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segunda-feira, 11 de maio 2009

A crítica ao Fla x Flu como uma cortina de fumaça do nosso tempo

flu.jpgUm espectro ronda a blogosfera política brasileira: o espectro do Fla x Flu. Ubíqua, a reclamação acerca do “Fla x Flu entre petistas e tucanos” consome boa parte dos bytes que se gastam sobre política. A julgar por alguns comentários ou posts, tudo na internet brasileira replicaria esse binarismo supostamente simétrico entre petistas e tucanos. Essa premissa é quase sempre complementada por uma “sensata” voz que aparece apresentando-se a si própria como instância que paira sobre as “torcidas organizadas”. Jornalistas adoram fazer isso: a clássica demagogia da isenção.

Mas há algo de novo no reino da Dinamarca. A reclamação ou crítica do chamado Fla x Flu se repetiu tanto que se transformou na doxa do nosso tempo, talvez em sua principal cortina de fumaça. Ela binariza e empobrece a realidade justo ao martelar a reclamação de que a realidade está atravessada por um binarismo simples. A queixa cria o que chamamos win-win situation. Quem vai discordar de alguém que está criticando o radicalismo, a binarização e a simplificação do Fla x Flu? Ao mesmo tempo, esse clichê permite ao seu enunciador omitir-se dos antagonismos políticos do seu tempo. Afinal de contas, ele não entra em “torcidas organizadas”.

Quando ouço a teoria do Fla x Flu entre petistas e tucanos nos blogs, eu, que escrevo sobre política brasileira na internet há cinco anos, não sei bem a quais blogs as pessoas se referem. Porque, para começo de conversa, eu não conheço uma blogosfera tucana. Sim, sei que está aí o pessoal do TucanUSP, por exemplo, que muito me honra com seu link (e vejam que não estou entre os “Eles”! Alon e Carta Maior, sim; eu estou no blogroll "neutro": obrigado, pessoal). Haverá outros blogs como o TucanUSP. Mas eles não são, convenhamos – e concordariam com isso –, blogs que estejam pautando o debate político na Internet. São boas, jovens iniciativas.

Há o blog da Veja, serrista até a medula. Mas muito antes de fazer um blog tucano, o Reinaldo Azevedo faz um blog antipetista. Se todo o PSDB contraísse gripe e desaparecesse amanhã, o blog de Azevedo continuaria idêntico. É só jogar as tags “PT” e “PSDB” numa nuvem e confirmar o óbvio. Excluindo-se Azevedo, então, que é realmente mais antipetista que tucano, qual é o blog importante de política que se declare simpático a ou alinhado com os tucanos? Não me lembro de nenhum. Conheço muitos blogs de direita: fiscal, ou religiosa, ou sionista, ou de segurança etc. Nenhum deles, que eu me lembre, se declara mesmo tucano. foto52.jpg

Tese I: mesmo que fosse verdade que a blogosfera política é um Fla x Flu, este não seria entre petistas e tucanos. Não há qualquer simetria aqui. Se Fla x Flu houvesse, “petistas” e “antipetistas” ou “lulistas” e antilulistas” seriam descrições muito mais próximas à realidade.

Isso não quer dizer que a visão tucana de Brasil esteja ausente da blogosfera. Eu acho que ela é, inclusive, a visão dominante na internet. Onde, então? Ora, em todos os grandes portais, que mantêm com essas duas forças políticas relações nem um pouco comparáveis. Não concebo que alguém estude com um mínimo de atenção as referências da RBS a Olívio Dutra e a Yeda Crusius, ou as da Folha de São Paulo a Marta Suplicy e José Serra, e conclua que há simetria nesses tratamentos. Não digo que eles conspirem com o PSDB (embora às vezes seja isso mesmo). Digo que, ainda que fosse verdadeira essa hipótese de que a blogosfera política é um Fla x Flu entre a visão petista e a visão tucana de Brasil, não encontraríamos esta última a não ser nos Noblats e nos Josias da vida. Justamente os blogs supostamente neutros e objetivos.

Tese II: a visão tucana de política expressa-se justamente nos blogs onde se reclama do Fla x Flu entre tucanos e petistas. Não há nada mais tucano que reclamar do Fla x Flu de “torcidas organizadas” e do “radicalismo” dos “dois lados”. A crítica ao binarismo é feita do ponto de vista de um dos termos do próprio binarismo. A crítica ao binarismo nunca é neutra em relação aos termos que compõem o dito cujo.

Não há surpresa aqui, aliás. A filosofia, nas últimas décadas, vem demonstrando que oposições binárias funcionam assim mesmo. A Gramatologia, de Derrida, que não seria despropositada escolha para o lugar de livro de filosofia mais importante da segunda metade do século XX, ensina muitas coisas, mas duas de especial relevância para este post. Coloco-as em forma de teses minhas porque minha é a escolha de palavras (as teses não se encontram dessa forma, nem com esses vocábulos, em Derrida, mas estão baseadas nele):

Tese III: um antagonismo político nunca é simétrico. O acontecer dos dois termos do binarismo jamais é simultâneo. Um “Fla x Flu” político nunca é o encontro entre duas caras-metade num terreno supostamente neutro, como imaginam 99% dos nossos jornalistas.

Isso é assim porque:

Tese IV: desde que o mundo é mundo (ou pelo menos desde que a linguagem é linguagem, ou que o Ocidente é Ocidente), não existe binarismo em que não esteja embutida também uma hierarquia, uma violência, uma exclusão. Isso se aplica a qualquer dicotomia que você queira tomar: essência / aparência, masculino / feminino, alma/ corpo, voz / escrita etc.

Em todas elas, a lógica não é simétrica, e sim suplementar: como naquela clássica fábula judaica sobre o nascimento do masculino e do feminino, um termo aparece depois do outro. Esse “depois”, no entanto, é escorregadio, porque o que é mais próprio do termo dominante, o primeiro, é estar faltoso em relação ao suplemento que está para chegar, estar esperando-o, por assim dizer. Ao ser suplementado, ele torna-se o que é: Eva confere a Adão, retrospectivamente, sua identidade.

Mas e o lado de Eva, do feminino, do termo subordinado no binarismo? Assim como o dominante, o termo subordinado tampouco é tranquilo, unívoco, idêntico a si mesmo. Ele também é atravessado pela temporalidade suplementar: "feminino", na dicotomia masculino / feminino, não é só o nome de um dos termos do binarismo. É também o nome de algo que teve que ser excluído para que o binarismo se constituísse enquanto tal. No caso do feminismo, essa hipótese foi desenvolvida em dois livros monumentais de Luce Irigaray.

Em outras palavras? A dicotomia masculino / feminino, ela mesma, é narrada com linguagem masculina, é uma construção masculina. Não se constitui esse binarismo sem que o feminino se transforme em nome de algo que não cabe no binarismo enquanto tal.

Qual a consequência de toda essa digressão filosófica para a nossa discussão política aqui? Ela não terá escapado ao leitor mais atento: se você realmente acha que o problema da blogosfera política é o Fla x Flu entre petistas e tucanos, se você vê a si mesmo pairando sobre duas "torcidas organizadas", se você de verdade acredita que Carta Capital e Veja são bolachas simétricas, se você realmente acha tudo isso, talvez seja boa ideia encontrar uma linguagem mais neutra para descrever a realidade -- porque essa é uma narrativa na qual os "petistas" ou "lulistas" reconhecem o DNA da visão tucana de Brasil. Ao descrever a realidade assim, você está tomando partido por um dos lados, não percebe?

Em todo caso, isso é de pouca monta. A sugestão política e moral que eu faria de verdade é: se você vê o Fla x Flu como o grande problema, por que não levantar a bunda da cadeira do choramingo e fundar um Vasco da Gama?



  Escrito por Idelber às 06:29 | link para este post | Comentários (114)


Comentários

#1

Esse problema é muito parecido com o vivido em certos debates propriamente acadêmicos. Na França, por exemplo, onde Derrida aprendeu e depois ensinou, aconteceu coisas assim: uma astróloga fez uma tese de astrologia em sociologia, a tese foi aceita. A querela se monta em torno do ocorrido no mundo acadêmico: é fla x flu? Tem muita gente que defendeu isso assim: "são visões de ciência, são perspectivas, não tem certo nem errado, é tudo ideologia, política acadêmica".Era de fato engraçado ver Max Weber cunhado de "Touro Pragmático" numa tese de sociologia... Mas na penumbra de seu túmulo deve agora pairar uma sombra ainda mais escura que apaga o contorno pouco legível da neutralidade axiológica tão defendida por ele. Uma voz grave e alemã nos diz: como não ver que a neutralidade é uma construção sempre parcial do procedimento científico? Sim, isso tudo é como não perceber que mesmo numa briga ideológica existe bom e mau jornalismo... Carta Capital definitivamente não é a Veja.

Jampa em maio 11, 2009 9:16 AM


#2

Raciocínio elegante, mas... Se "a crítica ao binarismo é feita do ponto de vista de um dos termos do próprio binarismo", a afirmação deste mesmo binarismo também é. Em outras palavras, criticando-se ou afirmando-se o Fla-Flu, o sujeito continua dentro do Maracanã deste debate. A questão, entretanto, é que esse Maracanã discursivo não abriga tudo – menos ainda a totalidade do Brasil. Primeiro, este Maracanã “se constrói”pelo emprego de um número necessariamente limitado, ainda que expansível, de categorias. Segundo, nem todo mundo tem “ingresso” na mão: seja por falta de interesse, por falta de familiaridade com o jogo, ou, claro, por torcer para Vasco, Botafogo ou América – sim, ao menos em tese, temos de reconhecer a possibilidade de outros “times”. Terceiro, só dois times jogam por vez nesse Maracanã imaginário, num Fla-Flu em “loop” - e por incrível que pareça, tem gente que prefere Corinthians x Palmeiras no Pacaembu ou Cruzeiro x Galo no Mineirão – outros “lugares”, outros times: outros “binarismos”não redutíveis uns aos outros. Em resumo, e traduzindo, o Fla-Flu PT-PSDB só pode contar parte da história. A negação de outros “jogos”, de outros “times”, de outras “regras” e de outros “estádios” é um exercício de hipérbole que alimenta apenas o narcisismo das partes. É como aquele cara que vai ao show do Radiohead e diz “Quem não esteve aqui não viveu”, mesmo sabendo que existe um mundo do lado “de fora”.

david em maio 11, 2009 9:26 AM


#3

Obrigado velho. A última que mais me irritou recentemente foi a discussão com um comparsa falando que sindicato e trabalhadores estão no mesmo patamar que a chefia em suas lutas (e até mesmo palestinos e militares israelenses!). Essa forma de abstrair oposições, criar um segundo binário ("EU sou isento, estou por cima e iluminado, ELES são parciais") era pauta de discussão forte, mas agora é tão óbvio em sua auto-congratulação de "neutralidade" falsamente torcendo o nariz contra os homens de palha "na lama". E é isso mesmo, pura demagogia interesseira para injetar aquilo que serve ao poder, a máfia maior de todas.

Se há algo que os NewAgeistas cagaram, foi trazer uma tosquíssima interpretação do Ying Yang pro discurso ocidental e péssimas noções sobre dualismos, binários, complementários etc. "É tudo a mesma coisa, velho" é o caralho... Quanto vem com essa demagogia em defesa de autoridades e repressões ilegítimas, rapaziada quase vem com abstrações que qualquer pensamento e análise crítica ("meu, são tudo igual. Os dois lados só estão defendendo seus interesses! São idênticos, os dois respiram!").

Não que não estejamos em forte necessidade de outros viéis (cadê os blogs anarco-sindicalistas fazendo presença? Socialistas libertários? Portais organizadores? Comunidades de solidariedade - a comunidades, cooperativas, MST, etc?), já que eu mesmo acredito que o PT devia sumir depois que Lula saísse ("abençoado seja tu por abrir a porta, agora deixe os que estão à sua esquerda entrarem"), mesmo que eu provavelmente votarei em Dilma, mas o PSDB e partidos alinhados com o Big Brother estatal-superPrivado ainda são uma ameaça possível demais (bem elogiados demais pela verdadeiro Don, aparentemente super limpos e "indignadíssimos") -- se considero um tico de vergonha que PT existirá depois de Dilma, acho uma extrema vergonha o PSDB ainda existir (é como se Menem voltasse de novo!).

M. Arturo em maio 11, 2009 9:30 AM


#4

Idelber, lindo demais o texto.

Tirando o uso dessa dicotomia para mostrar superioridade ("todo mundo está perdido no Fla x Flu, mas eu estou acima disso e sei a resposta"), de que forma essa binarização ajuda de fato o discurso politico de direita?

Eu entendo que ao se comparar a Veja e a Carta Capital, tenta-se imputar à segunda, caracteristicas da primeira e vice-versa. Mas e no discurso político? O que de fato um discurso de direita ganha ao se dizer como-o-de-esquerda-mas-ao-contrario? Será uma busca por legitimização? Será uma versão soft-porn do "us against them" neocon? Será que essa binarização tem algum papel fundamental no pensamento atual de direita no Brasil ou é simplesmente um recurso retórico prático?

Fernando Serboncini em maio 11, 2009 9:32 AM


#5

Idelber,
Acho que há uma diferença substancial entre os binarismo citados e o fla x Flu ideológico blogosférico. Todos são conceitos usados para descrever a realidade, mesmo que achemos que a realidade comportes uma relação mais complexa do que a simples oposição dos termos, e não uma oposição histórica circunscrita. Essa relação complexa é o que me parece ser pedido por uma boa parte dos que reclamam do fla x Flu. Seu tom é o inconformismo de que toda e qualquer questão acabe se reduzindo a uma oposição binária e, mais ainda, a exigência de que, ao tomar lado nesta questão específica, você está tomando lado numa luta ampla entre petistas e antipetistas. Magnifica-se a análise da realidade, reduzindo-a ao um mínimo denominador comum, o que faz com que se veja em tudo não apenas o posicionamento dos sujeitos, mas uma espécie de perversão ou má intenção. Você não pode preferir o Joaquim Barbosa ao Gilmar Mendes, a não ser que pretenda que a Justiça no Brasil seja um tribunal socialista de classe; você não pode preferir o Gilmar Mendes a não ser que faça parte ou defenda o mega-esquema DD-STF-Folha-Serra. É claro que todos temos nosso posicionamento (embora também seja claro que a maioria da população não vê nenhuma destas questões como transcendentais), mas acho que uma parte dos que reclamam do fla x Flu têm razão ao apontar a chatice que é ver em tudo que ocorre no Brasil hoje como estando em torno de dois projetos bem definidos e irredutíveis de poder, em que um é o bem e o outro é o mal absoluto. Curiosidade, aliás: os que conscientemente apostam no petismo x antipetismo não vêem seu lado como o bem absoluto, mas não pestanejam em ver no oposto tudo o que de mal existe na política brasileira.

João Paulo Rodrigues em maio 11, 2009 9:37 AM


#6

...muito bom... viva o texto elaborado das segundas... (-:

Renata L em maio 11, 2009 10:21 AM


#7

o que me parece que você se esquece é que mesmo a imprensa sendo dominantemente tucana, e eu tenho certeza que é, o governo é petista. nós não somos mais oposição. e eu acho que os blogs petistas parecem se esquecer disso e perdem chance de fazer críticas. daí que as forças nao sao tao desiguais como vc quer acreditar. o PT nao é mais o feminino da equação.


mary w em maio 11, 2009 10:44 AM


#8

Caríssimo Idelber, não entendi bem onde meu pobre blog de segunda divisão se encaixa em sua magnífica explanação - com a qual concordo facilmente - nem se eu deveria sentir-me responsável por dizer algo politicamente relevante para fazer frente a tal honra. É que, como você sabe, eu sou apenas um farsante da boa preguiça. E da má também.

