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quarta-feira, 15 de abril 2009
Oximoro, nosso tropo
O Brasil é um país em que
a independência ante Portugal foi proclamada por um português,
a República foi proclamada por um monarquista,
o mais radical movimento igualitário foi liderado por um pregador moralizante e religioso,
a Revolução Burguesa foi feita pelas oligarquias,
a eleição republicana-moderna (1930) teve sufrágio mais restrito que a eleição monárquica-imperial (1821),
o mais ilustre gesto de um presidente foi um suicídio,
o racismo é encoberto por um termo ('democracia racial') inaugurado em público pelo maior líder do movimento negro,
a subvenção pública e a estatização floresceram na ditadura de direita,
a redemocratização foi presidida por um homem da própria ditadura,
a discriminação racial é mais visivelmente proibida justo no lugar onde ela mais obviamente se manifesta,
só se removeu por corrupção o presidente cuja única plataforma eleitoral era varrê-la,
a maior privatização foi feita pelo príncipe da sociologia terceiromundista e esquerdizante,
a universalização do capitalismo e o auge dos lucros bancários se dão sob o líder sindical que fundou um partido socialista e ....
numa Praça Tiradentes não há estátua de Tiradentes, mas de D. Pedro I, neto da Dona Maria que ordenara a morte do alferes. Essa incongruência não diz algo sobre o que somos?
O Luiz Antonio Simas, em cujo texto este post se inspira, me lembrou de como começo os fatídicos cursos de "Introdução à cultura brasileira" que às vezes me cabe ditar. Peço que abram o dicionário no verbete "óximoro" e começamos a conversa a partir daí.
Mesmo que Tom Jobim não tivesse feito mais nada, só pela frase o Brasil não é para principiantes ele já mereceria nossa memória.
Escrito por Idelber às 04:58 | link para este post
| Comentários (49)
#1
Falando em abrir dicionários, há umas semanas eu estava justamente catando a palavra "oxímoro" no dicionário...
O estranho foi abrir o Houaiss e o Aurélio eletrônicos e ver não há "oxímoro", mas só "oximoro" ou "oximóron". Parece que os romanos transformaram o proparoxítono grego oksúmoron em no paroxítono oxymoru (com "ó" longo, diz o Aurélio).
Por que eu tinha resolvido catar isso no dicionário? Um professor universitário tinha corrigido em público um colega meu que insistia no paroxítono. Achei estranho, nunca tinha ouvido ninguém pronunciar essa palavra como paroxítona.
Cristiano em abril 15, 2009 7:56 AM
#2
Daí um blogue como o meu se chamar oxymore (oxímoro em francês)... Brasileiro que sou, começei a escrevê-lo na França e vejo nele uma metáfora coerente de todas essas contradições sem síntese por você apontadas.
Sinto-me mais uma vez contemplado.
Abraço.
Jampa em abril 15, 2009 8:54 AM
#3
Caro Idelber, e além de todas estas contradições (algumas beiram apenas a curiosidade) o nosso país piora dia-a-dia. A insegurança pessoal é crescente pois as atitudes criminosas são 9cada vez mais) tolerads, havendo corriqueiramente episódios de violência.
Paulo Z em abril 15, 2009 9:46 AM
#4
Só lamento que essa frase de Tom Jobim acabe sendo usada como desculpa p/ a inercia dos setores que deveriam lutar contra os problemas da sociedade brasileira, mas preferem deixar isso p/ depois, afinal é complicado mesmo.
Anderson em abril 15, 2009 10:51 AM
Rafael Fortes em abril 15, 2009 12:09 PM
#6
Existe um livro dos anos 60 escrito por um europeu do leste - Peter Kellerman - Brasil Para Principiantes - se procurar no scribd por "Brasil para principiantes" achas o livro em pdf (se quiseres posso mandar por email). É interessante o visão de um estrangeiro sobre o Brasil e coincide com a frase do Tom e aborda esse tema.
