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terça-feira, 03 de março 2009
Agora descasque o abacaxi, Dona Kathleen
Com as últimas notícias da hecatombe econômica, está chegando a 50 milhões o número de estadunidenses sem seguro de saúde, algo que nos EUA deixa-o a uma fratura de tíbia de distância do endividamento eterno. Sofreram duros golpes nos últimos anos tanto o Medicare – o atendimento do governo para maiores de 65 anos – como o Social Security, o programa mais amplo de benefícios para idosos, desempregados e descapacitados, do qual o inesquecível George W. Bush uma vez reclamou que querem que o governo controle, como se fosse lá um tipo de programa federal. O presidente anterior chegou a declarar que não podem dizer que há gente sem cuidado médico na América, afinal é só ir na sala de emergência, num país em que uma ou duas visitas à sala de emergência sem seguro podem derrubar um orçamento familiar. Em 2007, 6,8 milhões de americanos já haviam perdido assistência médica desde a posse de Bush. Neste contexto, ter uma cabeça como a de Barack Obama preocupada com o problema já é um alívio.
Estrangulado pelo oligopólio das seguradoras – o lobby mais poderoso de Washington, segundo estudo do Center for Responsive Politics –, o sistema de saúde americano é daqueles angus de caroço sem cuja resolução o próprio futuro do país fica ameaçado. Ele não prioriza a prevenção, privilegia o capitalismo-sem-risco, especulativo das seguradoras, deixa médicos e enfermeiras na posição de pouco mais que servos-executores de suas políticas, sem muito contato individualizado com pacientes. Para completar, implica sempre um custo proibitivo para pobres e classe média. A definição clássica de um sistema quebrado.
A última tentativa dos democratas de reformá-lo aconteceu em 1993, e foi um dos fracassos mais estrepitosos do Partido. A cargo de Hillary Clinton, a estratégia era uma espécie de pacote-surpresa para o Congresso, ao qual nem mesmo os senadores democratas foram convidados a contribuir. Claro que não deu certo. Isolada, Hillary foi presa fácil para o lobby das seguradoras, que trituram-na sem dó nem piedade ao longo de 1993. Dali o projeto foi para a gaveta e nós viemos morro abaixo.
Kathleen Sebelius, governadora do Kansas, é a escolhida de Barack Obama para Health and Human Services, o equivalente do Ministério da Saúde. Tem o apoio entusiasmado deste blog. Acompanho Sebelius há anos. Ela era minha candidata a vice-presidente, até que acabei sendo convencido pela escolha mais pragmática de Joe Biden.
Católica, mas com longa história de defesa dos direitos das mulheres ao aborto, ela provoca o ódio dos grupos anti-abortistas mais delirantes, mas governa com sucesso o estado conservador do Kansas há dois mandatos. Moderada, centrista, ela tem um perfil parecido com o de Obama: conciliadora e diálogica, mas firme na defesa do que é da ordem dos princípios. Eliminou 1,1 bilhão da lambança de dívidas deixada pelos antecessores no Kansas, não aceitou contribuições de seguradoras e tem uma história de compromisso com a educação pública. Fala bonito mas firme, sem afetação. Aderiu à campanha de Obama no primeiro momento.
Não há como desarmar essa bomba-relógio sem algum grau de confronto com o lobby do capitalismo-sem-risco das seguradoras. Mas a briga tem que ser preparada em terreno favorável, e Kathleen sabe disso. A tarefa de Sebelius não é menos complicada que a de George Mitchell no Oriente Médio. Mas não sei de outra pessoa mais qualificada.
PS 1: Está de casa nova – e bonita – o Marcos Donizetti.
PS 2: Bem vindos ao blogroll, Cloaca News.
Escrito por Idelber às 06:01 | link para este post
| Comentários (20)
#1
A discussão deveria ser trazida para o Brasil, onde é bem provável que o lobby da saúde complementar não seja menos poderoso. Durante o governo FHC, o "maior ministro da saúde que este país já teve" deu rédeas soltas às seguradoras. O resultado foi uma longa série de abusos, que o ministro Temporão a meu ver, apesar de todo o seu preparo e boa-vontade, apenas começou a tratar. Hoje é praticamente impossível uma pessoa com mais de 40 anos fazer um seguro-saúde individual no Brasil, se não estiver disposta a desembolsar quantias absolutamente extorsivas. A alternativa são os planos empresariais, que variam enormemente em preço e qualidade de uma empresa para outra. Se a empresa em que você trabalha não tem convênio com uma seguradora, você está simplesmente na roça. Ficará nas mãos do serviço público de sáude brasileiro, que é um escândalo.
