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quinta-feira, 28 de maio 2009

Aqueles Dois, de Caio Fernando Abreu

caiofabreu.jpgEsta é uma reunião do Clube de Leituras do Biscoito, que já discutiu obras de Ariano Suassuna, Jorge Luis Borges, Jorge Amado, Martín Kohan e Guimarães Rosa. O Clube tem uma única regra: é proibido pedir desculpas por não ser especialista ou doutor em literatura. A ideia é ter uma conversa tranquila, leve, solta. O meu post nunca é uma análise exaustiva da obra. É só um pontapé inicial. Comente o que quiser sobre o texto, respondendo ou não ao post (não quero ser pretensioso ao ponto de achar que derrubei o site Releituras com meu link, mas o fato é que ele não está abrindo; se ainda não leu o conto, leia-o no cache do Google).



Como é comum na grande literatura, Aqueles Dois, de Caio Fernando Abreu, pode ser reduzido a um argumento banal. Dois homens, Raul e Saul, vêm de relações frustradas com mulheres. Eles conseguem empregos numa mesma repartição. São discretos e chamam a atenção por sua beleza e elegância. Têm em comum a paixão pelo cinema, que pouco a pouco os aproxima. Tudo acontece lentamente, apesar da brevidade do conto. O narrador nos diz que “durou tempo” o longo prólogo composto de cumprimentos casuais e trocas de cigarros. Um dia, Saul relata que chegara atrasado por culpa de um filme. Tratava-se de The Children's Hour, que narra a história do inferno vivido por duas mulheres acusadas de serem lésbicas. Como sempre na grande literatura, o intertexto não é casual.

A amizade vai se consolidando. Começam a desejar que os fins de semana passem rapidamente. Ficam juntos nas festas. Compartilham boleros. Por fim, trocam telefones. O conto é breve, mas a lentidão com que se arrasta tudo é enlouquecedora. Quando é que esses dois vão trepar, meu Deus do céu? Morre a mãe de Raul – sempre, sempre a mãe -- e Saul perde as estribeiras. Na única vez em que dormem juntos, limitam-se a olhar a brasa dos cigarros que acende o outro. No dia em que chegam juntos à repartição, as mulheres já não os cumprimentam. Este elemento é chave para o conto: não acontece nada sexual entre eles

Quando voltam das férias, os dois são chamados pelo chefe. Um anônimo lhe havia enviado cartas com termos como "relação anormal e ostensiva", "desavergonhada aberração", "comportamento doentio". São despedidos. Enquanto eles entram num táxi, o narrador nos diz que "ninguém mais conseguiu trabalhar em paz na repartição. Quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram".

Ao contrário de boa parte da literatura norteamericana considerada “gay”, a ficção de Caio não narra a saída do armário ou a marcha militante na luta contra o preconceito. Não há nada retumbante e heroico. Fundamental, nesse conto, é o fato de que não sabemos se são gays ou não. Na realidade, é impossível saber, não importa. Eles mesmos não sabem. Une-os um afeto que ainda não tem nome. Sutil, a literatura de Caio trabalha nessas zonas de indeterminação.

O escritor argentino Ricardo Piglia defende a tese de que um conto sempre narra duas histórias. As diferenças entre as várias vertentes da narrativa moderna dependeriam das diversas possibilidades de se relacionar a história 1 com a história 2. Aqui temos a história do afeto homoerótico entre Raul e Saul e a história do pânico homofóbico dos colegas. Qual é a grande originalidade de Caio? Dissociar completamente a história 2 da história 1. Em outras palavras: não é a existência de “dois gays” no ambiente de trabalho o que desata o pânico homofóbico. Talvez, inclusive, a presença de dois gays assumidos não provocasse tal terremoto. O que enlouquece a estrutura heteronormativa é que não se sabe qual é mesmo a relação entre os dois. A ironia adicional do conto, claro, é que os dois tampouco sabem qual é a natureza do afeto que os une. Estão descobrindo. Mas o pânico homofóbico não permite que a descoberta se realize na repartição. Terão realizá-la em outro lugar.

Hipótese de leitura, então: o mais assustador para a estrutura social que administra a sexualidade heteronormativa não é a existência de gays e lésbicas, com práticas não sancionadas pelo modelo dominante. Isso também, claro. Mas o que realmente sacode as estruturas é a crise da linha divisória supostamente clara que separaria hetero- e homoerotismo. O que enlouquece a repartição é que eles não são capazes de catalogá-los.

Gosto muito, muito mesmo das frases finais do conto. Convido-os a que reflitam sobre elas. Tudo nesse relato é significativo: os títulos das canções que compartilham, o nome do gato sabiá*, o filme que os une, os nomes dos personagens. Convido-os a interpretar esses elementos. Convido-os também, claro, a discordar de minha interpretação ou a oferecer outras possíveis -- ou simplesmente dizer qual foi a sensação de ler o conto. Não há melhor homenagem a um grande autor que a proliferação de leituras diferentes e contraditórias.

Viva Caio.


*Crédito a quem corrigiu o meu inexplicável erro de transformar sabiá em gato: Milton Ribeiro.



  Escrito por Idelber às 07:05 | link para este post | Comentários (192)


Comentários

#1

Ontem, por engano, postei um comentário no lugar errado. Faço, aqui, a correção, transcrevendo-o:

O final do conto é uma canção de protesto. Ainda não sei bem o que pensar a respeito. Tentarei, então, dizer o que me levaria a ver a passagem com bons olhos.

Basicamente, ela foi muito bem preparada por tudo que vem antes.

Qual é a habilidade literária básica demonstrada por Caio Fernando Abreu ao longo desse conto? A arte de lidar com transições graduais. O conto faz uma trama de duas transições graduais simultâneas.

Primeira transição: o amor entre Raul e Saul, que vai a pouco e pouco se revelando para ambos e para o terceiro personagem do conto (talvez o principal): a Repartição (da qual o chefe é uma espécie de corifeu). Aqui, um toque de mestre. Ele consegue insinuar com precisão que a "descoberta" é feita antes pela Repartição, e só depois pelos dois.

Segunda transição: a Repartição vai se revoltando à medida que desbobre a paixão homossexual dos dois outros personagens. Outro toque de mestre. O narrador põe o leitor na perspectiva do casal, jogando a revolta da Repartição para o pano de fundo da história. O leitor (como o casal) apenas entrevê que as coisas estão ficando cada vez mais tensas.

Por isso a passagem final, apesar de sua "dureza" talvez possa ser salva. Como um tema de Beethoven, que insinuou-se longamente em pianissimo nas flautas, depois nos violinos, depois num fraseado rápido do clarinete, explode de repente num fortissimo da orquestra.

Contra: quebra-se, ali, o pacto de sutileza estabelecido com o leitor. Dá vontade de responder - "não precisa gritar no meu ouvido".

Acrescento um comentário a isso que disse ontem:

A eclosão brutal da Repartição no fim do conto está estruturada em torno da carta anônima e de suas espressões preconceituosas e redutoras. Reparem o contraste existente entre, de um lado, estas expressões definitivas e generalizantes próprias do preconceito e, de outro, o caráter incerto, tateante, rico, individual, provisório, em constante mudança próprio da relação real.

À noite, eu volto. Ao trabalho!

João Vergílio em maio 28, 2009 8:13 AM


#2

Engraçado, não acho que seria um conto gay, acho que isso vem mais pela história do próprio Caio... na verdade eu penso que ele quis trabalhar com essa relação entre homens, que é muito reprimida pela sociedade, amigos, como duas mulheres seriam amigas...
Na parte onde eles se abraçam, dormem pelados, acho que isso foi mais uma forma de provocar o leitor, para que este, pelo menos por um momento, possa ver que, em muitos casos, pensa como as pessoas da repartição, o leitor pode ver o seu próprio preconceito...
Pra mim, ele construíu toda essa relação, esses sinais (o nome do gato, dos filmes) para expor nossos preconceitos... e de certa maneira também procurou defender uma amizade mais sincera e emotiva entre os homens...
Não sei, talvez esteja vendo demais, mas penso no conto como um protesto a favor das relações (de qualquer tipo) e uma maneira de expor nossos preconceitos para nós mesmos... claro que isso faz parte do que muitos chamam de defesa do movimento gay, mas acho que essa classificação é reducionista, e diminui a dimenção do conto... (se bem que, qual classificação não a faz?)
Abraço!

Gui Losilla em maio 28, 2009 9:17 AM


#3

O texto da Caio me foi apresentado por um grande amigo, à epoca noivo de minha irmã (noivado longo)ele me presenteou Morangos mofados, passavamos tardes/noites nos deliciando com leituras, esse conto em especial nos aproximava, tudo à nossa volta era tão previsível e claustrofóbico nos refugiavamos e alimentavamos nessa aproximação, isso nos custou alguns julgamentos preconsebidos. A vida me separou desse grande amigo, mas sempre o encontro em uma boa leitura.

Isabel Ribeiro em maio 28, 2009 9:35 AM


#4

Gosto muito da linguagem simples, cotidiana, menos sofisticada do que a de outros textos do Caio (neste, a sofisticação parece estar nos detalhes). Esta linguagem me parece perfeita à ambientação do conto, que corre quase como uma fala calma, contando uma história da descoberta de si, do amor e do ódio ao amor. A grande força deste conto, creio, é construir a descoberta de si próprio e a descoberta do amor como uma coisa só, indissolúvel: Saul e Raul descobrem que são gays porque descobrem o amor. É do amor que brota a descoberta da própria identidade.
Mais: este amor é absolutamente idêntico ao amor que une homens a mulheres (daí, talvez, a reação de leitores como o Gui Losilla, que não identificam o amor dos dois personagens como homossexual.). Ora, como ninguém é contra o amor; como quase todo mundo já viveu e adora viver uma história de amor; como todos temos raiva de quem impede o amor, o conto cria uma identificação imediata dos leitores com o amor de Saul e Raul (semelhantes até nos nomes). Nós, leitores, ficamos torcendo pelos dois, para o amor deles vencer, ao mesmo tempo em que sentimos ódio daquele pessoal da Repartição.
O final brusco me parece acentuar magistralmente a crueldade inerente a qualquer preconceito: aquelas pessoas chatíssimas da repartição na verdade são incapazes de amar. E então, pela primeira vez, o narrador toma partido: como os da Repartição não podem amar, são e serão, conseqüentemente, infelizes para sempre, e que se danem eles. Interessante: no conteúdo, o final é de contos de fada (os injustos são punidos), mas a linguagem inverte a fórmula clássica, de “felizes para sempre” para “infelizes para sempre”.
Estou me estendendo, mas só mais uma coisinha: como sou velhota, conheci um bocado de gays que, na década de 1980, fizeram deste conto um lugar de acolhimento, refúgio, amor, construção de auto-estima. “Aqueles dois” fez um bem enorme aos gays. Espero que ainda faça.

Janaina Amado em maio 28, 2009 10:37 AM


#5

Ótima ideia essa sua do Clube da Leitura (eu não conhecia). Tampouco conhecia o conto, que é realmente muito bom. Mas concordo um pouco com o comentário do Gui: saber que o conto é do Caio atrapalha um pouco. A gente mistura autor e obra, e isso gera a expectativa de um "conto gay" (seja lá o que for isso).
Esse conto é mesmo ótimo pra discutir os limites da masculinidade: como dois homens só podem se tocar numa briga ou numa prática esportiva ou, no máximo, com tapinhas nas costas. Lembro de uma vez em Floripa em que um rapaz estava ajudando outro a colocar uma placa em cima de uma porta alta. E o que estava em cima estava quase caindo, porque o outro não o segurava direito. Até que ele gritou: "Pô, agarra direito, cara! A gente é irmão!". Quer dizer, até entre irmãos tem esse pavor de que oh, se dois homens se tocarem, o que pode acontecer?...

Lola em maio 28, 2009 10:42 AM


#6

Eu adoro esse conto.
Aliás, adoro os contos do Caio. Por coincidência estou lendo uma coletânea de contos dele e, mais coincidência ainda, estava lendo justamente este, quando houve a proposta do blog.
O baque provocado pelas frases finais é seco, é surdo e é um grito nos ouvidos.
Sinto que a grande angústia, talvez, daquelas pessoas da repartição seja enxergar "naqueles dois" uma relação de cumplicidade, de interação, que nunca vão alcançar.
Até os nomes, tão parecidos, parece ser no propósito de nos fazer, às vezes, não saber mais quem é um e quem é o outro, misturando-os, quase fazendo deles uma só pessoa, uma só entidade (o amor?).
Claro que não dá para esquecer a questão da relação ser homoafetiva. Mais um elemento a confundir a cabeça das gentes da repartição (que já pressupõe um lugar de pessoas frustradas, numa vidinha comum e azeda)com pensamentos pré-concebidos do que seria a prática entre os gays - vistos pelos preconceituosos como depravados. E, com esses conceitos estabelecidos, não conseguem entender o que veem, o afeto, o carinho, o amor mesmo, entre aqueles dois.
Quando eles se vão, vai junto com eles aquela aura, aquela sensação de que é possível ser feliz.
Bom, são mais ou menos essas as minhas impressões sobre o conto.
Viva o Caio.

Mariê em maio 28, 2009 10:45 AM


#7

O que me incomoda um pouco no conto é que, em parte, os dois constroem sua relação em função do outro, e o outro, no caso, são as mulheres. Uma das coisas que os unem é estarem cansados das mulheres. E é interessante como quase sempre temos o male gaze, o olhar masculino analisando e aprovando ou desaprovando o corpo feminino, mas desta vez temos as mulheres olhando praqueles dois e ficando nervosas, achando-os bonitos e altos. Isso não é levado adiante porque o foco não é nelas. Acho que o Caio, e não só seus personagens centrais, também trata as mulheres no conto como "o outro".

Lola em maio 28, 2009 10:49 AM


#8

Acrescentando.

Logo no começo ele diz que a repartição era "um deserto de almas", então, a saída deles leva embora as únicas almas que ali existiam e a própria repartição se dá conta disso no final. Por isso se dão conta de que serão infelizes para sempre.

Mariê em maio 28, 2009 10:50 AM


#9

Vocês vão escrevendo e eu fico coçando de vontade de entrar no meio e falar mais. Contenho-me, porque minha experiência com o Clube é que é mais legal quando deixo a coisa rolar solta, sem intervir, para não inibir ou pré-determinar outras leituras que possam aparecer. É por isso que não respondo os comentários imediatamente.

Mas estou lendo e adorando :-)

Idelber em maio 28, 2009 10:52 AM


#10

O silêncio do conto, o passo a passo em câmara lenta, me deixa mais do que a questão dos preconceitos da repartição e da inconsciência ingênua dos dois. Me sinto confuso, mas tentarei explicar o que o conto me passa.
A solidão do humano que trafega num mundo irreal, isto é, a solidão de cada um de nós que precisa se identificar com o outro e com o meio para que nos reconheçamos nesta realidade e finjamos não sentirmos solidão, torna a Repartição conservadora, o que a leva a perder seu chão e reagir, ao perceber que é possível sair da situação e trafegar por outros mundos internos e mesmo dentro da própria solidão, e ainda mais, acompanhados.
O que os torna esquisitos para a repartição é o fato deles não se sentirem totalmente envoltos pela “realidade” social, deles caminharem por um mundo incompreensível, de risco, e não ficarem estanques no pré-determinado da convivência e normas aceitas por todos.
Eles se diferenciam pelo amor que o sentimento de solidão de ambos carrega consigo, enquanto os outros escondem a sua solidão no tablado social da repartição e muito provavelmente em todos os outros que freqüentam. Eles quebram a regra não dita, não escrita e não percebida ao não interagirem de acordo com o esperado, e são punidos. Punidos pelo medo que todos têm de se confrontarem. A questão da homossexualidade é apenas a desculpa moralista para que o sossego dos covardes não seja quebrado, e por isso, serão infelizes para sempre.

Orlando em maio 28, 2009 11:01 AM


#11

mariê,

que lindo isso => "Logo no começo ele diz que a repartição era "um deserto de almas", então, a saída deles leva embora as únicas almas que ali existiam"

thanks

mary w em maio 28, 2009 11:01 AM


#12

Interessante Idelber você chamar a "lentidão" do texto de elouquecedora, mas para mim soa como uma música, João Vergílio fala em alguma coisa como sinfonia: "Beethoven, que insinuou-se longamente em pianíssimo nas flautas, depois nos violinos, depois num fraseado rápido do clarinete, explode de repente num fortíssimo da orquestra", gostei da imagem. Sim para mim soa como música esse texto de Caio, poesia/música, o suspense do texto inspiram como as preliminares do amor ou do sexo.
A meu ver a beleza do texto está exatamente de que a natureza do afeto que une "aqueles dois" não é importante, se houve ou não sexo entre eles isso é irrelevante, e adoro a imagem das brasas de cigarro acesas na escuridão do quarto.Tá na cara que é amor, e é isso que incomoda a estrutura social.
O amor entre homens. Será que o amor tem sexo??
A questão da morte da mãe de Raul também acho significativa, em especial quando ele usa branco no luto.Podemos falar mais sobre isso.
Ah, também adoro as frase finais da infelicidade para sempre.

Izabella em maio 28, 2009 11:04 AM


#13

Outra impressão que tenho é que o autor tenta mostrar que o amor transcende realmente ao sexo (feminino/masculino).
Os dois não se reconhecem, no início, como homossexuais. O amor surge antes e acima desse pormenor.
Uma maneira elegante de mostrar que as pessoas são, antes de masculino/feminino, apenas seres humanos. Não importa.
O amor está em um lugar qualquer, para qualquer pessoa, independente do XX ou XY.

(vale escrever mais de uma vez?)

Mariê em maio 28, 2009 11:05 AM


#14

Escrevam quantas vezes quiserem. Ainda mais comentários lindos como esses que estão rolando. Sem limites. A página estica :-)

Idelber em maio 28, 2009 11:06 AM


#15

mary w,

:-)

Mariê em maio 28, 2009 11:08 AM


#16

alguém viu a montagem da cia. luna lunera? sinceramente, acho que melhorou o conto, já que expôs os corpos dos personagens e conseguiu criar perfeitamente a existência dos 'outros' ao redor do par central. devo dizer que nao costumo comparar literatura/teatro/cinema em termos de melhor ou pior, mas nesse caso a adaptacao do conto era excepcional.

andrea em maio 28, 2009 11:09 AM


#17

Tb achei lindo Mariê "a saída deles leva embora as únicas almas que ali existiam"

Izabella em maio 28, 2009 11:12 AM


#18

Ninguém assistiu The Children's Hour? No Brasil, como vemos no conto, o filme se chamou Infâmia.

