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terça-feira, 03 de março 2009
Walter Benjamin, Sobre a história, Tese IX

Pronta para o vôo está minha asa
gostosamente voltaria atrás
pois se me restasse tempo de viver
minha sorte seria escassa
(Gerhard Scholem, "Saudação do Angelus")
IX
Há um quadro de Klee chamado Angelus Novus. Apresenta-se nele um anjo que parece estar a ponto de afastar-se de algo que encara fixamente. Tem os olhos esbugalhados, aberta a boca, estendidas as asas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Ele tem o rosto virado para o passado. Naquilo que nos aparece como cadeia de acontecimentos, ele vê uma única catástrofe, que incessantemente empilha ruína sobre ruína, atirando-as a seus pés. Ele bem gostaria de demorar-se, acordar os mortos e recompor o despedaçado. Mas uma tempestade fustiga, vinda do paraíso, emaranhando-se, tão forte, em suas asas que o anjo já não pode fechá-las. Essa tempestade arrasta-o irresistivelmente para o futuro, ao qual ele dá as costas, enquanto a pilha de ruínas amontoa-se até os céus. Esta tempestade é o que chamamos progresso.
PS: Tradução minha, daqui. O testamentário "Sobre o conceito de história", último texto escrito por Walter Benjamin, está disponível na internet também em inglês. De longe, a mais bela tradução já feita é a de Pablo Oyarzún, em La dialéctica en suspenso (Santiago: Arcis-Lom, 1995). O texto completo foi publicado em português num volume traduzido por Sergio Paulo Rouanet (versão da qual já não tenho memória).
Escrito por Idelber às 22:10 | link para este post
| Comentários (27)
#1
Conheci esse trecho ainda adolescente. Que legal que até hoje ele tem um impacto grande sobre mim.
Marcus em março 3, 2009 11:20 PM
#2
A tradução de Rouanet:
"Há um quadro de Klee chamado Angelus Novus. Representa um anjo que parece a ponto de afastar-se para longe daquilo a que está olhando fixamente. Seus olhos estão arregalados, sua boca aberta, suas asas estendidas. O anjo da história deve ter este aspecto.Seu rosto está voltado para o passado. Onde diante de nós aparece um encadeamento de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que vai empilhando incessantemente escombros sobre escombros, lançando-os diante de seus pés. O anjo bem que gostaria de se deter, despertar os mortos e recompor o que foi feito em pedaços. Mas uma tempestade sopra do Paraíso e se prende em suas asas com tal força, que o anjo já não as pode fechar. A tempestade irresistivelmente o impele ao futuro, para o qual ele dá as costas, enquanto o monte de escombros cresce até o céu diante dele. O que chamamos de progresso é esta tempestade."
Paulo C em março 3, 2009 11:22 PM
#3
Bonita, bonita a tradução do Rouanet. Obrigado por transcrever, Paulo.
Idelber em março 3, 2009 11:26 PM
#4
Esta é uma daqueles teses que nos fazem suspirar e dizer: Nossa que alcance! Li Benjamin e até hoje não consigo entender o ponto em que a tragédia toca na vida dos gênios e porque este é o destino de todos eles. Penso aqui também em Heidegger, mutatis mutandis, ficar vivo as vezes não equivale a sobreviver. O progresso realmente atropela e não é justo.
Daniel Boeira em março 3, 2009 11:26 PM
#5
Este texto é todo interessante, importante. A recuperação feita por Agamben em Estado de Exceção (a partir de "A tradição dos oprimidos nos ensina que o “estado de exceção” em que vivemos é na verdade uma regra geral. Precisamos construir um conceito de história que corresponda a esta verdade. Nesse momento perceberemos que nossa tarefa é originar um verdadeiro estado de exceção.") mostra como o pensamento de Benjamim é ainda atual e não completamente entendido.
Paulo C em março 3, 2009 11:30 PM
#6
Fui lá na tradução em inglês e estou lendo. É um texto muito bonito, este do Benjamin, e eu não o conhecia. Valeu pela dica. Abraço.
Miguel do Rosário em março 4, 2009 12:34 AM
#7
Legal a traducao, Idelber. Eh para o livro a ser lancado no Brasil?
Alias, vc viu que o TSE cassou o mandato do governador do Maranhao. Mais um dos absurdos do poder Judiciario Brasileiro. Agora em favor dos Sarney.
Cesar em março 4, 2009 2:39 AM
#8
Li essa citação numa exposição na UFPE. Nem lembro sobre o que era a tal exposição, mas fiquei com a idéia latejando na mente até hoje.
Sempre fiquei de procurar o texto original no Google, mas sempre adiava... Obrigado por me desobrigar do serviço, Idelber! :)
P.S.: qual é a data mesmo do debate com Pedro Dória sobre o Ethnical Cleansing of Palestine? Comprei o livro hoje, que por sinal tá numa posição de destaque nas estantes Livraria Cultura, pelo menos aqui em Recife.
Rondó em março 4, 2009 2:41 AM
#9
Derrubaram o Jackson Lago, então? E eu acabo de receber um email de um leitor perguntando o que Benjamin queria dizer com o "estado de exceção tem sido a regra".
