Entre a sua infindável repetição de boletins de imprensa do exército israelense e a igualmente infindável reiteração dos clichês “ponderados”, que olham “os dois lados” do “conflito”, a Folha de São Paulo conseguiu, reconheçamos, imprimir uma matéria decente nesta quinta-feira. Não é do “enviado” a Israel, mas da reportagem local: uma entrevista com o Professor Emérito de Princeton University, Richard Falk, que foi nomeado pela ONU relator para a situação humanitária nos territórios palestinos.
Falk é gringo de ascendência judaica. Foi nomeado pela ONU. Ao tentar chegar à Cisjordânia, Palestina Ocupada, via Israel, Falk foi enjaulado por 15 horas e chutado para fora de lá. O argumento? Aquele, velho: seu relatório seria “enviesado” [biased]. O detalhe é que não lhe foi dada a possibilidade de escrever o relatório. Trechos da entrevista (link para assinantes):
FOLHA - O Hamas infiltrou organizações humanitárias?
FALK - É uma acusação absurda. A ONU é muito rigorosa no esforço constante de se manter à distância de movimentos políticos. Mas como o Hamas é a principal força em Gaza, é possível que indivíduos isolados tenham algum tipo de simpatia com o Hamas, nada mais.
FOLHA - Há quem ache exagero falar em crise humanitária.
FALK - É uma das mais graves crises humanitárias da história recente. O pior é Israel impedir os civis de abandonarem Gaza. Os israelenses estão usando armas muito sofisticadas, algumas delas ilegais, como bombas de fósforo e projéteis que entram decepando o corpo. Israel também não provê suprimentos básicos e remédios, numa violação clara do direito humanitário internacional que representa um crime de guerra e contra a humanidade. Os responsáveis devem ser julgados.
No que se refere a essas armas químicas conhecidas como bombas de fósforo, caro leitor – lembra-se que a invasão do Iraque foi justificada com a cantilena de que Saddam Hussein supostamente tinha armas químicas e de destruição em massa? --, a história se repete com a tediosa previsibilidade de sempre. Para benefício de quem não acompanha o assunto há vinte e cinco anos, resumamos: primeiro, as vítimas denunciam que Israel está usando bombas de fósforo, que causam queimaduras químicas e são proibidas pela Convenção de Genebra. Depois, aparecem fotos que provam que Israel usou bombas de fósforo contra civis. Que as vítimas diziam a verdade.

O próximo passo também é conhecido por quem acompanha o assunto há tempos: Israel nega o uso da gerigonça, mesmo tendo o relator das Nações Unidas, um professor judeu emérito de Princeton, confirmado o crime de guerra. Na última vez em que Israel aterrorizou o sul do Líbano, foi a mesma coisa. O resultado: as vítimas diziam a verdade e o próprio exército de Israel reconheceu. Quer brincar de Google, caro leitor? Faça uma busca com "Israel denies" e "phosphorous" e depois outra busca com "Israel admits" e "phosphorous".
Você verá Tio Google documentando um filminho que se repete com a tediosa e macabra previsibilidade de um pesadelo recorrente para quem acompanha o assunto há décadas.
Mas, mesmo assim, se você fuçar a grande mídia, você encontrará: “alega-se” que Israel “possa ter usado” bombas de fósforo. Na melhor das hipóteses, você encontrará que "acredita-se que" (veja só, neste artigo, a luta entre a imagem e o texto).
Os crimes de guerra israelenses com bombas de fósforo são fato documentado, fotografado e comprovado. Crime de guerra. Crime contra a humanidade. Não há outro nome, jornalistas.
Quem deliberadamente tenha lançado fósforo contra civis pode terminar sendo julgado pelo Tribunal de Haia. O fósforo branco também é uma arma utilizada para difundir terror. Essas palavras não são de um blogueiro atleticano de extrema-esquerda ou de um simpatizante do Hamas. São de Charles Heyman. Quem é Charlie? Ex-major do exército britânico.