Obrigado e abs.
MarcosVP

MarcosVP em maio 11, 2009 11:27 AM


#9

Idelber,

Perfeita a sua análise. Destaco dois pontos: a percepção de que a peleja blogosférica - se ela de fato existe pois, como você, tenho minhas dúvidas - se dá não entre "petistas" e "tucanos", mas entre "lulistas" e "ant-lulistas"; o segundo é a constatação de que, com poucas exceções, não existem blogs declaradamente "tucanos" na rede. Por outro lado, é interessante notar como proliferaram os blogs "lulistas". Isto nos leva a pensar que a blogosfera está tentando cumprir o papel daquilo que, no mínimo, desde a década de 1980, uma boa parte da esquerda defendia: um veículo de comunicação de grande porte para se contrapor à grande mídia. No entanto, tal projeto esbarrou em uma série de dificuldades, além de nele estarem implícitas algumas contradições e possíveis vícios de origem, sobre os quais não pretendo me deter aqui. Assim, se a grande imprensa é "anti-lula", a "guerrilha anti-midiática" se dá no espaço virtual. Porém, as reflexões feitas pela Mary em seu comentário são extremamente pertinentes: no afã de combater a ditadura midiática, muitos blogs "lulistas" acabam deixando de ser espaços de reflexão e, muitas vezes, não conseguem perceber - ou relevam - os muitos problemas e contradições presentes na aliança governista, acabando por assumir uma visão extremamente "poliânica" da realidade. Esta é uma questão sobre a qual eu mesmo, muitas vezes, tenho de me policiar, pois como bem disse a Maria da Conceição da Tavares: "Este governo pode ser uma merda, mas é o nosso governo".

Abraços.

Argonauta em maio 11, 2009 11:39 AM


#10

Uma filosofia às segundas... Ótimo, Idelber! O uso político dessa lógica binária eminentemente dissimétrica é mesmo um ponto importante a destacar, e sobretudo criticar.

O problema é "quem diz", isto é, a partir de que lugar — e por extensão, aos olhos dos desqualificadores antagonistas, com que "agenda" — essa crítica é feita. Nesse sentido, a mídia tradicional segue tendo um "lugar privilegiado" — que funciona como uma espécie de "crédito moral, ético e político", neutralizando parte de seus interesses políticos não declarados —, enquanto o teu lugar, que é o de alguém alinhado ao PT, ligado à academia, é tido como o de um "extremista", "enviesado", "míope" e até mesmo "rancoroso", fazendo com que o teu combate aos conglomerados da mídia, a despeito dos seus pontos positivos, seja simplesmente desqualificado.

[Um adendo: cada vez que você aparece como se torcesse para que a grande mídia se estrepe, aos olhos de muitos você "perde pontos" nesse estranho jogo, deixando um flanco à mostra para novas desqualificações...]

E agora, a colocar Gramatologia na lista de urgências!

Ricardo Cabral em maio 11, 2009 11:43 AM


#11

Desculpe o francês mas...

PUTA texto!

É uma situação parecida com a conversinha de que não existe mais direita e esquerda, que é um baita papinho de direita. Então se o sujeito vem com a conversa de que não existe mais direita e esquerda e que a discussão virou Fla-Flu, já dá prá localizar o camarada no espectro político com mais exatidão.

Daniel em maio 11, 2009 12:16 PM


#12

ops, comentei no tópico errado.

repetindo: fenomenal, Idelber!

Pedro Alexandre Sanches em maio 11, 2009 1:24 PM


#13

Idelber,
A mary w disse um pouco do que eu gostaria de dizer. Acrescentaria um "cuidado com a generalização" / vc já me disse isso :-) .
O comentário do Daniel acima "Então se o sujeito vem com a conversa de que não existe mais direita e esquerda e que a discussão virou Fla-Flu, já dá prá localizar o camarada no espectro político com mais exatidão." reflete o por quê desse cuidado.
Temos sempre que levar em conta o que Ricardo acabou de dizer sobre "quem diz" e com "que agenda".

Separar o joio do trigo é importante. A crítica ao binarismo é essencial em muitas questões. O mundo não gira apenas em torno desse DNA lula x anti-lulismo. Essa é a questão. Dá vontade de gritar que existe vida além do escurinho do cinema, da televisão, da internet panfletária, dos jornalões e da crítica ao PIG.

Quanto a fábula judaica, vale ressaltar que para a Kabalah (cito a dita cuja porque ela faz parte do hermetismo judaico) não havia feminino nem masculino na origem e sim algo que podemos toscamente chamar de existência Hermafrodita, uma tentativa de nomear um forma sem polos, completa. Adão e Eva, enquanto códigos, são uma coisa só. Quem interpretou que Adão era masculino foi a igreja e suas intervenções/invenções nos textos antigos. O clero sempre foi masculino, vale ressaltar.


Eu já discuti muito essa questão da mulher e do feminino subjugados em nossa civilização. Já fiquei muito puta da vida e entendo completamente vc colocar esse exemplo do judaísmo. Falando de uma maneira bem simplória, vejo que as diferentes culturas e religiões acabaram tendo que encontrar uma maneira de privar a mulher de muitas coisas a fim de que o homem pudesse compensar a falta que a experiência do "gerar a vida" traz para a existência feminina.

Mari em maio 11, 2009 1:45 PM


#14

Ao identificar o flu com os tucanos, e associar a crítica ao fla-flu à posição dos tucanos/flu, você faz uma manobra inteligente do ponto de vista eleitoral. É vantajoso para o PT polarizar todo o debate nacional, como se tudo fosse redutível à polaridade PT-antiPT.

As torcidas organizadas são uma minoria da população, e eu acredito que se todo mundo for levado a se posicionar naquela polaridade, assim como acontece hoje com o sub-conjunto dos torcedores políticos, a maioria vai escolher o PT. Ainda mais se tiver do outro lado uma elite branca fumegante e raivosa estilo RA.

Só que, para a operação funcionar bem, é preciso pespegar o rótulo de tucano em todo mundo que não embarcar no vagão do PT. Se vocês polarizarem só com RA e tchurma, seria talvez fácil para um candidato de oposição separar a si mesmo da elite branca raivosa - não é difícil para alguém criar contraste entre si mesmo e tipos tão caricatos como o RA.

É preciso, portanto, duas coisas: arrastar para o campo anti-PT todo mundo que não não embarcar no PT, e identificar esse grupo como tucano, já que tucano será o candidato de oposição ao PT.

Como eu já disse, faz todo o sentido como estratégia eleitoral. Mas a posição de sujeitos como eu, que são moderamente anti-PT (isto é, muito críticos de vários aspectos do petismo, mas abertos a reconhecer méritos, quando os percebem, no governo Lula), com um nível baixo ou inexistente de adesão/entusiamo aos/pelos tucanos, e que lamentam o clima de fla-flu entre petistas e anti-petistas, é a de que você basicamente está fazendo proselistimo eleitoral pró-PT (pró-fla).

Nós acreditamos que as grandes questões do Brasil, os grandes debates, certamente não são redutíveis à polaridade PT-antiPT, que é muito pobre de conteúdo ideológico, programático e técnico sobre os grandes temas sociais, econômicos, políticos, etc. Assim, é plenamente legítima e importante a posição dos críticos do fla-flu, que podem até (e alguém teria de demonstrar isso) ser na maioria tucanos ou parte daquele grupo a que me referi, a dos "muito-pouco-ou-quase-nada" (mas ainda assim alguma coisa) tucanos, mas cuja visão do Brasil não deriva (como acredito derivar fundamentalmente no caso dos petistas) das inclinações partidárias. Uma boa demonstração disso é que conheço inúmeras pessoas que votaram no FH, e que hoje com certeza devem se indentificar com o grupo "anti-fla-flu", e que ficaram entusiasmadas com a condução da política econômica pelo Palocci e que, se não fossem os escândalos (e talvez até apesar dos escândalos), votariam nele hoje para governador ou presidente sem pestanejar diante do fato de que ele pertence ao PT.

Uma ressalva: você não disse que as grandes questões são redutíveis à polaridade PT-antiPT, mas o seu texto, ao tentar invalidar a posição de quem reclama do fla-flu, indiretamente reforça a tendência de reduzir tudo ao fla-flu. Quando escrevo que você tenta invalidar a posição de quem reclama do fla-flu, o que quero dizer precisamente é que você diz que quem critica o fla-flu não está - como expliquei no parágrafo acima - realmente querendo despolarizar uma série de debates, mas está reforçando de forma disfarçada um dos pólos, no caso, o pólo antiPT/tucano. Você foi habilidoso em separar anti-PT de tucanos, o que permite que você responda a mim que você não falou de um pólo antiPT/tucano. Na prática, porém, sabemos que, por contingências históricas, estes dois grupos estarão fatalmente unidos na disputa eleitoral. Então, para você é mais inteligente pregar que não há ninguém de fora da polaridade (isto é, quem reclama da polaridade também faz parte dela), e deixar que os fatos silenciosamente organizem todo o eleitorado em torno dela. Para mim, tudo bem. Na hora da eleição, é natural (e talvez até desejável) que todo mundo se posicione em relação aos dois principais candidatos. O problema é que você está jogando fora o bebê junto com a água do banho. E aí meu "você" é meio coletivo, não estou me referindo apenas a você, Idelber, mas sim a um movimento maior dos petistas e simpatizantes. Nesse furor em que vocês se meteram com o desejo de que a era petista continue com a eleição da Dilma, vocês estão indiretamente empobrecendo o debate, que não ser se reduz, em nove de dez temas importantes, à polaridade PT x antiPT/tucanos

F. Arranhaponte em maio 11, 2009 1:49 PM


#15

Faltou a primeira frase do meu comentário. Idelber, dá para apagar o anterior e só deixar este aqui, completo:

Eu acho que de fato os petistas se comportam como se estivessem num fla-flu, no papel do fla, isto é, da maioria. Só que o flu não são os tucanos, mas sim os anti-petistas.

Ao identificar o flu com os tucanos, e associar a crítica ao fla-flu à posição dos tucanos/flu, você faz uma manobra inteligente do ponto de vista eleitoral. É vantajoso para o PT polarizar todo o debate nacional, como se tudo fosse redutível à polaridade PT-antiPT.

As torcidas organizadas são uma minoria da população, e eu acredito que se todo mundo for levado a se posicionar naquela polaridade, assim como acontece hoje com o sub-conjunto dos torcedores políticos, a maioria vai escolher o PT. Ainda mais se tiver do outro lado uma elite branca fumegante e raivosa estilo RA.

Só que, para a operação funcionar bem, é preciso pespegar o rótulo de tucano em todo mundo que não embarcar no vagão do PT. Se vocês polarizarem só com RA e tchurma, seria talvez fácil para um candidato de oposição separar a si mesmo da elite branca raivosa - não é difícil para alguém criar contraste entre si mesmo e tipos tão caricatos como o RA.

É preciso, portanto, duas coisas: arrastar para o campo anti-PT todo mundo que não não embarcar no PT, e identificar esse grupo como tucano, já que tucano será o candidato de oposição ao PT.

Como eu já disse, faz todo o sentido como estratégia eleitoral. Mas a posição de sujeitos como eu, que são moderamente anti-PT (isto é, muito críticos de vários aspectos do petismo, mas abertos a reconhecer méritos, quando os percebem, no governo Lula), com um nível baixo ou inexistente de adesão/entusiamo aos/pelos tucanos, e que lamentam o clima de fla-flu entre petistas e anti-petistas, é a de que você basicamente está fazendo proselistimo eleitoral pró-PT (pró-fla).

Nós acreditamos que as grandes questões do Brasil, os grandes debates, certamente não são redutíveis à polaridade PT-antiPT, que é muito pobre de conteúdo ideológico, programático e técnico sobre os grandes temas sociais, econômicos, políticos, etc. Assim, é plenamente legítima e importante a posição dos críticos do fla-flu, que podem até (e alguém teria de demonstrar isso) ser na maioria tucanos ou parte daquele grupo a que me referi, a dos "muito-pouco-ou-quase-nada" (mas ainda assim alguma coisa) tucanos, mas cuja visão do Brasil não deriva (como acredito derivar fundamentalmente no caso dos petistas) das inclinações partidárias. Uma boa demonstração disso é que conheço inúmeras pessoas que votaram no FH, e que hoje com certeza devem se indentificar com o grupo "anti-fla-flu", e que ficaram entusiasmadas com a condução da política econômica pelo Palocci e que, se não fossem os escândalos (e talvez até apesar dos escândalos), votariam nele hoje para governador ou presidente sem pestanejar diante do fato de que ele pertence ao PT.

Uma ressalva: você não disse que as grandes questões são redutíveis à polaridade PT-antiPT, mas o seu texto, ao tentar invalidar a posição de quem reclama do fla-flu, indiretamente reforça a tendência de reduzir tudo ao fla-flu. Quando escrevo que você tenta invalidar a posição de quem reclama do fla-flu, o que quero dizer precisamente é que você diz que quem critica o fla-flu não está - como expliquei no parágrafo acima - realmente querendo despolarizar uma série de debates, mas está reforçando de forma disfarçada um dos pólos, no caso, o pólo antiPT/tucano. Você foi habilidoso em separar anti-PT de tucanos, o que permite que você responda a mim que você não falou de um pólo antiPT/tucano. Na prática, porém, sabemos que, por contingências históricas, estes dois grupos estarão fatalmente unidos na disputa eleitoral. Então, para você é mais inteligente pregar que não há ninguém de fora da polaridade (isto é, quem reclama da polaridade também faz parte dela), e deixar que os fatos silenciosamente organizem todo o eleitorado em torno dela. Para mim, tudo bem. Na hora da eleição, é natural (e talvez até desejável) que todo mundo se posicione em relação aos dois principais candidatos. O problema é que você está jogando fora o bebê junto com a água do banho. E aí meu "você" é meio coletivo, não estou me referindo apenas a você, Idelber, mas sim a um movimento maior dos petistas e simpatizantes. Nesse furor em que vocês se meteram com o desejo de que a era petista continue com a eleição da Dilma, vocês estão indiretamente empobrecendo o debate, que não ser se reduz, em nove de dez temas importantes, à polaridade PT x antiPT/tucanos

F. Arranhaponte em maio 11, 2009 1:50 PM


#16

E por falar em vida após o Fla-Flu, vale a pena ler o artigo "Entre a transparência e o populismo judicial", na página 3 da Folha de hoje: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1105200908.htm , para assinantes do UOL ou do jornal. Os jovens juristas Conrado Hübner Mendes e Virgílio Afonso da Silva fazem uma análise original do Fla-Barbosa X Flu-Mendes, que eletrizou as torcidas nas últimas semanas. Abraço!

jayme em maio 11, 2009 1:51 PM


#17

Puxa, que vontade de responder aos comentários! Estão muito bons. Só para dar uma satisfação: por aqui, entrega de notas e fechamento de malas bem complicadas, já que amanhã saio para três meses e meio no Brasil.

Vou tentar, de tarde, voltar e responder pelo menos duas ou três questões. Marcos, você apareceu aí porque ... eu gosto de pôr links mesmo, e você é vascaíno e escreve bem. Já era suficiente.

Uma das questões chave é essa que mary colocou: se o PT é ou já não é o "feminino" desse binarismo. Eu acho que é, sim. Mas enfim, vou tentar voltar.

Idelber em maio 11, 2009 2:11 PM


#18

Fiz uma versão melhorada do meu comentário lá no Torre de Marfim. Não entrou ainda no momento em que escrevo porque está dando uns problemas técnicos lá, mas deve entrar a quaquer momento. Abs

F. Arranhaponte em maio 11, 2009 2:32 PM


#19

Eu preciso discordar do post. Não jogo tudo no fosso das torcidas organizadas. Mas a expressão PIG está petralhas assim como o Flamengo está para o Fluminense. É lógica binária, sim.

Fábio Carvalho em maio 11, 2009 2:38 PM


#20

Pô, ninguém vai citar a dupla Baby e Pepeu? (Ser um homem feminino, não fere o seu lado masculino?)

João Paulo Rodrigues em maio 11, 2009 2:41 PM


#21

Pera lá! Flu = tucanos, Flu = Gilmar é o c...

Excelente, execlente, excelente

Quero pensar com calma, já que eu andei polemizando sobre isso esses dias

Mas, um exemplo prático: o PT está querendo usar fitas obtidas de forma ilegal pela Veja para criar a CPI da Yeda lá no RS... eu sou totalmente contra, acho que os democratas, socialistas, libertários, não podemos utilizar os mesmos expedientes que os ... como falar... os que não pensam como nós
a luta política progressita não pode ser comprometida com a utilização de métodos canalhas

Do mesmo modo, há uma hipótese do kassab perder o mandato por confusões nas contas de campanha

Se isso acontecer, acho que a Marta também deve renunciar e devem ser propostas novas eleições, mas acho provável que ela assuma com mil argumentações que não deixarão de confirmar: na política partidária, é todo mundo igual

nos dois casos, o PT provavelmente agirá de forma sacana, como qualquer outro partido (e olha que eu gosto do Raul Pont)
mas acho que devemos argumentar contra essas atitudes, uma já em andamento, outra em potencialP

são dois exemplos para tentar mostrar que há sim diferenças, que elas são constitutivas de alguma coisa melhor, mas que elas ainda estão circunscritas a um âmbito localizado, e em crescimento, em setores da blogosfera nos quais eu orgulhosamente nos incluo

abçs

rabbit em maio 11, 2009 2:46 PM


#22

Prezado Avelar
Quero, primeiramente, cumprimentá-lo pelo seu brilhante trabalho na rede.
Em segundo lugar quero sugerir à você, que não use o nome tucano para citar ou falar do psdb. O nome tucano, nossa bela ave, não deve ser usado para designar um grupelho apátrida e entreguista como o são esses facínoras que do psdb. O termo que deve ser empregado é mesmo psdb!!!

