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sexta-feira, 20 de março 2009

Carta aberta aos jornalistas do Brasil, de Leandro Fortes

A carta aberta que reproduzo a seguir foi escrita por Leandro Fortes, da Carta Capital.

No dia 11 de março de 2009, fui convidado pelo jornalista Paulo José Cunha, da TV Câmara, para participar do programa intitulado “Comitê de Imprensa”, um espaço reconhecidamente plural de discussão da imprensa dentro do Congresso Nacional. A meu lado estava, também convidado, o jornalista Jailton de Carvalho, da sucursal de Brasília de O Globo. O tema do programa, naquele dia, era a reportagem da revista Veja, do fim de semana anterior, com as supostas e “aterradoras” revelações contidas no notebook apreendido pela Polícia Federal na casa do delegado Protógenes Queiroz, referentes à Operação Satiagraha. Eu, assim como Jailton, já havia participado outras vezes do “Comitê de Imprensa”, sempre a convite, para tratar de assuntos os mais diversos relativos ao comportamento e à rotina da imprensa em Brasília. Vale dizer que Jailton e eu somos repórteres veteranos na cobertura de assuntos de Polícia Federal, em todo o país. Razão pela qual, inclusive, o jornalista Paulo José Cunha nos convidou a participar do programa.

Nesta carta, contudo, falo somente por mim.

Durante a gravação, aliás, em ambiente muito bem humorado e de absoluta liberdade de expressão, como cabe a um encontro entre velhos amigos jornalista, discutimos abertamente questões relativas à Operação Satiagraha, à CPI das Escutas Telefônicas Ilegais, às ações contra Protógenes Queiroz e, é claro, ao grampo telefônico – de áudio nunca revelado – envolvendo o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, e o senador Demóstenes Torres, do DEM de Goiás. Em particular, discordei da tese de contaminação da Satiagraha por conta da participação de agentes da Abin e citei o fato de estar sendo processado por Gilmar Mendes por ter denunciado, nas páginas da revista CartaCapital, os muitos negócios nebulosos que envolvem o Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), de propriedade do ministro, farto de contratos sem licitação firmados com órgãos públicos e construído com recursos do Banco do Brasil sobre um terreno comprado ao governo do Distrito Federal, à época do governador Joaquim Roriz, com 80% de desconto.

Terminada a gravação, o programa foi colocado no ar, dentro de uma grade de programação pré-agendada, ao mesmo tempo em que foi disponibilizado na internet, na página eletrônica da TV Câmara. Lá, qualquer cidadão pode acessar e ver os debates, como cabe a um serviço público e democrático ligado ao Parlamento brasileiro. O debate daquele dia, realmente, rendeu audiência, tanto que acabou sendo reproduzido em muitos sites da blogosfera.

Qual foi minha surpresa ao ser informado por alguns colegas, na quarta-feira passada, dia 18 de março, exatamente quando completei 43 anos (23 dos quais dedicados ao jornalismo), que o link para o programa havia sido retirado da internet, sem que me fosse dada nenhuma explicação. Aliás, nem a mim, nem aos contribuintes e cidadãos brasileiros. Apurar o evento, contudo, não foi muito difícil: irritado com o teor do programa, o ministro Gilmar Mendes telefonou ao presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer, do PMDB de São Paulo, e pediu a retirada do conteúdo da página da internet e a suspensão da veiculação na grade da TV Câmara. O pedido de Mendes foi prontamente atendido.

Sem levar em conta o ridículo da situação (o programa já havia sido veiculado seis vezes pela TV Câmara, além de visto e baixado por milhares de internautas), esse episódio revela um estado de coisas que transcende, a meu ver, a discussão pura e simples dos limites de atuação do ministro Gilmar Mendes. Diante desta submissão inexplicável do presidente da Câmara dos Deputados e, por extensão, do Poder Legislativo, às vontades do presidente do STF, cabe a todos nós, jornalistas, refletir sobre os nossos próprios limites. Na semana passada, diante de um questionamento feito por um jornalista do Acre sobre a posição contrária do ministro em relação ao MST, Mendes voltou-se furioso para o repórter e disparou: “Tome cuidado ao fazer esse tipo de pergunta”. Como assim? Que perguntas podem ser feitas ao ministro Gilmar Mendes? Até onde, nós, jornalistas, vamos deixar essa situação chegar sem nos pronunciarmos, em termos coletivos, sobre esse crescente cerco às liberdades individuais e de imprensa patrocinados pelo chefe do Poder Judiciário? Onde estão a Fenaj, e ABI e os sindicatos?

Apelo, portanto, que as entidades de classe dos jornalistas, em todo o país, tomem uma posição clara sobre essa situação e, como primeiro movimento, cobrem da Câmara dos Deputados e da TV Câmara uma satisfação sobre esse inusitado ato de censura que fere os direitos de expressão de jornalistas e, tão grave quanto, de acesso a informação pública, por parte dos cidadãos. As eventuais disputas editoriais, acirradas aqui e ali, entre os veículos de comunicação brasileiros não pode servir de obstáculo para a exposição pública de nossa indignação conjunta contra essa atitude execrável levada a cabo dentro do Congresso Nacional, com a aquiescência do presidente da Câmara dos Deputados e da diretoria da TV Câmara que, acredito, seja formada por jornalistas.

Sem mais, faço valer aqui minha posição de total defesa do direito de informar e ser informado sem a ingerência de forças do obscurantismo político brasileiro, apoiadas por quem deveria, por dever de ofício, nos defender.


Leandro Fortes

Jornalista



  Escrito por Idelber às 12:33 | link para este post | Comentários (31)


Comentários

#1

MOBILIZAÇÃO

Deveríamos tomar como inspiração a capacidade de mobilização dos franceses, demonstrada mais uma vez ontem quando cerca de 3 milhões de pessoas sairam às ruas em muitas cidades na França em protesto contra as medidas do governo para enfrentar a crise.

Se pudéssemos nos mobilizar de modo semelhante, saindo de nosso comodismo, poderíamos pensar em uma reação nacional seja em repúdio ao comportamento de Gilmar Mendes, em repúdio à mídia manipuladora ou em em apoio ao Dr. Protógenes. O povo brasileiro precisa ainda descobrir o poder das mobilizações populares. Enquanto continuarmos apenas a nos indignar, dando-nos por satisfeitos apenas em “desabafar” no blogs (com certa limitação por falarmos principalmente àqueles que como nós estão indignados), sem nenhuma outra demonstração pública de rejeição a determinadas situações, nada vai mudar nesse país.