Taí um exemplo.
Rondó, eu ando enrolando com esse debate do Pappé, mas ele vai rolar. Manda bala na leitura aí, e a gente organiza o papo logo que eu estiver menos apertado de costura por aqui ;-)
Idelber em março 4, 2009 3:24 AM
#10
Idelber, que tal colocar o Blog do Argemiro Ferreira em “Visito”?
Paulo Pereira em março 4, 2009 3:38 AM
#11
Walter Benjamin não é minha praia - assim como Jericoacoara (infelizmente) não é. Mas o ponto de toda a discussão anterior é exatamente esse. Todo esse movimento neocon, com suas cobranças toscas ("E Cuba??", etc.) vê a história como seta. Para os mais entusiasmados, já fincada num alvo de pedra.
À noite, depois de todas as aulas, retorno para ver no que deu.
P.S.: Para os que não conhecem Jeri nem de nome, acho que uma boa chave inicial de leitura é perceber a enorme lista das negações. A história não é coisa olhada, mas olhar (estatelado de um anjo); o progresso não é alvo no horizonte, mas força desalojante; o tempo histórico não é cadeia racional de fatos, mas pilha de destroços; o Paraíso não é para onde a história vai, mas o lugar de onde sopra o vento que a desaloja. É só continuar.
Na epígrafe, gostei da solução "se me restasse tempo de viver". Literalmente, acho que é "seu eu permanecesse [bliebe] tempo vivo [lebendige Zeit]". Mas criaria uma obscuridade inútil.
Não alcanço totalmente o sentido dessa epígrafe - a relação, na verdade dela com o fragmento. Se alguém me ajudar...
Finíssimo biscoito. Cheers.
João Vergílio em março 4, 2009 6:59 AM
#12
Curioso, lá no Guaciara, falo de uma idéia correlata à idéia de progresso, a idéia de ruína. Não conheço a história desse conceito, mas já ouvi falar que ele guarda uma relação muito forte com o conceito de fragmento no Schelling. Vocês sabem alguma coisa disso?
abração e muito obrigado pelo texto Idelber
Tiago Mesquita em março 4, 2009 8:58 AM
#13
Bejamin é o próprio "desalojado" do progresso. Judeu rico e esclarecido, vítima da perseguição nazista.
Teve um breve exílio soviético (nos tempos de Stalin), o suficiente para descobrir que o antípoda não era nada melhor.
Dedicou-se a tentar entender como uma "cultura superior", como se julgava a civilização européia do século XIX, podia desenbocar na barbárie nazi-fascista.
Um judeu seria o mais indicado a fazê-lo. Por mais que se esforçassem para serem assimilados à cultura européia, inclusive abandonando a religião de seus pais e abraçando o laicismo, continuaram sendo sempre excluídos. Esse não-lugar tornou-se um ponto de observação privilegiado par Benjamin.
Apesar da tese IX soar um tanto catastrofista, Benjamin ficou mais famoso por se opor a Adorno num debate cristalizado em textos que ficaram clássicos.
Adorno, sempre em birra com a música de fonograma, escreveu "O fetichismo na música e a regressão da audição".
Banjamin, empolgado com todas as possibilidades que se abriam para o uso político dos novos meios de produção artística - especialmente o cinema, escreveu "A obra de arte da era de sua reprodutibilidade técnica".
Mais de 60 anos depois, a polêmica continua muito atual...
André Egg em março 4, 2009 9:35 AM
#14
Bem lembrado, Idelber. Salve Benjamin, poeta da filosofia, místico do materialismo histórico! Um dos que sabiam ser necessário arejar o marxismo, mesmo à custa de melancolia e da reflexão sobre o haxixe.
André, convém lembrar que a riqueza da família logo se foi e Benjamin viveu miseravelmente (inclusive no sentido material) em boa (ou má) parte de sua vida, até o suicídio, com que escapou do nazismo e doutras desgraças. Apesar de seu trabalho extraordinário (ou por causa dele), não conseguiu lugar, em sua época, nas universidades, essas potentes tartarugas. Ironicamente, tornou-se moda nelas, principalmente a partir dos anos 70.
Jair Fonseca em março 4, 2009 10:42 AM
#15
Bem lembrado pelo Jair: Benjamin passou toda a vida adulta numa pindaíba desgraçada. A sua correspondência dá testemunho das tentativas desesperadas de emigrar, ou de publicar seu texto sobre Baudelaire na revista do Instituto de Pesquisa Social fundado por Horkheimer e Adorno (estes já a salvo nos EUA), enquanto Adorno criava obstáculos à publicação, reclamando mais "dialética". É uma das histórias mais trágicas que conheço.
Idelber em março 4, 2009 11:31 AM
#16
João Vergílio, pelo seu comentário vejo que você já captou, sim, o sentido da epígrafe. Eu a interpreto junto com o texto de Benjamin: o anjo quer voltar para redimir os escombros, mas não "lhe resta tempo de viver" -- a tempestade vem forte demais.
Paulo, sugestão aceita. Eu já o tinha aqui nos meus feeds, mas não havia incluído no blogroll. Já está lá.
