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terça-feira, 17 de março 2009
Jabá: Memórias Iluminadas

Meu nome é Júlia Moreira de Araújo. Eu nasci em sete de março de 1929. Meu aniversário foi há poucos dia, o povo fez um festão, o povo ofereceu música pra mim.Eu sou bem antiga, tenho muita amizade, graças a Deus!
Eu nasci lá no Mato sem Pau. A gente fazia a mesma coisa, fazia polvilho. Depois eu vim pequenininha pra cá, pra fazenda de Vassouras. Tinha um casal sem filho lá, então eu vim morar com eles. Quem me criou foi o seu Nicanor de Assis Moreira e Luísa Oliveira Reis. Ah, eu fazia de tudo, Nossa Senhora! Eu ‘tava pequenininha e já mexia com curral de vaca, mexia com tocação de cavalo, fazia comida, cozinhava, fazia bolo, fazia de tudo! É, graças a Deus, sou prendada.
Eu conheci o Mané Carneireiro. Ele tinha o apelido de Mané Carneireiro,mas era mascate de pano. Ele vendia era pano. Tinha um outro carneireiro que passava e comprava carneiro. E era aquela carneirada antigamente, né? O mascate chegava, pedia apoio e pousava. E quando esse povo vinha, nós carteava em casa na parte da noite.
Eu também gostava de cantar nos pagode, mas eu não tinha quase tempo, porque eu tinha que ficar cuidando dos filho, fazendo café. Mas a gente gostava muito quando tinha baile.
Na roça nós era tudo vizinho, era tudo amigo. Depois que nós mudou pra cidade, nós já era conhecido.
Eu era cantora aqui na igreja também. Aqui nessa igrejinha. Agora tão arrumando ela de novo. Eu era cantora da irmandade Filhas de Maria, era só mulher. E tive de sair quando eu casei. As Filhas de Maria era só mulher solteira. Era roupa branca com fita azul. O Sagrado Coração de Jesus usava uma fita vermelha. A Nana do Zé da Pinta cantava na igreja também. A Nana não foi do meu tempo. Ela era muito amiga, mas era de antes.
*************
Júlia Moreira de Araújo é uma das 23 personagens da cidade de Luminárias registradas em voz própria no trabalho de história oral feito pela minha cunhada, Andressa Gonçalves, e pelo meu concunhado, Paulo Morais. Situada ao leste de Varginha, um pouco ao sul de Lavras e ao norte de Caxambu, Luminárias é daquelas profundezas de interior de que só Minas é capaz. É o lugar perfeito para um trabalho de história oral dessa natureza.
Acompanhei de longe a produção do livro, pude manuseá-lo na passagem de ano e sempre fui entusiasta do projeto. Não posso deixar de registrar, pois, a grande notícia de que o livro está disponível na internet em pdf. Vale a leitura para quem se interessa por história oral, causologia mineira, história do cotidiano e adjacências. Animal político que sou, gostei muito dos depoimentos de Nagib e Dalva Murad (pp.61-73). Feita com esmero, a transcrição das falas é fiel sem ser pitoresca.
Confiram lá, pois. No blog da Viraminas há outro livro para download, com memórias de professores tricordianos, prefaciado por minha mestra e guru-mor, Ana Lúcia Gazolla. E também a história da peregrinação por uma série de cidades mineiras.
Parabéns à Andressa e ao Paulo pelo trabalho memorioso.
Escrito por Idelber às 21:29 | link para este post
| Comentários (28)
#1
valeu os links, cara! material primoroso
Jasão em março 17, 2009 9:58 PM
#2
p.s.: sinto pelo palavrao, mas as fotos sao foda demais!