Abaixo, para inspiração, o link do Jornal da TV francesa TV5 Monde (de hoje de manhã). A manifestação no 5º minuto do jornal,.

http://www.tv5.org/TV5Site/info/jt_tv5.php

Julia em março 20, 2009 1:29 PM


#2

Idelber, tenho estado bastante sumido em manifestações, mas nunca deixo de fazer minha visita diária ao seu blog. Ocorre que realmente o trabalho está me consumindo.

Tinha lido isso no Nassif, é realmente um absurdo, somente expõe com maior clareza o papel lamentável a que boa parte da imprensa está se prestando no que diz respeito à atuação do Ministro Gilmar Mendes. Não há uma entrevista em que as perguntas não sejam subservientes ou em qeu o repórter se anime a verdadeiramente apertar o Ministro. E quando ele se sente incomodado, reage como fez com Catanhede no Roda Viva ou com esse repórter do Acre.

A conduta criticável do deputado Temer, mais do que revelar seu modo de encarar a liberdade de imprensa, logo ele um constitucionalista com carreira acadêmica, mostra também a influência e o peso que tem a cadeira de Presidente do STF.

A título de exemplo, há no STF uma causa tributária que estava praticamente perdida pelo governo, cujo impacto seria de mais de 60 BILHÕES de reais. A votação teve seus efeitos desconsituídos pelo STF porque a AGU impetrou uma Ação Declaratória de Constitucionalidade da lei. Não precisavam fazer isso, no recurso em exame já haviam dito que a lei é inconstitucional, mas penso que vão voltar atrás.

Agora, podendo levar um prejuízo de 60 bilhões, você acha que o Lula vai comprar briga com o Gilmar por causa do Paulo Lacerda ou da Satiagraha?

Não estou dizendo que a postura do Lula é por causa disso, apenas estou dando a dimensão do poder de retaliação do STF, cujos Ministros mais independentes tem claramente tido dificuldade de se contrapor a algumas posturas de Gilmar. No linchamento do Juiz De Sanctis, Joaquim Barbosa faltou, Carmen Lúcia e Ayres Brito preferiram ficar calados e apenas acompanhar os votos, não deram chilique que o Peluso deu, mas se omitiram ante alguns abusos como a proposição de sanção disciplinar aos juízes que assinaram manifesto de apoio ao Juiz De Sanctis. Quem fez a defesa foi o Marco Aurélio, mas esse tem uma necessidade quase patológica de ser o diferente, pisa muito na bola em outros temas relevantes.

Abraço.

Paulo SPS em março 20, 2009 1:30 PM


#3

Idelber,

link pro programa censurado: http://www.youtube.com/watch?v=TCFP6qnjl94

fserb em março 20, 2009 1:42 PM


#4

Dá-me um alívio perceber que está crescendo a movimentação contrária a essas arbitrariedades. É notório que a internet deu muitas ferramentas na lutar em favor da democracia, por mais idealista que pareça o que digo. Encontrei informações sobre o caso em inúmeros blogs e sites: viva o corporativismo da classe jornalista! Afinal, hoje, só ela pra bater de frente com o perfeito absurdo e sacudir a letargia da nossa sociedade. Ainda é uma queda de braço desleal, mas não creio que o seja por muito tempo.

Matheus em março 20, 2009 2:00 PM


#5

Idelber e leitores, a seguir os três blocos do programa (8 minutos cada). No segundo bloco está o maior número de citações específicas ao suprimista (de nossos direitos) Mendess.

1 - http://www.youtube.com/watch?v=TCFP6qnjl94&feature=related

2 - http://www.youtube.com/watch?v=DeqYLvIMMd0&feature=related

3 - http://www.youtube.com/watch?v=t9SlDPx3uMI&feature=related

Jean Scharlau em março 20, 2009 2:38 PM


#6

Acho isso revelador de um tanto de coisa. Em primeiro lugar, cai por terra o argumento do GM em proteger o DD como uma defesa da democracia e do Estado de Direito. Desde a redemocratização nunca ninguém mais afrontou a democracia brasileira do que o GM. Como pode um cara que não foi eleito para nada ter tanto poder? Isso é uma afronta a democracia, ao desejo da maior parte da população. Em segundo lugar, quando os jornalistas da grande imprensa brasileira dizem que lutam contra a censura e a favor da democracia, eles lutam na verdade sempre pelos poderosos. Eles cagam para a democracia e para a liberdade de imprensa.Os jornalistas da Folha-Abril-Globo não tem nem mesmo corporativismo com a classe de jornalistas. Nunca vi uma manifestação deles contra os assassinatos de jornalistas na Colômbia. Afinal a Colômbia é um Estado-amigo. Já vermelha venezuela, se fizer qq coisa que parece contra jornalistas. Duvido que vai haver alguma coisa de monta nos grandes jornais contra a censura pedida pelo GM. Afinal, o GM é a principal força ao lado da imprensa e da oposição, que alias são a mesma coisa.
Ficarei muito satisfeito se estiver errado.

Bruno em março 20, 2009 2:58 PM


#7

Olá, Idelber, faço minhas as palavras de Júlia, a primeira a comentar este post. Navego na Internet há relativamente pouco tempo (um ano e meio, dois no máximo)... e o que tenho presenciado? Acabamos visitando os mesmos blogs, geralmente os que nos agradam, como este, em particular.
Tenho por hábito ler os comentários. Já sabemos, mais ou menos, como os comentaristas vão se posicionar sobre determinados temas.

Ficamos indignados, escrevemos sobre a nossa indignação e o que fazemos para que nossa indignação tenha o mínimo de efetividade social? (não estou julgando: cada um sabe de sua forma de contribuir para a mudança seu meio social, só estou me referindo ao papel da Internet). Tenho lido sobre o significado transformador da Internet. Não discordo, é uma importante ferramenta. Mas eu pergunto: nas situações de conflito social, nas quais situações abertamente divergentes se colocam, blogueiros e comentaristas têm alterado de forma substantiva os processos sociais? Posso estar absolutamente enganada, se for o caso, desculpem-me.

Nessa situação, em que figuras públicas estão sofrendo abertamente um processo de desqualificação e de pressão judicial (os processos abertos contra o juiz De Sanctis; o indiciamento do delegado Protógenes) como é do conhecimento de todos, o que temos feito, através da Internet? Penso eu que além da indignação precisamos de algo mais concreto além de assinarmos manifestos.

