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Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



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quinta-feira, 30 de abril 2009

Esperanza Spalding

A cantora e baixista americana Esperanza Spalding revisita um dos cumes da canção popular do planeta:

Esperanza Spalding se apresenta amanhã no Jazz and Heritage Festival de New Orleans.

(hat tip: Chris Dunn)



  Escrito por Idelber às 20:17 | link para este post | Comentários (20)




Festival Internacional de Lafayette, 2009

Aconteceu no último fim de semana o Festival Internacional de Música de Lafayette, Louisiana, que coincide sempre com o primeiro fim de semana do JazzFest, em New Orleans. É uma escolha dura. Tenho preferido, nos últimos anos, pegar o carro e encarar as 120 milhas para ver o festival em Cajun Country. Não me arrependo. É só música de outros países e da Louisiana (para ver a programação completa, você terá que abrir este pdf). Aí vai um resumão do pouco que vi este ano. Não aguento mais ficar 8 horas ao ar livre escutando música. É a idade.

Na noite da sexta, Ana e eu chegamos a tempo de passar pelo rito de orgulho nacional, esgasgamento expatriado, cantoria em português e identificação de brazucas ao longe: o Ilê Aiyê tomou o palco. Vieram só 15 pessoas, claro. 12 percussionistas: a linha pesada atrás e outra linha com repeniques e caixas. Competiam com Alpha Yaya Diallo, o grande guitarrista e cantor da Guiné. Minha sensação é que manadas de gente se deslocaram de um palco para outro ao longo do show, atravessando a extensão do centrinho de Lafayette. O Ilê engoliu o grande artista africano.

Se você não gosta do Ilê – da música, ou do que eles representam, ou do que já fizeram --- ou, pior, se você não ouviu e não gostou, realmente eu sou bem cético quanto à possibilidade de diálogo entre nós dois. Eu nem coloco música do Ilê para escutar em casa. Mas vê-los me produz uma alegria profunda.

No sábado, a coisa começou para mim já à tarde, com o Chicha Libre, que vinha etiquetado como “cumbia peruana psicodélica”. Chegou-se a um momento na nomenclatura da música pop em que qualquer adjetivo pode significar qualquer coisa, então você tem que ir ver. O Chicha toma cumbia de tudo quanto é canto (trata-se de gênero com formas muito diferentes na Colômbia, na Argentina, no Peru etc.) e faz um pastiche pop mesmo. Há dois videozinhos vagabundos, feitos com minha Sony P200, mas dá para dar uma ideia do som:

Não gostei do afro pop de Dobet Gnahoré. A guitarra é aquela coisa: já ouvi antes e melhor em King Sunny Adé. Presença de palco não é o forte dela tampouco. Depois vi um pouco dos roqueiros lá de Lafayette mesmo, os Amazing Nuns. Gostei. Aprecio roqueiros que têm suíngue. Se são daqui, e sabem tocar bluegrass, conquistam meu coração mesmo. A música disponível lá no MySpace deles nem é grande coisa. O show é melhor.

Entre um sanduíche de jacaré e um pastel de lagostim (a comida nesse festival é todo um tema), eu guardava energia para o fechamento do sábado, que prometia: uma banda franco-árabe-africana com nome aludindo a literatura russa, Tarace Boulba.

Pu-ta-que-pa-riu.

O TB é um combo de hard funk, com uma verdadeira orquestra de sopros, super percussão e bailarinas(os). Transitam por sons do Mediterrâneo, por polirritmia subsaariana, pelo jazz, mas tudo sobre essa base sensacional que é o funk americano. Eu juro que cheguei a anotar mentalmente quantos trompetes, trombones etc. para descrever aqui. Exausto de sacudir o esqueleto e acompanhar o show, joguei fora as anotações mentais.

De novo, o vídeo é vagabundo, mas dá uma ideia da energia do show deles:



(aqui dá para ver uma jam sua e aqui um show, em vídeos de melhor qualidade)

Com o corpo triturado pelo Tarace Boulba, não houve jeito senão perder o show de Rachid Taha, da Argélia.

No domingo, pegamos leve. Só fomos mesmo conferir Rupa and the April Fishes, uma interessante banda de San Francisco liderada por uma indiana-americana que divide o tempo entre a guitarra e o estetoscópio. Linda, ela:

DSC04422.JPG


É bonito e de bom gosto o show deles. Baixo acústico, acordeão, bateria de leve e às vezes o violoncelo. Rupa alterna entre o violão e a guitarra. O repertório inclui de polcas a corridos e música de cabaré, mas com um tratamento bem deles. A vocalista, especialmente, é um emblema da globalização: indiana-americana, ela canta em francês e em espanhol.

Não sem antes ver um pouco de Dengue Fever, que é um rock do Camboja bem ruim, demos nosso último suspiro. Perdemos os shows do Roots Underground, da Jamaica, do Malajube de Québec e dos Crocodile Gumboot Dancers, da África do Sul.



  Escrito por Idelber às 06:26 | link para este post | Comentários (17)



terça-feira, 28 de abril 2009

Bacharelismo, Capanga e Gritos, de Francisco Foot Hardman

foot.jpg O texto que se segue é de autoria de meu amigo Francisco Foot Hardman, professor da UNICAMP. A foto é daqui.


O professor propôs aos alunos um exercício de crônica não presencial diante dos últimos acontecimentos. E sua pior aluna rabiscou mais ou menos o que segue.

Foi assim. Ele mirou-se no espelho e disse: “A Justiça sou Eu!...” Fez com convicção, ou melhor: sua autoconfiança no poder ilimitado que imaginava possuir já ultrapassara o nível da consciência racional. O presidente da suprema corte vivia em estado de transe, no trânsito livre entre os três poderes, no pontificado das meias-verdades sopradas como vento aos holofotes da mídia, no intervencionismo jurídico de todo dia, nas frases feitas do senso comum convertido em opinião abalizada, que se bastavam a si mesmas pelo tom e impostura própria de um magistrado que se sabe na terra dos coronéis-bacharéis. Palavras encenam o teatro de sentenças transadas em julgado. Tipo: “O país caminha celeremente para um Estado policial”. Ou então: “O gabinete de Justiça-sou-eu foi grampeado”.

E era assim um festejo para os fabricantes de fatos. Prejulgamento, antecipação de voto, opiniões assertivas sobre o legislativo e o executivo, pitos de bedel endereçados ao presidente da República e a ministros de Estado. Vinha esse novo chefe máximo da magistratura superando-se a cada dia, no sentido de fazer do terceiro poder o primeiro em protagonismo e também em cinismo. Batera alguns recordes de antecessores no atendimento a recursos de habeas corpus de mandões. Se a lei se arrepiasse como gato na tuba, se juízes do “baixo clero” chiassem, se a opinião pública se chocasse, que importa? “Lex, ora lex!... La Justice, c’est moi!...”, repetia o Chefe diante do espelho, misturando verbo e idiomas, mas ainda sumamente convicto, mesmo que a imagem já surgisse manchada por fungos invasores que teimavam em assolar a mansão do Grande Lago e turvar a reflexão em estado puro do enorme espelho funcional... Isso já um pouco ébrio, é verdade, ébrio do poder quase soberano que abocanhara, mas também da dose dupla que lhe pusera na mão um dos capangas.

- Capanga?!!! Mas que anacronismo, senhor Presidente!... O senhor não tem moral para falar em capanga. Aliás, se capangas há em algumas províncias do interior profundo, isso são reminiscências de priscas eras e malvados costumes. Atrasos inevitáveis de país tão vasto e desigual. Eu lhe garanto, e aqui fala um estudioso da história do Brasil, não há capangas em Brasília. Houve candangos, Vossa Excelência confunde!... Capangas no more, aliás nunca, never. Em Brasília, Paraíso do Paralelo 15, somente homens de bem. De bem com a vida. Capazes, muito capazes. Jamais capangas.

- E mais: se a impunidade dos donos do poder é regra, isso não é culpa do Judiciário, nem do Supremo Teatro Federal. Aqui seguimos apenas à risca os mínimos ritos. Desarrepiem-se súmulas e acórdãos. Verifiquem-se. Cumpra-se. Ritos sumários quando se trata do benefício a homens de bem, porque acima de tudo os indíviduos e seus direitos. E sumidos quando se trata da sociedade, porque abaixo de tudo os elementos, os comboios de desvalidos amontoados no anonimato da vida nua. Ritos sumidos. Há já farta jurisprudência a colecionar.

E para conter a fúria punitiva de rábulas, de procuradores insensatos, de Ministério Público “populista”, nada melhor que um Pacto Republicano consignado com os presidentes desmoralizados do Senado e da Câmara, com o presidente da República para quem os conflitos mais profundos da política e da sociedade cabem todos na sempre idêntica e arquigasta metáfora futebolística. Se futebol é nossa segunda natureza, tudo que se pode parecer a ele é bom para o “funcionamento da democracia”. Com o pacto, blinda-se o fosso que já separa secularmente poder e sociedade. Reforçam-se as ameias dessa Brasília autista. Inalcançável para as massas, que permanecerão sem biscoito fino, excluídas da cidadela, no limbo da pré-cidadania. Cerra-se o pacto e do lado de fora os patos ficam, os bestializados de ontem e de agora.

Mas na manhã de um aniversário melancólico, quando Justiça-sou-eu acordou sem sessão plenária para celebrar seu primeiro ano de pontificiado, o espelho funcional amanheceu trincado numa das bordas. E ao mirar-se para a pergunta de praxe: “Espelho, espelho meu, há alguém mais justo que eu?!...”, viu num átimo que sua cara desaparecera, e lá despontava do país-além-dos-espelhos um rosto negro, sóbrio, severo, que apesar dos olhos diminuídos pela miopia guardava olhar gigante, e uma voz altiva, passionária, desrespeitosa, anti-bacharelesca, voz que ressoava sim a das ruas, mas não dispersa como esta, antes compacta, voz que talvez destampasse a fúria de séculos de opressão, e portanto assustadora porque deslocada, estranha na sua presença naquele puro reflexo, naquele relâmpago fugaz, e incômoda e precisa e repetida e tão desrespeitosa como a imagem do homem negro que a pronunciava: “- Respeito!...”

E lá na longínqua Roraima, nas terras da Raposa do Sol, indígenas brasileiros dançavam em círculo ao anoitecer daquele dia, renovando o rito suado de sua milagrosa sobrevivência.

E pela internet multidões de correspondentes trocavam excelências. Sabiam ainda, muitos, recitar essas antigas cantigas fúnebres. Com todo o respeito. Não se enterravam pessoas. O cadáver desta feita era o da suprema comédia federal. Comédia macabra dos podres poderes. Bacharelismo, capanga e gritos. Excelências revezaram-se por toda a noite.

Justiça-sou-eu resolveu deitar mais cedo. Estava macambúzio. Bebera um trago a mais. Iniciativa própria. Sonhou com capangas.


Por Francisco Foot Hardman
Escrito inicialmente para o jornal O Estado de S. Paulo, este artigo permanece inédito.



  Escrito por Idelber às 22:16 | link para este post | Comentários (16)




Dois convites

Estarei em dois eventos acadêmicos que acontecem no Brasil em junho.

O 28° Congresso Internacional da Latin American Studies Association se realiza entre 11 e 14 de junho na Maravilhosa Inigualável, mais exatamente na PUC, ali na Gávea. A LASA é a associação que congrega, a priori, todo mundo que estuda a América Latina (Brasil incluído, claro) em qualquer disciplina. Começou como uma associação bem gringa mesmo. Na última década e meia, legiões de acadêmicos latinoamericanos se filiaram. Com a insana política de vistos da administração Bush, a LASA passou a fazer seus congressos fora dos EUA, a partir de 2007, em Montréal. O Congresso do Rio será a primeira vez que a LASA se reúne na América do Sul. É um treco gigantesco, sei lá, 10.000 pessoas. O programa preliminar lhe dá uma ideia da dimensão. Se você é carioca e aprecia vida inteligente, em qualquer disciplina, reserve um tempinho para fuçar esse programa e escolher algo para assistir.

A LASA me pediu que organizasse uma mesa-redonda sobre o diálogo Brasil / Cone Sul. Ela terá lugar na quinta, 11 de junho, das 17:00 às 18:45 (Sala L454 – Leme). Modéstia às favas, reuni um time de peso: Mauricio Santoro, Gonzalo Aguilar, Maria Esther Maciel e Alejandro Grimson me acompanharão no papo. Não haverá leitura de trabalhos. São apresentações informais, estilo mesa redonda, de 15 minutos cada um. Depois uma discussão aberta com o público.

Eu apresento comunicação também na sexta, dia 12, às 17 horas (Sala K103 - Kennedy), numa mesa sobre direitos humanos, organizada pela amiga Leila Lehnen. O marco da discussão do meu trabalho serão os direitos humanos na era pós-Guantánamo.

