o que Israel fará com uma população de 4 milhões de palestinos dentro de suas fronteiras, quando comete crimes diários, se não a cada hora, contra a humanidade coletiva deles enquanto eles vivem ao lado de suas fronteiras? O que fará mudar de repente a razão de ser, o autoproclamado objetivo e razão de existência de Israel se os territórios palestinos forem anexados a ele totalmente?

O sangue de vida do Movimento Nacional Palestino jorra hoje pelas ruas de Gaza. Cada gota que cai rega a terra da vingança, do ressentimento e do ódio não só na Palestina, mas em todo o Oriente Médio e em boa parte do mundo. Nós temos uma escolha sobre se isso deverá continuar ou não. Agora é a hora de escolher.


Jennifer Loewenstein é Diretora Associada do Centro de Estudos do Oriente Médio de uma das principais universidades públicas norte-americanas, a de Wisconsin em Madison. Ela trabalhou durante meses, em 2002, no Centro Al Mezan de Direitos Humanos, em Gaza. Retornou a Gaza várias vezes desde então. Original, em inglês, aqui. Tradução ao português de Idelber Avelar. Ilustrações, daqui.



  Escrito por Idelber às 03:23 | link para este post



terça-feira, 06 de janeiro 2009

As crianças de Gaza

Do milhão e meio de pessoas que estão enjauladas sob bombardeio em Gaza, quase 50% é composta de crianças de menos de 15 anos de idade. Os palestinos, e muito especialmente os palestinos de Gaza, são regularmente submetidos a um dos maiores horrores imagináveis: pais e mães enterrando crianças trucidadas por massacres militares.

O vídeo que se segue vale a pena ser visto:






Uma das experiências que as vítimas costumam relatar como das mais dolorosas é a de presenciar o filho assistindo o enterro do irmão, como na foto abaixo:

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(crédito)

Já são, confirmadas, pelo menos oitenta e nove crianças mortas pela chacina israelense, além, claro, das milhares de fisicamente feridas e das centenas de milhares traumatizadas psicologicamente de forma severa, talvez irrecuperável.

Atualização: Fotos do massacre das crianças de Gaza.



  Escrito por Idelber às 21:48 | link para este post




Palestinos no Facebook

Já há alguns meses, recolho quase diariamente, via Facebook, relatos de palestinos vivendo sob o horror da ocupação colonial ou no desterro dos campos de refugiados. Se você é membro da comunidade do Biscoito no Facebook, e não está listado como meu amigo, fique à vontade para enviar uma solicitação (uma linha de auto-apresentação ajuda).

A partir daí, se quiser, você poderá enviar solicitações também aos palestinos listados como amigos meus. Uma das características mais recorrentes que tenho visto em meus contatos com palestinos, ao longo dos anos, é o forte desejo de dar testemunho daquilo que vivem. Um alô em inglês quebrado mesmo -- tipo I'm Brazilian, interested in the Palestinian cause. I'd like to be in touch and learn more about Palestine -- será invariavelmente recebido com alegria, gratidão e disposição ao diálogo. O Brasil tem enorme prestígio na Palestina.

Algumas das comunidades do Facebook dedicadas à causa palestina são:

I condemn the Israeli attacks on Gaza.
Let's collect 500,000 signatures.
Palestinians on Facebook.

Para o fórum de cada comunidade, a recomendação do blog, claro, é que se evite bater boca com trolls defensores das chacinas da ocupação israelense. Em qualquer rede de relações sociais, por incrível que pareça, há gente dedicada a fazer isso. A dica é estabelecer o contato individualizado com o potencial amigo que lhe interessar, com uma palavra de interesse e carinho. A partir daí, converse, ouça.

Estará fazendo jornalismo mais verdadeiro que aquele de que tem sido capaz a grande mídia.



  Escrito por Idelber às 21:15 | link para este post




Amálgama inicia traduções do Electronic Intifada

No décimo dia de sua agressão na Faixa de Gaza, as Forças de Ocupação Israelenses (FOI) aumentaram significantemente suas operações militares, atingindo principalmente alvos civis, particularmente casas. Ataques aéreos e bombas de artilharia atingiram dezenas de casas. As FOI também atingiram instalações médicas e ambulâncias. Uma equipe da Defesa Civil foi alvejada enquanto tentava apagar o incêndio que se seguiu ao bombardeio de uma clínica.