Saudações rubro-negras
DTVox
DTVox em abril 15, 2009 1:09 PM
#7
Ideber,
Também ilustrando esta incongruência e a complexidade do Brasil, há aquela outra frase do Tom Jobim,respondendo jocosamente, quando retornou dos EEUU, à pergunta do melhor local para morar:
"-Nos Estados Unidos é bom , mas é ruim; no Brasil é ruim , mas é bom. "
Mariano em abril 15, 2009 2:06 PM
#8
Acrescento mais uma idiossincrasia nacional à sua lista: a sede da renomada Faculdade de Administração da Fundação Getúlio Vargas (FGV) em São Paulo fica sediada na Av. 9 de Julho, nº 2029.
Para quem não conhece essas paulistices, o dia 9 de julho marca o início da "Revolução de 1932", data cívica mais importante do estado de São Paulo e feriado estadual. A oligarquia paulista – a quem as derrotas costumam subir à cabeça – considera essa tentativa fracassada de derrubar pelas armas o então recém-iniciado governo de Getúlio Vargas como "o maior movimento cívico de sua história".
São Paulo é, até hoje, a única capital de estado brasileira que não possui uma Avenida Getúlio Vargas, embora possua uma Av. Washington Luis (o presidente paulista deposto por Getúlio em 1930).
Como, ao que me conste, a avenida é anterior à Faculdade (ela foi inaugurada em 1938, em plena ditadura do Estado Novo, pelo próprio Vargas), é possível que essa irônica provocação possa ter partido da FGV.
André Borges Lopes em abril 15, 2009 2:13 PM
#9
Genial, André. A sede da Getúlio Vargas na 9 de julho! Eu adoro essas coisas. Bem poderíamos fazer uma compilação, não é?
Já corrigi o "oximoro", que eu havia escrito com acento, como aliás sempre faço, até que alguém me lembra que pelo menos no português brasileiro ela virou paroxítona.
Idelber em abril 15, 2009 2:24 PM
#10
Tem mais: como já disseram, não tem uma Av. Getúlio Vargas em São Paulo justamente por causa do 9 de Julho, MAS ...
... foi Getúlio Vargas que inaugurou a 9 de julho, pode? rs ...
Fábio Peres em abril 15, 2009 3:19 PM
Gustavo em abril 15, 2009 3:19 PM
#12
André, muito bom o seu comentário, apenas uma pequena retificação: o Washington Luiz, ao contrário do que muita gente pensa, não era paulista, mas fluminense de Macaé. Tem até um sambinha satírico de 1926 que menciona este fato:
Paulista de Macaé (samba, 1926) - Pedro de Sá Pereira
Nosso dinheiro, o cruzeiro, / Vai subindo,
Enquanto o câmbio vai caindo, / Dando ao povo o que falar.
E a oposição, / Que não perde a ocasião,
De respeito perde o jeito / E diz que a coisa vai quebrar.
Paulista de Macaé, / O homem de fato é.
E no Palácio das Águias, olé / Com o povo ele pôs o pé.
E a Prefeitura, / Sinecura desta terra,
Contra o qual o povo berra, / Faça chuva ou faça sol,
Tem um paulista / Pra que assista na cidade
Essa grande novidade / Que se chama futebol
E na Central / Que tanto morre altercaçando
E o povo vai camurçando / Direitinho pro Caju.
Se queres favor / Que mais arderam no concurso
Pelo ar vou viajar / Quando chegar o Jahú
Abs,
J.
Johnny em abril 15, 2009 3:24 PM
Johnny em abril 15, 2009 3:28 PM
#14
Bem, então Washington Luiz era paulista embora fosse fluminense :>)
Acho que 'Conselho de Ética do Senado' pode fazer parte da compilação.
fm em abril 15, 2009 4:27 PM
#15
Johnny escreveu:
<<apenas uma pequena retificação: o Washington Luiz, ao contrário do que muita gente pensa, não era paulista, mas fluminense de Macaé>>
Está certíssimo Johnny.