Uma semana e meia depois, dia 24 de junho, terei a honra de abrir um congresso internacional realizado pela Universidade Federal da Grande Dourados, no Mato Grosso do Sul. O babado começa às 19 h no Auditório da Reitoria. Apresentarei outra parte dessa pesquisa mais recente minha, sobre masculinidade na ficção. Compõem a mesa comigo o Prof. Camilo Fernández Cozman (Universidad Nacional Mayor de San Marcos e Universidad San Ignacio de Loyola, do Peru), que vai falar de poesia, e o Prof. Miguel Ángel Fernández (Universidad de Asunción), que vai falar de bilinguismo na literatura paraguaia. Está bacaníssimo o congresso, que segue até o sábado dia 26. Minha conterrânea e ex-professora Ivety Lara Walty (UFMG) estará por lá também.

Se você se encontra, digamos, em algum ponto entre Goiás e o Paraguai, e quiser dar uma esticada até Dourados, fica aí o toque. Agradeço mesmo o convite, que me chegou pelo Prof. Paulo Nolasco. O Mato Grosso do Sul é um dos poucos estados da Federação que eu ainda não conheço -- e, com certeza, é o que mais me enche a boca d'água. Vejamos quanto tempo terei para aproveitar.

Em todo caso, galera do sudeste, marque aí o calendário para o congresso da LASA no Rio. É imperdível. Dá para passar três dias assistindo trabalhos sobre a economia do plantio de soja na América Latina. Ou arte abstrata mexicana. Ou a crise da mídia. Ou feminismo. Ou literatura brasileira. Ou qualquer coisa. É um museu de tudo.



  Escrito por Idelber às 19:47 | link para este post | Comentários (13)




A estreia do Pandorama

logo.pngA partir de ontem, este blog passou a fazer parte de um coletivo. Não exatamente um portal, mas uma comunidade em rede. Aceitei o convite de Pedro Doria para compor o Pandorama. Dar as boas vindas ao projeto e explicar aos leitores o que muda e o que não muda são os objetivos destas linhas.

Em primeiro lugar, acho que seria elegante agradecer aos portais Verbeat, Interney e Pensador Selvagem que, em diferentes momentos, me convidaram a fazer parte de jovens equipes dentro das quais, com certeza, eu teria me sentido bem à vontade. Sempre preferi continuar blogando solo, basicamente porque estou disposto a me meter em vários balacobacos aos que não gostaria de arrastar ninguém. Não seria legal colocar um portal inteiro em risco porque, por exemplo, decidi cometer desobediência civil-eletrônica e hospedar os materiais censurados do Professor Potel. Esse foi o meu motivo básico para sempre querer manter esta URL. O convite do Pandorama me permite fazer parte de um coletivo e ao mesmo tempo preservar a URL do Biscoito.

Aceito com prazer o convite do Pandorama porque 1) apesar de discordar dele em muito do que se debate em nossos blogs, confio no tino do Pedro para fazer as coisas acontecerem na internet; 2) o Pandorama não é um portal, ou seja, você continuará visitando o mesmo espaço: idelberavelar.com. Nada muda nos feeds tampouco. A diferença é que os posts se reproduzirão lá também; 3) para quem mantém um blog com domínio próprio, de crescimento constante durante anos, como é o Biscoito, vai se formando um círculo vicioso nada agradável: quanto mais o blog cresce, mais você paga. No contexto do Pandorama, serão veiculados aí acima uns anúncios que ajudarão na manutenção do blog e, oxalá, nalguma cerveja.

Eu jamais havia aderido ao AdSense, por exemplo, não por purismo, como algumas bobas discussões entre blogueiros “profissionais” versus “não-profissionais” às vezes sugeriam ser o problema para todo mundo necessariamente. No meu caso, era porque o AdSense embute anúncios a partir de palavras-chave. Você escreve um texto desancando a ocupação israelense da Palestina, vai dormir e acorda com um post seu ilustrado por um banner do Ministério de Turismo israelense. Aí não dá. Nunca topei por isso.

Os anúncios do Pandorama serão diferentes. Cada anúncio será aprovado por cada blogueiro, com sua total independência. Desde já, me comprometo com os leitores a não veicular quaisquer anúncios de: 1) entidade estatal ou privada implicada na ocupação da Palestina; 2) parte dos decadentes impérios dos Civita, dos Marinho, dos Frias; 3) armas; 4) conteúdo racista, homofóbico ou sexista; 5) armazém dos Perrella.

Fora isso, a gente conversa.

O Pandorama já tem um espaço de discussão, ainda em processo de se ajeitar. Além da confiança no Pedro e no formato flexível dos anúncios, meu outro motivo para aceitar o convite foi a qualidade do time. Fazem parte do Pandorama um decano do jornalismo político brasileiro, Villas-Bôas Corrêa, a grande poeta Alice Ruiz e o poeta e pensador Antonio Cícero, entre outros. É um time de que me orgulho fazer parte. Não o unifica absolutamente nada, acredito eu, exceto uma mínima qualidade de texto, que todos têm, sem dúvida. Da turma toda, acho que sou o único inequívoca e claramente associado com a esquerda. Mas me senti bem por lá.

Vamos ver até onde chega. Se ganharmos grana de verdade, reservarei uns 20% para o chope com os leitores.



  Escrito por Idelber às 08:01 | link para este post | Comentários (42)



segunda-feira, 27 de abril 2009

Como os leitores são tratados pelos semanários brasileiros

Duas comunicações recentes de leitores brasileiros com grandes semanários do país mostram como é grave a crise de credibilidade da imprensa. A primeira aconteceu com Paulo Morais, meu concunhado, que compartilhou com o blog uma inacreditável correspondência que manteve com o responsável pela coluna "Filtro", na Revista Época. A segunda aconteceu entre membros da comunidade científica brasileira e a Revista Veja.

No dia 21 de julho passado, a coluna Filtro, da Época, trouxe observações sobre a Seleção Brasileira de futebol sob o título “as análises e opiniões que interessam para entender o Brasil e o mundo”. Como as tais opiniões e análises eram todas estrangeiras, o Paulo escreveu o seguinte email:


Prezado editor,

Até tento, mas não consigo entender os critérios de filtragem de opinião da coluna "O Filtro", da seção Primeiro Plano. Esta semana (edição de 21 de julho) traz opiniões da New Yorker, The Economist, Newsweek e Time. É essa mesmo a opinião que interessa para nós brasileiros entendermos o Brasil? Faz sentido uma página de revista brasileira dizer que traz "as opiniões e análises que importam para entender o Brasil" e nos mostrar a opinião e as análises que os norte-americanos fazem de nós? O que leva uma revista das mais importantes da imprensa brasileira reproduzir fielmente o discurso estrangeiro, eleveando-a gratuitamente à condição de "opinião que interessa"?

O pior não é isso. A coluna desta semana traz a questão da seleção brasileira ocupada por jogadores que atuam no exterior. Precisa dessa notícia sair na Time para ela ser considerada uma "análise que interessa para entender o Brasil e o Mundo"? Desde pelo menos uns 10 anos a debandada de jogadores tem sido generalizada, mas só quando o assunto ganha destaque na mídia dos Estados Unidos, ela interessa para o Brasil. Será que é isso mesmo?

A Time diz que "O Brasil quer sua seleção de volta". E eu, mero brasileiro, digo: "Quero nossa imprensa de volta".

Sobre a seção "Mente Aberta", nem vou comentar. Já deixei de ler, pois já não há nada de brasileiro por ali.

Atenciosamente,
Paulo Morais
Luminárias (MG) – Brasil


No dia seguinte, o Paulo recebe por engano um email do editor da coluna, Juliano Machado, dirigido a outrem. A missiva dizia o seguinte:


André, tudo bem?
 
Recebi o e-mail abaixo sobre o Filtro. Quero responder ao leitor, mas não sei se devo abrir o jog sobre como escolhemos as notas da seção. O cara tem certa razão quando questiona a linha-fina de apresentação ("As opiniões e análises que importam para entender o Brasil e o mundo").
 
Abraço,
Juliano


Logo em seguida, o Paulo recebe outro email, de novo do editor da coluna, agora dando-se conta do que tinha feito e tentando consertar:


Caro Paulo,
 
Desculpe pelo estranho e-mail enviado anteriormente. Imagino que o senhor tenha estranhado a história do "abrir o jogo" sobre a forma como são escolhidas as notas do Filtro, mas quero desfazer qualquer eventual impressão de que exista algo "encomendado" para citar este ou aquele veículo. A grande questão do Filtro (e que talvez, de fato, não fique clara naquela frase de apresentação "as opiniões e análises que importam...") é mostrar o que os grandes veículos da mídia internacional estão falando sobre o Brasil. Ou seja, o que está sendo falado sobre o Brasil nos grandes centros mundiais, além de algumas análises da geopolítica internacional. Portanto, sempre vai haver referências aos veículos americanos e britânicos, certamente os que mais repercutem na política e economia globais. 
 
De fato, nossa frase de apresentação da seção não está de acordo com o propósito do Filtro, e até o editor-executivo da revista está sugerindo que o texto seja reescrito. Dessa forma, o objetivo do Filtro ficaria mais claro. Portanto, é bem provável que, na próxima edição, isso já seja feito.
 
Obrigado pela sua pertinente observação.
 
Um abraço,
Juliano Machado


Paulo, evidentemente, nem havia pensado em nenhuma mutreta escondida que descobrir. Ele simplesmente fizera a observação de que não é muito apropriado ter um filtro de imprensa estrangeira com o subtítulo “as opiniões e análises que interessam para entender o Brasil”. O email enviado pelo jornalista para um colega seu sugere que há algo na escolha do material da coluna sobre o qual ele não poderia “abrir o jogo”. O que será? Terá o jornalista alguma explicação? Não seria legal que, agora que a trapalhada foi revelada publicamente, ele abra o jogo? Porque essa emenda aí ficou bem pior que o soneto.


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O outro caso explícito de combinação entre arrogância e ignorância, tremendo despreparo e total descaso com o leitor aconteceu na matéria sobre genética publicada pela Revista Veja na semana retrasada. O Ricardo Vêncio, do Laboratório de Processamento de Informação Biológica da USP Ribeirão, escreveu o seguinte email para a revista:

Caros da Veja,

Apesar do texto da reportagem sobre Genética da última edição estar muito bom, incluindo até conceitos da emergente Biologia Sistêmica, a figura que mostra a sequência: "célula - DNA - gene" induz o leitor a erros conceituais graves:

1) A interação entre as duas fitas da hélice de DNA está ilustrada como algumas bolinhas em seqüencia, dando a impressão que são átomos, partículas ou coisa que o valha. Essas ligações são chamadas "pontes de hidrogênio" e, na verdade, são atrações entre átomos que estão nas duas fitas. Uma linha tracejada ou algo do tipo seria uma ilustração adequada enquanto que bolinhas induzindo o leitor a imaginar uma cordinha ou corrente ou algo assim, definitivamente não. Uma boa ilustração pode ser encontrada, por exemplo, aqui.

2) A figura induz o leitor a imaginar que os genes estão nas "pontes de hidrogênio", o que está completamente errado. Uma ilustração melhor pode ser encontrada, por exemplo, aqui.

Acho importante que uma errata seja publicada na próxima edição, uma vez que não são errinhos sem importância, mas sim falhas conceituais graves, principalmente se lembrarmos que esta edição foi publicada logo depois daquele sobre Vestibulares.

Obrigado.

Veja_fail.jpg
O DNA da Veja

O email apontava dois erros na reportagem, sendo um deles bastante grave. Caramba, até eu sei que genes são feitos de pedaços de DNA e não de pontes de hidrogênio! Resposta da Revista Veja? Caiam de costas:


Prezado Ricardo Z. N. Vêncio,

Agradecemos as observações sobre a reportagem "Um gene, várias doenças" (22 de abril de 2009 - página 98). Consultamos os jornalistas responsáveis pela reportagem. Eles nos forneceram os seguintes esclarecimentos: "Por não ser uma revista científica, VEJA pode sim representar os genes como bolinhas. Cometeríamos erro se tivéssemos trocado os genes pelo DNA ou coisas do gênero. As imagens publicadas foram obtidas em bancos de imagens e estão identificadas da mesma forma como aparecem em VEJA."

Atenciosamente,

Redação/Revista VEJA (www.veja.com.br) .


Vejam a petulância da resposta. Tudo ali tem a cara da revista: a exibição de ignorância, a justificativa furada para o erro mais crasso, o tom desqualificador a uma correção polida que havia chegado de um especialista, a inacreditável afirmativa de que como “não é uma revista científica”, Veja pode traficar informação equivocada, a incapacidade até mesmo de reconhecer qual era a crítica, que evidentemente não era às bolinhas em si.

Para completar o vexame, um leitor descobriu um parágrafo inteiro plagiado do Wall Street Journal na mesma reportagem. Avisada por ele da fonte do texto, a reportagem respondeu de novo com arrogância e mentiu, referindo a informação a um pesquisador da Pensilvânia. O leitor contactou o pesquisador americano e desmascarou a farsa. Como se vê, não são só grampos que a Veja inventa.

Esse descaso e prepotência semianalfabeta sempre foram marcas registradas da grande imprensa brasileira. A diferença é que agora isso vem às claras com cada vez mais frequência, para um público cada vez mais amplo. Acelerar a decadência, a putrefação, a inevitável morte desse lixo é tarefa ineludível. Se você ainda tem algum amigo ou parente que assina, mãos à obra.



