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terça-feira, 14 de abril 2009
Um soneto de Luis de Góngora
Quando por competir com teu cabelo
ouro brunido ao sol reluz em vão
quando com menosprezo sobre o chão
olha tua branca fronte o lírio belo
enquanto a cada lábio, por detê-lo,
seguem mais olhos que ao cravo auroral
enquanto triunfa com desdém vital
do luzente cristal teu gentil colo,
goza colo, cabelo, lábios, fronte,
antes que o que foi em tua era dourada,
ouro, lírio, cravo, cristal luzente,
não só tal prata ou violeta truncada
se torne, mas tu e ele juntamente,
em terra, em fumo, em pó, em sombra, em nada.
de: Góngora, Luis de. Sonetos completos. Madrid: Castalia, 1989, p. 230. Tradução: I. Avelar.
***********************
Mientras por competir con tu cabello
Oro bruñido al sol relumbra en vano,
Mientras con menosprecio en medio el llano
Mira tu blanca frente al lilio bello;
Mientras a cada labio, por cogello,
Siguen más ojos que al clavel temprano,
Y mientras triunfa con desdén lozano
Del luciente cristal tu gentil cuello,
Goza cuello, cabello, labio y frente,
Antes que lo que fue en tu edad dorada
Oro, lilio, clavel, cristal luciente,
No sólo en plata o víola troncada
Se vuelva, mas tú y ello juntamente
En tierra, en humo, en polvo, en sombra, en nada.
Escrito por Idelber às 00:57 | link para este post
| Comentários (23)
#1
Talvez o mais conhecido de soneto de Góngora, "Mientras por competir" foi vertido ao português pelo Prof. Péricles Eugênio da Silva Ramos (nesse ou nesse livro, não sei), em versão que certamente será superior à minha. Mas a ela não tenho acesso :-(
A outra tradução ao português existente na internet eu acho fraca. Há uma versão em inglês e uma declamação em sotacão peninsular.
Procrastinação, teu nome é Góngora.
Idelber em abril 14, 2009 1:23 AM
#2
Belíssimo!!
Tanto quanto o de Sor Juana Inés de la Cruz, que dialoga com Gôngora:
"Este, que ves, engaño colorido,
que del arte ostentando los primores,
con falsos silogismos de colores
es cauteloso engaño del sentido;
éste, en quien la lisonja ha pretendido
excusar de los años los horrores,
y venciendo del tiempo los rigores
triunfar de la vejez y del olvido,
es un vano artificio del cuidado,
es una flor al viento delicada,
es un reguardo inútil para el hado:
es una necia diligencia errada,
es un afán caduco y, bien mirado,
es cadáver, es polvo, es sombra, es nada."
Mariano em abril 14, 2009 1:40 AM
#3
Sou um apaixonado pela verve hispânica. As palavras parecem sempre graves, um desenho definitivo. Belas e soturnas tal qual Goya em suas pinturas negras. Apenas uma sugestão: traduziria humo para fumaça, no último verso, é a melhor tradução e o que parece fazer melhor sentido.
Jurandir Paulo em abril 14, 2009 3:07 AM
#4
Sim, mais literal. Mas aí teríamos um soneto com treze versos decassílabos e um hendecassílabo, de pé quebrado ;-)
Idelber em abril 14, 2009 3:26 AM
#5
Tirava o "em" de nada. Manteria o sentido, até mais grave, e nos decassílabos. Mas isso é pura aporrinhação de um esteta canhestro, reconheço. Quase uma provocação. Os versos são lindos.
Jurandir Paulo em abril 14, 2009 3:45 AM
#6
Não é aporrinhação, não! Eu adoro essas wikitraduções ;-)
O problema é que seu verso continua com onze:
em / ter / ra_em / fu / ma/ ça_em / pó / em / som/ bra / na = 11 sílabas
em / ter / ra_em / fu / mo_em / pó / em / som / bra_em / na = 10 sílabas
Como há elisão entre o "bra" de "sombra" e o "em" (já que o "bra" é sílaba átona terminada em vogal seguida por outra sílaba iniciada por vogal), a retirada do "em" não altera a métrica...