Jasão em março 17, 2009 9:59 PM
#3
Pois bem...creio que este é um trabalho que temos que promover no BraSIL inteiro...em todos os cantos, vilas e becos....pegar os véio e véia e simplemente gravar...agregando um pouco de outras informações....fiquei pensando no Mário de Andrade ao ler este fragmento de história oral....precisamos disto para termos um parâmetro adequado das nossas vidas e fazer eleas terem mais história e valor...ÓTIMO
Daniel Boeira em março 17, 2009 11:01 PM
#4
O depoimento relatado é muito bonito. estive em Luminárias quando eu era adolescente. Na época, tinha uns treze, doze anos e viajava na região para ir em festivais anarco-punk. Em luminárias, alguns dos grupos que freqüentavam esses festivais de música e política tocavam, mas a cidade era dominada pelo death metal.
Nunca fui metaleiro, mas fiz vários amigos saudosos na cidade. Lembro do Sidney, Júlio, Marquinho e muitos outros. Está para ser pensado como o metal chega em tantos lugares. dos rincões da Noruega às favelas da Colombia e o interior de Minas Gerais.
Outra cidade de metaleiros era carmo da cachoeira. Depois de alguns anos, recebi essa embalagem ( http://farm4.static.flickr.com/3231/2988733020_eff72c4991.jpg?v=0 ) que só podia vir de lá.
Tiago Mesquita em março 17, 2009 11:44 PM
Aline em março 18, 2009 12:12 AM
#6
Caro Idelber,
Já que tocastes na remota Luminárias, te convido a ler um artigo que escrevi para o site da Caros Amigos, tratando da tal cidade-poema.
Abs
Marcelo Manzano
Marcelo Manzano em março 18, 2009 12:34 AM
Marcelo Manzano em março 18, 2009 12:35 AM
#8
Idelber,
A primeira vez que ouvi falar em história oral foi no Centro Atleticano de Memória www.centroatleticanodememoria.com.br e www.galodigital.com.br, onde projetos de história oral estão sendo desenvolvidos, inclusive com a colaboração da professora Lígia da UFMG que trabalha com essa ferramenta. Sua colaboração também será valiosa e bem-vinda.
Lincoln.
Lincoln Pinheiro Costa em março 18, 2009 12:56 AM
#9
Sensacional Idelber, isso me lembrou Borges naquela coletaneas de palestras " Sites Noches" onde afirma ; ' Minha memórias são superiores a meus pensamento."
Gosto muito também de um livro do Borges, 'O livro', onde ele escreve sobre a impôrtancia do livro como construção do imaginário, que me pareceu um elogio aos contadores de histórias.
Se não me engano, é dele a frase 'Jesus é o último dos orais'.
Viva os orais.
fm em março 18, 2009 1:49 AM
#10
ops... errei feio. O correto é 'Siete Noches'
fm em março 18, 2009 1:53 AM
#11
Idelber,
muito legal. Se você tiver outros links do projeto, também seria interessante passar, em especial porque trabalho no CPDOC e o povo aqui tem muito interesse na área. Quem sabe não rola uma visita?
João Marcelo em março 18, 2009 12:36 PM
Tiago Mesquita em março 18, 2009 1:36 PM
#13
grande idelber,
grande sertão, veredas é mato nessas memórias iluminadas. me lembra também, dentre outros, o incidente de guaribas do meu saudoso pai lá do brejo santo do cariri alencarino.
paidégua demais, macho.
parabéns
carlos anselmo-eng°-fort-ce em março 18, 2009 2:08 PM
#14
Idelber,
Obrigado pelos links.
Apesar da correria do dia a dia, algumas coisas nos fazem encontrar tempo para elas, mesmo qundo parece que não sobra nenhum. É o caso desses dois livros. Só esse trecho que você postou já encheu minha boca de água.
Parabéns à autora! Não vejo a hora de ler.