  Escrito por Idelber às 06:23 | link para este post | Comentários (72)



sábado, 25 de abril 2009

Links de domingo

Veja que baita coleção fotográfica da pré- e da pós-história das sufragistas:

sufra.jpg



e, no mesmo blog, a linda coleção de imagens de Maio 68:

mai.jpg

(diga do Tiagón no Google Reader, onde ele e Ju Sampaio são pastores e nada nos falta).

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Também por dica do Tiagón cheguei neste suculento blog sobre carne argentina; caçando algo parecido em português, achei esse post com fotos, nomes e descrições.

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Nelson Moraes tem uma peculiaridade: cada momento da tecnologia é registrado em seu blog com um post inesquecível.

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Tão bom como o post do Nelson foi o texto com a frase mais lapidar que li esta semana nos blogs: saiba quem é o homem que desmoralizou o bigode como símbolo de decência.

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Acerca de mais um imbróglio provocado pela truculência do presidente do STF, os textos que mais me tocaram foram reflexões bem pessoais: a Aline sobre a risada do Gilmar e o Thiago sobre uma experiência em sala de aula.

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Vale a pena ler o texto do Marcelo Träsel sobre a Lei Rouanet. Temazinho tinhoso, esse.

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A última do Marconi: Tô um problema de fulguras, doutor. Crônica da melhor qualidade.


Gostei muito da entrevista com Antoni Domènech publicada pela Agência Carta Maior. Não concordo com tudo, e a caracterização que ele faz das ciências humanas de hoje poderia ter um pouco mais de nuance. Mas é uma bela leitura das encruzilhadas da esquerda hoje em dia.

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E não é que na lamentável condenação aos garotos do Pirate Bay, o juiz tinha um flagrante conflito de interesses?



  Escrito por Idelber às 04:45 | link para este post | Comentários (34)



sexta-feira, 24 de abril 2009

Estante de Walter Benjamin

DSC04394.JPG

Bom, parece que havia interesse em prateleiras de não ficção. Esta é a que fica imediatamente ao meu lado esquerdo, com os livros de e sobre Walter Benjamin.

Do lado direito, dois exemplares dos oximoros do Brasil: a primeira longa e competente exegese desse ensaísta errático que revolucionou o pensamento de esquerda foi feita pelo grande intelectual humanista que teve a direita brasileira em décadas passadas. Falo, claro, do Arte e sociedade em Marcuse, Adorno e Benjamin, de José Guilherme Merquior (ed. 1969).

Segundo oximoro brasileiro-benjaminiano: uma das abordagens mais sistemáticas a Benjamin que se seguiriam foi feita por .... um ministro de Fernando Collor de Mello, Sérgio Paulo Rouanet. O édipo e o anjo e As razões do iluminismo estão aí (este último é só parcialmente sobre Benjamin).

O xerox encadernado é a edição francesa do Livro das Passagens, com a qual trabalhei muito, antes de que saísse a tradução inglesa, também aí na prateleira, e a magnífica versão da UFMG, que ainda não comprei. Fininha, ao lado de Rouanet, a tradução feita por meu amigo Marcio Seligmann-Silva d' O conceito de crítica de arte no Romantismo alemão, a tese de doutorado de Benjamin. Também fininha, vermelha, aquela que eu reputo ser a mais magnífica tradução de fragmentos de Benjamin, a compilação Dialéctica en suspenso feita pelo amigo Pablo Oyarzún no Chile.

Para atiçar a sua curiosidade e suas habilidades googladoras, aí vão dicas para que se complete o post. Além das traduções de Benjamin que você vê aí, há nessa prateleira mais quatro livros brasileiros sobre Benjamin, escritos por três magnifícas ensaístas brasileiras (bem, uma delas por adoção). Do lado direito, deitado, no meio da pilha de três, a tradução inglesa das memórias mais poéticas já escritas sobre Benjamin. Há também três livros que representam as duas escolas que se degladiam na fortuna crítica angloamericana. Há um belo livro sobre fotografia e um esbelto e indispensável volume escrito por dois holandeses. E há um romance sobre a morte de Walter Benjamin, essa incrível alegoria do nosso tempo.



  Escrito por Idelber às 17:34 | link para este post | Comentários (24)




O empresário Gilmar Mendes, por Leandro Fortes

É importante apoiar, reproduzir e circular o trabalho daqueles que estão fazendo genuíno jornalismo investigativo no Brasil. Eles são tão poucos! O post de hoje é um pequeno reconhecimento do trabalho de um deles, Leandro Fortes. Quebra-se hoje, pois, a regra tácita deste blog, de não reproduzir textos alheios na íntegra. Mas é que esta reportagem de Leandro Fortes, publicada originalmente em Carta Capital, 05/10/2008, merece ser lida de novo. Aí vai, completa. (daqui)


CARTA CAPITAL - 05/10/2008

"Quem quiser ficar rico, não vá ser juiz"

João Batista de Arruda Sampaio, desembargador e jurista (1902-1987)


Por Leandro Fortes

Colaboraram Filipe Coutinho e Phydia de Atahyde

Desde que veio à tona a história do suposto grampo de uma conversa com o senador Demóstenes Torres (DEM-GO), o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, galvanizou os anseios de uma parte da sociedade que enxerga nos ministros de tribunais superiores a chance de controlar o poder negado nas urnas em eleições recentes. Como "vítima" de uma interceptação ilegal até agora não comprovada, Mendes acabou alçado à condição de paladino do Estado de Direito, dos valores republicanos e, por que não, da moralidade pública.

O episódio exacerbou uma tendência crescente do STF, a de interferir além dos limites de sua atribuição na vida dos demais poderes. Coube a Mendes chegar ao extremo, quando chamou "às falas" o presidente da República por conta da mal-ajambrada denúncia do tal grampo. O Congresso, a Polícia Federal, os juízes de primeira instância, o Ministério Público, ninguém escapa da fúria fiscalizadora do magistrado que ocupa o principal cargo do Poder Judiciário no Brasil.

Quem tem a pretensão e o pendor para "varão de Plutarco", presume-se, segue à risca na vida particular os padrões morais que prega aos concidadãos. Não parece ser este o caso de Mendes. A começar pela sua participação no controle acionário do Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP). Há de cara um conflito ético, ainda que as regras da magistratura não sejam claras o suficiente sobre a permissão de juízes possuírem negócios. Criado em 1998, o IDP organiza palestras, seminários e treinamento de pessoal, além de oferecer cursos superiores de graduação e pós-graduação. Entre 2000 e 2008, faturou cerca de 2,4 milhões de reais em contratos com órgãos ligados ao governo federal, todos firmados sem licitação. No quadro de professores contratados pelo instituto figuram ministros de Estado e dos tribunais superiores, e advogados renomados, vários deles defendendo clientes com ações que tramitam no STF presidido por Mendes.

A Lei Orgânica da Magistratura deixa dúvidas sobre os limites da atuação de juízes além dos tribunais. O parágrafo 2º do artigo 36 diz ser vedado exercer cargo de direção ou técnico de sociedade civil, caso do IDP, mas nada diz sobre possuir ações ou cotas do empreendimento. Magistrados mais antigos sempre interpretaram que a lei só permite ao juiz dar aulas remuneradas, nada mais. A visão tem mudado. Estudiosos do Direito como David Teixeira de Azevedo, professor da Universidade de São Paulo, e Dalmo Dallari, professor aposentado da USP, afirmam que não há nada na legislação que proíba expressamente a participação societária em empresas privadas. "É preciso ver, porém, se o juiz se valeu de sua condição para obter qualquer tipo de benefício."

O que se pode dizer do IDP é que gravitam ao seu redor nomes de peso da República. O corpo docente é formado por 87 professores, entre eles dois ministros do governo Lula, Nelson Jobim (Defesa) e Jorge Hage (Controladoria-Geral da União). Eventualmente dão palestra no instituto, José Antônio Toffoli, advogado-geral da União, e Mangabeira Unger, do Planejamento Estratégico. Unger, por exemplo, esteve lá na quinta-feira 2, na abertura do 11º Congresso Brasiliense de Direito Constitucional.

Vários dos colegas de tribunal também são docentes do instituto: Carlos Alberto Direito, Carlos Ayres Britto, Carmem Lúcia Rocha, Eros Grau e Marco Aurélio Mello. Há ainda diversos titulares do Superior Tribunal de Justiça.

O presidente do STF tem dois sócios na escola. Um deles é o procurador regional da República Paulo Gustavo Gonet Branco, o outro, o advogado lnocêncio Mártires Coelho, último procurador-geral da República da ditadura, nomeado pelo general-presidente João Baptista Figueiredo, em junho de 1981. De acordo com a junta Comercial do DF, cada sócio desembolsou 402 mil reais, num total de 1, 2 milhão de reais, para fundar o IDP.

O investimento parece ter dado frutos. O IDP mantém, por exemplo, contrato com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), atualmente presidido por Carlos Ayres Britto, que substituiu na função Marco Aurélio Mello. Já o faturamento em contratos com a União cresceu após Mendes ter sido nomeado ministro do Supremo. De 2003 para cá, o valor somou 1, 6 milhão de reais, segundo dados disponíveis no site Contas Abertas (www. contasabertas. com. br). O mês de setembro foi particularmente pródigo: 350 mil reais em convênios. Todos, repita-se, firmados sem licitação.

No Portal da Transparência da CGU. mantido pelo governo federal, há dados interessantes sobre os contratos do instituto. Dentro das guias de pagamento do portal, aparece um acordo com a Receita Federal até para trabalho aduaneiro.

Têm sido comuns também contratos com a Força Aérea Brasileira. Tanto interesse da FAB nas consultorias do instituto do ministro Gilmar Mendes tem uma razão de ser. O diretor geral do IDP é um experiente coronel da reserva da Aeronáutica, Luiz Fernandes de Oliveira, segundo ele mesmo, com carta-branca dos sócios para fazer tudo, "menos fechar o IDP". Aviador por formação, com cursos de administração pública na Fundação Getúlio Vargas e de Ciências Políticas Militares, no Exército, o coronel Fernandes é um velho conhecido do brigadeiro Juniti Salto, com quem trabalhou na FAB. Bem articulado, o diretor-geral fechou bons contratos para o IDP, e não somente na Aeronáutica.

Os valores recebidos da União pelo IDP, em 2008, devem-se, sobretudo, a três contratos firmados com o Senado Federal, o STJ e a Receita Federal. Do Senado, o instituto do ministro Mendes recebeu 125 mil reais, para ministrar um curso de Direito Constitucional para "consultores e demais servidores" da Casa. No STJ, o curso é de Direito Tributário, voltado para servidores lotados em gabinetes de ministros, ao custo de 88, 2 mil reais. E, finalmente, da Receita Federal o IDP recebeu 117, 9 mil reais para também aplicar um curso de Direito Tributário a funcionários do órgão.

Pelo Portal da Transparência é possível saber que a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional contratou o IDP para gerir o programa de "Recuperação de Créditos e Defesa da Fazenda Nacional", por 11 mil reais. O interessante é que, entre os professores do IDP, há três procuradores da Fazenda Nacional: Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy, José Levi Mello do Amaral Júnior e Rodrigo Pereira de Mello.

Há mais. Em 2006, a Receita Federal pagou 16 mil reais ao IDP na rubrica "Administração do Programa" e "Arrecadação Tributária e Aduaneira" do Aeroporto de Brasília. Segundo a assessoria do órgão, a Receita pagou curso de pós-graduação em Direito Tributário a servidores. Na mesma linha, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) do MEC pagou 58 mil reais ao IDP para "Controle e Inspeção da Arrecadação do Salário-educação e sua Regular Aplicação" dentro do programa de Gestão da Política de Educação.

Os cursos oferecidos pelo IDP também foram contratados pela Procuradoria-Geral do Distrito Federal (PGDF), que pagou 690 mil reais para oferecer a 92 procuradores do DF pós-graduação em Direito Público, entre março de 2006 e junho de 2007. Assim como nos outros contratos, a licitação foi considerada "inexigível". No período em que Jobim presidiu o STF, entre 2005 e 2006, o tribunal gastou quase 50 mil reais em cursos e eventos oferecidos pelo instituto de Mendes, tudo sem licitação, na modalidade "inexigível", ou seja, a partir do pressuposto de não haver outra entidade capaz de prestar serviços semelhantes. De fato, ao congregar quase uma centena de advogados, ministros, promotores, juízes, auditores, procuradores e auditores no corpo docente do IDP, Gilmar Mendes praticamente anulou a possibilidade de surgirem outras instituições capazes de prestar os mesmos serviços em Brasília.

Em 2006, reportagem do jornal O Globo denunciou uma das relações estranhas do IDP com o STF. Então presidente interino do Supremo (a titular, Ellen Gracie Northfleet, estava de licença médica), a única saída de Mendes foi transformar em "bolsa de estudos" um empenho de 3, 6 mil reais referente a um curso de mestrado em Ações Constitucionais ministrado pelo IDP a três funcionários do Supremo. Ao se justificar, o ministro alegou não ter havido irregularidade porque cabia aos servidores escolher o curso e a escola onde pretendiam fazer as especializações. Só se esqueceu de dizer que, como o IDP tem o monopólio desses cursos em Brasília, o instituto não só foi o escolhido como, claro, caiu na modalidade "inexigível" de licitação.