A invasão terrestre das FOI na Faixa de Gaza se expandiu, na medida em que tropas e tanques desembarcaram vindos do mar ao sul da Cidade de Gaza. Setenta e sete pessoas foram mortas nos ataques das FOI entre 1:00pm do dia 4 e 2:30pm do dia 5. Esse número inclui 21 crianças e nove mulheres. Além disso, uma equipe de resgate médico foi morta durante o mesmo período. Dezenas mais foram feridos, a maioria civis. Atacar bens e pessoas protegidas representa flagrante indiferença às regras do direito internacional que dizem respeito a conflitos armados; particularmente enquanto porta-vozes do exército e do governo israelenses continuam a afirmar que as FOI atingem apenas a infraestrutura militar e combatente.

Aviões israelenses dispararam 15 mísseis ao redor da escola do Colégio Omar Ibn al-Khattab, em Beit Lahia, não muito longe de onde estão as tropas terrestres israelenses. Não recebemos ainda nenhum informe quanto à existência de vítimas.

Às 5:50pm aproximadamente do dia 4 de janeiro, aviões israelenses dispararam mísseis na mesquita Mosab Ibn Omair, em Beit Lahia, norte da Faixa de Gaza, matando três homens. Eles foram identificados como:

- Mohammed Khader Hamouda, 19 anos;
- Ala Zaqout, 28 anos;
- Mohammed Hassan Baba, 30 anos.


O Amálgama iniciou uma série de traduções do Electronic Intifada, com notícias que você não encontrará no nosso pobre jornalismo, enlameado entre o silêncio cúmplice e a distribuição de boletins de imprensa do exército de ocupação.

Parabéns e obrigado ao Amálgama.



  Escrito por Idelber às 16:07 | link para este post




"Estão destruindo tudo ... O que dizem as notícias?": O horror de um pai enjaulado em Gaza, no blog da filha

gaza7.jpgMeu pai falou calma, eloquentemente, na escuridão de Gaza sitiada, só com o fogo das bombas israelenses iluminando o seu mundo: “eles estão destruindo tudo o que é belo e vivo”, ele disse ao âncora. Suas mãos tremiam, ele confessava, enquanto se apoiavam no chão de sua casa, onde eles moviam os colchões para mais longe das janelas, com as explosões ensurdecedoras rasgando o céu negro ao redor, iluminando-o em enormes nuvens de fogo.
[...]
“O que está acontecendo, o que está acontecendo?”, ele repete em tom exausto, hipnótico. “A sensação é que eles bombardearam nossa rua de dentro para fora. Não vejo nada. Não sei o que está acontecendo. O que dizem as notícias?”, ele pergunta freneticamente, desesperado por qualquer migalha de informação que possa fazer sentido do terror que tomou conta dele.

Laila é uma mãe palestina de Gaza, casada com um palestino refugiado e, no momento, "a salvo" na Carolina do Norte, enquanto seu próprio pai vive o inferno em Gaza. As conversas telefônicas entre Laila e seu pai, relatadas pelo post, ocorreram no sábado à noite. Hoje elas já seriam praticamente impossíveis. Imperdível, urgente, o blog: Diary of a Palestinian Mother.



  Escrito por Idelber às 15:44 | link para este post




Carta aberta de professores brasileiros sobre o bombardeio israelense a universidade em Gaza

Via amigos gaúchos Suzana Gutiérrez e Marco Aurélio Weissheimer chega a Carta Aberta de professores brasileiros e também hispano-americanos, como Eduardo Galeano, e norte-americanos, como Immanuel Wallerstein, sobre o massacre aéreo à Universidade Islâmica de Gaza:


Enquanto a carnificina causada pelo ataque israelense à Faixa de Gaza nos enche de horror, tristeza e indignação, um fato nos obriga a nos manifestar: a destruição da Universidade Islâmica de Gaza. Assim como as universidades católicas e pontifícias em todo o mundo, a Universidade de Gaza é uma instituição dedicada ao ensino e à pesquisa acadêmica. Devido à negação ao acesso e compartimentação da vida nos territórios palestinos, a Universidade Islâmica tornou-se ainda mais importante para a população jovem de Gaza, impedida de cursar faculdades na Cisjordânia, em Israel ou no exterior, inclusive quando são aceitos como bolsistas. A Universidade atende mais de 20.000 estudantes, 60% dos quais são mulheres. Formada por 10 faculdades, oferece cursos de graduação e pós-graduação em educação, religião, arte, comércio, charia, direito, engenharias, ciências, medicina e enfermagem.

Clique aqui para ler a íntegra da carta e aqui para assiná-la.

