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Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



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quinta-feira, 26 de fevereiro 2009

Pergunta

Eu acabo de concluir uma experiência bem divertida, sobre a qual vou fazer um post em breve. O canal ESPN me convidou para palestrar sobre a cultura do futebol e dos esportes, em geral, na América Latina, para cerca de 100 de seus jornalistas e executivos -- imagine, Mestre Sergio, eu na frente de 100 jornalistas numa semana como esta.

O relato virá em breve, porque a experiência em Hartford foi muito boa, mas hoje eu queria pedir um favor aos leitores.

Quinta-feira é meu dia de batente duro, com aulas o dia todo, e eu ando precisando -- não para as aulas -- de uma informação, se possível com urgência: alguém aí sabe qual o valor exato que a Rede Globo de Televisão paga pelos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro? Quanto pagou no último? Nos anteriores? Eu provavelmente acharia a informação no Google em alguns minutos, que agorinha não tenho.

Alguém confirma, se possível com fonte?



  Escrito por Idelber às 12:56 | link para este post | Comentários (62)



quarta-feira, 25 de fevereiro 2009

A questão humanitária definitiva do nosso tempo

A convite de Renato Rovai e Glauco do Futepoca, eu inaugurei, neste mês de janeiro, uma coluna mensal na Revista Fórum. No momento em que revista postar cada texto no site dela, eu o colocarei aqui no blog também. A estreia é sobre a Palestina.

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Quando esta minha estreia como colunista na Fórum chegar às mãos do leitor, já estaremos em outra etapa deste ciclo da macabra escravização colonial imposta ao povo palestino. Essas “etapas” se repetem com absurda previsibilidade para quem acompanha o tema há décadas. No momento em que escrevo, faz 1 dia que opera um “cessar” das “atividades” de três semanas do exército israelense em Gaza, que deixaram mais de 1.200 palestinos mortos, 87% dos quais eram civis. Do imenso rastro de cadáveres, quase um terço são crianças. Elas constituem cerca de 50% da população de Gaza, a única do planeta a viver sob total cerco naval, terrestre e aéreo por exército estrangeiro. Evidentemente, a brutalidade do massacre deixa também centenas de milhares de seres humanos em estado de trauma irreversível.

As “etapas” são previsíveis porque as democracias ocidentais jogam o mesmo jogo hipócrita a cada ciclo dos crimes de guerra perpetrados por Israel contra o povo palestino. Neste caso, algumas datas são chave: junho de 2008 inaugura uma “trégua” com o Hamas, entendendo-se por “trégua” o que termo significa na Palestina Ocupada, ou seja, os palestinos concordam em não realizar nenhuma atividade hostil a Israel e este segue livre para manter a ocupação colonial, os assassinatos seletivos, os checkpoints, a construção do muro do Apartheid. Essa “trégua” se manteve, no entanto, durante meses, até que no dia 04 de novembro Israel invadiu a Faixa de Gaza e matou seis ou sete palestinos (há dúvida sobre o número, não sobre os assassinatos). A imprensa mundial simplesmente não noticiou. 04 de novembro? O dia em que o mundo observava os EUA elegerem seu primeiro presidente negro.

De olho em suas próprias eleições, no dia 10 de fevereiro de 2009, e na posse de Barack Obama, em 20 de janeiro, os líderes israelenses precisavam de qualquer desculpa para atacar o Hamas – ao mesmo tempo em que colocavam a culpa nos agredidos. A invasão militar seguida de assassinatos, conjugada com a manutenção do cerco militar, financeiro e comercial a Gaza, foi suficiente para provocar as respostas dos foguetes Qassam do Hamas, que não tinham sequer ferido qualquer israelense durante toda a “trégua”. Três semanas antes da posse de Obama, o exército de Israel invade Gaza e começa a perpetrar uma matança de proporções criminosas. Para quem acompanha a história dos massacres israelenses desde Shatila e Sabra (1982), não era difícil prever quanto tempo as forças de ocupação ficariam por lá.

Neste domingo, 18 de janeiro, as forças israelenses começam a sair de Gaza -- não sem antes romper o cessar-fogo decretado por elas mesmas doze horas antes -- para a posse de Obama, que assume a presidência dos EUA já com o recadinho recebido. A cada ciclo, a grande imprensa ocidental (com raras exceções: Guardian, as colunas de Robert Fisk no Independent) viaja também sobre a mesma estrada da hipocrisia. Repete boletins de imprensa de Israel como se fossem peças de jornalismo. Enfoca a guerra, mesmo quando a critica, do ponto de vista dos “objetivos” do exército ocupante, como se do outro lado não houvesse seres humanos. Pior de tudo, esquece a história do que ali vem acontecendo, tanto a história recente (digamos, os assassinatos de 04 de novembro, data real do fim da “trégua”) como a já longa história da expulsão (1948) e ocupação militar (1967) do povo palestino.

No caso das democracias ocidentais, a farsa se repete com previsibilidade ainda mais macabra. Os EUA lançam uma declaração de que “Israel tem o direito de se defender”, mesmo que o ataque seja contra um povo que não tem exército, marinha ou aeronáutica, e a proporção de mortos seja, como em Gaza, de 100 por 1. Os estados europeus “pedem” um “cessar-fogo” de “ambos os lados” e a farsa se arrasta por vários dias, enquanto os líderes árabes jogam seu tradicional empurra-empurra da impotência. O Conselho de Segurança da ONU se reúne, tenta ao máximo uma declaração neutra o suficiente que agrade aos EUA e, no final, mesmo a farsesca petição de cessar-fogo de “ambos os lados” é boicotada pelos próprios EUA. Israel continua perpetrando o crime de guerra por algumas semanas, até que unilateralmente decide que é hora de parar e voltar à guerra de baixa intensidade contra o povo palestino que é a ocupação “pura e simples.”

Na mais recente matança em Gaza, a lista de crimes de guerra cometidos por Israel incluiu: o uso de bombas de fósforo branco contra civis, a chacina dos membros de um clã numa casa à qual os havia levado o próprio exército israelense, os sistemáticos disparos contra ambulâncias, bombardeios contra universidades, a proibição da entrada de ajuda humanitária, o uso da nova, terrorífica Bomba de Metal Denso Inerte contra civis, entre outros. Mas com o completo sequestro do establishment político americano pelo lobby pró-Israel mais belicista, a inépcia da ONU e a covardia medrosa dos líderes árabes, o mundo mais uma vez – com raras exceções: Hugo Chávez, Evo Morales, o presidente turco Abdullah Gul – se calou ante essa que é mais justa das questões do nosso tempo, o direito dos palestinos viverem num estado viável e soberano em 22% das terras que historicamente foram suas.

Ao mesmo tempo em que se repetem, previsíveis, os movimentos farsescos do jogo político, os palestinos entram na quinta década de ocupação colonial. Sua história atravessa inúmeras distorções, falsificações, encobrimentos de indícios de limpeza étnica e uma massiva e poderosa campanha de propaganda do estado sionista. Da expulsão de 750.000 palestinos de suas casas, acompanhada da destruição de centenas de vilas palestinas, em 1948, o mundo durante muito tempo não soube praticamente nada. Continua sabendo pouco, apesar do trabalho incansável de historiadores como Ilan Pappé, um israelense que, pela primeira vez com fontes árabes, documentou o que os palestinos chamam de Nakba, a catástrofe (a hostilidade a Pappé em Israel chegou a um ponto tal que o acadêmico decidiu se mudar para Londres).

Esse já documentado, mas virtualmente desconhecido plano de limpeza étnica, levado a cabo na Palestina dos anos 40, foi durante décadas escondido com sofismas, falsificações ou distorções do tipo “não houve expulsão; os palestinos saíram voluntariamente”; “as propriedades foram compradas”; ou, a mais odiosa de todas, tratava-se de uma “terra sem povo”. Este último dogma, de papel central na mitologia que cerca a fundação de Israel, foi repetido sob diferentes formas, incluindo-se aí uma série de contorcionismos lógicos em torno do tema “o povo palestino não existe”, fórmula hoje já abandonada na desmoralização e só ressuscitada nas comarcas mais racistas.