Querem mais curiosidades: Francisco de Paula Rodrigues Alves (Guaratinguetá, 7 de julho de 1848) foi o último paulista a tomar posse efetiva como presidente do Brasil. Foi eleito duas vezes, cumpriu integralmente o primeiro mandato (1902 a 1906), mas faleceu antes de assumir o segundo mandato (que deveria se estender de 1918 a 1922).
Ou seja: há 103 anos um paulista nato não assume a presidência da federação. Os "presidentes paulistas" posteriores – embora tenham construído suas carreiras políticas em São Paulo – são todos falsificados.
Washington Luís Pereira de Sousa (Macaé, 26 de outubro de 1869)
Jânio da Silva Quadros (Campo Grande, 25 de janeiro de 1917)
Fernando Henrique Cardoso (Rio de Janeiro, 18 de junho de 1931)
Luiz Inácio Lula da Silva (Caetés, 27 de outubro de 1945)
Restaram aos paulistas dois presidentes de consolação:
Júlio Prestes de Albuquerque (Itapetininga, 15 de março de 1882), o presidente escolhido na polêmica eleição de março de 1930, estopim da Revolução de 30, que não chegou a tomar posse.
Pascoal Ranieri Mazzilli (Caconde, 27 de abril de 1910), que governou interinamente o país entre a renúncia de Jânio e a posse do vice Jango (25 de agosto a 8 de setembro de 1961) e, pela segunda vez entre o golpe militar e a posse de Castello Branco (2 a 15 de abril de 1964).
Por fim, "nunca antes nesse País" tivemos um presidente paulistano "da gema", nascido na capital de São Paulo. Mais um mote de reflexão para paulistas e paulistanos que consideram já eleito o governador José Serra, o qual – pretensamente – veio da Moóca para quebrar todos esses tabus seculares.
Mas graças a essa tradicional macomunação de Minas Gerais com o Rio Grande do Sul, parodiando Zé Ramalho, sabemos que não será surpresa se o futuro nos trouxer o passado de volta, num semblante de mulher.
André Borges Lopes em abril 15, 2009 4:31 PM
#16
Olha, amigos, a palavra em grego é paroxítona mesmo: Tó oximóron. Caetano que disse uma vez que o Brasil seria o último país a sair do século XIX e o primeiro a entrar no século XXI. Convivendo com meus alunos, sou professor de ensino fundamental, tenho achado isso uma grande verdade.
Não seria isto um oximóron?
josaphat em abril 15, 2009 4:53 PM
#17
É um país de comediantes, de um humor ácido, daquele tipo sarcástico que distorce os fatos e escancara, nítida, claríssima, a inveja impiedosa. A primeira contradição veio com o primeiro português que pisou aqui, já com as intenções de ser mais do que aqueles outros de lá e, nessa mesmo de querer ser mais, inaugurou a primeira contradição: seria sempre menos, já que nunca deixou de olhar pra lá.
Matheus em abril 15, 2009 6:27 PM
#18
E aconteceu de novo: o mais importante blog noticioso do Pará foi obrigado a retirar uma série de postagens do ar, por força de uma liminar judicial.
Quem pediu a liminar foi a família do deputado estadual Luiz Seffer, acusado de abusar sexualmente de uma menina dos 09 aos 13 anos, fato amplamente noticiado pela imprensa local e nacional.
Contra a mordaça dos covardes, defendamos o Quinta Emenda. www.quintaemenda.blogspot.com
HelenaP em abril 15, 2009 10:22 PM
#19
josaphat,
Eu acho que não, no alfabeto helênico, o termo fica ὀξύμωρον, onde essa letrinha que parece um "w" - na verdade, um ômega - representa um fonema que fica entre o "Ô" e o "OU" segundo esse uso que nós damos para o alfabeto latino cá em Pindorama. Mas pouco importa, acho que aqui, muito mais importante do que a eventual acentuação, é o sentido do termo.
Idelber,
Analisando friamente, nós vivemos num país bem curioso, aqui, quando muito, o humor ainda salva - ainda que eu não leve isso muito em conta; Os países são produtos da ideologia dominante e servem mesmo é pra dominar e dividir os homens - ou não necessariamente nessa ordem.