O repórter acreano que foi repreendido publicamente pelo Presidente do STF faz um “mea culpa”. (está lá no blog do PHA, não se inserir o link; preciso aprender). Não há porque julgá-lo. Só ele sabe as pressões que sofreu, lá nos confins do Brasil. É fácil como acabei de ler no blog do PHA (tenho lá minhas restrições, mas nos últimos dias tenho visitado dito blog) os comentaristas criticarem o jornalista por ter, vamos dizer, se retratado. Mas, sentados à frente de um computador fica fácil criticar as posturas dos que estão à frente na linha de combate.

Portanto, além da desmontagem da investigação sobre Daniel Dantas, sim desmontagem porque o conteúdo da investigação deixou de ser discutido. Discuti-se a atuação dos que realizaram a investigação.

Temos aqui o problema da liberdade de imprensa, que está sendo posta em questão, tanto pelo presidente do STF, quanto pelo presidente da Câmara Federal, por aqueles que presidem o judiciário e uma das casas mais importantes do legislativo. Não é pouco. É grave. Muito grave.

Além de tudo, alguns entendem que estamos tendo um governo de esquerda. Como esclarece o comentarista Paulo SPS, com tantas questões em pauta, o “presidente Lula vai comprar briga com o Gilmar por causa do Paulo Lacerda ou da Satiagraha?”.

Fico impressionada como a sociedade civil está hoje desmobilizada. Sei, o processo dessa desmobilização é extremamente complexo, envolve os mais diferentes fatores, mas é incrível como é difícil hoje (excluindo-se alguns movimentos bem localizados e específicos) juntar algumas pessoas para em atos públicos fazer valer suas posições e seus direitos.

Idelber, não estou desconsiderando a atuação de blogueiros como você e alguns outros, mas, você sabe, sem dúvida melhor do que eu, que temos que ir um pouco mais longe para dizermos que a Internet mudou o mundo. Em algumas dimensões da vida, mudou mesmo. Mas. no plano do coletivo, do território da política, não me parece que avançamos, pelo menos aqui no Brasil. Quanto a outros lugares, talvez a Internet possibilite uma maior capacidade de rápida mobilização, mas para isso acontecer o conhecimento de nosso lugar no mundo e nossa capacidade de transformá-lo tem que estar presente nas consciências.

Abraço fraterno
Marilda

Masrilda S. Costa em março 20, 2009 3:22 PM


#8

Olá Idelber, o que você acha disso? Penso que é alguma pegadinha de mal gosto, devido à extensa bancada ruralista do congresso federal.

"Projeto submete demarcações de terras indígenas ao Congresso"

Link: http://noticias.uol.com.br/politica/2009/03/20/ult5773u859.jhtm

Abraços, Gabriel

Gabriel Prates em março 20, 2009 3:28 PM


#9

Idelber, Leando Fortes (novamente) escreve, na Carta Capital, sobre um processo no qual o atual Diretor da PF (delegado Luiz Fernando Correa)foi acusado de torturar uma empregada doméstica. O jornalista descreve toda a tramitação do processo até seu arquivamento.A leitura desse texto do Leando é muito instrutiva.
Abraço
Marilda

Marilda S. Costa em março 20, 2009 3:33 PM


#10

Marilda S Costa

O que mais da arrepio é o total silêncio da grande imprensa sobre o assunto. Nenhum dos grandes portais, Estadãonline, UOL, IG , Terra, Globo.com deram uma notinha sequer.
Fico imaginando o New York Times ignorando uma noticia de tortura envolvendo o chefe do FBI.
É de lascar.

Marcos em março 20, 2009 5:36 PM


#11

Oi, Idelber e leitores

Mais uma a se pôr do lado da Júlia e da Marilda. É preciso, além de denunciar esses absurdos em blogues, organizar manifestações em corpo presente. Idelber, por que você nao se junta ao Eduardo -- que anda desanimando, e nao deve -- para tentar organizar uma?

Anarquista Lúcida em março 20, 2009 5:44 PM


#12

Não há como observar todo esse quadro (a cujo contexto o Paulo SPS dá uma bela contribuição quando menciona a ação que corre no STF) e não ficar estarrecido.

Lembremos: salvo engano deste blogueiro -- que já não lê tanto jornal assim --, os grandes grupos de mídia estão todos silenciosos (eles, que não demoram a choramingar sobre "liberdade de expressão" quando são criticados) acreca do fato de que o presidente do Supremo Tribunal Federal está processando um jornalista.

Sim, concordo que há se ir às ruas. Há um limite no que este blog pode fazer, no entanto. Eu lhes escrevo agora de New Orleans, Louisiana. Resulta-me impossível iniciar qualquer coisa.

Mas contem comigo para apoiar e divulgar qualquer iniciativa de protesto.

Idelber em março 20, 2009 5:46 PM


#13

Caro Idelber

Não há nada de surpreendente no importante relato de Leandro Fortes. Estas coisas LAMENTAVELMENTE acontecem em nosso país com mais ou menos intensidade, dependendo da época. Para quem já viveu outros tempos isto é café pequeno!

Da maneira que está apresentado o problema estamos diante de um flagrante de CENSURA exercido pelo presidente da Câmara dos Deputados! E isto deveria ser encarado como grave já que ele preside uma assembléia com nossos representantes. Mas tem gente que diz (incluindo uns trezentos (300) deputados, que o Temer é um grande constitucionalista!

Já está em boa hora de regulamentar (para valer) o funcionamento destes canais de TV PÚBLICOS e ESTATAIS (por favor estou indicando a TV Câmara, TV Senado etc., sem rigor jurídico na expressão Público e/ou Estatal) DE FORMA TRANSPARENTE. Há por exemplo um programa na TV CÂMARA que vive de falar mal da televisão brasileira!!! As TVs Câmara e Alerj (no Estado do Rio) são uma vergonha. Na TV Brasil, antiga TVE, entrevistados perguntam (nos programas de entrevista) se pode ser falado o nome de empresas que patrocinam eventos ou produtos ali apresentados (Aquela TV não é Pública?)

Finalizando caro Idelber, e ainda falando na Mídia, quero dizer que há uma forte corrente religiosa que passou ainda agora, por estes dias a "bater" na Folha de S.Paulo (não sei ainda o motivo). Parece que você terá (se quizer ter) uma parceria forte contra o matutino da Barão de Limeira. Saudações.

