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sexta-feira, 13 de março 2009

Obama's walking the walk

No caso de que tenha passado batido pela imprensa brasileira: a indicação feita por Obama, de Shere Abbot, para Diretora Associada do meio ambiente no Gabinete de Ciência e Tecnologia da Casa Branca é dessas notícias alvissareiras, promissoras, que não podem passar sem registro. Obama's fucking walking the walk, pelo menos na maioria dos temas. Estas primeiras semanas deixam claríssima a mensagem: ciência é ciência, e fica nas mãos dos cientistas.

O que se faz com a ciência depois em termos de política pública é questão que uma sociedade democrática decidirá através dos instrumentos que já construiu. Mas deixem os cientistas pesquisarem em paz, em primeiríssimo lugar.

A diferença entre as políticas de Bush e de Obama para a ciência não se dá entre posições conservadora e liberal, de direita e de esquerda, mercadolivrista e keynesiana. Nesse sentido não há "dois lados", não sinhô. Trata-se de uma diferença entre os minimamente sanos e os completamente malucos.

Volta a ser possível fazer ciência com os temas sobre os quais os completamente malucos pontificam, baseados num livro de fábulas escrito há milênios. Já sei de cientista que se exilou no Canadá ou Europa e está planejando voltar. A extensão e profundidade da devastação deixada nestes oitos anos são aterradoras, e só estão tornando-se completamente visíveis agora -- mas o país começa a ficar respirável de novo para os cientistas.



  Escrito por Idelber às 06:43 | link para este post | Comentários (28)


Comentários

#1

He's fucking good! (ele é bom pra cacete)

Fico muito feliz com isso. Outro dia li na BBC que uma menina que nasceu cega teve sua visão restaurada a partir de células tronco do cordão umbilical. Não é o tipo de pesquisa que deva ser interrompida, não é verdade?

Flavia em março 13, 2009 8:54 AM


#2

É, mas se dobrou à vontade da AIPAC no caso da indicação do Chas Freeman para Chairman do National Inteligence Council. Tremenda bola fora.

Marola em março 13, 2009 9:49 AM


#3

Marola, acho que ele não se dobrou não, o Chas Freeman que puxou o carro. Mas é verdade que com isso Israel motra que tem um poder inacreditável dentro do governo americano. Chego a pensar que eles são a superpotência mundial.

Tiago Mesquita em março 13, 2009 10:01 AM


#4

Caro Idelber, sou evangélico, porém, sou aberto e favorável ao avanço da ciência, especialmente às pesquisas com células tronco. No entanto, acho um desrespeito, bem como uma demonstração de intolerância de sua parte chamar a Bíblia de livro de fábulas. Mantenha o alto nível do seu blog. Voce tem argumento suficiente para prescindir desse tipo de recurso.Por fim, a própria Bíblia diz em Daniel 12,4 que a ciência se multiplicará. É inexorável, graças a DEUS! Abração.

João Augusto em março 13, 2009 10:31 AM


#5

Tá, não se dobrou não. Comportou-se como Pilatos no credo.

Rahm Emmanuel o Senador Schummer detonaram o cara e o Obama não moveu nem uma palha, seu porta-voz (Gibbs) inclusive desconversou quando perguntado. Vergonhoso!

A única consequência boa do episódio é que o lobby e a sua influência ficaram mais expostos na mídia.

Marola em março 13, 2009 10:39 AM


#6

João Augusto, com todo o respeito, não considero depreciativo chamar a Bíblia de livro de fábulas. Fábulas podem conter grandes ensinamentos morais. Sou agnóstico, mas me sinto muito à vontade para extrair sabedoria de muitas histórias da Bíblia, sem comprometer o meu modo de pensar.

Marola em março 13, 2009 10:47 AM


#7

Marola, bacana saber que voce tem a mente aberta. No entanto, ponto de vista depende do "ponto" onde voce está. O meu, é a fé. Eu, por exemplo, nunca chamaria o Corão de livro de fábulas pelo simples fato dele não ser o registro escrito da fonte da minha fé, ou se fosse o caso, falta de. Simples assim. Abração.

João Augusto em março 13, 2009 10:59 AM


#8

João,

Talvez você esteja confundindo fé com interpretação literal de textos. História da carochinha pode ser fábula, mas nem toda fábula é história da carochinha.

Marola em março 13, 2009 12:11 PM


#9

Sou católico e também não acho depreciativo chamar a Bíblia de livro de fábulas. Faço minhas as palavras do Marola. Os ensinamentos contidos na Bíblia são muito mais importantes do que a veracidade das lendas narradas.

Marcus em março 13, 2009 12:57 PM


#10

Marola,

li uma análise no Foreign Policy em que o autor argumenta que a pressão contra o Freeman pode ter exposto demais o lobby pró-Israel e talvez queimado os cartuchos para demandas futuras. Esperar para ver...

Radical Livre em março 13, 2009 2:34 PM


#11

Radical,

se o Obama quer promover mudanças em que as pessoas, como diz o seu slogan de campanha, possam acreditar, no que tange a política externa americana no Oriente Médio, mais cedo o mais tarde êle terá que bater de frente com o lobby. Acho difícil, os sionistas estão muito bem entrincheirados em posições chaves na mídia bem como no legislativo e executivo.

Curiosamente, as melhores análises que li a respeito desse episódio vieram de articulistas judeus que já estão de saco cheio das ações genocidas dos likudniks e similares no trato com seus vizinhos.