Eduardo Prado em março 18, 2009 3:45 PM
Igor em março 18, 2009 4:25 PM
Tiago Mesquita em março 18, 2009 5:33 PM
#17
O Sul de Minas é tudibão mesmo, viu... ô saudade de casa. =)
Tenho vontade de contar a história da minha terra, Furnas (ali pertin de Passos), em documentário. Mas num batepapo assim, como o dos historiadores e moradores de Luminárias (que nome lindo!). Belíssimo trabalho.
carol em março 18, 2009 10:08 PM
#18
Tô aqui, lendo o livro, e curtindo pra caramba. Uma vez eu e o Guto estivemos em São Tomé das Letras. Como resolvemos andar sem destino a partir de nosso ponto de partida, de nossa "casa transitória" que era São Tomé, acabamos em Luminárias. O Guto gosta de andar por aí sem destino e de ir conhecendo cidadezinas. Peguei dele esse gosto. E gostei de Luminárias, do nome do lugar, essas coisas.
Aí, quando vi esse post, senti uma familiaridade, algo como "eu conheço, faz parte de um pedaço da minha vida". E olha que eu não passei nem meio dia em Luminárias. Mas faz parte de ser gente sentir essas coisas, sentir que aquilo lá, por mais alheio e desconhecido que seja, um dia fez parte de um momento da gente.
Então estou lendo o livro. A transcrição dos depoimentos é, pra mim, um ato de respeito e de humildade dos autores diante de uma literatura verbal que é muito rica, e que nem sempre temos a oportunidade de conhecer. Eu e o Guto já tivemos experiências de ir a uma pequena cidade e conversar com as pessoas do lugar, de ficar um tempão batendo papo, muito mais ouvindo do que falando. É uma experiência e tanto.
Não estou conseguindo expressar direito o que quero dizer nem o que estou sentindo mas, sem querer "falar bonito" e ao mesmo tempo querendo falar claro o que quero dizer, é uma experiência de linguagem muito incrível ouvir as histórias, mas não só as histórias. Chega a ser um caso de estética da linguagem.
Bom, vou encerrar por aqui, pois não estou conseguindo dizer o que quero dizer e também porque quero continuar lendo. Estou curtindo não apenas as histórias, mas a "estética", ou, falando de um jeito mais simples e talvez mais claro pra mim mesma, o jeitão charmoso e encantador como as coisas são contadas. Sem falar nas fotografias, mas aí nem vou comentar porque vai ficar mais difícil ainda falar a respeito.
Diante da linguagem incrível dos depoimentos a minha linguagem deu uma travada. Mas foi uma travada prazerosa.
:)
Mônica em março 18, 2009 11:13 PM
#19
Uau, que legal que você está lendo, Mônica!!
Taí um post que eu gostei de ter feito. É livro mineiro mesmo, para ir digerindo.
Idelber em março 18, 2009 11:18 PM
#20
Nossa... resposta quentinha, rapidinha... Bom, tô lá (ou melhor, aqui) lendo sobre a Fazenda do Jardim, do Visconde de Caldas, que tinha uma amásia escrava que estragou a revolução do pessoal do quilombo. Tô aqui e tô lá, pra falar a verdade.
Eu não conheço direito aquela região, mas o pouco que conheci fez com que eu colocasse aquele pedaço de terra como um pedaço de terra meio meu, sei lá por quê. Me senti de certa forma em casa naquele sul de Minas.
Em São Tomé eu e o Guto conversamos pra caramba com um senhor cujo nome esqueci. Só não esqueço o nome da caçula, que se chamava Uriale (nem sei escrever esse nome e muito menos de onde ele o tirou). Era uma menina na divisa da adolescência com o comecinho da idade adulta.
Esse senhor, que era dono de um restaurante daqueles simples que servem comida gostosa, também tinha uma filha mais velha, já trintona, que tinha um filhinho e que ralava pra caramba, e cujo nome também esqueci. Acho que o Guto se lembra do nome deles, mas ele está dando aula agora e não tenho como conferir.
Ele (o pai da Uriale) sentava-se em nossa mesa e a gente conversava, conversava... A gente mais ouvia do que falava. Às vezes a mais velha vinha conversar também. E a Uriale também vinha dar seus palpites.