P.S. Apesar de tudo o leitor (ou ouvinte, ou telespectador) pode continuar a ser bem informado se for atento e/ou estiver interessado.

Paulo Z em março 20, 2009 5:58 PM


#14

Do mesmo Leandro, a matéria:

O POLICIAL E A DOMÉSTICA

Revista Carta Capital
20/03/2009 12:02:28

Leandro Fortes, de Alvorada (RS)

O máquina de moer reputações acionada dentro da Polícia Federal para punir o delegado Protógenes Queiroz tem funções seletivas. Desde a prisão do banqueiro Daniel Dantas, em julho de 2008, a cúpula da PF dedica-se integralmente a tentar indiciar criminalmente Queiroz, acusado de vazamentos e práticas ilegais durante a Operação Satiagraha. Mas nem todo mundo recebe o mesmo tratamento. A Corregedoria-Geral da PF, órgão responsável por investigar os crimes cometidos por policiais federais, arquivou, sem publicidade nem vazamentos, em 29 de janeiro, um processo de tortura supostamente praticada por ninguém menos que o delegado Luiz Fernando Corrêa, diretor-geral da instituição.

Corrêa foi acusado de deter ilegalmente e torturar, à base de chutes, pauladas, socos e eletrochoques, a empregada doméstica Ivone da Cruz, em 21 de março de 2001, nas dependências da Superintendência da Polícia Federal no Rio Grande do Sul, em Porto Alegre. Ivone, então com 39 anos, trabalhava na casa de uma mulher identificada apenas como Ocacilda, também conhecida pelo apelido de “Vó Chininha”, avó da mulher do delegado, Rejane Bergonsi. Presente durante um assalto à casa da patroa, Ivone acabou apontada como suspeita de cumplicidade com os criminosos, embora nenhuma prova ou evidência tenha sido levantada contra ela até hoje. Corrêa era, então, chefe da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) da PF em terras gaúchas.

Embora o combate ao tipo de crime cometido na casa de Vó Chininha, então com 90 anos, seja de competência exclusiva das polícias estaduais, Corrêa achou por bem tomar as dores da família, logo depois de avisado do assalto pela mulher, por telefone, na manhã do dia 20 de março de 2001. Sem autorização ou mandado judicial, o delegado atropelou a autoridade da Polícia Civil do Rio Grande do Sul e colocou uma equipe da DRE no encalço de Ivone da Cruz, na manhã do dia seguinte. A empregada foi encontrada em casa, um barraco no fundo da residência de uma amiga, num bairro de Alvorada, município pobre e violento da Grande Porto Alegre. Estava em companhia dos quatro filhos, todos menores de idade.

Os dois policiais, lembra Ivone, chegaram em uma caminhonete de luxo branca, a qual ela iria reconhecer, depois, como uma Blazer. Ambos se identificaram como policiais civis, mas não apresentaram carteiras nem distintivos. Para Ivone, afirmaram estar ali para levá-la à 8ª Delegacia de Polícia de Porto Alegre, onde, na madrugada do dia 20 de março, ela tinha comparecido para falar, como testemunha, do assalto à casa de Vó Chininha. Naquela oportunidade, ela contou ao delegado civil Fernando Rosa Pontes que dormia no chão de uma sala, ao lado do quarto da idosa, quando foi acordada por dois homens armados. Eles roubaram dinheiro e objetos da casa. Depois, foram à cozinha comer e beber, antes de fugirem.

O delegado Pontes registrou a ocorrência e avisou Ivone da possibilidade de ela ser chamada à delegacia novamente para, no caso de haver prisões de suspeitos, fazer reconhecimentos. Quando foi abordada pelos dois policiais da Blazer branca, Ivone pensou nisso. Foi essa, aliás, a justificativa apresentada pela dupla. Apreensiva, ela deixou as crianças com a amiga e seguiu no carro. Quando o automóvel parou, ela percebeu, de cara, duas coisas. O lugar não era a 8ª DP. Nem havia suspeito nenhum para ser reconhecido.

A doméstica foi levada a uma sala, nos fundos de um pátio, na Superintendência da PF, em Porto Alegre, onde um relógio na parede marcava meio-dia. Um círculo formado por quatro homens a aguardava. “A primeira coisa que fizeram foi me puxar pelos cabelos e me jogar de cara no chão”, conta. “Eu quis olhar para quem me bateu e levei um tapa forte na cabeça.” Em seguida, diz a empregada, foi algemada e colocada de joelhos. Seguiram-se, então, por aproximadamente seis horas, sessões de pancadas na cabeça, chutes, socos e violentos choques elétricos. “Eles tinham uma maquininha que encostavam nas minhas costas”, lembra Ivone. “A dor era tanta que desmaiei duas vezes”, afirma. Assim mesmo, não confessou crime algum.

O relógio da parede marcava 18 horas quando, moída de pancada e apavorada, segundo conta, foi colocada em uma cadeira e a fizeram assinar um termo de declarações que começa pelas linhas seguintes: “Aos 21 (vinte e um) dias do mês de março do ano de 2001, na Sede da Superintendência Regional do Departamento de Polícia Federal, no Estado do Rio Grande do Sul, onde presente se encontrava o Delegado de Polícia Federal Luiz Fernando Corrêa”. O documento tem uma página e meia. Trata-se de um arrazoado de informações isentas de novidades prestadas por Ivone da Cruz, na condição de testemunha, em termos semelhantes aos do depoimento prestado por ela na Polícia Civil.

Estranhamente, o termo, além de assinado por Corrêa e pela escrivã Aline Guerra Menchaca, tem também a assinatura de duas testemunhas. Três vizinhas de Vó Chininha, ouvidas como testemunhas pelo delegado Corrêa na Superintendência da PF, uma no mesmo dia, e outra, dois dias depois, não contaram com essa cautela. Uma delas, identificada apenas pelo nome de José Pessoa (RG 1016484378/SSP-RS), segundo Ivone, tinha a aparência de um mendigo. “Pegaram ele na rua, para falar que eu não tinha apanhado”, afirma. A outra testemunha foi o agente federal Gilberto Antônio Fritsch Feijó. Em seguida, Ivone foi deixada em um ponto de ônibus, com o dinheiro da passagem e um aviso: se denunciasse a tortura, os filhos pequenos sofreriam as consequências.