Marola em março 13, 2009 3:18 PM


#12

Idelber, chegando agora aqui nos EUA é q estou vendo na prática a situação precária q os anos Bush deixaram dentro dos labs. A falta de recursos é visível, alguns labs inclusive fecharam. Há mta esperança nos corredores de todos os departamentos com essas últimas notícias de Obama e sua política de deixar os cientistas trabalharem em paz. Ainda bem.

Lucia Malla em março 13, 2009 4:27 PM


#13

Oi, Lu, eu sabia que você ia notar uma grande diferença mesmo. Longe da vida laboratorial, eu só posso imaginar -- mas os relatos que recebo são aterradores. Esperemos que as coisas continuem melhorando :-)

Idelber em março 13, 2009 4:36 PM


#14

Oi, João, como alguém que se dedica há décadas, quase em tempo integral, a amar a literatura, eu também me ofendo muito quando não se reconhece a extraordinária qualidade fabular desse grande livro de fábulas. Prego respeito pelos gêneros e suas especificidades, sempre :-)

Idelber em março 13, 2009 4:38 PM


#15

Ok, Marola, Marcus & Idelber, i quit. Abração a todos.

João Augusto em março 13, 2009 6:17 PM


#16

Tá bom, mas a dupla Thimothy & Summers a frente da área econômica é mais do mesmo, não acha?

Enildo Bernardes em março 13, 2009 6:46 PM


#17

Sugiro a leitura do livro de Robert Alter, The Art of Biblical Narrative, onde ele diz que "a Bíblia hebraica apresenta-se como uma seqüência de relatos que vão da cosmogonia do Gênese aos tempos históricos dos reinos israelitas. Para o autor, a leitura voltada para a composição literária desse material torna-se a via de acesso privilegiado ao sentido dos relatos bíblicos, em sua trama complexa de ficção, história nacional e teologia." Tem em português: A arte da narrativa bíblica, Cia. das Letras, 2007. A tradução do livro é minha.

Vera Pereira em março 13, 2009 7:29 PM


#18

Ah, mas minha opinião sobre o pós-modernismo é bem mais dura que sobre "livro de fábulas".

Andre Kenji em março 13, 2009 9:30 PM


#19

Andre Kenji, fiquei curioso em saber sua opinião sobre a pós-modernidade.
Chesterton, por exemplo, achava que a tolerância ( complacência para com o pensamento de outros quanto à política, sexo, religião, raça e gênero), era um conceito pós-moderno e uma 'virtude do homem sem covicções'.
Qual é, exatamente, sua crítica ao pós -modernismo?

fm em março 14, 2009 2:57 AM


#20

walking the walk,o que é isso?

Jorge em março 14, 2009 10:38 AM


#21

Cumprir promessas com ações concretas

Marola em março 14, 2009 12:47 PM


#22

"Em outras palavras, os lunáticos são superiores aos homens sensatos. O que eu nego. O grego são e harmonioso tira tudo quanto pode de ambos esses estados. Não é bastante idiota para desejar matar um parte do seu próprio eu. Conserva o equilíbrio. Não é fácil, naturalmente: é até difícil como o diabo. As forças a reconciliar são intrinsecamente hostis. A alma consciente quer mal às atividades da parte inconsciente, física e instintiva do ser total. A vida de uma é a morte de outra, e vice-versa. Mas o homem são de espírito, disseram às gentes que elas deviam lançar uma metade de si mesmas na lata de lixo. E agora os cientistas e os homens de negócios vieram para nos dizer que devemos jogar fora a metade que os cristãos nos deixaram. Prefiro ficar vivo, inteiramente vivo. É tempo de se fazer uma revolta a favor da vida e da plenitude"

Fala de Mark Rampion em Contraponto (Point Counter Point) de Aldous Huxley (Tradução de Érico Veríssimo e Leonel Vallandro), só pra provocar um cadinho ;-)

Hugo Albuquerque em março 14, 2009 1:01 PM


#23

"(...)desejar matar uma parte do seu próprio eu."

Hugo Albuquerque em março 14, 2009 1:03 PM


#24

Ah, quem nos dera que os malucos do bushismo fossem os malucos de Huxley...

Obrigado, Marola :-)

Idelber em março 14, 2009 1:44 PM


#25

Oi Idelber,

Quando o Bush foi eleito, o Nicolelis, grande neurocientista brasileiro radicado aí nos EUA, soou o alarme da fuga de cérebros por causa da política de Bush. Foi o que houve.

Além do mais, os anos Bush trouxeram conseqüências nefastas, reveladas pelos índices de DST e de gravidez indesejada entre jovens americanos.

Escrevi sobre isso aqui:
http://aterceiramargemdosena.blogspot.com/2008/11/bush-e-gonorria.html


Abraço!

Lelec

Lelec em março 14, 2009 3:55 PM


#26

So keep walking the walk. It's beautiful and I like it.

Érico em março 15, 2009 12:29 AM


#27

Puxa, só agora li. Excelente, Lelec, obrigado. Não há qualquer exagero na expressão "fuga de cérebros". houve mesmo. Vamos ver se se reverte.

Idelber em março 15, 2009 2:12 PM


#28

Cher Idelber,

Eu é que lhe agradeço pela visita e pela leitura!

Abraço!

Lelec em março 16, 2009 11:44 AM