Idelber em março 4, 2009 12:00 PM
#17
Na minha edição francesa, consta que Benjamin tinha esse quadro em casa. (Ele era bem apertado de dinheiro, mas foi amigo de Klee), e que escrevia olhando para ele. Não é nada surpreendente que tenha se tornado a inspiração para um escrito que procurava desesperadoramente por esperançå num mundo que ele via se barbarizando cada vez mais. Tristemente, barbárie foi a última coisa que ele presenciou na vida.
Diego Viana em março 4, 2009 12:48 PM
#18
Nada, cara... Não entendo, mesmo. Acho o trecho enroscado demais. Dá um bom papo.
Abraço
João Vergílio em março 4, 2009 7:26 PM
#19
Idelber chapa, boa sua tradução. Existe também a feita conjuntamente (e de todas as teses) por Jeanne Marie Gagnebin e Marcos Lutz Müller, que circulou muito tempo na forma de fotocópia (o original batido à máquina, já nos anos 2000) e que finalmente foi publicado em livro (no "Aviso de incêndio" de Michael Löwy, em 2005):
"Minha asa está pronta para o vôo
De bom grado voltaria atrás
Pois permanecesse eu também tempo vivo
Teria pouca sorte."
Gerhard Scholem, Saudação do Anjo
Existe um quadro de Klee intitulado "Angelus Novus". Nele está representado um anjo, que parece estar a ponto de afastar-se de algo em que crava o seu olhar. Seus olhos estão arregalados, sua boca está aberta e suas asas estão estiradas. O anjo da história tem de parecer assim. Ele tem seu rosto voltado para o passado. Onde uma cadeia de eventos aparece diante de nós, ele enxerga uma única catástrofe, que sem cessar amontoa escombros sobre escombros e os arremessa a seus pés. Ele bem que gostaria de demorar-se, de despertar os mortos e juntar os destroços. Mas do paraíso sopra uma tempestade que se emaranhou em suas asas e é tão forte que o anjo não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, para o qual dá as costas, enquanto o amontoado de escombros diante dele cresce até o céu. O que nós chamamos de progresso é essa tempestade.
Alexandre Nodari em março 4, 2009 10:17 PM
Paulo Pereira em março 4, 2009 10:57 PM
#21
Obrigado, Alexandre, pela transcrição. Bela tradução também.
(embora "sopra uma tempestade" continua não me soando muito bem...)
Idelber em março 4, 2009 11:08 PM
#22
A Jeanne Marie é mais "linha dura". A tradução dela fica um alemão-em-português. Tem suas vantagens, como desvantagens (tem trechos que beiram ao ilegível). Por sua vez, as traduções do Rouanet são mais compreensíveis, mas às vezes se comprometem pela "licença poética". Abraço
Alexandre Nodari em março 5, 2009 12:03 AM
#23
Idelber, tem como transcrever pra gente a tradução do Pablo Oyarzún?
Alexandre Nodari em março 5, 2009 12:07 AM
#24
Oi, Alexandre, aí vai:
Pronta al vuelo está mi ala
gustosamente volvería atrás
pues si me quedase tiempo de vivir
mi suerte sería escasa
Hay un cuadro de Klee que se llama Angelus Novus. En él está representado un ángel que parece como si estuviese a punto de alejarse de algo que mira atónitamente. Sus ojos están desmesuradamente abiertos, abierta su boca, las alas tendidas. El ángel de la historia ha de tener ese aspecto. Tiene el rostro vuelto hacia el pasado. En lo que a nosotros nos aparece como una cadena de acontecimientos, él ve una sola catástrofe, que incesantemente apila ruina sobre ruina y se las arroja a sus pies. Bien quisiera demorarse, despertar a los muertos y volver a juntar lo destrozado. Pero una tempestad sopla desde el Paraíso, que se ha enredado en sus alas y es tan fuerte que el ángel ya no puede plegarlas. Esta tempestad lo arrastra irresistiblemente hacia el futuro, al que vuelve las espaldas, mientras el cúmulo de ruinas crece ante él hasta el cielo. Esta tempestad es lo que llamamos progreso.
Idelber em março 5, 2009 12:15 AM
#25
Acho que eu exagerei na licença poética com esbugalhados, né?
Realmente não é a melhor tradução para aufgerissen. A do Rouanet, arregalados, é melhor.
Mas eu adoro essa palavra, esbugalhados. Acho que Benjamin teria gostado também.
Idelber em março 5, 2009 12:19 AM
#26
Eu gostei. Foi o que mais me marcou na tua tradução inclusive. Arregalados é meio clichê demais não? Obrigado pela transcrição, realmente muito bonita. Abraço
Alexandre Nodari em março 5, 2009 12:39 AM
#27
Li um pouco de Benjamim na graduação e me lembro de não ter entendido quase nada. Principalmente "Paris, capital do século XIX". Não entendi nada.
Mas o Anjo, ah o Anjo da História. Adorei o Anjo. A pergunta que caiu na prova foi sobre ele, e tirei A com louvor.
Há!
Bela tradução, by the way, Idelber.
Danilo em março 5, 2009 7:25 AM