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quinta-feira, 09 de abril 2009

Duas estantes

Nunca mandei para o Drops da Fal as fotos de estantes que uma vez ela compilou. Tendo enrolado além da conta, faço um post com as fotos já velhas, como um pretexto para falar de livros. São duas estantes, uma organizada e outra nem tanto. Ambas no meu gabinete, em Tulane. Os livros especiais eu guardo, claro, em casa. A primeira estante, que olha para o sul, para o Rio Mississippi, é esta:

DSC02880.JPG

Aí está minha coleção de narrativa hispanoamericana em ordem alfabética por autor. Excetua-se a prosa argentina, que merece um par de estantes exclusivas em casa, e as magníficas Biblioteca Ayacucho e Colección Archivos, que também têm status de livros domésticos. No alto, em pastas, anotações à mão de seis anos de rato de biblioteca em tempo integral (1990-96) sobre tudo o que se imaginar, de Platão a Guimarães Rosa.

Segurando a pilha, no canto superior esquerdo da segunda prateleira, as Obras Completas de Mautner. Os quatro livrinhos negros mais adiante são uma coleção de romances da Revolução Mexicana. Na prateleira de baixo, os livros magros e escuros são as Obras Completas de García Márquez (até 1990), traduzidas ao português. Na seguinte, à esquerda, dois livros iguais, de lombada branca com tarja preta, são romances chatos mas não desprovidos de mérito, escritos pelo mexicano Fernando del Paso, que gosta de romanção. Mais adiante, os dois volumes grandes com pinta de velhos são as edições originais das obras do grande pedagogo e ensaísta uruguaio José Enrique Rodó, uma espécie de proto-tucano tangueiro.

Na última, lá embaixo, os dicionários. Aurelião no lugar de honra, ao alcance da mão. À direita, um dicionário alemão-inglês da HarperCollins. Do outro lado do Aurélio, o volume vermelho mais fino é o Larrousse espanhol e o mais gordinho e bonina é o Larrouse francês. Ao lado, laranja, está um incrivelmente inútil dicionário espanhol-português / português-espanhol, feito em Portugal, daqueles em que você procura asomar e ele traduz, triunfante, assomar. Sério candidato a livro mais inútil da coleção. O verde grossão é um dicionário de sinônimos do espanhol, esse sim, espetacular. Ao lado, em azul, o dicionário de música da Oxford.


Aquela é a estante organizada. A desorganizada é esta:

DSC02881.JPG

Lá em cima, à esquerda, uma penca de livros em francês, edições da Gallimard, que há séculos não leio. Muito Proust e Balzac, mas também Zola, Beckett, Ionesco,Sartre. O volume verde grande, na prateleira seguinte, reúne as Obras (quase) Completas de Mark Twain e, logo abaixo, em azul, vê-se o volume das Obras (quase) Completas de Edgar Allan Poe. À esquerda, quadro volumes em branco reúnem as Obras Completas de Camões. Do outro lado, os dois volumes em negro são metade dos romances completos de Henry James (a outra metade está em BH). Mais adiante, a longa sequência de livros verdes são as Obras Completas de José de Alencar.

No andar de baixo, uma sequência de livros vermelhos: a coleção 50 grandes romances da literatura universal, da nossa querida Editora Abril. Ao lado e abaixo, há várias biografias: Oscar Wilde, James Joyce, Dostoiévski. Há até -- mato a cobra e mostro o pau -- a autobiografia do Príncipe Sociólogo, que é aquele volume negro na extrema-direita da penúltima prateleira. Na última, o livro grossão vermelho é a biografia de Caymmi. Deitada nas redondezas, a biografia de Nelson Rodrigues.

Mas meus livros favoritos -- toda a não-ficção (filosofia, teoria literária, antropologia etc.), a poesia amada, a literatura do Brasil, da Argentina e dos EUA, e todo o grande romance europeu --, eu guardo em casa mesmo.