Tenta de novo :-)
Idelber em abril 14, 2009 4:09 AM
#7
Professor, alguma lição básica de métrica eu perdi. Não entendo como ter/ra/em são duas sílabas. Mesmo assim, sempre há de existir alguma criatividade, viva o povo do cordel! Eu tento assim:
ter / ra_ / fu / ma/ ça/ pó / som/ bra / em_na/da = 10 sílabas
Passei?
:-;
Jurandir Paulo em abril 14, 2009 4:34 AM
#8
Professor, alguma lição básica de métrica eu perdi. Não entendo como ter/ra/em são duas sílabas.
É fácil, Jurandir. É o seguinte: quando a última sílaba de uma palavra é átona e termina em vogal, e a palavra seguinte começa com vogal, as duas sílabas, para efeitos métricos, viram uma só: ter / ra_em. Isso é feito para reproduzir a forma como realmente lemos. Só ler em voz alta para conferir. É o que chamamos elisão.
E no final do verso, em português, só contamos até a última sílaba tônica. Para um verso que termina com a palavra "nada", portanto, conta-se até o "na". O "da" não entra na contagem...
Ou seja, este que você deixou aí agora é eneassílabo, só tem nove ;)
Idelber em abril 14, 2009 4:47 AM
#9
Entendi agora.
em/ter/ra/fu/ma/ça/pó/som/bra/na
Temos agora dez, sem enjambements, mas no português, ao certo, sei que o "em" deveria se repetir em cada substantivo. Talvez exista uma licença poética. De qualquer forma, depois das 3h no Rio de Janeiro, é quase impossível a poesia.
Um forte abraço.
Jurandir Paulo em abril 14, 2009 4:57 AM
#10
em/ter/ra/fu/ma/ça/pó/som/bra/na.
Agora sim, deu dez!
Idelber em abril 14, 2009 4:59 AM
#11
Aliás, eu cheguei a considerar
em terra, fumaça, pó, sombra, nada, exatamente esse último verso ao qual você chegou.
Optei por
em terra, em fumo, em pó, em sombra, em nada para manter o ritmo do original (en .. en ... en ... en..).
Mas você tem toda a razão que "fumaça" é uma tradução mais natural para humo. Foi um caso em que optei por uma semântica inexata para reproduzir com mais exatidão a respiração do texto :-)
Idelber em abril 14, 2009 5:14 AM
#12
No final de 'À Maria dos Povos, Futura Esposa de Gregório de Matos', Gregrório de Matos espelhou a frase com uma solução interessante, só que trocando o vapor da fumaça por algo mais substancioso, a cinza. Mas soa bem.
'Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada'
fm em abril 14, 2009 1:11 PM
#13
Para colocar mais lenha nesse fogo:
Decassílabo - É o verso em que se contam dez sílabas até à última tônica, inclusive, seguida ou não de outras sem acento. Se tiver icto (tônica) obrigatório na quarta sílaba, dir-se-á Moinheira ou de Gaita Galega, admitindo acentuação também na primeira e na sétima; se o icto recair sobre a quarta e a oitava, será um Sáfico; se marcar apenas a sexta, constituirá o verso Heróico; se tiver marcadas pelo icto as sílabas pares, chamar-se-á Pentâmetro Iâmbico.
(Campos,Geir, Pequeno dicionário de arte poética, p.57).
Assim: No último exemplo, do Gregório, temos um Pentâmetro Iâmbico, qual seja cinco iambos, ou cinco sílabas formadas de uma breve e uma longa, considerando que, em português, as longas são vertidas em tônicas.
Já "em terra, fumaça, pó, sombra, nada.", mantêm-se o decassílabo, mas perde-se o ritmo, já que o acento na 2º, 5ª, 7ª, 8º e 10ª soa mal aos ouvidos.
