Meu Perfil
Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.
Aconteceu no último fim de semana o Festival Internacional de Música de Lafayette, Louisiana, que coincide sempre com o primeiro fim de semana do JazzFest, em New Orleans. É uma escolha dura. Tenho preferido, nos últimos anos, pegar o carro e encarar as 120 milhas para ver o festival em Cajun Country. Não me arrependo. É só música de outros países e da Louisiana (para ver a programação completa, você terá que abrir este pdf). Aí vai um resumão do pouco que vi este ano. Não aguento mais ficar 8 horas ao ar livre escutando música. É a idade.
Na noite da sexta, Ana e eu chegamos a tempo de passar pelo rito de orgulho nacional, esgasgamento expatriado, cantoria em português e identificação de brazucas ao longe: o Ilê Aiyê tomou o palco. Vieram só 15 pessoas, claro. 12 percussionistas: a linha pesada atrás e outra linha com repeniques e caixas. Competiam com Alpha Yaya Diallo, o grande guitarrista e cantor da Guiné. Minha sensação é que manadas de gente se deslocaram de um palco para outro ao longo do show, atravessando a extensão do centrinho de Lafayette. O Ilê engoliu o grande artista africano.
Se você não gosta do Ilê – da música, ou do que eles representam, ou do que já fizeram --- ou, pior, se você não ouviu e não gostou, realmente eu sou bem cético quanto à possibilidade de diálogo entre nós dois. Eu nem coloco música do Ilê para escutar em casa. Mas vê-los me produz uma alegria profunda.
No sábado, a coisa começou para mim já à tarde, com o Chicha Libre, que vinha etiquetado como “cumbia peruana psicodélica”. Chegou-se a um momento na nomenclatura da música pop em que qualquer adjetivo pode significar qualquer coisa, então você tem que ir ver. O Chicha toma cumbia de tudo quanto é canto (trata-se de gênero com formas muito diferentes na Colômbia, na Argentina, no Peru etc.) e faz um pastiche pop mesmo. Há dois videozinhos vagabundos, feitos com minha Sony P200, mas dá para dar uma ideia do som:
Não gostei do afro pop de Dobet Gnahoré. A guitarra é aquela coisa: já ouvi antes e melhor em King Sunny Adé. Presença de palco não é o forte dela tampouco. Depois vi um pouco dos roqueiros lá de Lafayette mesmo, os Amazing Nuns. Gostei. Aprecio roqueiros que têm suíngue. Se são daqui, e sabem tocar bluegrass, conquistam meu coração mesmo. A música disponível lá no MySpace deles nem é grande coisa. O show é melhor.
Entre um sanduíche de jacaré e um pastel de lagostim (a comida nesse festival é todo um tema), eu guardava energia para o fechamento do sábado, que prometia: uma banda franco-árabe-africana com nome aludindo a literatura russa, Tarace Boulba.
Pu-ta-que-pa-riu.
O TB é um combo de hard funk, com uma verdadeira orquestra de sopros, super percussão e bailarinas(os). Transitam por sons do Mediterrâneo, por polirritmia subsaariana, pelo jazz, mas tudo sobre essa base sensacional que é o funk americano. Eu juro que cheguei a anotar mentalmente quantos trompetes, trombones etc. para descrever aqui. Exausto de sacudir o esqueleto e acompanhar o show, joguei fora as anotações mentais.
De novo, o vídeo é vagabundo, mas dá uma ideia da energia do show deles:
(aqui dá para ver uma jam sua e aqui um show, em vídeos de melhor qualidade)
Com o corpo triturado pelo Tarace Boulba, não houve jeito senão perder o show de Rachid Taha, da Argélia.
No domingo, pegamos leve. Só fomos mesmo conferir Rupa and the April Fishes, uma interessante banda de San Francisco liderada por uma indiana-americana que divide o tempo entre a guitarra e o estetoscópio. Linda, ela:
É bonito e de bom gosto o show deles. Baixo acústico, acordeão, bateria de leve e às vezes o violoncelo. Rupa alterna entre o violão e a guitarra. O repertório inclui de polcas a corridos e música de cabaré, mas com um tratamento bem deles. A vocalista, especialmente, é um emblema da globalização: indiana-americana, ela canta em francês e em espanhol.
Não sem antes ver um pouco de Dengue Fever, que é um rock do Camboja bem ruim, demos nosso último suspiro. Perdemos os shows do Roots Underground, da Jamaica, do Malajube de Québec e dos Crocodile Gumboot Dancers, da África do Sul.
bom dia ! sou newbie por aqui, digo, newbie nos coments, pq ja dei umas bicadas nesse biscoito...))
ha alguns anos estive nesse festival, num ano de graça com os irmaos marsalis em special guests! conheço aquele frissonzinho e a escapada à baton rouge...saudades de voltar la !
viva o ilê ayê ! como vc, nao tenho cd dos caras, mas ja assisti varias vezes...é ouro nosso, pracatibum bum bum !!
Não sei se é falta de empenho ou o que, mas não consigo encontrar bons festivais no brasil que me façam viajar tanto para assisti-los. Mas eu escolheria o festival de Jazz de New Orleans, deve ser pela história, ou pelo que ouvimos falar sobre a cidade do Jazz.
Só pegando uma carona. Uma música desta região tem um senso universal incrível e, no entanto, me parece algo extremamente regional, como o é Patativa do Assaré lá da minha terra. Falo do Jambalaya. Com aquela mistura de línguas e aquele ritmo e aquela narrativa bem local. Aqui no meu computador tenho mais de 15 versões mundiais da música. Será demais aproveitar-me da tua erudição para um post sobre o assunto?
José do Vale Pinheiro Feitosa em abril 30, 2009 10:54 AM
José do Vale, conheço a canção, mas não sei se teria muito a dizer sobre ela. Caramba, 15 versões. Você gosta mesmo, hein? Experimente o prato quando puder. É isso aí que o confetti descreveu.
Samuel, o JazzFest é maior, mas também mais estressante, cheio de regras. Valem as duas horas ao volante.
Só para explicar o porquê da minha pergunta e do meu espanto. Li, certa vez, que um dos problemas dos fazendeiros do Mato Grosso era a superpopulação de jacarés. Ora, se são comestíveis como é que isso pode ser um problema? Das duas uma, ou não havia superpopulação nenhuma ou então estaria se perdendo uma grande oportunidade. Depois de ler o Patrick acho que está mais para a primeira opção.
Uma banda de jazz mezzo francesa mezzo África árabe esteve aqui em Porto Alegre ano passado, a Sashird Lao, muito boa - melhor ao vivo, que em estúdio.
Realmente tanto o festival de Lafayete quanto o festival de Jazz de New Orleans é tudo de bom maravilhoso,vale apenas ir assistir tantas tendencias musicais do mundo inteiromquem nunca foi eu recomendo