O bombardeio e a destruição deliberados das instalações de uma universidade situada numa faixa de terra que é uma verdadeira prisão ao ar livre e que -- sabiam-no mui cinicamente os bem informados serviços de inteligência israelenses -- não abrigava arma nem rojão nenhum, configura uma daquelas ações para as quais o termo crime de guerra é um pobre, patético, miserável eufemismo.

Abaixo vai a foto do protesto realizado em Birzeit University há alguns dias. Birzeit é uma notável universidade situada perto de Ramalah, Cisjordânia, Palestina Ocupada:

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(Post dedicado a M.S., estudante de comércio em Birzeit. Imaginam o que é estudar comércio na Palestina Ocupada, jornalistas e mídia? Não? Então imaginem).



  Escrito por Idelber às 13:44 | link para este post




"Vou lhe contar como ele morreu": Tradução de um blog de Gaza

Trabalhadores médicos de emergência, Arafa Hani Abd al Dayem, 35 anos, e Alaa Ossama Sarhan, 21 anos, tinham atendido o chamado para ir buscar Thaer Abed Hammad, 19, e seu amigo morto Ali, 19, que haviam estado fugindo do bombardeio, quando foram eles mesmos atingidos por disparo de um tanque israelense.

Era pouco depois das 8:30 da manhã de 04 de Janeiro, e eles estavam na região de Attattra, Beit Lahia, noroeste de Gaza, na área da escola americana bombardeada no dia anterior, em que mataram um guarda-noturno civil de 24 anos, destroçando-o, queimando o que restara.

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Gemendo de dor, com o pé direito amputado e lacerações de bomba de fragmentação ao longo das costas, de todo o corpo, Thaer Hammad conta como seu amigo Ali foi morto. “Estávamos atravessando a rua, saindo de nossas casas, e aí o tanque disparou. Havia muita gente saindo, não éramos os únicos”. Hammad interrompe seu testemunho, de novo gemendo de dor. Ao longo dos dois últimos dias, desde que a invasão terrestre de Israel e a campanha intensificada de bombardeios começaram, os residentes de toda Gaza têm estado fugindo de suas casas. Muitos não tiveram a chance de escapar, tendo sido pegos dentro de casa, enterrados vivos, esmagados. O médico continua a narrativa: “Depois que foram bombardeados, Thaer não conseguia caminhar. Ele chamou Ali para que o carregasse”. O resto da história é que Ali havia carregado Thaer por alguma distância quando atiraram na cabeça de Ali, bala disparada por um soldado não visto, bem na direção na qual eles fugiam. Ali morto, Thaer ferido, e as pessoas fugindo, a ambulância foi chamada.


Tradução minha de mais um relato em primeira mão que confirma o que já sabemos: no massacre israelense em Gaza, a prática é matar mesmo os civis feridos que estão sendo carregados. O testemunho vem de mais um blog que você deve acompanhar nos próximos dias, enquanto ele dure: In Gaza.



  Escrito por Idelber às 11:31 | link para este post



segunda-feira, 05 de janeiro 2009

Carta aberta de acadêmicos americanos ao Presidente Eleito Barack Obama

Em 1981, quando o Sr. era aluno de graduação no Occidental College, o Sr. esteve entre os primeiros num corajoso grupo de estudantes e professores que, na época em que a causa ainda era impopular ou desconhecida, clamou por desinvestimento do regime de apartheid na África do Sul. O Sr. sabia que era imperativo exercer pressão sobre um regime racista que, sem escrúpulos, oprimia populações negras e de cor que eram discriminadas, submetidas a leis sobre a passagem e ao controle de todos os seus movimentos, picotadas em bantustões e sujeitas a detenção, tortura e execução extra-judicial. Quando a população negra protestava, como as crianças escolares de Soweto, podia ser sumariamente fuzilada pela polícia ou pelo exército. O Congresso Nacional Africano, sob Nelson Mandela, foi proscrito como movimento terrorista, seus líderes foram encarcerados, torturados e assassinados, e suas guerrilhas encararam o poder esmagador do exército da África do Sul, equipado e treinado em parte pelos Estados Unidos e por seus aliados europeus. [...]