Idelber em maio 28, 2009 11:12 AM


#19

Concordo com o Idelber e com o Orlando, embora de maneira menos pomposa.
Acho muito preciptado e de certa forma justamente preconceituoso que falemos que eles "descobriram sua paixão homossexual" ou seu "amor homossexual" entendo que a grande jogada do conto - e talvez a própria intenção do autor - é jogar com essa situação incerta, que discorre bem no fio da navalha.
E isto também é uma grande denúncia que é feita através do conto: todo mundo começa a ler e logo logo já pensa, com "bondade no coração" ou não, são gays: que bonitinho; ou: que viadagem. Ambas as respostas são preconceituosas, no fundo.
Quando na verdade a história é de duas pessoas que vivem essa relação sensual, mas não sexual, sem esse tipo de pensamento, sem: "ele me olhou, deve ser bicha", ou "ele me tocou, vai rolar uma trepada". É um conto também sobre as fantasias que nós colocamos sobre a sexualidade, principalmente aquela que não conhecemos e não conseguimos viver.

Leonardo em maio 28, 2009 11:13 AM


#20

Bacana a leitura da dissociação entre as duas histórias, Idelber, a partir da teoria do Piglia.

Em relação ao comentário #2: talvez não seja um conto necessariamente gay, mas ao mesmo tempo as evidências são tantas - desnecessário enumerar - que não podemos ignorá-las. É neste sentido que, como em toda grande literatura, devemos lidar com a indecisão mesmo. É neste sentido também que Caio jamais se tornará datado.

Alguém comentou, em uma caixa de comentário anterior, sobre o incômodo com o final, que tornaria redundante o que está insinuado no conto inteiro. Acho interessante. Talvez seja uma fragilidade do conto?

Há muitas coisas que poderia dizer sobre o conto, claro, mas vou tentar colaborar com uma dúvida só, e uma dúvida até meio cretina. É um tipo de dúvida que eu não conseguiria levar muito longe, até porque não está nada ligada às coisas que eu estudo, por isso me interessa mais dizê-la aqui.

Sabe-se, pelo menos, o problema que é a literatura com temática gay no Brasil. O tema gay, se aparece em outros países desde o modernismo, simplesmente não aparece na literatura nacional. Pelo contrário, há muitos escritores que, inclusive, fazem questão de sublimar qualquer enunciado sobre a própria sexualidade. É bem conhecido, embora ainda de certo modo obscuro, o suicídio de Pedro Nava. Mas Mário de Andrade também é outro "problema". Ou seja, é uma questão séria. Isso reflete/não-reflete na nossa literatura, digamos assim, de muitas maneiras, é claro. Por isso fico pensando como tudo isso pode afetar a literatura de Caio, sendo um gay assumido, mas muitas vezes escrevendo contos ambíguos - e "Aqueles dois" pode ser o grande exemplo, mas não conheço a literatura de Caio tão inteiramente. E é aí talvez que possamos chegar a uma conclusão provisória de leitura.

A pergunta cretina é esta:

Em uma leitura que puxa a tradição: seria o conto de Caio uma literatura de gays que não saem do armário? Seria um "problema" da literatura de Caio?

Certamente a ambiguidade deste conto é diferente da ambiguidade de um gay que não se assume. Podemos dizer: há um gay assumido olhando o conto por fora. O ponto talvez que quebra com esta leitura é: o tema da "saída do armário" já está completamente implicado na narrativa. Ele está presente, sim, na indecisão, mas não mais como procedimento, e sim como tema. É uma hipótese, como disse, que teria que checar com mais calma. Trata-se de uma intuição.

Grande abraço,

Victor da Rosa em maio 28, 2009 11:17 AM


#21

Leonardo,

já pensou sobre a questão ser, talvez, justamente apresentar o amor acima da questão sexual dos dois?

Acho que o autor quer mostrar amor surgindo entre pessoas. Porque se fosse entre sexos opostos era o comum, não daria para insinuar o amor como sentimento além e independente do sexo.

Mariê em maio 28, 2009 11:21 AM


#22

Leonardo, exatamente, por isso acho que a questão gay não é o foco do conto, mas o que nós, leitores, pensamos e sentimos quando lemos!
Quantas pessoas não se sentiram incomodadas quando eles ficam pelados, aposto que apertaram a folha do livro um pouco mais do que normalmente, incomodados, com aflição do que estavam lendo...
Até por não definir a homossexualidade deles o Caio deixou essa impressão... eles vão ser felizes com o amor que eles possuem entre eles, os que ficaram vão ser infelizes sem suas almas e com seus preconceitos.
Arrisco dizer que considerá-los gays, apenas pelo conto, é pensar um pouco como o pessoal do departamento... digo isso pq quando EU estava lendo o conto eu acreditava que no fim eles iriam se descobrir gays...
Cai na armadilha do Caio...
Abraço

Gui Losilla em maio 28, 2009 11:26 AM


#23

Bom, particularmente eu entendo que o que há de mais importante no conto - se eles tem ou não um caso homoerotico - é parecido com a Capitu e o Bentinho, porque acaba perdendo a importancia.
ou seja, nunca saberemos o que houve, e diante de uma história tão densa, com tanto sentimento, passa a não ser relevante.
é isso que acho extremamente bacana.

Cristina em maio 28, 2009 11:26 AM


#24

Aconteceu um probleminha no computador e não pude terminar meu raciocínio. Então, acho que o conto também trata as mulheres como “o outro”. Quais são as mulheres do conto? As da repartição, as ex-esposas, as putas na rua, e a mãe. Nenhuma delas tem voz. A única que desperta alguma atenção “daqueles dois” é a mãe, um ser destituído de sexualidade. Ah, tem as duas atrizes do filme também. Os homens da repartição parecem ter mais voz que as mulheres. Tem o chefe, e o “guardião da moral” - que, pra mim, é homem.
Por coincidência, ontem estava acabando de ler o ótimo romance The Abstinence Teacher, do Tom Perrotta. O protagonista lembra que, quando era jovem e frequentava a universidade, vivia drogado, escutando música no quarto de um amigo. Ele e o amigo passavam dias assim, às vezes sem trocar uma palavra. Até que o amigo o cantou, e ficou uma situação estranha, ele desesperado, querendo ir embora, e o amigo arrependido por tê-lo cantado. Eles conversam, o amigo diz que não queria ser, mas É gay, e às vezes sente-se apaixonado por ele. Decidem continuar a amizade do jeito que estava antes, só que não dá certo. Os longos silêncios de antes agora tornam-se desconfortáveis, e os dois se afastam e nunca mais se veem. O protagonista, que, como tantos jovens, era homofóbico (o narrador diz que ele vinha da última geração que podia usar a palavra “fag” “inocentemente”), aprende que não tem nada contra os gays. A partir dessa experiência, toda vez que ele ouve alguém falar como é nojento dois caras do mesmo sexo transarem, ou que a Aids é o castigo de Deus pros gays - e ele SEMPRE ouviu isso de homens, nunca de mulheres -, ele revida dizendo que espera que a pessoa nunca tenha um amigo ou parente gay com Aids, pra não ter que descobrir a besteira que está dizendo.
Isso foi só pra explicar por que o “guardião da moral” no conto tem a maior pinta de homem.

Lola em maio 28, 2009 11:30 AM


#25

Mariê e Victor da Rosa,
Como bom freudiano entendo perfeitamente que seja um conto sobre o amor surgindo entre duas pessoas, mas o que estou acentuando é que o grande incômodo que ele traz é justamente pela indefinição.
Nesse ponto acho que meu comentário se articula com o que o Victor da Rosa disse. A maioria dos comentários dizem respeito sobre sé é ou não gay, ou sobre a tal "saída do armário". Sempre nos colocamos de um lado ou do outro da linha (ou do lado de dentro ou de fora do armário, por que não?) quando aquilo que é belo (e inquietante) no conto é justamente não corresponder a essa expectativa. Imagino que o que chateie mais do final seja não dar a resposta: é gay ou não? Saiu do armário?
Talvez o resultado (por que falar de inteção do autor é fazer psicologia divina) seja mostrar como a vida, e a sexualidade, em particular, é fugidia e não se encaixa nesses espaços de um lado ou outro, dentro ou fora. Nós é que, afobados, precisamos colocar logo as coisas em algum lugar, por não conseguimos lidar com isso, e precisarmos logo de uma identificação: sou homem, sou mulher, sou gay, sou hétero, estou fora, estou dentro...

Leonardo em maio 28, 2009 11:33 AM


#26

Está aqui ( http://miltonribeiro.opsblog.org/2009/05/28/aqueles-dois-de-caio-fernando-abreu/ ) mas, para não perder a fluência, copio a seguir:

Idelber Avelar propõe hoje a leitura de Aqueles Dois, de Caio Fernando Abreu, em seu Clube de Leituras.

O conto narra a história de uma amizade ou amor interrompido. São dois homens -- Raul e Saul -- que vão trabalhar numa cidade pequena após serem aprovados em um concurso. Não conhecem ninguém na cidade, são solitários, altos, elegantes e ambos vêm de relações frustradas com mulheres. Um dia, Saul atrasa-se para o trabalho. Motivo: ficou vendo um filme até tarde e não conseguiu acordar a tempo. A princípio não deseja comentar o fato, porém, provocado por Raul, fala sobre o filme e abala-se (verbo utilizado por Caio) ao notar que ele poderia ser a exceção naquele "deserto de almas" -- lugar comum igualmente utilizado por Caio com medida ironia. Começam a conversar sobre cinema, depois sobre música, artes plásticas; enfim, passam a conhecer-se.

Quando li o conto pela primeira vez, sua lentidão pareceu-me exasperante. Ontem, ao lê-lo, achei-o até rápido. Talvez esta impressão seja causada por uma leitura da qual já se saiba o resultado, da qual já se conheça a história, mas acho que estaria mais próximo da via certa se dissesse que pressenti o que desejava o Idelber. Ora, sei que o conceito de Ricardo Piglia de que todo conto narra duas histórias é muito caro a ele. Eu não discordo, apenas acredito que tal teoria seja algo mais antiga do que Piglia.

A teoria de Piglia é muito semelhante à forma sonata da música erudita. Neste gênero de composição há a apresentação do primeiro tema (a solidão dos dois, o emprego, a disponibilidade, a amizade), depois a apresentação do segundo tema (a possibilidade do amor, da criação de uma situação mais confortável, de "redenção"). Mostrados os temas, eles passam a se relacionar, a se misturar, algumas vezes quase criando um terceiro, mas deixando sempre presentes -- em forma resumida -- os temas iniciais (as pequenas cenas de trabalho / a continuidade da amizade, a noite dos cigarros / a volta ao emprego e a síntese: os cabelos molhados/a repartição), aos quais se retorna sempre, seja de forma resumida ou não, decidida ou não, ou misturados ou não.

No conto de Caio o primeiro tema invade e mata o segundo quando da intervenção do ambiente da cidade. Ao preconceito não interessa saber se os dois trepavam; o preconceito não discute, apenas exige que o senso comum seja cumprido. Os dois colegas não podem chegar juntos e de cabelo molhado ao trabalho. Você pergunta: eles não deveriam saber disso? Pode ser, só que, enquanto o preconceito já decidiu que aquela amizade com visitinhas aqui e ali não lhe serve, eles ainda não saíram do armário. É-lhes cobrada uma disciplina formal que ambos escamotearam ao ignorarem que aquilo poderia ser finalmente o amor. Por que se preocupariam em esconder o que, afinal, ainda não existia? E sobrevém a punição, com os dois demitidos sob medíocres risos de vingança.

O bom do conto é a armação dos dois conflitos -- o interno e o externo. Não há muito além disso. Aliás, também não há muito além disso em Missa do Galo. Machado arma uma situação cujo proveito passa encilhado. É como se diz aqui no sul do Brasil: "Cavalo encilhado não passa duas vezes" ou “Cavalo encilhado só passa uma vez na frente da porteira”. Sim, eu sei, ele pode passar duas ou dez vezes, mas para o casal da Missa e para Estes dois só passou uma vez.

(Dou-me conta agora que Caio não dá destino a seus personagens. Então pode ser que o cavalo tenha sido montado pós-conto. Talvez Aqueles Dois seja uma pré-coito...).

Idelber chama a atenção sobre como a periferia auxilia a história: os títulos das canções e do filme que os fez conversar (Infâmia), o nome do gato (Gato? Que gato? Só lembro do sabiá Carlos Gardel! Acho que foi um ato falho de nosso mestre: o conto é tão casto que ele, na falta de outros manjares, acabou comendo o passarinho através de um gato imaginário. Falando sério, não lembro de gato nenhum!), etc. Concordo, em qualquer grande obra, o contexto empurra importa e significa e, dentro desta periferia cheia de significados, faço questão de destacar o contexto da primeira conversa mais íntima, o do primeiro café:

aquela manhã muito fria de junho, o prédio feio mais do que nunca parecendo uma prisão ou uma clínica psiquiátrica...

É.

Milton Ribeiro em maio 28, 2009 11:37 AM


#27

Oi Idelber,

Gosto muito de seu blog, embora discorde de algumas de suas opiniões. Uma coisa, no entanto, parece ser consenso entre nós: Caio Fernando Abreu. Lendo o conto e tua análise introdutória lembrei-me de imediato de uma entrevista de Michel Foucault sobre o assunto. Transcrevo aqui um trecho que creio abrir um leque bastante amplo sobre o assunto:

"É uma das concessões que se fazem aos outros de apenas apresentar a homossexualidade sob a forma de um prazer imediato, de dois jovens que se encontram na rua, se seduzam por um olhar, que põem a mão na bunda um do outro, e devaneando por um quarto de hora. Esta é uma imagem comum da homossexualidade que perde toda a sua virtualidade inquietante por duas razões: ela responde a um cânone tranqüilizador da beleza e anula o que pode vir a inquietar no afeto, carinho, amizade, fidelidade, coleguismo, companheirismo, aos quais uma sociedade um pouco destrutiva não pode ceder espaço sem temer que se formem alianças, que se tracem linhas de força imprevistas. Penso que é isto o que torna 'perturbadora' a homossexualidade: o modo de vida homossexual muito mais que o ato sexual mesmo. Imaginar um ato sexual que não esteja conforme a lei ou a natureza, não é isso que inquieta as pessoas. Mas que indivíduos comecem a se amar, e ai está o problema".

Referência: http://www.unb.br/fe/tef/filoesco/foucault/

Voltando ao conto, seria melhor pra todos (ou até mesmo pra eles próprios) que eles apenas trepassem. Classificá-los de malditos seria muito mais fácil, então. Mas como lidar com um sentimento mais pleno, difuso e não menos arrebatador entre iguais? Fica a pergunta.

Ricardo Moura
vidaparalela.wordpress.br

Ricardo Moura em maio 28, 2009 11:37 AM


#28

é parecido com a Capitu e o Bentinho, porque acaba perdendo a importancia. ou seja, nunca saberemos o que houve.

Ai, aqui eu não resisto. Tenho que pegar esse gancho da Cristina, porque ele é muito bem lembrado.

Mas há uma diferença. Dom Casmurro é narrado em primeira pessoa, "Aqueles dois" em terceira. Essa diferença, na literatura, é tudo. Em Dom Casmurro, sabemos que não podemos saber se Bentinho tem ou não razão -- isso faz com que a "traição" de Capitu não tenha a menor importância a não ser como fantasia egocêntrica de Bentinho. Essa é a genialidade de Machado: ele pega o romance de adultério e, mudando o narrador de 3a para 1a, transforma-o em romance de ciúmes. A crítica demorou 60 anos para descobrir isso e, não por acaso, a sacada foi de uma mulher: Helen Caldwell.

Não assim em "Aqueles dois", onde sabemos que não "acontece nada" -- o "acontecer nada" aqui entendido como consumação do sexo ou realização de uma identidade gay ou o que seja.

Resumindo: em DC, sabemos que não podemos saber se houve o fato e sabemos também que o personagem acha que sabe. Em AD, sabemos que o fato não existiu e sabemos também que os personagens não sabem se ele pode ou não vir a existir um dia.

Por isso a questão gay é incontornável. É inimaginável esse conto acontecendo entre um homem e uma mulher. Ele não teria o menor sentido. Seria outro conto.

Idelber em maio 28, 2009 11:41 AM


#29

Lola,
Sei lá. Acho meio forçado falar que as mulheres são tratadas como "o outro". Sim, elas são o outro, mas assim é o resto do mundo: a história que interessa é d'"aqueles dois", como o título bem diz, que se encontram em situação tão diferente "dos outros". Não por que são gays ou não, mas justamente por que não estão ligados a essa distinção.

Leonardo em maio 28, 2009 11:41 AM


#30

Leonardo,

mas o que eu disse não foi exatamente o contrário de classificar "gay, mulher, homem"?

Que o autor tenta, através do conto, elevar o amor acima dessas definições?

Mariê em maio 28, 2009 11:43 AM


#31

Mariê,
Sim, perfeitamente. Talvez tenha lido o seu comentário com a cabeça no que estava em cima.
E também, amor acima das definições e, não menos importante, como bem lembrou o Ricardo Moura com Foucault, acima do sexo.

Leonardo em maio 28, 2009 11:45 AM


#32

Idelber, por isso o relaciono não com Dom Casmurro -- uma união socialmente aceita -- mas com Missa do Galo, onde há uma mulher casada com um adolescente -- união no mínimo ESTRANHA.

Abraços.

(Momento tiete grosso: adoro a porra deste blog!)

Milton Ribeiro em maio 28, 2009 11:49 AM


#33

Idelber,

também entendo que a questão gay é incontornável no conto. Por duas razões.

1 - aquela que já coloquei anteriormente do autor tentar apresentar esse amor nascente, para as pessoas de fora, fazendo com que vejam que ele (o amor) é independente. É amor - entre homens, entre mulheres, entre homens e mulheres. Amor.

2 - e essa eu ainda não tinha externado, a própria dificuldade dos dois de entenderem e consumarem esse amor. Que existe. Está lá. Mas que nem eles sabem se vão ou não consumar. Porque talvez nem eles tenham entendido que não importa a classificação.

Mariê em maio 28, 2009 11:50 AM


#34

O final do conto é um tanto moralista pro meu gosto. Que os personagens da repartição sintam que seriam infelizes para sempre já é estranho. Mas o narrador dá a sentença: “E foram”. Por que esses personagens da repartição seriam infelizes? Por sentirem-se culpados? Duvido que eles se sintam culpados. Se acontecesse algo parecido no dia seguinte, eles agiriam da mesma forma. Eles não deixam de ser homofóbicos por causa do que aconteceu. Pelo contrário, isso só reforça a sua homofobia.
E o “ai-ai” no final gritado da janela por “alguém”? Pra mim isso parece um suspiro, e feminino, aquela reclamação-clichê das mulheres quando descobrem que dois homens lindos são gays, o “Que desperdício!”. Não sei, eu gosto dos opostos do conto, de como “aqueles dois” são altos e altivos, e ainda mais altos depois de serem “acusados”, fazendo contraponto aos homens curvados da repartição (parece que ser “atento guardião da moral” pesa). Mas, insisto: onde entram as mulheres nessa história?

