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quinta-feira, 02 de abril 2009
A música antropofágica de Beatriz Azevedo

Oswaldiana como este blog, Beatriz Azevedo lançou uma bela obra. Alegria é o seu terceiro disco, e é muito mais que uma coleção de 12 canções. Ele traz uma leitura coerente, original do Brasil. Já nos primeiros acordes de “Alegria”, a faixa-título, o trombone de Bocato remete o ouvinte às bandas de maxixe do começo do século XX. A alusão não é casual. A antropofagia -- “única filosofia original do Brasil”, segundo Beatriz – é a metafora central que organiza o disco, repleto de referências ao Modernismo, à Tropicália e ao que poderíamos chamar nossa vocação devoradora.
O delicioso poema “Relicário”, de Oswald (No baile da corte / foi Conde d'Eu quem disse/ pra Dona Benvinda/ que farinha de Suruí / pinga de Parati / fumo de Baependi / é comê bebê pitá e caí) é musicado em ritmo de frevo. Outro modernista, Raul Bopp, comparece com “Coco de Pagu”, que recebeu belo arranjo. As composições de Beatriz não ficam a dever nada às versões. Faixas como o manifesto cosmopolita “Sem fronteiras”, a lírica “Abraçar o sol” e a safada “Pelo buraco” revelam uma compositora madura, segura da sua arte, tranquila na conversa com a tradição. Os arrranjos e a direção musical são do ótimo Cristóvão Bastos.
Meu brother Christopher Dunn resumiu assim o espírito do disco: elevada cultura literária, exuberância carnavalesca, humor absurdo e experimentalismo audacioso. Beatriz tem cacife para tanto. Formada em Artes Cênicas pela UNICAMP, ela estudou dramaturgia na Sala Beckett em Barcelona e música no Mannes College of Music e no Jazz and Contemporary Music Program de Nova York. É autora de dois livros de poesia publicados pela Iluminuras (Idade da pedra e Peripatético).
Alegria vem recheado de participações especiais, com destaque para o hilário dueto com Tom Zé em “Pelo Buraco”. O disco de Beatriz Azevedo pode ser ouvido na íntegra em seu site. O YouTube já tem uma boa coleção de vídeos da multi-artista, recomendadíssima por este oswaldiano blog.
PS: Para não dizer que hoje não espetamos a grande mídia, registre-se que a resenha do disco de Beatriz publicada pelo Estado de São Paulo no último sábado comete um erro que meu filho de 12 anos não cometeria: atribui a Beatriz a autoria de “Speak Low”, faixa 5 do disco. “Speak Low”, evidentemente, é um clássico de 1943, de Kurt Weill, com letra de Ogden Nash, inclusive já gravado no Brasil por Marisa Monte.
Escrito por Idelber às 11:30 | link para este post
| Comentários (11)
#1
Caraca, eles fizeram isso? Que vergonha... ninguém é obrigado a saber, mas pra escrever em jornal espera(va)-se que o cara desse uma olhadinha...
Renata L em abril 2, 2009 6:06 PM
#2
Sim, fizeram, Renata. Não sei se há link para a matéria, mas ela está disponível no press release (em pdf) lá no site da Beatriz.
Idelber em abril 2, 2009 6:12 PM
#3
Parece muito boa, vou atrás. Só um reparinho: a idéia da antropofagia como única filosofia original brasileira é do Augusto de Campos. Evidentemente, ele não é dono desta percepção - os próprios antropófagos acreditavam (alguns) estarem criando isto mesmo - mas é que a expressão igualzinha está nele, onde ela deve ter bebido.
Abraço
Alexandre Nodari em abril 2, 2009 7:04 PM
Tiago Mesquita em abril 2, 2009 7:57 PM
#5
Antigamente, os críticos dos cadernos dois só ouviam uma ou duas músicas dos discos. Hoje, nem lêem a ficha técnica.
Anrafel em abril 2, 2009 11:33 PM
#6
Perdão pelo assunto diferente do post, mas talvez esse vídeo lhe interesse:
Daniel Hannan MEP: The devalued Prime Minister of a devalued Government
Chama atenção os quase 2 milhões de usuários em um período tão curto.
Marcos em abril 3, 2009 12:30 AM
Marcos em abril 3, 2009 12:35 AM
#8
I met Beatriz in New York and i don't agree with your lovely pitch. She seems a haute-bourgeoisie brazilian, oh yeah beautiful but no voice and work only with others artists'inspiration. what a pity ! Could you find us a heritage from Regina, Costa and real women singers ? X lot.
gal em abril 3, 2009 1:20 AM
#9
Alexandre, claro, você tem razão. Eu não quis sugerir que era uma idéia original dela embora, é verdade, o texto esteja ambíguo. Confira o disco, vale a pena!
Idelber em abril 3, 2009 7:00 AM
#10
Ouvi e gostei - ainda estou esperando meu exemplar da BiscoitoFino, mas não consegui segurar a ansiedade e ouvi o disco por aí.
Muito bom, um certo sabor de Zé Miguel Wisnik nos arranjos, sei lá.
Não concordo com a Gal aí em cima que ela não tem voz ou é apenas uma burguezinha sem inspiração. Alguém com saudades até hoje da Elis Regina e da Suely Costa(é esta?) está precisando urgentemente se atualizar em relação à música brasileira.
Radical Livre em abril 3, 2009 3:47 PM
#11
Já vi um show da Beatriz Azevedo, tenho dois discos dela e posso dizer sem sombra de dúvida: ô Gal, se oriente, faça me o favor! estamos em 2009!!!
eu ADORO o disco Alegria, nem sou íntima de todas as referências citadas e só posso dizer que musicalmente o disco é incrível, delicioso e original, na minha opinião. devíamos celebrar com ALEGRIA quem ousa nesse país, acostumado com o axé music vigente ou cantoras choramingas...
Valeu! Parabéns pelo blog, Idelber Avelar! é isso aí.
Lia
Lia em abril 4, 2009 9:17 PM
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