Antonio |Pereira em maio 11, 2009 3:09 PM


#23

Vivendo por metáforas: “jogo” político e “atuação” política:
A política [em qualquer lugar] é curiosa e não é por nada que a gente usa para lá e para cá o termo “jogo politico”. Explico com um exemplo: quando está na oposição, X reclama indignado do abuso das Medidas Provisórias de Y. Quando Y passa para a oposição passa a reclamar indignado das MPs de X, que, por sua vez, abusa das MPs agora que está no poder, em nome da “governabilidade”. Indignados viram pragmáticos e pragmáticos viram indignados de um dia para o outro, sem com isso perder um pingo de “convicção” em suas “atuações parlamentares” [e note como o termo “atuação” fica bem aqui]. E assim ninguém faz nada com um sistema que funciona capengo desde o Sarney – e já se vão mais de 20 anos.
E o jogo se repete em inúmeros outros campos de debate exatamente do mesmo jeito: no poder, X é um pragmático e diz que é preciso ser responsável com o orçamento e dar o aumento "possível" ao salário mínimo. Y, indignado e, agora, na oposição, reclama que o aumento deveria [e poderia] ser muito melhor. Imaginem que eu vivi para ver ACM, pragmático/no poder desde 1964 até 2002, e portanto até então cauteloso [ou indiferente] para com o salário mínimo, reclamar indignado da tribuna do senado contra o aumento insuficiente dado por Lula. Como se não bastasse, vi Aloísio Mercadante, indignado/oposição desde que nasceu até 2002, se levantar e defender o aumento, agora "responsável" e “possível”, dado pelo governo!
Sei que parece que sou um cínico, mas não sou, de jeito nenhum. Não quero dizer com isso que são “todos farinha do mesmo saco” e dá tudo na mesma. Não são, e eu sei onde estão as minhas convicções políticas. Só que as diferenças, importantes, fundamentais mesmo, não são entre o céu e o inferno como as indignações de circunstâncias fazem crer. Às vezes tenho a impressão que estamos repetindo os debates histriônicos do nosso outro período democrático, entre Getulistas e UDNistas – se vocês tiverem a paciência de ler qualquer coisa daquela época dos dois lados vai entender o que eu quero dizer. Quem leva a sério esse teatro melodramático de quinta categoria não está só se fazendo de bobo; está também ajudando a perpetuar um debate politico de baixíssimo nível – dos dois lados.
E as MPs continuam a jorrar aos borbotões do executivo, esteja ele com quer estiver; e o salário mínimo continua a ser instrumento de manobras populistas como sempre foi desde os discursos em São Januário no dia primeiro de maio, etc…
Mas falta dizer uma coisa muito importante: o discurso dominante a que você se refere insiste em dizer que todos os grupos políticos são “farinha do mesmo saco”, vendendo a idéia fraudulenta de que uma administração petista e uma administração do PSDB são no frigir dos ovos a mesma coisa e pior ainda, que a Veja e a Carta Capital são iguais. Quem tiver paciência de esmiuçar políticas de governo em cada ministério vai ver que as coisas não são bem assim e fora do núcleo da política econômica as diferenças aumentam bem mais. E mais: a sintonia quase perfeita entre PFL e PSDB durante o governo FHC, ou entre Kassab e Serra dá idéia de que uma diferença fundamental continua existindo, apesar da guinada à direita do grupo hegemônico do PT. A Veja favorece, mente, mistifica e usa de golpes baixíssimos para fazer propaganda ideológica sem a menor preocupação com a verdade dos fatos.
E se estamos assistindo a um Fla-Flu político não precisamos necessariamente ser torcedores de um dos dois, mas devíamos estar torcendo, mesmo sem grande entusiasmo, por um dos dois por achá-lo ainda substacialmente menos pior que o outro.

Paulo Moreira em maio 11, 2009 3:34 PM


#24

Muito interessante e procedente sua desconstrução da "verdade" do Fla-flu. Só que acho que a discussão comporta nuances:
1 - na "guerra" Mendes vs. Barbosa, os petistas estão aderindo ao segundo em bloco, sem se dar conta que estão falando uma leitura fla-flu mesmo, apenas devido a declarações lastimáveis e supostas relações espúrias de GM. Só que, do ponto de vista das decisões, GM está muito mais próximo da esquerda penal (que infelizmente pouca gente consulta -- Nilo Batista, Maria Lucia Karam, Salo de Carvalho, Amilton Bueno de Carvalho, Aramis Nassif, Zaffaroni, etc.) do que o Joaquim Barbosa. Portanto, acho que a coisa é mais cinza do que parece;
2 - Acho que a Veja pode ser acusada de anti-petista corretamente. Mas, se tivéssemos que apontar algum espectro político, eu diria DEM. Para mim a Veja representa o pensamento do DEM, assim como a Folha, um pouco mais cautelosa ao centro, representa o pensamento PSDB.

Moysés Neto em maio 11, 2009 3:46 PM


#25

Na verdade parece que a existência do Fla x Flu é o que menos importa a esses jornalistas "isentos". Importante é fazer sucesso para poder dizer que ajudou a "alavancar" os lucros e assim ficar bem com o patrão. Se PT x PSDB, Lula x Serra, não importa, o que importa é que exista a cizânia que atraia o leitor e que mantenha as vendas. São muito mais cínicos do que supõe nossa vã filosofia. Aliás, você mesmo Idelber, teve uma experiência recente com um desses.

Cláudia em maio 11, 2009 5:20 PM


#26

IDelber,

Tomei a liberdade de usar um trecho do seu texto pra ilustrar uma discussão lá nos comments do blog da Marjorie.

Vc resumiu tão bem essas idéias derridianas que não me contive...

Beijo!


Rebecca em maio 11, 2009 6:49 PM


#27

Texto lindo! Tirou um nó da minha garganta em relação a esse povo que já vai logo jogando com o "fla x flu" da política blogueira e brasileira para ganhar qualquer discussão.

Agora, saindo um pouco do sério e partindo para a felicidade da brincadeira, gostaria de destacar, como rubro-negra que sou:
nunca houve nem nunca haverá qualquer simetria entre fla e flu: obviamente o FLAMENGO é MUITO superior!

aiaiai em maio 11, 2009 6:51 PM


#28

Gramatologia? O livro mais importante da segunda metade de nosso século é a "teoria da ação comunicativa" de Habermas.

Derrida é uma recauchutada francesa de Heidegger (até a noção de "desconstrução" vem do cabra -- "destruição"). Binarismo é isso? O velho Marx já tinha resolvido: "o apelo para que abandonem as ilusões a respeito da sua condição é o apelo para que abandonem uma situação que necessita de ilusões" (Manuscrito...). É a melhor forma de superar o velho problema hegeliano "binário" da relação senhor/escravo. "Aufhebung" tem tradução política, meu chapa, mas "suplemento"? Até hoje estão procurando...

O pós-estruturalismo está acabando com a mente mais lúcida da esquerda brasileira. Agora que botou Lenin no meio, aí lascou tudo.

Saudações, grande Idelber. Provocações é que nem vinho gaulês, é bom e só faz bem (hehe).

Por falar nisso, vc conhece Laclau e Chantal Mouffe? Eles misturam Gramsci com Derrida (discordo, claro, mas, caso vc ainda não conheça, acho que iria gostar...). O último livro de Laclau é elucidativo: "la razón populista".

Artur Perrusi em maio 11, 2009 6:53 PM


#29

"a clássica demagogia da isenção." fantástico. Ao debate!

Tiago Pereira em maio 11, 2009 6:58 PM


#30

Conheço o Josias, que é pago pela Folha para ser blogueiro, e posso dizer uma coisa: ele não é petista. Posso dizer outra coisa: ele não é tucano. Aliás, ele tem acompanhado com interesse o escândalo da Yeda Crusius lá no Sul. Para continuar nesse esforço de enquadrar o Josias em algum time, é bem capaz de dizerem que ele faz isso para agradar ao serra...

Aliás, fiquei agora em crise de identidade. Não sou petista. Sou jornalista e blogueiro.

Os tucanos me acusam de favorecer a política externa do PT nas minhas análises. Os petistas me respeitam, já me elogiaram enfaticamente por desafinar no coro de certas análises sobre a políticao do governo; mas sabem que são criticados por mim sempre que vejo aspectos criticáveis na política externa.

(é, eu acredito em isenção e "neutralidade" jornalística. Nunca escrevi nada de olho na vendagem do jornal, e faço isso há 26 anos.
Sou bobo mas sou feliz).

Estou perdido nesse Fla-flu. deve ser por isso que sempre detestei futebol.

SLeo em maio 11, 2009 7:08 PM


#31

Idelber,

Post perfeito. Você matou a charada no momento em que trouxe à baila a tese da ausência de simetria entre PT e PSDB. Não há como negar isso.

O PT é um "partido político" porque teve não só o nascimento como a existência de um partido na acepção moderna do termo. Como surge o PT? Da convergência entre o novo sindicalismo, a teologia da libertação e do núcleo duro de pensamento progressista das grandes universidades. Mesmo que contraditório intrínseca e historicamente, ele sempre foi uma agremiação política real, integrada por pessoas reais e presente em espaços reais, presente na sociedade que se propunha a representar.

O PSDB, por sua vez, simplesmente é o continuador de uma tradição muito antiga em nosso país que, na verdade, remonta ao período anterior à independência; é um não-partido, uma agremiação que reúne elementos que integram tão somente o estamento - ou que lhe são simpáticos - e que de partido só tem mesmo a pecha - onde estão os tucanos o tempo inteiro?

De onde vem o PSDB? Do Golpe de 64. Para ser mais preciso, da decisão dos milicos em criar uma oposição consentida, MDB, para manter a farsa institucional. Partidos de verdade não surgem de cima para baixo. Isso depois racha, boa parte de sua intelligentsia vai embora e funda uma dissidência com o simpático nome de PSDB. O Partido da Social Democracia Brasileira. Um partido cujos filiados preferem ser denominados pelo nome de uma simpática ave da fauna nacional em vez da ideologia que deveriam seguir e que em relação a qual, na prática, se opõem.

Outro ponto flagrante na história dos social-democratas brasileiros é essa curiosa identificação do grupo com o normal, com o puro, com o neutro. O PT é o anormal, é o ponto fora da curva, nós não, somos o grande e eterno cotidiano. Perguntem ao eleitor tucano médio. Ele vota no PSDB porque "não gosta de política" e porque "não acha que o Estado administre bem as coisas".

Portanto, não há polarização ontológica entre PT e PSDB, mas sim em relação às suas ações, seja nas políticas empreendidas ou na luta pela hegemonia - podendo existir até mesmo convergências de acordo com necessidades políticas, legítimas ou não, decorrentes do jogo do poder.

Logo, uma eventual simetria entre PT e PSDB é, necessariamente, fruto de uma narrativa que visa favorecer os tucanos. Do mesmo modo que há quem compare a CartaCapital com a Veja para, na verdade, emprestar atributos da segunda - uma evidente publicação política - para a primeira - uma publicação jornalística. Esse ato falho, no que toca as revistas, revela que nem mesmo os apologistas da Veja realmente a levam a sério enquanto produto jornalístico. Quando a comparam com a Carta estão querendo diluir suas reportagens como "só estão nos respondendo, é do jogo". No caso do PT e do PSDB, o segundo quer tomar para si a legitimidade popular do primeiro por meio de uma narrativa ficcional simetrizante. "Somos uma opção, o outro caminho da bifurcação", mas se esquecem que não há bifurcação alguma, mas sim apenas um caminho e um barranco.

O mesmo, de uma maneira mais simples, vale para a questão Palestina. Só há uma maneira de se apoiar Israel e ela necessita da criação de uma simetria entre as condições de israelenses e palestinos. No caso de Gaza, precisou ser construída uma falsa simetria entre as forças armadas israelenses com as forças dos massacrados em Gaza. Só uma construção ficcional pode preencher esse vácuo fático, mas nesse caso, à luz dos fatos, a verossimilhança dessa narrativa é altamente insustentável.

Hugo Albuquerque em maio 11, 2009 7:12 PM


#32

Digo uma coisa: não raramente, os jornalistas que encontrei pela profissão, inclusive os de esquerda, que avacalhavam essa idéia da isenção e da busca da neutralidade me revelaram depois serem os mais canalhas, os que se aproveitavam dessa crítica legítima ás deficiências da imrpensa para justificar seu comportamento aético.

Uma condenação totalitária do trabalho jornalístico, em algumas escolas de Comunicação, ajuda a formar estudantes cínicos, e a desencorajar os idealistas.

Já um número incontável de repórteres que conheço leva a sério o esforço para ser fiel aos fatos, e, apesar das dificuldades inerentes ao modelo de produção na sociedade em que vivemos, fazem um trabalho digno e honrado.

Graças a essa crença, de que se pode, sim, buscar a isenção e a honestidade, mal comparando, como o cientista que checa suas hipóteses com o teste de realidade antes de divulgá-la. É o que impede o jornalista sério de deixar que suas crenças e convicções o impeçam de ver o que ocorre no mundo que acompanha.

SLeo em maio 11, 2009 7:17 PM


#33

Que o Josias "notas vadias" não é petista ninguém tem dúvida. E se ele não é Serrista pior ainda, porque ficou ainda mais gratuita (será?) a agressão à Dilma e à Marta.

Cláudia em maio 11, 2009 7:30 PM


#34

Sergio Leo

aqui estou eu, de novo

o que é isso de "ser fiel aos fatos"?

se os fatos selecionados pela mídia são em geral infiéis em si mesmos

exemplo: todos os jornalistas e mesmo blogueiros como o Nassif passaram meses dizendo que o real desvalorizou-se mais de 50% nos últimos meses, o que levaria a economia ao caos
Na edição de hoje do Valor, em que há coluna sua, há um artigo muito bom dizendo que essa análise é primária e simplória, que essa desvalorização foi de no máximo 18%, para quem se disponha a fazer uma análise comparativa mundial, que demodo algum sinalizou para o caos de outras crises anteriores

ou seja, os repórteres e analistas como Miriam Leitão, Sardemberg, Joelmir Beting, George Vidor enxergaram o "fato": uma desvalorização nominal de 50%, elaboraram hipóteses a partir desse "fato" reproduzidas em todos os jornais, não perceberam que todas as moedas se desvalorizaram em proporção semelhante, o que pouco influiu nas compras e vendas internacionais do Brasil, pois o fato é que a desvalorização foi muito menor, segundo o jornal, que eu reputo sério, em que você trabalha

o "fato" que os esforçados jornalistas escolheram para trablhar todo esse tempo era um não-fato!

abçs

rabbit em maio 11, 2009 7:40 PM


#35

Idelber,

Posso estar enganado, mas alguns comentários estão deturpando um pouco o artigo original. Entendo que vc tenha feito uma crítica à forma com a qual ALGUNS Blogs - que vc identifica como tucanos - DESPREZAM qualquer debate/acusação política feita por outros Blogs e veículos midiáticos, tachando-os de lulistas e anti-psdbistas. Ao afirmar, depois, que a Carta Capital (sempre associada ao PT) não é a Veja (associada ao PSDB, DEM, ou anti-lula), o artigo enseja que o inverso não é possível, dado que não há esse tipo de desqualificação por parte dos blogs pretensamente lulistas. Certo? Sendo assim, a análise é perfeita, pois aqueles que desqualificam o debate baseiam-se somente na suposta orientação política de quem publica a "coisa", não na "coisa" em si.

O argumento seria válido para petistas e afins, caso esses duvidassem do debate por essas razões. Mas, ao que me parece, não é isso que está acontecendo...

Quanto ao PT ser o feminino ou não, acho que a questão não é essa. O PT, ou parte dele, é governo. Até aí, o PSDB, pelo menos em SP e MG, também é. O que conta é que a mídia - tema original do quiprocó - em sua maioria, tem ojeriza ao PT, ou ao menos gosta mais dos tucanos. Se isso for verdade, o PT continua sendo o feminino, mesmo no poder... A propaganda é a alma do negócio, e a melhor propaganda é aquela que não parece ser propaganda...

Acho que é isso...