  Escrito por Idelber às 02:42 | link para este post | Comentários (29)


Comentários

#1


Dicionário, quando é bom, é gostoso de ler. Dar uma sapeada nos verbetes do Laudelino, com aquele montão de exemplos deliciosos é uma cachaça. Ou, então, chegar em casa, vindo do sebo, com um Thesaurus de gírias americanas impresso nos EUA imediatamente após a Segunda Guerra, e ler cuidadosamente o prefácio e a introdução, para depois dar uma primeira "voltinha" no carro novo. Special slang > Food > Meal > Johnny Skinner (a dinner). E ficar imaginando que tipo de gente falava aquilo. Em quais situações? (Todos mortos.) Saborear as "definições pragmáticas" do Collins Cobuild, ou dar uma lida no verbete a respeito da Autriche-Hongrie no meu querido Petit Larousse de 1913 - não tem coisa mais gostosa neste mundo do que cultura inútil, tem?

Agora, dicionário ruim é irritante. É feito gente - se você perde a confiança, dançou. Dicionários da Porto Editora, por exemplo. Por que não capricham um pouquinho mais? Em compensação, dicionários bons viram amigos íntimos. Os Michaelis costumam ser bem ruinzinhos, apesar da tradição. Uma exceção notável é o pequenino Michaelis alemão-português, escrito por um certo Alfred J. Keller. (Parece que há outro Michaelis alemão-português de bolso - não confundir.) Notável senso do que é essencial, correspondências precisas com o português, boa visibilidade e organização. Confio nele como num velho amigo. Se ele disse, está dito, e pronto. Sigo adiante na leitura. Quando a coisa aperta, tenho o Duden eletrônico sempre à mão. Que é um outro tipo de brinquedo. Interessantíssimo, também, mas de outro tipo, com outro timing, outro tipo de relação com nossa vida, outros tipos de possibilidade. Meu Aurélio duas vezes reencapado, por exemplo, aposentou-se. Jaz deitado, na última prateleira, recoberto de revistas e papéis soltos. Aquelas folhas que se desprenderam lá dos confins da letra R ainda se fazem notar, feito uma língua pendente de um bicho exausto. Foi substituído por uma versão eletrônica, que salta na tela, solícito, ao menor clic, pronto para me listar as quarenta palavras do idioma que começam por "tart". É a vida, né?

João Vergílio em abril 9, 2009 8:11 AM


#2

Como são ruins os dicionários da Porto Editora, não é mesmo? Esse laranja do qual falei aí acima é da Porto.

Idelber em abril 9, 2009 8:13 AM


#3

AAAHHHH!!!! Qu lindas. Permssão pra roubar e mostrar lá pro núcleo pobre da novela, colação??

fal em abril 9, 2009 9:42 AM


#4

Magníficas estantes e belas coleções Idelber! Agora me diz (embora eu imagine a resposta): você leu todas essas obras ou, como diz o ditado, você compra livros como se não fosse morrer nunca e lê como se fosse amanhã?

Saudações palestrinas (o autêntico, de SP. Ganhamos com espírito de Libertadores do glorioso Sport enquanto teu honroso Galo meteu 6 no Ituiutaba e o Palestrinha Cover levou 4 do Estudiantes - que muito admiro na ARG - fora o show, rs)

Daniel Nascimento em abril 9, 2009 10:48 AM


#5

Sobre dicionários, tive em mãos, outro dia, o Houaiss grandão que achei magnífico: traz a palavra grega ou latina da qual derivou a portuguêsa, inclusive com declinações. Sem falar na qualidade do papel e do design. O que vc acha, Idelber, desse dicionário?

josaphat em abril 9, 2009 11:40 AM


#6

Oi Idelbert! Fiquei comovida com a tua biblioteca.Talvez vc nao lembre mas nos conhecemos rapidamente aqui em Porto Alegre, onde te vi na mesa do Marco e da Katarina. Sou repórter fotográfica. Virei sua leitora assídua. Um grande abraço. Adri