Hugo Albuquerque em abril 16, 2009 12:21 AM
#20
E notemos que nosso presidente é de Caetés que, como bem lembra Zé Celso Martinez Correa, é a terra onde se deu a deglutição do bispo Sardinha, data a partir da qual Oswald começa a contar a história do Brasil.
Estamos, segundo o calendário oswaldiano, no ano 455 da deglutição do bispo Sardinha, marco zero da Antropofagia.
Idelber em abril 16, 2009 3:00 AM
#21
Outro oximoro para você, Idelber: em um país com uma das piores distribuições de renda do mundo, com a população completamente analfabeta e abandonada, ainda conseguimos construir uma tradição literária com um ranço edificante muito forte, difícil de se extrair, que aparece principalmente nas manifestações culturais das elites letradas e nos mitologemas propagadas pela Rede Globo de televisão.
Bruno Marcondes em abril 16, 2009 7:04 AM
Rondó em abril 16, 2009 9:50 AM
#23
Essa placa aí é assustadora...
Bruno Marcondes em abril 16, 2009 10:12 AM
#24
Idelber,
Lembrei do Tim Maia:
"O Brasil é o único país onde, além de puta gozar, cafetão ter ciúme e traficante ser viciado, pobre é de direita".
Rá!
Abraço!
Darcio em abril 16, 2009 4:57 PM
#25
Idelber, no meu Liddell & Scott intermediate não consta o vocábulo, o que me leva a pensar que era pouco usado na antiguidade clássica, ou mesmo que tenha sido criado depois, no período bizantino talvez. Mas não tenho certeza. Na página da Perseus, realmente não fica clara a acentuação, conforme se pode ver, já que o circumflexo após o u é provavelmente sinal da elisão do sigma de ὀξύς: [http://www.perseus.tufts.edu/cgi-bin/ptext?doc=
Perseus%3Atext%3A1999.04.0057;query=entry%3D%237
4333;layout=;loc=o%29cu%5E%2Fnitron]
Tanto ὀξύς quanto μωρός são oxítonas.
Há uma outra palavra que não sei que relação possível com a primeira: ῶκύμορος, esta sim, consta em meu léxico.
Como meu dicionário não tem o vocábulo no alfabeto helênico não sei mesmo garantir a certeza.
Se você tem acesso a algum dicionário que traga a palavra com o proparoxítono, assunto encerrado.
Mas o acento no grego é um assunto um tanto difícil mesmo. Não sou grande conhecedor e por isso paro por aqui. E como você bem disse, o importante é o sentido, que é delicioso.
Abraço.
josaphat em abril 16, 2009 9:12 PM
#26
josapaht,
Fui eu que tinha feito a colocação, não o Idelber. Você cometeu um novo engano ao escrever a palavra no alfabeto helênico; é ὀξύμωρον (ÓKSIMÔRON) e não ῶκύμορος (ÔKSIMOROKS). Honestamente não sei a idade do uso do termo - a única dúvida que eu tenho é sobre a pronúncia exata do úpsílon acentuado, acho que é de "i" mesmo. Portanto, acho que oximoro faz mais sentido do que oxímoro, mas não vejo isso como uma coisa relevante.
abraços;-)
Hugo Albuquerque em abril 16, 2009 10:05 PM
#27
digo, "Upsilon" - essa história de acentuação confundiu meus dois neurônios.
Hugo Albuquerque em abril 16, 2009 10:10 PM
#28
Hugo, difícil discutir o grego aqui em uma caixa de comentários.
Mas eu quis dizer mesmo ὀκύμορος, com kapa k, que significa algo como "uma morte prematura", segundo o Oxford.
Certamente não tem nada a ver com ὀξύμωρον,com ξ, embora tenham sonoridades e radicais iguais e semelhantes. O que complica, em minha cabeça, é que os diferentes dialetos gregos utilizam ora o k ora o ξ ora o χ para a mesma palavra. O eólico adora mudar o k em χ; coisa das dentais. É uma loucura.
Sobre o ômega ω e o ômicron o, como os próprios nomes dizem, têm a ver com a duração da vogal, o ω é um o grande, longo.