Ainda assim, as poucas tentativas de impedir o presidente do STF de usar de influência para conseguir contratos no governo, até hoje, foram em vão. A primeira delas ocorreu em abril de 2002, pouco antes de ele ser nomeado ao STF, quando o Ministério Público Federal instaurou uma ação de improbidade administrativa justamente por Mendes ter contratado o IDP para dar cursos no órgão do qual era o principal dirigente, a Advocacia-Geral da União. No STF, onde o caso foi parar, a ministra Ellen Gracie (indicada por Jobim, referendada por FHC) decidiu pelo arquivamento da ação. O Supremo nem sequer analisou um recurso do procurador-geral da República, Antônio Fernando de Souza, contra a decisão.

A sede do IDP é um amplo prédio de quatro andares, onde, segundo o site do instituto, há 22 salas de aula "amplas e confortáveis", uma biblioteca informatizada (não é verdade), um foyer para realização de eventos acadêmicos, um auditório com capacidade para 240 espectadores (ainda em construção) e estacionamentos interno e externo (neste caso, trata-se das ruas ao redor da escola). Na fachada do edifício há uma placa na qual se lê: "Empreendimento financiado com recursos do Fundo Constitucional do Centro Oeste FCO". Trata-se de dinheiro gerenciado pelo Banco do Brasil, a partir de um contrato fechado durante um churrasco na laje do IDP, em 2006, quando o prédio ainda não estava pronto.

Antes, um pouco de história. O IDP começou a funcionar, em 1998, na casa do ex-procurador-geral Inocêncio Coelho, no Lago Sul, uma área de casarões em Brasília. As aulas ocorriam em uma só sala, mas, com o aumento da procura pelos alunos, os três sócios acharam por bem procurar outro lugar. Em 2004, encontraram um terreno de 2, 5 mil metros quadrados na Quadra 607 da avenida L2 Sul, ao preço de 2, 2 milhões de reais.

Para viabilizar a compra, o grupo recorreu, então, ao Programa de Promoção do Desenvolvimento Econômico Integrado e Sustentável (Pró-DF II), criado pelo ex-governador Joaquim Roriz (PMDB). O Pró-DF II tem corno objetivo gerar emprego e renda a partir de benefícios fiscais dados aos empresários, principalmente os de pequeno porte. Para isso, o governo do Distrito Federal diminui impostos e dá descontos de até 80% no valor do terreno a ser utilizado pelo empresário. O subsecretário do programa, Engels Rego, não sabe explicar como o IDP foi enquadrado na rubrica de "setor produtivo".

De acordo com o subsecretário, pelos parâmetros atuais, definidos no governo Arruda, o IDP não teria recebido um terreno na L2 Sul, área central do Plano Piloto de Brasília, onde praticamente não há mais espaços disponíveis. "A política da secretaria nessa gestão é incentivar o setor produtivo nas regiões administrativas, para desafogar o Plano Piloto e desenvolver as outras áreas da cidade", afirma.

Autor de uma ação direta de inconstitucionalidade (Adin) contra o Pró-DF II, por não concordar com a política de composição do conselho deliberativo do programa, o presidente da Federação das Micro e Pequenas Empresas do Distrito Federal (Fempe-DF), Sebastião Gabriel de Oliveira, conta jamais ter visto um micro e pequeno empresário local conseguir terreno no Plano Piloto, como o do prédio do IDP. "As micro e pequenas empresas nunca tiveram esse privilégio, a gente não tem cacife para isso", garante.

Os trés sócios do IDP assinaram o contrato com o Pró-DF II em 1° de setembro de 2004, quando Mendes já estava no STF. Os donos do instituto conseguiram enquadrar o negócio nos parâmetros do programa do governo distrital e obtiveram, ao fim do processo, o maior desconto possível, de 80%. Assim, o terreno, cujo preço original era de 2, 2 milhões de reais, foi financiado, em cinco anos, por 440 mil reais - o preço de um apartamento de quatro quartos, no mesmo bairro.

A boa estrela, digamos, do IDP não parou de brilhar por aí. Em fevereiro de 2005, quando se iniciaram as obras no terreno da L2 Sul, o caixa do instituto, segundo o diretor-geral Luiz Fernandes, dispunha de 3 milhões de reais. O dinheiro, diz ele, não era suficiente para levantar o prédio totalmente, razão pela qual Fernandes teve de correr atrás de um empréstimo, inicialmente, sem sucesso. Quando o primeiro piso do edifício ficou pronto, organizou-se a chamada "festa da cumeeira", com o tal churrasco assado sobre a laje pioneira. Um dos convidados, conta Luiz Fernandes, era um gerente do Banco do Brasil que, entre uma picanha e outra, quis saber de Inocêncio Coelho a razão de não haver nenhuma placa do banco na frente da obra. "Não tem placa porque não tem financiamento algum", disse o sócio do IDP. Foi quando o gerente os aconselhou a procurar o Fundo Constitucional do Centro Oeste (FCO), gerido pelo Banco do Brasil e, normalmente, destinado a projetos muito diferentes dos propostos pelo instituto.

No primeiro balanço trimestral de 2008, o FCO liberou mais de 450 milhões de reais. Pouco mais de 190 milhões (40%) foram destinados a micro e pequenas empresas. As companhias de médio porte receberam 32%, ou 150 milhões de reais. A prioridade de investimento do fundo é, porém, o meio rural, que recebeu 278 milhões de reais (60%). O setor de comércio e serviços aparece apenas em terceiro lugar, com desembolso de 62 milhões de reais, ou 13% do fundo. Mesmo assim, e sem se encaixar exatamente no perfil, o IDP apresentou-se como "pequena empresa" do setor de serviços para solicitar o financiamento.

A política do FCO visa, preferencialmente, atividades comprometidas com a utilização intensiva de matérias-primas e mão-de-obra locais, sobretudo na produção de alimentos básicos. A análise dos pedidos de empréstimos leva em conta a preservação do meio ambiente e busca incentivar a criação de novos pólos de desenvolvimento capazes de reduzir as diferenças econômicas e sociais entre as regiões.

Ainda assim, graças ao churrasco da laje, o IDP conseguiu arrancar do fundo, com prazo de pagamento de dez anos, um financiamento de 3 milhões de reais, com base na rubrica "instalação, ampliação e modernização de estabelecimentos de ensino e de prática de esportes". Como garantia para o empréstimo, diz Fernandes, os sócios ofereceram patrimônios pessoais. Mendes colocou à disposição do Banco do Brasil uma fazenda em Mato Grosso. Inocêncio Flores e Paulo Gonet, as casas onde moram, no Lago Sul de Brasília. Nenhum dos três atendeu aos pedidos de entrevi sta de Carta Capital. A assessoria de imprensa do presidente do STF deu, em particular, uma desculpa que até agora causa perplexidade. Segundo a assessoria, Mendes não costuma conceder entrevistas.

A escola tem 22 funcionários, segundo informação do diretor-geral. Os 87 professores anunciados no site não são contratados formalmente, mas profissionais requisitados para cursos específicos, para cursos específicos, pagos pelo sistema de Recebimento de Pagamento Autônomo (RPA). O corpo docente recebe, em média, 6 mil reais por mês, a depender do status acadêmico ou de poder de cada um.

Antes de ser inaugurado, em setembro de 2007, o prédio do IDP sofreu um embargo de seis meses da Secretaria de Desenvolvimento e Turismo (SDET) do Distrito Federal, comandada pelo maior empreiteiro da cidade, o vice-governador Paulo Octávio.

Os fiscais da secretaria descobriram que a obra tinha avançado três metros além da altura máxima permitida pelo gabarito de ocupação da capital. Fernandes garante ter resolvido o assunto burocraticamente, sem interferência política.

Mendes, pelas limitações da Lei Orgânica da Magistratura, não ocupa cargo executivo no IDP, mas costuma fazer retiradas em dinheiro. Na última, pagou 20 mil reais. No STF, seu salário é de 24, 5 mil reais por mês. Além disso, de acordo com Fernandes, o IDP tem restituído aos sócios, em parcelas mensais, 125 mil reais que cada um foi obrigado a desembolsar, no ano passado, para completar o dinheiro da obra do prédio.

O diretor-geral admite ter suspendido as pretensões de contratos com o STF, em 2006, quando veio a público a ligação de Mendes com o instituto. Isso não o impediu, porém, de fechar contratos com o STJ, de onde são oriundos sete professores do IDP. Nem no Senado Federal, onde a influência do presidente do STF ajudou a consultoria jurídica da Casa a escolher, sem licitação, o instituto em detrimento das propostas de três universidades, entre elas a Brasília (UnB), onde muitos dos magistrados contratados pelo IDP também dão aula.

Há outros conflitos de interesses evidentes. O sistema de busca de processos no site do STF mostra que 35 professores do IDP, entre advogados, promotores e procuradores, têm ações em tramitação no Supremo. Ou seja, atuam como parte interessada em processos no tribunal atualmente dirigido por seu empregador.

O nome de um dos sócios de Mendes no instituto, Inocêncio Coelho, aparece 14 vezes na consulta ao site do tribunal.

Por Leandro Fortes.



  Escrito por Idelber às 07:07 | link para este post | Comentários (15)



quarta-feira, 22 de abril 2009

"Vossa Excelência não está falando com seus capangas do Mato Grosso"



  Escrito por Idelber às 22:33 | link para este post | Comentários (62)




Um magnífico texto


O Estado, diria Gramsci, é “mais ou menos aquilo que o Foucault vai dizer daqui a algumas décadas sem me dar o devido crédito por ter dito isso primeiro, careca miserável”. Não é só o que o Hegel chamava de sociedade política, o Estadinho lá, com seu congressinho, seu presidentinho, sua policinha, capitão Nascimento, Sarney, essas coisas. É isso também, bem entendido. Mas também é a articulação disso tudo com a sociedade civil, a escola e as academias que elaboram e desenvolvem a visão de mundo dominante, o saber assim produzido, os sindicatos reformistas e partidos social-democratas que mantém o conflito sob controle, a mídia que fixa os limites do debate, a família que transmite os valores dominantes e consagra hierarquias, etc. Se você conquista o Estado czarista, você caia ele de vermelho e os burocratas que obedeciam o czar obedecem você. Mas de nada adianta conseguir uma adesão puramente externa (quem é que era contra o Stalin na frente dele?) em termos de ideologia, sentimentos, valores, saberes. Ou você consegue convencer, sensibilizar, justificar-se, descrever a realidade, ou você, cedo ou tarde, ao invés de impor sua visão de mundo, vai ser lentamente colonizado pelos dominantes conquistados.


Enquanto o Biscoito não desenferruja, confira o magnífico texto sobre a hegemonia, no blog Na prática a teoria é outra.

Concordei com 98% e saí muito inspirado da leitura. Recomendadíssimo.



  Escrito por Idelber às 11:30 | link para este post | Comentários (11)



domingo, 19 de abril 2009

Dica musical para o domingão

Está rolando aqui em New Orleans o clássico French Quarter Festival, um dos pontos altos da inacreditável primavera musical da cidade. Dá para ouvir online. Uma das melhores estações de rádio comunitárias do mundo, a WWOZ, transmite o evento. É só escolher o seu formato e a velocidade da sua conexão no quadrinho que diz "listen online". Se você vir este post até as 23 h de Brasília, pode ir lá conferir.

Com licença, pois, que eu vou ali ao Rio Mississippi sacudir o esqueleto um pouquinho.



  Escrito por Idelber às 14:44 | link para este post | Comentários (12)



sábado, 18 de abril 2009

Maranhão: Os Tribunais Eleitorais como instrumentos do golpe de estado

jackson.jpg

Depois de quarenta anos de controle absoluto sobre o Palácio dos Leões, a oligarquia Sarney foi derrotada em eleições livres para o governo do Maranhão em outubro de 2006. Jackson Lago (PDT) recebeu 1.393.754 votos no segundo turno e venceu Roseana Sarney (PFL) com quase 100.000 votos de diferença. Ontem, aconteceu o desfecho esperado, que acelera a desmoralização dos tribunais superiores no Brasil. O TSE aceitou a representação da coligação da família dona do estado. Jackson Lago foi cassado por “abuso de poder econômico” durante a eleição. É quase uma piada pronta: um adversário de Sarney ser cassado no Maranhão por abuso de poder econômico.

O desfecho era esperado porque, como sabemos, os Sarney são, literalmente, os donos do Maranhão. Como já notou o blog Loco por ti, no Maranhão você nasce na Maternidade Marly Sarney. Para sua educação, você tem várias opções, as escolas Roseana Sarney, Fernando Sarney, Marly Sarney e José Sarney. A oligarquia é dona do jornal O Estado do Maranhão, da TV Mirante (filial da Globo), das Mirante AM e FM e de 35 emissoras de rádio e 13 retransmissoras da TV Mirante no interior. Mas a coisa não pára aí. No Maranhão, o Tribunal de Contas chama-se Roseana Murad Sarney. Caso você queira reclamar, terá que ir à Sala de Defensoria Pública Kiola Sarney, localizada no Fórum José Sarney.