Foi?
josaphat em abril 14, 2009 8:15 PM
#14
Sobre o jâmbico, saiu errado. O correto é o pé formada de duas sílabas, uma breve e uma longa. Desculpem, foi a pressa.
josaphat em abril 14, 2009 8:31 PM
#15
www.paulohenriqueamorim.com.br
Em quem você votaria para presidente da República se a eleição fosse hoje ?
Dilma (PT) (56%, 205 Votos)
Protógenes (PSOL) (32%, 117 Votos)
Ciro (PSB) (7%, 26 Votos)
Serra (PSDB) (4%, 13 Votos)
Aécio (PMDB) (1%, 5 Votos)
Total Votos: 366
José Roberto Tourinho em abril 14, 2009 8:36 PM
#16
Olá, Idelber. Sou formado em Letras, e gostei muito da tradução que você postou. Lembrei das minhas aulas de Literatura Brasileira I, com Roberto Acízelo.
Tinha até esquecido de como se faz. Essas questões de versificação você encontra em Gramáticas como as de Celso Cunha, Bechara e Rocha Lima.
Há uma crítica em relação a essas gramáticas de que essas regras não refletem mais o falar médio do brasileiro.
Penso se não estariam defasadas também as regras de versificação em relação à acentuação, e respiração do falante brasileiro contemporâneo.
Bruno Marcondes em abril 14, 2009 9:31 PM
#17
Nossa Idelber
Eu estudei esse poema com o professor Joao Adolfo Hansen, na faculdade. Você me deu uma pequena madalena de presente, agora.
abraços
aline em abril 14, 2009 10:30 PM
#18
Nossa, Josaphat, exatíssimo, você descreveu bem a escolha que fiz meio intuitivamente, com base na acentuação.
Bruno, eis aí tema para ser meditado. Eu, nas raras vezes em que escando versos, tento estar atento para quaisquer elisões, apócopes, etc. que acontecem na fala real. O problema é que na briga entre linguísticos e gramáticos, e com a massiva migração dos críticos literários na direção da prosa, temos mesmo andado carentes de bons modelos de análise poética.
Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada é um belo verso de Gregório, frank, e a chatice da discussão sobre "plágio" não lhe tira o mérito. Continuo gostando mais do verso de Góngora, talvez porque no em terra, em fumo, em pó, em sombra, em nada ecoem sons mais lúgubres, do u e do o, mais conformes com o tema do texto que o som mais aberto do i que aparece em Gregório.
aline, que legal que chegou a ter aulas sobre esta pérola, e com ninguém menos que o Hansen! Queria lhe dizer também que seu post sobre a amiga de nome egípcio me impactou muito por aqui -- forte.
Mariano, Sor Juana é o máximo, é outra poeta de primeira que poderíamos brincar de traduzir um dia desses.
Abraços.
Idelber em abril 14, 2009 11:10 PM
#19
¡Estupenda versión! Concuerdo con Isis que es una bella manera de procrastinar. Me encanta enseñar este poema junto con el de Garcilaso y Sor Juana a mis pupilos.
A mí me dio por traducir la Epistle to Dr. Arbuthnot de Alexander Pope en un momento similar, y espero en algún momento acabarla. No he encontrado traducción en español del poema, e he buscado una edición en español de sus obras sin éxito.
Marcos CF em abril 15, 2009 12:20 AM
#20
Esse blog é o máximo :)
Izabella em abril 15, 2009 9:06 AM
#21
obrigada por dizer isso. eu estava muito emocionada quando escrevi. se te tocou forte, ganhei o dia.
um abraço, também forte. :)
aline em abril 15, 2009 3:10 PM
#22
É impressionante como o mundo realmente mudou de tamanho! Eu, aqui de BH, só agora fiquei sabendo da morte do já saudoso Amadeu por uma pessoa que está a milhares de quilômetros...
Amadeu era uma dessas figuras cada vez mais raras, que sempre fez questão de cultivar as antigas e novas amizades com uma conversa culta e interessante.
Obrigado pela notícia.
Pedro em abril 15, 2009 5:30 PM
#23
De nada :-) A idéia do blog é aproximar mesmo ;)
Idelber em abril 15, 2009 6:34 PM