Ouvido agora por CartaCapital, Corrêa declarou, em entrevista gravada no gabinete dele, ter interrogado todas as testemunhas no mesmo dia. Trata-se de uma contradição com o conteúdo do processo, e não é a única. A Polícia Federal, embora tenha sido reiteradamente solicitada, negou-se a disponibilizar a sindicância sobre a acusação de tortura contra Corrêa. De acordo com a assessoria de imprensa da corporação, a Corregedoria-Geral não podia “abrir uma exceção”, embora o processo estivesse arquivado. CartaCapital, contudo, teve acesso a todos os documentos graças ao advogado de Ivone da Cruz, Volnei Oliveira, que a atende gratuitamente em Alvorada.

Corrêa ouviu, além de Ivone, apenas uma testemunha no dia 21 de março, Elisabete da Rosa Abruzzi. Ela disse ter visto a empregada ir ao encontro de um carro parado, em atitude suspeita, em frente à casa de Vó Chininha. Outras duas vizinhas, as irmãs Nara e Julia Formanski Casagrande, foram ouvidas no dia 23 de março. “Foram todas no mesmo dia, no mesmo ambiente, separadas apenas por uma divisória fininha”, insiste o diretor-geral, apesar dos registros oficiais das datas no processo. Todas, segundo ele, também contaram com as chamadas “testemunhas de leitura”, como no caso de Ivone da Cruz. Não é, porém, o que consta nos documentos enviados à Justiça Federal. (continua)

fonte: http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&a2=8&i=3642

ALEX em março 20, 2009 7:20 PM


#15

Lá pelos anos 1970- 1980, quando não tinha Internet, a gente saía de casa para discutir política, no sindicato, na universidade, na associação de moradores, no bar, no clube, em debates públicos em teatros, na casa dos outros ou na nossa mesmo. Pelo menos aqui no Rio de Janeiro era assim. Bom, dizem que os cariocas se encontram é na rua, na praia. Tá certo, mas a gente saía de casa e ficava mais fácil juntar para fazer passeata ou manifestação na rua. Tinha-se menos informação, mas um vontade danada de buscar, a pé, as informações possíveis. Hoje, a gente acha que sabe tudo porque lê uns 15 blogues por dia, algumas páginas de jornal online, e se indigna, se irrita, protesta, treme de raiva ... sentada em frente ao computador. A Internet permite um acesso maior a informações, e muito rapidamente se desmontam factóides; em compensação parece que a indignação se dissolve na frente do próprio computador. Fica a cabeça fervendo, dá um cansaço doido e um enorme desânimo para protestar ao vivo e a cores, nos espaços públicos, junto de outras pessoas. É um dos efeitos contraditórios da Internet.

Vera Pereira em março 20, 2009 11:08 PM


#16

Idelber: minha posição com relação à internet, principalmente, à assim chamada blogosfera, tem um caráter geral, não estava cobrando nada de ninguém. Não me julgo com direito de efetuar nenhum tipo de cobrança, e muito menos de você que nem no Brasil está morando (embora seus fortes laços com nosso país estejam sempre muito claros, principalmente com sua queridíssima Minas Gerais) . Estando tão longe (e ao mesmo tempo tão perto), evidentemente que qualquer possibilidade de atuar na mobilização dos internautas para participação em protestos públicos fica muito mais difícil.

Marcos: quando escrevo sobre a desmobilização da sociedade civil, entra aí o silêncio da grande imprensa escrita, televisiva, etc..., como também, pelo que sei, o silêncio ensurdecedor do sindicato dos jornalistas e da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Como já frisamos: é grave, muito grave a censura que os jornalistas estão sofrendo de maneira geral e particularmente pelo Presidente do STF e da Câmara Federal. E fica por isso mesmo? Os escritos pela blogosfera ficam como “aquele grito parado no ar”, que pessoas como eu, mais velhas, sabemos bem o que significa.

Anarquista Lúcida: parece-me que tem mais gente como nós que espera uma atitude mais pró-ativa dos blogueiros de esquerda. Tenho visto em alguns blogs comentaristas reivindicando ações mais efetivas, no sentido da mobilização para manifestações públicas. Mas, para dizer a verdade, a mim parece que a Internet ainda não tem uma abrangência que alcance as diversas camadas sociais, de forma que possa ser efetiva em sua capacidade de mobilização. Aqui no Brasil, pelo menos, não há indícios dessa possibilidade de mobilização. É imenso o número dos que navegam pela Internet, mas estão interessados em participação política efetiva? Sem ilusões quanto a validade da participação? O que acontece? Todas as lideranças foram cooptadas?

Paulo Z: Quem viveu outros tempos (e é o meu caso, muitos anos de vida) pode até considerar que nada há de surpreendente no relato de Leandro Fortes. Situações muito mais dramáticas vivemos no regime militar, na ditadura, que de branda não teve nada. Mas lutamos tanto para chegarmos à democracia política, democracia formal, mas democracia (democracia política, porque a social ainda está muito distante) para continuarmos a ter pessoas sendo torturadas nas delegacias? O caso que veio à publico agora, porque envolve o atual diretor da PF, é emblemático do que continua a ocorrer pelo Brasil afora. Mas entendo que não podemos achar que é “café pequeno” porque já vivemos situações sociais mais contundente, em termos de repressão e coação sociais. Para quem é torturado tenho certeza que não é “café pequeno”.

Desculpem o longo post, mas acho que estou deveras irritada com o que se tem presenciado nos últimos dias. Mas de qualquer forma abraço a todos. E que tenhamos todos um fim de semana sem muitas nuvens, principalmente nuvens escuras.
Marilda

PS. No meu comentário anterior, o nome do jornalista Leandro Fortes foi digitado errado, por duas vezes. Desculpas.

Marilda S. Costa em março 21, 2009 3:32 AM


#17

Idelber, li a reportagem agora da Carta Capital e fiquei chocado. A reportagem é uma aula de jornalismo, foram ouvidas as partes, foram citados documentos, fatos precisos. Se fosse uma fraude seria desmascarada com enorme facilidade. Passa realmente a impressão de que a apuração da conduta do delegado não foi feita de forma correta. Muito diferente das matérias da Veja, onde se soltam algumas acusações bombásticas, algumas ameaças veladas e depois que a espuma baixa não sobra nada, não se apresentam documentos ou áudios (como no caso do grampo).

Agora, não poderia deixar de fazer uma observação de algo que me deixou profundamente indignado: o delegado Corrêa não poderia jamais, em tempo algum, sob nenhuma justificativa, ter se envolvido na apuração de um caso que atingiu a avó de sua esposa. Isso seria suficiente, por si só, para ele ser punido disciplinarmente, ao menos com a pena de advertência, é um absurdo isso.