Lola em maio 28, 2009 11:55 AM


#35

Meu Deus, transformei o sabiá em gato! Só agora percebi, com o comentário do Milton. Vou ali no post fazer uma errata.

Idelber em maio 28, 2009 11:55 AM


#36

Mas Milton, em A Missa do Galo há o mesmo problema narrativo de Dom Casmurro: primeira pessoa, parcialidade, memória, etc etc

Victor da Rosa em maio 28, 2009 11:55 AM


#37

Aí é que eu discordo. Essa idéia de "consumar o amor" é igual o "sair do armário". Classifica. Identifica.
Isso que é bacana na passagem do Foucault (que é fodástico justamente por que ia no ponto que dói e ninguém tinha pensado): isso não importa. O amor já está sendo consumado. Muito mais, inclusive, através do apoio e da cumplicidade, das músicas e dos filmes, do que por um suposto coito.
A gente, neuróticos do início do século, é que ficamos tão dependentes de tentar resolver a questão do amor pelo sexo.

Leonardo em maio 28, 2009 11:56 AM


#38

Leonardo,

sim. Acima, fora, independente. Eu disse isso lá no #21

'Acho que o autor quer mostrar amor surgindo entre pessoas. Porque se fosse entre sexos opostos era o comum, não daria para insinuar o amor como sentimento além e independente do sexo.'

Mariê em maio 28, 2009 11:57 AM


#39

Leonardo,

é. Aí descordamos. Porque eu acho que o sexo (o ato sexual) consuma sim o amor. Traz do ideal para o real. Do metafísico para o físico. Realiza o sentimento em uma das formas mais bonitas e, porque não dizer, gostosas.

Negar esse ato sexual àqueles dois é que seria reduzir o amor. Seria negar a eles o direito de exercerem esse amor de forma física.

Mariê em maio 28, 2009 12:04 PM


#40

Opa, último comentário meu por enquanto (tenho que trabalhar!). Como regra geral, a gente olha pro outro pra criar nossa própria identidade. A gente é tudo que o outro não é, e se baseia nos “opostos”: homem/mulher, hétero/homossexual, branco/negro etc. Mesmo que o outro não se encaixe nessa dicotomia, a gente faz de tudo pra encaixá-lo. No conto, eu sinto que os dois personagens centrais, e também o narrador, tratam as mulheres como o outro. As mulheres, “o que elas são” (e eles só têm queixas pra elas), fazem com que eles se posicionem contra esse outro. Eles não sabem se são ou não gays, mas têm certeza que são homens. Mas tem um outro “outro” no conto. O conto inteiro é um “us vs them”. Eles, os protagonistas, são pintados como altivos, confusos mas corajosos, por levarem diante aquela amizade, enquanto os outros - os guardiões da moral da repartição - serão infelizes para sempre. O narrador certamente apoia um lado.

Lola em maio 28, 2009 12:05 PM


#41

Mal aê o 'descordamos". Discordamos.

Mariê em maio 28, 2009 12:05 PM


#42

Pois é, mas estou falando disso aqui:

'2 - e essa eu ainda não tinha externado, a própria dificuldade dos dois de entenderem e consumarem esse amor. Que existe. Está lá. Mas que nem eles sabem se vão ou não consumar. Porque talvez nem eles tenham entendido que não importa a classificação.'

Eles não tem dificuldade com o seu amor. Estão vivendo-o desde a primeira vez que se viram. A dificuldade é dos outros, que não entenderam e rotularam.
E de fato a situação seria diferente se fossem pessoas de sexo diferente, embora para muitos nem tanto. O fato de serem dois homens impõe mais a pergunta "vai rolar sexo?" do que se fosse um homem e uma mulher. Mas não muito. Quantas relações heterossexuais foram pro brejo em confusões entre "amor" e "amizade"? Não é isso outra forma de estar dentro ou fora?

Leonardo em maio 28, 2009 12:06 PM


#43

hahaha
Quando eu li o post fui ler o conto de novo para ver se eu tinha "perdido" o gato. E esqueci de comentar, pq tem tanta coisa interessante acontecendo...

Mariê em maio 28, 2009 12:07 PM


#44

Idelber, sim concordo que a questão gay é incontornável, mas, a meu ver, não se eles são ou não, se vão se descobrir gays ou não. Mas sim como isso é visto pelos outros...
O amor entre homens não é necessariamente gay, mas para o pessoal da repartição sim...

Gui Losilla em maio 28, 2009 12:07 PM


#45

Mariê,
Ninguém está negando esse "direito ao coito" a eles.
Mas querer obrigá-los por que "é natural" ou por que "é gostoso" ou por que é ele que "realiza o sentimento" é oooouuutra coisa.

Leonardo em maio 28, 2009 12:08 PM


#46

Sobre a trilha sonora do conto, talvez os leitores do site conhecem melhor a versão Caetano do bolero "Tu me acostumbraste." Aconselho também ouvir a versão clássica de Los Tres Ases enquanto leem o conto:

"http://www.youtube.com/watch?v=_WfhpTxn3lw">http://www.youtube.com/watch?v=_WfhpTxn3lw

É um conto que, apesar de passar a sensação de lentidão, não dura muito mais do que um bolero. E que pode ser lido, de certa forma, como um bolero, da mesma maneira que o conto "Tango de vuelta" de Cortázar pode ser lido, ou ouvido, como um tango. Melodrama, ansiedade, atração poderosa, e depressão no final. Mas o conto reserva a surpresa de que a depressão no final não é do par romântico, mas da audiência para essa atração, os colegas da repartição.

Nesse sentido, a própria letra do bolero, ouvido na trilha sonora imaginária do conto, muda no final: Raul "acostubró" Saul a sentir a beleza de uma atração. Mas neste caso, sãos colegas, que recusam a se acostumar, que vivem desesperados no fim.

Bryan

Bryan em maio 28, 2009 12:10 PM


#47

Eu acho que há muita gente que não olha pra questões básicas de construção de um texto literário. Se um texto é escrito em primeira ou terceira pessoa, por exemplo. É inútil comparar A Missa do Galo com Aqueles dois - duas relações estranhas e o que mais? - já que há questões fundamentais sendo colocadas pelo modo como a narrativa se articula. O Gui quer comparar o leitor com as pessoas da repartição e isso é impossível em qualquer caso, inclusive caso o leitor seja preconceituoso, pois o que o leitor vê a repartição não vê, inclusive a própria reparticipação. Então.....

Victor da Rosa em maio 28, 2009 12:14 PM


#48

Leonardo,

mas eu entendo que eles tinham dificuldade com o seu amor sim. De aceitar, sim. De entender o que estava acontecendo também.

Eles se reconhecem como almas: "...apesar de sem efusões terem se reconhecido no primeiro segundo do primeiro minuto".

E tem dificuldade de aceitar: "...tentaram afastar-se quase imediatamente..."

Claro que cada um tem uma leitura diferente do outro (no caso eu e você), então não cabe discutir.

Na minha leitura eu enxergo uma dificuldade dos dois de compreenderem e aceitarem esse amor. Ao passo que, em certa medida, o reconhecem e o sabem inevitável.

Mariê em maio 28, 2009 12:18 PM


#49

Idelber, adorei sua análise. Nunca li este conto de CFA, mas vi o injustamente esquecido filme Aqueles Dois, de 1985 (IMDb), dirigido por Sergio Amon, e gostei demais.

Cesar S. em maio 28, 2009 12:18 PM


#50

Que linda essa versão de "Tú me acostumbraste". Valeu, Bryan.

Pois é, Victor. Ontem, o César -- que é um cara que tem muita sensibilidade para a construção do texto literário -- disse que achava esse conto uma versão pós-moderna de "Missa do Galo". Eu disse que queria escutar o raciocínio, porque não vejo vínculo, a não ser o mais superficial possível.

Idelber em maio 28, 2009 12:18 PM


#51

Victor,
Mas isso é um dado interessante. Nós que estamos lendo também somos os outros. Estamos fora daquela relação entre os dois (por mais que saibamos mais deles, pois temos os olhos do autor) e nesse ponto talvez estejamos mais perto da repartição do que dos dois.
De repente aquele "ai ai" no final é de nós que estamos lendo e não sabemos onde aquela história vai dar.

Leonardo em maio 28, 2009 12:20 PM


#52

Mas Leonardo, acho que isso funciona só em um nível ilustrativo. O leitor, de nenhum modo, pode ocupar a posição das pessoas da repartição, pois a repartição está sendo vista pelo leitor. Só isso já muda tudo. Sim, há posições do leitor que, de algum modo, podem se aproximar da posição das pessoas da repartição, mas isso, se não é muito pouco - e acho que o paralelo pode ser feito, sim - também não pode ser pensado de modo tão direto, uniforme. Pra resumir em um esquema bem tosco: a repartição só vê os dois e o leitor vê os dois e mais a repartição. Isso é literatura, não? Jogo de espelhos.

Victor da Rosa em maio 28, 2009 12:26 PM


#53

Valeu o link, Cesar. Eu não conheço o filme. Há também uma elogiadíssima adaptação para o teatro, com Débora Vieira, que estará em cartaz em breve em Belo Horizonte.

Esclareço que o César citado no comentário #50 não é o Animot, e sim o Don Quijote.

Idelber em maio 28, 2009 12:27 PM


#54

Achei interessante que, no começo do conto, quando o Caio descreve o encontro inicial entre eles, ele diz que eles se "reconheceram". E, logo depois, que não chegaram a usar palavras como "especial", "diferente" - insinuando que esses adjetivos poderiam ser atribuídos a eles.

Fico me perguntando o que seria essa "alma especial" a que ele se refere como ponto de reconhecimento. Seria a homossexualidade - já que é comum se dizer que um gay reconhece o outro? Seria a capacidade de amar? Ou a sensibilidade artística de ambos?

A idéia de que eles se "reconhecem" remete ao discurso tradicional do amor romântico, a idéia de alma gêmea, vinda do Banquete, de Platão. O amor deles é platônico, inclusive no sentido coloquial: são almas gêmeas ("especiais"), se reconhecem, mas não há consumação carnal.

Ah, sim, e o Idelber falou no "nome do gato" - não era Carlos Gardel um sabiá? Aliás, até isso é relevante, já que um sabiá é uma criaturinha poética e frágil, enquanto o gato é seu predador. Eu, que também gosto de psicanálise, fico aí pensando no ato falho...

Deborah em maio 28, 2009 12:28 PM


#55

Jisuis, deixei a caixa de comentários aberta enquanto acabava as coisas, e a discussão andou!

Nem vi que o Idelber já tinha percebido a confusão entre gato e sabiá.

Aliás, estou adorando, não tenho muito a acrescentar, mas adoro ler as tantas opiniões e interpretações.

Deborah em maio 28, 2009 12:30 PM


#56

uma intervenção rapidinha para concordar com a Lola - gosto muitíssimo do conto, que já conhecia, mas as frases finais destoam da sua elegância. Como se fosse uma praga rogada para os outros. E não parece razoável... os que continuaram na repartição, não sabendo que eram infelizes, não o seriam. A vida continua. Para quem ficou e para quem foi.

Renata L em maio 28, 2009 12:33 PM


#57

Pois é, Deborah, é claro que não dá para deixar de ler o erro como ato falho. Estou rindo até agora, pra falar a verdade :-)

Só um breve toque, pessoal: às vezes, com a sucessão vertiginosa de comentários, coisas preciosas passam batidas.

Deem mais uma lida, por favor, nessa maravilhosa leitura que fez a Janaína lá em cima.

Idelber em maio 28, 2009 12:33 PM


#58

Victor não quero comparar o leitor com o pessoal da repartição, quero dizer que assim como eles, estamos fora da relação dos dois, e antes de acabar o conto, mesmo sabendo mais que a repartição, não deixamos de achar que eles são gays, temos a mesma visão que os outros do conto...
Não é uma comparação, só acho que assim como eles, estamos fora. Temos duas escolhas: especular ou ter certezas, sendo que esta última a escolha da repartição...

Gui Losilla em maio 28, 2009 12:38 PM


#59

Realmente uma leitura belíssima, a da Janaína.

Mariê em maio 28, 2009 12:42 PM


#60

Vou dar um tempinho, ir pro trabalho, mas continuo de lá.
Até.

Mariê em maio 28, 2009 12:59 PM


#61

Obrigada Gui, era neste sentido que eu me referi a nao tem importancia...
cristina

Cristina em maio 28, 2009 1:02 PM


#62

Só um comentário rápido, meio de brincadeira, meio a sério...

Se Capitu tivesse dado um abraço como aquele, numa situação como aquela, alguém aí tería ALGUMA dúvida?

:=)

João Vergílio em maio 28, 2009 1:05 PM


#63

Adorei Janaína. Principalmente a comparação com os contos de fadas e o final "infelizes para sempre".

Izabella em maio 28, 2009 1:06 PM


#64

Mas a Capitu é o Raul ou o Saul?

Vou escrever minha dissertação. Volto mais tarde. Grato pela conversa.

Victor da Rosa em maio 28, 2009 1:11 PM


#65

Vou trabalhar :( , volto mais tarde... está muito bom aqui.

Izabella em maio 28, 2009 1:14 PM


#66

Belo conto e bela iniciativa. Tb lembrei de Piglia e a estrutura do conto. Mas lembrei principalmente de Caio e da força de sua escrita. Parabéns pela abertura do diálogo e pela inspiração do seu blog!

Guilherme Lamenha em maio 28, 2009 1:26 PM


#67

A expressão "deserto de almas" nos faz pensar naquilo que nos torna indivíduos - "almas". Em alguma medida, é nossa capacidade de ver o outro enquanto indivíduo, enquanto "alma": irrepetível, diferente da minha e de todas as outras, irredutível a fórmulas fáceis. É só aí que podemos nos contrapor ao outro enquanto indivíduos plenos. É por isso que a Repartição não tem caras definidas, nem vozes definidas. As caras penduradas na janela são quaisquer umas. Troque-se uma delas por qualquer outra do universo, e o resultado será o mesmo. O que importa quem saber quem disse ai ai? Nenhum daquele seres consegue inserir-se na história individualmente, com exceção do Chefe, corifeu, que está ali para dar voz a uma decisão, no fundo, coletiva. Só a Repartição em bloco consegue alçar-se à condição de personagem. Mas não é preciso ser cristão para saber que repartições não têm alma.

João Vergílio em maio 28, 2009 1:34 PM


#68

Sutil
llegaste a mi
como una tentación
llorando de inquietud
mi corazón.

- Sutileza, sugestão, duas palavras que vêm à minha cabeça. Uma, combinando com a suavidade da narração, sem sobressaltos, e com o desvelamento de um amor, humano amor, fraterno, acima de tudo (falo mais sobre isso depois); e a segunda, que tanto anda em falta, e que é tão perigosa como o lusco-fusco do amanhecer e do pôr-do-sol, aquelas horas onde os fantasmas passeiam, as revoluções ameaçam explodir e o mundo é perigoso, de tão indefinido que é. (Curioso, vivemos tempos onde o explícito é não apenas possível, como até cultuado, associado à liberdade e que tais, e onde a sugestão anda em baixa. O chato é que a própria "habilidade de ser sugestivo" parece tb escassear...)

- Janaina Amado (#4) posicionou-se com clareza, trazendo para isso a estranha década de 80 à conversa, aquela mesma em que surge a AIDS — "câncer gay", diziam tantos, entre assustados e enraivecidos — e onde "... um bocado de gays ... fizeram deste conto um lugar de acolhimento, refúgio, amor, construção de auto-estima". Some-se o fato, como bem disse a Lola (#5), de que "saber que o conto é do Caio atrapalha um pouco. A gente mistura autor e obra, e isso gera a expectativa de um 'conto gay' (seja lá o que for isso)". A culpa não deve ser do Caio e sim nossa, mas fingir que esses dados não passam na cabeça da gente é bem pior, não?

- Lembrei de um filme de Almodóvar, "Hable con ella", e dos comentários da maioria das pessoas que saíam da sessão de cinema, no dia em que o assisti, a respeito de seus dois protagonistas masculinos: "é uma relação homossexual", "são dois enrustidos", e blá blá blá, enquanto eu via um senhor amor fraterno, com toda a potência que lhe cabia absolutamente explicitada e nem um grama enrustida. Ali não havia contenção de espécie alguma, não havia nada a ser desvelado entre eles. Se trepassem, estou certo que "desculpe, foi engano" seria a conclusão de ambos.

- Volto a "Aqueles Dois". Reconheço: não posso fazer da relação entre Raul e Saul uma leitura idêntica à que fiz de "Fale com Ela". São tempos e contextos diferentes. No filme, as bandeiras de Almodóvar contra a repressão (homos)sexual já tremulavam faz tempo, desfraldadas em filmes anteriores, e já incorporadas ao cotidiano espanhol. Por isso não me pareceu nem um pouco estranho entender aqueles dois amigos como os primeiros protagonistas masculinos heterossexuais e interessantes da filmografia do diretor, que até então colocava os homens em papéis secundários, como machistas caricatos, bananas ou então simplesmente perversos.

- Sim, "Aqueles Dois" exala a homoerotismo, além de condenar a repressão já no subtítulo; mas uma repressão marcadamente "de fora", "da repartição", institucionalizada, tanto sexual como política, com quase nada das repressões que construímos silenciosamente e que aos poucos tornam-se tão somente nossas. Mas reconheço que o amor de Raul e Saul, visto pelos da repartição como expressão de uma "relação anormal e ostensiva", "desavergonhada aberração", um "comportamento doentio", talvez não seja apenas fraterno — e desculpe pelo "apenas", a palavra aqui empobrece as coisas —, embora não esteja tão certo de que isso importe tanto assim. (Hoje em dia, pelo menos, acredito que não.)

Bom, falei muito e pouco disse, além de quase nada concluir. Então melhor paro por aqui.

Ricardo Cabral em maio 28, 2009 1:42 PM


#69

E o subtítulo: Uma aparente história de mediocridade e repressão.?

Porquê do 'aparente'?

Há a mediocridade e a repressão da repartição sobre os dois. Para onde então o aparente nos remete?

Poderia querer dizer que o que importa mesmo é o outro foco da história. O sentimento e a descoberta dos dois? Que a reação da repartição é menos importante do que parece?

Só lançando hipóteses...