O processo contra Jackson Lago foi tão inacreditável que a presidenta do Tribunal Regional Eleitoral do Maranhão (adivinhem como ela se chama? Nelma ..... Sarney!) pediu a presença da polícia para a cerimônia em que a Assembleia Legislativa empossaria Roseana Sarney como nova governadora. Até aí, tudo bem. O singelo adendo é que faz a diferença: o pedido foi feito antes da decisão do TSE. Parece até que já sabiam.

Como meu masoquismo não tem limites, acabei fazendo o que, na minha opinião, os jornalistas deveriam fazer antes de dizer suas bobagens pouco fundamentadas: ler a sentença. Ela está disponível neste pdf. Jackson Lago foi cassado por 11 acusações que, na verdade, se reduzem a duas, compra de votos e abuso de poder na assinatura de convênios. Quanto àquela, as “provas” apresentadas pela oligarquia foram testemunhas, uma das quais, inclusive, se retratou depois. Avaliando esse episódio, o Ministro Marcelo Ribeiro afirmou (p.18): Realmente, Senhor Presidente, causa certa especle que a pessoa venda seu voto e em seguida declare isso em cartório, registre escritura, para, logo após, retratar-se e dizer que não o vendeu.

Talvez o Ministro Marcelo Ribeiro devesse fazer uma viagem ao Maranhão para conhecer o poder de coação da oligarquia Sarney. Alguém em sã consciência acredita que os Sarney teriam alguma dificuldade para encontrar no Maranhão testemunhas dispostas a jurar que foram abduzidas por seres extraterrestres?

Vamos aos convênios. Nada nas 114 páginas da sentença demonstra que os convênios tenham sido em nada diferentes dos milhões de convênios firmados entre governos estaduais e prefeituras pelo Brasil afora. Que esses convênios, em geral acompanhados de comícios, têm objetivo eleitoral, me parece o óbvio do óbvio. Cassemos todos então? O parecer do Ministério Público Eleitoral citado na sentença inacreditavelmente afirma: Basta a probabilidade de comprometimento da normalidade e equilíbrio da disputa para que o diploma seja cassado. A probabilidade. Vejam só.

Roseana já foi empossada pela Assembleia e Jackson Lago continua no Palácio dos Leões, acompanhado de centenas de correligionários. Chegou a declarar que só sairia de lá morto ou arrastado. Ontem, Noblat noticiou que Lago havia voltado atrás e sairia às 9 da manhã de hoje, segundo "sua assessoria". Como o blog de Noblat tem pouca credibilidade, eu não encontrei confirmação em nenhum outro lugar, e já são 9 da manhã aí em Brasília, aguardo mais notícias por outras vias. Maranhenses que estão acompanhando o processo apostam que Roseana vai se licenciar por razões de saúde, voltar ao Senado logo depois e deixar que assuma seu vice, que já comandou um esquadrão da morte.

O prefeito de Campo Novo-MA também foi cassado pelo TRE e a população, revoltada, tocou fogo na Câmara e na Prefeitura. Ainda no Maranhão, o Tribunal de Justiça condenou à aposentadoria compulsória um juiz de pouco mais de quarenta anos. Parece que ele estava incomodando. As notícias maranhenses não controladas pela oligarquia Sarney aparecem no Jornal Pequeno. Aqui é possível ouvir uma entrevista com Jackson Lago. Aqui, você pode ler a constituição do Maranhão, cujo artigo 61 afirma claramente: Vagando os cargos de Governador e de Vice-Governador do Estado, far-se-á eleição noventa dias depois de aberta a última vaga. § 1o - Ocorrendo a vacância nos dois últimos anos do pe­ríodo governamental, a eleição para ambos será feita trinta dias depois da última vaga, pela Assembleia Legislativa, na forma da lei..

Não houve, evidentemente, nenhuma eleição na Assembleia. Simplesmente empossaram Roseana.

PS: A foto é daqui. Para a produção deste post, contei com a ajuda e saber jurídico do amigo Alexandre Nodari. A responsabilidade pelo dito aqui, claro, é só minha.



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quarta-feira, 15 de abril 2009

Belo Horizonte em 1949

Ainda que fosse mudo, o documentário que se segue, sobre Belo Horizonte e seus arredores, já seria uma pérola. Foi feito em 1949, pelo Office of Strategic Services em parceria com o Office of the Coordinator of Inter-American Affairs. A narração relata o extraordinário crescimento de Belo Horizonte na primeira metade do século e traz aquele inconfundível otimismo de amizade panamericana do pós-guerra. Até a Penitenciária de Neves fica parecendo uma maravilha. Tem tudo: JK prefeito, Praça da Liberdade, o solo de Itabira, a história de Ouro Preto, colégios Sto. Agostinho e Marconi, a Pampulha.

Imperdível para os mineiros, nostálgicos ou não:



(via No Holodeck via já lendário Google Reader de Ju Sampaio).



  Escrito por Idelber às 18:56 | link para este post | Comentários (26)




Oximoro, nosso tropo

O Brasil é um país em que

a independência ante Portugal foi proclamada por um português,

a República foi proclamada por um monarquista,

o mais radical movimento igualitário foi liderado por um pregador moralizante e religioso,

a Revolução Burguesa foi feita pelas oligarquias,

a eleição republicana-moderna (1930) teve sufrágio mais restrito que a eleição monárquica-imperial (1821),

o mais ilustre gesto de um presidente foi um suicídio,

o racismo é encoberto por um termo ('democracia racial') inaugurado em público pelo maior líder do movimento negro,

a subvenção pública e a estatização floresceram na ditadura de direita,

a redemocratização foi presidida por um homem da própria ditadura,

a discriminação racial é mais visivelmente proibida justo no lugar onde ela mais obviamente se manifesta,

só se removeu por corrupção o presidente cuja única plataforma eleitoral era varrê-la,

a maior privatização foi feita pelo príncipe da sociologia terceiromundista e esquerdizante,

a universalização do capitalismo e o auge dos lucros bancários se dão sob o líder sindical que fundou um partido socialista e ....

numa Praça Tiradentes não há estátua de Tiradentes, mas de D. Pedro I, neto da Dona Maria que ordenara a morte do alferes. Essa incongruência não diz algo sobre o que somos?

O Luiz Antonio Simas, em cujo texto este post se inspira, me lembrou de como começo os fatídicos cursos de "Introdução à cultura brasileira" que às vezes me cabe ditar. Peço que abram o dicionário no verbete "oximoro" e começamos a conversa a partir daí.

Mesmo que Tom Jobim não tivesse feito mais nada, só pela frase o Brasil não é para principiantes ele já mereceria nossa memória.



  Escrito por Idelber às 04:58 | link para este post | Comentários (53)



terça-feira, 14 de abril 2009

Livros de luto em BH: Morre o alfarrabista Amadeu, aos 92

P.L.: Então sua vida profissional sempre esteve cercada por estantes?

Amadeu: Sim, sempre no meu ramo. Até que uma vez um cliente amigo me ofereceu um emprego público. Ele era funcionário do governo. Era garantido. Eu ganhava 120 mil réis, e ele me oferecia 200 mil. Nesta vez eu quase saí.

P.L.: O que houve de errado? Ou “certo”, não sei dizer...

Amadeu: Bem, ele me deu um memorando e me mandou procurar o Presidente do Estado, Olegário Maciel. Naquela época ele atendia a todos pessoalmente. Era setembro de 1933. Estava uma fila enorme, cada qual “chorando as suas mágoas”, e quando chegou a minha vez ele me deu uma senha e me mandou voltar no dia seguinte.

P.L.: Já sei: o senhor não voltou...

Amadeu: Que nada! Voltei todo arrumadinho, até. O Palácio estava cheio de repórteres, todos num grande alvoroço. Quem não voltou foi ele. Havia morrido naquela manhã. (Risos)

P.L.: Quer dizer que se Olegário Maciel não tivesse morrido no dia em que morreu provavelmente hoje não existiria a Livraria Amadeu?

Amadeu: Pois é. Mas o fato é que morreu, e eu sempre trabalhei em livrarias. Aos poucos vi que as pessoas procuravam por livros usados e não havia onde comprá-los. Em 1948 apareceu um crítico literário amigo meu, que estava indo para o Rio, e falou “Amadeu, estou indo para o Rio e vou te vender minha biblioteca”. Eram uns mil volumes.

P.L.: Nasceu a Livraria Amadeu.
Amadeu: É. Montei meu sebo perto da Igreja São José, na rua Tamóios. No primeiro dia eu vendi apenas um livro: Poesias Completas de Manuel Bandeira.

Amadeu.jpg

São trechos da entrevista de Ewerton Martins Ribeiro com Amadeu Rossi Cocco em outubro de 2004. Para quem mora em Belo Horizonte e gosta de livros, o nome Amadeu nunca precisou ser acompanhado por qualquer qualificativo, sobrenome, indicação de localização. Era um substantivo autosuficiente, como sinônimo de livraria de pérolas de segunda mão bem escolhidas. Na Tamoios.

Era um daqueles alfarrabistas que amavam a singularidade de cada edição, um colecionista benjaminiano. Como a maioria no seu tempo, era profundamente francófilo e associava a narrativa francesa oitocentista – quiçá com muita razão, aliás – ao auge absoluto da literatura, do objeto livro de ficção enquanto tal. Mas ia atrás de tudo. Era um caçador de livros, que os cuidava e encaminhava com um carinho impressionante.

É incomensurável o bem que ele fez ao mundo, à cidade de Belo Horizonte, nessas seis décadas dedicadas a aproximar-nos das obras desejadas. O homem alcançou a glória de, munido de um cubículo de livros, virar ponto de referência numa metrópole do Brasil, país onde se lê tão pouco: ah, ali na Tamoios perto do Amadeu. É a única livraria de BH da qual se pode dizer isso de verdade.

Todas as homenagens que houver na cidade serão insuficientes para dimensionar o que ele representou numa era pré-Internet, pré-bancos de dados, onde a procura bibliográfica era bem mais acidentada, dura, sujeita a erros.

Obrigado, Seu Amadeu, pelas incontáveis horas de leitura que me proporcionou. Que chatice chegar a BH neste maio sem ter o senhor aí.

Confira a crônica de João Antonio de Paula. Há um obituário no blog do Ewerton (via paulodaluzmoreira).



  Escrito por Idelber às 20:21 | link para este post | Comentários (25)




Um soneto de Luis de Góngora

Quando por competir com teu cabelo
ouro brunido ao sol reluz em vão
quando com menosprezo sobre o chão
olha tua branca fronte o lírio belo

enquanto a cada lábio, por detê-lo,
seguem mais olhos que ao cravo auroral
enquanto triunfa com desdém vital
do luzente cristal teu gentil colo,

goza colo, cabelo, lábios, fronte,
antes que o que foi em tua era dourada,
ouro, lírio, cravo, cristal luzente,

não só tal prata ou violeta truncada
se torne, mas tu e ele juntamente,
em terra, em fumo, em pó, em sombra, em nada.


de: Góngora, Luis de. Sonetos completos. Madrid: Castalia, 1989, p. 230. Tradução: I. Avelar.

***********************


Mientras por competir con tu cabello
Oro bruñido al sol relumbra en vano,
Mientras con menosprecio en medio el llano
Mira tu blanca frente al lilio bello;

Mientras a cada labio, por cogello,
Siguen más ojos que al clavel temprano,
Y mientras triunfa con desdén lozano
Del luciente cristal tu gentil cuello,

Goza cuello, cabello, labio y frente,
Antes que lo que fue en tu edad dorada
Oro, lilio, clavel, cristal luciente,

No sólo en plata o víola troncada
Se vuelva, mas tú y ello juntamente
En tierra, en humo, en polvo, en sombra, en nada.



  Escrito por Idelber às 00:57 | link para este post | Comentários (23)



segunda-feira, 13 de abril 2009

A luta pela democratização da mídia na Argentina

Aí vai o texto meu deste mês na Revista Fórum

Está ouriçada a grande mídia argentina, e particularmente seu maior grupo, o Clarín. Tramita no Congresso desde o dia 18 de março um projeto enviado pelo governo de Cristina Kirchner, que revisa a legislação imposta em 1980, no auge da pior matança ditatorial da história do país. O projeto de Lei de Serviços de Comunicação Audiovisuais limita o poder midiático que um único grupo pode exercer, reduz de 24 para 10 o número de concessões que um indivíduo poderá receber e elimina as restrições à liberdade de informação em nome da segurança nacional contidas na lei da ditadura. Em qualquer sentido que se olhe, ele promove uma democratização ou, pelo menos, as condições para alguma alteração no quadro monopolista de hoje.