Adriana Franciosi em abril 9, 2009 12:18 PM


#7

Aproveitando que o assunto é livros, alguém já deu uma olhada no novo projeto de lei de Cristóvam Buarque para a criação da Cesta Básica de Livros? http://www.sidneyrezende.com/noticia/35592+aprovado+o+programa+cesta+basica+do+livro

me pareceu muito muito bacana

Flavia em abril 9, 2009 12:27 PM


#8

Idelbert: biblioteca " Caras"?
A intimidade das bibliotecas particulares devassada!
Qual a intenção?
A pura e simples divulgação ou narciso incontido?
O que se ler nas entrelinhas(ou entrelivros)?
Vários blogs com a moda: essa é minha biblioteca...
Por que, oh, por que?

Eugenio Modesto em abril 9, 2009 12:58 PM


#9

Mas é claro, Fal, estão para isso mesmo :-)

Idelber em abril 9, 2009 1:42 PM


#10

Ah, Daniel, só não vale querer saber quais foram lidas e quais não foram.... Parabéns ao seu Palestra!

Josaphat, ainda não vi, porque tenho o Houaiss eletrônico (o CD, já viu?). É fantástico também. Meu Houaiss está aqui, embutidinho ;)

Oi, Adriana, mas é claro que me lembro. Bem vinda aos comentários :-)

Vi, Flavia, agora veja este link que a Ju Sampaio compartilhou: http://revistaescola.abril.uol.com.br/gestao-escolar/diretor/vale-mais-trocado-432764.shtml

Eugenio, ego não, é falta de assunto mesmo :-) Ou falta de tempo para encarar temas mais espinhososo...

Idelber em abril 9, 2009 2:35 PM


#11

Ótimas coleções, mas caro Idelber, mostre as estantes dos de não ficção. abraços

João Vicente em abril 9, 2009 3:45 PM


#12

Resposta educada, continuo assinante RSS ( antigo ).
Um abraço.

Eugenio Modesto em abril 9, 2009 3:52 PM


#13

É, agora que começou mostra a de não-ficção...
Enumera os titulos de filosofia aí vai !

Babi em abril 9, 2009 4:21 PM


#14

Maneiríssimo, o post. Mas queria ver a de não-ficção, também.

NPTO em abril 9, 2009 4:39 PM


#15

Bom, estão prometidas para breve as estantes de não-ficção, pois :-)

Idelber em abril 9, 2009 4:56 PM


#16

Idelber, não sei o que acontece, mas em geral, quando digito "Idelber" no google, o primeiro link que aparece não funciona. Eu clico e dá erro.

Aí, eu tenho que clicar no segundo link, de um post antigo seu metendo o pau no Nassif, pra acessar o site e clicar no link pra pág. principal.

Vou assinar o RSS, mas taí a informação pra você quem sabe resolver esse problema (se não é só comigo, óbvio).

ps.: uso o firefox 3.08.

abraços
Manoel

Manoel Galdino em abril 9, 2009 8:38 PM


#17

Idelber,

Interessante seu post. Fez-me pensar num dos assuntos que mexem com minha imaginação há um bom tempo: a relação entre bibliotecas e exílio. Ou melhor: a precariedade ou incompletude do intelectual no exílio. Temos livros em casa, livros no trabalho, livros da biblioteca da universidade, livros no Brasil. Hà tantas subdivisões nessa distribuição geográfico-afetiva. O intelectual exilado ama seus livros, mas também deve estar preparado para perdê-lo, num extravio qualquer, numa mudança qualquer.

Também sempre penso em Auerbach na Turquia escrevendo o livro mais canônico da literatura comparada do século 20, com pouquíssimos livros, já que sua principal biblioteca estava na Alemanha - o que não deixa de ser um delicioso paradoxo. "Mimesis" foi escrito na Turquia, com poucos livros, o que faz também pensar na biblioteca imaginária da gente. Aquele que trazemos dentro da gente. Enfim, belíssimo post, Idelber!