Mariê em maio 28, 2009 2:39 PM


#70

Eu acho a construção temporal do conto absolutamente perfeita. É uma expressão justa do timing de um casal que apaixona-se. Eles se reconheceram desde o primeiro instante, e boa parte do resto do conto serve à locupletação desse espaço que havia entre eles, essa lacuna. O texto conta, afinal, o movimento de aproximação pela qual um se torna indispensável ao outro. Não é isso o amor?
O tempo, aliás, é justamente nosso marcador inequívoco pra identificar as pistas de que se trata de amor, de paixão: o tempo estica, distende, arrasta-se, tudo de acordo com a presença e ausência de um e outro. Quero dizer, o tempo amoroso se instala entre os dois de tal maneira que uma semana de trabalho numa repartição onde simbolicamente não há mais ninguém passa leve, deliciosamente (porque desfrutada a dois) enquanto os fins de semana, que deveriam ser curtos e relaxantes, tornam-se tensos e vazios. Até que eles começam a passar também os fins de semana juntos e montar aquele conjunto de elementos que pontuam e singularizam uma relação: uma determinada música, um determinado filme, um quadro na parede, etc. As coisas de que cada um gosta passa a possuir e pertencer aos dois, àquilo que eles são juntos.

A impressão de que tudo acontece lentamente é nossa, é do olhar externo que acompanha essa relação desabrochar. Mas quem já se apaixonou sabe que entre o casal o tempo é outro, é precioso, depende de pequenos gestos e pequenas constatações: a falta, a afeição, a confiança, a identificação. Outra coisa: a impressão de demora está tão ligada à posição do leitor do relacionamento que se estende às pessoas da repartição. Essas pessoas também são leitoras dos gestos e sinais amorosos entre eles. E é preciso tempo para que elas passem da desconfiança à certeza de um relacionamento entre os dois. O tempo do conto é o tempo suficiente pra "situação" se tornar "insustentável" e exigir que alguém "tome uma atitude" (não são palavras do autor, mas são palavras plausíveis da repartição). Assim, o tempo do conto é o tempo da maturação do amor E da solidificação do preconceito. E embora (ainda) não haja nada de sexual entre os dois, a repartição adianta e consuma o relacionamento antes deles. Eles não saem do armário, são arrancados dele. Antes de descobrirem-se completamente e assumirem-se um pro outro, a sociedade faz isso: determina a natureza da relação, determina o lugar dela, que é fora e longe. O taxi do final, pra mim, é uma espécie de cavalo branco que leva os dois pra longe do perigo, do ódio, do impedimento do amor.

Assim, eu não tenho dúvidas de que se trate de um casal, de um conto delicado e sensível sobre o envolvimento amoroso. Aliás, depois que eu assisti a Brokeback Montain, não consigo evitar de emprestar traços dos rostos daqueles dois a estes dois sobre quem conversamos.

aline em maio 28, 2009 2:41 PM


#71

Este conto do Caio Fernando é da mesma genealogia do poema-canção, de Leonard Cohen, "Sisters of Mercy", onde o amor e o erotismo são tratados como uma oração, uma epifania que se manifesta sem a necessidade da experiência física.

"SISTERS OF MERCY"

All the Sisters of Mercy
they are not departed or gone
They were waiting for me
when I thought that I just can't go on
And they brought me their comfort
and later they brought me this song
Oh I hope you run into them
you who've been travelling so long

You who must leave everything
that you cannot control
It begins with your family
but soon it comes round to your soul
I've been where you're hanging
I think I can see where you're pinned
When you're not feeling holy
your loneliness tells you you've sinned

They lay down beside me
I made my cofession to them
They touched both my eyes
and I touched the dew on their hem
If you life is a leaf
that the seasons tear off and condemn
they will bind you with love
that is graceful and green as a stem

When I left they were sleeping
I hope you run into them soon
Don't turn on the light
You can read their adrees by the moon

And you won't make me jealous
if I hear that they sweetened your night
We weren't lovers like that
and besides it would still be all right.

Fonte: "Leonard Cohen-Poemas e Canções"-Ed. Relógio d'Água (Lisboa)-pág:217-218.1999.

Mariano em maio 28, 2009 2:43 PM


#72

Que caixa de comentários, hein?

Milton Ribeiro em maio 28, 2009 2:46 PM


#73

Vi o filme, faz muito tempo, e confesso que o tema e o enfoque me espantaram muito, em se tratando de um filme feito na época em que foi feito. Creio que o Caio não define a situação ou orientação sexual dos dois por que realmente não interessa. O que interessa é como se dá o processo de construção do estereótipo na cabeça do leitor, através de um paralelo com a repartição. O filme faz concessões ao moralismo e ao espectador, ao revelar que uma das mulheres realmente nutria (ou achava que nutria) um tipo de atração pela outra, exatamente do que eram acusadas.
A própria repartição é dúbia em relação aos dois. Há um fosso entre Saul e Raul e a repartição, eles claramente não pertencem ao ambiente de lá, vêm de fora, tem dificuldades para se adaptar ao clima reinante, que é de infelicidade e frustração e continuará sendo definitivamente após o término da narrativa. A recusa dos dois em fazer parte, em procurar a aceitação dentro do grupo é o verdadeiro motor do desenvolvimento do preconceito dentro da repartição, e as acusações de homossexualismo são apenas uma estratégia de exclusão. Esta é uma narrativa do desencontro, da separação que já se anunciava desde o início. E é propositalmente abrupta pelo simples fato de que é o término de uma relação que sequer existiu.
A outra narrativa, a do encontro e aproximação entre os dois, é realmente lenta e extensa ao extremo, principalmente por que o autor precisa deste tempo para que a sutileza dos detalhes vá criando no leitor uma dissonância entre a sua certeza (sobre o homossexualismo dos personagens) e a não consciência de Saul e Raul sobre o que estão vivendo.
Boa discussão a todos.

filipe em maio 28, 2009 2:47 PM


#74

Caro Idelber: acho a sua leitura perfeita. Vejo o conto mais ou menos da mesma forma, mas talvez com outra terminologia. Acho que o que está em jogo em Aqueles dois são os dispositivos (procedimentos, mecanismos, como queiram) de identificação. A instituição (a repartição) é, como já salientado aqui, definida como um "deserto de almas" (de almas igualmente desertas, diz o conto), mas também como uma clínica psiquiátrica, uma prisão, etc. Além disso, tirando "aqueles dois", nenhum outro personagem, nem o chefe, nem o denunciante, tem nome, nem mesmo é descrito a não ser de forma genérica. A este caráter amorfo, não-diferenciado, se contrapõe outra forma de ausência de identidade, a d'"Aqueles dois": sempre que o narrador parece aproximá-los um do outro (a começar pelo nome), uma diferença às vezes sutil, às vezes não, os separa (um R não é um S, ainda o -aul seja o mesmo, e uma letra siga a outra no alfabeto; os dois são sozinhos, mas um vem do norte e o outro do sul, um gosta de música, o outro de desenho, etc. Mas, na verdade, nem isto os singulariza, pois naquela cidade todos vem ou do norte, do sul, do leste e do oeste - esta falha da representação se percebe, por exemplo, nos olhos grandes retratados sempre sem íris nem pupilas. A singularidade d'"aqueles dois" se dá justamente quando eles decidem cruzar a fronteira, quando a troca se dá (metaforicamente: quadro pra um, sabiá pro outro), isto é, quando eles trocam, ou melhor, multiplicam a própria (ausência de) identidade (o verdadeiro gesto de amor). (A homossexualidade da relação deles, ao mesmo tempo, complica e multiplica essa experiência; lembro de uma entrevista do Foucault em que ele dizia: "Sim, muito profundamente. Entre um homem e uma mulher mais jovem, a instituição facilita as diferenças de idade, as aceita e as faz funcionar. Dois homens de idades notavelmente diferentes, que código têm para se comunicar? Estão um em frente ao outro sem armas, sem palavras convencionais, sem nada que os tranquilize sobre o sentido do movimento que os leva um para o outro. Terão que inventar de A a Z uma relação ainda sem forma que é a amizade: isto é, a soma de todas as coisas por meio das quais um e outro podem se dar prazer."). A reação da instituição à experiência da singularidade, à experiência que experimenta a falta de identidade, é sempre a mesma: identificar o outro para evitar ter de lidar com a própria ausência de identidade - em termos políticos, de Carl Schmitt: o amigo só se define quando o inimigo é apontado, o amigo não passa do não-inimigo. Daí as referências ao deserto, ou à repartição como uma clínica ou prisão. Daí o título, saído da boca dos funcionários, incapazes de nomear o amor (ou a amizade) não-amorfa a não ser por um desdenhoso "Aqueles dois" - mas daí também a sina de infelicidade que carregarão, incapazes de lidar com o vazio que os habita.

Alexandre Nodari em maio 28, 2009 2:49 PM


#75

Olá Idelber e todo o pessoal,



a discussão está ótima e eu acho que tenho pouco a acrescentar ao que já foi falado, por isso farei só um comentário apenas (pelo menos por enquanto).



Idelber, no seu texto, além do hilário ato falho de trocar piu-piu por frajola, acredito haver um outro engano. Você diz: "Quando voltam das férias, os dois são chamados pelo chefe". Mas eles não chegaram a entrar de férias. Isso parece à primeira vista uma oservação boba, mas, para mim, ela é relevante por dois pontos - que o seu engano me ajudou a perceber.



O primeiro é que, sem férias, não há uma pausa na segunda importante relação do conto: a d'Aqueles Dois com a Repartição. Essa interrupção - que provavelmente viria a ser um alívio para a Repartição - não ocorre. Inclusive, o momento em que Raul se ausenta - momento de interrupção da primeira importante relação, a d'Aqueles Dois - por causa da morte da mãe é mostrado pelo autor como um instante em que a relação especial entre os dois fica mais clara para a Repartição: "Desorientado, Saul vagava pelos corredores da firma esperando um telefonema que não vinha, tentando em vão concentrar-se nos despachos, processos, protocolos." Retomando: tirando férias, a relação Aqueles Dois x Repartição seria interrompida; e seria um descanso tanto para Aqueles Dois como para a Repartição.



O segundo ponto é mais importante ainda. Poderíamos nos perguntar: "Ora, se não houve férias, por que o autor cita que estava quase na época d'Aqueles dois tirarem as suas? Isso é relevante?" É óbvio que é relevante. E o é porque as férias - agora tudo se mostra mais claro - seriam o grande momento de revelação do que afinal seria esse relacionamento especial entre Aqueles dois. Seria nas férias que a discussão que grande parte dos comentaristas aqui seria resolvida: afinal de contas, o conto é sobre uma relação homossexual ou sobre um Bromance (vocês conhecem esse termo, Bromance (Wikipedia))? Seria nas férias que o que começou no Ano-Novo terminaria.



A esperteza (mais uma) de CFA está em fazer desta frase ("Quando janeiro começou, quase na época de tirarem férias (...)") uma pequena deixa para o leitor de que, se não fosse o prépreconceito (me permitam o uso do neologismo) da Repartição, nós, os leitores e Aqueles Dois, saberíamos de fato o que era a relação, antes do conto acabar. O que nos sobra é conjecturar se tomar um táxi junto quer dizer seguir a vida juntos, mesmo depois de perderem o emprego. Não custa dizer que a genialidade do conto está em exatamente não sabermos do que acontece com Aqueles Dois. Afinal, sabemos apenas do fim da Repartição: eles foram infelizes. Quanto à felicidade dAqueles Dois, não sabemos. Mas, além do táxi tomado junto, há ainda a outra sugestão de Caio: "Mas eles não ouviram." Aqueles dois não ouviram o suspiro que alguém gritou da janela. Ao contrário da Repartição, foram felizes. Provavelmente.



Com os dois pontos finalizados, eu ainda gostaria de comentar sobre o título do conto, que eu acho outro lance de gênio do CFA: Aqueles Dois. Como vocês que me aguentaram até aqui devem ter percebido, eu me referi ao casal apenas como Aqueles Dois, ao longo deste comentário. Era uma maneira de explicitar que o título é uma expressão ambígua. "Aqueles dois" pode ser tanto a expressão de desprezo pelo casal como também para enfatizar a relação verdadeira que havia entre eles.



Desculpem-me pelo tamanho do texto. É que sou prolixo.

Vinhal em maio 28, 2009 2:52 PM


#76

Esclarecendo, o "filme" em questão é Infâmia, citado no conto do Caio. boa tarde a todos.

filipe em maio 28, 2009 3:01 PM


#77

Concordo com a Aline #70

"Assim, eu não tenho dúvidas de que se trate de um casal, de um conto delicado e sensível sobre o envolvimento amoroso."

Mariê em maio 28, 2009 3:03 PM


#78

Bromance foi sensacional!!!!

Gui Losilla em maio 28, 2009 3:09 PM


#79

Vou dizer um lugar-comum e fazer uma análise rasteira: os funcionários da repartição tem inveja da relação dos dois. As mulheres por que os dois homens mais bonitos do lugar não dão bola pra nenhuma delas e preferem se relacionar entre eles. E os homens por que os dois tem beleza, porte e cultura, atributos que os diferenciam dos barrigudos, encurvados pelo trabalho repetitivo e provavelmente ignorantes. A semelhança com Children´s hour/Infâmia também se dá nisso: a garota que denuncia as professoras tem inveja da amizade delas e se me lembro bem da história ela é quem é apaixonada por uma delas. Um link para esse filme em DVD:
http://epipoca.uol.com.br/filmes_detalhes.php?idf=17065

Te em maio 28, 2009 3:13 PM


#80


Querido Idelber,

Ontem eu falei que "Aqueles dois" seria a versão pós-moderna da "Missa de Galo". Defendo essa hipótese mais em mesa de bar, do que em mesa de LASA ou MLA, mas deixa eu tentar apresentar alguns argumentos para mostrar porque considero o conto "Aqueles dois" herdeiro de um certo legado machadiano.

Você bem mostrou que Machado transforma o clássico romance de adultério num romance de ciúme, graças a mudança no foque narrativo. O que mostra que Machado está se importanto pouco com o que "de fato aconteceu", e muito mais interessado nos mundos construído por subjetividades angustiadas pelo desejo e ciúmes.

Ainda assim, há uma indecidibilidade no mundo machadiano: não sabemos se Capitu traiu Bentinho, se a Conceição estava querendo seduzir o narrador de "Missa do Galo", pois só temos acesso a realidade via tais narradores.

O que eu acho que Caio faz (e viva Caio, mais uma vez!) é dar um passo a mais nessa poética da subjetividade machadiana. Como se Caio dissesse: "Vocês, leitores de Dom Casmurro, estão sempre tão interessados no batom da cueca, na penetração, no ato sexual objetivo, no que de fato aconteceu, que eu vou conceder algo a vocês: darei uma cueca limpinha! Digo-lhes: Não rolou absolutamente nada! E mostrarei que, apesar do acesso ao mundo objetivo, à realidade 'tal como ela é', isso não altera muita coisa na indecidilibilidade das consciências hesitantes de meus personagens".

Não houve sexo, mas é bem provável que tenha havido homoerotismo (que não é só amor consumado entre duas pessoas do mesmo sexo, mas DESEJO entre pessoas do mesmo sexo - desejo que não precisa ser realizado), ainda que o mesmo não tenha se manisfestado de uma maneira totalmente consciente para os personagens. Não houve sexo, mas eles não sabem o que fazer exatamente com seus desejos, com seus afetos. Não houve sexo mas num mundo onde gays precisam diariamente sair do armário, talvez haja um amor homoerótico no casulo, ainda em gestação. Como você bem disse, é o afeto que carece de nome.

Não é porque dois homens transam que são gays, e não é porque deixam de transar que são heterossexuais. O fato objetivo (a inexistência do ato consumador) apenas complica a indecidibilidade. E é nisso onde vejo Caio um certo herdeiro de Machado, capaz de levar a sutileza machadiana a um degrau a mais: expor o que "de fato aconteceu", e ainda assim, manter a indecidibilidade. Ele é herdeiro não porque repita um procedimento formal, mas porque radicaliza um elemento da poética.

Desculpa as idéias escritas na pressa, Idelber. Mando o comentário sem reivsar! Um abração!


Cesar em maio 28, 2009 3:31 PM


#81

Oi, gente!
Sou nova aqui nesta caixa de comentários (o que significa dizer: leitora fiel, porém ainda arredia), mas, desta vez, não vou resistir. Na realidade, não é um comentário, mas uma impressão de leitura muito forte, ainda mais forte depois de ler os comentários. Vocês têm certeza de que o "infelizes para sempre" era para os da repartição? Ou só para eles? Porque, para mim, foi também (e, quem sabe, sobretudo) para os dois. Como se fosse uma inversão do fecho clássico dos folhetins, porém arrefecida pela indecidibilidade de um conto no qual as coisas não "acontecem", mas "são acontecidas". Talvez por isso também não consiga reconhecer tanto essa polaridade entre o nós e os outros da repartição... Não sei não mas, para mim, há algo de extremamente irônico (para continuar com as aproximações com Machado) nesse conto.

Juliana em maio 28, 2009 3:31 PM


#82

Oi, de novo, só para dizer que se tivesse lido o comentário do Cesar antes de escrever o meu, teria permanecido em silêncio ou teria escrito logo abaixo apenas "amém"!

Juliana em maio 28, 2009 3:40 PM


#83

Mariê,

Uma sugestão para interpretar o subtítulo ("Uma aparente história de mediocridade e repressão"):

É só na aparência que a mediocridade e a repressão protagonizaram essa história, determinando o seu desfecho. O desfecho real está para além dela, em tudo aquilo que irá acontecer a partir do momento em que os dois tomam aquele táxi.

A mesma mediocridade e a mesma repressão que bloqueiam a estrada para a descoberta da identidade, nesses casos, acabam catalizando o processo de auto-identificação. Expulsos violentamente daquele "deserto de almas", ambos estão, não apenas livres para se descobrirem, mas de um certo modo também (e felizmente) condenados a isso.

Essa é a história, na verdade, de uma superação.

João Vergílio em maio 28, 2009 3:49 PM


#84

“Quando janeiro começou, quase na época de tirarem férias — e tinham planejado, juntos, quem sabe Parati, Ouro Preto, Porto Seguro — ficaram surpresos naquela manhã em que o chefe de seção os chamou, perto do meio-dia. Fazia muito calor. Suarento, o chefe foi direto ao assunto. Tinha recebido algumas cartas anônimas. Recusou-se a mostrá-las. Pálidos, ouviram expressões como "relação anormal e ostensiva", "desavergonhada aberração", "comportamento doentio", "psicologia deformada", sempre assinadas por Um Atento Guardião da Moral. Saul baixou os olhos desmaiados, mas Raul colocou-se em pé. Parecia muito alto quando, com uma das mãos apoiadas no ombro do amigo e a outra erguendo-se atrevida no ar, conseguiu ainda dizer a palavra nunca, antes que o chefe, entre coisas como a-reputação-de-nossa-firma, declarasse frio: os senhores estão despedidos.”