Foi o suficiente para que O Globo fizesse uma matéria que, sob a manchete “Casal K faz nova investida contra a imprensa”, conseguia ser ao mesmo tempo sexista – a presidenta é Cristina – e factualmente falsa. Não há, ao longo de todo o projeto, uma linha que atente contra a liberdade de expressão ou informação, muito pelo contrário – ele elimina as que havia na lei de 1980. O projeto de Cristina Kirchner limita, sim, a “liberdade” de que um único grupo controle 70% do mercado. Os números propostos no projeto (limite de 35% para um prestador de serviço em nível nacional, reserva de 33% para entidades sem fins lucrativos) estão bem longe, inclusive, de limitar severamente o grande lucro privado.

Segundo a lei de 1980, o organismo regulador da mídia deve ser composto por militares, empresários e serviços de inteligência. O projeto de Kirchner muda sua composição para representantes da legislatura (incluindo-se a segunda e a terceira minorias) e do Poder Executivo, além de um conselho de trabalhadores do setor, entidades sem fins lucrativos e universidades. Segundo a lei de 1980, os veículos da mídia são obrigados a denunciar os jornalistas que “atentem contra a segurança nacional”. O projeto de Cristina transfere os marcos dessa regulação aos tratados internacionais de direitos humanos.

Mesmo assim, o inacreditável Clarín, que em 1980 saudava a “paz” da carnificina de Videla, sai a bradar contra os supostos ataques à “liberdade de imprensa” que o conglomerado hoje, na Argentina, exerce com plenitude. Em 1980, quando a ditadura argentina assassinava jornalistas, escritores, estudantes, sindicalistas e professores sem que as mães tivessem acesso aos cadáveres, Clarín e La Nación lhe davam apoio – não só com o silêncio cúmplice, mas com a entusiasmada apologia. Agora, diante de uma lei que simplesmente limita o monopólio e garante total liberdade de expressão, os grandes conglomerados fazem o escândalo de dondocas ameaçadas. O Globo chegou a mentir, falando do “trâmite em segredo” de um projeto amplamente debatido na sociedade argentina e sobre o qual o Google já registra centenas de milhares de menções. Não dá para começar a medir o cinismo.

Sejamos justos, no entanto, com o Clarín. Se é verdade que a ditadura argentina matou e traumatizou em níveis ainda superiores aos da ditadura brasileira – e portanto pode se argumentar que o apoio do Clarín a ela é até mais repugnante moralmente que o do conglomerado Globo aos militares brasileiros –, também é verdade que o histórico de criminalidade do grupo argentino ainda não alcançou o da Globo. Pelo menos ele jamais tentou fraudar fisicamente as urnas (como a Globo e o Proconsult, em 1982, contra Brizola), jamais fabricou falsas filiações partidárias de sequestradores (como a Globo em 1989, contra o PT) nem jamais escondeu o maior acidente aéreo da história do país para exibir fotos ilegalmente obtidas de um delegado (como a Globo, em 2006, contra Lula).

As situações dos monopólios no Brasil e na Argentina são relativamente comparáveis. Mas o histórico de bandidagem do oligopólio brasileiro é pior, o grau de concentração da mídia no Brasil – tanto na impressa como na TV aberta – é mais alto, o nível de corrupção dos grupos midiáticos mais agudo e a formação ética e intelectual de seus funcionários infinitamente inferior à dos argentinos. Ou seja, vivemos, neste aspecto, em situação pior. A tramitação deste excelente projeto no Congresso, mesmo sob todo o bombardeio, e a existência de um jornal de alcance nacional à esquerda do centro como o Página 12, sem equivalente no Brasil, são expressão disso.

Há uma certa ousadia que, neste tema, falta ao governo brasileiro e sobra nos Kirchner (tanto no mandato de Néstor como no de Cristina). Mas há também o outro lado. Popularíssimo, o governo Lula tem sido bem mais hábil politicamente que a coalizão de centro-esquerda peronista. Não há dúvidas de que: 1) o governo de Cristina Kirchner sofre um processo intenso e real de desgaste desde o confronto com o ruralismo em 2008; 2) o bombardeio midiático contribuiu com o desgaste, mas este nem de longe pode ser atribuído unicamente àquele.

Pelo contrário: é a falta de alternativas políticas na esquerda argentina que faz com que o cerco do conservadorismo ruralista-midiático tenha condições de sangrar o governo como tem feito. Se os leitores de jornal do Brasil não têm uma opção como Página 12, os sujeitos políticos argentinos não têm uma alternativa aos tentáculos burocráticos do PJ (Peronista) comparável à renovação que o Partido dos Trabalhadores, com todas suas limitações, construiu como alternativa ao populismo brasileiro clássico.

Conjugada com a forma divisionista e polarizante de governar que têm os Kirchner, essa falta de alternativas tem sido fatal para as causas progressistas na Argentina. Mesmo considerando-se o oportunismo do vice-presidente Cobos, a situação de ruptura com ele é daninha e segue contribuindo ao sangramento do governo. A própria estrutura do Partido Justicialista, muito regionalizada, expôs a base do governo à ofensiva ruralista, com severos prejuízos eleitorais e políticos. Pessoalmente, não sou dos mais otimistas quanto às chances do excelente projeto de mídia do governo no Congresso. Mas a experiência argentina continua sendo, nas suas semelhanças e diferenças com a nossa, um processo imprescindível de se acompanhar



  Escrito por Idelber às 15:57 | link para este post | Comentários (19)



sexta-feira, 10 de abril 2009

Produção acadêmica em pdf

Pendurei aqui no site uma parte da minha produção acadêmica. Esse material passa agora a estar licenciado em Creative Commons, como tudo no blog. Os links que se seguem são, pois, todos pdfs. Os títulos vão na língua original em que está escrito cada texto.

Alegorías de la derrota: La ficción postdictatorial y el trabajo del duelo (Santiago: Cuarto Propio, 2000). Meu primeiro livro, na íntegra. Ele saiu em inglês originalmente e também está publicado no Brasil, mas a edição feita pela UFMG, de 2003, já está em fase de liquidação de estoque. Aí vai, pela primeira vez, a versão em espanhol, que é essencialmente a mesma. O pdf do livro em português eu não tenho.

Xenophobia and Diasporic Latin Americanism: Mapping Antagonisms around the Foreign.” Ideologies of Hispanism. Ed. Mabel Moraña. Hispanic Issues Series. Nashville: Vanderbilt UP. 2004. 269-83. Artigo sobre xenofobia.

Cómo respiran los ausentes: La narrativa de Ricardo Piglia.” Modern Language Notes 110 (1995): 416-32. Um estudo sobre dois romances de Ricardo Piglia.

The Ethics of Criticism and the International Division of Intellectual Labor.” SubStance 91 (2000): 80-103. Gosto desse artigo. Rendeu um bom debate por aqui durante alguns anos.

The Logic of Paradox in Guimarães Rosa's Tutaméia.” Latin American Literary Review 43 (1994): 67-80. Artigo sobre Rosa, publicado numa época em que o Brasil ainda era tricampeão do mundo.

A Morta, de Oswald de Andrade: A Emergência de uma Mímesis Paradoxal no Teatro Brasileiro.” Latin American Theater Review 29 (1995): 21-37. Uma análise dessa mui pouco estudada obra de Oswald.

Restitution and Mourning in Latin American Postdictatorship.” boundary 2 26.3 (1999): 201-24. Um estudo sobre a escritora argentina Tununa Mercado.

Resenhas:

Resenha de Divergent Modernities: Culture and Politics in Nineteenth-Century Latin America, de Julio Ramos (em inglês).

Resenha de Ziembinski e o Teatro Brasileiro, de Yan Michalski (em português).

Resenha de Tropical Multiculturalism: A Comparative History of Race in Brazilian Cinema and Culture, de Robert Stam (em inglês).

Resenha de Um crítico na periferia do capitalismo: Reflexões sobre a obra de Roberto Schwarz, de Maria Elisa Cevasco e Mílton Ohata (em português).

Resenha de Nós, os Mortos: Melancolia e Neo-Barroco, de Denílson Lopes (em espanhol).



  Escrito por Idelber às 06:07 | link para este post | Comentários (14)



quinta-feira, 09 de abril 2009

Duas estantes

Nunca mandei para o Drops da Fal as fotos de estantes que uma vez ela compilou. Tendo enrolado além da conta, faço um post com as fotos já velhas, como um pretexto para falar de livros. São duas estantes, uma organizada e outra nem tanto. Ambas no meu gabinete, em Tulane. Os livros especiais eu guardo, claro, em casa. A primeira estante, que olha para o sul, para o Rio Mississippi, é esta:

DSC02880.JPG

Aí está minha coleção de narrativa hispanoamericana em ordem alfabética por autor. Excetua-se a prosa argentina, que merece um par de estantes exclusivas em casa, e as magníficas Biblioteca Ayacucho e Colección Archivos, que também têm status de livros domésticos. No alto, em pastas, anotações à mão de seis anos de rato de biblioteca em tempo integral (1990-96) sobre tudo o que se imaginar, de Platão a Guimarães Rosa.

Segurando a pilha, no canto superior esquerdo da segunda prateleira, as Obras Completas de Mautner. Os quatro livrinhos negros mais adiante são uma coleção de romances da Revolução Mexicana. Na prateleira de baixo, os livros magros e escuros são as Obras Completas de García Márquez (até 1990), traduzidas ao português. Na seguinte, à esquerda, dois livros iguais, de lombada branca com tarja preta, são romances chatos mas não desprovidos de mérito, escritos pelo mexicano Fernando del Paso, que gosta de romanção. Mais adiante, os dois volumes grandes com pinta de velhos são as edições originais das obras do grande pedagogo e ensaísta uruguaio José Enrique Rodó, uma espécie de proto-tucano tangueiro.

Na última, lá embaixo, os dicionários. Aurelião no lugar de honra, ao alcance da mão. À direita, um dicionário alemão-inglês da HarperCollins. Do outro lado do Aurélio, o volume vermelho mais fino é o Larrousse espanhol e o mais gordinho e bonina é o Larrouse francês. Ao lado, laranja, está um incrivelmente inútil dicionário espanhol-português / português-espanhol, feito em Portugal, daqueles em que você procura asomar e ele traduz, triunfante, assomar. Sério candidato a livro mais inútil da coleção. O verde grossão é um dicionário de sinônimos do espanhol, esse sim, espetacular. Ao lado, em azul, o dicionário de música da Oxford.


Aquela é a estante organizada. A desorganizada é esta:

DSC02881.JPG

Lá em cima, à esquerda, uma penca de livros em francês, edições da Gallimard, que há séculos não leio. Muito Proust e Balzac, mas também Zola, Beckett, Ionesco,Sartre. O volume verde grande, na prateleira seguinte, reúne as Obras (quase) Completas de Mark Twain e, logo abaixo, em azul, vê-se o volume das Obras (quase) Completas de Edgar Allan Poe. À esquerda, quadro volumes em branco reúnem as Obras Completas de Camões. Do outro lado, os dois volumes em negro são metade dos romances completos de Henry James (a outra metade está em BH). Mais adiante, a longa sequência de livros verdes são as Obras Completas de José de Alencar.

No andar de baixo, uma sequência de livros vermelhos: a coleção 50 grandes romances da literatura universal, da nossa querida Editora Abril. Ao lado e abaixo, há várias biografias: Oscar Wilde, James Joyce, Dostoiévski. Há até -- mato a cobra e mostro o pau -- a autobiografia do Príncipe Sociólogo, que é aquele volume negro na extrema-direita da penúltima prateleira. Na última, o livro grossão vermelho é a biografia de Caymmi. Deitada nas redondezas, a biografia de Nelson Rodrigues.

Mas meus livros favoritos -- toda a não-ficção (filosofia, teoria literária, antropologia etc.), a poesia amada, a literatura do Brasil, da Argentina e dos EUA, e todo o grande romance europeu --, eu guardo em casa mesmo.



  Escrito por Idelber às 02:42 | link para este post | Comentários (29)



quarta-feira, 08 de abril 2009

Um link fácil ao Heidegger e ao Derrida de Potel

Como se sabe, as obras de Heidegger e Derrida compiladas pelo Prof. Horacio Potel foram retiradas da internet por ordem judicial, a partir de demanda da Editora Minuit e da Câmara Argentina do Livro. Mas quem quiser descarregá-las, pode fazê-lo no Easy Share.

Seria divertido se o Prof. Potel colocasse um link ao Easy Share nos antigos sites. Afinal de contas, a ordem judicial manda que ele retire os textos; ela não diz nada acerca de links a esses mesmos textos hospedados alhures.

As belíssimas compilações derridiana e heideggeriana do Prof. Horacio Potel já estão salvas em dois outros servidores. A internet resiste.


PS: Obrigado, Alexandre Nodari.



  Escrito por Idelber às 08:41 | link para este post | Comentários (11)




Consultor Jurídico e suas mentiras

Um garoto com razoáveis aulas de interpretação de texto em nível de segundo grau não teria muitas dificuldades para desmontar a farsa armada pelo site Consultor Jurídico, de conhecidas ligações com Gilmar Mendes, a partir dos rascunhos (pdf) arrancados do computador do Delegado Protógenes Queiroz durante a recente ofensiva contra ele. Não surpreende, evidentemente, o timing da “matéria”, bem na véspera do depoimento de Protógenes ao arremedo de CPI, aquela presidida por Marcelo Itagiba, que declarou que vai pedir o indiciamento do delegado por falso testemunho caso ele não diga a “verdade” hoje. Resta saber qual é a “verdade” que o Sr. Itagiba, de conhecidas ligações com Dantas, quer realmente ouvir.