Da realidade brutal da ocupação militar que se arrasta desde 1967 sobre as terras nas quais, segundo a lei internacional, deveria se constituir o estado palestino, o mundo também sabe muito pouco. Tanto as palavras inglesas “settler” e “settlement” como as portuguesas “colono” e “assentamento” são precários eufemismos para descrever os 450.000 grileiros fortemente armados que, à margem de toda lei e com proteção extra do exército de ocupação, vão abocanhando cada vez mais terras palestinas na Cisjordânia e aterrorizando a região com um cotidiano de agressões e violência. Segundo cálculos de Robert Fisk, sem dúvida o jornalista ocidental que mais conhece essa realidade, entre 1967 e 1982, 21.000 colonos tinham se mudado para a Cisjordânia e para Gaza. Em 1990, o total era 76.000. Em 2000, sete anos após os acordos de Oslo, o número estava em 383.000, incluindo-se os colonos da Jerusalém Oriental anexada. A incessante colonização da terra palestina é a realidade da qual todo o demais é expressão, sintoma e reação. Mas a cada agressão israelense, a mídia ocidental se esquece desse pequeno “detalhe”: as forças de ocupação já estão em território palestino há 41 anos e esse é o contexto no qual tudo acontece.

Como já assinalaram muitas vezes as organizações palestinas e israelenses de direitos humanos, historiadores como Ilan Pappé, especialistas como Norman Filkenstein e Jennifer Loewenstein, além de verdadeiras consciências da sociedade israelense como Uri Avnery, nem esse último massacre nem qualquer um dos anteriores tinha nada que ver com terrorismo, foguetes, homens-bomba ou tráfico de armas. Não tinham nada a ver com o Hamas ou com o Fatah. Tudo na política externa israelense sugere que o país já é presa, ele próprio, da lógica bélica que determina que os palestinos serão agredidos e massacrados periodicamente por razões que têm a ver com o calendário eleitoral israelense, norte-americano, ou com qualquer outra conveniência das forças de ocupação -- como a restauração do “poder de contenção do exército”, um eufemismo, como assinala Norman Filkenstein, para designar “a capacidade de Israel de semear pânico e morte em toda a região e submetê-la mediante a pressão das armas, da chantagem, do medo.”

Por isso, discutir o recente massacre do estado sionista sobre Gaza a partir de um veredito sobre o Hamas é aceitar falar da febre como ela fosse uma invenção do termômetro. Está amplamente demonstrada pela história que a atitude de Israel, ao longo da ocupação colonial, é a de destruir e desqualificar qualquer liderança política que os palestinos construam. Foi assim com a secular Organização para a Libertação da Palestina (que, durante muito tempo, foi a “terrorista” da vez, com a qual era “inaceitável” negociar) e está sendo assim com o Hamas. Essa história incluiu a sistemática destruição, sabotagem e cooptação da OLP por parte de Israel, além do apoio ao próprio Hamas, nos albores do grupo islamista.

A causa palestina não é somente, por todas as suas ramificações, a questão humanitária definitiva do nosso tempo. Considerando-se a carta branca que Israel tem historicamente recebido dos EUA, a monstruosa influência do lobby sionista mais bélico dentro do meio político americano e a completa incapacidade das Nações Unidas, ela é também a de mais difícil solução. Um exame detalhado do mapa da Cisjordânia, picotado por gigantescos assentamentos colonizadores e por postos policiais de controle, retalhado pelo muro do Apartheid, mostra quão longe estamos do ideal de um estado palestino viável. Sem qualquer força política que obrigue Israel a respeitar as leis internacionais – especialmente a resolução 242, de 1968, que determina o fim da ocupação do território palestino --, a tendência inercial é que a situação se arraste como está. Massacrar palestinos, desde que com a justificativa de combater o “terrorismo”, é uma fácil e eficaz plataforma eleitoral no estado sionista, onde uma minoria lúcida ainda protesta, em condições cada vez piores.

A esquerda ocidental não pode se dar ao luxo da omissão. O trabalho deve ser incessante, começando-se pelo questionamento dos termos. Não é possível continuar chamando de “conflito israelo-palestino” uma sucessão de massacres contra uma população que não tem Forças Armadas. Não é possível continuar aceitando o rótulo “terrorista” para qualificar qualquer organização da resistência palestina, enquanto o estado de Israel diariamente perpetra, contra a população civil, crimes qualificáveis como terrorismo de estado no sentido clássico. Não é aceitável consumir boletins de imprensa do exército israelense travestidos de “jornalismo” cada vez que as agências de notícias relatam um massacre como uma “operação” ou “incursão”, situando-se sempre, claro, não no lugar onde o massacre acontece, mas onde ele é planejado. Não é decente nem digno continuar repetindo mentiras como a tal “oferta generosa”, que Yasser Arafat supostamente teria recusado em Camp David, em 2000, uma miragem de criação da imprensa e dos porta-vozes israelenses, naquilo que Robert Fisk chamou de “um dos maiores triunfos de relações públicas de Israel”.

Em meio à atrocidade absoluta, o dicionário também é um campo de batalha.



  Escrito por Idelber às 23:38 | link para este post



segunda-feira, 23 de fevereiro 2009

Folha de São Paulo, cínica e mentirosa. Todo o apoio a Fabio Konder e Maria Victoria Benevides

Convenhamos que de ser “cínica e mentirosa” a Folha de São Paulo entende. Mas ela nunca, sejamos justos, havia nomeado dois profissionais, professores de currículo infinitamente superior ao de qualquer um dos membros de seu Conselho Editorial, para uma injúria gratuita. Com a agressão a Fabio Konder Comparato e Maria Victoria de Mesquita Benevides, o jornal já conhecido como Façamos Serra Presidente chegou a um novo limite, um mais recente e enlameado piso. Pouca coisa o diferencia do lamaçal de publicações como a Veja. Neste episódio, o mais urgente, acredito, é assinar a petição em defesa dos Professores e de protesto contra a injúria. A petição é encabeçada pelo maior crítico literário brasileiro, o Mestre Antonio Candido.

O já infame editorial da Folha, além de insultante à memória das vítimas da ditadura militar brasileira e comprometido com a ocultação da história colaboracionista do próprio jornal, fazia exatamente o contrário do que deve fazer o jornalismo: ele desinformava, contava uma mentira. Qualquer bom professor de história do primeiro grau sabe que não há nenhuma tradição bibliográfica de uso do termo “ditabranda” para designar o regime militar brasileiro, a ditadura de 1964-1985. Aos escrever as chamadas "ditabrandas" -caso do Brasil entre 1964 e 1985, o jornal simplesmete mentia aos leitores. Não “errava” ou “tinha um ponto de vista diferente”. Mentia, pois a ditadura brasileira não é “chamada” de ditabranda por ninguém. Não era, pelo menos, até o dia 17 passado.

Se tivessem, para compensar os livros que não leram, utilizado por dois minutos a internet que tanto temem, os membros do Conselho Editorial da Folha teriam descoberto que o termo “ditabranda” vem do espanhol e foi usado para caracterizar o regime que precedeu a República Espanhola dos anos 30. Depois, na Argentina, a ditadura de Onganía (1966-70) chegou a ser chamada de “ditabranda”, a princípio por falta de notícias sobre a extensão de seus crimes, e depois ironicamente, para acentuar os horrores da outra ditadura que se seguiria (1976-83).

O termo não tem qualquer história bibliográfica no Brasil para designar o período 1964-85, e é curioso que um jornal suspeito de ceder seus automóveis para a repressão, colaboracionista até a medula na divulgação das versões mentirosas dos assassinatos cometidos pelo regime, venha fingir que a ditadura brasileira tenha sido chamada de “ditabranda” -- e, para completar, chame de “cínicos e mentirosos” dois professores com os currículos de Fabio Konder e Maria Benevides, pelo simples fato de eles não aceitarem a chantagem da falsa comparabilidade entre o regime cubano e os regimes militares da América do Sul com os quais a Folha colaborou.

Por uma postura de opinião – abalizada por vastas obras, diga-se –, intelectuais são chamados de “cínicos e mentirosos”, sem direito de resposta, por um jornal de tiragem de 300 mil exemplares, cuja história colaboracionista é vastamente conhecida. Não é o máximo? São esses os lacaios que vêm nos falar de “liberdade de imprensa” todas as vezes em que são questionados. São esses os lambe-botas que vêm posar de “linchados” quando sua cumplicidade com os poderosos é desvelada. São esses os que falam de “apurar notícias” e até hoje não nos disseram quais são os jornalistas que recebem dinheiro de Daniel Dantas e se a lista que circula por aí – com Noblat, Fernando Rodrigues, Miriam Leitão – é verdadeira ou falsa.

Onde estão os jornalistas que se indignaram tanto e chamaram de "linchadores" os dois blogs que fizeram posts sobre as peroratas racistas da correspondente da Globo, agora que um jornal de 300 mil leitores chama de “cínicos e mentirosos”, por uma opinião política, dois professores com as histórias de Fabio Konder e Maria Victoria Benevides?

