Meu Perfil
Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.
Contrariando uma norma do STJ, o ministro Carlos Alberto Direito, do STF, fazia uso de privilégios para favorecer familiares e amigos nos embarques e desembarques no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro
Idelber, a moça canta demais, toca bem, e ainda é linda. Mas alguém precisa dizer a ela que essa canção é tristíssima. Teria que ser levada como blues.
Parece que ela não faz noção do que significa a letra, porque se sorri toda quando canta: "mandaram arrancar..."
Deve ser porque seu nome é Esperanza!
Também acho essa uma das canções mais extraordinárias que alguém já fez. E a interpretação do Milton, na primeira versão, é literalmente de chorar. Foi o que aconteceu com uma namorada minha, enquanto ouvíamos Ponta de Areia, juntos. Bebaços, claro. Aí, comecei a chorar, também.
A versão gravada pela Elis também é dez.
"Minas", primeira faixa, lado 2. O sax-soprano de Nivaldo Ornellas (cadê-lo) dá logo no início o tom de tristeza e melancolia, mas, lá adiante, o solo multiplica a música por mil. Ouvia três, quatro, cinco vezes.
Bom, já que o papo é "Ponta de Areia", copio abaixo um trechinho de um ensaio meu sobre música mineira, o parágrafo em que trato da canção. O texto completo está publicado neste livro. Infelizmente em inglês:
In “Ponta de Areia”, a pinnacle of Mílton’s career and one of the richest melodies in the contemporary songbook of Brazilian popular music, the extended guitar, bass, sax, piano, and percussion lines – combined in highly dissonant fashion – are accompanied by one of the most powerful performances of Mílton’s falsetto soprano, which introduces the song before his contralto takes over and stretches all stressed vowels to their absolute limit. Mílton’s voice takes a labyrinthine stroll along the stretched-out vowels, as if replicating the curves of the railroad mourned by the lyrics (an effect reinforced by reproductions of the train’s whistling, carefully placed in dialogue with Nivaldo Ornelas’s soprano sax). This coincidence between form and content is one of the keys to Mílton’s art, and it is invariably achieved through the staging of an extended, elongated, mournful temporality.
Lembro também o corinho infantil, maravilhosamente desentoado, que abre e fecha a canção.
E saliento a letra extraordinária de Fernando Brant. Nada mais desolador do que o quadro de decadência pintado ali. E nada mais mineiro: melancólico, sentimental, mas estóico.
Para quem, como eu, que viajava em todas as férias da infância pelo trem do sertão, de BH para minha cidade natal, Montes Claros, é duro o tranco do fim da ferrovia.
De MOC, a estrada levava à Bahia. Desde pequeno me emocionavam muitíssimo as cidadezinhas e lugarejos ligados pela estrada de ferro. Duro também foi o tranco pra elas.
Não aguentei e pus o MI(lton)NAS(cimento) pra tocar. Esse disco é arrepiante.
Falando nisso, daqui a pouco vou pra Minas, só até terça. Tá valendo, depois de meses e meses de ausência.
Mas não vou de trem, pois não tem!
pessoal, há também uma gravação do earth wind and fire de "ponta de areia". ela às vezes está como tema incidental de "brazilian rhyme". maurice white já declarou que o disco "minas", o inspirou para as duas faixas, embora os estilos sejam diferenciados.
ela é simplesmente demais. também, é só pesquisar quem faz a cabeça da moça no Brasil. E como perdeu Esperanza?:) Body and soul é lindissimo com Esperanza.
"...
Maria Fumaça não canta mais
Para moças, flores, janelas e quintais
Na praça vazia um grito um ai
Casas esquecidas, viuvas nos portais."
Tem gente que acha ter Fernando Brandt exagerado nos 'ais' denotando a dor das pessoas ligadas à estrada desativada.
Mas, como falou Jair Fonseca, o tranco foi duríssimo para elas. Sou de uma cidadezinha do interior da Bahia onde existe uma estação de trem desativada. Durante muito tempo, permitam-me o lugar-comum, a tristeza era palpável.