Abraços!

David Neto em maio 11, 2009 7:56 PM


#36

A militância tucana é a maioria silenciosa que já elegeu 01 presidente 02 vezes. E elegerá terceiro.
A militância petista faz parte da minoria barulhenta que aparece mais, porque tem mais tempo, geralmente por estar mamando na teta, via ongs, financiamentos públicos e cargos comissionados e afins.

Rodrigo em maio 11, 2009 8:16 PM


#37

Eu acho um porre política no Brasil porque tudo se resume a uma forma peculiar de testosterone politics, em que todo mundo quer humilhar um ao outro. Usar, por exemplo, o "mensalão" para atacar quem *vota* no PT como se esses fossem culpados é muito para minha cabeça.

E fico assustado como em política por aqui se discute o totalmente irrelevante.

Andre Kenji em maio 11, 2009 8:40 PM


#38

'Conheço muitos blogs de direita: fiscal, ou religiosa, ou sionista, ou de segurança etc. Nenhum deles, que eu me lembre, se declara mesmo tucano.'

É que (no Brasil, pelo menos) quase nunca quem é de direita se assume como tal: é sempre 'isento', ou 'imparcial'. A mesma lógica dos jornalões - dá 'ibope' passar a imagem de morar numa Torre de Marfim, a observar a 'realidade objetiva' como se fosse um Anúbis da blogosfera, julgando os 'bons' e os 'maus' em sua confortável cadeira ou pufe, diante da telinha mágica. Aliás, o distanciamento da comunicação via internet é um catalizador bastante eficaz para esse tipo de comportamento...

Luis Henrique em maio 11, 2009 9:20 PM


#39

Obrigado por esse post, que lavou a alma.

Mas me preocupa muito sim o fato que os dois se tornem Democratas X Republicanos dos EUA, o velhinho jogo que se jogava na Venezuela antes de Chavez chegar.

Sem legítima oposição (isto é, oposição que não seja artificialmente criada por grupos empresariais, sua inteligentsia, e políticos amigáveis a tais interesses), ficaremos sempre com o "good cop" que se não fizermos o que foi pedido corremos o risco de dar de cara com o "bad cop" e o "único partido possível dos menos piores" precisa prestar contas ao povo cada vez menos. Taí a verdadeira competição que ocorre no "livre mercado".

Carlos Batista em maio 11, 2009 9:29 PM


#40

a idéia é boa, mas faltou poder de síntese. O texto ficou muito longo.

Jorge em maio 11, 2009 9:29 PM


#41

Post perfeito, Idelber.

Você disse o que eu venho querendo dizer faz tempo. Toda vez que aparece alguém com este papinho de fla x flu, eu penso: Xi... Lá vem merda! Já apareceu alguém querendo interditar o debate...

Rodrigo em maio 11, 2009 9:53 PM


#42


A situação, tal como eu a vejo, é a seguinte:

1. A idéia de ruptura revolucionária está definitivamente excluída do horizonte político. Partidos de extrema-esquerda são importantíssimos para a vida democrática na medida em que correm por fora e conseguem encampar bandeiras que ninguém encampa. Mas são um blefe. Não têm a menor idéia do que fazer para administrar o capitalismo, nem do que poriam no lugar dele, caso tivessem força capitanear o processo de ruptura.

2. A esquerda se define, hoje, simplesmente pelo fato de colocar políticas redistributivas no centro de seus programas de governo. É isso que distingue o governo atual do PT do governo Fernando Henrique: a escala inédita dos recursos postos a serviço de uma política redistributiva. Mas é claramente um programa de administração do capitalismo, e não de ruptura.

3. Toda a estratégia de conservação e exercício do poder levada a efeito pelo PT está baseada num "acordo de cavalheiros" com o sistema financeiro. O acordo, no caso, tem nome e RG: chama-se Henrique Meirelles. Isso empresta ao governo Lula uma face extremamente conservadora na condução da política financeira, possivelmente drenando recursos que poderiam ser utilizados nos programas de redistribuição.

4. Tudo indica que Serra mudaria os rumos dessa política. Nunca foi para o ministério da fazenda exatamente porque sinalizava mudanças.

5. Nada indica que Dilma irá fazer isso.

6. Os tucanos têm uma desconfiança sincera em relação aos programas de redistribuição. Acham esses programas desfuncionais. É uma incógnita o que Serra faria a esse respeito.

Em função de tudo isso, não tenho clareza ainda de qual será meu voto. Mas, como podem ver, este que vos fala é um vascaíno fanático.

João Vergílio em maio 11, 2009 10:22 PM


#43

Seria ilusório eu achar que, com a bagunça de malas que tenho aqui, eu conseguiria responder aos muitos excelentes comentários com o vagar e a atenção que eles merecem. Eu só quero enfatizar o que o David Neto disse no comentário #35, que ilumina algo que tanto o Arranhaponte como o David Altovolta apontaram como possível crítica ao texto. Sim, David Neto, reconheço-me na sua paráfrase. Foi isso mesmo o que quis dizer. Para esclarecer como vejo a coisa, então, aqui vai.

David Altovolta tem razão de que A negação de outros “jogos”, de outros “times”, de outras “regras” e de outros “estádios” é um exercício de hipérbole que alimenta apenas o narcisismo das partes. Eu não discordo disso. Não acho que o post tenha sugerido que o antagonismo entre petistas e tucanos (ou lulistas e antilulistas) resuma todo o campo da política. Tomemos dois exemplos: o PSOL e um cara como Bolsonaro. São dois exemplos de discursos que não dependem desse antagonismo necessariamente.

Ao contrário de um sujeito como Reinaldo Azevedo, o Bolsonaro continuaria fazendo exatamente o que faz se o PT inteiro contraísse gripe e desaparecesse. Eu não acho que a direita estilo Bolsonaro dependa do antipetismo para formular seu discurso. Por outro lado, se o PT desaparecesse amanhã, Azevedo teria dificuldades para articular seu discurso. É completamente dependente do "petralhismo" que odeia.

O que o post, sim, diz é que dentro desse antagonismo principal, o lugar de suposta "neutralidade" replica a lógica de um dos lados. Isso não quer dizer -- caro Sergio Leo -- que o Josias seja pago pelo PSDB e não pela Folha. Quem paga quem aqui não é a questão. A questão é como uma determinada lógica se reproduz. Que ele tenha, 2 anos depois, começado a investigar Yeda Crusius, na hora em que esse governo já desmorona, em nada muda o argumento.

Rebecca, obrigado pela citação e, sim, fique à vontade para usar e citar sempre. A casa agradece :-)

Arthur, meu caro, sua provocação é muito divertida. Eu adianto que Habermas e sua ação comunicativa não estariam nem no meu top 50. Sinceramente, acho muito fraco. Para mim, Habermas nunca escreveu nada comparável ao seu primeiro livro, o Transformação estrutural da esfera pública. Mas você tem toda a razão que essa lógica do "suplemento" ainda não gerou uma tradução política adequada. Para isso estamos aqui!

Abraços, tento voltar mais tarde.

Idelber em maio 11, 2009 11:16 PM


#44

Registre-se que, apesar de fazer um resumo bem brutal (digo brutal, não digo "distorcido") da minha tese, os amigos do blog TucanUSP concordaram comigo.

Idelber em maio 11, 2009 11:58 PM


#45

Texto para emoldurar. Parabéns com louvor.

Uma única ressalva: Dá para trocar o Vasco pelo Fogão?

Não acho o Josias ruim, concordando com opiniões acima. Acho que faz um bom trabalho e sempre passo por lá.

Abraços

ps.: e a Yeda? Bá, guria. Quem sabe de ti é a Nova Corja.

Pax em maio 12, 2009 12:33 AM


#46

Serra desmantelaria os programas sociais PELA SIMPLES RAZÂO DE QUE NÂO SÂO PROGRAMAS CRIADOS POR ELE. Ele desmantelou vários programas criados na época do Alckmin!

Andre Kenji em maio 12, 2009 12:43 AM


#47

João Vergílio,
Você é o cara.

Mari em maio 12, 2009 1:46 AM


#48

Não há dúvidas: João Vergílio é o cara. Aqui vai um testemunho: se algum dia eu levar a ética comunicativa do Habermas a sério, não será por méritos do dito cujo teutônico, mas de JV.

Idelber em maio 12, 2009 1:52 AM


#49


O Brasil não é petista, nem tucano. O Brasil é barbalhista.

Aceitamos uma dicotomia que, além de não ter nenhum lastro na realidade, é funcional para a enorme quantidade de políticos que vampirizam o Estado brasileiro. Jáder Barbalho deve mais essa a nós, que o veneramos tanto. Sem essa dicotomia, sua casa não teria as torneiras que as revistas afirmam que ela tem - de ouro. Cada vez que lava as mãos numa delas, o senador nos agradece. E nós lhe agradecemos a mesura gritando "truco!" para o tucano à nossa frente, que nos retruca um "seis!", enquanto Jáder, que não se distrai com qualquer barulho, subtrai a caixa de fichas sorridente e sai de fininho.

Alguém escreveu esse enredo. Porque só pode ser enredo, de tão funcional e bem concatenado. Alguém nos ensinou a cacarejar argumentos que não valem um centavo furado como se eles fossem a taboada do três. Poderíamos tentar o jogo da velha; o resultado seria equivalente, custando menos adrenalina e cordas vocais. Iríamos adorar, suponho. Pode-se passar a eternidade fazendo exatamente os mesmos movimentos, esperando que, num raro descuido, o outro tropece e caia.

A política futebolizou-se. (Desde sempre, talvez. Entendam, então, este parágrafo como o choro imbecil de um enxadrista habermasiano. Aos cinquenta anos, essas coisas acontecem.) Como eu dizia, a política futebolizou-se. Torcemos para um partido como torcemos para um time. Não consigo imaginar coisas mais distantes entre si do que Serra e Alckmin, Zé Dirceu e Tarso Genro. É mentira que nos movemos em direção a um projeto. Nós nos movemos, só isso, com nosso bando do coração, só isso - "prá onde você for, a gente vai com você". Talvez seja isso que faz a fé do homem simples, mas certamente não se tira muita teologia daí.

Se queremos pensar a política, temos que fazer um recuo desse movimento de bando. Nâo significa raciocinar a partir de coisa nenhuma. Significa aceitar que nossas premissas sejam extraídas de um solo minimamente compartilhado.

Nem toda dicotomia é babaca. Essa decididamente é.

João Vergílio em maio 12, 2009 3:22 AM


#50

Idelber,
Mas se não há nunca terreno neutro, se cai-se sempre no binarismo, apesar dele sempre ter algo de falso na sua aparente igualdade (50% para cada lado), como é que se sai dele? Afinal, mesmo que se prpoponha a alternativa vascaína, como ela operará num terreno já comandado por um dos lados do binarismo? O que permitirá que ela escape a ele em vez de se tornar força auxiliar de um dos lados já presentes?

João Paulo Rodrigues em maio 12, 2009 10:42 AM


#51

Caro Idelber

Moro no Rio de Janeiro. Aqui não há nem petistas nem tucanos relevantes na Política Partidária Representativa.

O que há nas assembléias do Estado do Rio é um grande e confuso PMDB e uma constelação de pequenos partidos praticando a política do governo central. Praticamente não há oposição. Ou seja, não há na terra do FLA X FLU, este FLA X FLU partidário que você, caro Idelber, anuncia!

A atuação do partido do governo em nosso estado e na cidade do Rio de Janeiro é comandada por S.Paulo. Não é um segredo que isto aconteça, isto é fartamente conhecido em terras cariocas e já ouvi diretamente da boca de Vladimir Palmeira que tal ocorra.

O PSDB também não existe no Rio como uma força Política Partidária representativa. Mas só para contrariar minha tese há uma vereadora, Gouvea Vieira, que andou dando trabalho a César Maia e agora ao Eduardo Paes. Outros poucos mandatários deste partido (no executivo ou legislativo) em terras cariocas e fluminenses estão lá para se abrigar de brigas partidárias em outros cantos, NÃO HÁ NENHUMA IDEOLOGIA NA ESCOLHA.

Por fim, mas na verdade para falar do primeiro ponto importante que você toca, quero lembrar que NÃO há simetria na confrontação destes dois partidos. O partido do governo é muitas vezes mais forte que o outro. E o fato dele não estar representado nas cadeiras das casas legislativas carioca e fluminense NÃO apaga o enorme poder do bloco governamental, regido no Estado do Rio pelo nosso governador Sergio Cabral, com auxílio luxuoso de algumas outras figuras, umas muito conhecidas e outras rigorosamente ocultas, mas que tem um imenso poder político em nosso estado.

O nosso país como você e os demais que frequentam este espaço sabem é o território da opinião consensual. Em termos de opinião, e transferido para o ambiente esportivo, há um Flamengo, admite-se um pequeno Fluminense, mas não se tolera um Vasco da Gama. Saudações e que bom que você suscite assuntos relevantes. Abraço PZ

Paulo Z em maio 12, 2009 10:45 AM


#52

Mas se não há nunca terreno neutro, se cai-se sempre no binarismo, apesar dele sempre ter algo de falso na sua aparente igualdade (50% para cada lado), como é que se sai dele? Afinal, mesmo que se prpoponha a alternativa vascaína, como ela operará num terreno já comandado por um dos lados do binarismo? O que permitirá que ela escape a ele em vez de se tornar força auxiliar de um dos lados já presentes?

Caro JPR, eu disse que um binarismo sempre tem certas características, mas não disse que o corpo político será sempre binário. Por exemplo, tomemos a vida política chilena. Lá, a coisa sempre foi ternária, às vezes com tremendo grau de simetria entre a direita, a democracia cristã e a esquerda. É necessariamente melhor uma vida política assim? Não acho que seja. Aliás, o objetivo do post também era esse: afirmar que a binarização do corpo político não é necessariamente uma desgraça. A desgraça no Brasil é outra: a ausência de reforma política continua fazendo que os PMDBs da vida mantenham uma relação totalmente fisiológica com qualquer lado do binarismo que esteja no poder a cada momento. Abraços.

Idelber em maio 12, 2009 10:56 AM


#53

Os próprios Estados Unidos parecem ter encontrado no binarismo a melhor solução política.

Cláudia em maio 12, 2009 11:03 AM


#54

Inclusive, Cláudia, durante muito tempo o problema aqui nos EUA foi o fim do binarismo, na época em que os democratas viraram irmãos siameses dos republicanos, por puro medo de serem etiquetados de cúmplices dos terroristas ou fracos no combate a eles. Nesse sentido, a chegada de Obama é uma salutar restauração do binarismo: "somos democratas, não teremos medo de dizer que somos contra a tortura e queremos acabar com a Guerra do Iraque". Essas simples posições eram impossíveis de se enunciar faz três ou quatro anos. Apesar de todo o papo de Obama sobre transcender divisões partidárias, o primeiro efeito de sua chegada é uma restauração, não uma superação do binarismo.


Arthur, não só conheço o livro de Laclau sobre o populismo como ele já foi discutido aqui no blog

Paulo Z, seu depoimento só confirma uma das teses do post: é empobrecedor achar que o debate político se resume a esse binarismo. O Rio, como você notou bem, tem outra dinâmica.

Idelber em maio 12, 2009 11:21 AM


#55

Mano guerreiro,
cinco saudações cruzeirenses.
Ao agora sobre o Fla-Flu petista/tucano. É teatro, mano.
Teatro, tragédia, comédia, situação dramática.
Antígona e Creonte, Aristófanes.
"A crítica ao binarismo é feita do ponto de vista de um dos termos do próprio binarismo. A crítica ao binarismo nunca é neutra em relação aos termos que compõem o dito cujo."
Mano, eu posso observar de modo neutro as ações de Creonte e de Antígona, por que não?
Já simetria, do ponto de vista dos recursos,não há.
Creonte tem mais recursos que Antígona.
Mas do ponto de vista das idéias a simetria existe, do mesmo modo que existe entre petistas e tucanos, tirante as muitas concordâncias que têm.
Por exemplo: Mercadismo tucano vs Estado petista.
Agora concordo que petismo e anti-petismo é melhor do que PT vs PSDB.
Porque PSDB tem forte parentesco com todo o complexo da direita brasileira, nunca foi nem será considerado um "partido perigoso", ao passo que ao PT tem contra si - mesmo quando se mostra aliado da banca - a desconfiança de quem mandou no país desde sempre.
Assim, PSDB é Creonte, tem mais recursos.
Misturei uns misturados, mas é por aí. Tou com preguiça em esmiuçar.
Paz e bom humor, sempre.

