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terça-feira, 14 de abril 2009
Livros de luto em BH: Morre o alfarrabista Amadeu, aos 92
P.L.: Então sua vida profissional sempre esteve cercada por estantes?
Amadeu: Sim, sempre no meu ramo. Até que uma vez um cliente amigo me ofereceu um emprego público. Ele era funcionário do governo. Era garantido. Eu ganhava 120 mil réis, e ele me oferecia 200 mil. Nesta vez eu quase saí.
P.L.: O que houve de errado? Ou “certo”, não sei dizer...
Amadeu: Bem, ele me deu um memorando e me mandou procurar o Presidente do Estado, Olegário Maciel. Naquela época ele atendia a todos pessoalmente. Era setembro de 1933. Estava uma fila enorme, cada qual “chorando as suas mágoas”, e quando chegou a minha vez ele me deu uma senha e me mandou voltar no dia seguinte.
P.L.: Já sei: o senhor não voltou...
Amadeu: Que nada! Voltei todo arrumadinho, até. O Palácio estava cheio de repórteres, todos num grande alvoroço. Quem não voltou foi ele. Havia morrido naquela manhã. (Risos)
P.L.: Quer dizer que se Olegário Maciel não tivesse morrido no dia em que morreu provavelmente hoje não existiria a Livraria Amadeu?
Amadeu: Pois é. Mas o fato é que morreu, e eu sempre trabalhei em livrarias. Aos poucos vi que as pessoas procuravam por livros usados e não havia onde comprá-los. Em 1948 apareceu um crítico literário amigo meu, que estava indo para o Rio, e falou “Amadeu, estou indo para o Rio e vou te vender minha biblioteca”. Eram uns mil volumes.
P.L.: Nasceu a Livraria Amadeu.
Amadeu: É. Montei meu sebo perto da Igreja São José, na rua Tamóios. No primeiro dia eu vendi apenas um livro: Poesias Completas de Manuel Bandeira.

São trechos da entrevista de Ewerton Martins Ribeiro com Amadeu Rossi Cocco em outubro de 2004. Para quem mora em Belo Horizonte e gosta de livros, o nome Amadeu nunca precisou ser acompanhado por qualquer qualificativo, sobrenome, indicação de localização. Era um substantivo autosuficiente, como sinônimo de livraria de pérolas de segunda mão bem escolhidas. Na Tamoios.
Era um daqueles alfarrabistas que amavam a singularidade de cada edição, um colecionista benjaminiano. Como a maioria no seu tempo, era profundamente francófilo e associava a narrativa francesa oitocentista – quiçá com muita razão, aliás – ao auge absoluto da literatura, do objeto livro de ficção enquanto tal. Mas ia atrás de tudo. Era um caçador de livros, que os cuidava e encaminhava com um carinho impressionante.
É incomensurável o bem que ele fez ao mundo, à cidade de Belo Horizonte, nessas seis décadas dedicadas a aproximar-nos das obras desejadas. O homem alcançou a glória de, munido de um cubículo de livros, virar ponto de referência numa metrópole do Brasil, país onde se lê tão pouco: ah, ali na Tamoios perto do Amadeu. É a única livraria de BH da qual se pode dizer isso de verdade.
Todas as homenagens que houver na cidade serão insuficientes para dimensionar o que ele representou numa era pré-Internet, pré-bancos de dados, onde a procura bibliográfica era bem mais acidentada, dura, sujeita a erros.
Obrigado, Seu Amadeu, pelas incontáveis horas de leitura que me proporcionou. Que chatice chegar a BH neste maio sem ter o senhor aí.
Confira a crônica de João Antonio de Paula. Há um obituário no blog do Ewerton (via paulodaluzmoreira).
Escrito por Idelber às 20:21 | link para este post
| Comentários (25)
#1
Mas o homem viveu muito Idelber. Abençoado é aquele que, dignamente, vive quase cem anos sobre a Terra.
Lembrei-me do "cubículo", o qual se ascendia por degraus íngremes e estreitos e o cheiro de mofo. Bem, não sei se exatamente mofo, mas aquela mistura de tempos.
Mas depois apareceram filiais, não foi?
josaphat em abril 14, 2009 9:31 PM
#2
Seu Amadeo era uma figura grandiosa. Ao lado do Seu Olímpio, da Cantina do Lucas, marcou o a virada do século em BH. São figuras que presentes na vida de diversas gerações na cidade e que sempre transmitiam uma dignidade fantástica. Seu Amadeo era referência. Alcançou a perfeição no universo em que viveu. E que belo mundo, cercado de livros. É o que difere os homens. Quem garimpou naquele sebo, conhece os tesouros que ele guardava. BH fica muitíssimo mais pobre. Todas as homenagens serão mesmo insuficientes.
Los justos
Un hombre que cultiva un jardín, como quería Voltaire.