O som de u (tal como no português) no grego é feito pelo ditongo 'ou', como no francês.
Quanto ao u/Y, acho que tem o som do u, tal como no francês, ainda, algo como um intermediário entre o i e o u, fazendo biquinho. Hehehe.
De fato, como tu dissestes, o acento, quanto ao sentido, não é relevante, mesmo porque o grego muda o acento ao sabor do ritmo.
Mas para os helenistas como eu, ainda que neófitos e ignorantes, é sempre um prazer, um desafio, investigar essas variáveis, essas sutilezas: são importantes para a poesia. Embora no caso não haja variável ou sutileza alguma; ὀξύμωρον é proparoxítona já estou convencido.
Ainda mais 'complicante' foi minnha falha em ignorar a assinatura de teu comentário, desculpe.
É isto. Valeu colega e obrigado, estarei sempre disposto a investigações sobre o grego antigo e sempre a fim de aprender e partilhar o pouquinho que sabem meus também poucos-sei-lá-inúteis-neurônios. :)
Abraço.
josaphat em abril 17, 2009 12:15 AM
#29
Tu disseste, sempre confundo.
josaphat em abril 17, 2009 12:20 AM
#30
josaphat
De fato, ὀκύμορος(ÓKIMOROS) não tem nada a ver com ὀξύμωρον (ÓKSIMÔRON), como você pode notar, soam bem diferente - lembrando que o k é o K longo, enquanto o χ é o K curto, essa parte é bem sutil mesmo. Já o ξ representa o fonema KS, aí já um pouco diferente. Quanto ao uso do ômega, de acordo, era o que eu já tinha dito no comentário 19, é O longo, quase dando num OU, quase. O ómicron acentuado é Ó mesmo e o não acentuado algo entre o ômega e o ómicron acentuado. Quanto ao upsilon, sim, é isso mesmo, por isso eu falei que acentuação dele o faço, provavelmente, representar um fonema próximo ao I - a acentuação, claro, aqui tem um função igual a do francês, ou seja, determinar se a letra que atua como vogal é aberta ou fechada, portanto, a presença do ômega é o que justifique que o termo, vernacularizado - acho que esse o termo, é isso, Idelber? - seja uma paroxítona em português.
Hugo Albuquerque em abril 17, 2009 1:01 AM
#31
Desculpe, o final ficou confuso:
(...)a presença do ômega é o que talvez justifique que o termo, vernacularizado - acho que esse é o termo, seria isso, Idelber? -, seja uma paroxítona em português.
Hugo Albuquerque em abril 17, 2009 1:04 AM
#32
Caros Hugo e Josaphat, está uma maravilha o papo de vocês (agradecimentos ao Cristiano, lá em cima, que o iniciou e notou mui elegantemente o meu erro). Desculpem a demora. Lamento dizer que não tenho resposta, por não saber grego o suficiente. Talvez o Josaphat tenha atribuído a você, Hugo, um comentário que era meu porque fui eu quem disse que não entendia como a palavra havia "virado" paroxítona em português. "Virar" é um péssimo verbo para se usar aí, porque pressupõe que eu soubesse qual era sua acentuação em grego, coisa que não sei. O que eu tinha em mente era que oxímoron é paroxítona em espanhol, o inglês oxymoron também acentua o y e em outros termos análogos em português -- hipérbole, por exemplo -- a acentuação costuma ser na antepenúltima.
Inclusive,tenho a sensação de que os lusitanos grafam oxímoro (alguém confirma? Estou longe de meus dicionários portugueses). Em outras palavras, na base da intuição mesmo, supus que o "normal" seria que ela fosse proparoxítona.
Mas é só uma intuição, que não substitui, claro, a pesquisa. Abraços.
Idelber em abril 17, 2009 1:02 PM
#33
Infelizmente, Idelber, não há oxímoro ou oximoro que resita ao TSE brasileiro. Roseana Sarney é a nova governadora do Maranhão, ungida pelos juízes, depois de ser recusada pelo povo.