A farsa do Consultor Jurídico começa com uma manchete escandalosa, ao estilo Veja: “Quem são os jornalistas perseguidos por Protógenes”. Mas ao ler os rascunhos de Protógenes, não se nota perseguição nenhuma, e sim uma série de anotações acerca de escutas telefônicas realizadas legalmente, ou seja, uma investigação. Não há obsessão em perseguir nenhum jornalista em particular, só tentativas de compilar e analisar informações que sustentem uma hipótese que vai se mostrando, aliás, bem verossímil na medida em que se avança na leitura: a de que Dantas usou setores da imprensa como cúmplices.

A primeira frase da farsa do Consultor Jurídico também é uma mentira deslavada: Pelo menos 25 jornalistas de renome, que atuam em grandes veículos de comunicação, foram acusados pelo delegado federal Protógenes Queiroz de fazer parte de um esquema conspiratório a favor do banqueiro Daniel Dantas... Mas se você ler os rascunhos, verá que não há acusações contra “25 jornalistas”. Há suspeitas contra alguns, mera menção de outros, utilização de reportagens feitas por outros na sustentação dos fatos etc. O Consultor Jurídico, em manobra retórica de extrema pobreza, tenta confundir tudo sugerindo que há “acusações” contra 25 jornalistas. Não há. É só ler o texto.

Daí em diante, o Consultor Jurídico arrola muitos adjetivos, poucos fatos, bastante distorção do texto de Protógenes e o coroamento triunfal: um quadro em que se listam “os jornalistas citados no relatório”, como se todos eles tivessem sido acusados por Protógenes. Não foram. A matéria publicada pela Carta Capital no dia 09 de abril de 2008, por exemplo, é citada pelo delegado como evidência de que os tentáculos de Dantas na mídia estavam, também, sendo analisados por alguns veículos. Mino Carta e Jonathan Wheatley, do Financial Times, são citados nos rascunhos de Protógenes como fontes de informações, não como braços de Dantas.

O Consultor Jurídico faz um quadro misturando os nomes de todos sob o anódino particípio “citados”, talvez com a esperança de confundir o seu leitor. Assim:

nomes-citados-relato1.png

Luiz Antonio Cintra, da Carta Capital, um dos jornalistas “citados” na montagem do ConJur e supostamente defendidos por eles contra o orwelliano delegado, já se manifestou:

A lista de jornalistas, da qual o meu nome faz parte, trata de misturar suspeitos e não suspeitos, de modo a desqualificar o trabalho do delegado Protógenes. A mesma estratégia da defesa de Dantas.

No texto, o autor afirma que a lista refere-se aos jornalistas “acusados” de receber dinheiro do DD. Ao ler o relatório, percebe-se que em nenhum momento o delegado fez tal acusação. Trata-se, obviamente, de difamação, pela qual o site terá de responder na Justiça.

Note-se que a divulgação da tal lista ocorreu no mesmo dia em que a CPI confirmou o depoimento do delegado para amanhã. Mera coincidência ou estratégia jurídica?

Saudações,
Luiz Antonio Cintra
CartaCapital

O site Consultor Jurídico continua mentindo no segundo parágrafo: No relatório, o delegado parte da premissa de que o banqueiro Daniel Dantas armou um esquema para corromper jornais, revistas e jornalistas em geral para que todos trabalhassem a favor de seus objetivos escusos. Ora, o-pdf-ao-que-o-ConJur-teve-acesso-não-se-sabe-como não é, evidentemente, um “relatório”, já que ele não estava pronto para ser entregue a ninguém. Eram anotações pessoais, rascunhos, trabalho em processo.

E assim caminha a farsa armada pelos representantes de Gilmar Mendes na internet jurídica, ao ritmo de uma mentira por frase. Tomados de pânico corporativo, os jornalistas da grande mídia repercutem a manobra acriticamente, linkando a mentirada do ConJur e não oferecendo sequer o link direto às páginas confiscadas do computador de Protógenes, onde, diga-se, não existe "lista" nenhuma.

Eu mencionei que tudo isso aconteceu na véspera do depoimento de Protógenes ao arremedo de CPI de Itajiba e um dia depois que a turma de Gilmar Mendes derrubou um prefeito legitimamente eleito em Diamantino, no momento em que ele iniciava a auditoria nas contas do antecessor, Chico Mendes, irmão de Gilmar?

PS: Bati um papo por email com o Guilherme Póvoas.



  Escrito por Idelber às 06:51 | link para este post | Comentários (39)



segunda-feira, 06 de abril 2009

Open thread: final do basquete universitário

A final entre Carolina e Michigan State começa às 22:21 h de Brasília. Dá para ver pela net e, segundo dica do Radical Livre, no ESPN Internacional aí do Brasil, com transmissão a partir das 22 h.

Se for ver o jogo, fique à vontade para comentar aqui, torcer com o blog ou secar. Quem sabe até a Profa. de basquete Suzana Gutierrez não aparece? Onde anda Su?

Nas casas de apostas, Carolina é favorita por 7 pontos. Se vitoriosos, seremos hexa (1924/57/82/93/2005).



  Escrito por Idelber às 18:37 | link para este post | Comentários (20)




Folha inicia campanha difamatória contra Dilma

A carta abaixo, escrita pelo jornalista Antonio Roberto Espinosa, professor de Política Internacional e doutorando em Ciência Política na USP, fala eloquentemente por si só. Ela já foi reproduzida por RS Urgente, Marjorie Rodrigues, Luis Nassif e Cloaca News.

Prezados senhores, chocado com a matéria publicada na edição de hoje (domingo, 5), páginas A8 a A10 deste jornal, a partir da chamada de capa “Grupo de Dilma planejou seqüestro de Delfim Neto”, e da repercussão da mesma nos blogs de vários de seus articulistas e no jornal Agora, do mesmo grupo, solicito a publicação desta carta na íntegra, sem edições ou cortes, na edição de amanhã, segunda-feira, 6 de abril, no “Painel do Leitor” (ou em espaço equivalente e com chamada de capa), para o restabelecimento da verdade, e sem prejuízo de outras medidas que vier a tomar. Esclareço preliminarmente que:

1) Não conheço pessoalmente a repórter Fernanda Odilla, pois fui entrevistado por ela somente por telefone. A propósito, estranho que um jornal do porte da Folha publique matérias dessa relevância com base somente em “investigações” telefônicas;

2) Nossa primeira conversa durou cerca de 3 horas e espero que tenha sido gravada. Desafio o jornal a publicar a entrevista na íntegra, para que o leitor a compare com o conteúdo da matéria editada. Esclareço que concedi a entrevista porque defendo a transparência e a clareza histórica, inclusive com a abertura dos arquivos da ditadura. Já concedi dezenas de entrevistas semelhantes a historiadores, jornalistas, estudantes e simples curiosos, e estou sempre disponível a todos os interessados;

3) Quem informou à Folha que o Superior Tribunal Militar (STM) guarda um precioso arquivo dos tempos da ditadura fui eu. A repórter, porém, não conseguiu acessar o arquivo, recorrendo novamente a mim, para que lhe fornecesse autorização pessoal por escrito, para investigar fatos relativos à minha participação na luta armada, não da ministra Dilma Rousseff. Posteriormente, por e-mail, fui novamente procurado pela repórter, que me enviou o croquis do trajeto para o sítio Gramadão, em Jundiaí, supostamente apreendido no aparelho em que eu residia, no bairro do Lins de Vasconcelos, Rio de Janeiro. Ela indagou se eu reconhecia o desenho como parte do levantamento para o seqüestro do então ministro da Fazenda Delfim Neto.

Na oportunidade disse-lhe que era a primeira vez que via o croquis e, como jornalista que também sou, lhe sugeri que mostrasse o desenho ao próprio Delfim (co-signatário do Ato Institucional número 5, principal quadro civil do governo ditatorial e cúmplice das ilegalidades, assassinatos e torturas).Afirmo publicamente que os editores da Folha transformaram um não-fato de 40 anos atrás (o seqüestro que não houve de Delfim) num factóide do presente (iniciando uma forma sórdida de anticampanha contra a Ministra). A direção do jornal (ou a sua repórter, pouco importa) tomou como provas conclusivas somente o suposto croquis e a distorção grosseria de uma longa entrevista que concedi sobre a história da VAR-Palmares. Ou seja, praticou o pior tipo de jornalismo sensacionalista, algo que envergonha a profissão que também exerço há mais de 35 anos, entre os quais por dois meses na Última Hora, sob a direção de Samuel Wayner (demitido que fui pela intolerância do falecido Octávio Frias a pessoas com um passado político de lutas democráticas). A respeito da natureza tendenciosa da edição da referida matéria faço questão de esclarecer:

1) A VAR-Palmares não era o “grupo da Dilma”, mas uma organização política de resistência à infame ditadura que se alastrava sobre nosso país, que só era branda para os que se beneficiavam dela. Em virtude de sua defesa da democracia, da igualdade social e do socialismo, teve dezenas de seus militantes covardemente assassinados nos porões do regime, como Chael Charles Shreier, Yara Iavelberg, Carlos Roberto Zanirato, João Domingues da Silva, Fernando Ruivo e Carlos Alberto Soares de Freitas. O mais importante, hoje, não é saber se a estratégia e as táticas da organização estavam corretas ou não, mas que ela integrava a ampla resistência contra um regime ilegítimo, instaurado pela força bruta de um golpe militar;

2) Dilma Rousseff era militante da VAR-Palmares, sim, como é de conhecimento público, mas sempre teve uma militância somente política, ou seja, jamais participou de ações ou do planejamento de ações militares. O responsável nacional pelo setor militar da organização naquele período era eu, Antonio Roberto Espinosa. E assumo a responsabilidade moral e política por nossas iniciativas, denunciando como sórdidas as insinuações contra Dilma;

3) Dilma sequer teria como conhecer a idéia da ação, a menos que fosse informada por mim, o que, se ocorreu, foi para o conjunto do Comando Nacional e em termos rápidos e vagos. Isto porque a VAR-Palmares era uma organização clandestina e se preocupava com a segurança de seus quadros e planos, sem contar que “informação política” é algo completamente distinto de “informação factual”. Jamais eu diria a qualquer pessoa, mesmo do comando nacional, algo tão ingênuo, inútil e contraproducente como “vamos seqüestrar o Delfim, você concorda?”. O que disse à repórter é que informei politicamente ao nacional, que ficava no Rio de Janeiro, que o Regional de São Paulo estava fazendo um levantamento de um quadro importante do governo, talvez para seqüestro e resgate de companheiros então em precárias condições de saúde e em risco de morte pelas torturados sofridas.

A esse propósito, convém lembrar que o próprio companheiro Carlos Marighela, comandante nacional da ALN, não ficou sabendo do seqüestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick. Por que, então, a Dilma deveria ser informada da ação contra o Delfim? É perfeitamente compreensível que ela não tivesse essa informação e totalmente crível que o próprio Carlos Araújo, seu então companheiro, diga hoje não se lembrar de nada;

4) A Folha, que errou a grafia de meu nome e uma de minhas ocupações atuais (não sou “doutorando em Relações Internacionais”, mas em Ciência Política), também informou na capa que havia um plano detalhado e que “a ação chegou a ter data e local definidos”. Se foi assim, qual era o local definido, o dia e a hora? Desafio que os editores mostrem a gravação em que eu teria informado isso à repórter;

5) Uma coisa elementar para quem viveu a época: qualquer plano de ação envolvia aspectos técnicos (ou seja, mais de caráter militar) e políticos. O levantamento (que é efetivamente o que estava sendo feito, não nego) seria apenas o começo do começo. Essa parte poderia ficar pronta em mais duas ou três semanas. Reiterando: o Comando Regional de São Paulo ainda não sabia com certeza sequer a freqüência e regularidade das visitas de Delfim a seu amigo no sítio. Depois disso seria preciso fazer o plano militar, ou seja, como a ação poderia ocorrer tecnicamente: planejamento logístico, armas, locais de esconderijo etc.

Somente após o plano militar seria elaborado o plano político, a parte mais complicada e delicada de uma operação dessa natureza, que envolveria a estratégia de negociações, a definição das exigências para troca, a lista de companheiros a serem libertados, o manifesto ou declaração pública à nação etc. O comando nacional só participaria do planejamento , portanto, mais tarde, na sua fase política. Até pode ser que, no momento oportuno, viesse a delegar essa função a seus quadros mais experientes, possivelmente eu, o Carlos Araújo ou o Carlos Alberto, dificilmente a Dilma ou Mariano José da Silva, o Loiola, que haviam acabado de ser eleitos para a direção; no caso dela, sequer tinha vivência militar;

6) Chocou-me, portanto, a seleção arbitrária e edição de má-fé da entrevista, pois, em alguns dias e sem recursos sequer para uma entrevista pessoal – apelando para telefonemas e e-mails, e dependendo das orientações de um jornalista mais experiente, no caso o próprio entrevistado -, a repórter chegou a conclusões mais peremptórias do que a própria polícia da ditadura, amparada em torturas e num absurdo poder discricionário. Prova disso é que nenhum de nós foi incriminado por isso na época pelos oficiais militares e delegados dos famigerados Doi-Codi e Deops e eu não fui denunciado por qualquer um dos três promotores militares das auditorias onde respondi a processos, a Primeira e a Segunda auditorias de Guerra, de São Paulo, e a Segunda Auditoria da Marinha, do Rio de Janeiro.