Cesar em abril 9, 2009 9:15 PM


#18

ah vai, Idelber, mostra aí os livros da tua casa. vamos fazer um meme. aqui está minha proto-biblioteca, tal como era no ano passado: http://verbeat.org/blogs/razbliuto/2008/11/los-libros.html

:-p

abs.

daniel em abril 9, 2009 9:35 PM


#19

Manoel, realmente não sei o que pode estar acontecendo aí. Não tenho tido problemas com o tráfego que vem do Google. De qualquer forma, obrigado por avisar. Vou ficar tentar ficar atento a isso.

Cesar, seu comentário num ponto chave, sobre o qual às vezes fico matutando: pessoas como eu e você estamos condenadas na viver nessa situação. Já perdi a conta de quantos livros precisei em New Orleans e que estavam em Belo Horizonte -- e vice-versa, claro. Sempre me consolo justamente pensando em Auerbach...

Daniel, estão prometidas as fotos da biblioteca caseira. Teria que ser vários posts, porque ela é grandinha ;)

Idelber em abril 10, 2009 5:53 AM


#20

HAHAHA... Fala a verdade, Idelber - "a autobiografia do Príncipe Sociólogo, que é aquele volume negro na extrema-direita da penúltima prateleira." -, esse "extrema-direita" foi de propósito.

Ulisses Adirt em abril 10, 2009 12:33 PM


#21

Ulisses, será que se eu jurar que não foi você acreditaria?

Idelber em abril 10, 2009 2:32 PM


#22

Ainda bem que você não mandou suas fotos de estante na época que a fal tava publicando no drops. Ia humilhar a minha própria estantezinha doméstica, coitada! :-)

Se eu separasse minha estante pelos livros que já li e os que não li ainda, talvez desse meio-a-meio. O problema é que a metade dos que não li tende a crescer mais depressa do que a metade dos já lidos. E o argumento de que vou ler tudo quando ficar velhinha é o campeão, sempre!

Ana Paula Medeiros em abril 10, 2009 4:09 PM


#23

Adorei as fotos das estantes. Você empresta livros?
Sabe que já perdi muiiiiito livro emprestando, mudanças.... Muito triste isso

Izabella em abril 10, 2009 6:24 PM


#24

Faço minhas as palavras do NPTO: post muito legal (até valeria um daqueles tais de meme)! E os de não ficção?

Catatau em abril 11, 2009 11:28 AM


#25

Ana Paula, é sempre bom que a pilha dos não-lidos cresça mais rápido que a dos lidos. É sinal de vida, vitalidade :-)

Iza, empresto para alunos e amigos muito próximos. Mas gostar de emprestar, eu não gosto não...

Catatau, está prometido. Tem que ser uma série de posts, porque são muitas estantes...

Idelber em abril 12, 2009 3:26 AM


#26

Oi Idelber,
...então, adorei mais que tudo, e vou imprimir pra depois ler, é muita coisa rs...do Mautner, ele é o Cara, já fui a shows e palestras dele, é uma cabeça ambulante de idéias, deve ser um tormento ser Jorge nao! Ele cita o amigo dele, o Agripino de Paula, o mundo é pequeno, ele era meu vizinho, lá no distante Brasil...Valeu, valeu mesmo...a propósito, obras completas do Cara? Caramba, nem em sebo a gente encontrava, eu ia nas bibliotecas para ler algo dele...
abraços e sayonara
madoka

madoka em abril 12, 2009 10:15 PM


#27

um abraço Idelber, adorei ver. claro, afinal trata-se de livros. em minha casa aqui em Lisboa todas as divisões têm livros, e tem seis (divisões). tive que pôr parte deles numa velha casa que começa a dobrar sob o peso (verdade) e outra parte num guarda-móveis, enquanto sonho numa casa que se multiplique sózinha à medida que os livros crescem (como os meninos).

popelina em abril 13, 2009 1:41 PM


#28

¿autores peruanos?

Ivo em abril 14, 2009 4:39 PM


#29

As fotos dão-me saudades.

Mac Williams em abril 22, 2009 3:48 AM