Saúde, educação e previdência social são os três grandes desafios da esquerda contemporânea. O desafio, no caso da educação, é abandonar antigos preconceitos que travam a discussão, e nos condenam à ineficácia e a um pacto com a mediocridade. No campo da saúde e da previdência, o desafio é imaginar um sistema minimamente aceitável QUE TENHA VIABILIDADE ECONÔMICA. O governo Obama está dando uma contribuição inestimável para a esquerda no mundo todo. Todos os grandes temas voltaram à mesa de discussão, e há equipes técnicas altamente qualificadas buscando soluções práticas para as grandes questões.
João Vergílio em março 3, 2009 8:06 AM
#2
Idelber,
Ao escolher a Sibelius, o Obama não estaria jogando fora a chance dos democratas vencerem a disputa pela cadeira do Senado que ficará vaga pela aposentadoria do Sam Brownback em 2010?
Afinal, ela seria franca favorita na eleição, e pelo menos agora não parecem existir outros democratas capazes de derrotar os republicanos.
Luiz em março 3, 2009 10:01 AM
#3
João
concordo que saúde, educação e previdência social sejam os problemas a serem enfrentados
só não sei se são problemas a serem enfrentados pela esquerda ou pelo estado
enxergaria a saída mais em algum tipo de organização autônoma, em reunião em grupos de famílias que pagassem a um grupo de médicos, por exemplo, diretamente, sem intermediários (o grande vilão do capitalimo moderno)
são idéias que tenho há algum tempo, compartilhada com alguns poucos amigos, mas que está por desenvolver
mas são idéias que estiveram presentes, por exempo, em alguns movimentos anarquistas, em propostas autogestionárias na Itália dos anos 60
são idéias que levariam a mudança de mentalidade de todos os envolvidos, médicos, educadores e participantes
são idéias que a tecnologia contemporânea torna factível
rabbit em março 3, 2009 10:07 AM
#4
rabbit,
tem razão, é um problema do Estado, e não apenas da esquerda. Mas é em torno da necessidade premente de respostas a essas lacunas (rombos?) deixados por gente como Bush que a esquerda terá que se organizar de agora em diante. Com realismo e competência, pois não é mais credo para ser recitado em igrejinhas. Agora, tem que ser programa de governo. Custa tanto, chega-se lá por tais e tais caminhos, há tais e tais limitações, e assim por diante.
O governo Lula está legando ao Brasil um quadro de técnicos e políticos completamente renovado. Dilma Roussef é a cara desses novos tempos. Lula, sendo o gênio político que é, percebeu isso antes de todo mundo, com uma precisão de milímetros.
É uma pena que um projeto de esquerda tão interessante quanto já foi o PSDB tenha naufragado nos modismos da "nova direita". Serra ainda é um dos únicos economistas do Brasil com conhecimento e disposição para levar adiante uma política econômica menos ortodoxa do que a seguida por Malan e Mantega. Infelizmente, está completamente cooptado pelo que há de mais atrasado na política brasileira. Virou um boneco de Olinda no bloco do DEM. Mas, aqui, já fui prá outro assunto...
Abraço.
João Vergílio em março 3, 2009 10:55 AM
#5
...bom ver gente que mora aí há anos com essa opinião. Porque a opinião que a gente tem olhando aqui desse hemisfério é bem essa mesmo, mas a gente fica pensando que não pode ser tão ruim assim.
Tenho amiga que morou aí alguns anos e que, mesmo tendo seguro, preferia fazer exames de rotina quando vinha ao Brasil, já que o tipo de seguro que tinha (é o de praxe?) envolvia o pagamento de algo na hora, que acabava ficando mais caro do que fazer aqui, com atendimento personalizado, médicos que olham pra vc etc...
Aí lembro sempre isso quando se vem falar mal do SUS, que tá cheio de problemas, mas EXISTE.
Renata L em março 3, 2009 11:03 AM
#6
viciei nesse cloaca. obrigado.
alex castro em março 3, 2009 11:20 AM
#7
Tem que ter um componente de prevenção em qualquer que seja o projeto de saúde. Sem prevenção não existe sistema que dê conta do tanto de doenças a serem tratadas.