Figuras públicas tão distintas como o Bispo Desmond Tutu e o Presidente Jimmy Carter já reconheceram que Israel também é um regime de apartheid, prática se não nominalmente. A Africa do Sul, agora uma democracia multi-étnica em funcionamento, era um estado branco para o povo branco. Israel é um estado judeu para o povo judeu. Seus cidadãos não-judeus, a maioria deles árabes palestinos, são discriminados civil e economicamente de numerosas formas. Às populações palestinas despossuídas, vítimas de limpeza étnica, dispersas na diáspora e nos campos de refugiados de Gaza, da Cisjordânia e do Líbano, nega-se o internacionalmente reconhecido direito de retorno. Eles tiveram suas terras e casas tomadas por força “legal” e armada. São submetidas a punição coletiva, prolongados estados de enjaulamento e controle absoluto e deliberadamente destrutivo de seus movimentos diários. Enquanto a África do Sul instituiu leis de passagem, os postos de controle que proliferaram em toda a Cisjordânia e nas saídas de Gaza impedem que estudantes cheguem a suas escolas, que trabalhadores cheguem a seus lugares de trabalho, que lavradores cheguem a suas plantações, que os doentes cheguem aos poucos hospitais que sobrevivem para servi-los.

Os assentamentos colonizadores ilegais que, em desrespeito a todas as leis internacionais acerca de ocupações, proliferam em toda a Cisjordânia, são feitos para que se tornem “fatos do terreno” permanentes. Eles dividiram o território reconhecidamente palestino em ilhotas segmentadas, em bantustões sitiados, com o intento de impedir um estado palestino contíguo. O assim chamado muro de segurança, ilegalmente construído em território palestino, como reconheceu a própria Corte Suprema de Israel, separou lavradores de suas terras e transformou vilarejos antes prósperos em prisões isoladas. Os bombardeios aéreos e as rotineiras incursões militares israelenses em cidades e campos de refugiados palestinos já mataram incontáveis civis, muitos dos quais crianças. Desde a eleição do Hamas, em eleições abertas e livres, Israel tem sujeitado a população civil de Gaza a um prolongado estado de enjaulamento, com o objetivo de sufocá-la até a submissão, privando-a de água, eletricidade, comida, medicamentos e acesso ao mundo exterior. O ataque mais recente a Gaza, com uso sangrento e desproporcional de força excessiva, não é um ato de auto-defesa, e sim a continuação dramática de uma insidiosa política de extermínio sobre um povo que se recusa a desaparecer.

Cada um desses atos é um crime contra a humanidade.



Esta é uma tradução minha de um trecho da Carta Aberta a Barack Obama intitulada Teachers against the occupation, que assinamos centenas de professores universitários norte-americanos. Entre os signatários estão Gayatri Spivak, Michael Taussig, Paula Rabinowitz e incontáveis outras figuras de ponta em suas respectivas disciplinas.



  Escrito por Idelber às 23:30 | link para este post




Nota sobre a política editorial do blog

Enquanto a situação em Gaza for de massacre do exército invasor israelense sobre a população civil, este blog deverá funcionar como central de tradução e disseminação de textos, vídeos e informações sobre a matança, com um ritmo bem mais acelerado de postagem e caixas de comentários fechadas. Esta última escolha tem sido, com exceções ocasionais, a mais comum neste blog para o tema da Palestina Ocupada. Ela não está em discussão.

O blog recomenda aos que queiram debater o tema aqui num futuro próximo que comecem pela leitura de The Ethnic Cleansing of Palestine, de Ilan Pappé, livro que será tratado em edição de fevereiro do Clube de Leituras.



  Escrito por Idelber às 22:38 | link para este post




Um blog de Gaza

Vittorio me disse ontem ... quando lhe perguntei como ele responde à morte ... ele me disse que já não tem lágrimas para chorar ... que suas lágrimas secaram ... olho para ele sentado diante de mim ... um homem bonito de um metro e oitenta ... trinta e três anos ... sua maior preocupação no mundo: salvá-lo e “permanecer humano”, que é como ele termina [Bomba!] cada artigo que escreve ...

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É o relato ao vivo dos horrores perpetrados pelo exército israelense na maior prisão ao ar livre do mundo: Moments of Gaza.

(valeu, Frank).



  Escrito por Idelber às 21:32 | link para este post




"Estão bombardeando 1,5 milhão de pessoas enjauladas"

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(Criança em Gaza. Crédito da foto)


Bombardearam o mercado central de frutas de Gaza ... ao mesmo tempo, bombardearam um prédio de apartamentos ... é tipo o inferno aqui agora ... já são mais de 500 mortos e 2500 feridos, dos quais 50% são crianças ... há feridas que você não gostaria de ver ... crianças chegando com o abdômen aberto ...

Entre as centenas que vimos entrando no hospital, um era militar do Hamas .. qualquer um que queira apresentar isso como uma guerra contra outro exército está mentindo ... é uma guerra total contra a população civil ... eles estão bombardeando 1 milhão e meio de pessoas que estão enjauladas.