O mais cretino, o mais absurdamente revoltante dessa história, o mais fundamental que passou até agora sem menção, é que se você tomar os currículos de todos os jornalistas funcionários do Globo, da Folha, da Veja e do Estadão – eu disse se você tomar todos eles em conjunto --, você não chega a algo remotamente comparável ao currículo de Fabio Konder Comparato. Não adianta o Pedro Dória honestamente matutar de lá pra cá se ele não entender essa premissa básica que deve estar sobre a mesa para o início da conversa: o paupérrimo, o assombrosamente rasteiro nível intelectual da grande mídia brasileira. Além de mentirosos, venais e pouco transparentes, são fraquíssimos.

Não percebem, por exemplo, que é vergonhoso o maior jornal brasileiro não saber de onde vem o termo “ditabranda”.

Com o insulto a Fábio Konder e Maria Benevides, o portal UOL perdeu de vez minha assinatura. O Biscoito entra em fase de apoio radical a qualquer ridicularização, boicote, ataque verbal, protesto, charges, manifestação ou sabotagem não violenta dirigida contra os Frias, os Marinho, os Civita e suas corjas de servidores. Cada assinatura que eles percam, cada desmoralização que sofram, cada restinho de credibilidade que escoe pelo ralo, é mais um tijolinho no prédio da democracia.



  Escrito por Idelber às 22:55 | link para este post | Comentários (260)



terça-feira, 17 de fevereiro 2009

Links

Sergio Leo faz um magnífico post perguntando-se o que foi mesmo que o Itamaraty fez de errado no insólito caso da brasileira que alegou ter sido atacada na Suíça.

O Tiago Doria pôs muito bem os pingos nos i's na já cansada discussão sobre a crise dos jornais.

Voltando à imensa vaca fria que é Daniel Dantas, o Leonardo Bernardes escreveu bem: O catalisador da justiça no Brasil.

A cobertura desse inacreditável desgoverno que é o reinado de Yeda Crusius no Rio Grande do Sul encontra-se, como sempre, no RS Urgente.

Uri Avnery faz o balanço implacável, estilão dele, das eleições israelenses: Senhorita Tântalo, publicado pelo Amálgama em tradução de Caia Fittipaldi. Aliás, que dito fique: o trabalho do tradutor é árduo, inglório e só costuma ser lembrado quando alguém vê problemas. Caia Fittipaldi tem prestado um enorme serviço à informação em língua portuguesa com seu labor voluntário. Obrigado, Caia.

Por falar em tradução, o Miguel do Rosário está fazendo um belo trabalho de traduzir textos de Nicolás Casullo: Comecemos a discutir a direita é dos meus favoritos.

O balanço definitivo do pleito de domingo na Venezuela: Cachorros protestam contra Hugo Chávez, do Almirante Nelson Moraes. E o Jurandir mandou bem no É sempre bom lembrar.

Desperdice 3 minutos do seu dia com esse incrível dominó de cervejas:


(via Piro)

Para os cinéfilos, compartilhado pela Luiza Voll no Google Reader: The Trilogy Meter.

A atitude imbecil da Associated Press, de processar o Shepard Fairey, autor da arte dos cartazes de Obama que deram duas voltas na internet, revela uma paupérrima, mesquinha, interesseira e inconsistente compreensão do que deve ser o direito autoral e do que é o universalmente respeitado princípio do fair use. Alex Primo já desobedeceu.

Para se perder durante horas vendo e ouvindo shows de todos os estilos imagináveis: Fabchannel (via Lápis Raro).

Excelente artigo do New York Times
sobre a arte da atualização no Facebook. Eu tenho usado minhas atualizações (sempre em inglês, que é minha língua por lá) como uma espécie de Twitter privado para pensar em voz alta com os amigos. É um gênero com suas especificidades, sem dúvida. Perfil do blogueiro, aqui. Comunidade do Biscoito no Facebook, aqui.

Por falar em Twitter, quem tem sempre publicado material de qualidade sobre o tema é a Gabriela Zago.

A notícia não é nova, mas não sei se todo mundo já viu: a genial photoshopada de Fidel e Cristina.



  Escrito por Idelber às 05:10 | link para este post | Comentários (32)



sexta-feira, 13 de fevereiro 2009

Encontro com um ídolo

balibar.jpgEu gostaria de compartilhar com vocês, do blog, o que está sendo a imensa alegria de hospedar Etienne Balibar na minha cidade, na minha New Orleans. Para quem ainda não tomou contato com seu pensamento, eu recomendo alguns desses artigos, esse maravilhoso livro, esse clássico, ou qualquer outra porta. Balibar é como Ouro Preto ou Salvador: qualquer entrada funciona.

Há exatos 20 anos o pensamento de Balibar vem sendo um dos meus nortes ético-políticos. Tentar explicar num post seria fútil. Digamos, para resumir, que de todos os seres que habitam o planeta, Etienne Balibar é um dos poucos que eu considero grande pensador e, ao mesmo, grande intelectual público, grande sujeito político. É nos dedos de uma mão que você conta os que hoje são capazes de ser as duas coisas.

E eis que chega a hora de conhecer o ídolo. Uma saudação de longe, o amigo – organizador do evento – Jean-Godefroy Bidima imediatamente faz o gesto de que nos aproximemos e, sob um carvalho new-orleaniano, conheci Etienne Balibar.

Flash terrorífico unheimlich: cumprimentá-lo em francês ou em inglês? Eu sabia, claro, que Balibar leciona há tempos nos EUA e fala inglês muito bem. Meu francês é bom-zinho, mas não dá para conversas complexas. Por outro lado, a vontade de dar-lhe as boas vindas na sua língua nativa, fazer o gesto extra da hospitalidade, era bonita e, hesitando até o final, sabendo que se tivesse que explicar em francês tudo o que seu pensamento significou para mim eu seria incapaz, mesmo assim vacilando, eu optei pelo francês.

Cagando nas calças porque eu sabia que, se a conversa engatilhasse e ficasse interessante, eu seria incapaz de mantê-la naquela língua.

Mas foi um belo papo e – vejam só – no momento em que se encaminhava uma conversa sobre teorias da cidadania, em que nitidamente o esforço linguístico para mim era grande, a elegância e inteligência infinitas de Etienne Balibar o percebem e ele mesmo muda para o inglês, me deixando à vontade para seguir tranquilo. Coisa de gente classuda.

Às 5, Balibar deu uma inesquecível palestra sobre fronteiras, cidadanias, guerras, ocupações coloniais, identidades. Seria fútil tentar resumi-la. À noite, o Cônsul da França em New Orleans nos ofereceu uma recepção. Na manhã desta sexta Balibar conduz um seminário em Tulane e à tarde eu participo de uma mesa-redonda com o gigante. Prometo que vou tentar conseguir que filmem o evento.


Ao contrário de Jacques Derrida e outros ídolos do pensamento francês que conheci pessoalmente, Etienne Balibar não tem um pingo de timidez, ri com fluência e tranquilidade, tem uma conversa de boteco sensacional. Ele está animado para ir escutar música em New Orleans esta noite, e o problema aqui é o de sempre. As opções são infinitas. Quem quiser me ajudar a escolher entre jazz dixieland, jazz de vanguarda, cantoras de soul, gospel, blues, bluegrass, zydeco, cajun music, brass bands, rock, funk, hip hop ou sons vizinhos, que fique à vontade.



  Escrito por Idelber às 04:44 | link para este post | Comentários (23)



quarta-feira, 11 de fevereiro 2009

Lembrete: Carolina e Duke

Se você estiver acordado à meia-noite de hoje aí no Brasil, tem conexão banda larga e gosta de basquetebol, o programa é um só: Carolina visita Duke. É o maior clássico do basquete universitário, de longe. O jogo será transmitido pelo site do ESPN (clique no "360" na hora do jogo).

Os jogadores de quarto ano universitário (os "seniores") da equipe de Carolina jamais perderam em Duke, o que é o equivalente a três anos de traulitadas coloradas sobre o Grêmio no Olímpico, por exemplo. Babado forte. As duas equipes lideram a liga regional mais importante do basquete americano, a ACC, com campanhas 7-2.

Ignoro se o ESPN Internacional, aí no Brasil, transmitirá o jogo pela televisão. Alguém confirma?



  Escrito por Idelber às 15:54 | link para este post | Comentários (8)




Entrevista

Jorge Conterrâneo, André Deak e Rodrigo Savazoni me desafiaram para uma entrevista. Topei. Aí vai a transcrição.


André Deak - O seu blog é uma das melhores fontes em português sobre o que ocorre em Gaza hoje. Como se envolveu com a questão palestina?