Caros, arrisco a dizer que os planos de Piglia, nas onze teses, aqui ainda sofrem outra dobra. Refiro-me à narrativa que se constrói a partir de pré-supostos. Pressupõe-se uma narrativa gay. Isto para mim é perda de tempo. Leio aqui uma narrativa. O chefe também pressupõe isto e toma uma atitude que soa na nota do mundo catastrófico das ‘diferenças respeitadas’ (aquele munido, este, que não percebe q o que resta ao fim e ao cabo são as diferenças). Este mesmo círculo de gente que enviou Oscar Wilde para prisão. A narrativa que poderíamos ler nos rostos sem olhos de Saul “Só rostos, com enormes olhos sem íris nem pupilas.” Rostos sem olhos são ainda menos que vestígios, um vazio, o rosto deserto. Rostos como algumas telas de Amadeo Modigliani
(http://oseculoprodigioso.blogspot.com/2007/01/modigliani-amedeo-expressionismo.html), retratos melancólicos, assim como a idéia do quarto de Saul espelhado na tela do pintor que se automutilou.

Como um deserto, os sulcos delineavam um estado de exílio dentro de uma empresa cujos modelos de subjetivação eram ameaçados por tanto afeto. A narrativa da hostilidade sobre aqueles dois. Hostilidade porque a linguagem entre aqueles dois não comungava com os suarentos, e gorditos e barriguditos (leia-se acomodados, águas paradas) daquele escritório. Ali, naquele pequeno escritório, naquele mínimo estado, a relação daqueles dois os transformava em bandidos. Poderia e deveriam ser sacrificados pelo chefe que poderia ter vindo da colônia penal. Uma narrativa, não à toa, acompanhada por gardel e Dalva de Oliveira. Mas de fato nada aconteceu entre Raul e Saul além de um afecto.

Cristiano Moreira em maio 28, 2009 3:50 PM


#85

João Vergílio,

Achei muito interessante a idéia. E bonita e desejável também.

"O desfecho real está para além dela, em tudo aquilo que irá acontecer a partir do momento em que os dois tomam aquele táxi.
...ambos estão, não apenas livres para se descobrirem, mas de um certo modo também (e felizmente) condenados a isso."

Mariê em maio 28, 2009 3:54 PM


#86

Eu já li o conto várias vezes, e um dos pontos que mais me sacudiram desta vez - talvez por já ter vivenciado outros estremecimentos antes, relacionados a questoes como a indefinição, o coito ou não-coito, a mediocridade dos colegas de trabalho, etc - é algo talvez secundário, mas de modo algum irrelevante: o fato de que ser gay implica não apenas sexualidade e afeto, mas a necessidade de construir um mundo para si, ou habitar um mundo muito particular.

explico (ou ao menos tento): arriscaria dizer, talvez de forma muito apressada e insuficiente, que, para além do sexo, a diferença entre ser homossexual e reconhecer-se gay reside justamente na existência de um marco identitário, cultural, pop (lembremos de todos os filmes, músicas, divas, ou a própria questão do artifício, tão caros a este mundo). um universo que alguem não apenas elege, mas para o qual é impelido devido à exclusão de uma cultura heteronormativa. assim, amar alguém do mesmo sexo implica ter que conciliar este marco afetivo - que por ser afeto é irredutível, inclassificável - com aspectos culturais incontornáveis. implica, inclusive, ter que lidar com com as constriçoes de uma sociedade em que o não-categorizável se torna sempre incômodo.

dito de outra forma: cedo ou tarde as pessoas que vivenciam uma experiência afetiva deste tipo precisam encontrar para si um lugar para existir, uma vez que estar ou não integrado, ser reconhecido ou não como "mais um", ou como "um deles", nem sempre é uma escolha possível. desliza-se constantemente do sexual e do afetivo ao cultural, e os sujeitos veem-se impelidos às bordas, onde precisam negociar com um universo gay no qual nem sempre se reconhecem.


algumas implicaçoes seriam:

1) no que se refere à masculinidade, o fato de que, para os homens, o preconceito opera no sentido de "privá-los de sua masculinidade". lembremo-nos de madame satã e sua reinvidicação raivosa, no filme de karim ainouz: "eu sou bicha porque quero, e nao deixo de ser homem por isso". claro que esta questão implica não apenas uma (o)pressão identitária, no sentido de ter que abandonar os interstícios e definir-se como gay, mas também convém observar o quanto existe aí de vontade de preservar ainda, mesmo como gay, os privilégios masculinos em uma sociedade machista. caberia refletir, então, sobre este duplo problema: por um lado, o efeito ideológico operado pelo preconceito, por meio do qual o homem precisaria renunciar à sua masculinidade para ser gay; e segundo, a reação do homossexual que, longe de ser ingênua, por vezes pretenderia ainda conservar sua posiçao dominante em uma sociedade machista...


2. a questão do "reconhecer-se", sentir-se especial ou diferente também se insere neste contexto. uma vez deslocados, os sujeitos precisam lidar com o fato de que, marginalizados, não lhes resta outra alternativa senão negociar estas definiçoes, ter que encarar o "universo gay" e perguntar-se de que modo se insere (ou não) neste. daí que em tal deslocamento os homossexuais passam a associar a esfera de que estão excluídos à mediocridade (a repartição) - dada a incapacidade desta de aceitar a diferença - e, por sua vez, passem a associar sua própria posiçao com o "especial", ja que traz a marca desta diferença/diferenciação. por isso, acho que o "reconhecer-se no primeiro minuto" remete mais à constituição deste universo próprio do que a uma questão platônica ou à configuraçao de um amor romântico.


No mais, eu concordo com o Jorge Vergílio quando destaca uma mudaça de tom, uma perda de sutileza (quase uma cançao de protesto) no final do conto. Mas penso que isso se deve também a essa constituição de um mundo que só pode se dar como afirmação de si e inclusive de uma certa superioridade. tal afirmação pode parecer reducionista ou auto-importante, mas para aqueles aos quais não lhes é dada a escolha de misturar-se e fazer parte como mais um, e diante da dor da exclusão, acreditar na infelicidade inevitável dos outros é, de fato, uma forma de "acolhimento, refúgio, amor, construção de auto-estima", como disse a janaína.

fabio em maio 28, 2009 3:54 PM


#87

Também adorei a interpretação do João Vergílio para o "aparente". Dá um pouco de esperança pensar que eles não se deixaram abater pela mediocridade e pela repressão.

Deborah em maio 28, 2009 3:55 PM


#88


É claro que eles são gays. E é claro também que não conseguiam ver isso com clareza porque carregavam consigo todo o universo de repressão que acaba por determinar a cena da demissão.

A carta anônima teve uma dimensão libertadora. Permitiu que eles ouvissem com clareza, sem retoques nem disfarces, o discurso que estava conspirando o tempo todo dentro deles.

João Vergílio em maio 28, 2009 4:00 PM


#89

Olá, Idelber!
Olá, demais pessoas!

Entre os temas que atravessam a obra de Caio, estão presentes em ‘Aqueles dois’ a cidade, a solidão e o anseio pelo amor (uma das epígrafes de Triângulo das águas é “O amor, ah o amor: eu quero porque quero da vida”, de Oswald de Andrade, e a epígrafe de ‘Aqueles dois’ não trata justamente desse anseio, dessa busca pelo amor: “I say you shall yet find the friend you were looking for”?). São temas que reaparecem, por exemplo, nas novelas ‘O marinheiro’ e ‘Pela noite’ (ambas em Triângulo das águas e a última também em Estranhos estrangeiros), no romance Onde andará Dulce Veiga? e nos contos ‘Pequeno monstro’ (em Os dragões não conhecem o paraíso) e ‘Bem longe de Marienbad’ (em Estranhos estrangeiros). A lista poderia ser maior, mas no momento não me recordo de outros textos. Há outro conto, mas o deixo para o final.

Morangos mofados foi o primeiro livro de Caio que li. ‘Aqueles dois’ me causou uma forte impressão, há mais de dez anos. Desde a primeira leitura, o aspecto que mais atraiu minha atenção foi a forma, ou, se preferirem, o tom da narrativa. Se a história daqueles dois homens é tão bonita e tão intensa, tão dilacerante, suponho que o motivo seja a forma adotada por Caio.

A cidade está presente, como disse, e a cidade é muito importante, não porque a história se passe em uma cidade, mas porque aquela história somente é possível em uma cidade. O sentimento de solidão das personagens é aquele que é experenciado apenas em uma cidade: sentimento de solidão na multidão (a repartição era um “um deserto de almas”: havia pessoas, muitas pessoas, mas Raul e Saul permaneciam solitários entre os colegas).

(A cidade, quando não está presente fisicamente, como lugar onde transcorre a ação, está presente imaginariamente, nas lembranças e nas expectativas das personagens. Por exemplo, o que o garoto de ‘Pequeno monstro’ mais anseia é o término das férias no litoral e o retorno para a cidade.)

A cidade nesse conto, entretanto, é etérea, ao contrário da cidade em ‘Pela noite’ e Onde andará Dulce Veiga?. Estamos em uma terra sem nome. Estamos também em um tempo indefinido. As únicas personagens nomeadas são os dois protagonistas, totalmente solitários naquela cidade. Por inversão, as demais personagens, que têm parentes e amigos, que não estão sozinhas na cidade, não têm nome. Essas características, associadas ao lirismo incontido da narrativa, fazem com que uma história tipicamente contemporânea, das nossas cidades, do nosso tempo, seja narrada de uma forma próxima às das narrativas de uma fábula e de um conto de fadas. Donde as palavras finais, que podem parecer inverossímeis: “ninguém mais conseguiu trabalhar em paz na repartição. Quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram”. Todavia, se interpretadas no registro da forma da narrativa adota pelo conto, passam a fazer sentido: se a história parece uma fábula, o final contém uma punição aos antagonistas e o que parece ser uma lição de moral.

O tema do encontro e do reconhecimento (de si no outro) está muito presente nos textos de Caio. Está presente, em alguma medida mas nem sempre da mesma maneira, em todos os textos que citei acima. A esse tema contrapõe-se o da angústia e da perda de sentido quando aqueles que se aproximaram separam-se, perdem-se. O protagonista narrador de ‘Bem longe de Marienbad’ percorre o mundo à procura do amante desaparecido, que também está em seu encalço. O jornalista de Onde andará Dulce Veiga? fala: “... não conseguia viver outra vez uma vida assim sem Pedro. [...] Parei de trabalhar. Parei de ser e de fazer qualquer outra coisa além de esperar que ele voltasse. Mas Pedro não voltou, eu não voltei”. Nesses textos, como em ‘Aqueles dois’, o companheirismo e o amor transformam o indivíduo e conferem sentido à existência.

Dos textos que citei ‘O marinheiro’, embora seja narrado pelo protagonista, me parece ser aquele que mais se aproxima, na forma, de ‘Aqueles dois’, devido a suas elipses e imprecisões. Os restantes, com exceção de ‘Bem longe de Marienbad’, que parece situar-se entremeios, são mais, digamos, realistas.

Disse que deixava um conto para o final. Trata-se de ‘Mel & girassóis’, de Os dragões não conhecem o paraíso, que narra o encontro entre um homem e uma mulher durante uma viagem de férias. Ele se aproxima, em alguns aspectos, de ‘Aqueles dois’, mas aqui não estamos diante de envolvimento homoafetivo.

Abraços!

PS: Depois eu volto, preciso ceder o computador a minha irmã. Aliás, eu deveria estar estudando, mas ao Caio eu não consigo resistir.

PS 2: Mais Caio:

Morangos mofados [http://www.4shared.com/file/102104070/5f7e774f/CAIO_FERNANDO_ABREU_-_MORANGOS_MOFADOS.html]

Onde andará Dulce Veiga? [http://www.4shared.com/account/file/42789871/24075ebc/Caio_Fernando_Abreu_-_Onde_Andar_Dulce_Veiga.html]

Os dragões não conhecem o paraíso [http://www.4shared.com/file/102297527/23976b73/CAIO_FERNANDO_ABREU_-_OS_DRAGES_NO_CONHECEM_O_PARASO.html].

Fabiano em maio 28, 2009 4:02 PM


#90

Só mais um pitaco: o início do conto mostra que o relacionamento dos dois, seja lá de que natureza for, permaneceu após a expulsão do deserto de almas. Estão aliviados em serem excluídos de um cotidiano de tarefas chatas e de fazer o social com pessoas medíocres. E debocham de tudo aquilo entre copos de cerveja. Os outros é que foram mesmo infelizes para sempre.

Te em maio 28, 2009 4:03 PM


#91

Idelber, primeiramente agradeço pela indicação. Que conto bonito.

A leitura da Janaína (#4) expressa muito do que senti ao ler o texto. Ele descreve um amor que se vai construindo pouco a pouco, primeiro em cafés e cigarros, conversas ao pé da garrafa térmica, e depois em filmes regados a conhaque e trocas de presentes. E a sutileza com que se narra toda esta evolução chega a nos deixar ansiosos pelo momento em que 'esses dois vão trepar', afinal, algo que permanece em aberto.

E toda essa sutileza, para mim, pode ser vista de duas maneiras. A primeira, de como basta o desenvolvimento de um sentimento mais forte entre dois homens para que haja o rechaço dos que se julgam normais (ainda que inicialmente os dois não o percebam), independentemente da natureza que tenha este sentimento (natureza que é deixada propositalmente nas entrelinhas por Caio Fernando); e a segunda, de como esta 'lentidão' para compreenderem o que sentem Raul e Saul pode ser o resultado de toda a construção social em torno das relações entre homens (que se tocam somente para brigar ou disputar uma bola, como bem diz a Lola no #5). A reação primeira diante do choro de Raul (Saul primeiro lhe estende a mão, e somente depois se abraçam), e a timidez com que um elogia o corpo do outro, e somente em estado de embriaguez, foram para mim ilustrações claras desta segunda perspectiva.

Porém, toda esta sutileza, a meu ver permeadas por tristeza (tanto por estas 'opressões' sociais quanto pelas infelicidades individuais de Raul e Saul), acaba levando a uma redenção dos dois, que contraditoriamente se segue à injustiça de serem demitidos: a constatação de que a repartição, na realidade, é realmente o 'deserto de almas' infelizes descrito no início do conto.

Bom Idelber, em sendo proibidas as desculpas, mando um abraço a todos. Bacana aprender neste espaço.

Douglas em maio 28, 2009 4:04 PM


#92

opa, uma observaçao: quando digo que "não lhes resta outra alternativa senão negociar estas definiçoes", nao me refiro, obviamente, a uma necessária adesao. longe disso! apenas considero incontornável que um homossexual, em algum momento, tenha que perguntar-se de que modo se relaciona com este universo cultural "gay".

fabio em maio 28, 2009 4:07 PM


#93

Verdade, fiquei tão focado na questão do preconceito que me esqueci dos personagens principais!
Concordo plenamente que é uma questão de identidade, de personalidade, de ter coragem e vontade de superar a mediocridade da vida, principalmente em uma repartição, onde as pessoas vivem a vida como se essa fosse mais um estorvo que uma oportunidade de criar e ser algo!
Ser é o que importa, pois aquele bando de sem almas não são. Se isso incomoda, atrapalha, perturba, não importa, pegar o táxi e ir para onde eles podem ser eles mesmos (gays, heteros, católicos, flamenguistas, que seja!), e não ficar fugindo e lamentando pelos cantos.

Gui Losilla em maio 28, 2009 4:08 PM


#94

Ao contrário do Idelber, desde a primeira vez que li este conto, o desfecho me pareceu incrivelmente fraco, e a tal ponto que quase comprometeria a maestria do jogo de tensões que ele conduz tão bem na narrativa - “Aqueles dois” e a repartição; ao ponto de a repartição fazer parte dos dois, condicionando, contendo o andamento da narrativa. Mas, ao final, o narrador abandona a isenção, o domínio dos universos e faz parecer panfleto, com prejuízo do efeito artístico da narrativa. Senão, vejamos: Antes, “Usavam palavras grandes — ninguém, mundo, sempre —“ referindo-se aos protagonistas. Há uma nota de grandiosidade romântica por toda a narrativa, que o trecho transcrito evidencia. Mas isso, os personagens; o narrador não. O narrador abre aspas para “deserto de almas”, porque a expressão realmente fica muito distante do universo autoral do Caio Fernando Abreu, da força artística, da originalidade de suas imagens, de seu texto mesmo. Mas, no desfecho, o narrador toma a palavra e lemos “ninguém mais conseguiu trabalhar em paz na repartição.” (grifo meu). E, na frase seguinte, ele reparte a repartição e diz “Quase todos”, no “quase” entrevemos o narrador, excetuado da perspectiva panorâmica, porque “todos” seria de um maniqueísmo, de um fla/flu, estranho para um autor desta categoria. Mas o narrador descai no simplismo na frase final: “E foram” (infelizes). Essa infelicidade geral soa de uma exemplaridade inacreditável: os julgadores, que condenaram os dois, acabam condenados à infelicidade. Realmente é a fórmula inversa do clássico “foram felizes para sempre”, mas com a mesma funcionalidade banal, compensatória e moralizante. A narrativa, excelente, merecia desfecho mais feliz.
Grande abraço e parabéns pela discussão.