Walmir José em maio 12, 2009 12:21 PM


#56

Idelber,
Boa viagem. Que o longo vôo lhe seja leve e o prenúncio de uma bela estadia por estas plagas.
Um abraço.

João Paulo Rodrigues em maio 12, 2009 2:04 PM


#57

cansou da luta politica ? Se a direita é minoria na imprensa, blogs, etc.. por que nao consegue se impor? eu lhe digo: Falta coerencia haja visto o seu apoio ao facista iraniano!!!

john em maio 12, 2009 5:08 PM


#58

"Paulo Z, seu depoimento só confirma uma das teses do post: é empobrecedor achar que o debate político se resume a esse binarismo. O Rio, como você notou bem, tem outra dinâmica. "

Talvez seja por isso que o Rio não possua a menor relevância na política nacional. Ou não?

Pablo Vilarnovo em maio 12, 2009 5:21 PM


#59

Eu acho que é uma das razões, Pablo: um quadro partidário estraçalhado.

Idelber em maio 12, 2009 5:36 PM


#60

Olá, Idelber,
descobri o seu blog há alguns meses e desde então, mesmo sem comentar, pois sou preguiçoso e digito com apenas dois dedos, tenho-o lido com grande prazer e atenção. Agora, aproveitando que você está vindo pra cá, eu queria saber se posso remeter-lhe meu romamce, Jaboc. Caso sim, mande o endereço onde você vai estar.

Grande abraço

Otto em maio 12, 2009 6:03 PM


#61

Fluminense ? Jah passamos.
Vasco da Gama ? Viraram botafoguenses e este eh atual tri-vice igualando o feito dos vascaindos.
Nos resta depois de 17 anos lutar para re-estabelecer a ordem natural das coisas, também neh depois de 17 anos alguém teria que nos ultrapassar.

duda em maio 12, 2009 9:53 PM


#62

Mas um ponto que eu acho essencial nesse mascaramento presente nos debates entre PT e anti-PT nos blogs, imprensa e afins é a falta de institucionalidade dos partidos. O único partido que responde como força política e não um aglomerado de políticos no Brasil é o PT.
Quando um político petista pratica uma irregularidade, para o bem e para o mal, o partido tem de responder por isso na sociedade. Isso por que ele é visto pela sociedade como uma instituição partidária.
Os outros partidos nunca quiseram ser vistos dessa forma no Brasil e, hoje em dia, até o presidente Lula preferiu se descolar do petismo para poder governar sem ter de prestar tantas contas.

Lauro Mesquita em maio 12, 2009 10:10 PM


#63

O escândalo da Yeda é bem emblemático disso. Se fosse um escândalo envolvendo Olívio Dutra ou Tarso Genro, seria um escândalo petista. Como a governadora é d PSDB é o nome dela e de seu grupo que está nas cordas.
O PSDB não responde por essas coisas por que não responde vcomo partido, assim como o PMDB só o faz como uma entidade fantasma (que assusta e dá arrepios tb), o PSB, o PV, o PTB, o PR, o PPS.
O anti-petismo ao invés de uma organização clara que se apresente como uma força política que tenha cara e nomes e que não seja só aquele monte de safados faz muita falta na vida política brasileira.

Lauro Mesquita em maio 12, 2009 10:16 PM


#64

Acho que FlaXFlu não exemplifica bem o comportamento dos sistema complexo que é a arena política.

Uma analogia mais consistente , na minha opinião, seria uma que usasse teoria dos grupos.

repasso,


He meant that a modern derivation of SR (special relativity) uses group theory in a fundamental way. Specifically, all of SR can be derived from the following:

0) SR models the world as a 4-dimensional manifold involving 3-d
space and time
1) the Principle of Relativity (Einstein's version)
2) there is a finite upper bound on the relative speed of inertial
frames
3) the definition of inertial frames as coordinates on the manifold

plus the obvious requirement that the transformations among inertial
frames form a group.

(0)+(1)+(3)+group theory imply that only the following groups can be
admitted as transforms among inertial frames: Euclid(4-d), Galilei,
Poincare'. (2) further limits one to the Poincare' group. All of SR
follows from that (well, to get mechanics more postulates are needed...).

> You can't move from a group structure to a vector space structure
> without (various) hidden assumptions and axioms.

I didn't hide it -- that's all part of (0).

Indeed the Lorentz symmetry of SR has proved to be of fundamental
importance to theoretical physics. So this is a natural and appropriate
derivation.

Alexandre Weber- Santos/S.P. em maio 12, 2009 10:38 PM


#65

Depois de ler e pesar dezenas de comentários, fico com a tua síntese, Idelber. Boa!

Daniel Brazil em maio 12, 2009 11:05 PM


#66

Tentei ler e entender a postura política deste cyber boteco e, prá meu consolo, restou 1 decisao simples q tenho a meu alcance: deltar e passar a fazer campanha contra.

Detesto esses tucanismos subentendidos em "anti FLA x FLU", ou ainda "jornalismo isento e imparcial", ou o pior e surrado "compromisso canino c/ a informacao" e ... etc.

Sinto muito, tucano nao tem como esconder o bico - senao, nao é tucano.

O q nao é o caso deste blogueiro.

Inté,
Murilo

Tucanos sao todos iguais ... regra. em maio 12, 2009 11:19 PM


#67

Não é exatamente um off topic, mas também não está dentro do Fla x Flu. Diz respeito ao jornalismo "isento e imparcial" da Folha de São Paulo em relação ao site Congresso em Foco. A sucursal de Brasília do jornal tomou uma surra do Sylvio Costa.

http://congressoemfoco.ig.com.br/noticia.asp?cod_canal=1&cod_publicacao=28148

Fábio Carvalho em maio 13, 2009 12:57 AM


#68

João Vergílio,
Lembrei de vc hoje quando li este artigo. Ia quase esquecendo de fazer referência a ele por aqui.

VINICIUS TORRES FREIRE

A economia de Serra e de Dilma
Governador paulista evita falar sobre economia para não arrumar problemas com Lula e o PSDB, mas dá algumas pistas


DILMA ROUSSEFF chega ao segundo turno em 2010 e deixa os "mercados nervosos". Por quê? Porque a candidata de Lula e do PT corre o risco de perder para José Serra (PSDB). Lula e o PT se travestiram de tal modo nos últimos sete anos que a piada faz sentido, embora a banca e grandes empresários prefiram, de coração, Antonio Palocci a Dilma ou a Serra. O primeiro ministro da Fazenda de Lula ninguém esquece, não importam seus rolos. Palocci tirou a economia petista-lulista do armário. Ainda inspira suspiros poéticos e saudades em grandes empresários, que preferem "alguém de conversa mais mansa".
A fama de Dilma e de Serra os precede. Teriam ideias próprias demais, seriam arrogantes e, diz a lenda, tentariam colocar Banco Central, setor privado etc. numa linha dura. Mas o que pensa Serra?
Serra está na "oposição" à política econômica desde quando ministro do Planejamento de FHC (ou melhor, desde sempre), pois crítico da política do real forte "cum" déficits (externo e fiscal) que causou o colapso de 1999. Fala vez e outra sobre economia, "como economista". Instado a falar sobre alternativas, cala-se. Não quer esquentar a disputa no PSDB nem ter problemas com Lula.
Ontem, Serra foi a um encontro de economistas promovido pela revista "Exame". Disse que o BC errou ao elevar os juros quando a crise já corria solta e ao cortá-los tardia e vagarosamente. Não havia risco de inflação, pois mesmo a grande e "positiva" desvalorização do real não afetou preços. No texto de sua exposição, Serra entra em mais detalhes.
Acredita que a política monetária teria o mesmo efeito com juro mais baixo (importantes seriam as variações a partir desse patamar). Mesmo com o zunzum global do "pior já passou", o BC deve cortar juros e comprar dólares. "O ideal" teria sido o BC cortar a Selic de três a quatro pontos percentuais no auge da crise. A queda brusca de juros não teria então causado mais fuga de capital, que "decorria de motivos outros que não o diferencial de juros".
A "timidez" do BC ajuda a provocar nova valorização excessiva do real ("ajuda", pois várias moedas emergentes sobem), dado o "absurdo" diferencial de juros entre Brasil e resto do mundo, o que prejudicará de novo a exportação de manufaturas. Serra acha "absurdo" que o país tenha tido déficit externo mesmo com a grande alta das commodities, quase 60% das nossas exportações.
Serra elogia Lula nas reduções de impostos sobre bens duráveis; elogia o papel do BNDES na reestruturação de grupos industriais afetados pela ciranda cambial. Diz que o BC acertou ao emprestar dólares para empresas, que ficaram sem crédito externo na crise. Mas critica o baixo investimento público e gastos com servidores, que vão ter "impactos substanciais" até os primeiros dois anos do próximo governo federal.
Para o governador, o baixo grau de abertura econômica e a baixa das dívidas externa e pública protegeram o país do tumulto global, assim como o peso dos bancos estatais (um terço do crédito), o baixo endividamento das empresas e as transferências de renda para os mais pobres (Bolsa Família, outros benefícios assistenciais, INSS etc.). Nem de longe é um programa. Mas é uma pista. Parecida com a de Dilma.

Mari em maio 13, 2009 1:11 AM


#69

Ei Idelber, mudando completamente de assunto, quero deixar registrado o meu descontentamento com V.S.a. No blog do Nassif, mesmo que sem querer, o Comida di Buteco, uma das promoções mais gostosas daqui BH está com uma grande divulgação. Logo você, conhecido comedor do tropeiro do Mineirão nos bons e saudosos tempos alvinegros nos deixa a sós aqui no seu espaço. Vai aqui o meu veemente protesto.

Demian Franklin em maio 13, 2009 1:21 AM


#70


Mari,

Se o Serra se desvincular desse discurso gosmento que o PSDB herdou do governo FHC e da aliança estratégica com o PFL, pode transformar-se numa interessantíssima opção de esquerda no único sentido que "esquerda" pode ter para pessoas que, como eu, renunciaram à crença na possibilidade de determinação de um "ponto de fuga" da história, a saber, a gestão do capitalismo centrada numa utilização massiça dos recursos públicos para corrigir distorções geradas pelo próprio capitalismo, principalmente no que diz respeito à possibilidade de ascenção social.

O próximo passo, a meu ver, é deixar de pagar juros para financiar escolas de primeiro mundo para a criançada. Serra tem que mostrar que tem a fórmula, e que terá coragem para implementá-la. Desse ponto de vista, Dilma ainda é um mistério. Nâo é pouco razoável pensar que consiga arrecadar recursos com promessas de "lhaneza", como dizem nossos ministros do Supremo. Até agora, Serra ficou quieto, para não atrapalhar a turma que está "passando a sacolinha". Agora, começou a falar. O jogo está ficando interessante.

João Vergílio em maio 13, 2009 2:11 AM


#71


João Vergílio dos meus pecados! Que sintaxe pavorosa, meu filho! Trinta pais-nossos antes de dormir! E um Engov, que o Altíssimo não tem a obrigação de ficar cuidando do teu fígado.

João Vergílio em maio 13, 2009 2:24 AM


#72

PSDB, interessantíssima opção de esquerda, João Vergílio? Claro, claro, não fosse o fato de o discurso gosmento e a aliança com o PFL estarem absolutamente de acordo com o pensamento dos quadros do partido.

Cláudia em maio 13, 2009 10:00 AM


#73


As cartas vão se reembaralhar a partir de agora, Cláudia. Repito: a política econômica do governo Lula foi ultraconservadora, e nada indica que Dilma esteja disposta a bancar uma mudança de rumos. Serra começou a dar sinais de que, eleito, irá virar o jogo. É consistente com a sua biografia. (Certamente não seria consistente com a biografia de muitos tucanos, a começar pelo ex-presidente Fernando Henrique e pelo atual presidente do Banco Central.) Gostaria muito de estar vendo algum sinal parecido vindo das bandas do PT. Você vê? Então me diga...

João Vergílio em maio 13, 2009 10:28 AM


#74

João Vergílio,
Eu não tenho mais "expectativas". Preciso ver para crer. Tanto Dilma quanto Serra têm condições de dar essa guinada, ainda mais agora que etamos perto de um dígito. São dois candidatos de alto nível, cada um com suas mazelas e limitações, representam bem seus respectivos grupos. Economicamente, Serra está mais a esquerda e Dilma poderia estar também, mas teremos que saber se vai continuar com o acordo de cavalheiros. Em termos de políticas sociais e de algumas intenções declaradas, pelo menos superficialmente, ela está mais a esquerda do que ele, que é cercado daquela elite paulista empresarial que tem pouco contato com a realidade das ruas e fica arrotando superioridade.
Mas eu tb acho que ela vai acabar aglutinando forças mais conservadoras do que mta gente pensa para essa eleição, justamente porque a promessa de continuidade é encarnada por ela. Esse aspecto é o grande lance dessas eleições, pra mim.
Mas gostaria de deixar registrado que eu fico aflita de saber que o PT não tem nenhum outro candidato, o que impede que ela seja sensata e diga que não vai se candidatar. Sua candidatura significa o impoderável pra mim. Ela pode se curar e ficar saudável para o resto da vida, assim como pode ter algum problema novamente daqui a alguns anos. Ninguém pode afirmar nada sobreo futuro.
Como disse um colunista aqui na Paraíba "já votei uma vez em alguém doente e não voto nunca mais". Antonio Mariz foi eleito em 1994 e um ano depois José Maranhão assumiu, se transformando no mais novo coronel do Nordeste. É o nosso Sarney. Hoje, está no seu terceiro mandato, ascendendo ao poder pelas mãos do TSE.
abs
Mari

Mari em maio 13, 2009 11:39 AM


#75

João Vergílio, a quem interessa que baixem os juros se não exatamente aos quadros do PSDB, isto é, ao empresariado de São Paulo que correu do falecido PL de Afif Domingos direto para os braços do PSDB de Goldman e Aníbal? E, pergunto, em que os interesses desse empresariado coincide com as necessidades das regiões e setores mais pobres da nação?
A política econômica de Lula foi consevadora? Pois é, mas estranhamente conseguiu estabelecer a maior transferência de renda já ocorrida na história do país. Então, qual é a idéia? Atender o clamor dos empreendedores? Tudo bem, só não se deve esquecer que a classe empreendedora deste país, que a rigor sequer mereceria ser assim chamada, é ultra-hiper-conservadora e sabe segurar sua renda como ninguém. Ponha o dinheiro na mão dela de novo, via juros baixos, e esperemos para ver o que acontece em termos de justiça social.

Cláudia em maio 13, 2009 12:08 PM


#76

O perfil do Executivo (Ministérios e Estatais)hoje é PMDB, tanto quanto no Legislativo (Congresso e suas principais comissões temáticas), sozinho ou como fiador de outros nomes da base. Na Comissão de Infrestrutura, Collor venceu (com apoio do DEM e PMDB) Ideli Salvatti (apoiada por PT e PSDB). No Senado, PT e PSDB apoiaram Tião Vianna, Sarney venceu com PMDB e DEM. Surge a dúvida de qual foi ou é a mais imponderável aliança, olhando para o que ambos, PT e PMDB, propunham ao longo do tempo. Ou seja, um mudou muito e parece, não ter sido o PMDB. Com o agravante de que o PT não possui mais, primeiro o discurso modernizador e mobilizador de antes e segundo, caso ainda o tenha, não parece possuir candidato capaz de verbalizá-lo. Caso venha a investir numa segunda reeleição do Presidente, sem o PMDB não conseguirá viabilizar a aventura, que depende de votação qualificada para alterar a Constituição com tal fim. Caso obtenha êxito, estará cristalizando o já visível declínio político.

Dawran Numida em maio 13, 2009 12:22 PM


#77

Bem, vou dar meu palpite aqui. Como já disse lá no meu blog, Serra e Dilma são parecidos. Os dois acreditam numa economia de mercado mais regulada e com mais intervenção, os dois acreditam na associação estratégica entre o Estado e grandes empresas nacionais, os dois gostam de política industrial, mas nadíssima radical, em ambos os casos. O Serra me parece mais à direita na questão da privatização, e talvez mais à esquerda em relação ao Banco Central.

Em termos políticos, é mais complicado. Muitos de vocês de esquerda acreditam em alguma essência inefável e indefinível que caracterizaria o crescimento do PT como avanço (para onde e com que objetivo, não sabemos), e o PSDB como reação.

Em termos de práticas políticas, acho praticamente certo que isso é uma furada - os dois partidos se aliam ao que há de pior, fazem o jogo corrupto da política brasileira, e talvez só na margem, muito na margem, sejam ligeiramente menos piores que os PMDBs e DEMs da vida.