Foi em 1982, quando Israel invadiu o Líbano. A brutalidade dos massacres sofridos por palestinos dasarmados em campos de refugiados como os de Sabra e Chatila foram o despertar inicial, simultâneo à percepção de que a imprensa e os governos ocidentais sempre tratavam a questão com luvas de pelica. Depois, li a obra de Edward Said. O contato com a cultura árabe – através de escritores como Ahdaf Soueif – veio depois. Depois ainda, veio a leitura da grande historiografia ocidental sobre a região, de Illan Pappé a Robert Fisk. O meu interesse é aguçado pela trajetória profissional: a formação do hispanista pressupõe algum estudo de Al-Andalus, período de controle árabe sobre a atual Andaluzia, onde árabes, judeus e cristãos viveram em relativa paz: um contra-exemplo cabal para os que falam de raízes "milenares"da situação de hoje.

Rodrigo Savazoni - Pelo que vi, a Faixa de Gaza é hoje uma região majoritariamente habitada por crianças e jovens (perfil demográfico da maioria das regiões pobres do planeta). É possível pedir a condenação de Israel no Tribunal Penal Internacional por crimes contra a humanidade e por infanticídio em massa?

A maioria dos especialistas em direito internacional concordam que há extenso fundamento para as acusações de crimes de guerra e de lesa-humanidade de Israel nos Territórios Ocupados da Palestina. É juridicamente possível, claro, mas não é factível politicamente, por causa da lei do mais forte.


AD - A versão dos fatos que parece prevalecer atualmente é a seguinte: O Hamas lançava foguetes diariamente em Israel, e para evitar que a população israelense continuasse vivendo sob o medo Israel precisou tomar uma atitude drástica, porque "o Hamas só entende a força bruta". Essa versão foi contada, de uma maneira ou de outra, por diversos oficiais e políticos israelenses e repetida diariamente nos jornais. O que realmente aconteceu?

O que o próprio Haaretz noticiou. A invasão foi preparada durante seis meses, a "trégua" se manteve de junho a 04 de novembro – entenda-se "trégua" como manutenção da prisão ao ar livre de Gaza sem reação nenhuma dos palestinos – e, nesse dia 04, dia da eleição americana, Israel invadiu Gaza e matou pelo menos seis palestinos, conseguindo o que queria, ou seja, que o Hamas lhe desse um pretexto para a matança. De olho num recadinho para Obama e nas suas próprias eleições, Israel bateu até que o Hamas reagisse com as precárias armas que tem. Dado o pretexto, entra o exército e realiza a chacina.

AD - Li também nos jornais que, quando houve a "retirada unilateral dos assentados israelenses", o Hamas levantou faixas dizendo que "três anos de Intifada são melhores do que dez anos de política". Ou seja: os ataques a Israel teriam se intensificado porque o Hamas entendeu que os foguetes deram resultado. Isso é verdade?

Houve retirada de Gaza num período em que os assentamentos colonizadores só aumentaram na Cisjordânia, que é onde eles sempre estiveram massivamente, diga-se em primeiro lugar. Mas quanto ao tipo de enunciado que você menciona, o Hamas está jogando o jogo político dele, de apresentar o Fatah, no melhor dos casos, como uma moderação fracassada ou, no pior, como traidores vendidos. A ocupação militar durante 40 anos deixou a situação tão desesperadora que a mensagem ecoa, mesmo entre os palestinos, que sempre foram – ao lado dos iraquianos, ironicamente – um dos povos mais seculares do mundo árabe. A questão que há que se responder não é por que o Hamas reagiu quando a trégua foi rompida por Israel, com invasão e assassinatos secretos. A questão que há que se explicar é por que o tão demonizado Hamas aceitou ficar meses sem lançar foguetes. É a prova cabal, de novo, de que Israel tem todas as cartas da negociação nas mãos.

Jorge Rocha - Eu considero o trabalho de pessoas como o cartunista Latuff – que você também faz questão de elogiar – como um exemplo de jornalismo. Até que ponto iniciativas como essa, e incluo nesse montante fontes de contraposição de opiniões da mídia massiva, podem influenciar certa – vá lá – opinião pública ?

Cumpre um papel importante, que talvez só seja mesmo possível avaliar retrospectivamente. A opinião pública pode mover-se mais. Há simpatia e um embrião de conhecimento disseminado da situação. Mas há ainda pouca compreensão do fato de que a única solução possível virá de pressão internacional e que, portanto, as campanhas de boicote e desinvestimento são muito importantes. Esse passo ainda é embrionário na América Latina e já é um pouco mais compreendido na Europa. Nos EUA, claro, ele é inimaginável. Aqui, o lobby pró-Israel – que, insisto, a longo prazo é um lobby anti-Israel – tem o controle completo de todo o horizonte do dizível na política.

RS - Do ponto de vista do ordenamento institucional internacional - essa coisa vaga a que chamamos política externa (e que nunca funciona quando necessário) - quais são as medidas cabíveis que a sociedade civil pode exigir?

Depende de qual sociedade civil você tenha em mente. A palestina já não pode exigir nada, porque todos os movimentos de resistência pacífica foram ignorados e / ou massacrados. A israelense – sua esmagadora maioria -- já não quer exigir nada nesse sentido, dominada que está pelo medo e pela chantagem do seu establishment político. As sociedades civis ocidentais, estas sim, devem se mexer. Intensificar as iniciativas de boicote, aprofundar os contatos com as precárias organizações da socidade civil palestina, colocar pressão em seus governos.

JR – Você foi um dos primeiros a repercutir a informação sobre o blog que a repórter da Globo, Renata Malkes, manteve entre 2000 e 2007, escrevendo sobre a "questão do Oriente Médio" - termo eufemista para barbaridades. O blog Cloaca News, que levantou o caso, apontava que era uma cobertura que visava "divulgação da propaganda sionista" e você concordou enfaticamente. Mantém essa posição ?

Quem nos dera que tivesse sido só um blog de propaganda sionista. Era muito mais: era um blog de celebração de Eretz Israel, de auê belicista e intenso racismo anti-árabe. Houve jornalista que tentou livrar a barra dizendo que os blogs tinham "linchado" o que a Renata Malkes havia escrito "quando tinha 20 anos", desonestamente omitindo o fato de que ela não completou vinte anos junto com Garrincha, mas outro dia. O próximo funcionário da grande mídia brasileira que reclamar comigo de "linchamento" nos blogs que apresente, por favor, transcrição de 10 a 15 entrevistas com membros do PT sobre o que foi ler jornais ou revistas e assistir à televisão em 2005 e 2006. Depois que os blogs prestam esse serviço público – mostrar que a pessoa que está entrando nas casas brasileiras pela televisão via concessão pública para cobrir uma ocupação colonial era, até três ou quatro anos atrás, autora de textos racistas entusiastas dessa mesma ocupação --, vem jornalista dizer que os blogs devem "pedir desculpas"? Pelo fato de que ela não "serviu" ao exército, como mui razoavelmente deduziu o Cloaca da festa feita por ela no blog por ter sido aceita na instituição? Fumou e não tragou, e daí? Informação errada? Informação errada é escrever "quando ela tinha 20 anos" querendo enganar o leitor. Pior de tudo foi a tentativa de convencer os outros de que os blogs erraram ao não "ir ouvi-la", como se se tratasse de querer saber da moça, apurar algo sobre ela, ao invés do que realmente importava, criticar um texto que está(va) na internet -- um direito de qualquer um. Neste caso, tratava-se de um lixo que só tinha relevância, evidentemente, porque havia sido escrito pela única pessoa com acesso a quase todos os televisores do país com "notícias" sobre a chacina. A Rede Globo de Televisão deve desculpas a seus telespectadores por mais essa monstruosa falta de transparência. Os funcionários da grande mídia precisam realizar um estágio com Olívio Dutra, por exemplo, sobre o que é ser massacrado incessantemente com palavras durante anos, ao invés de fazerem esses escândalos de dondocas "linchadas" toda vez que são criticados.

JR – Doze horas após ser escolhido como o candidato do Partido Democrata estadunidense, Barack Obama prometeu um apoio de 30 bilhões de dólares à Israel como assistência militar. Qual é o seu prognóstico a respeito da posição desta gestão e a cobertura midiática dessas, chamemos assim, aproximações táticas ?

Obama opera num ambiente político em que o lobby pró-Israel tem, nas mãos, praticamente todo o Congresso. Converse com qualquer deputado ou senador em off. Os relatos são assustadores. Para vencer a eleição, Obama teve que dar suas demonstrações de lealdade ao lobby. A suspensão da ajuda militar a Israel é uma bandeira que, neste momento, está além do limite do possível. A indicação de George Mitchell é muito boa. Dentro do espaço estreito em que uma solução é possível, Mitchell é um cara que tem condições de conseguir algum progresso. Mas com o estrago feito pelas sucessivas chacinas, a diuturna expansão dos assentamentos colonizadores, o desespero e a desilusão do lado palestino, as péssimas notícias das eleições israelenses e o barulho chantagista do lobby "pró-Israel" nos EUA, só um louco para ser otimista.