Cesar em abril 17, 2009 4:36 PM
#34
mais um oxímoro que pode entrar pra lista inicial do idelber: alguns jogadores titulares do selecionado nacional(como ronaldinho gaúcho e felipe melo) são reservas em seus respectivos clubes.
marcus em abril 17, 2009 6:28 PM
#35
Idelber,
Meus conhecimentos no idioma helênico também não são espetaculares, na verdade, eu consigo transliterar com alguma eficiência, mas ainda tenho muito o que aprender - muito mesmo.
Como eu expliquei, o grande nó górdio aí é que nem todos os O's que aparecem no termo transliterado em português são a mesma letra no alfabeto helênico; em ÓXIMÔRON, por exemplo, o O destacado é um ômega o que alonga sua pronúncia ao contrário dos outros O's - ómicrons na verdade - cuja pronúncia é como nosso O mesmo - aberto quando acentuado. Isso é o que tornaria justificável pronunciar oximoro, na medida em que o terceiro O é mais longo - curiosamente, o primeiro O deveria ser aberto hehehe
Isso é engraçado porque na língua portuguesa essa questão da abertura - é esse o termo técnico? - da pronúncia de algumas vogais varia de região para região; muitas vezes o O e E tem uma pronúncia completamente diferente e isso não é algo sobre o qual os acadêmicos lusófonos se preocupam muito. Em grego, no entanto, não é assim, do mesmo modo que isso ocorre com o O também acontece com o E - onde sua pronúncia aberta é representada pela letra etá enquanto a fechada se dá por meio da letra epsilon.
Isso interfere curiosamente quando da vernacularização de uma palavra, no caso, oximoro, é como se O fosse um morrinho que alongasse a pronúncia, daí não poder existir acento no I, o que faria a pronúncia dele ficar curta. Mas escrever oxímoro não deve ser considerado errado, se já fomos canalhas a ponto de arrancar o N do final da palavra, que diferença faz mudar o som do O do meio, não é mesmo?
Hugo Albuquerque em abril 17, 2009 6:36 PM
#36
O que não pode mesmo, mesmo mesmo. é confundir oximoro com oxiuro. Não é?
Jampa em abril 17, 2009 9:35 PM
#37
Rá! Mas vejam o mais novo elemento do imbróglio: eu havia confiado no comentário do Cristiano, que me dizia que tanto Houaiss como Aurélio registravam o vocábulo como paroxítono.
Na verdade, não é assim! Pelo menos o meu exemplar do Aurélio registra oxímoro. Ou seja, segundo Aurélio, minha grafia original estava correta! O Houaiss, esse sim, registra oximoro.
Discordância entre os dois lexicógrafos, pois. E o mais interessante é que nenhum dos dois registra variantes, ou seja, ambos pressupõem a sua própria acentuação como a única correta. Copio do Houaiss:
Oximoro
n substantivo masculino
Rubrica: retórica.
figura em que se combinam palavras de sentido oposto que parecem excluir-se mutuamente, mas que, no contexto, reforçam a expressão (p.ex.: obscura claridade, música silenciosa); paradoxismo
Obs.: f. não pref. oximóron
gr. oksúmoron,ou 'engenhosa aliança de palavras contraditórias', neutro substv. do adj. oksúmoros,os,on 'que sob um aspecto simples encerra um sentido profundo, espirituoso com aparência de ninharia', de oksús,eîa,u 'agudo, sutil, fino' e morós 'embotado, embrutecido; insípido; tolo, louco, doido, sem bom senso'; pelo lat.tar. oxymorum,i 'id'; a prosódia em port. segue preferencialmente a lat., e não a gr.
Idelber em abril 18, 2009 2:00 AM
#38
Contribuindo com um exemplo: os partidos que reúnem a fina flor do reacionarismo e a turma que fazia parte da Arena, apoiando o regime ditadorial, chamam-se Progressista e Democratas. Um exemplo do Partido Progressista (sic) é o deputado federal Jair Bolsonaro, aqui do Rio: http://www.youtube.com/watch?v=N8dPt31ML44&feature=player_embedded
Rafael Fortes em abril 18, 2009 9:49 AM
#39
Idelber,
O que os dois erram, no entanto, é não considerar a outra grafia correta, só isso - ainda que a do Houaiss faça mais sentido.