  Escrito por Idelber às 17:27 | link para este post | Comentários (90)



domingo, 05 de abril 2009

A virada mais incrível da história do basquete universitário

Qualquer apreciador de basquete sabe que uma grande equipe tem recursos para esticar bastante o tempo quando em ligeira desvantagem no final do jogo. A possibilidade da virada é uma das delícias do esporte.

Mas você já viu uma virada de 8 pontos nos últimos 17 segundos? Até que enfim achei a danada no YouTube. Eis aqui, em homenagem à vitória de Carolina ontem, um dos feitos mais incríveis da Lenda Viva num final de partida. Aconteceu em 1974 e simplesmente jogou o maior rival, Duke, para o fundo da liga durante uma década, porque disto ninguém se recupera fácil:



  Escrito por Idelber às 20:12 | link para este post | Comentários (10)



sábado, 04 de abril 2009

Processo judicial retira da internet as melhores páginas sobre Heidegger e Derrida

A notícia e quase todos os links me chegam via Catatau. A bolorenta, naftalínica e anacrônica lei de copyright continua fazendo seus estragos pelo mundo afora. Horacio Potel, professor de filosofia da Universidade Nacional de Lanús, na Argentina, é o responsável por dois sites dedicados às obras de Heidegger e Derrida, nos quais ele havia compilado, desde 1999, com financiamento próprio e sem fins lucrativos, uma impressionante coleção de traduções castelhanas dos dois filósofos. Elas não eram simplesmente duas páginas dedicadas a Heidegger e Derrida. Eram, de longe, os melhores recursos existentes sobre os dois pensadores em toda a internet, em qualquer língua.

Eis que a editora francesa Minuit aciona a embaixada francesa em Buenos Aires e esta aciona a Câmara Argentina do Livro, de triste memória. O professor Potel recebe a singela visita da polícia, que lhe comunica que ele é vítima de um processo judicial por violação da lei de copyright. Avisam-lhe que ele pode receber de um mês a seis anos de cadeia por tornar disponíveis esses textos, ainda protegidos pela lei de direitos autorais, já que tanto Heidegger como Derrida morreram há menos de setenta anos. Avisam-lhe também que sua correspondência e sua casa poderão ser violadas ao longo do processo.

É difícil sobredimensionar o que representaram essas páginas para os estudantes de filosofia sem grana em toda a América Latina. As edições espanholas têm preços proibitivos nos países hispanoamericanos. Não é raro que uma brochura de 80 páginas chegue a Buenos Aires custando o equivalente a 60 dólares. O site feito pelo Professor Potel com as obras de Nietzsche – livre da querela judicial, já que o bigodudo morreu em 1900 – recebeu mais de quatro milhões de visitas. Eu mesmo conheço vários alunos latinoamericanos que se iniciaram nestes autores através do trabalho voluntário do Professor Potel, e depois, inclusive, passaram a comprar os livros. heidegger.jpg

Sei que do ponto de vista jurídico não há o que discutir. Os sites configuravam, sim, violação à lei de direitos autorais. O irônico na história é que toda a obra tardia de Derrida está justamente dedicada a desenredar a teia que enlaça os conceitos de sujeito e de autoria com suas ramificações legais nas leis de copyright e de propriedade intelectual. Não tenho a menor dúvida de que Derrida teria visto com carinho o trabalho de Potel. Entre 1999 e 2004, Derrida com certeza teve amplas oportunidades de ouvir falar desse site, e não moveu uma palha para desativá-lo. Este mp3 traz uma entrevista com Horacio Potel, em que o educador relata toda a história.

O Catatau nos prestou o inestimável serviço de colocar links para cada um dos textos na Wayback Machine. Aqui estão as obras de Heidegger e aqui está a impressionante compilação de Derrida. Como sói acontecer com as demandas jurídicas envolvendo a internet, os querelantes remam contra a maré do nosso tempo. Seguindo os links do Catatau é possível copiar, guardar e reproduzir esses textos, deixando que a infinitamente livre circulação de informações pela rede mundial de computadores faça o trabalho de corroer uma lei injusta e anacrônica (enquanto a Wayback Machine não é censurada também). O Biscoito deixa sua solidariedade – e o profundo agradecimento de educador – a Horacio Potel, que está passando por um verdadeiro inferno neste momento.


PS: Alguns dos links acima afirmam que a Editora Minuit só publicou uma obra de Derrida. A informação está incorreta. A Minuit publicou sete obras de Derrida. O que não muda nada na história, claro.

PS 2: A semifinal do basquete universitário começa daqui a pouco. A final é na segunda à noite. Se você gosta do blog, torça pelo meu time, porque se perdermos o Biscoito sofrerá um tremendo baque. Eu trocaria, feliz da vida, as cinco Copas do Brasil por mais esse título para os Tar Heels. A CBS Sports transmite pela internet. Imperdível.

PS 3: Parabéns, imensa nação colorada!



  Escrito por Idelber às 19:21 | link para este post | Comentários (33)



sexta-feira, 03 de abril 2009

Acabou o Lexotan em Higienópolis




O que faz a República Morumbi-Leblon quando os fatos a contrariam? Ora, mentem descaradamente e distorcem os fatos, é claro.

Fontes próximas ao Biscoito Fino e a Massa confirmam que a próxima edição do programa de Jazz da Rádio Senado será dedicada à música triste e elegíaca de Ornette Coleman.



  Escrito por Idelber às 06:47 | link para este post | Comentários (77)



quinta-feira, 02 de abril 2009

A música antropofágica de Beatriz Azevedo

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Oswaldiana como este blog, Beatriz Azevedo lançou uma bela obra. Alegria é o seu terceiro disco, e é muito mais que uma coleção de 12 canções. Ele traz uma leitura coerente, original do Brasil. Já nos primeiros acordes de “Alegria”, a faixa-título, o trombone de Bocato remete o ouvinte às bandas de maxixe do começo do século XX. A alusão não é casual. A antropofagia -- “única filosofia original do Brasil”, segundo Beatriz – é a metafora central que organiza o disco, repleto de referências ao Modernismo, à Tropicália e ao que poderíamos chamar nossa vocação devoradora.

O delicioso poema “Relicário”, de Oswald (No baile da corte / foi Conde d'Eu quem disse/ pra Dona Benvinda/ que farinha de Suruí / pinga de Parati / fumo de Baependi / é comê bebê pitá e caí) é musicado em ritmo de frevo. Outro modernista, Raul Bopp, comparece com “Coco de Pagu”, que recebeu belo arranjo. As composições de Beatriz não ficam a dever nada às versões. Faixas como o manifesto cosmopolita “Sem fronteiras”, a lírica “Abraçar o sol” e a safada “Pelo buraco” revelam uma compositora madura, segura da sua arte, tranquila na conversa com a tradição. Os arrranjos e a direção musical são do ótimo Cristóvão Bastos.

Meu brother Christopher Dunn resumiu assim o espírito do disco: elevada cultura literária, exuberância carnavalesca, humor absurdo e experimentalismo audacioso. Beatriz tem cacife para tanto. Formada em Artes Cênicas pela UNICAMP, ela estudou dramaturgia na Sala Beckett em Barcelona e música no Mannes College of Music e no Jazz and Contemporary Music Program de Nova York. É autora de dois livros de poesia publicados pela Iluminuras (Idade da pedra e Peripatético).

Alegria vem recheado de participações especiais, com destaque para o hilário dueto com Tom Zé em “Pelo Buraco”. O disco de Beatriz Azevedo pode ser ouvido na íntegra em seu site. O YouTube já tem uma boa coleção de vídeos da multi-artista, recomendadíssima por este oswaldiano blog.


PS: Para não dizer que hoje não espetamos a grande mídia, registre-se que a resenha do disco de Beatriz publicada pelo Estado de São Paulo no último sábado comete um erro que meu filho de 12 anos não cometeria: atribui a Beatriz a autoria de “Speak Low”, faixa 5 do disco. “Speak Low”, evidentemente, é um clássico de 1943, de Kurt Weill, com letra de Ogden Nash, inclusive já gravado no Brasil por Marisa Monte.



  Escrito por Idelber às 11:30 | link para este post | Comentários (11)



quarta-feira, 01 de abril 2009

Eurípides Alcântara e Revista Veja derrotados nos tribunais

Em sentença histórica -- na medida em que não é muito comum que um grupo de mídia processe um jornalista por reportagens dedicadas a estudar esse mesmo veículo --, o Juiz Carlos Henrique Abrão, da 42a Vara Cível do Foro Central de São Paulo, julgou improcedente a ação de danos morais movida por Revista Veja e seu diretor de redação Eurípides Alcântara contra Luis Nassif. A fundamentação da sentença é magnífica. Escreve o magistrado:

A liberdade plena de imprensa, maior conquista das democracias ocidentais, observa o ângulo da transparência, seriedade e compromisso com a verdade. Difícil manter a harmonia quando interesses econômicos, políticos, sobretudo empresariais, sem sobra de dúvida, flexionam os limites da ética e da moralidade da imprensa.

Falando daquilo que o autor deste blog considera como um caso típico de litigância de má fé do conglomerado Civita e de seu subordinado útil Eurípides Alcântara contra Luis Nassif, o Juiz Carlos Henrique Abrão escreve:

Desenhada a arquitetura da lide, o seu ambiente divergente, feito o bosquejo do essencial, e tendo em mira a mudança de mentalidade surgida com a guerra midiática dos informes eletrônicos, blogs, equipamentos disponíveis, sopesando, um a um, todos os aspectos, a prova amealhada não permite, salvo melhor juízo, o acolhimento desta ação. Explicando a procura de justificativa, embora forte e contundente na sua crítica, Luis Nassif se cercou do contexto que tinha em suas mãos para escrever a matéria e não patinar nas informações, abordou assunto próprio de sua característica e o desagrado, como não poderia deixar de ser, fora generalizado.

No entanto, o jornalista não está obrigado a agradar, o fundamental, assinale-se uma vez mais, dependerá da investigação em andamento, a cargo da autoridade competente, no modo de ver do réu, se alguns jornalistas da Veja tinham contato com o banqueiro, seus escritos somente poderiam contar com a anuência do diretor de redação. E neste sentido, segundo se extrai de fonte segura, teria constado no relatório da Policia Federal capitulo especial dedicado às relações do banqueiro com a mídia, ou seja, em outras palavras, a exposição não desbordou os lindes exigidos pela Lei maior e de imprensa. Não houve qualquer dolo especifico de querer ferir suscetibilidade, tanto que na sua fala derradeira, o próprio réu reconhece, nenhuma intenção de ofender, expressa preocupação com a verdade. Deveras pode ter se precipitado ao estampar a matéria sem prévia consulta, mas seria ingenuidade pressupor que haveria confirmação, douto ângulo, sem findar a investigação e esmiuçar toda a teia multifacetária das alianças, não se pode concluir que houve despautério ou mesmo ofensa à honra do jornalista.

Atendo-se à letra da lei, o Juiz avaliou precisamente o que deve ser avaliado numa de ação de danos morais: o dolo, por um lado, e a relação e o dito e a verdade, por outro. O Juiz concluiu que não houve dolo (Eurípides continua lá, como chefe de redação) e demonstrou a plausibilidade de que tudo o que Nassif diz sobre a Veja seja verdade mesmo – que é o necessário aqui. Técnico, impecável, o magistrado reitera que julga a ação, não a veracidade da reportagem de Nassif. Mas estabelece claramente que Nassif seguiu pautas jornalísticas em seu trabalho. Categórico, o Juiz desmonta a pretensão da Revista Veja de extorquir cem mil reais de indenização do jornalista.

Muito pouco apreço pela verdade e pela própria dignidade terá qualquer advogado que recorra desta decisão em nome da Revista Veja. Trata-se de uma sentença histórica em defesa da genuína liberdade de imprensa, não desse falso slogan que evocam os grupos de mídia quando são contrariados. A sentença está disponível na íntegra neste pdf.


PS: Agência Carta Maior e Imaginação Sociológica lembram-se do aniversariante golpe, que foi mentiroso até na data.

PS 2: Morreu Raúl Alfonsín, um homem que apesar de fazer algumas concessões em momentos difíceis, foi um político epocal, digno, que nos brindou uma memória indelével: os fascínoras da Junta Militar sendo julgados nos tribunais. Alfonsín era um homem de idéias, um político que gostava de ter gente pensante ao seu lado. Sua vitória em 1983 foi a primeira vez em 40 anos que o peronismo perdeu uma eleição livre.



  Escrito por Idelber às 07:00 | link para este post | Comentários (37)