José em maio 28, 2009 4:16 PM


#95

Acredito que se formos remontar a algum "precursor" (e este sempre vem a posteriori, este não seria Machado, mas Raúl Pompéia e seu O Ateneu, não só mais especificamente pela "temática gay", quanto mais em geral pelo conflito entre instituição e afeto, identificação e singularidade (quanto aos dois planos, basta uma rápida pesquisa no google pra verificar as circunstâncias que levaram Pompéia à morte). Como em "Aqueles dois", n'O Ateneu (ainda que nele haja o problema da narração em primeira pessoa, que modifica tudo), a maioria das personagens não passam de caricaturas, ao passo que o protagonista não consegue encontrar uma identidade – ao contrário, O Ateneu narra a dessubjetivação constante de Sérgio, seu narrador, e sua incapacidade de fixar uma subjetividade. Logo no início do romance (Cap V), isto se delineia de forma clara e brutal com o uso da metáfora da escultura: “parece que às fisionomias do caráter chegamos por tentativas, semelhante a um estatuário que amoldasse a carne no próprio rosto, segundo a plástica de um ideal; ou porque a individualidade moral a manifestar-se ensaia primeiro o vestuário no sortimento psicológico das manifestações possíveis.” A metáfora da escultura reaparecerá ao final do romance, quando Aristarco, o diretor, não se conforma quando é inaugurado um busto em sua homenagem: "Aristarco caiu em si. Referia-se ao busto toda a oração encomiástica de Venâncio. Nada para ele das belas Apóstrofes! Teve ciúmes. O gozo da metamorfose fora uma alucinação. O aclamado, o endeusado era o busto: ele continuava a ser o pobre Aristarco, mortal, de carne e osso." Assim, Sérgio não encontra um “caráter”, uma imagem moral, mas uma imagem vazia, que pode tomar várias formas, de acordo com o meio: “O meio, filosofemos, é um ouriço invertido: em vez da explosão divergente dos dardos – uma convergência de pontas ao redor. Através dos embaraços pungentes cumpre descobrir o meato de passagem, ou aceitar a luta desigual da epiderme contra as puas. Em geral, prefere-se o meato”. Foi um contemporâneo de Pompéia, Araripe Jr., quem melhor captou o motivo do romance: “a instituição que se não define, que ataca e decompõe os indivíduos pela violência de um movimento que não se apreende”. Daí que Sérgio, ao buscar construir sua personalidade, tenha de fazer uso das técnicas de artista: "Sérgio não é Sérgio; Sérgio é um composto de transfigurações. Ora, aquilo que, de ordinário, só acontece aos artistas, pelo exercício aturado da função estética, passa a ser desde logo um fato consumado para Sérgio, que entra na vida tomando-a instintivamente pelo lado do inexprimível, concebendo-a como matéria de estilo, confundindo-a com a arte na sua significação mais abstrata. (...) A preocupação da alma nua aterra-o." Mas, como em "Aqueles dois" - e toda obra de arte é uma promessa de felicidade, lembrava Mário de Andrade -, é a instituição que leva a pior (o colégio acaba incendiado) e Sérgio, o narrador, pode interromper sua "crônica de saudades".

Alexandre Nodari em maio 28, 2009 4:20 PM


#96

A caixa de comentários está maravilhosa, e não resta muita coisa a dizer. Queria então divagar um pouco. O ato falho do Idelber chamou-me a atenção para o sabiá. Tenho poemas que às vezes levo sempre comigo, como talimãs, copiado em um papelzinho dobrado dentro da carteira, e durante muito tempo o lugar foi ocupado por:
"Las condiciones del pájaro solitario son cinco: la primera, que se vá a lo más alto; la segunda, que no sufre compañía, aunque sea de su naturaleza; la tercera, que pone el pico al aire; la quarta, que no tiene determinado color; la quinta, que canta suavemente."
San Juan de la Cruz, em Dichos de Luz y Amor
Vi os dois preenchendo todos os requisitos de pássaros solitários que, quando se encontram, se reconhecem. Aves migratórias: um vem do norte, outro vem do sul, e não se adaptam ao bando já formado e estabelecido, cheio e referências. Ambos apontam os bicos para o céu: ousam, mesmo com medo, viver o amor. Não têm cor definida, assim como o sentimento que partilham: indefinido e indefinível. Por isso achei tão simbólica a primeira troca de presentes:
- um sabiá - fui dar uma olhada no verbete "pássaro", do Dicionário de Símbolos: dependendo do contexto pode significar a leveza, o presságio, a alma que se liberta do corpo, a inteligência, a busca iniciatória, a linguagem e a imaginação (o pássaro cantor), a imortalidade, objetos da ornitomancia, a força e a vida, a fecundidade, o renascimento. O verbete é longo, mas destaco um trecho: "... Daí surge a idéia de que a própria alma é um pássaro (...), um pássaro migrador, devido à crença da migração da alma de corpo em corpo, até o voo final para esse ninho, onde ela encontrará por fim refúgio contra os perigos da transmigração." - pág. 688
Para mim o ninho está representado pelo presente dois:
- o quadro - é interessante aqui contrapor a idéia de que os pássaros solitários não têm cor definida ao quadro de Van Gogh, onde a cor tem lugar todo especial. Talvez simbolize o afeto, o aconchego do ninho ainda por fazer, como pensa Saul: "às vezes a impressão de que o quadro era um espelho refletindo, quase fotograficamente, o próprio quarto, ausente apenas ele mesmo." Deu o quadro a Raul, que monta o "ninho" onde os dois passam a se encontrar: "aberta a champanhe na quitinete de Raul, que Saul ergueu a taça e brindou à nossa amizade que nunca nunca vai terminar."
E ainda há o filme, as músicas, os discos, o Nascimento de Vênus. Enfim, as interpretações são muitas, mas acho que Aqueles Dois é um conto sobre ousar voar fora do bando, enquanto os outros pássaros de asas atrofiadas que permanecem infelizes, com seus sentimentos terrenos. Aliás, como é que é mesmo aquela história do sexo dos anjos? (voltando ao Dicionário de Símbolos: pássaros também representam os anjos, seres alados, símbolo da amizade entre os deuses e os homens).

Ana em maio 28, 2009 4:23 PM


#97

o que mais me emociona neste conto é a delicadeza do caio para mostrar como uma intimidade vai se construindo a partir de pequenos detalhes e sem pretensões, de forma quase inocente. é lindo como o caio é capaz de registrar e nomear coisas tão sutis quanto "Sem tempo para compreenderem, abraçaram-se fortemente".
para fazer tudo isso, é essencial a linguagem usada, o ritmo e a construção das frases, as expressões. penso que a força do conto vem de uma harmonia entre a forma (linguagem) e o conteúdo.

construções que me fazem gostar de tantos contos do caio:
"o bonito de dentro de um estimulando o bonito de fora do outro".
"Usavam palavras grandes — ninguém, mundo, sempre..."
"Meses depois, não no começo, um deles diria que a repartição era como "um deserto de almas". O outro concordou sorrindo, orgulhoso, sabendo-se excluído".

luciana em maio 28, 2009 4:43 PM


#98

Oi, José e mais todo mundo!
Foi justamente para que a interpretação não descaísse nesse simplismo que achei que o "infelizes" não era dirigido à repartição. Porque, se não for assim, concordo que seria um péssimo fim para um bom começo. Como "história de aparente mediocridade e repressão", fico muito tentada a lê-la integralmente na chave da ironia. Mas é claro que nada impede que seja, realmente, mais um caso de fecho ruim.

Juliana em maio 28, 2009 4:50 PM


#99

O pessoal bom! A cada comentário que leio aprofundo e modifico minhas primeiras impressões. Aprendo! Obrigado

Orlando em maio 28, 2009 5:08 PM


#100

Como agradecê-los pelo que está acontecendo aqui? Como explicar que a restituição e o agradecimento são sempre, por definição, insuficientes e pateticamente inadequados quando o que se quer restituir é da ordem do afeto?

Se eu escrever mesmo esse livro sobre a masculinidade incluindo o conto de Caio -- e agora não há volta, devo escrevê-lo --, eu terei que explicar que vocês inventaram hoje uma forma diferente de se fazer pesquisa em literatura, não imaginada, não vislumbrada ainda dentros dos pobres muros das nossas universidades.

Eu sou ateu de carteirinha mas, tenho certeza, em algum lugar, Caio sorri.

Idelber em maio 28, 2009 5:13 PM


#101


"Infelizes para sempre" não deve ser lido como uma espécie de praga que o autor estaria rogando na Repartição.

É preciso compreender, antes de mais nada, o sentido preciso da felicidade do casal. Trata-se da felicidade proporcionada por uma libertação. Eles se libertaram das amarras de um discurso despersonalizante, que reduz o outro a um estereótipo. A outra felicidade - a de irem viver livremente o seu amor - é consequência desta primeira.

É a esta felicidade mais fundamental, proporcionada pela libertação de um discurso redutor, que a Repartição jamais terá acesso. É neste sentido que todos "sentiram" que seriam infelizes para sempre - e é neste sentido que, de fato, o foram.

João Vergílio em maio 28, 2009 5:16 PM


#102


"Em algum lugar, Caio sorri"

Dentro de nós.

João Vergílio em maio 28, 2009 5:18 PM


#103

AQUELES DOIS
Ramiro Conceição


Eram dois aqueles moços:
um, moreno, era formoso;
meigo e louro, era o outro.
Do Norte,
Raul.
Do Sul,
Saul.

Exótica
harmonia
os vestia:
um,
de barba
negra,
era Raul;
o outro,
frágil
do olhar
azul,
era Saul.

Mas
daquela vez
se decifraram
aqueles dois:

Raul era
o Norte;
o Sul
era Saul.

Que sorte!

Ramiro Conceição em maio 28, 2009 5:18 PM


#104

Boa João Vergílio.

"Em algum lugar, Caio sorri" Idelber

"Dentro de nós." João Vergílio


Mariê em maio 28, 2009 5:27 PM


#105

Meu palpite:

O uso da ambigüidade do conto é magistral: realmente, não dá para ter certeza se Raul e Saul são homossexuais, se consumam o ato (é assim que se fala?), ou se vão morar juntos após serem despedidos do trabalho na repartição.

Como vários comentários apontaram, o mais importante e bonito no conto é a descrição (e o ritmo) da construção do amor sensual ou da amizade fraternal entre os dois.

Agora... o que era assim tão especial nessas pessoas? Porque eram tão altivos? Para ser sincera, achei-os bem presunçosos principalmente naquela referência ao “deserto de almas”. Não vi nada de extraordinário em Rosencrantz e Guildenstern, digo Raul e Saul.

Ok, não eram puxa-sacos, comem lentilhas para não precisar bajular o rei, mas, pelo que percebi, tinham gostos, atitudes e biografias bastante comuns.

Excetuando o anonimato das cartas (covardia) e a atitude calhorda do chefe ao demiti-los, o leitor não tem elementos claros para achar indecente o restante do grupo do escritório, a meu ver.

E se fosse hoje em dia, o chefe seria processado por discriminação de orientação sexual.


olimpia calmon em maio 28, 2009 5:40 PM


#106

Bom, me vou, gostaria de agradecer a todos, foi muito bom mesmo!
Idelber, só depois nos passe o endereço onde poderemos pegar o certificado, blz? Isso foi muito melhor que alguns cursos por aí!

Grande abraço a todos!

Gui Losilla em maio 28, 2009 5:51 PM


#107

O ato falho me lembrou do Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, de Jorge Amado, ainda antes de ler o conto.

Adorei a proposta do tópico e o fervor da caixa de comentários.

Chica em maio 28, 2009 6:00 PM


#108

Idelber!
Quando Caio inicia o conto, dizendo que - A verdade é que não havia mais ninguém em volta. Meses depois, não no começo, um deles diria que a repartição era como "um deserto de almas". O outro concordou sorrindo, orgulhoso, sabendo-se excluído.- já esta traçada a linha condutora do texto, mais do que uma temática gay, penso que a norte seja a constatação da homofobia como parte da sociedade e do nosso pensamento, por isso, o próprio conto é atemporal, como o preconceito.
Temos a repartição, a firma, como o ambiente alienante e alienado, o deserto de almas, mas os dois eram diferentes, - Ao contrário dos outros homens, alguns até mais jovens, nenhum tinha barriga ou aquela postura desalentada de quem carimba ou datilografa papéis oito horas por dia. - Eles próprios só se descobrem aos poucos e não se revelam por puro preconceito ou talvez por medo da atitude do outro, apesar de serem tão iguais, são seres que se completam. Um do norte outro do sul, um moreno outro loiro..., mas tornavam-se bonitos, mesmo, quando estavam juntos.
A fase de gentilezas protocolares durou muito e teria durado para sempre, não fosse o filme assistido na madrugada, que obrigou o atraso de Saul. A solidão que os reuniu é a mesma que os separava, a identidade, a igualdade, diferente das outras almas da firma.
As entrelinhas falam muito alto, neste conto, a música dizendo que - llegaste a mí como una tentación llenando de inquietud mi corazón.- A primeira constatação era que antes de tudo, o coração ficara mesmo era inquieto...
Mesmo, quando tudo estava pronto, nada aconteceu, - Deitaram ambos nus, um na cama atrás do guarda-roupa, outro no sofá. Quase a noite inteira, um conseguia ver a brasa acesa do cigarro do outro, furando o escuro feito um demônio de olhos incendiados. Pela manhã, Saul foi embora sem se despedir para que Raul não percebesse suas fundas olheiras.- No entanto, a preocupação de Raul é estética e não pelo amor não consumado.
Ao fim, descobrem-se, mais pela constatação do chefe e da carta prudentemente anônima ou seja de qualquer um dos colegas ou de todos, diferenciando-os, por completo!
Livres, então do preconceito próprio e por conseqüencia do alheio, vão embora altos e altivos, sem nem ouvirem um ai-ai... a descoberta do amor os fez assim. E, por esse mesmo motivo, por viverem em desesperança, sem amor, quase todos que ficaram tinham a sensação de que seriam infelizes e foram. Cumpria-se aí o vaticínio da primeira frase, a repartição era como um deserto de almas! Termina abruptamente, constatando que acima de tudo é um conto de amor.
Abraços

paulovilmar em maio 28, 2009 6:23 PM


#109

Essa coisa da “infelicidade” continua martelando na minha cabeça. Sinceramente, acho difícil nao associá-la às pessoas da repartição (“ninguém mais conseguiu trabalhar em paz na repartição. Quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre…”). Note-se: não apenas foram infelizes mas, o que é mais gritante, constataram essa infelicidade. Então, sem querer ser repetitivo, insisto em um ponto:

Por que, apesar de toda resistência à circunscrição deste afeto em um marco definido, recorre-se à declaração sentenciosa de uma infelicidade entre aqueles que condenaram os dois? Ao que parece, o que surge aqui é a afirmação, ao final, de um “sentir-se especial”, “diferente”, justamente o que ficou fora da perspectiva de Raul e Saul no início. Uma possível contradição? Arriscaria dizer que talvez isso ocorra porque, mesmo para um autor tão avesso a rótulos como Caio Fernando Abreu, em determinados momentos o que se coloca é a questão de como posicionar-se frente à força incisiva de uma exclusão e de um preconceito. Buscar uma forma de não se deixar subsumir pelas categorizaçoes e, ainda assim, afirmar-se.

Ora, quem já enfrentou situaçoes de discriminação no que se refere à sexualidade sabe que insistir em uma indefinição radical nem sempre é suficiente. Nestas situaçoes, o que se coloca é a necessidade de pensar o lugar que o sujeito ocupa entre, por um lado, a condenação “medíocre” das diferenças e, por outro, a configuração de uma nova instância definidora, o gay. A tensão entre estes dois pontos e a permanente negociação de alguém que aspira a ocupar os interstícios atravessa suas posiçoes e demarcam certa ambiguidade. Daí porque se sustenta a convicção de que a impossibilidade de reconhecer que há modos de vida que não são categorizáveis só pode gerar infelicidade. É algo que surge como um alento, e também como uma espécie de tomada de posição primeira a partir da qual a indefinição mesma poderia ter lugar.

Daí também porque sou levado a pensar na constituição de um mundo próprio como a tarefa árdua, o desafio incontornável que se coloca para “aqueles dois” e que está para além do conto, depois do final…

fabio em maio 28, 2009 6:33 PM


#110

Evidente que gostei por demais do conto - no mínimo pela elegância, que elegância de palavras! - mas, tendo lido quase tudo aí para cima, quero advogar para o diabo.
Quando terminei de ler foram as duas últimas frases que ficaram ecoando. Eu ficava pensando, horrorizada, n'Aquela Gente. Que gente %#%#$@¨%¨%. E que final glorioso, eu pensava. Hoje, lendo os comentários (principalmente aquele que diz que no final parece que ele "gritou no nosso ouvido"´, e aquela que diz que no final ele "muda o tom"), passou a me incomodar. O final é mesmo diferente de tudo o mais, de toda a elegância. No final, o Caio fica puto e manda Aquela Gente toda à merda. Saul e Raul ficarão ótimos; eles não gostavam mesmo de trabalhar lá, eles não se encaixavam naquele deserto, eles são mesmo dois caras tristes que encontraram um amigo ou talvez um amor, eles vão continuar tocando a vida em outro lugar. Mas e Aquela Gente? Condenada pela raiva do Caio a ser infeliz para sempre? Não sei se fica essa impressão para todo mundo mas, pra mim (que não sou gay), parece que ele me jogou lá no meio da repartição e não me deixou saída. No entanto, lá no meio eu poderia mesmo estar, uma fulana, nem um pouco incomodada pela amizade, nem pelo amor, muito menos pelo sexo, entre Raul e Saul - e ainda assim jogada como farinha dentro do saco dos infelizes para todo o sempre.

(Ó, lembrando que decidi advogar para o diabo, e que gostei por demais do conto).

Me ocorreu: meu melhor amigo há 20 anos é gay, mas muito gay (um gay xiita!). Vai ver é por causa dele que senti assim esse final - ele seria capaz de mandar toda Aquela Gente à merda, com facilidade. E eu junto, de gaiata.

Lúcia em maio 28, 2009 6:38 PM


#111

A primeira vez que li o texto (faz tempos) não tive dúvida.
Lendo, agora, com a sugestão do Idelber, fiquei me perguntando se eles teriam que ser gays mesmo. Se o fato do autor ser o Caio isso já era um induçao.
Que se um homem fugir ao socos e futebol está condenado (gostar de filmes e de boleros).
Mesmo com todos indícios - a questão de a homossexualidade ser sempre narcísica, dai o Raul – Saul, a impossibilidade de se fazer um espelho – Raul e Saul são quase iguais – r/s. É desejar o semelhante, mas ainda assim é outro - o ponto pra mim fica mesmo sendo o amor – a relação deles. Visto que a relação sexual “ainda” não aconteceu.
Quando li o texto fui destacando algumas frases e tomaram outros significados depois dos comentários daqui.
“Acontece porém que não tinham preparo algum para dar nome às emoções, nem mesmo para tentar entendê-las.” Somos educados para ser hetero. “Fugir” a isso é sempre um caos.
”e com isso quero dizer que esse detalhe não os tornaria especialmente diferentes.” Ele está se referindo de onde eles vieram (norte/sul), mas a homossexualidade, também, não deveria fazê-los diferentes.
Pra mim o ai ai ai do final – na janela – é tipicamente masculino. Homem querendo pontuar a desmunhecada gay.
E a frase final, não se tem escapatória. O preconceito é burro. Ficar “cuidando” do outro, do que ele faz ou não faz é não viver a própria vida. E não viver é se condenar a infelicidade.
Acho ótimo ficar claro que a repartição não foi feliz.