AD - Interesses comerciais dos EUA e de Israel, poder militar, sanções... Isso é o bastante para evitar que algum país se levante contra esse massacre?

Que algum país se levantasse militarmente contra Israel seria uma medida desesperada e provavelmente fracassada. A saída é a pressão internacional para que se produzam condições menos asfixiantes de negociação. Fora disso, não vejo nada. Quero dizer, vejo, mas é uma horrenda tragédia.

RS - Quantas crianças mais terão que morrer para que a imprensa planetária comece a relatar os fatos com a dimensão que eles têm?

Quando se alterarem as relações de força entre os vários grupos sociais que exercem pressão sobre essa imprensa. Quantas crianças palestinas morrerão até lá, não sei. Muitas, provavelmente.



  Escrito por Idelber às 03:31 | link para este post | Comentários (45)



segunda-feira, 09 de fevereiro 2009

Links

A recente odisséia de Obama tentando aprovar seu pacote de estímulo no Congresso só fez reforçar meu unicameralismo. Continuo achando que Senados são uma perda de tempo e dinheiro. Conheço os argumentos que ditam que eles têm um papel em países enormes, de desenho federativo, tipo EUA e Brasil. Nenhum desses argumentos me convence. Acho que é um aparato anti-democrático de manutenção de privilégios regionais mesmo.

O que seria hoje José Sarney se não existisse o Senado? Nada, uma bostica, uma tutaméia. A máquina que iguala Roraima e São Paulo, Wyoming e Califórnia, vai perpetuando esses fantasmas, essas almas penadas da política.

Aqui nos EUA, fecharam o acordo para uma versão aguada do plano de Obama, cheio de concessões à turma que agora faz oposição à situação em que nos deixou. Como sempre, está valendo acompanhar o Talking Points Memo, pelas notícias, o Rude Pundit, pela poesia e a Digby pelo comentário mordaz.

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Sobre o caso Battisti, não deixe de ler o escrito pelo Alexandre Nodari.

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Um comentarista querido do Biscoito, jovem de fina prosa, o Hugo Albuquerque, inaugurou seu blog: Descurvo .

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Um velho amigo de blogosfera, conterrâneo e sociólogo da mais fina estirpe, que junto com sua esposa Mônica foi das minhas grandes amizades nos primeiros dias de blogueiro, está de volta: Carlos Magalhães, o Guto, agora assina o Imaginação Sociológica. É para se acompanhar.

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Foi-me pedido que dissesse algo sobre o Fórum Social Mundial em Belém. Remeto aos balanços que mais gostei entre os que li: Katarina Peixoto e Marco Aurélio Weissheimer.

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Se você quer ir sentindo o impacto das cacetadas da crise sobre a universidade americana – que é, certamente, mais mediado que em outras áreas –, é só assinar o feed do Chronicle of Higher Education.

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Depois de começar os jogos da liga regional com duas derrotas inesperadas, os Tar Heels engatilharam sete vitórias consecutivas e dividem o primeiro lugar. As duas últimas vitórias foram, respectivamente, shows do ataque e da defesa. Um dos tira-teimas com Duke é na próxima quarta. Vale a dica de que o site do ESPN transmite, sob “Espn 360”. É o maior clássico e a maior rivalidade do esporte americano universitário, de longe. Carolina, até agora: 7-2 na liga, 21-2 na temporada toda. Embalando.

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Do que li nos cadernos culturais brasileiros no fim de semana, o que mais gostei foi o texto de Luiz Antonio Simas sobre samba e literatura.

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Para a meia dúzia de três ou quatro que me leem em New Orleans: nesta quinta, às 5 da tarde, um dos últimos maître penseurs europeus, Étienne Balibar, fala no auditório Freeman: Strangers and Enemies. From Politics to Philosophy. Na sexta, eu e mais seis professores fazemos uma mesa-redonda com a fera, no Newcomb Art Dept., das 10 às 6, com pausa para almoço. Aqui, 0,5% em pdf da produção monumental de Étienne Balibar, um pensador indispensável. Aqui e aqui, Balibar fala sobre a Palestina.



  Escrito por Idelber às 02:54 | link para este post | Comentários (33)



sexta-feira, 06 de fevereiro 2009

Meme confessional

Hermenauta passou, mas o meme já deu voltas e voltas por meia blogoseira. Cinco coisas que não se sabem sobre mim, pois:

1. Meu trauma de infância é uma decisão de Campeonato Brasileiro em que não jogava meu time – e ele não tem a ver com o resultado. Imagine uma decisão com duas equipes gigantes. Imagine o grande chutador da sua geração dando seu mais inesquecível espetáculo e encontrando o maior goleiro da sua geração fazendo o inacreditável. Aos sete anos de idade, você tem perfeita consciência de que ali se decide a dinastia do futebol brasileiro dos próximos anos. Se você não sabe do que falo, veja com seus próprios olhos o dia em que Figueroa marcou, Nelinho fez chover, mas Manga fez cair neve. Imagine que você vê um primeiro tempo eletrizante, vê o gol de Figueroa no começo do segundo tempo e cinco minutos depois tem que sair de casa para ... ser orador na formatura de sua turma de pré-primário. Sim, isso me aconteceu. Dali, tirei uma lição: às vezes, uma escola não tem noção do mundo ao seu redor. Até os torturados nas masmorras da ditadura estavam vendo os últimos 30 minutos daquele jogo – menos os infelizes moleques e pais de um obscuro jardim de infância de Belo Horizonte, de cuyo nombre no quiero acordarme.

2. Eu me vinguei do meu trauma de infância na própria cena do crime, 5 anos depois. Não na casa onde poderia ter visto o jogo, mas no próprio lugar onde ele acontecera. Eu sabia que Figueroa e Manga haviam decretado o nascimento de uma dinastia: depois de um bicampeonato brasileiro (1975/76), um octacampeonato gaúcho e um Tri Invicto no Brasileirão (1979), eu veria ao vivo, em Porto Alegre, o jogo que decretou o fim. O meu Galo massacrava a histórica máquina do Inter em pleno Gigante da Beira-Rio, com sonoros 3 x 0 na Semifinal do Brasileirão de 80, num jogo em que Éder, Luisinho e Pedrinho foram bons coadjuvantes, mas a dobradinha inesquecível foi Cerezo-Reinaldo. Até hoje, Paulo Roberto Falcão diz que o Galo de Éder-Cerezo-Reinaldo foi a maior máquina do Brasil pós-Pelé. A opinião é do jogador mais completo que vi jogar. Tudo isso, claro, me rendeu uma imensa simpatia pelo Internacional, que é para todos os efeitos o meu segundo time, junto com a Ponte Preta (embora, ao contrário de qualquer Colorado, eu torça para o Grêmio quando este joga com o eixo RJ-SP).

3. Confissão do século: Eu já torci para o ex-Ipiranga. Sim, quando criança. Só virei Galo em 1977, aos 8 anos. Na época da Libertadores de 1976, eu ainda era torcedor somente do Uberaba Sport e, vagamente, do Vasco. O ex-Yale jogava a Nega de uma melhor de três com o River Plate, em Santiago (onde obviamente a torcida era pró-Brasil). No 3 x 2 que marcou a maior conquista da história do ex-Palestra, ficou famosa a cobrança de Joãozinho no terceiro gol. De surpresa, rompendo as regras – que mandavam, claro, que Nelinho cobrasse –, ele fez o gol mais gingadamente brasileiro da história. Assistam e vejam como era o futebol (não se esqueçam de clicar na parte 2, que é o segundo tempo para a eternidade). O que poucos se lembram sobre aquela cobrança é que ela foi uma resposta moleque de Joãozinho à postura do árbitro no segundo gol do River, validando cobrança de falta enquanto se armava a barreira. O que pouquíssima gente sabe é que Aymoré Moreira, o técnico do ex-Ipiranga, repreendeu Joãzinho em meio às comemorações do título – por ter cobrado a falta que ganhou o dito cujo.

4. Eu já quebrei a perna de alguém deliberadamente. Acho que se enquadra na legitima defesa. Eu: 19 anos, 1,73m, 68kgs, centroavante com algum talento. Jogando contra o temido time do Cachoeirinha. Linha de zaga: Zarmário, Noite Ilustrada, Alemão e Ranca-Toco. O menor tinha 1,85m e 90 quilos. Aos 35 minutos, pelas minhas contas, me haviam jogado no chão umas 13 vezes. No intervalo, canela esfolada, eu sabia que essas situações têm 4 saídas: 1) você faz o que Rivellino às vezes fazia: joga de armandinho no meio-campo; 2) tenta escapar da porrada com tabelas em alta velocidade, o que era impossível naquele jogo: faltava espaço; 3) oferece seu corpo ao sacrifício, para virar carne moída, o que não era opção legal para o segundo tempo; 4) quebra a perna de um feladaputa para que saibam que você não vai apanhar calado.