Eu queria ter essas conversas registradas literalmente na minha cabeça, mas meus neurônios não dão conta disso. Neurônios autistas certamente dão conta, mas o registro deles normalmente não passa à consciência, ao entendimento do que foi dito.
Se eu tivesse o conhecimento da taquigrafia ou se tivesse um gravador naquele momento, certamente estragaria o momento que, infelizmente, se perdeu pra sempre por conta dessa impossibilidade da vida. De qualquer forma, a sensação da experiência eu nunca vou perder.
Nessa viagem específica, teve ainda a curtição de ficarmos sentados na pracinha da cidade vendo a meninada brincar, a vida passar. Tinha um menininho que ficava andando de bicicleta e olhando pra gente, se exibindo, curtindo nossa admiração diante das "proezas" que ele fazia. Não foi uma viagem de explorar cavernas ou descobrir duendes e outros mistérios turísticos do lugar. Foi muito mais do que isso, certamente.
Nossa experiência foi bem mais banal, muito mais cotidiana e, talvez por causa desse paradoxo que confirma que o paradoxo nem é tão paradoxal assim (e isso faz tudo ficar mais encantador ainda já que o banal se mostra encantador), bem mais intensa do que teria sido se estivéssemos no clima de caçadores de ET's, duendes ou de outros mistérios ilusórios.
Sinto saudade de São Tomé (ou São Thomé) das Letras. Aliás, das Letras, né? Nem sei o nome oficial da cidade, mas deixa pra lá.
E eu acho que você deve mesmo gostar de ter feito esse post. Levando em conta minha curtição, num lance bem egocêntrico, fico feliz que você tenha feito esse post. Minha viagem está sendo muito agradável.
Mônica em março 18, 2009 11:58 PM
#21
Ah, o Guto chegou. Lembrou algo que esqueci: demos carona para um morador da cidade, sujeito "simples", com o qual tivemos um papo sobre transgênicos. Mas disso eu não me lembro.
Mas me lembro da carona que demos a umas moças arrumadinhas de São Paulo, que nos prometeram emails com fotos de duendes que que ficaram na dívida. Elas, sim, tiveram uma EXPERIÊNCIA. Enfiaram-se numa caverna e tiveram de "interagir" com morcegos. Já eu e o Guto ficamos com o menino na pracinha e com o pai da Uriale. Foi muito bom. Agora volto à leitura do livro. ;)
Mônica em março 19, 2009 12:02 AM
Gabriel em março 19, 2009 3:33 AM
#23
acabei de ler e eh maravilhoso carregar pedacinho tao precioso de Minas no meu flashdrive... obrigado, obrigado, obrigado
Jasão em março 19, 2009 10:23 PM
Navegador em março 19, 2009 10:43 PM
#25
Mônica,
Não consigo te ler sem colocar um baita sotaque que me encheu de vontade de ler as memórias.
Você escreve com o sabor de sorvete na praça... ah que saudade de sorvete na praça.
Paulo Cunha em março 20, 2009 3:56 AM
#26
Que maravilhosa essa iniciativa, Idelber. Lembro-me do meu internato rural, pela Faculdade de Medicina da UFMG. Fui para São Tiago, na Serra das Vertentes. Foi uma experiência que me marcou muito, em todos os aspectos. E que me fizeram amar Minas com ainda mais paixão. Saudade.
Abraço,
Lelec
Lelec em março 20, 2009 7:50 PM
#27
Caramba, Paulo. Muito obrigada. :)
Mônica em março 23, 2009 6:42 PM
#28
Caros Leitores do Idelber,
Agradeço pelo apoio aqui nos comentários! Temos diversos outros projetos culturais, acompanhem sempre em nosso blog!
E Idelber, mais uma vez, valeu pela força.
Aquele abraço a todos.
Paulo Morais em março 24, 2009 10:09 PM