Juiz pode julgar caso da avó da esposa? Procurador da República pode processar quem supostamente assaltou a avó de sua esposa?

E a coisa fica ainda pior porque ele se envolveu num caso que não era de sua competência legal, cabia à Polícia Civil investigar o fato porque não envolve ofensa a interesse da União ou outro ente federal. Não existe isso de ouvir como um favor para o delegado de polícia civil, se não dava para ele fazer que outro delegado civil o fizesse. Jamais um delegado federal e, pior, com interesse no caso.

Aliás, mesmo que por um absurdo isso ocorresse, o mínimo a se esperar, mas o mínimo do mínimo mesmo, é que o pedido fosse feito formalmente por meio de ofício. Não existe isso de fazer informalmente porque alguém pediu, qualquer coisa em inquérito é feito formalmente, ainda mais quando não se é competente para o caso. É evidente que o Delegado Corrêa saberia da necessidade de se ter ofício, a se admitir o absurdo de alguém da PF ouvir suspeito em caso que não é de sua competência. E ele sabe disso porque o ofício serve para resguardá-lo de eventual acusação de que fez algo que não era competente sem prévio pedido nesse sentido por parte de quem era competente.

Depois do bordão "cadê o áudio", agora vamos ter que ficar escrevendo "cadê o ofício"?

Essa conduta totalmente inusitada do delegado somente reforça os indícios de que houve tortura, é só juntar os dados que se entende o contexto em que ele resolveu ouvir a mulher e o que pode ter acontecido.

Por fim, interessante notar que a grande imprensa, mais uma vez, pelo jeito não vai dar repercussão a uma reportagem de uma pessoa que tem claramente agido no sentido de retaliar o delegado Protógenes, haja vista sua conivência com o delegado Corregedor que fica o tempo todo vazamento o seu inquérito sobre... vazamentos!!

Imagine se uma acusação dessa fosse contra o Paulo Lacerda, não seria capa da Veja?

Abraço.

P.S. cadê o ofício, cadê o ofício?

Paulo SPS em março 21, 2009 10:28 AM


#18

Idelber,

Enquanto a CÂMARA e o Gilmar Dantas censuram o jornalista Leandro Fortes, o SENADO faz questão de "esconder" o contrato com o Ricardo Noblat, classificando-o com outro nome.

DEU NA FOLHA

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2103200903.htm

Rádio
O jornalista Ricardo Noblat, colunista do jornal "O Globo" e autor de um blog de política, tem um contrato anual de R$ 40,3 mil com o Senado para a produção e apresentação de um programa semanal de jazz para a Rádio Senado. Seu nome aparece no site do Senado como "Ricardo José Delgado".
O jornalista afirma não ver conflito de interesse, dizendo que o programa de rádio existe desde 1999 e que nos últimos nove anos foi bancado por ele, ao custo de R$ 1.200 mensais, sem receber do Senado. "Quem lê meu blog e minha coluna sabe minha posição dura em relação ao Senado", afirmou ele, que diz ter 8.000 CDs de jazz

Aline em março 21, 2009 10:44 AM


#19

Tem o vídeo original na mulinha.

José Antonio Meira da Rocha em março 21, 2009 12:22 PM


#20

A canalha está toda assanhada comemorando notícias ruins para o Brasil, mas isso para eles não importa. Estão comemorando previsões ruins de crescimento do país em 2009, feitas por agências e bancos ianques neo-liberais; comemorando a impunidade explícita dos crimes de colarinho branco dessa escória de DDs, Najas, Pittas e outros FDPs, apoiados pelo PIG e com a proteção de GM, o supremo cancro ; comemorando a nova desmoralização do senado em benefício de Serra por motivos que todos já estavam cansados de saber ou que os focas do PIG não queriam antes "descobrir", mas agora passou a interessar; comemorar o leve arranhão na popularidade do Lula; comemorar que nesse país, com o beneplácito do PIG e do poder judiciário (o mais corrupto do universo)se eu tenho um dossiê provando que você é ladrão, eu vou preso, você fica solto numa boa.
Enfim, eles tem motivos para comemorar, resta saber por quanto tempo.
Sempre que lembro dessa escória me vem a mente a música de Walter Franco, Canalha.
link: http://www.lastfm.pt/music/Walter+Franco/+videos/+1-FoWePTE9MHI

Chico Cerrito em março 21, 2009 1:09 PM


#21

Vocês já deram uma olhada naquilo que o José Dirceu diz a respeito do caso? Vale a pena dar uma conferida. O post levou tanta porrada dos leitores, que ele se apressou em jogar sete palmos de texto por cima, para enterrá-lo. Mas está lá, no blog, para quem quiser lê-lo. Para não abusar do espaço aqui do blog, deixo o link:

http://www.zedirceu.com.br/index.php?option=com_content&task=blogsection&id=11&Itemid=37

Chegando lá, dê uma busca no título do post: "O caso Protógenes: com a palavra, o governo"

Apóio o governo Lula, e torço para que essa tentativa de aniquilar a operação Satiagraha dê errado. Não sei até que ponto a cúpula do governo está envolvida nessa vergonha. Mas José Dirceu certamente está. Até o pescoço.


João Vergílio em março 21, 2009 1:38 PM


#22

Inacreditável. Não tenho palavras. Melhor calar.

Fábio Carvalho em março 21, 2009 2:02 PM


#23

Idelber,

Ando terrivelmente ocupado e só li esse post agora. Isso só confirma o que eu venho colocado há algum tempo: No Brasil há um dos fatores que mais tem atravancado a efetividade do Estado de Direito é, justamente, o judiciário, em especial a forma como o STF está estruturado internamente e como ele se relaciona com os demais poderes; falta um contrapeso para suas ações e falta, sobretudo, uma mandato para os nobres ministros, enfim, falta limitação para seu poder.

Hoje, o que estamos vendo é uma ditadura judicialesca ingerindo diretamente na vida política do país com evidentes intenções partidarescas. Nesse sentido, conceitos tão caros como "Estado de Direito" ou "direitos e garantias individuais" são usados ao sabor do momento para a obtenção de nefastos objetivos.

É um bombardeio violento que sofre o Governo Lula. É um estado perene de pressão vindo de várias frentes com o objetivo de corroer o governo pela raíz. O PSDB já foi usado, a grande mídia já foi usada e agora é a vez do Supremo. A sociedade brasileira, se é que isso existe, precisa levantar a voz do contrário o país pode entrar em parafuso.