Aos 5 do segundo, Alemão domina a bola na lateral de costas para o campo, muda o pé de apoio, eu meço o timing da tesoura e lanço um carrinho voador, fazendo as travas da minha chuteira esquerda encontrar com as da direita, convidando seu tornozelo de apoio a ser recheio do sanduíche. Ouço o indefectível crack. Alemão, que tinha de bíceps o que eu tinha de coxa, ia rumo ao hospital. O jogo, que estava 1 x 0 para eles, terminou 2 x 1 para nós, com um gol meu. Foi a única vez – excluindo as bofetadas normais de criança com seus primos e irmãos – que se pode dizer que agredi alguém fisicamente na vida.


5. Em 1971, aos 2 anos e 8 meses de idade, eu ganhei uns milhões de cruzeiros de Flávio Cavalcanti na TV, fazendo algo que algum dia conto. Deve estar nos arquivos da TV Tupi. Mais não conto e mais não me foi perguntado.

Agarre o meme aí quem quiser. E você que não tem blog, confesse aí na caixa de comentários.



  Escrito por Idelber às 01:04 | link para este post | Comentários (75)



quarta-feira, 04 de fevereiro 2009

O verdadeiro alvo, por Vladimir Safatle

O argumento do direito de auto-defesa é consistente?

O governo de Israel tem patrocinado uma larga operação militar para, segundo Shimon Perez, "dar uma lição no Hamas". Até agora, o resultado são mais de 1.000 mortos, sendo ao menos 300 crianças. Contra críticas internacionais, o governo de Israel afirma ter o direito de agir em defesa de sua integridade territorial e da segurança de seus cidadãos.

Tal segurança teria sido colocada em xeque devido a ataques com foguetes arcaicos operados pelo Hamas após uma longa trégua. Que tais ataques não tenham produzido vítimas, isto não significa que o governo de Israel não deveria lutar para evitar vítimas futuras. E, neste caso, lutar consistiria em "quebrar definitivamente a capacidade de ataque do Hamas", como disse o próprio governo.

O raciocínio todo é correto, desde que aceitemos que o direito de defesa se aplica à relação entre Israel e Palestina. No entanto, este direito não pode ser aplicado quando se trata de ações referentes à gestão de um território ocupado ilegalmente. Ou seja, não posso alegar direito de defesa quando reajo a ataques vindos de um território que invadi ilegalmente. Infelizmente, esta é claramente a situação em que Israel se encontra em relação à Palestina (composta, de maneira indissociável, da faixa de Gaza e da Cisjordânia).

O direito internacional, representado pela ONU (diga-se de passagem, a mesma instituição que criou o Estado de Israel, o que lhe dá toda a legitimidade para enunciar uma lei sobre a situação), reconhece à Palestina o estatuto jurídico de "território ocupado", ocupação considerada totalmente ilegal pelas resoluções 242 e 338 há mais de 40 anos.

A decisão é tão claramente aceita por instâncias internacionais que, por exemplo, o Supremo Tribunal Federal brasileiro deverá indeferir o pedido israelense de deportação de um fanático que cometeu crimes na Cisjordânia e que veio a se esconder em nosso território, já que a jurisdição de Israel sobre os territórios ocupados não é reconhecida. Ou seja, uma situação ilegal anula a possibilidade de fazer apelo a um direito internacionalmente reconhecido.

Mas é claro que virá a pergunta: não teriam os israelenses a obrigação de assegurar seus cidadãos contra ações de um grupo vergonhosamente antissemita, que assassina civis e prega claramente a destruição do Estado de Israel ao invés de pregar apenas a defesa dos palestinos contra a ocupação? Afinal, a luta dos povos árabes contra o Estado de Israel não é uma invenção paranóica. As guerras de 1967 e de 1973 são prova maior de que toda vigilância é necessária. Ainda mais com o crescimento do caráter beligerante do dito fundamentalismo islâmico, representado na região pelo Hamas. Não estaríamos aí diante de uma situação de exceção, em que os critérios tradicionais de direito e justiça devem ser suspensos?

Aqui, vale a pena fazer duas colocações. Primeiro, o estado contínuo de guerra contra Israel desde sua fundação, em 1948, nunca foi o resultado de algum pretenso ódio milenar irracional entre árabes e judeus provocado por fanatismos religiosos, como muitas vezes se procura vender, mas de um clássico conflito territorial derivado do mais catastrófico processo de descolonização do século XX. Povos que ainda nos anos 20 viam-se como irmãos semitas foram jogados em um conflito fratricida devido a uma descolonização, operada sobretudo pela Grã-Bretanha, que prometia reiteradamente a ambos o direito sobre as mesmas terras.

De qualquer forma, essa situação há muito perdeu força, principalmente depois da antiga OLP, de Yasser Arafat, reconhecer as fronteiras de 1967. O único país que ainda está em estado de beligerância com Israel é a Síria, devido à invasão israelense das colinas de Golã. Um histórico processo de negociação iria começar agora, graças à mediação da Turquia, no qual Israel devolveria o território ocupado em troca da normalização das relações. Algo nos moldes do que ocorreu com o Egito e a península do Sinai. Mas a invasão da faixa de Gaza jogou uma verdadeira pá de cal em tudo isso.

Por outro lado, se a questão gira em torno da implementação de políticas sólidas de segurança nacional, só podemos repetir uma pergunta de Daniel Baremboim, alguém cuja grandeza de espírito só é comparável à sua inteligência musical impar: "Esta é, afinal, a maneira mais eficaz de defender-se?". A resposta é simplesmente: não.

Na verdade, não haveria maneira mais eficaz de defesa do que fazer aquilo que disse o Prêmio Nobel da Paz e ex-presidente norte-americano Jimmy Carter: "negociar diretamente com o Hamas" e suspender o bloqueio a Gaza, que além de ser mais uma afronta ao direito internacional, alimenta o desespero e humilhação dos palestinos, solo fértil para o crescimento do apoio ao grupo islâmico. Da mesma forma, não haveria atualmente as deploráveis bravatas antissemitas de Ahmadinejad e o perigo real do Irã transformar-se em potência nuclear descontrolada se a política mundial não tivesse enveredado pelo caminho brutal da administração Bush.

Lembremos que o Irã estava em um claro movimento de abertura de seu regime e normalização de relações internacionais, primeiro com Rafsanjani e depois com o reformista Kathami.

Este movimento foi quebrado em 2005 como uma das consequências do recrudescimento das tensões produzidas pela invasão no vizinho Afeganistão. O desejo iraniano de transformação em potência nuclear foi resultado de um cálculo simples: os EUA invadiram o Iraque mesmo sem mandato da ONU e não invadiram a Coréia do Norte (com suas ameaças à "ordem mundial") porque o primeiro não tinha armas nucleares, e o segundo tinha. Logo, esta é a condição para a sobrevivência.


Gênese do fundamentalismo islâmico popular

Mas voltemos à idéia de que a melhor política de segurança teria sido negociar diretamente com o Hamas. De fato, ele deu claros sinais, desde que venceu as eleições legislativas de 2006, de que sentaria à mesa de negociações. O Hamas aceitou longas tréguas, como esta que terminou em 19 de dezembro.

Alguns de seus líderes, como o chefe do conselho político Kahled Mechaal, chegaram mesmo a afirmar: "Queremos um Estado nas fronteiras de 1967". Outro chegou a propor uma "trégua de cem anos". Ou seja, havia indícios de que poderia acontecer com o Hamas o que aconteceu com o IRA, na Irlanda do Norte: a transformação de um grupo armado em ator político.

De qualquer forma, é oportuno contextualizar um dos dispositivos maiores que fundamentam a recusa do governo de Israel em negociar com o Hamas: "Não é possível negociar com alguém que não reconhece seu direito de existência". Sim, é verdade. Por isto, é muito difícil avançar, enquanto existir, em Israel, partidos importantes como o Likud (atualmente na frente nas pesquisas eleitorais), cuja carta programática simplesmente não reconhece o direito à existência de um Estado palestino. Ou seja, os palestinos também não têm seu direito a um Estado reconhecido por todos os principais atores políticos israelenses.

