Em 1981, quando o Sr. era aluno de graduação no Occidental College, o Sr. esteve entre os primeiros num corajoso grupo de estudantes e professores que, na época em que a causa ainda era impopular ou desconhecida, clamou por desinvestimento do regime de apartheid na África do Sul. O Sr. sabia que era imperativo exercer pressão sobre um regime racista que, sem escrúpulos, oprimia populações negras e de cor que eram discriminadas, submetidas a leis sobre a passagem e ao controle de todos os seus movimentos, picotadas em bantustões e sujeitas a detenção, tortura e execução extra-judicial. Quando a população negra protestava, como as crianças escolares de Soweto, podia ser sumariamente fuzilada pela polícia ou pelo exército. O Congresso Nacional Africano, sob Nelson Mandela, foi proscrito como movimento terrorista, seus líderes foram encarcerados, torturados e assassinados, e suas guerrilhas encararam o poder esmagador do exército da África do Sul, equipado e treinado em parte pelos Estados Unidos e por seus aliados europeus. [...]
Figuras públicas tão distintas como o Bispo Desmond Tutu e o Presidente Jimmy Carter já reconheceram que Israel também é um regime de apartheid, prática se não nominalmente. A Africa do Sul, agora uma democracia multi-étnica em funcionamento, era um estado branco para o povo branco. Israel é um estado judeu para o povo judeu. Seus cidadãos não-judeus, a maioria deles árabes palestinos, são discriminados civil e economicamente de numerosas formas. Às populações palestinas despossuídas, vítimas de limpeza étnica, dispersas na diáspora e nos campos de refugiados de Gaza, da Cisjordânia e do Líbano, nega-se o internacionalmente reconhecido direito de retorno. Eles tiveram suas terras e casas tomadas por força “legal” e armada. São submetidas a punição coletiva, prolongados estados de enjaulamento e controle absoluto e deliberadamente destrutivo de seus movimentos diários. Enquanto a África do Sul instituiu leis de passagem, os postos de controle que proliferaram em toda a Cisjordânia e nas saídas de Gaza impedem que estudantes cheguem a suas escolas, que trabalhadores cheguem a seus lugares de trabalho, que lavradores cheguem a suas plantações, que os doentes cheguem aos poucos hospitais que sobrevivem para servi-los.
Os assentamentos colonizadores ilegais que, em desrespeito a todas as leis internacionais acerca de ocupações, proliferam em toda a Cisjordânia, são feitos para que se tornem “fatos do terreno” permanentes. Eles dividiram o território reconhecidamente palestino em ilhotas segmentadas, em bantustões sitiados, com o intento de impedir um estado palestino contíguo. O assim chamado muro de segurança, ilegalmente construído em território palestino, como reconheceu a própria Corte Suprema de Israel, separou lavradores de suas terras e transformou vilarejos antes prósperos em prisões isoladas. Os bombardeios aéreos e as rotineiras incursões militares israelenses em cidades e campos de refugiados palestinos já mataram incontáveis civis, muitos dos quais crianças. Desde a eleição do Hamas, em eleições abertas e livres, Israel tem sujeitado a população civil de Gaza a um prolongado estado de enjaulamento, com o objetivo de sufocá-la até a submissão, privando-a de água, eletricidade, comida, medicamentos e acesso ao mundo exterior. O ataque mais recente a Gaza, com uso sangrento e desproporcional de força excessiva, não é um ato de auto-defesa, e sim a continuação dramática de uma insidiosa política de extermínio sobre um povo que se recusa a desaparecer.
Cada um desses atos é um crime contra a humanidade.
Esta é uma tradução minha de um trecho da Carta Aberta a Barack Obama intitulada Teachers against the occupation, que assinamos centenas de professores universitários norte-americanos. Entre os signatários estão Gayatri Spivak, Michael Taussig, Paula Rabinowitz e incontáveis outras figuras de ponta em suas respectivas disciplinas.