Hugo Albuquerque em março 21, 2009 2:11 PM


#24

Eu pensava que:
(1) O Supremo e seu presidente zelariam pela Constituição
(2) A Constituição nos garantiria o Direito à Informação
(3) A Constituição garantiria a Liberdade de Expressão
(4) O Legislativo era um Poder independente do Judiciário e não subalterno.

Marco Vitis em março 21, 2009 2:20 PM


#25

Amigos:

É de estarrecer essa reportagem. Imaginem, como disse o Paulo SPS, se algo semelhante fosse descoberto sobre o Protógenes.

Há dois brasileiros que vão precisar da nossa solidariedade e apoio: Protógenes Queiroz e Leandro Fortes.

Se algum veículo da grande mídia der um pio sobre essa reportagem de L. Fortes, por favor me avisem. Continuo apostando -- apesar de ter parado de ler jornal -- que até agora não deram uma linha sobre o assunto.

Idelber em março 21, 2009 2:36 PM


#26

Carta do Protógens ao Obama (há uma versão em inglês):

Estimado Presidente Barack Obama –

Como é amplamente reconhecido, a sua eleição ao cargo supremo dos EUA reafirma e fortalece a luta pela democracia e pela justiça travada por cidadãos honrados em nações do mundo inteiro. Acreditamos que existe, de fato, "uma luta em andamento que vai além do oceano" dizendo respeito ao bem-estar de toda a coletividade humana. É nesse espírito que estamos enviando essa comunicação à sua atenção.

O Brasil vive momentos de fragilidade, pois evidências de esquemas de corrupção que ameaçam a soberania de nosso país estão presentemente sendo avaliadas nos EUA. Precisamos, portanto, do seu apoio. Sabemos, afinal, que o crime organizado internacional não tem qualquer comprometimento com o valor público das nações do planeta, mas apenas com a sua dizimação, fato que perpetua o flagelo e o sofrimento de centenas de milhões de seres humanos em todos os países.

A luta brasileira contra a corrupção tem se tornado mais intensificada nesses últimos meses conforme a operação Satiagraha da Polícia Federal tem evidenciado ao povo brasileiro o envolvimento dos três poderes da república em esquemas de corrupção. Isso se tornou público a partir da apreensão e condenação do banqueiro-bandido Daniel Dantas, o agente financeiro de inúmeras fraudes e atos criminosos realizados nos últimos 15 anos em conjunto com os mais altos representantes públicos dos poderes executivo, legislativo e judiciário do Brasil.

Como resultado desse quadro lamentável, os poderes da república brasileira têm agido de forma patentemente arbitrária e antidemocrática, visando obstruir os processos da lei e da ordem, dessa forma traindo os interesses 190 milhões de cidadãos brasileiros ao favorecer bandidos já condenados pelas leis do país.

O fato é que os 2 bilhões de dólares já bloqueados com a ajuda de governos estrangeiros – do total de U$ 16 bilhões desviados pelo banqueiro-bandido Daniel Dantas – mostram a veracidade dos crimes e provam que a luta vai, sim, além dos oceanos. Mesmo assim e apesar de ter sido condenado a dez anos de prisão bem como ao pagamento de multa de R$ 12 milhões por tentar subornar um delegado da Policia Federal, o banqueiro-bandido condenado responde a sentença em liberdade após receber dois Hábeas Corpus sucessivos contrariando todo o histórico de julgamentos e súmulas da Suprema Corte brasileira.

Infelizmente, não é apenas o judiciário que está no payroll do banqueiro-bandido Daniel Dantas. O próprio presidente da república, o Lula, acaba de colocar los amigos para assumir controle do Sistema Brasileiro de Inteligência (Sisbin) com um decreto no dia 19 de fevereiro de 2009, visando obstruir processos relativos à soberania da nação – aliás, uma jogada não muito distante do Patriot Act do presidente G.W. Bush que custou aos EUA um atraso que o senhor pode mensurar melhor do que ninguém. No caso em questão, 11 entidades autônomas, incluindo as forças armadas brasileiras, formavam um conselho consultivo que coordenava a Sisbin. Esse conselho foi agora substituído por um comitê de seis indivíduos amigos de Lula, todos com um passado ético extremamente questionável.

Como é de conhecimento público, as informações da investigação Satiagraha contendo provas irrefutáveis dos crimes mencionados acima se encontram em 12 discos rígidos, encontrados dentro de uma parede oca na residência do banqueiro-bandido Daniel Dantas, os quais estão presentemente nas mãos da CIA nos EUA para serem analisados e revelados os esquemas de corrupção no Brasil com reflexos no seu país. Não é difícil imaginar as razões que levaram essas evidências para longe do Brasil ao considerarmos a seriedade dos crimes cometidos e o poder dos criminosos envolvidos, cuja lista abrange expoentes do sistema financeiro internacional, alguns já bem conhecidos do público estadunidense.

Assim como o senhor, o senador Russ Feingold e milhões de homens e mulheres honrados em seu país, a grande maioria dos brasileiros acredita que a lei deve valer para todos equitativamente, caso contrário a democracia se torna uma mentira e colocamos em risco o futuro da liberdade e da cidadania no mundo. Temos que lutar juntos pela transparência e pela justiça dia e noite para que as forças corruptas não se imponham sobre as forças do bem e por isso acreditamos vigorosamente que não pode haver protelações quanto à justiça clamada pelo povo brasileiro em face da crise moral que assola o Brasil.

Finalmente, lutamos pela justiça HOJE. Como escreveu Martin Luther King Jr., "Justiça atrasada é justiça negada". Então, contamos com a sua vigilância e o seu apoio para que os processos de avaliação e divulgação dos dados contidos nos 12 discos rígidos em poder da CIA não sejam obstruídos. Queremos apenas a verdade, pois sabemos que basta a verdade para que a soberania do nosso povo seja garantida.

Deus abençoe o senhor, sua família, o povo americano e todas as suas iniciativas visando o aprimoramento social da humanidade.

Atenciosamente,

Protógenes Queiroz
www.protogenescontraacorrupcao.ning.com


Gigio em março 21, 2009 8:02 PM


#27

Hugo,

O governo Lula (ou pelo menos parte dele - não é possível dizer ao certo) está engajada na perseguição ao delegado Protógenes. Há os que estão na linha de frente desde o primeiro instante, como o ministro Jobim. Foi ele o encarregado de contar a mentira que desencadeou toda essa palhaçada: a de que a Abin possuiria aparelhos de espionagem. Chegou ao cúmulo de imprimir uma lista de equipamentos tirada de um site da internet e distribuir à imprensa. Foi desmentido, e se conserva na retaguarda até hoje.