No entanto, durante o governo do likudista Netanyahu, Arafat negociou com um partido que, em sua carta, não reconhecia o direito a um Estado palestino à oeste do Rio Jordão. Se Arafat fez, os políticos israelenses também podem fazer. Diga-se de passagem, mesmo aquilo que o atual partido governista Kadima propõe aos palestinos, além de ignorar frontalmente todas as resoluções da ONU a respeito dos territórios ocupados, dificilmente pode ser chamado de "Estado", pois não leva em conta princípios fundamentais de autonomia e autodeterminação.

Mas podemos ainda dizer, juntamente com o atual governo de Israel: "Não negociamos com terroristas". Em uma ironia maior da história, ele repete as mesmas palavras usadas pela administração colonial britânica na Palestina, referindo-se a grupos judaicos de luta armada atuantes nos anos 40, como o Irgun e o grupo Stern.

Isto, sem falar que foi com o adjetivo de "terrorista" que Albert Einstein e Hannah Arendt trataram o futuro primeiro-ministro de Israel, Menachen Begin (carta ao "New York Times", 4 de dezembro de 1948), líder do futuro Likud, do qual saiu o atual primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert. Mas, se há algo que a história das lutas de ocupação (Argélia, Vietnã, Irlanda etc.) nos ensina, é o seguinte: chega uma hora em que você terá que negociar com os "terroristas". Por sinal, foi este o destino das relações entre o governo de Israel e os "terroristas" da OLP de Arafat.

Pode-se contra-argumentar, no entanto, que entre o Hamas e a antiga OLP há uma diferença maior. Arafat não queria criar um Estado islâmico às portas de Israel. Seu grupo era laico. Sim, é verdade, mas isto, por si só, não justifica que o conflito palestino seja visto como uma situação de exceção. Pois a pergunta que deve ser respondida é: como um grupo como o Hamas, com um programa minoritário no início dos anos 90, transformou-se hoje no partido mais popular da Palestina? Uma popularidade que irá aumentar significativamente após este conflito, tal como aconteceu com o Hizbollah.

Cada palestino morto significa a consolidação de um sentimento de humilhação e descrença em relação à negociação política. E o que é expulso do campo simbólico da política retorna sob a forma de violência real. Por sinal, esta foi a equação que sempre alimentou o Hamas e que continuará a alimentá-lo. Pois não se destrói um grupo armado aumentando seu apoio popular.

A quem duvida do aumento do apoio ao Hamas, convido que veja a versão inglesa do canal de TV mais assistido no mundo árabe (Al-Jazeera) e analise a maneira como seus militantes são retratados. Tudo isto demonstra que o ataque a Gaza não era justificado nem do ponto de vista do direito de defesa, nem sequer do ponto de vista da eficácia de medidas de segurança.

Neste ponto, gostaria de esclarecer minha posição. Robert Kurz, em um artigo profundamente confuso ("Folha de S. Paulo", 11/01/2008), critica o que ele chama de "esquerda pós-moderna(?)" que estaria disposta a "identificar-se com a administração autoritária da crise mundial (do capitalismo), aceitando como inevitável a guerra islâmica contra os judeus, como se ela fosse um mero flanqueamento ideológico". Como se esta tal esquerda pós-moderna defendesse o Hamas por confundi-lo com uma força dos antigos "movimentos anti-imperialistas" e misturasse isto com tendências culturalistas e relativistas. Juntar-se-ia a isto um velho neoestatismo (o fantasma clássico a assombrar a vida de Robert Kurz), que crê valer a pena pacificar as massas por meios autoritários de um Estado forte, nem que seja um Estado islâmico. Contra isto, diz Kurz, deveríamos insistir na necessidade de "aniquilamento" do Hamas e do Hizbollah.

Há tempos não se via uma análise tão fora de esquadro, pois esta esquerda pós-moderna que apoia o Hamas e flerta com neoestatismo simplesmente não existe. Talvez Kurz pense em Foucault, com seu fascínio inicial equivocado pela revolução iraniana, e acredite que os críticos atuais da invasão a Gaza partilhem um erro simétrico. No entanto, se este for de fato o esquema na mente de Kurz, só podemos dizer que ele é delirante, já que as razões de Foucault em hipótese alguma passavam por alguma espécie de neoestatismo.

De qualquer forma, podemos aproveitar a colocação de Kurz. Pois, se houver esquerdistas dispostos a admitir certa complacência ideológica perigosa com grupos como o Hamas, devemos dizer claramente: não há compromisso possível entre a esquerda e um grupo claramente antissemita e reacionário. Ao contrário, ele representa tudo aquilo contra o qual lutamos, já que foi a esquerda que elevou o antissemitismo a um dos crimes mais inaceitáveis (pensemos no papel maior de Adorno, neste sentido). No entanto, deve-se constatar que todas as tentativas de "aniquilar" militarmente o Hamas só aumentaram sua força, pois tais ações militares criaram o quadro narrativo ideal para que ele aparecesse, aos olhos dos palestinos, como representante legítimo da resistência à ocupação.

Basta lembrar que, em 1994, na época dos acordos de Oslo, a popularidade do grupo não passava de 15%. Hoje, ela é assustadoramente alta. Quer dizer, só há uma maneira de "aniquilar" o Hamas, e esta maneira não passa pela vitória militar, seja lá o que isto possa significar1.

Ninguém está aqui fazendo "vistas grossas" para os perigos do fundamentalismo islâmico, mas procurando a melhor maneira de desativar a bomba que ele representa2.

Não esqueçamos que essa recrudescência do sentimento religioso no Oriente Médio é o resultado direto de um longo bloqueio, patrocinado pelo Ocidente, de modificações políticas nos países árabes. Desde os anos 50, o Ocidente vem sistematicamente minando todos os movimentos políticos árabes de autodeterminação e independência. O caso da conspiração contra o líder nacionalista iraniano Mossadegh é paradigmático.

Por outro lado, os regimes mais corruptos e totalitários da região são apoiados de maneira irrestrita pelo Ocidente (Paquistão, Arábia Saudita, Jordânia, Tunísia, Egito -cujo "presidente" Hosni Mubarak está no poder há meros 37 anos). Ou seja, a experiência cotidiana de um árabe em relação aos valores modernizadores e democráticos ocidentais é que eles servem apenas para justificar o contrário do que pregam. Os árabes fizeram a prova do caráter formalista e "flexível" dos valores ocidentais.

Neste ambiente de cinismo e bloqueio do campo político, o retorno à tradição religiosa com suas promessas de revitalização moral é sempre uma tendência. Foi isto o que aconteceu. Ou seja, não se trata aqui de traço arcaizante típico de civilizações refratárias ao nosso "choque civilizatório". Trata-se de um sintoma recente de bloqueio do potencial transformador do campo político.


Isto é só um terço do belíssimo ensaio de Vladimir Safatle, disponível na íntegra aqui. Se quiser uma versão já pronta para imprimir, com tudo em uma página só, clique aqui. Agradeço ao leitor Rodrigo, de Goiânia, pela dica. Parte da notável produção ensaística do Prof. Vladimir Safatle, da Filosofia da USP, está disponível aqui. Amanhã a gente volta com um post de caixa aberta.



  Escrito por Idelber às 04:38 | link para este post



segunda-feira, 02 de fevereiro 2009

Nos 200 anos da imprensa no Brasil

A Revista UFG, da Universidade Federal de Goiás, publicou um excelente número especial, faz uns três meses, celebrando os 200 anos da imprensa no Brasil. É um dossiê imperdível para quem se interessa pelo tema. Foi-me pedido um texto, que republico agora no blog.

Poucos eventos foram tão emblemáticos da situação da grande imprensa brasileira como as prisões e liberações do banqueiro Daniel Dantas, acusado, depois de extensa investigação da Polícia Federal, de formação de quadrilha, gestão fraudulenta, evasão de divisas, lavagem de dinheiro, sonegação fiscal e espionagem. Levada a cabo na gestão de Fernando Henrique Cardoso, a privatização das telefônicas é um capítulo da história do capitalismo brasileiro no qual Daniel Dantas cumpre papel central. Conhecido por recorrer à espionagem e à fabricação de dossiês sobre adversários para divulgação como “notícia” (plantada através de contatos com jornalistas com os quais a intimidade vai bem além da relação tradicional entre repórter e fonte), Dantas é o elo entre aqueles que talvez sejam os dois maiores escândalos da política brasileira na última década e meia: a “privataria”, na qual enormes frações do patrimônio público foram sub-avaliadas para posterior venda a grupos privados financiados pelo próprio BNDES, e o “mensalão”, no qual vastas quantias de dinheiro trocavam de mãos ilegalmente no interior da base aliada do governo do Presidente Lula. O fortalecimento do poder econômico, político e jurídico de Daniel Dantas depois das privatizações instalou-o como uma espécie de avalista e financiador mor da grande política brasileira.