Cláudio Luiz em maio 28, 2009 6:39 PM


#112

Vou dar mais um pitaco.
Eu acho que o que existe é uma constatação da 'repartição', e não uma condenação do autor a que eles sejam infelizes para sempre.
Eles próprios é que têm a sensação de que serão infelizes para sempre. O Caio constata: E foram.
Quando diz que "quase todos" ele deixa aí uma margem para a exceção.
E o grito no ouvido não é bem por mudar o tom. É mais como um soco no estômago. Pra mim é um final inesperado, ainda mais por fechar com uma certeza seca um conto tão cheio de incertezas. Este é o soco.

Mariê em maio 28, 2009 7:04 PM


#113

Aqueles Dois conta a história de duas Telmas. Mais do que isso, há suficiente indício de que a terceira pessoa que nos conta a história de Raul e Saul é, também ela, uma Telma.

Para quem não conhece a terminologia ora empregada, A Lenda das Jaciras é um conto em que Caio Fernando Abreu nos apresenta uma divertida classificação de homossexuais do sexo masculino. Eles se subdividem em Jaciras, Telmas, Irmas e Irenes. A Jacira, que na minha hipótese narra A Lenda... (afinal, ela mesma aparece como protagonista no título), é uma pintosa assumida. Todos sabem da homossexualidade da Jacira.

A Jacira refere-se a si mesma - e às amigas - sempre no feminino. Então, parece-me bastante óbvio que A Lenda das Jaciras só pode ter sido narrada por uma Jacira. Detalhe: a Jacira é descrita como pessoa felicíssima. Note-se que a narrativa (feita por uma Telma) de Aqueles Dois nos informa que ninguém na repartição foi feliz, mas... esquiva-se de comentar acerca da felicidade ou infelicidade de Raul e Saul depois daquele táxi.

Convém pontuar quem são as Telmas, segundo a apresentação feita por uma Jacira n’A Lenda. As maiúsculas seguem por minha conta.

“Ao contrário da Jacira, a Telma é INFELICÍSSIMA. Ela BEBE. Bebe para esquecer que poderia ser homossexual. O problema é que, exatamente quando bebe, mais exatamente ainda depois do terceiro ou quarto uísque, é que a Telma transforma-se em homo. Embriagada, Telma ataca. E dramaticamente na NA MANHÃ SEGUINTE NÃO LEMBRA DE NADA. Aquela JANE FONDA de The Morning After perde. Embora a Telma fique muito erotizada em estado etílico, ela SEMPRE NEGA QUE É, e negará ATÉ A MORTE. A única solução para uma Telma empedernida seria a psicanálise (que ela, a mais doente, acha que não precisa) ou parar de beber. O que, por tabela, significaria também parar de trepar. Pobres Telmas – categoria da qual países como o Brasil (vide academias de ginástica, futebol, chopadas com o pessoal da REPARTIÇÃO etc) está cheio”.

Em Aqueles Dois, portanto, temos diversas das referências informadas n’A Lenda sobre as Telmase em geral. Há muita bebida alcoólica consumida, a permanência dentro do armário até o fim e, é claro, a infelicidade. A Telma narradora, embora se omita sobre o que o futuro reservou a Raul e Saul depois do táxi, pontua a infelicidade pretérita desses dois personagens com relacionamentos heterossexuais. Também temos a menção explícita a Jane Fonda e, claro, a própria repartição (ou firma) na ambientação do conto de uma Telma.

Está tudo, pois, n’A Lenda das Jaciras.

Não existe outing d'Aqueles Dois. A narradora, como Telma que é, não se assume. Por conseguinte, projeta sua conduta nos personagens de Raul e Saul. Mas a narradora Telma deixa rastro que uma Jacira, decerto, flagaria. Ora, a Telma se esquece do que fez, bêbada, na noite passada. A narradora, portanto, não é confiável: dá voltas improváveis até para nos contar do dia em ambos ficaram nus, elogiaram reciprocamente seus corpos, mas terminaram a noite em cômodos separados, cada qual com sua brasa. Jacira nos contaria essa parte de outro jeito. “A Telma estava bêbada, não viu ou não quis ver o que as outras duas Telmas fizeram”, diria a pintosa.

Note-se, aliás, que Raul e Saul bebem desde o primeiro momento descrito em Aqueles Dois. "E longamente, entre cervejas, trocaram então ácidos comentários sobre as mulheres mal-amadas e vorazes, os papos de futebol, amigo secreto...", é o que lemos na terceira frase do conto. Jacira, se nos narrasse a história de Raul e Saul, possivelmente nos contaria como ela mesma teria rodado a baiana para cima do chefe no momento da demissão, lamentando o silêncio omisso de Raul e Saul. Ao final, possivelmente, uma Jacira abriria o teto solar do táxi e seguiria cantando Sempre Libera à Callas. Raul e Saul foram embora sem música.

P.S.: Eu não li os comentários, porque não tive tempo. E é claro que não vou pedir desculpas por não ser especialista, ou doutor em literaratura, porque é exatamente isso que me permite viajar na personalidade das duas narradoras dos contos de Caio F – ainda que sem qualquer base teórica, risos.

Fábio Carvalho em maio 28, 2009 7:15 PM


#114

Entrei de manhã, não havia nenhum comentário, mas como estou no meio de um simpósio e tinha que sair correndo,não comentei. Entrei agora no blog numa escapadinha das palestras e quase cai para trás. Parabéns, Idelber! Vou deixar meus dois centavos (a expressão vai pegar), porque tenho que sair correndo de novo, e peço desculpas se alguém já escreveu sobre isso. Em primeiro lugar, o título (aqueles no lugar de eles) já anuncia que uma das histórias não é a relação entre os protagonistas, mas a construção imaginária dos convivas (e nós leitores!). Em segundo lugar, acho que a Janaína já apontou o tom de fábula. Quanto ao debate sobre o lugar que as mulheres ocupam nesse conto (não li com atenção, tá) sugiro, como redenção para Caio o conto "Os sapatinhos vermelhos", do mesmo livro.

Maria Andréia em maio 28, 2009 7:20 PM


#115

Olá,
Infelizmente não consegui ler todos os comentários, mas pretendo ler todos mais tarde com mais calma. Porém, antes disso gostaria de expor o meu ponto de vista:

Pelo pouco que li percebo que muitos estão se fixando muito na "temática" homossexual do conto mas não vejo a coisa desse jeito. Concordo com o Idelber quando ele diz que os personagens deste conto não poderiam ser um homem e uma mulher, pois isto mudaria toda a história, mas, no entanto, é preciso lembrar, a história não se firma apenas sobre isto. Já no começo, quando eles chegam à repartição fica clara a diferença entre eles e os outros (deixe-me chamar assim aqueles que lá já trabalhavam). Diferença que é reforçada quando eles falam sobre o deserto de almas. Diferença que fica clara quando, ao ir embora estão altivos, nem mesmo percebem os gracejos preconceituosos, estão acima disso.

Para mim, mais do que a homossexualidade, é esta alegria, esta felicidade que os dois sentem, mas que, na verdade, já sentiam antes mesmo de se conhecerem que incomoda os outros, então por isso, quando o narrador setencia que os outros foram infelizes para sempre, não é que o narrador esteja sendo parcial e tomando o partido destes dois, ele está apenas dizendo o que os fatos mostram, que naquela repartição todos eram, são e serão infelizes. Logo qualquer pessoa que não se enquadre neste contexto incomodará.

Prá finalizar gostaria de deixar um trecho de uma letra de Raul Seixas que eu acredito que exemplifica o que acontece neste conto:
"Prá passar a noite na cocheira tem que ter o mesmo cheiro do cavalo prá não incomodar".

É isso.
Abraço

Stive Ferreira em maio 28, 2009 7:29 PM


#116

Que caixa de comentários hem??!!!! Clap, clap clap

Izabella em maio 28, 2009 7:35 PM


#117

Fábio Carvalho, muito bacana a sua interpretação, a intertextualidade com outra obra do próprio autor, e o divertidíssimo conceito de Telmas e Jaciras (fiquei curiosa - e as Irmas e Irenes?).

É incrível como um texto assim se revela tão rico, tão cheio de sentidos.

Deborah em maio 28, 2009 7:46 PM


#118

To super sem tempo e não vai dar para ler os outros comentários hoje...vai ficar para o finam de semana. Mas queria deixar o meu comentário. É o seguinte.

Li a proposta de leitura na terça a noite e já fui logo lendo o texto. Adorei. Fui acompanhando os passos daqueles dois em direção a alma um do outro e me lembrando de umas poucas vezes em que me senti dessa mesma forma em relação a outras pessoas - como se aquela outra pessoa fosse fundamental para mim, e no final era!
O mais interessante desse meu processo mental enquanto lia é que não me lembrei apenas de quando isso aconteceu com homens pelos quais me senti enamorada ou apaixonada. Também aconteceu com mulheres que foram mais do que amigas, foram almas que durante algum tempo tiveram afeto e amor pela minha alma.
Dai, pensei: caramba, embora a repartição sem alma não consiga entender e veja como "depravação" imaginando que aqueles dois são homossexuais, na verdade, isso é um encontro de duas pessoas fundamentais uma para a outra, um verdadeiro encontro.

E, eu, que no começo estava imaginando "quando é que esses dois vão trepar?", vi que não iam...que isso não era fundamental. Embora, tenho que reconhecer, quando acontece uma trepada com uma pessoa especial assim, é maravilhoso.

Ao final do conto, a frase linda "E foram", ficou ecoando no meu pensamento, enquanto eu imaginava aqueles dois dentro do taxi enloquecidos, beijando apaixonadamente um ao outro e ignorando solenemente o mundo todo.

aiaiai em maio 28, 2009 8:27 PM


#119

Pessoal, postei um comentário de manhã cedo, e quando voltei aqui, há cerca de uma hora, quase caí pra trás com tantos comentários!! Mas li todos,tudinho. Quero agradecer a vocês o monte de links e poemas e músicas que vocês agregaram, adorei, me fez expandir a leitura do conto quase ao infinito.

Janaina Amado em maio 28, 2009 8:29 PM


#120

Olá,

Gostaria de agradecer ao Idelber pelo belo texto de introdução. Porém, creio que este influenciou muito a minha leitura, sou inexperiente.
Quanto ao texto tive minha fala contemplada em diversos comentários, como o #6 (Mariê) quando fala da “mistura” entre um e outro pelos seus nomes e o comentário #10 (Orlando). Gostei muito também da interpretação da Ana #96.
Mas gostaria de salientar que antes de nós leitores, ou da repartição julgar “Aqueles dois” o narrador já o fez. É ele que coloca a pulga atrás de nossas orelhas. Independente de estar na terceira pessoa ou não, não podemos dizer que ele é imparcial. Antes de Raul e Saul sentirem a falta um do outro, o narrador já sabia. Isso não faz com que eu goste menos do texto - é que sempre desconfio dos “oniscientes”.
Fiquei completamente tomada pelo texto, e digo: se eles não entrassem juntos no taxi a minha alma ficaria mais desertificada.

Alciana em maio 28, 2009 8:36 PM


#121

Segue uma interpretação bem livre do conto de Caio Fernando Abreu à luz do capítulo 10 de “O Livro Negro”, de Orhan Pamuk.
Nesse capítulo, Orhan Pamuk descreve um encontro do personagem com um Olho. Esse Olho é também o próprio personagem. Ou seja, um encontro dele consigo mesmo. Narra-se do ponto-de-vista do personagem e do Olho. É um encontro pleno, gratificante, ainda que não necessariamente esclarecedor.
E o que isso teria a ver com o conto de Caio Fernando Abreu? Bem, numa releitura sem compromisso (quase alucinada) do conto, diria que Saul e Raul não são dois, são um. Alguns indícios: a) a quase equivalência dos nomes; b) a ambigüidade da origem “Raul tinha vindo do norte, Saul tinha vindo do sul” (uma das perguntas mais antigas e sem respostas conclusivas da espécie humana não é exatamente de onde viemos?); c) a química dos dois, bem similar à mecânica do autoconhecimento – “que mais restava àqueles dois senão, pouco a pouco, se aproximarem, se conhecerem, se misturarem?” “o bonito de dentro de um estimulando o bonito de fora do outro”; d) a semelhança física nos aspectos gerais “mesmo porte, mesma altura”, e a diferença da cor dos olhos, do cabelo e da barba poderia ser encarada como a necessidade angustiada do ser humano de, muitas vezes, ser mais de um no mesmo corpo, lançando mão de uma tintura ou de uma lente de contato colorida; e) são dois homens, porque, na verdade, seria um e não dois, fusão mais distante para um casal hetero; f) um se confunde com o outro, a gaiola de sabiá passa de um para o outro, assim como a reprodução da tela de Van Gogh; g) os dois cigarros acesos no escuro não seriam um cigarro e seu reflexo no vidro da janela?; h) nada seria mais pleno do que o encontro consigo mesmo, nesse sentido fazer ou não sexo seria secundário; i) a propósito, prazer, abalo e volúpia na fala são iluminados no conto quando a descoberta do filme em comum os ratifica como uno no meio do deserto de almas.
Finalmente, para todos aqueles que, voluntária e amarguradamente, preferiram ficar separados de si mesmos só resta ficar à janela, condenados a poderem ver apenas, cada vez mais longe, o táxi daquele que consegue/tenta ser inteiro.
Saudações.
Paulo Machado

Paulo Machado em maio 28, 2009 8:43 PM


#122

Eu entendo o conto do Caio Fernando Abreu como uma fantasia, quase que adolescente, e quase que adulta, do ideal de um amor romântico. Eu não falo isso com escárnio, ou com deboche. Mas eu leio a história e vou encontrando, um a um, os elementos que fazem a gente perceber que está diante de uma obra literária que lembra aquelas que a se definiu um dia como pertencentes a esse estilo literário.

Eu explico: existem dois heróis, ambos que procuram um sentido na vida. Ambos se acham um no outro, se identificam-se de diversas maneiras possíveis, e inciam então a construção de um mundo pessoal, íntimo e dissociado do quatidiano na Repartição. Pelo que vários outros participantes comentaram, parece claro que a Repartição dá-se conta antes de Saul e de Raul que a relação é homossexual, e desviante, e proibida. O curioso é que, como o Idelber fala, os mais ansiosos devem estar se perguntando "mas quando é que eles vão transar?" e eles acabam não transando. A troca de carícias, o toque entre os dois amantes é quase que fraternal. Eu penso que, antes de querer dar um sentido de homoafetividade (ou afeto entre dois homens), o Caio Fernando Abreu enlevou-se de tal forma com seus dois homens de almas perdidas na repartição que os manteve puros, assexuados. Não, eles não transam, e para mim esse é o primeiro dos anticlímaxes (é assim?) do texto. Eles, condizentes com o papel que o autor os destina, cumprem o destino do personagem romântico, para quem o amor carnal não é libertação, a expressão do desejo, mas sim a própria antítese do amor espiritual.

Não existe homem que não goste de sexo. Se existe, eu não conheço. Os personagens do Caio Fernando Abreu, por mais líricos e belos que sejam, não existem. Em qualquer década, de qualquer século, eles já estariam transando há muito tempo. Caio Fernando Abreu sabe disso, ele domina a obra que escreve, e nos mostra claramente que sabe: a Repartição inteira pensa que os dois transam. Nós, os leitores, somos a Repartição amigável, mas ainda assim a repartição. Todos nós, que encontramos uma lufada de vento puro nesse conto somos um pouco dos colegas de repartição, que vivem no deserto de almas. Será que o conto seria assim tão belo, tão redentor, tão bem-quisto pelo leitor se lá pelas tantas Saul e Raul fossem gato e passarinho, e se engalfinhassem à luz da brasa do cigarro, sob os olhos do demônio?

Cássio em maio 28, 2009 8:52 PM


#123

Caraca! Que caixa de comentários (li todos)
E obrigado pelo conto!

Tô com o Milton: a-d-o-r-o esse blog!

Abs.

Edk em maio 28, 2009 9:17 PM


#124

Dentro da linha proposta pelo Cassio, do duplo, mas no escopo da literatura em língua portuguesa, valeria a comparação com a Confissão de Lúcio

Tiago Mesquita em maio 28, 2009 9:19 PM


#125

Vou dar um palpite, Cássio. Veja o que você acha.

De fato, essa "expectativa da transa" se cria na cabeça do leitor, e não é à toa. O autor quis criar essa expectativa, e conseguiu fazer isso muito bem.

Por que eles não transam, então? Acho que não é simplesmente porque "transa não é o mais importante", e coisas desse gênero. Se fosse o caso de dizer isso, seria muito mais efetivo ter insinuado uma transa, sem descrevê-la, nem dar-lhe o primeiro plano. A transa surge no conto como um símbolo da incompletude. A relação vai crescendo, crescendo, crescendo, mas sempre falta algo. Até o momento final, até a demissão, a saída do prédio e a entrada no táxi, nós sentimos que ainda está faltando algo. A transa é propriamente "aquilo que falta", mas, como eu disse, o símbolo de um passo final, que falta: a libertação completa daquele paradigma oculto, insidioso de moralidade que explode inteiro, sem nenhum disfarce, escarrado na carta anônima.

Esta, pelo menos, é a minha leitura: a carta os liberta. Não é preciso, então, descrever o sexo, até porque isso comprometeria o seu papel simbólico ao longo do conto. As linhas iniciais do texto ficam reverberando na cabeça do leitor, que compreende então que, é claro, eles conseguiram viver plenamente um desejo que, reprimido, já custara a ambos o calvário de dois casamentos fracassados, cuja descrição, apesar de curta, é perfeitamente capaz de nos fazer imaginar o quanto aquela moralzinha hipócrita pode custar à vida de uma pessoa.

O fim do casamento de ambos teve a ver com cama? É óbvio que teve, né?

João Vergílio em maio 28, 2009 9:22 PM


#126

Errata:

"A transa não é propriamente aquilo que falta, mas..."

Sorry.

João Vergílio em maio 28, 2009 9:23 PM


#127

Vou ter que abusar das erratas, pois desta vez há erro de conteúdo no que eu disse.

Não são dois casamentos, mas um casamento e um noivado. Por trás do primeiro, a clara insinuação de problemas diretamente vinculados à sexualidade. Por trás do longo noivado, talvez se pudessem entrever problemas mais sutis. No contexto geral do conto, porém, é difícil evitar a leitura que propus.

João Vergílio em maio 28, 2009 10:06 PM


#128

Idelber,

olha só o poema bem humorado que apareceu como comentário no meu blog:

AQUELES DOIS
Ramiro Conceição

Eram dois aqueles moços:
um, moreno, era formoso;
meigo e louro, era o outro.
Do Norte,
Raul.
Do Sul,
Saul.

Exótica
harmonia
os vestia:
um,
de barba
negra,
era Raul;
o outro,
frágil
do olhar
azul,
era Saul.

Mas
daquela vez
se decifraram
aqueles dois:

Raul era
o Norte;
o Sul
era Saul.