Quem fala é Mads Gilbert, médico noruguês que está no meio do inferno em Gaza, dando notícias reais, ao invés de repetir os boletins de imprensa do exército de Israel que vemos na grande mídia.

Aprendam, jornalistazinhos.

(via Juan Cole).



  Escrito por Idelber às 20:23 | link para este post




Uma nova tag

O blog reuniu sob uma mesma tag todos os seus posts sobre a Palestina Ocupada, desde 2005.



  Escrito por Idelber às 19:40 | link para este post




A paz não passa pelo massacre, por Milton Hatoum

O exército de Israel é suficientemente poderoso para destruir todo o Oriente Médio (e, de fato, também para destruir parte importante do ocidente). O único problema é que, até hoje, jamais conseguiu mandar, sequer, no território em que lhe caberia mandar. O mais poderoso exército do mundo está detido, ainda, pela resistência palestina. Como entender essa contradição?

Bem, para começar, Israel jamais trabalhou para construir qualquer paz com os palestinos; jamais usou outro meio que não fossem os meios do extermínio, da limpeza étnica, do holocausto, para matar as populações nativas e residentes históricas na Palestina, desde a fundação do Estado de Israel, em maio de 1948.

Israel expulsou 750 mil palestinos, converteu-os em refugiados e, em seguida, passou a impedir sistematicamente o retorno deles e de seus filhos (hoje, também, já, dos netos deles), apesar das Resoluções da ONU, ao mesmo tempo em que continuou a destruir cidades e vilas, ou - o que é o mesmo - passou a construir colônias de ocupação sobre as ruínas das cidades e vilas palestinas.

Desde 1967, Israel fez tudo que algum Estado poderia fazer para tornar impossível qualquer solução política: colonizou por vias ilegais territórios ocupados por via ilegal e recusou-se a acatar os limites de antes das invasões de 1967; construiu um muro de apartheid; e tornou a vida impossível para a maioria dos palestinos. Nada, aí, faz pensar em esforço de paz. Antes, é operação continuada e sistemática para a limpeza étnica dos territórios palestinos ocupados ilegalmente.

Assim sendo, se a paz implicar - como implica necessariamente - o fim do mini-império construído por Israel, Israel continuará a fazer o que estiver ao seu alcance para que não haja paz, mesmo que a paz lhe seja oferecida numa bandeja, como a Iniciativa de Paz dos sauditas, recentemente, por exemplo. Outra vez, não se entende: se os israelenses só tinham a esperar esse tipo de oferta, se desejassem alguma paz, porque a rejeitaram, praticamente sem nem a considerar?

Faz tanto tempo que Israel rejeita toda e qualquer possibilidade de paz, que a maioria dos israelenses já nem são capazes de ver que rejeitar a paz converteu-se, para Israel, numa espécie de segunda natureza.

Mas o motivo mais aterrorizante pelo qual nenhuma iniciativa de paz jamais teve qualquer chance de prosperar tem a ver, de fato, conosco, com o ocidente.

Israel continua a ser apoiada pelas democracias ocidentais como uma espécie de força delegada, como batalhão ocidental avançado, implantado na entrada do mundo árabe, mais indispensável, tanto quanto mais dependente do ocidente, que regimes-clientes, como os sauditas e como o Iraque de Saddam até 1990.

Como uma espécie de 'encarnação' da tese do "choque de civilizações" de Huntington, Israel é, como sempre foi, mais exposta ou mais veladamente, um bastião do mundo judeu-cristão, contra os árabes e o Islam.

Isso já era verdade há décadas, mas jamais foi mais verdade do que na última década, quando a Ordem do Novo Mundo entrou em crise terminal, e começou-se a ouvir falar da "Doutrina do Choque", de "Choque e Horror", de várias 'operações' tempestade contra os desertos da Ásia e sempre contra os islâmicos.

Israel, não o Iran, possui armas nucleares e é capaz de usá-las - e várias vezes já ameaçou usá-las. Mas fala-se como se o perigo viesse do Iran, não se Israel. Os que propõem a destruição do Iran são os mesmos mercadores de tragédias que impingiram aos EUA e à Inglaterra o custo altíssimo da guerra do Iraque.

Quem escreve é Haim Bresheeth, professor titular de Estudos sobre Mídia na Universidade de East London, citado pelo mais premiado escritor brasileiro contemporâneo, Milton Hatoum.



  Escrito por Idelber às 18:59 | link para este post