Não foi a grande imprensa e sim a internet quem deu a primeira notícia da prisão provisória de Dantas, concedida no dia 08/07/2008 pelo juiz Fausto de Sanctis, da 6a Vara Criminal de São Paulo, a pedido do Delegado Protógenes Queiroz, da Polícia Federal. Bob Fernandes, com fontes na PF, deu o furo no site Terra Magazine, às 07:48 da manhã. Antes que os grandes veículos de comunicação corressem atrás, os blogs já debatiam o assunto. Na repercussão que teve na internet esse raro acontecimento – a prisão de um banqueiro que mantém relações umbilicais com o poder político e com a imprensa --, já se antecipava que o Supremo Tribunal Federal (em recesso e com Gilmar Mendes de plantão) soltaria Dantas. Poucas horas depois, antes mesmo que os advogados de Dantas entrassem com o pedido de habeas corpus no Supremo, Gilmar Mendes deu violentas declarações contra a Polícia Federal, criticando uma suposta “espetacularização das prisões” (Jornal da Globo, 08/07/2008). Na cobertura do evento nos telejornais da noite, praticamente nada se disse sobre as atividades ilegais de Dantas, o que é o Grupo Opportunity ou como ele se transformou no que é. Toda a ênfase foi colocada na “espetacularização” das prisões. A grande imprensa começava a preparar a fritura do Doutor Protógenes Queiroz, responsável pela prisão do banqueiro.

Conhecedora dos tentáculos de Dantas no judiciário, a equipe do Dr. Protógenes sabia que ele seria solto pelo STF. Tinha na manga um outro pedido de prisão, desta vez preventiva, baseada na filmagem feita pela Polícia Federal de uma tentativa de suborno. Concedida novamente pelo juiz Fausto de Sanctis, esta prisão ocorreu no dia 10/07 e não poderia, legalmente, ter sido objeto de habeas corpus ao Supremo. Antes, teria que ter sido julgada pelas instâncias inferiores. A prisão preventiva, prevista no artigo 312 do Código de Processo Penal para os casos de obstrução de investigação, claramente se aplicava, já que estava documentado o suborno a um delegado federal. Mesmo assim, o Presidente do STF, Gilmar Mendes, fez hora-extra para novamente soltar Dantas no dia 11 de julho. Rasgava-se a súmula 691 do próprio STF, que determina o respeito às instâncias. Rasgava-se o artigo 312 do Código Penal, que regula a prisão preventiva. Confirmava-se que tinha razão o próprio Dantas, quando declarara que só temia as instâncias inferiores da justiça, já que no Supremo ele “teria facilidades”.

A imprensa cumpriu papel central na justificativa das ilegalidades cometidas pelo Presidente do Supremo. No dia 10 de julho, a Folha de São Paulo veiculou a versão de Dantas: “Defesa de banqueiro volta a ameaçar governo”, “Senadores vão à tribuna criticar operação” e “Conduta de delegado divide cúpula da PF” foram algumas das manchetes. No dia 13 de julho, sob o título “Delegado narra a luta do 'bem' contra o 'mal'”, a Folha de São Paulo publicou uma matéria sobre a “linguagem truncada” e o “português precário” do relatório de Protógenes Queiroz que havia incriminado Dantas. Ficava nítida a tentativa de desqualificar o trabalho da Polícia Federal. Para azar do jornal, a própria matéria continha erros de português. A Revista Veja (23/07/08, pag. 47), caracterizando o relatório de 245 páginas do Dr. Protógenes como um “desastre de dimensões dantescas”, chegou ao ponto de citar um jurista que questionava o flagrante da PF, por ter sido “preparado”, como se a legislação só aceitasse flagrantes acidentais. Não havia uma palavra sobre as acusações nem, muito menos, claro, sobre as relações de Dantas com a própria revista. Na televisão, foi mais explícito ainda o intento de queimar a operação.

Enquanto isso, na internet, Bob Fernandes continuava sendo a fonte com informações reais acerca da operação da PF. Nos blogs e portais, os comentários circulavam com rapidez, dando vazão a uma revolta da sociedade brasileira que era invisível na grande imprensa. Uma petição solicitando o impeachment de Gilmar Mendes recolhia milhares de assinaturas em poucas horas. Comunidades de apoio ao delegado Protógenes Queiroz e ao juiz Fausto de Sanctis se multiplicavam no Orkut. Também pela internet se prepararam manifestações de protesto contra Mendes em todo o Brasil para o sábado, dia 19. Blogs políticos como o Conversa Afiada, de Paulo Henrique Amorim, o de Luis Nassif e o Biscoito Fino e a Massa reuniram um histórico de tentáculos de Dantas nos Poderes Legislativo, Executivo, Judiciário e na própria mídia. Esta última continuava tentando desqualificar a operação da Polícia Federal. Com Dantas já solto, alguns erros de português do relatório do delegado e um absolutamente corriqueiro empréstimo de agentes da ABIN à PF, a grande mídia reuniu elementos suficientes para transformar Dantas em vítima, o delegado Protógenes em investigado e Gilmar Mendes em baluarte da justiça.

Somente nas mídias alternativas foi possível conhecer o método de Dantas de plantar na grande imprensa “notícias” com caráter de denúncia contra seus adversários. Só pelas mídias alternativas foi possível saber que Gilmar Mendes, quando era Advogado Geral da União, pagou R$ 32.400 ao Instituto Brasiliense de Direito Público -- do qual o mesmo Gilmar Mendes era um dos proprietários -- para que seus subordinados lá fizessem cursos. Só nos blogs independentes foi possível saber que Gilmar Mendes liderou o lobby no Supremo para estender o foro privilegiado a ações de improbidade administrativa. Só nas mídias alternativas noticiou-se o “trem da alegria” patrocinado por Gilmar Mendes na Advocacia Geral da União, que permitiu que assistentes jurídicos não concursados e sem qualificação técnica, a maioria já aposentados, fossem enquadrados como Advogados da União e obtivessem expressivo aumento – retribuindo o favor sob a forma de lobby para que o próprio Gilmar Mendes fosse indicado ao Supremo. Mesmo sem essas informações, a esmagadora maioria da população brasileira percebia que o Presidente do Supremo era uma autoridade aberta a fazer concessões à criminalidade de colarinho branco, mesmo tendo a grande mídia sistematicamente se prestado ao papel de ser seu porta-voz. Um marciano que aterrizasse no Brasil em julho de 2008 e só se informasse pela grande imprensa sairia com a impressão de que Daniel Dantas era vítima de um complô totalitário da Polícia Federal e que o STF havia interferido para garantir a lei. Além disso, não teria nem idéia de que na disputa entre Protógenes / De Sanctis e Dantas / Mendes, a população havia se alinhado esmagadoramente com aqueles.

A imprensa brasileira chega a seu 200° aniversário, portanto, com um legado contraditório. A multiplicação do acesso à Internet e o fenômeno dos blogs fizeram com que praticamente sobre qualquer assunto – inclusive a política –, a informação disponível na rede seja de qualidade e variedade superior à dos jornais. No caso das revistas semanais, a crise é ainda mais profunda. Obsoletas como fontes de notícias numa época em que a circulação da informação se mede por minutos, as revistas tentam encontrar um nicho entre a análise semi-ensaística, de alcance restrito, e o caminho adotado pela Veja, de produção de acusações incendiárias com muita adjetivação e escasso fundamento na realidade. De acordo com dados do Datafolha, para os jovens das classes A e B, a internet é o meio de comunicação mais importante, com larga vantagem em relação à TV (43% a 26%). Mesmo na classe C, a internet já se aproxima da TV (21% contra 33%). Entre os veículos impressos, os jornais foram citados como meio preferido de informação por 19% dos jovens, enquanto as revistas tiveram apenas 3% das respostas. Ou seja, de cada 100 jovens brasileiros, só 3 têm nas revistas seu meio de informação privilegiado. Enquanto isso, as mídias interativas, com base na rede mundial de computadores, vão produzindo um fenômeno promissor. No Brasil, ele ainda não chegou ao ponto em que se encontra nos Estados Unidos, onde blogs como o Talking Points Memo já fazem investigações independentes capazes até de derrubar políticos. Mas não há dúvidas de que a democratização trazida pelas mídias interativas, por um lado, e a concentração econômica nos oligopólios da mídia tradicional, por outro, são os vetores fundamentais para se acompanhar nesta efeméride.

PS: Leia, do meu amigo Sergio Leo, Blogs e jornalismo, um rico texto sobre o qual vou tecer algumas considerações em breve. Leia também o contraponto indispensável: Criando um álibi, de Leonardo Bernardes.



  Escrito por Idelber às 17:51 | link para este post | Comentários (60)