Em termos de distributivismo, a coisa complica. O PT com certeza é um partido mais empenhado em melhorar a vida dos funcionários públicos e aposentados, mas isto, na verdade, é regressivo na sua maior parte - é mais dinheiro para quem já tem mais dinheiro.

Ambos os partidos sustentam a política de altos juros reais no Brasil, que eu não trato como uma política pública intencionalmente regressiva (já que a intenção dessa política, mesmo que estivesse equivocada, é ajudar no equilíbrio macroeconômico, que é muitíssimo progressivo) mas que, na prática, também aumenta a renda dos mais ricos. Aqui, acho que o Serra pode atuar mais fortemente do que a Dilma (e, na minha conservadora opinião, corre mais riscos de fazer bobagens prejudiciais não só aos ricos mas também, e principalmente, aos pobres).

No salário mínimo, ambos os partidos aumentaram quando puderam, só que o Lula pôde bem mais. Talvez o Lula tenha sido um pouco (é pouco) mais inclinado a aumentar em termos reais o SM, apenas na medida em que ele engavetou de vez toda e qualquer preocupação com a Previdência depois daquela reforma inicial (é um grave erro, a meu ver).

Finalmente, há o Bolsa Família, no qual o Lula de fato deu um grande empurrão (em relação às transferências que já aconteciam), depois da perda de tempo inicial com o Fome Zero. Eu já expliquei algumas vezes no meu blog que o BF é um programa concebido pelos mesmo pensamento tecnocrático que criou o Consenso de Washington -daí a sua filosofia focalista (tão criticada por ícones de esquerda como a Conceição, que a opõe ao caráter universalista dos direitos sociais) e liberal (o indivíduo recebe dinheiro, e não alimentos ou outros bens, porque sabe administrar melhor o seu orçamento do que o Estado). O Lula teve a genialidade política de chutar para o lado a política social acalentada e desenvolvida em teoria por toda a reflexão de esquerda durante muitos anos (o Fome Zero), e adotar o Bolsa-Família, que é uma tremendamente progressivo. Bem, eu acho que aí não haverá diferença significativa entre Dilma e Serra. Ninguém é idiota o suficiente para mexer em algo que está dando tão espetacularmente certo como o BF, e que além disso rende muitos votos.

Há ainda a questão, à qual as pessoas dão muito mais importância do que eu, da política externa. O Serra pode ser ligeiramente menos à esquerda que a Dilma, se considerarmos que a política do Amorim é mais de esquerda. Mas é muito ligeiro mesmo. Lembrem-se que Serra e Amorim atuaram em dupla na conferência de Doha de 2001, conquistando uma limitação ao direito à propriedade intelectual das grandes farmacêuticas.

Acho que o Serra também pode ser um pouco mais à direita, por exemplo, na política de cotas e na relação com o MST mas, de novo, não acredito em nenhuma guinada radical.

No frigir dos ovos, voltamos ao ínico. É muito parecido mesmo, ainda mais para mim, que não acredito naquela essência inefável e indefinível que caracterizaria a Dilma como avanço e o Serra com reação. Vocês poderiam dizer que eu sou reacionário, e que, caso acreditasse naquilo, optaria pelo Serra. Mas eu não acredito mesmo, e, portanto, mesmo que eu fosse reacionário, eu não acharia que o Serra é a reação.

Vou prestar atenção na campanha, ver se consigo me definir. Mas, por enquanto, mantenho a idéia de decidir no cara-e-coroa

F. Arranhaponte em maio 13, 2009 1:15 PM


#78

Um detalhe adicional:

Quando disse que "o Serra me parece mais à direita na questão da privatização, e talvez mais à esquerda em relação ao Banco Central", é bom levar em conta que a privatização é um tema morto na prática, e hoje só serve para a retórica política. Na prática, não há mais quase nada privatizável (no sentido do politicamente factível) no Brasil, e não há mais ninguém a fim de privatizar nada.

Já a questão do BC é atual. Em outras palavras, hoje me parece bem mais relevante o posicionamento do candidato em relação ao BC do que em relação à privatização

F. Arranhaponte em maio 13, 2009 2:29 PM


#79

Arranhaponte, por que você classifica a posição de Serra em relação ao BC como talvez mais à esquerda?

Cláudia em maio 13, 2009 2:49 PM


#80

F. Arranhaponte, muito interessante sua análise, por colocar mais luz sobre comparações entre os prováveis candidatos mais fortes até aqui. Acrescento aspectos sobre o perfil burocrático e centralizador que a possível candidata governista passa quando faz as apresentações sobre ações do Governo, notadamente o PAC. Um aspecto frio e causa enfado depois de um certo tempo. Ai surge outro aspecto, que é o fato de o PAC ter sido concebido para ser anticíclico e acelerador da economia, só que o PIB caiu fortemente no último trimestre de 2008 e a crise financeira instalou-se. Assim, fica sob holofotes a capacidade gerencial, pois, suas ações não blindaram e nem aceleraram a economia. Da forma como está o País, mais maduro e mais cioso de conquistas recentes (estabilidade econômica que já chega a quase 16 anos), coloca o cidadão mais crítico e menos propenso a aceitar mistificações. Ou seja, só falar em manter o Bolsa Família, por exemplo, não será decisivo, pois, ninguém irá sequer imaginar levemente em mexer na rede de proteção social e de transferência de renda. Se for assim, não terá nada de novo a apresentar. Caso as comparações com candidatos da oposição sejam também nesse nível, a candidata governista terá muito trabalho.

Dawran Numida em maio 13, 2009 2:51 PM


#81

Só acrescentando mais uma coisa. Apesar da incógnita em termos de como levaria a economia, ao que parece, a possível candidata governista seguiria a ortodoxia vigente desde 2003. Só que, talvez, não tivesse tanto cacife político em controlar as pressões contra a contenção necessária da expansão dos gastos correntes.

Dawran Numida em maio 13, 2009 2:59 PM


#82

Mais à esquerda no sentido de ser contra a ortodoxia do BC, talvez mais inclinado a mudá-lo profundamente, isto é, algo como colocar um heterodoxo claramente submetido ao controle da Fazenda como presidente do BC. Mas não sei se ele vai chegar a tanto. Pode ser também um pouco de retórica. O fato é que, genuinamente, o Serra é um grande crítico do BC. Se ele vai dar conseqüência a isso como presidente, é outra questão. Muita água rola debaixo da ponte entre o momento em que um candidato desponta como possível ganhador de uma eleição presidencial com campanha já em andamento e o momento em que ele posse - vide Lula (deu vontade de escrever vide bula).

A Dilma também já se manifestou contra a ortodoxia do BC, mas me parece que a posição do Serra neste tema é mais contundente

F. Arranhaponte em maio 13, 2009 3:03 PM


#83

"e o momento em que ele TOMA posse"

F. Arranhaponte em maio 13, 2009 3:06 PM


#84

Arranhaponte
Claramente submetido ao controle da Fazenda? Por quê?

Cláudia em maio 13, 2009 3:31 PM


#85

Porque o conflito tradicional é entre a Fazenda, que tem um viés pró-crescimento e o BC, com um viés anti-inflação. Isto é um trade-off no curtíssimo prazo, não no médio e muito menos no longo. Mas o ser humano vive no curtíssimo prazo :-)

Em outras palavras, a autonomia do BC em relação à Fazenda é em última instância a autonomia do BC em relação ao Executivo e aos políticos. É tida como uma âncora anti-inflacionária numa visão ortodoxa. Mas o Serra pode achar tudo isso bullshit, e colocar o BC no cabresto geral de uma política desenvolvimentista, inclusive fazendo com que a taxa básica (que o BC determina) deixe de ser um instrumento exclusivamente de controle da inflação, mas se torne também um instrumento de manipulação da taxa de câmbio, casado com objetivos de política industrial - é meio complicado, mas é mais ou menos assim que funciona

F. Arranhaponte em maio 13, 2009 3:56 PM


#86

Pois é

O Serra isso, a Dilma aquilo, mas a grande questão das eleições do ano que vem será a quantidade de senadores e deputados que o PT e o PSDB conseguirão eleger

Eu acho, assim como o João Vergílio acham que o Serra fará algumas coisas - pois não há base para essas afirmações, a não ser o desejo de cada um, que a tendencia é o PT e seu bloco aumentarem muito a representação no Senado e na Cãmara (nessa última em menor escala).
Acho que o PSDB verá sua bancada diminuída um pouco e que o DEM praticamente desaparecerá ou se tornará algo como um PTB.
(O PPS, nem se fala)
Misteriosos são os desígnios do PMDB.

Acho que o PSOL e outros crescerão.

Acho que com um quadro desses, Serra governará conservadoramente com muita tranquilidade, se eleito. Fica a incógnita da relação de seu governo com setores populares antes acomodados, agora não sei.

Mas acho que Dilma, nessas circunstancias, terá a possibilidade de fazer muito mais.
E nesse caso, o PSDB se colocará em um dilema relativo a seu futuro.

Analise simplificada, mas é por aí que eu estou pensando o que vem por aí.

abçs

rabbit em maio 13, 2009 3:58 PM


#87

Existe a possibilidade concreta de o PT eleger senadores em quase todos os estados

abçs

rabbit em maio 13, 2009 3:59 PM


#88

E olha que eu acho muito boa a idéia do Idelber, do PT se autodestruir no fim do governo Lula

rabbit em maio 13, 2009 4:12 PM


#89

O problema é que o crescimento no Brasil historicamente se associa à concentração de renda. Se o PT teoricamente sabe fazer crescer menos que o PSDB, este por sua vez, não tem a menor noção de como distribuir a riqueza. Nesse sentido não posso concordar que a visão que Serra tem do BC seja mais à esquerda. Em hipótese alguma.

Cláudia em maio 13, 2009 4:13 PM


#90


Caracas... o negócio por aqui anda animado. Pena que eu tenho que dar mais uma aula. Mas, daqui a pouco, eu entro na roda.

Abraços a todos.

Joãp Vergílio em maio 13, 2009 4:51 PM


#91

Animadíssimo e cheio de conteúdo. Boa tarde, comentaristas. O anfitrião já lhes escreve direto de Belo Horizonte.

E a internet no meu AP está funcionando!

Arranhaponte, sem gozação, não entendo essa cara-ou-coroa sua. Aguarde, em breve, a campanha "Liberal que é liberal não vota em Serra".

:->)

rabbit, eu não propus autodestruição do PT, não, cumpadi!

Idelber em maio 13, 2009 5:17 PM


#92

Off topic, mas creio que é de interesse do Biscoito.
Recebi agora:

Entrevista especial com Roberto Efrem Filho

“Entre o campo jurídico e o campo midiático há uma cumplicidade estrutural que, em última e principal instância, termina servindo ao disciplinamento das classes subalternas”, constata Roberto Efrem Filho, ao avaliar a revista Veja, tema de sua dissertação de mestrado, concluída neste ano. O pesquisador analisou 578 edições da publicação, entre o período de 1997 a 2008, correspondente aos governos de Fernando Henrique Cardoso e Luís Inácio Lula da Silva.
Na entrevista que segue, concedida com exclusividade, por e-mail, à IHU On-Line, Efrem Filho diz que “o campo midiático encontra na ‘corrupção midiatizada’ um significado modus operandi de empreender a luta política”. Assim, “a melodramatização jornalística”, continua, prefere “o combate ao debate, a polêmica à dialética, o enfrentamento entre as pessoas em detrimento do confronto entre seus argumentos”.
Roberto Efrem Filho é mestre em Direito, pela UFPE, professor substituto da mesma instituição de ensino e assessor jurídico popular.
Confira a entrevista.

IHU On-Line - Na pesquisa de mestrado o senhor analisou edições da revista Veja entre 1997 e 2008. O caráter da revista se modificou ao longo desses anos?
Roberto Efrem Filho - O primeiro dado trabalhado em minha dissertação diz respeito à presença de membros do Supremo Tribunal Federal (STF) nas páginas amarelas de Veja. Do dia 4 de junho de 1997 ao dia 27 de agosto do ano de 2008, Veja publicou 578 edições. Em quase todas elas, em 569, há uma pessoa entrevistada escolhida de acordo com critérios estabelecidos pela revista. Neste período, quatro ministros e uma ministra do STF concederam entrevistas às páginas amarelas da revista. De 569 pessoas, nesses mais de dez anos, cinco eram membros do STF. Dessas, três delas se deram num lapso de menos de quatro meses, mais precisamente de março de 2008 a julho do mesmo ano. Essa sobre-representação do STF em Veja no ano de 2008, a meu ver, poderia suscitar duas hipóteses, as quais tento desconstruir de antemão. A primeira delas é a hipótese do “acaso”. Acidentalmente, por acaso, fortuitamente, o ano de 2008 foi “o ano dos ministros”. Para combater essa primeira - e, propositadamente, inocente hipótese -, recorri a dados relativos à participação de entrevistados(as) norte-americanos(as) nas mesmas páginas amarelas.
De janeiro a julho do mesmo ano de 2008, Veja publicou trinta edições, por conseguinte, trinta entrevistas. Dessas, um total de dez foram realizadas com convidados(as) estadunidenses. As demais entrevistas foram feitas com brasileiros(as) - dentre eles(as), os três membros do STF - e com um venezuelano chamado Yon Goicoechea, um estudante que, segundo a publicação, “por sua luta em prol da democracia” e contra o governo de Chávez, recebeu quinhentos mil dólares do instituto norte-americano (sic.) Cato, sediado em Washington. Um terço das entrevistas não é com norte-americanos por acaso. Assim como a imensa maioria de imagens de pessoas reproduzidas nas ilustrações da revista ser de homens brancos e mulheres brancas - e não negros(as), ou pardos(as) - não é acidental. Entre Veja e Estados Unidos processa-se uma hegemonia homóloga. Por certo, sujeitos franceses, senegaleses, sul-africanos ou indianos teriam muito a dizer àquelas páginas amarelas. Todavia, a mais importante revista semanal brasileira, com seus quase um milhão de assinantes e duzentos mil compradores(as) em bancas e supermercados, com sua circulação equivalente ao dobro da de todas as outras revistas semanais de informação, aproxima de si não qualquer outro país, mas a maior potência econômica mundial. Hegemônicos em seus campos de atuação e no espaço social como um todo, considerados os latifúndios que lhe cabem nesta pequena parte do universo que é o Planeta Terra, Veja e Estados Unidos sustentam, cada qual a seu modo, as hegemonias um do outro.
A segunda hipótese a ser desconstruída é a da importância, segundo a qual se os Estados Unidos são o país mais importante do mundo, mais teriam eles de estar nas páginas de Veja, afinal é ela um órgão de imprensa que, como tal, precisa refletir o cenário social. É de se notar ser essa “importância” um bem simbólico sob conflito. Outras “importâncias” ocorreram na história sem que a revista as tivesse representado. Dá-se que há importâncias mais importantes, enquanto outras podem ser negadas. Veja, por exemplo, nunca trouxe às suas páginas amarelas os responsáveis pela extinção do analfabetismo em Cuba, na Bolívia e na Venezuela, muito embora por diversas vezes tenha declarado seus interesses na “educação”. Há interesses diversos no conflito pelo o que é mais importante.
Na hegemonia homóloga entre Veja e Estados Unidos saltam aos olhos os interesses de classe (falo de classes sociais, segundo a tradição marxista). No entanto, esses interesses de classe não repercutem diretamente nos campos específicos, como o midiático, senão através da necessária mediação. No caso do Jornalismo - e isso ocorre também com o Direito -, o interesse mais caro é o desinteresse. A importância de um fato é desinteressadamente construída nas páginas de uma revista. A presença do STF em Veja é, então, desinteressadamente atribuída ao “fato” - concebido pela revista como um mero dado desprovido de historicidade - de o Supremo Tribunal ter sua participação aumentada no espaço social. Segundo a persistência da hegemonia homóloga, entretanto, a escolha de Veja pelos membros do STF atravessa caminhos ideológicos e interesses “desinteressados” em comum. O STF, portanto, não está representado nas páginas do veiculo por acaso, ou por sua “importância”. Mas sim - e aqui reside minha pessoal hipótese - porque entre o campo jurídico e o campo midiático há uma cumplicidade estrutural que, em última e principal instância, termina servindo ao disciplinamento das classes subalternas.