El que agradece que en la tierra haya música.
El que descubre con placer una etimología.
Dos empleados que en un café del Sur juegan un silencioso ajedrez.
El ceramista que premedita un color y una forma.
Un tipógrafo que compone bien esta página, que tal vez no le agrada
Una mujer y un hombre que leen los tercetos finales de cierto canto.
El que acaricia a un animal dormido.
El que justifica o quiere justificar un mal que le han hecho.
El que agradece que en la tierra haya Stevenson.
El que prefiere que los otros tengan razón.
Esas personas, que se ignoran, están salvando el mundo.
Jorge Luis Borges
Jeferson Melo em abril 14, 2009 9:54 PM
#3
Que triste, aprendi muito naquela livraria.
Tiago Mesquita em abril 14, 2009 11:07 PM
#4
Sim, tem a filial da São Paulo, né? No 925, sala 05.
Idelber em abril 14, 2009 11:13 PM
#5
Pouco antes de vir embora pros EUA, passei para dar um até logo no "seu" Amadeu.
Gente finíssima, olhar resignado com as agruras da existência - "seu" Amadeu era daquelas pessoas que a gente tem orgulho de ter conhecido.
Ele reservava pra mim exemplares raros do Machado de Assis, da antiga Garnier... pela primeira vez, sinto imensa tristeza desde que saí de BH: saber que posso voltar a ir lá na Rua Tamoios, e ele não estará mais lá...
Jasão em abril 14, 2009 11:55 PM
#6
Um adendo sobre o comment 2: seu Olímpio do Lucas era um saco.
Jasão em abril 14, 2009 11:56 PM
#7
Idelber, cê consegue me explicar essa foto? Tem um Amadeu atrás do seu Amadeu ali?
Jasão em abril 15, 2009 12:00 AM
#8
Só agora percebi que ele tá posando diante de um quadro... falha desses meus olhinhos míopes
Jasão em abril 15, 2009 12:01 AM
#9
Puxa, a entrevista me fez chorar...
sobretudo quando ele fala do primeiro dia na livraria...
Consoada
Quando a indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
- Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.
M. Bandeira.
Débora Vieira em abril 15, 2009 1:29 AM
#10
Seu Olímpio gostava tanto da vida que faltou ao próprio enterro. Como castigo pela grosseria, o Jasão aí de cima vai ter de ficar esperando que o Javert Monteiro ou o Peninha venham aqui um dia narrar o caso de próprio punho, testemunhas que foram da última história do velho Olímpio.
Em homenagem a ele e ao Amadeu, vou reler a Consoada no volume do Bandeira que comprei no sebo da rua Tamoios.
Saudações Atleticanas
Ricardo Amaral
ricardo amaral em abril 15, 2009 1:57 AM
#11
Viver até os 92 é um privilégio e a hora de ir embora chega inevitavelmente. Mas a notícia é triste. O fim desses livreiros das antigas é o fim de um tempo, não é? Essa talvez seja a maior tristeza. Me lembrei do Zé Maria (da livraria no Maleta). Tem notícia dele, Idelber? Lembro de vê-lo brandindo um 38 (o revólver mesmo) no Lucas numa madrugada qualquer...
Abraço.
Guto em abril 15, 2009 2:03 AM
#12
Lembro, Guto, mas dele perdi a pista: há tempos não vou à sobreloja do Maleta. Também fico melancólico às vezes com a desaparição de figuras como o Seu Amadeu. Ele tinha consciência de que era um dos últimos da sua estirpe -- inclusive falava das novas tecnologias, da ascensão do inglês, etc., com certo ressentimento (que talvez seja inevitável mesmo, fazer o quê).
Inconcebível, não é mesmo, que alguém da nossa idade tenha com os livros a relação que ele tinha. É toda uma experiência que desaparece quando gente como o Seu Amadeu morre. Abração.
Idelber em abril 15, 2009 2:13 AM
#13
não conheço Seu Amadeu, mas olhando só, dá para ver a bondade (pela humanidade) e por aquilo que melhor nos fala dela: os livros. (...)um abraço para ti Idelber.
popelina em abril 15, 2009 2:14 AM
#14
Ricardo, sinto muito, de verdade, se lhe pareci grosseiro. Foi apenas um ponto-de-vista em relação ao meu pequeno, minúsculo convívio com Olímpio - não quis ofender a sua memória, tampouco fazer pouco caso dos seus. Apenas, por mania, digo o que penso a respeito dos vivos e dos mortos.
Jasão em abril 15, 2009 5:14 AM
#15
Beagá se curva respeitosamente ao Seu Amadeu.
Alysson em abril 15, 2009 11:04 AM
#16
Por essa vez, passa, Jasão.