Agora, mudando um pouquinho de assunto mas continuando no obama...que história é essa da Hillary falar que o governo obama vai apoiar o governo de israel, qualquer que seja o partido que ganhe? Assim fica difícil...tá certo que tem que acatar o resultado das eleições e do processo democrático do estado de israel (tá eu não acho nem que deveria existir esse estado, mas já que existe...) mas dai a dizer que vamos apoiar de qualquer jeito? E se os caras da direita resolverem que precisam afogar a população de gaza porque senão eles (isrelenses) nunca vão ter sossego? Os eua vão apoiar isso também? E usar arma proibida? Vamos continuar apoiando? QPEE????
aiaiai em março 3, 2009 11:35 AM
#8
João
eu quis dizer que acredito que nem a esquerda NEM o estado conseguirão dar conta dessas questões no Brasil
em alguns países o estado conseguiu, por circunstãncias históricas e sócioeconômicas (população pequena, por exemplo)
procurar repetir esse processo no brasil me parece inviável
valeu
rabbit em março 3, 2009 11:39 AM
#9
João Vergílio, você faria a gentileza de me indicar algum livro, algum artigo, algum texto que me demonstre que o José Serra é o grande economista que você e outros alegam, o único perfeitamente capacitado para levar adiante uma política econômica menos ortodoxa. Quando ele era professor da Unicamp não me parecia tão independente assim. Dizia o que todos diziam na época.
Vera em março 3, 2009 12:11 PM
#10
Vera,
Não falei que é o único, mas um dos únicos; e não manifestei apenas domínio técnico, mas também disposição política. Se tivesse que citar outro, diria Delfim Neto. Outro: Beluzzo.
Abraço,
João
João Vergílio em março 3, 2009 12:26 PM
#11
"A tarefa de Sebelius não é menos complicada que a de George Mitchell no Oriente Médio"
A politica eh a arte do possivel, nao eh possivel um unico homem, no caso Obama, enfrentar de frente o poder vigente ( empresas de armamentos, lobby judeu, fundamentalistas cristaos, etc )mas, ateh o momento, nem uma palavra de Obama sobre os civis paquistaneses, afegaos, ou outros, mortos pelos predadores ou avioes pilotados convencionalmente. Ou seja, assassinam-se 30 civis e propagandea-se que morreram porque estavam no mesmo predio que um suposto "terrorista". Nada diferente dos assassinatos "seletivos" de Israel.
Obama tambem deixou claro que ninguem esta acima da lei mas emendou que ele olha para a frente, nao para tras.
Ao ser perguntado na coletiva, se nao me engano a primeira, sobre se ele, Obama, tinha conhecimento de algum pais do Oriente Medio que possua armas atomicas, novamente desconversou. Segundo um post na internet desconversou porque:
The 1976 Symington Amendment prohibits most U.S. foreign aid to any country found trafficking in nuclear enrichment equipment or technology outside international safeguards. Israel has never signed the Nuclear Non-Proliferation.
Resumindo, Obama diz que a lei eh para todos, mas ele mesmo nao as segue, certamente em funcao dos interesses nacionais americanos que estao atrelados aos interesses israelenses e ao lobby judeu nos Estados Unidos.
Ao inves de complicada, me parece que a tarefa de George Mitchell no Oriente Médio eh na realidade, extremamente simples: atender aos interesses geo-politicos americanos quaisquer que sejam, estando ou nao, acima de qualquer etica, lei ou tratado internacional
Paulo em março 3, 2009 1:00 PM
#12
João, discordo de você nesta questão do Serra. Na única vez em que ele se apresentou como candidato a presidente, em 2002, não me lembro de ele ter defendido nada "menos ortodoxo". Aliás, o menos ortodoxo que você fala é a condução da selic?
gilson em março 3, 2009 1:47 PM
#13
Luiz, verdade verdadeiríssima o que você diz. Não há ninguém como Sebelius, que arrebataria de cara essa vaga no Senado.
O problema é que com a situação desesperadora da saúde, não temos muita escolha: precisamos dela lá. Quem sabe até 2010 não aparece um candidato forte a essa vaga do Senado. Mas mesmo que for para deixar de ganhá-la e avançar algo na questão da saúde, terá valido a pena. Abs.
Idelber em março 3, 2009 1:57 PM
#14
Quando pensamos em algum tipo de rede de proteção social, vamos encontrar a Previdência Social alemã de Bismarck lá pelo ano de 1883 criada por conta da pressão gigantesca dos socialistas e das muitas inquietações sociais. E, lembrem-se, Previdência Social é apenas um seguro social destina a cobrir riscos futuros e incertos de incluídos
Seguridade Social, isto é, um sistema de proteção universal mesmo, só mesmo no Reino Unido dos anos 40 com o famoso Relatório Beveridge. As causas dele? As consequências da guerra sobre a sociedade britânica e o possível avanço do comunismo.
Mesmo que o New Deal tenha marcado o fim definitivo da ideia liberal clássica do cada um por si nos EUA ao ter dado origem ao Social Security, não podemos esquecer que o sistema estadunidense padece de defeitos gigantescos, dentre eles a própria limitação do sistema e a ausência da universalidade em quase todas as ações que o compõe. Enfim, é uma Seguridade Social, pero no mucho, em suma a típica política social-liberal de tratar a questão social com paliativos. O que causou isso? Simples, o capitalismo daquele país nunca sofreu tantos riscos quanto o Europeu para justificar a criação de um sistema funcional de Seguridade Social.
