1. A palavra “terror” entra na língua como designação de um ato político justo ali no momento de fundação da democracia moderna. Houaiss, “terror”, acepção 6: nome por que se designa o período da Revolução Francesa compreendido entre 31 de maio de 1793 (queda dos girondinos) e 27 de julho de 1794 (queda de Robespierre). Este é o primeiro tapa que os fatos dão na cara do argumento que implícita ou explicitamente associa o “terrorismo” aos árabes: o “terror” não é o oposto da democracia, não é antônimo de “liberalismo”, não é o contrário nem o antagonista do Ocidente. O terror nasce ali, juntinho com a democracia. É seu irmão ou primo – ou “brimo”, como diria alguma jornalista.
2. Já “terrorista” é termo mais recente – entrada na língua em 1836, para o substantivo, e 1881, para o adjetivo, segundo Houaiss. Ganha circulação mesmo com grupos como o Narodnaya Volya, na Rússia, jovens que tinham plataforma de democracia radical mas que começaram a recorrer a táticas como o assassinato seletivo (o mais famoso o do Czar Alexandre II, em 1881). Sobre eles, Dostoiévski escreveu um grande romance, em que o genial prosador conservador-russófilo alertava para os perigos do “niilismo”. Mas quem os derrotou politicamente foi o bolchevismo, que sempre criticou os métodos do populismo Narodnaya. Foi quem os botou para correr da Rússia: segundo tapa na cara que os fatos dão nos argumentos dos que associam as lutas de esquerda, populares e/ ou nacionais de libertação, ao “terrorismo”.
3. Até a primeira metade do século XX, o terrorismo entendido como atentado em massa a vidas de civis inocentes não era parte do jogo político na Palestina histórica. Ele chega ali com Haganah, Irgún e o grupo Stern, todas elas organizações sionistas cuja atividade principal eram atos de terrorismo no sentido estrito definido acima. No entanto, na Wikipédia você encontrará os Narodnaya russos definidos como “terroristas”, enquanto as organizações sionistas terroristas que cumpriram papel central na fundação de Israel são listadas com os eufemismos "grupo militante" ou, no "melhor" dos casos, “grupo paramilitar”. Experimente questionar essa distinção por lá e você terá uma aula sobre como funciona a Wikipédia -- e também sobre como funciona o lobby pró-Israel na internet.
4. Haganah comete os primeiros atentados terroristas contra árabes na Palestina já nos anos 20, quando ainda não havia nascido o pai do primeiro homem-bomba palestino. As organizações sionistas cometem amplos crimes definíveis como terroristas ao longo dos anos 40, caminho histórico pelo qual se fundou o estado de Israel – muito, muito antes de que nascesse o primeiro homem-bomba palestino.
5. No entanto, o estado de Israel – que ao longo de sua existência e, especialmente, desde 1967, comete crimes definíveis como terrorismo de estado contra os palestinos – usa e abusa do termo “terrorista” para caracterizar quaisquer interlocutores que construa a nação palestina como seus representantes. Tudo isso ao mesmo tempo em que, oficialmente, se recusa a reconhecer o papel do terrorismo em sua fundação, já demonstrado amplamente pela historiografia.
6. O Hamas, organização militante, assistencialista, militar, que combina islamismo com nacionalismo palestino, destina boa parte de seu orçamento à assistência social e à educação – e também é responsável, desde os anos 90, por atentados contra civis israelenses definíveis como atos de terrorismo no sentido estrito. O Hamas somente passou a ser organização majoritária em Gaza depois de décadas e décadas de ocupação militar estrangeira em territórios palestinos, incluindo-se aí uma história curiosa que inclui a sistemática destruição, sabotagem e cooptação da secular Organização para Libertação da Palestina por parte de Israel. Essa atividade incluiu, diga-se, apoio ao próprio Hamas, por parte de Israel, nos albores do grupo islamista.
7. Os poderosos há tempos utilizam o rótulo de “terrorismo” para desqualificar as lutas populares. Ao longo da colaboração dos EUA com o regime segregacionista da África do Sul, o Congresso Nacional Africano e seu líder principal, Nelson Mandela, eram caracterizados como “terroristas”. Aliás – mais um tapa na cara que os fatos dão no filistinismo – ainda em 2008, catorze anos inteiros depois do fim do Apartheid, nove anos inteiros depois que Mandela havia concluído sua presidência na África do Sul, os EUA ainda o catalogavam como terrorista, coisa que ninguém menos que Condoleeza Rice definiu como “embaraçosa”.
8. Se é certo que há tempos o rótulo de “terrorista” é manipulado pelos poderosos, essa manipulação chegou ao auge depois de 2001, quando Bush e cia., incluindo-se aqui o estado sionista, sem dúvida, transformaram o termo em sinônimo de quem-quer-que-seja-que-eu-defina-agora-como-inimigo-no-mundo-árabe-ou-muçulmano. A definição de "terrorismo" do estado americano, bem razoável e próxima dos dicionários -- violência premeditada e politicamente motivada perpetrada contra alvos não combatentes -- convenientemente acrescenta a expressão realizada por grupos subnacionais ou agentes clandestinos, de forma que nenhum ato de Israel é listado.
9. Ao longo dessa história, o estado de Israel continuou a cometer sistematicamente, contra os palestinos que vivem sob ocupação, uma série de atos definíveis como terrorismo de estado no sentido estrito, incluindo-se: o assassinato seletivo, a tortura, a demolição de casas, o bombardeio indiscriminado, a punição coletiva, a colonização, roubo, cerco e monopólio de terras por colonos fortemente armados, a picotagem do território palestino com postos policiais de controle de alta truculência, etc. Todos esses atos começaram e se mantiveram muito antes de que nascesse ou operasse o primeiro homem-bomba palestino e continuaram independentemente de qualquer frequência em atentados suicidas contra civis israelenses.
São algumas entre as muitas provas incontestes de que a raiz do problema na Palestina Ocupada é o terrorismo de estado que promove a ocupação militar, à qual o terrorismo do homem-bomba desesperado é uma entre várias reações.
Apesar de tudo isso, são os palestinos e árabes, em geral, que são associados ao “terrorismo”, explícita ou implicitamente. O cinismo chega ao ponto da capa da Veja dizer que entre os mortos de Gaza “há culpados e inocentes”. Como se não coubesse perguntar se alguém ali pode ser culpado sem ter tido direito a um julgamento. Como se não coubesse perguntar pela culpa que realmente importa, a dos autores do massacre.
"Terrorista" é dos itens mais obscenos do glossário macabro da ocupação.