O pensador esloveno Slavoj Žižek lembra, em um de seus livros, uma anedota contada por Freud para ilustrar a estranha lógica dos sonhos. Um sujeito empresta um bule a um amigo. Recebe de volta o bule danificado. Ante a reclamação do dono, retruca:
1. Eu jamais tomei nenhum bule seu emprestado.
2. Aliás, eu lhe devolvi o bule inteirinho!
3. Inclusive, quando você me emprestou o bule, ele já estava estragado!
Desmentida ponto por ponto não só pelo livro monumental de Robert Fisk, mas também por uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez fontes online, cada uma delas original a seu modo, a cantilena de que Arafat rejeitou uma oferta “generosa” em Camp David, em 2000, tem a estrutura da história do bule. Ela é repetida ad nauseam não só pelos chamados “amigos de Israel” (que, a longo prazo, são seus piores inimigos, evidentemente), mas também por um jornalismo superficial, preguiçoso, mal equipado linguisticamente e disposto a fazer vista grossa ante os fatos para privilegiar os poderosos. Resumindo com minhas palavras o que o leitor encontrará nos links cedidos acima:
1.O bule nunca existiu. Para começo de conversa, há que se falar da forma. Pergunte ao jornalista que menciona a “oferta recusada” por Arafat. Pergunte-lhe onde ele a viu. Onde ela existe. Qual documento oficial está impresso com a oferta. Ninguém sabe. Feitas como ultimatos, as “ofertas” israelenses em Camp David muitas vezes nem sequer vinham por Barak, e sim na condição de “idéias” americanas sempre apresentadas como o absoluto máximo a que Israel aceitaria chegar. A oferta não existe. Ela jamais foi escrita, apresentada como documento de negociação, nada. O jornalista que fala da “oportunidade perdida por Arafat” lhe sonega essa informação, leitor, e está repetindo um press release israelense. Ignorância ou má fé?
2.Aliás, eu lhe devolvi o bule inteiro. Israel, sim, apresentou algo em Camp David e em certo sentido não é inexato dizer que ofereceu mais que jamais havia oferecido. Considerando o fato de que poucos anos antes Israel ainda desqualificava Arafat como o terrorista com quem não havia que se sentar, e os religiosos do Hamas como a força que havia que apoiar, digamos também que esse ineditismo não significava muito. Israel jamais havia oferecido o fim da ocupação, concretamente.
Qual era, pois, a tal “oferta” (que, sabemos, jamais foi tal) de Camp David? Leia o jornalismo “ponderado” e ele lhe dirá que Arafat rejeitou uma oferta de “96% da Cisjordânia, toda Gaza e Jerusalém Oriental” para um estado palestino, de forma que parece que meros 4% da Cisjordânia separavam a oferta israelense da lei internacional que exige retorno de Israel às fronteiras de 1967.
A verdade, evidentemente, está a quilômetros de distância disso. Não só jamais houve oferta, como a oferta não era essa.
Robert Fisk: Na realidade, oficiais palestinos e fontes americanas – as últimas sabiamente evitam a condenação israelense permanencendo anônimas – apontaram que o número 96% representava a porcentagem de terra sobre a qual Israel estava disposto a negociar – não 96% de toda a Cisjordânia e de Gaza.
Fora da equação ficava a Jerusalém Oriental árabe – ilegalmente anexada por Israel depois da guerra israelo-árabe de seis dias em 1967 --, o enorme cinturão de colonias judaicas, incluindo-se Male Adumim, em volta da cidade e uma zona militar de separação em volta dos territórios palestinos.
Junto a isso vinha a obrigação de alugar de volta as colônias – construídas ilegalmente de acordo com a lei internacional em terra árabe – para Israel por 25 anos, e a totalidade da terra palestina da qual Israel estava disposto a recuar chegava a somente 46% -- bem distantes dos 96% alardeados depois de Camp David.
Uau! Veja como 96% vira 46% quando você trabalha com a informação sonegada pela grande imprensa. O jornalismo servil aos poderosos esquece de lhe fornecer esse importante dado, leitor: no "cálculo" dos 96%, já estavam excluídas terras ilegalmente anexadas.
3. Inclusive, quando você me emprestou o bule, ele já estava estragado! Mas a mentirada das manchetes compiladas aqui não termina nos números. A sua total perversidade só é apreciada quando você vê o mapa. De acordo com a lei internacional, o estado palestino teria que ter essa pinta aqui (com cessão de soberania à Palestina sobre Jerusalém Oriental, algum arranjo que ligue Gaza à Cisjordânia e, mais espinhosa das questões, algum direito de retorno para refugiados palestinos que respeite as preocupações demográficas de Israel):

A “oferta” de Barak em Camp David, se ela tivesse existido, seria esse bule aqui:

Ao invés de um estado, a “oferta” – que não existiu – apresentava uma coleção de bantustões que não controlavam suas fronteiras, haviam sido separadas militarmente de seus recursos hídricos e continuavam rodeadas das hostis colonias de grilagem de terra. Ela nem tocava no tema dos refugiados e não transmitia soberania real sobre a Jerusalém árabe à Palestina.
Que país era esse, o da "oferta generosa" que Arafat "recusou", aos 44 do segundo tempo, tanto do governo de Clinton como do de Barak?
Junto com a oferta-ultimato, o governo de Barak ia aceleradamente aumentando o número de colonos em terras árabes e não dando qualquer indicação de recuo das terras ocupadas, incluindo-se aí a recusa a uma simbólica cessão de três vilas árabes de Jerusalém Oriental que o próprio Barak havia autorizado Clinton a fazer a Arafat (só para depois se recusar a cumpri-la, suscitando de Clinton o comentário de que pela primeira vez alguém havia feito dele um “falso profeta” ante um líder estrangeiro).
Nada disso quer dizer que Arafat e a equipe palestina não tenham cometido seus erros. Desconfiados de uma negociação pontuada pelas “exigências” de Barak a que Clinton “desmascarasse” Arafat, a equipe palestina – a verdade é essa – não tinha nem mapas apropriados. Negociadores preocupados com o custo político de um fracasso agiam descoordenados. Num fogo cruzado político complexo – e o povo que tiver sido expulso de suas terras, só para 20 anos depois começar a viver quatro décadas sob ocupação militar estrangeira que atire a primeira pedra --, os palestinos em Camp David foram presa fácil do que Fisk chamou de “um dos maiores triunfos de relações públicas de Israel”.
E, apesar do comentário privado de Clinton sobre ser transformado em "falso profeta" por Barak, ele não hesitou em aparecer na TV israelense culpando os palestinos pelo fracasso das "negociações". Logo depois, Ariel Sharon, o carniceiro de Shatila e Sabra, levava 1.000 soldados israelenses armados à região da Mesquita Al Aqsa, em Jerusalém Oriental, um tapa na cara da população árabe e palestina. Sem nem um único movimento israelense na direção do supostamente oferecido em Camp David, com a construção de mais colonias de grilagem se acelerando, com a realidade da ocupação mantida, os palestinos começavam a segunda Intifada.
Esse foi o contexto da "generosa oferta", que nem oferta foi.
Mas o nosso servil jornalismo repete a mentira como se fosse verdade.