Hugo Albuquerque em abril 18, 2009 11:38 AM
#40
Já que o assunto ainda está rendendo, dando uma olhada na gramática helênica do Henrique Murachco - que, para interessados, está disponível em pdf no scribd: http://www.scribd.com/doc/5337237/Henrique-Murachco-gramatica-grega-teoria - encontrei a solução para nossos problemas, hehehe:
“Nas palavras gregas proparoxítonas de três sílabas com a penúltima longa, ἀξίωμα, a transcrição para o português se faz para “axioma”, paroxítona e as com a penúltima breve μεταφορά se faz para proparoxítona. A explicação está na prosódia latina, intermediária entre o grego e o português, porque:
O latim não tem acentos.
O latim não tem oxítonas; por isso desloca a tônica das oxítonas gregas de três sílabas para proparoxítonas:
é o caso de μεταφορά > metáfora;
e das oxítonas gregas de duas sílabas para paroxítonas:
é o caso de: ᾠδή > ode;
Nas palavras latinas de mais de duas sílabas, a posição da tônica é determinada pela quantidade da penúltima sílaba:
se a penúltima é longa, a palavra é paroxítona, ἀξίωμα (penúltima longa) > axioma;
se é breve, a palavra é proparoxítona:
ἀκρόπολις (penúltima breve) > acrópole."
Então, como se vê com o exemplo de axioma, o correto será escrever-se oximoro, palavra paroxítona.
Foi?
Ps. Só para esclarecer uma possível dúvida, que não se encontra esclarecida na citação, o deslocamento das oxítonas gregas para proparoxítonas latinas se explica pela tendência natural, segundo os gramáticos, da busca pelo tema (via de regra longe da primeira sílaba), núcleo do significado.
josaphat em abril 18, 2009 3:41 PM
#41
Josaphat, matou a charada, hein? Era disso que eu precisava: uma regra geral que mostrasse como foi a diacronia do processo. Agora sim, entendi direitinho.
O show de bola que você e o Hugo deram nesta caixa é a razão principal pela qual, nos momentos em que desanimo do blog, me lembro de que seria uma loucura fechá-lo: leitores como vocês me enriquecem demais.
Obrigado.
Idelber em abril 18, 2009 7:34 PM
#42
Obrigado a você Idelber, pelo admirável espaço.
E ao Hugo pela parceria.
Valeus!
josaphat em abril 18, 2009 9:17 PM
#43
Pô, valeu, Idelber! E brigadão pela tabelinha, Josaphat.
abraços fraternos ;-)
Hugo Albuquerque em abril 19, 2009 12:05 AM
#44
Outro oxímoro: Reforma Ortográfica imposta por um presidente analfabeto!
Hildo em abril 20, 2009 10:37 AM
#45
"o brasil é o país onde a exceçao virou regra".
joao em abril 21, 2009 8:13 PM
#46
Essa frase é do Sérgio Buarque de Holanda, e não do reaça do Tom Jobim.
Cappacete em abril 22, 2009 4:01 AM
#47
Parece que as diferentes edições do Aurélio se contradizem. A minha versão é o "Novo Dicionário Eletrônico Aurélio versão 5.0".
Registra somente "oximoro", sem acento, e "oximóron"
Cristiano em abril 24, 2009 11:26 PM
#48
Acho que você não entendeu. Se não fôssemos contraditórios, não seríamos o que somos, mas norte-americanos, franceses ou ingleses. Nem seguiríamos a máxima de Oswald de dar pérolas aos porcos, como o título de seu blog se apropriou.
LUIZ CLAUDIO em julho 31, 2009 12:40 AM
#49
Que coisa mais linda é esse povo discutindo grego! E depois dizem que brasileiro é ignorante, analfabeto...
Inês em agosto 12, 2009 5:03 PM
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