IHU On-Line - Que relações o senhor percebe entre os meios de comunicação brasileiros, em especial a revista Veja, e o Poder Judiciário brasileiro? O que o senhor quer dizer com a construção histórica de uma cumplicidade estrutural material e simbólica entre ambos?
Roberto Efrem Filho - O direito e a mídia compartilham artifícios simbólicos de legitimação. O “desinteresse” do qual falei é um deles. Na edição de 17 de outubro de 2007, Veja afirma já ter sido acusada, ao longo de sua história, de ser de direita e de esquerda. Sua resposta para essas acusações é sobremaneira emblemática: “Nunca é demais relembrar que Veja só tem um lado: a defesa intransigente do Brasil”. Recorrer à defesa intransigente do país não constituiu mais do que a negação das disputas sociais pelo o que seria defender o país. A revista se põe numa abóbada celestial, livre dos conflitos sociais, acima de quaisquer contendas, numa posição purificada e desinteressada. Os importantes lucros materiais e simbólicos gerados durante essa “defesa intransigente” certamente não são citados pela revista. O Judiciário age de um modo análogo quando fundamenta seus interesses pretensamente desinteressados na defesa “da Constituição”, “do Estado Democrático”, “do interesse público” etc. A “defesa da Constituição” remonta àquela “defesa intransigente do Brasil”, ou seja, à negação dos conflitos sociais, à fabricação de consensos próprios da hegemonia e a uma auto-legitamação no espaço social.
Na composição desses artifícios de legitimação estão palavras como “neutralidade”, “imparcialidade”, “objetividade” e, nesta última, o amparo simbólico nos “fatos” tidos como dados inquestionáveis. Tais palavras - também artifícios - são compartilhadas pelo direito e pela mídia como modo de garantir a si a competência para lidar com “a” verdade. Os meios de comunicação revelam “a” verdade, o Poder Judiciário decide “a” verdade. Aqui também os conflitos sociais são negados e “a” verdade - consagrada a partir de relações de poder - é considerada como única e invariável. “A” verdade é um mecanismo de dominação exercido por direito e mídia como componente de sua autolegitimação. O Supremo Tribunal Federal e a revista Veja, assim sendo, compartilham mais do que certa importância no atual contexto histórico. Suas importâncias são arquitetadas sobre uma cumplicidade que os aproxima seja pela hegemonia homóloga, seja pelos artifícios simbólicos citados. É de se notar ainda a importância conferida por um sujeito ao outro. Veja pauta o STF ao tempo em que o STF pauta a Veja. Não há um membro sequer do Supremo Tribunal concedendo entrevistas ao Jornal Brasil de Fato ou à Agência Carta Maior. A presença de um(a) ministro(a) nas páginas amarelas de Veja fortifica a revista mas igualmente garante ao/à ministro(a) um aumento em seu capital simbólico.

IHU On-Line - O senhor analisou a revista em dois momentos políticos: quando o paí¬s era governado por Fernando Henrique Cardoso e depois por Lula. Percebe diferenças no tratamento dos governos por parte da revista? Em que sentido isso ocorre?
Roberto Efrem Filho - Analisei, a propósito da dissertação, a presença da corrupção - ou do envolvimento de membros do campo político com organizações criminosas - nas capas da revista Veja nos dois últimos anos do primeiro mandato de cada um dos presidentes, ou seja, entre 1997 e 1998, no que tange a Fernando Henrique Cardoso, e entre 2005 e 2006, no que concerne a Luís Inácio Lula da Silva. Entre 1997 e 1998, contei sete capas atinentes à corrupção, três no primeiro ano e quatro no segundo. Entre 2005 e 2006, a seu tempo, Veja publicou trinta e duas capas acerca dessa temática. Só no ano de 2005 foram vinte e uma capas. Conseguintemente, o ano de 2006 ficou com onze dessas capas. Na produção total das edições da revista, os números apresentados consistem em percentuais relevantes: entre 1997 e 1998, aproximadamente 7% das capas das edições da revista tratavam daquele envolvimento de membros do campo político com o crime, porém, entre 2005 e 2006 chega perto de 30% das capas. Ano por ano, as porcentagens aproximadas são de 6% em 1997, 8% em 1998, 40% em 2005 e 21% em 2006. No ano de 2005, nota-se um dado específico: de maio a setembro, são dezesseis capas seguidas sobre corrupção. 2005 era, como notório, o ano anterior à campanha pela reeleição.
A priori, poder-se-ia chegar ao seguinte raciocínio: se o Governo Lula foi mais “corrupto”, natural é que Veja reproduza mais esse tema em suas capas. Todavia, nada de natural existe entre a “importância” do que ocorre no mundo e a “importância” qualificada pela revista para o que deve ou não compor suas matérias de capas. O “importante”, como já dito, é um bem simbólico sob conflito. No caso de Veja e da grande maioria dos meios de comunicação - todos partidos políticos, nas palavras de Gramsci, a corrupção se torna importante porque se mostra como uma eficiente estratégia de disputa do Estado. O campo midiático encontra na “corrupção midiatizada” um significativo modus operandi de empreender a luta política. Dá-se, entretanto, que o jornalismo impõe uma visão particular da política. A melodramatização jornalística, a qual cria “vilões” e “mocinhos” passíveis de manejo simbólico, prefere, segundo Pierre Bourdieu, o combate ao debate, a polêmica à dialética, o enfretamento entre as pessoas em detrimento do confronto entre seus argumentos. Os mecanismos de incidência do campo jornalístico sobre o campo política produzem uma visão cínica sobre o último. “Políticos” surgem como sujeitos merecedores de desconfiança, cheios de interesses não “desinteressados”, como os de Veja ou do STF. A corrupção ingressa nesse contexto como um reforço simbólico em conjunturas peculiares e encontra nele uma arena estruturalmente fecunda à sua reprodução. Certamente o campo político não pode ser ingenuamente concebido como mera vítima desse processo. O modo como o campo político exerce censura ao limitar o universo do discurso político aos sujeitos iniciados e a forma como a “democracia” redunda num mercado eleitoral ratificam a incidência dessa visão cínica sobre a política. É a partir da edificação dessa conjuntura e como membro dominante do campo jornalístico, que Veja garante tamanha “importância” à corrupção. Isso, notadamente, quando da derrota do PSDB nas urnas e da consequente perda por Veja de seus aliados históricos no Governo Federal.
Não quero dizer com isso que o governo Lula tenha sido mais ou menos “corrupto” que o governo FHC. Sobre a análise das capas, a meu ver, isso pouco importa: importa mais a predisposição estrutural de Veja em pautar a corrupção, fenômeno que melhor se manifesta no instante em que, no governo, a revista encontra adversários históricos.

IHU On-Line - O senhor percebe uma criminalização da política em nosso país? Qual a participação da revista Veja nesse sentido?
Roberto Efrem Filho - A criminalização da política é um artifício simbólico de deslegitimação da política. Esses artifícios se tornam eficazes sobremaneira se a hegemonia do campo político, tradicionalmente ocupada por membros das classes dominantes como Veja, é ameaçada por outros setores sociais, como é o caso do “Partido dos Trabalhadores”. Este, por mais que não se identifique diretamente com as classes populares e mais se aproxime de uma prática pequeno-burguesa burocratizada, como afirma Mauro Iasi, não pode ser confundindo com o PSDB, o PFL, ou o que os valha. Ao criminalizar a política em 2005, no ano em que Lula é a imagem da política nacional, Veja intenta mais ou menos (in)conscientemente deslegitimar Lula, o Governo e o Partido dos Trabalhadores, conduzindo a corrupção para o centro dessa imagem.
Veja desenvolve aquilo que Juarez Cirino dos Santos chama de “criminologia da denúncia”. Os interesses desinteressados da revista na temática do crime de colarinho branco enfocam o comportamento das elites para demonstrar que os sujeitos que fazem as leis são, também, os maiores violadores dessas leis. Trata-se de um “jornalismo exposé”, de origem pequeno-burguesa - bem por isso se aplica tão facilmente ao PT junto às classes medianas -, que alimenta os índices sobre o colarinho branco sem obter deles uma compreensão apta a reconhecer os elos entre a corrupção e as estruturas do espaço social. Seu resultado é aquilo que Santos define como “agonia resignada”, ou “espasmos de resignação moral”. O denuncismo de Veja, por exemplo, raramente alcança os membros das grandes corporações criminosas. O “mensalão”, alvo das capas do ano de 2005, nada atinge senão a pequena burguesia praticante de uma dimensão inferior da criminalidade do colarinho branco e, evidentemente, o público consumidor da publicação. A eficácia simbólica do mensalão está muito mais em chocar as classes médias urbanas e seus intelectuais do que em extirpar o fenômeno criminal. Faz-se como prestação de contas morais para com as classes sociais educadas sob os princípios liberais. Não deixa de ser um meio eficaz de criação de soluções fáceis para os problemas sociais com os quais o espírito humanitário do iluminismo se desconforta. No fim, procede-se a uma mistificação das correlações de forças que atravessam e sustentam o Estado, de modo a fazer identificar a corrupção com o sujeito corrupto - recriando assim a figura do “vilão”, uma justificativa do estabelecido - quando seus determinantes sociais vão muito além da desonestidade de um ou outro Delúbio Soares.

IHU On-Line - Como define a postura da revista Veja no cenário nacional?
Roberto Efrem Filho - A revista Veja é um sujeito pertencente às classes dominantes. Faço questão de notar a palavra “sujeito” porque entre as esquerdas têm-se caído no equívoco de conceber Veja como um mero “instrumento” dessas classes, coisa advinda, sobretudo, de certa tradição intelectual mecanicista, vulgarizadora do marxismo e incapaz de discutir os meandros da arquitetura hegemônica das classes dominantes. Veja é um membro dessas classes cuja dominância no campo jornalístico é tanta que ela já não tem certos pudores - comumente necessários às mediações sociais - em ofender alguns emblemáticos símbolos das esquerdas. Na edição de 3 de outubro de 2007, por exemplo, a revista publicou uma das mais polêmicas matérias de capa de sua história, que tinha como título “Che. Há quarenta anos morria o homem e nascia a farsa”. Entre as declarações de Che sobre o revolucionário, encontramos esta: “Como homem de carne e osso, com suas fraquezas, sua maníaca necessidade de matar pessoas, sua crença inabalável na violência política e a busca incessante da morte gloriosa, foi um ser desprezível”. Numa matéria sobre o ensino escolar privado no Brasil, de 20 de agosto de 2008, Veja afirma que os/as nossos(as) professores(as) “idolatram personagens arcanos sem contribuição efetiva à civilização ocidental, como o educador Paulo Freire, autor de um método de doutrinação esquerdista disfarçado de alfabetização”. Mais tarde, na mesma matéria, a revista demonstra indignação diante do fato de que entre os/as professores(as) brasileiros(as), Freire é mais popular que Einstein, quem Veja apresenta como “talvez o maior gênio da história da humanidade”, não citando que, conquanto “genial”, Einstein foi também comunista - dado este comprovado por István Mészáros no seu O poder da ideologia.
As afirmações de Veja a respeito de Che e Paulo Freire são emblemáticas porque alcançam sujeitos cuja importância para a esquerda brasileira é inquestionável, mas ainda mais porque tanto Che quanto Freire vêm sendo sistematicamente absorvidos pelo discurso hegemônico. A “heroificação” do mito de Guevara sofreu uma cooptação tal que de símbolo da revolução, entre as esquerdas, Che se transformou em objeto de consumo pela indústria cultural. Paulo Freire, por sua vez, foi hegemonicamente transformado em referência basilar para qualquer discurso ligado à lógica do “terceiro setor”, ou da “caridade social”, coisas bastante distintas do socialismo da “Pedagogia do oprimido”. Veja, ao contrário, não se dá sequer ao trabalho de corresponder ao modo como a indústria cultural - campo que a revista também compõe - lida com esses sujeitos. A autonomia historicamente conquistada pelo veiculo, autonomia esta resultante de seus números de vendas e também das lutas simbólicas das quais sai vitoriosa, engendra uma maior liberdade para traçar com suficiente clareza aliados e adversários, ao mesmo tempo em que ainda consegue se legitimar como a defensora intransigente do Brasil. Como resultado, quem defende o Brasil, não pode defender Che, Freire ou o Partido dos Trabalhadores, embora seja necessário notar que para cada um desses sujeitos Veja exerce uma tática simbólica específica.

IHU On-Line - Recorrendo a obras de Jesús Martin-Barbero e Walter Benjamin, que relações o senhor estabelece entre os meios de comunicação, as mediações sociais e o crime?
Roberto Efrem Filho - Antes de falar propriamente do crime, julgo fundamental discutir um pouco sobre a correlação entre a corrupção midiatizada e aquela homologia estrutural entre o campo jurídico e o campo midiático. Concluí, nos desfechos da dissertação, que o aumento da aparição do Supremo Tribunal Federal nas páginas de Veja está umbilicalmente vinculado ao aumento da tematização da corrupção nessas páginas. Por certo, nem sempre o assunto que leva o Tribunal a Veja é a corrupção, mas a conjuntura política em que a revista exerce a valorização do direito é a mesma em que a revista criminaliza a política. A capa de 5 de setembro de 2008 diz muito a esse respeito. Veja define o ministro Joaquim Barbosa, o membro do STF relator do caso do mensalão, como um herói nacional. Dedica boa parte da correlata matéria à vida do ministro, aos seus 700 CDs de música clássica, ao preparo do seu café da manhã, aos seus ternos comprados em Los Angeles e Paris etc. Como é próprio dos meios de comunicação, Veja converte o ministro numa estrela e o julgamento num espetáculo, dimensões nas quais a mídia é inclusive mais habilidosa. Se a política é criminalizada e, portanto, “vilanizada” e é o Judiciário o competente para punir o crime, a valorização do direito torna-se mais compreensível.
A política de combate ao crime, ou seja, da defesa social, constitui-se inexoravelmente como uma política classista de controle social. A melodramatização do crime levada a cabo pela indústria cultural recria o disciplinamento tratado por Foucault em Vigiar e punir. Diante da televisão, das páginas da revista, do símbolo enfim, as massas - dentre as quais está a classe trabalhadora - são disciplinadas. Porém, aqui a disciplina não é o contrário do suplício. Ironicamente, o suplício tornado estética e imagem, disciplina as massas, auxilia na criação de delinquentes e da ideologia da ameaça permanente responsável pela reprodução da desconfiança universal. Os aparelhos de repressão são valorizados e a mídia encontra lugar entre eles. Os meios de comunicação jogam com o panóptico, são vistos pela massa no que não lhes compromete, mantendo-se capazes de enxergar essa massa. Tudo isso se dá, todavia, através de mediações sociais. A melodramatização das relações, a criação de vítimas, vilões e heróis é a prática por meio da qual as relações de poder se reanimam. Estruturalmente, a sociedade capitalista requer heróis - nenhum desses heróis, contudo, foge à fabricação dos consensos necessários à hegemonia.

Mari em maio 13, 2009 5:47 PM


#93

Boa tarde e bem-vindo, mestre Idelber.

Cláudia em maio 13, 2009 5:47 PM


#94

Idelber, eu não sou tãããão liberal assim, e sou decididamente adepto do menospiorismo (com limites, é claro) na hora de votar. Meu co-blogueiro Matamoros, aquele da preguiça de postar :-), sendo mais principista do que eu, vem anulando voto atrás de voto

F. Arranhaponte em maio 13, 2009 5:56 PM


#95

Mudando de assunto, o Cloaca acaba de postar outra daquelas: http://cloacanews.blogspot.com/2009/05/jornalista-da-globo-esta-na-folha-de.html

Dolores Saavedra em maio 13, 2009 6:02 PM


#96


Os próximos passos a serem dados no Brasil me parecem ser

(i) a transformação do Bolsa Família num programa perene de renda mínima e

(ii) aumento do orçamento da educação, canalizando os recursos adicionais para o ensino básico.

Para isso, precisamos de recursos adicionais, ou o orçamento não fecha. Minha aposta (mas é só aposta, pois falta-me conhecimento de economia para fazer algo mais parecido a uma jogada de xadrez) é que só conseguiremos isso se parte do dinheiro que hoje é canalizado para o pagamento dos juros da dívida interna tiver outra destinação. Daí a importância que atribuo a uma mudança de rumos na política econômica no sentido estrito.

Se eu disse alguma bobagem, os economistas de plantão certamente irão me corrigir, e eu aprenderei, agradecido.

João Vergílio em maio 13, 2009 6:03 PM


#97

Dolores, já tuitei o link do Cloaca :-)

Idelber em maio 13, 2009 6:07 PM


#98

Idelber

foi mal então

devo ter lido a idéia da autodestruiçao do PT pós Lula em outro local, vou tentar localizar

retiro a afirmação de ser uma idéia sua

de qualquer modo, eu acho a idéia interessante

abçs

rabbit em maio 13, 2009 8:47 PM


#99

autodissolução é uma palavra - e uma idéia - melhor

rabbit em maio 13, 2009 8:52 PM


#100

Essa caixa de comentários tá foda. Só coisa fina. E tem gente que critica o Idelber por se orgulhar dos seus comentaristas. Fazer o quê se aqui tem gente que consegue juntar sujeito e predicado sem enfiar um aposto homofóbico no meio?