Cá em terras tupiniquins, ainda estamos embebidos de uma mentalidade previdenciária pré-88 e esquecemos - ou desconhecemos - que temos um sistema de Seguridade Social com caráter de universalidade que contempla tanto a Previdência quanto o SUS passando pela Assistência Social. Claro, quase ninguém sabe disso, o que ajuda em muito certos interesses escusos em Brasília e a própria não funcionalidade do sistema. Qual a razão disso? A falta de forças políticas fortes e, sobretudo, o fato de que o capitalismo brasileiro não sofre tantos riscos para justificar a funcionalidade desse sistema.
Portanto, quando o assunto é sistema de Seguridade Social, eu ponho minhas barbas de molho. No fim das contas, sua criação e funcionamento no mundo capitalista só é possível por meio de constante pressão e intensa fiscalização num cenário, ainda por cima, onde o capital corra seus riscos, do contrário acontece o que temos nos EUA de hoje: Uma esperança de vida menor do que a de Cuba, país com um PIB per capta mais de dez vezes menor que o seu.
Hugo Albuquerque em março 3, 2009 3:23 PM
#15
João Vergílio, o que eu acho triste nos tucanos é a sua insistência na rstrição das políticas públicas. Duas medidas do governo Serra Kassab nesse sentido foram o fechamento do salão da Biblioteca Mario de Andrade (que agora só poderá er ocupada por pesquisadores aprovados pelo conselho), as restrições ao uso do bilhete único e a diminuição da frota de ônibus da cidade. Não acho que isso seria uma condução melhor das políticas públicas. Fora que o Serra não sabe nada, mas nada mesmo do Brasil. Acha que fora de São Paulo são todos uns débeis mentais.
Tiago Mesquita em março 3, 2009 3:32 PM
#16
Gilson
Talvez você tenha razão. Os analistas em quem confio eram unânimes em caracterizar a postura de Serra como crítica à política econômica de FHC. Se tinha (ou tem) uma alternativa em mãos, nunca a delineou com clareza. Quis apenas ressaltar (com uma pitada de provocação...) o quanto a esquerda perdeu com a guinada à direita dos tucanos. O PSDB anterior à presidência de FHC teve um papel importante na redefinição dos horizontes que um partido de esquerda podia ter à sua frente, na América Latina, após a implosão do cenário da Guerra Fria. A distância entre Mário Covas e Luíza Erundina era muitíssimo menor, me parece, do que a existente, hoje, entre Lula e FHC. Você imagina Mário Covas torcendo o nariz para programas de redistribuição de renda, chamando-os de "esmola", "bacalhau do Chacrinha", ou coisa assim?
João Vergílio em março 3, 2009 4:28 PM
#17
Tiago,
Essa "empáfia paulista" é mesmo de lascar. Não é exclusividade tucana, infelizmente. Sou professor, e no meio acadêmico isso é palpável. As pessoas têm um pouco de dificuldade para entender que a Amazon também entrega livros no Recife e em Fortaleza...
João Vergílio em março 3, 2009 4:34 PM
#18
Obrigado pela honraria, Idelber!
CloacaNews em março 3, 2009 5:38 PM
#19
Eu admiro e respeito a Sebelius, mas pessoalmente acho que no caso do Dr. George Tiller(Que fez com que ela recebesse ódio da turma pró-life) ela errou. Se não deveria fechar a clínica deveria ter devolvido as doações de campanha dele. De qualquer forma, Obama foi corajoso aqui.
De qualquer forma, uma democrata pró-choice no Kansas com os indices de aprovação da moça é sempre impressionante. Se bem que eu preferia ela no Senado. Phil Bredesen não seria de todo ruim para a Saúde... ;-)
Andre Kenji em março 3, 2009 9:58 PM
#20
Eu acho que nem sempre bons acadêmicos geram bons governantes(Nisso costumo concordar com William Buckley, que dizia que preferia ser governado pelos vinte primeiros nomes da Lista telefônica de Boston que pelos professores de Yale). Serra poderia ser um economista genial(Obviamente, se fosse, teria feito carreira em Cornell ou ido trabalhar em Wall Street), mas isso não iria traduzir em capacidade administrativa.
Na verdade, Serra administra como o filho do dono da empresa que faz curso de administração numa universidade particular de pouco nome e quer ficar inventando onda. A própria prova que ele para professores temporários(Em que ele permitiu furos que permitiram a liminar na justiça contra) demonstra isso...
Andre Kenji em março 3, 2009 10:13 PM