José Dirceu, cujo nível de interlocução com o Planalto, hoje, é difícil de se avaliar, tem feito ataques violentos ao delegado Protógenes em seu site. Mesmo não estando no governo, ele conseguiu manter no cargo um de seus principais aliados - José Antônio Toffoli, advogado-geral da união - mesmo contra a vontade de ninguém menos que Dilma Roussef. Se você ler as peças produzidas por Toffoli e outros altos funcionários do Planalto da Adin impetrada pelo sr. Roberto Freire (rejeitada liminarmente pelo ministro Direito em virtude de um erro formal mais ou menos grosseiro), você verá que tenho razão.

Só Tarso Genro está (aparentemente) tentando segurar como pode o inquérito. Mas é bom não esquecer que até mesmo o ministro tem rifado publicamente o delegado Protógenes, dizendo que a operação Satiagraha envolveu um grande número de irregularidades, etc. Até agora, não há NENHUMA irregularidade comprovada. Esse é o fato.

Não sei o que está por trás desse posicionamento do governo Lula. Pode ser chantagem do STF (que tem o poder de desestabilizar qualquer governo, se quiser). Pode ser chantagem de Dantas, envolvendo o Lulinha, ou algo ainda mais grave, que não sabemos. Pode ser dinheiro para a campanha da Dilma - ao que parece, Dantas armou um amplo esquema de cooptação que não distingue partidos políticos. Pode ser (e provavelmente é) uma combinação desses fatores. Mas é um erro pensar que o governo Lula é vítima nesse episódio. É cúmplice. Está envolvido até a raiz do cabelo nessa campanha asquerosa que somos obrigados a assistir impotentes.

Abraço.

João Vergílio em março 21, 2009 10:24 PM


#28

João Vergílio,

Eu também não sei qual o grau de envolvimento do Governo Lula nisso tudo, justamente por isso não diria que ele está envolvido até "raiz do cabelo" nisso daí. Até pelas origens políticas de Dantas, bem longe PT, sob as asas do painho ACM e de como ele ganhou a influência que goza hoje, na privataria, eu não colocaria isso - se houver quem esteja envolvido até o fio de cabelo nisso daí, eu suspeito que não seja exatamente o PT.

Por sua vez, o PSDB, assim como no mensalão, mantem uma inércia incrível para um partido de oposição. Se Lula estivesse envolvido até o fio do cabelo nisso, parece-me razoável que o principal partido da oposição tivesse agora a chance de resolver 2010. Ou é isso ou quem sabe o maior partido da oposição não esteja confortável nesse imbróglio.

Por outro lado, as ações espetaculosas de Gilmar Mendes parecem ser pouco simpáticas ao Governo, há um poderoso jogo de bastidores e nele temos o presidente do STF, aproveitando-se do fato de que não há um contrapeso suficiente para o orgão que preside, tentando a todo custo provocar um crise institucional. Na tênue e trêmula linha sobre a qual se equilibra a estabilidade política brasileira é necessário ter muito cuidado com isso, do contrário explode a crise institucional que tantos desejam - e talvez junto com a Crise Mundial que tantos desejam que piore talvez o único governo razoavelmente popular e não-direitista a governar o país, caia.

Por enquanto, o que eu vejo é um jogo onde alguns estão tentando jogar a bomba para o colo de Lula sem ser atingido pelos estilhaços - o que, por enquanto, é impossível - e ao mesmo tempo fazendo uso político do STF com fins eleitoreiros, enquanto temos coisas muito mais complexa do que isso acontecendo nos bastidores.

abraços

Hugo Albuquerque em março 22, 2009 12:46 PM


#29

Subscrevo as palavras de João. O governo Lula também está engajado na perseguição de Protógenes. Não desejamos que os inquéritos e investigações simplesmente parem, mas que lhes seja dado o devido peso e dimensão.

Hoje mesmo eu vou subir o arquivo com o programa censurado para um servidor e disponibilizar para download. Assim quem quiser pode tê-lo no seu próprio HD.

Leonardo Bernardes em março 22, 2009 2:50 PM


#30

Enquanto persistir o atual esquema de financiamento de campanhas, continuaremos assistindo a escândalos como esse, em que figuras de ponta dos três poderes se unem para acobertar um esquema criminoso. Ninguém teria condições de disputar o poder central no Brasil de hoje sem se aliar a esquemas criminosos. Se o PT está hoje no poder, deve isso principalmente a José Dirceu, que compreendeu com bastante clareza a natureza do jogo político atual, e fez o partido entrar de cabeça nos esquemas de financiamento que pudemos entrever durante a crise do mensalão. O resultado é que o Executivo e o Legislativo estão, desde logo, comprometidos com figuras como Marcos Valério e Daniel Dantas. O Judiciário tem seus canais próprios de contaminação com o crime organizado, mas no Supremo esses canais se encontram com os da política partidária, em virtude do mecanismo de escolha dos Ministros.

A grande novidade deste caso talvez tenha sido a cooptação da grande imprensa. Há articulistas atuando nitidamente a soldo do crime organizado, com a conivência da direção dos jornais, revistas e emissoras de televisão. Isso é absolutamente chocante, pois propicia a eclosão de um "efeito totalitário" no seio de uma sociedade formalmente democrática. O mesmo espetáculo de unanimidade forjada a que um cidadão soviético era exposto nos tempos do stalinismo é encenado aqui, em ponto menor, em torno de um caso específico. É como estar vivendo num manicômio de dimensões continentais.

Estou tão indignado quanto qualquer pessoa de bem com essa vergonhosa perseguição ao delegado Protógenes Queiroz e ao juiz Fausto de Sanctis. Mas não tenho ilusões. Mas, ao lado desta indignação, é preciso que comecemos a debater as raízes do problema. Uma política com custos bilionários financiada pelos mecanismos atuais é necessariamente e essencialmente corrupta. E o Estado que surge daí é, na acepção mais direta do termo, um Estado banditizado.

João Vergílio em março 22, 2009 5:06 PM


#31

Realmente estão magníficos os dois comentários do João Vergílio. Ele reitera algo em que sempre insisti também: é necessário discutir (e resolver!) a raiz do problema, que são os financiamentos de campanha.

Idelber em março 22, 2009 5:26 PM


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