Sauds Ats
ricardo amaral em abril 15, 2009 2:01 PM
#17
Triste notícia. Sendo rato de sebo, eu ia ao Amadeu desde garoto. Ele, sempre lá. Figura literalmente histórica, personificava a própria livraria, ou seja, os livros. Conhecia vários escritores, e os fregueses mais vagabundos, como eu, mas que gostavam de conversar. Antes de sair a edição da Poesia e prosa completa, de Murilo Mendes, pela Aguilar, ia sempre lá perguntar pelo velho volume da poesia completa; e o Amadeu, já velhinho, e de ótima memória, mal me via e já mandava: "Do nosso poeta, até agora, nada."
Da última vez que lá estive, comprei dele um volume baratíssimo de poemas comentados de Ascânio Lopes, que ele fez questão de comentar comigo. Sem ser um intelectual, no sentido tradicional do termo, era alguém vivamente interessado na cultura, principalmente na vida literária.
Quanto ao Jasão, parafraseando o seu comentário sobre o Seu Olímpio, garçom aos 90 anos, só tenho a dizer que certos fregueses do Lucas são um saco...
Jair Fonseca em abril 15, 2009 11:30 PM
#18
Digo: Poesia completa e prosa.
Jair Fonseca em abril 15, 2009 11:32 PM
#19
Quando adolescente, passei todas as férias de julho em Belo Horizonte. Por anos fazia quase que diariamente a mesma via sacra no centro da cidade. Passava por lojas de livros, discos, o Palácio das artes e uma pastelaria. A primeira parada sempre era a livraria do amadeu (que era mais próxima do ponto de ônibus). Aprendi muito e espero que ele descanse em paz.
Tiago Mesquita em abril 16, 2009 12:16 AM
#20
Débora, é mesmo de chorar, sendo o testemunho de um mundo com o qual ele tinha tanta intimidade, e uma relação tão forte.
Jair e Ricardo, eu sabia que Vossas Senhorias, ratos de sebo, teriam memórias do Seu Amadeu. Acho que nunca coincidi com o Jair por lá, mas seguramente já teremos batido papo sobre algum livro adquirido lá. Ricardo, guarde para mim o relato da última do saudoso Sr. Olímpio.
Abraços pra todo mundo. Antecipando já a data da chegada à terrinha, 13/05.
Idelber em abril 16, 2009 3:12 AM
#21
hehehe
acabei polemizando sem querer querendo.
há muitos fregueses do Lucas que são um saco, e eu definitivamente fui o maior deles, tanto é que fujo do Lucas, não gosto de lá nem a pau. Aliás, não gosto de bares. Eu sou mala mesmo.
A última vez que fui ao Lucas, foi pra encontrar o Idelber... rsrsrssss - e eu tinha alguns amigos que gostavam de ir lá, então acabava indo...
Acima de tudo, tenho muita preguiça dos "boêmios intelectuais" do Lucas... argh
Jasão em abril 16, 2009 6:19 PM
#22
Vai fazer muita falta porque eh dificil encontrar gente que venda livros e entenda minimamente do produto que esta vendendo. Um vendedor de computadores nao sobreviveria uma semana no emprego com o conhecimento de causa de certos vendedores e livreiros. E isso nao eh so em BH. Espero que os filhos mantenham o sebo.
Paulo Moreira em abril 17, 2009 1:21 AM
#23
Oi Idelber,
Como belo-horizontino que sou, minha formação de leitura passou também pelo bom Amadeu.
Fica o vácuo que nunca, nunca será preenchido pelas Leitura e Laselva da vida, esses supermercados de livros, onde os vendedores não têm sequer noção do que vendem.
Certa vez, em BH, estava doido atrás de O Retrato (trilogia O Tempo e o Vento), de Érico Veríssimo. Tão doido que, contrariando minha mania de eu mesmo procurar os livros na livraria, eu já chegava logo perguntando: tem o Retrato, de Érico Veríssimo?
Aí o vendedor gritou para o outro: "O fulano, tem foto do Érico Veríssimo aí?"
É claro que eu nem esperei a resposta, fui embora (preciso contar essa história lá no meu bloguinho).
Agora que o Amadeu foi embora, vamos ficar à mercê de gente assim...
Abraço,
Lelec
Lelec em abril 20, 2009 6:04 PM
#24
hoje tenho 64 anos e ja não moro em bh mas fprequentei aa levraria amadeu desde jovem, e´umaperda lamentavel.
geraldo totaro em maio 1, 2009 3:20 PM
#25
Amadeu,acompanhou minha infancia,era amigo de meu pai,hoje me tornei encadernadora talvez por influencia de ambos,ou quem sabe por admirar tantas capas de livros bonitas,não fica um vazio pois Amadeu deixou,rastro,história e bons amigos.
Que de onde ele estiver tenha a luz,e a paz.Um grande abraço e que Deus o tenha em sua companhia.
Ana Advincula
Ana Advincula em julho 29, 2009 12:22 PM