Sobre o post, acho que tudo começou com o Fukuyama e o tal "Fim da História". O ocidente venceu, o capitalismo venceu, os mercados venceram, "nós" vencemos. Qualquer ação ou ideologia tendente a considerar a coletividade estava falida, fadada a desaparecer. De repente, não existia mais esquerda, o mundo passara a girar sempre em sentido horário. A própria idéia de cultura havia sido desenganada. A União Soviética desaparecera. O empecilho final para que os povos do mundo formassem um museu de nacionalidades havia sido removido. O fim da história...

"Os Imparciais", na verdade, acreditam (ou fingem que) nessa teoria digna de um Ignobel. Uma vez que não existem mais ideologias, resta reduzir o debate a um mínimo denominador comum que, invariavelmente, será uma idéia conservadora e pragmática com alguma concessão social, como se o povo não fosse essencial a qualquer idéia de nação. É a "Utopia Possível". É o "Choque de Gestão". O mais interessante é que a ausência de ideologia é e sempre será a principal ideologia de direita.

Tá meio ou muito confuso, mas é isso.

Abraço

Cajueiro em maio 13, 2009 9:22 PM


#101

Prezado Idelber,
Gosto muito do seu blog, e não só por ser atletico.
se na imprensa marrom só se fala de críticas ao Brasil, nos blogs podemos sonhar e pensar em coisas positivas,
gostaria de tomasse conhecimento do artigo que eu e outros colegas do BNDES publicamos sobre uma proposta de desenvolvimento para o Brasil e o Nordeste baseada entre outras coisas na montagem de eletrônicos e que dialoga com pontos de convergência e divergência com a Proposta para o Nordeste que o Mangabeira publicou na semana passada. TEM ALGUNS GRÁFICOS QUE VOCÊ CONSIDERARÁ INTERESSANTE, COMO POR EXEMPLO A INCRÍVEL CONCENTRAÇÃO INDUSTRIAL EM SÃO PAULO.
O artigo está neste neste link da Revista Custo Brasil:
http://www.revistacustobrasil.com.br/19/pdf/MATERIA%2003.pdf
ou aqui
http://desempregozero.org/wp-content/uploads/2009/05/artigo-custobrasil-industrias-centrais1.pdf

Gustavo em maio 13, 2009 9:40 PM


#102

Esse papo de socialismo,comunismo, marxismo,sifu...o negocio e mercado,capitalismo ,menos estado,o resto e papo furado.Basta ver China,Russia,Leste europeu. Numa boa ,o povao nao ta nem ai pra esse papo. So a turminha que fica discutindo entre eles e nao leva a lugar algum.Que preguica........

fenando em maio 13, 2009 9:45 PM


#103

Belo texto, Idelber. Esse pessoal anda se deixando influenciar pelos micros em que escrevem. Binários são eles. Os escribas não deveriam ser.

Pinto em maio 14, 2009 12:11 AM


#104

Caixa de comentários historica, hein? Geralmente já é muito acima da média, mas a desse post tá foda! Muito bom o post e as várias frentes de discussão que ele abriu. Amanhã venho dar, também, o meu pitaco. Abraço

Alexandre Nodari em maio 14, 2009 12:58 AM


#105

João Virgílio, suas percepções do fundamental, vão ao ponto. Porém, vejo um nó nisso. Na medida em que novos contingentes da nossa população ascendem em termos de renda e educação, começam a demandar empregos e salários melhores. Começam a ser integrados no mercado em patamar superior e também a demandar produtos que garantam sua emergência. Ai entram os serviços bancários, tecnológicos e também melhor educação. Na medida em que aprofundam e disseminam-se os serviços bancários e financeiros, as pessoas adquirem produtos dessa indústria. Passam a ser também credores do Governo caso adquiram produtos vinculados a dívida pública (títulos do Governo) que têm de ser honrados pelo mesmo sob risco de perder credibilidade: títulos do Governo têm risco zero e assim o Governo financia seu endividamento. Caso recuse-se a resgatar tais títulos, será calote não só em grandes investidores, mas, também, na poupança de pequenos e médios que, por ascenderem socialmente, também são credores e em algum momento, desejarão resgatar seus recursos aplicados. Vide os produtos baseados em ações da Petrobras, as quais podem ser adquiridas com recursos do FGTS, o Tesouro Direto etc., com crescente participação de trabalhadores na ativa, aposentados, funcionários públicos. Rever tudo isso é um nó enorme e difícil, politicamente, de descaracterizar como calote. Quanto à Educação, por meritória, deveria receber recursos de vulto e a fundo perdido previstos no OGU (Orçamento Geral da União), sem as Desvinculações (DRU) e contingenciamentos. Lembro que a LRF (Lei de Responsabilidade Fiscal) obriga percentuais de investimentos em Saúde e Educação para cada ente da Federação (União, Estados e Municípios). Considero uma ilusão pensar que não honrando a Dívida Interna, estará-se-á punindo apenas especuladores grandes e permitindo que mais recursos sejam carreados para a Educação. O mesmo argumento era utilizado quando da CPMF, que fora criada para financiar a Saúde. Dados mostravam que, de seu montante, parcelas significativas dele não iam para o fim declarado, mas, sim, destinadas a outras operações. Ou seja, tivemos recursos de monta (cerca de 0,38% a cada R$1,00 transacionado)e os serviços públicos de Saúde continuaram aquém do requerido. Temo que, no caso da Dívida Interna, possa vir a ocorrer a mesma coisa. O mais adequado seria o Governo ser cobrado, como gestor (ordenador de despesas) de recursos públicos ser cobrado e vigiado para que implemente a melhor gestão, melhore a fiscalização contra abusos, reduza gastos de custeio ou os gaste bem, melhore a eficácia de cobrança e aplicação de tributos e outras coisas meritórias.

Dawran Numida em maio 14, 2009 12:33 PM


#106

Idelber Avelar,
É bom fazer uma distinção entre a torcida e o time. A torcida e o time do flamengo são parecidos, mas a torcida do flu é radicalmente diferente do time.
O time do flu é da esquerda. Muito mais que muitos jogadores e torcedores do flamengo. Os últimos vinte anos de política no Brasil fizeram o time do flu ficar cada vez mais afastado da torcida dele.
No futuro o time do flu será a expressão da sua torcida, mas não agora.
As análises na blogosfera é que se tornaram tendenciosas ao procurar estigmatizar o time do flu acusando-o de neo liberal. A razão talvez seja exatamente não haver blog do time do flu. Há o blog EAGORA.ORG que é do time e não conheço o que você mencionou que parece ter mais cara de ser da torcida, mas vou outra hora conferir.
Nunca fui admirador do time do flu. Na época do jornal Movimento considerava o FHC um sociólogo demagogo (e não populista, pois demagogo é quem agrada as elites e populista quem agrada o povo) defensor do pacto nacional que para mim era um conceito fascista (Na década de 70 a esquerda fez uso disso na Espanha, na Inglaterra e na Áustria). Mas mesmo ali ele possuia o estofo de um esquerdista. Luis Nassif, por muito tempo um grande admirador do José Serra, acusou que a direita teria capturado o José Serra.
A direita está perdida, sem liderança, agarrando-se a qualquer esperança branca que a ela apareça e vem se falar que ela teria capturado o José Serra, não faz sentido. Também não faz sentido chamar FHC de neoliberal. Na década de 80, o mais esquerdista dos nossos economistas, Ignácio Rangel preconizava a venda das estatais como a grande saída para o Brasil. A forma como o PSDB fez a privatização revelou incompetência e não neoliberalismo. Vender a Vale, para que? Para produzir mais minérios exaurindo mais rapidamente as nossas reservas e para abaixar o preço do minério no mercado internacional? Não manter nenhuma empresa de siderurgia para desenvolver pesquisa em alta tecnologia? Foi incompetêcia de professores universitários prisioneiros de uma sapiência autoritária de soberba presunção.
Talvez, entretanto, eles não tenham sido tão incompetentes assim, se tomarmos pelo fato que no início do ano The Economist previa para 2010 a disputa entre Dilma e Serra.
Em minha opinião, com base em uma das minhas teorias conspiratórias da história, a declaração do Sérgio Motta quando disse que a intenção era permanecer no poder por 20 anos estava se referindo à USP. Foi ela que arrumou um jeito de deixar por conta dela a eleição para presidente no Brasil. Esse modelo no entanto está sendo perverso com o PSDB. Além do PSDB se tornar um partido de direita está crescendo na sociedade brasileira (Um amigo disse que só eu penso assim, o que me deixou menos convicto disso) uma resistência muito grande ao domínio paulista.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 14/05/2009

Clever Mendes de Oliveira em maio 14, 2009 1:54 PM


#107


106 comentários...

assim eu não me atrevo...

detonou a metafísica simplória.

o murismo hipócrita. valeu.

definitivo definidor.

francisco.latorre em maio 14, 2009 7:53 PM


#108

Clever
Luis Nassif teve outros motivos para afirmar que Serra foi cooptado pela Direita. Foram motivos de bastidores, nada a ver com a atuação do Serra, que continua na mesma toada, com seus muitos defeitos e algumas virtudes. O que mudou foram os interesses do Nassif, nada mais.

Mari em maio 14, 2009 8:31 PM


#109

Mari,
Espero que você tenha lido os emails que eu enviei para o blog do Pedro Dória em que eu indico os artigos de José Eli da Veiga sobre o PIB e sobre Nicholas Georgescu-Roegen e que servem como complemento ao artigo do Ladislau Lowbor. Lido os emails e lido também os artigos indicados.
Lá no blog do Pedro Dória, eu fiz a indicação em comentário (32), enviado para "A China cresce para dentro" de 12/05/2009. No comentário (32) reproduzo o comentário (60) enviado para o texto “O futuro incerto de Ahmadinejad” de 10/05/2009.
Quanto a Luis Nassif, penso que ele abusa um pouco dessa própria discussão fla x flu para trazer mais participação dos leitores. Ele é um dos maiores admiradores de José Serra, e abre espaço para discussão nas chamadas sobre Serra, ainda que em postura crítica, quase que para bombar o blog.
Achei o artigo do Idelber Avelar muito bom em especial a tese IV apontando a existência de uma hierarquia nos binarismos. Penso entretanto que existe o fla x flu de torcida. Esse fla x flu de torcida fica distorcido porque enquanto a torcida e o time do fla se confundem, parte da torcida do flu está mais próxima do time, enquanto a outra parte além de ter participação menor na internet (São muitos refinados para participar de algo que está-se tornando muito popular) tem uma postura muito radical que não dá a sensação que ela é do fluminense.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 15/05/2009

Clever Mendes de Oliveira em maio 15, 2009 3:04 PM


#110

Idelber Avelar,
No meu comentário acima (109) o último parágrafo era também para você. A redação da última frase ficou um tanto dúbia e asssim faço o acerto (EM MAIÚSCULA) que me parece adequado a seguir:
"Esse fla x flu de torcida fica distorcido porque enquanto a torcida e o time do fla se confundem, parte da torcida do flu está mais próxima do time, enquanto a outra parte, COMPÔE-SE DE UM GRUPO COM participação menor na internet (São muitos refinados para participar de algo que está-se tornando muito popular)E DE OUTRO COM postura REACIONÁRIA muito radical que não dá a sensação que O GRUPO SEJA do fluminense".
Clever Mendes de Oliveira
BH, 18/05/2009

Clever Mendes de Oliveira em maio 18, 2009 7:08 PM


#111

Putz, pena que cheguei tarde!

Não sei se comentaram nos inúmeros comentários acima, mas penso numa idéia interessante, e que talvez pertenceria aos princípios dessa postura blogosférica: a redundância de informação.

O debate estéril flaflu gera redundância, e resultado nenhum; a voz "neutra" que enxerga o debate flaflu apontando o dedo e dizendo que é estéril também gera redundância, e assim por diante, digressões ao infinito, redundância encima de redundância.

Resultado? Michael Hardt é quem parece certo, quando diz que a esquerda não é o discurso sobre a esquerda, mas os problemas concretos que fizeram e sempre fazem nascer a esquerda. Com essa pequena tese, ele dribla um monte de problemas, um monte de coisas, e faz a maquininha de redundância travar - moral da história: se o discurso se separa da ação "concreta", rapidinho vira redundância.

Catatau em maio 20, 2009 12:20 PM


#112

Ah sim, e aí ele desloca um monte de coisas: o papel da "esquerda" não é um conjunto de estratégias para uma utopia reguladora, mas conjunto de estratégicas concretas, "contra-controles", sem cair em um mero fisiologismo do sistema; o papel do intelectual não é mais o de uma consciência de vanguarda, guiadora do rebanho; e o papel de cada indivíduo deixa de ser o dessa ascese do rebanho à vanguarda, da determinação à consciência. As "lutas" viram o que são: lutas.

E assim por diante...

Catatau em maio 20, 2009 12:42 PM


#113

"esquerda se define hoje simplesmente por colocar no centro das ideias politicas redistributivas"
Eh mesmo? E direita se define como?
Olhe aqui: depois e só depois que colocarmos a luta politica no cotidiano de milhoes, depois que
dividirmos a sociedade brasleira toda em dois campos, levando a discussão ate o limite, via internet e o resto, depois que esvasiarmos a pregaçao da enganaçao midiatica, isto é depois de delimitarmos dois campos pra valer - como ja ocorreu no passado na europa - entao teremos tempo e disposiçao de refinarmos os conceitos
e adotarmos quantas nuances o Leo e o rodrigo quiserem. E me importa un pito que nome lhe deem.

augustinho em maio 25, 2009 6:44 PM


#114

Muito instigante o post. Pena que só achei agora...

Para dar meu pitaco atrasado, penso que há dois movimentos na argumentação sobre a flaflufização do discurso político.

Primeiro, o óbvio: trata-se de negar que haja qualquer conteúdo na polarização PT/anti-PT (ou PT/PSDB, tanto faz: o PSDB permitiu-se encarnar o anti-petismo, como se viu na recente eleição). Atravessa-se clandestinamente a fronteira entre a crítica da forma (os dois lados teriam um comportamento igual, ou muito semelhante, entre si, e ambos com o comportamento passional e acrítico das torcidas organizadas), para a crítica do conteúdo, ou falta dele. É claro que uma disputa política entre dois pólos absolutamente iguais, em que a única coisa em disputa seria quem, ou os amigos de quem, vai preencher os cargos de governo, seria nefasta, particularmente se ofuscasse as questões políticas reais e prementes do nosso tempo. Mas... falta realmente conteúdo à polarização PT/anti-PT?

Segundo, passa-se ainda outro tipo de contrabando, pior que o primeiro. Por que há dois conteúdos possíveis em um discurso contra a flaflufização. O que fica óbvio, na superfície, muita gente já levantou: é que o Fla-Flu exclui muitas outras possibilidades: Vasco da Gama, Bangu, Palmeiras, Coríntians, Sampaio Correa, Boca Jrs, e não esqueçamos, claro, do West Ham. Mas por baixo dessa inofensiva bolinha de papel esconde-se um pesado e perigoso tijolo ideológico: pode-se ser contra o Fla-Flu não por que este reduz demais o campo das possíveis divergências, por que não é suficientemente plural, mas, ao contrário, por que é plural demais, divergência demais. E, desculpem-me os antiflafluzistas, este é o discurso que parece predominar na sua crítica. Quando criticam a suposta falta de conteúdo da polarização, na verdade querem criticar o excesso de conteúdo; quando reclamam que “o PT ficou igual ao PSDB”, na verdade se regozijam com essa igualdade. Ou alguém já viu um antiflafluzista jamais conseguir esconder a alegria quando os fatos levam água ao moinho onde se produz a famosa farinha marca Do Mesmo Saco?

E isso é preocupante por que revela uma rejeição fundamental ao futebol (e isso, claro, é sintomático da posição de classe de quem faz a crítica, esquecido de que o futebol é invenção inglesa, de primeiro mundo portanto), por ser símbolo da disputa; rejeição que, no fundo, é a rejeição à política, à disputa real, à alternância de poder, ao risco envolvido na democracia. E sabemos aonde leva a política da anti-política, não sabemos?

Luís Henrique

Luís Henrique em novembro 13, 2010 8:43 AM