Milton Ribeiro em maio 28, 2009 10:16 PM


#129

Gostaria de sugerir uma abordagem que vi apenas esboçada em dois comentários até aqui, mas sem maior aprofundamento. Trata-se do tema da migração, do ser “de fora”, do ser “de outro lugar”. E de como a estrangeiridade, a estraneidade de Saul e Raul os aproxima, por de certa forma igualá-los frente aos outros.

Milton Ribeiro (em 26) comenta que são dois homens que, após aprovação em um concurso, “vão trabalhar numa cidade pequena”, onde não conhecem ninguém e são solitários. Comenta ainda que a história somente poderia se passar numa cidade, no que estou de acordo, embora não tenha percebido nenhuma referência ao tamanho da cidade, que me parece mais uma capital, com pessoas que vêm de todos os lados, para trabalhar numa repartição que provavelmente centraliza uma região.

O tema da solidão é mais associado à cidade grande, embora possa estar presente também nas menores. Conforme observa Fabiano (89), eles são os únicos solitários não apenas por serem “especiais” física e espiritualmente. Mas porque, ao contrário da maioria na repartição, não têm outras referências familiares e de amizade, e vêm de experiências de frustração afetiva que, possivelmente, influenciaram em suas decisões de buscar a migração e novas inserções profissionais.

Para o imigrante, o estrangeiro, o sentimento de estar na cidade distante da sua, onde não se conhece ninguém, pode bem ser o de um deserto de almas. Buscar o igual é quase uma conseqüência, e a esse igual pode ser alguém do mesmo lugar de origem, mas pode também ser alguém do Norte, diferente do meu Sul, de um Oeste que não é o meu Leste. Sendo eu considerado como um Outro, um Estranho, eu me oriento pelo que tem as mesmas carências e me permite a aproximação. Deixo de ser “aquele um” para pertencer ao “aqueles dois”.

Saul e Raul vêm da estrada, ambos. Um “vinha de um casamento fracassado”, outro “vinha de um noivado que terminara”, e de um curso frustrado. Cada um está vindo, e chega a um deserto, onde busca seu igual, ou ao menos próximo. E se tornam, cada um, a única referência para o outro. A ponto de ignorar os demais.

Mas a sua estraneidade não foi ignorada pela repartição. Pois os dois eram os “extra”, os forasteiros que não se enquadraram e deram margem a todo tipo de suspeita. O estrangeiro duvidoso, do qual não se sabe o que esperar, é o grande medo da atualidade, nas sociedades onde chegam migrantes. Estrangeiros são estranhos, e deles não se sabe o que esperar. É preciso enquadrá-los, classificá-los e controlá-los para que não se tornem (ou não se manifestem como) algo diferente de nós, ameaçador para nós. E principalmente para que não se unam, superando sua fraqueza inicial, e estejam em posição de nos desafiar.

helion em maio 28, 2009 10:43 PM


#130

Deborah,

A Lenda das Jaciras, com as apresentações das Irmas e das Irenes, é googlável pelo título. A Irma é meio assexuada e a Irene, uma descolada discreta.

O Cássio aí em cima também abordou outra coisa que eu havia pensado (mas não escrevi). Aqueles Dois é "uma fantasia, quase que adolescente, e quase que adulta, do ideal de um amor romântico (...) existem dois heróis (...) eles acabam não transando".

É o amor (sexo) que não se realiza. É puro, é romântico. Narrador e personagens são Telmas. E "Telma, eu não sou gay".

Fábio Carvalho em maio 28, 2009 10:46 PM


#131

Vou citar uma frase famosa da Mae West: Garoto, você tem o sexo na cabeça. E lá não é o lugar dele.

A intenção é provocar mesmo. Eu percebi, ao ler o conto, que se existe uma tensão sexual ela é causada por uma constante desconfiança do leitor da possibilidade de sexo. Na estrutura da narrativa, o CFA cria um clima de insinuações que os outros comentaristas já descreveram bem, mas que não passam de insinuações. As mesmas que fazem a Repartição os perceber como amantes. Eu mesmo, e acho que até o Idelber, ficamos com uma expectativa voyeur de que minha gente! enfim eles transem. Eles, ao contrário da gente, nem parecem se dar conta de que o sexo existe.

Saul e Raul, em nenhum momento além de nossa imaginação, têm tesão. Fazem um ou outro comentário narcisístico, elogiando a beleza do corpo nu, mas fica nisso. Os personagens se entendem mesmo é de alma. Eles fazem a antítese do famoso "Antologia" do Manuel Bandeira: A vida/ Não vale a pena e a dor de ser vivida/ Os corpos se entendem mas as almas não./ A única coisa a fazer é tocar um tango argentino. Eles se encontram e daí a vida vale a pena ser vivida. O que interessa é a comunhão das duas almas. Lembre-se do arroubo final "Em momento algum!..." afirmando peremptoriamente, até com ofensa na voz, que o amor em momento algum se consuma. Por esse motivo é que eu penso que o conto é um conto romântico. O detalhe é que não tem mocinha a ser salva, tem é dois mocinhos tentando se entender, e se entendendo.

Pessoalmente, eu prefiro não especular em como acaba o conto, depois de acabado. Primeiro porque é só especulação mesmo, se o autor não escreveu. Segundo, porque a forma da narrativa conto é isso mesmo: clímax e anticlímax. Bem ao contrário do que uma parte dos comentadores escreve aqui, penso que é a falta do sexo, e não o sexo em si, que dá o subtom de toda a história, e prepara emocionalmente o leitor para a compaixão com os personagens. É um pouco piegas, eu sei, mas quem não fica até com um dó no coração de torcer pros rapazes se pegarem, eles não se pegarem e ainda por cima serem demitidos? Desculpa se minha interpretação parece um pouco cínica, mas também acho bom quebrar o enlevo da caixa de comentários.

Cássio em maio 28, 2009 10:48 PM


#132

Em primeiro lugar parabéns pelos comentários. Só consegui ler tudo hoje a noite e acabei de terminar de ler o comentário #131. Aprendi demais com tudo e com os nuances que cada um trouxe de seus interesses, experiência de vida e da leitura que pessoas diferentes fazem.

Isso mostra a riqueza do conto.

Uma coisa que eu não vi sendo explorada é o que eu acredito ser um forte componente político do conto que passa com força pela sexualidade, mas ao meu ver extrapola esta quetão.

O texto todo é uma trajetória de preparações que não acontecem, de fatos que não se consumam. E isso vai do modorrento dia a dia na repartição ao relacionamento dos dois, permanentemente em tensão por causa da distância de um final de semana do outro, por que eles não trepam nunca, por que eles não saem de férias e, em um outro sentido, por que a demissão deles da repartição não resolve a vida de ninguém por lá, pelo contrário condena os colegas de Saul e Raul (o tal deserto das almas) a se manter na infelicidade que eles já haviam conquistado nessa vida sem vida interior. Na vida em que só a atividade repetitiva e burocrática faz sentido e onde nada acontece.

E é curioso que o cenário se divida principalmente entre os quartos solitários de Saul e Raul e a repartição. Nos cenários aparentemente mal arrumados e simples onde cada um dos dois vive é nde existe vida, é onde o mundo acontece.

Na repartição é onde a vida pára. Onde qualquer possibilidade de realização é anulada. Acho que pode ser reducionista, mas essa relação do espaço público do escritório, da instituição, tem muito do Brasil. Um país onde sempre existe a promessa, onde as pessoas estão sempre na espera. Vivem a tensão do que poderia ser com o que nunca é. O país de um futuro que só existe nas confabulações e nos sonhos, mas que não se realiza nunca.

Mais uma vez muito obrigado pela sugestão Idelber. O conto é precisoso e os comentários também.

Lauro Mesquita em maio 28, 2009 11:01 PM


#133

Compaixão???!!!!!, Cássio????????!!!!!

Eu tenho é inveja dos caras!

aiaiai em maio 28, 2009 11:02 PM


#134

Pois eu tenho é dó nessas duas Telmas.

Cássio em maio 28, 2009 11:29 PM


#135

Eu também tenho dó das Telmas.

Fábio Carvalho em maio 28, 2009 11:33 PM


#136

Nossa, que bom que ainda está acontecendo esse compartilhamento aqui. Obrigada, Idelber, obrigada.
Uma coisa interessante de notar é como um mesmo conto pode suscitar tantas e tão diversas interpretações.
Concordo com um tanto, discordo de outro tanto, mas não há como negar a delícia de se ver tão diversas opiniões.
Alciana #120 Minha alma também ficaria mais desertificada (adorei) se eles não entrassem no táxi juntos.
Quanto à ausência da trepada, acho que o autor preferiu assim para destacar o amor. Porque o trepar é justamente o que as pessoas que veem o homossexualismo como aberração esperam e acreditam que é só o que interessaria "àqueles dois".
Eu queria que houvesse. Torci até. Porque seria a tal consumação do amor. Mas a opção pelo não é melhor no final das contas.

Mariê em maio 28, 2009 11:47 PM


#137

É, Lauro,
um conto:
é um sonho!

Ramiro Conceição em maio 29, 2009 12:19 AM


#138

Idelber, eu tou aqui sem saber como começo. Eu li seu convite ontem, mas acabei não tendo tempo de ler o conto ontem mesmo. Hoje, passei o dia na rua, e só pude ler agora à noite. Estou chegando aqui já com mais de 130 comentários, não consegui ler nem os primeiros 20. Se eu for terminar de ler tudo antes de escrever, capaz de desistir.

Eu começo então confessando um tanto envergonhada que até o ano passado eu nunca tinha lido Caio Fernando. Claro, tinha ouvido falar dele, mas nunca tinha lido. Aí a Fal descobriu isso e, horrorizada, me deu de presente o livro Cartas, organizado por Italo Moriconi, com uma dedicatória em que ela dizia que não era possível que nós passássemos mais nem um dia sequer separados. Eu li tudo rapidamente, e fiquei encantada, completamente. Mas mesmo assim, não tinha ido ainda atrás da ficção de Caio. Daí que a oportunidade oferecida por você era imperdível.

Mas eu jamais imaginei que me sentiria como me senti. Eu não sei explicar, talvez tenha que voltar muitas vezes à análise pra escarafunchar isso, mas eu comecei a chorar quando ele menciona o filme da Audrey e da Shirley McLaine e continuo chorando até agora. Não sei se mais alguém comentou sobre o filme, mas eu adoro esse filme, muito. Vi uma vez só, por acaso, peguei bem no comecinho, na tv a cabo, há muitos anos, e o filme me sacudiu completamente. Depois, nunca mais consegui achar pra alugar nem ver na tv. Comprei uma caixa de dvds da audrey e fiquei procurando por esse filme, mas não tinha. Comento com um monte de gente, nunca ninguém viu ou conhece. Mas ele me tocou imensamente.

Nesse conto do Caio, esse intertexto, como você fala, foi o que mais me tocou. Tudo o que você disse no pontapé inicial faz todo o sentido do mundo, como que o desconhecido é que desestabiliza, se fossem duas bichas desvairadas ficava tudo no campo do folclórico e ninguém dava a menor bola, é até simpático pras moças falarem "meu amigo gay". Mas tem uma coisa do despeito (sei lá, tá vindo à minha cabeça agora, na exata medida em que escrevo). Porque no início, fica a impressão de que as moças da repartição olhavam pros dois, bonitões, com uma certa esperança de "carne nova" no pedaço. E aí em vez dos dois cumprirem o papel esperado, de dois novos partidos à disposição, eles se interessam um pelo outro.

Adorei tudo no conto, a dubiedade constante, o ritmo com que ele conta (eu também fiquei louca esperando o beijo que nunca veio), a gradação da intimidade que vai crescendo entre eles e a tensão que isso provoca.

Só que tudo me leva de volta pro filme, e pro desfecho inesperado e dramático do filme, e eu fiquei aflita imaginando um desfecho semelhante pra história do Raul e do Saul, um desfecho que aconteceria depois do ponto final dado pelo Caio.

Se não fosse pra me alongar muito mais (e também porque eu teria que elaborar mais o que eu vou só acenar agora), eu ainda faria uma outra ponte pra outra história que se misturou na minha cabeça agora, e eu nem sei bem quais são os links em jogo, vou falar só pra bagunçar o coreto. É que eu estou terminando de ler o último volume da saga do Erico Veríssimo, O Tempo e o Vento, e alguns personagens masculinos ali ficaram ecoando na minha cabeça no instante mesmo em que eu lia o conto do Caio. Construções de masculinidade. Referências que moldam a gente.

Desculpe o amontoado de idéias desconexas, eu ainda tou um bocado emocionada. Sobretudo se eu tiver repetido coisas que já foram ditas antes de mim. Muito, muito obrigada por me trazer esse texto, agora eu vou ter que procurar os outros contos também.

Ana Paula em maio 29, 2009 12:28 AM


#139

cheguei agora à noite e a coisa bem que rodou, e vez ou outra acabou voltando ao sexo.
Mas enfim. Aprendi muito sobre literatura aqui, com um debate de altíssima qualidade, sobre um conto absolutamente fantástico.
Obrigado Idelber pela oportunidade. Segunda feira quero estar lá no Teatro Cidade (que é em baixo de onde trabalho, inclusive). Quem sabe nos topamos!

Leonardo em maio 29, 2009 12:55 AM


#140

Olá Idelber,

Parabéns pela escolha. Eu não conhecia este conto e vezenquando leio alguma coisa do Caio. Já li dois livros: Pedras de Calcutá e Morangos Mofados. Gostei da tua leitura do conto, a justaposição de duas histórias que se interpenetram.

Acrescento duas observações que não sei se já foram comentadas acima ( 136 comentário é demais para ler...).

A primeira refere-se ao caso da segunda história interna sugerida por você, a que diz respeito a repartição. Ali, há uma bela "solução" encontrada pelo autor: as vozes femininas. Elas me remeteram aos coros do teatro grego, funcionando como comentadoras, como um inconsciente coletivo reflexo de uma moral que julga e nomeia os sentimentos.

A segunda diz respeito propriamente ao estilo criativo do Caio, seu trabalho de linguagem. Além do enredo, acredito, que o trato das palavras é fundamental para fruição de qualquer obra. Neste quesito, Caio é maestro. Basta observarmos o emprego de gradaçãoes (o caminho do ápice)e o ritmo que ora flui, ora retem os significados ocultos da história. Não copiei nenhuma passagem do conto para ilustrar o comentário (tenho receio de ir para ´página do conto e perder este comentário),o farei oportunamente.
Por último, te convido a visitar meu modesto espaço e viajar um pouco pelos meus posts literários.

Um abraço Cordial

Flavio Corrêa de Mello em maio 29, 2009 1:00 AM


#141

Olá Idelber e amigos!

Foi o primeiro texto que li do Caio, e já virei fã. Obrigado por tê-lo me apresentado. :)

Nada mais a acrescentar à sua análise, nem aos elogios ao autor, que é realmente um artista.

Ao fim do texto, no som aqui de casa começou a tocar uma música do Nenhum de Nós. Balançado pela melodia e o lindíssimo desfecho do conto, vi meus olhos se encherem d'água.

"Amanhã ou depois, tanto faz se depois
For nunca mais... nunca mais

Deixamos de sentir o que a gente sentia
Que trazia cor ao nosso dia a dia
Deixamos de dizer o que a gente dizia
Deixamos de levar em conta a alegria
Deixamos escapar por entre nossos dedos
A chance de manter unidas as nossas vidas"

Aqueles dois, afinal, assim imagino, destoaram da harmonia imposta pela sociedade e cantaram calados e juntos sua própria melodia.

Grande abraço, e parabéns pelo blog e pelo trabalho, de imenso valor.

Thiago em maio 29, 2009 1:27 AM


#142

CASCA
by Ramiro Conceição


O Amor
é casca
do fruto
que quer
viver.

Ramiro Conceição em maio 29, 2009 1:47 AM


#143

Para além da ficção de Caio F., duas notas que li na realidade que me cerca (Folhaonline) em 2009:

1) Danilo Gentili, do "CQC", fez perguntas picantes, ontem, ao deputado Sérgio Moraes [cuja célebre frase foi dizer que está lixando para a opinião pública]. "Eu perguntei sobre ele defender Edmar Moreira, sobre ele ser acusado de ser dono de prostíbulo no Sul e sobre ligar para telessexo com dinheiro público", disse Gentili à coluna. Segundo o repórter, o deputado respondeu: "Você é um veado. Eu vi você comendo veado". O diálogo vai ao ar segunda, no "CQC", da Band.

2) Gilberto Braga se abriu em entrevista à edição de junho da revista "Junior", que chega às bancas no dia 5. "Ator gay com potencialidade de galã tem mais é que ficar discreto. Se a mulher souber que é gay, a 'passarinha' vai deixar de cantar", disse o autor da Globo, homossexual assumido.

Dá-lhe repartição!

Fábio Carvalho em maio 29, 2009 2:09 AM


#144

Uau, Ana Paula, obrigado por escrever. Lido com gratíssima atenção :-) É bom o Caio, né?

Idelber em maio 29, 2009 2:22 AM


#145

Eu disse que o conto se afasta de um registro realista e se aproxima de uma fábula, com um final que pode ser considerado – minha observação não contém nenhuma censura – moralista. Uma passagem, no início, instaura sutilmente essa atmosfera: “Tentaram afastar-se quase imediatamente, deliberando limitarem-se a um cotidiano oi, tudo bem ou no máximo, às sextas, um cordial bom-fim-de-semana-então. Mas desde o princípio alguma coisa – fados, astros, sinas, quem saberá? – conspirava contra (ou a favor, por que não?) aqueles dois”. A aproximação de Raul e Saul estava, portanto, de alguma forma, determinada, independentemente da vontade dos dois. E o narrador conclui: “que mais restava àqueles dois senão, pouco a pouco, se aproximarem, se conhecerem, se misturarem? Pois foi o que aconteceu. Mas tão lentamente que eles mesmos mal perceberam”.

Mais adiante, o narrador afirma: “Sem terem exatamente consciência disso, quando juntos os dois aprumavam ainda mais o porte e, por assim dizer, quase cintilavam, o bonito de dentro de um estimulando o bonito de fora do outro e vice-versa. Como se houvesse, entre aqueles dois, uma estranha e secreta harmonia”. Pela utilização da expressão “estranha e secreta harmonia”, o narrador indica que a relação entre eles não podia ser de todo compreendida, porque existia algo não acessível ao olhar, secreto até mesmo para ele, narrador. Algo tão forte que fazia com que eles, juntos, quase cintilassem. Algo inefável, mágico. (E desde o início, sabemos também que eles são diferentes, especiais.)

Nos trechos que retirei, há mais um aspecto que quero ressaltar: a ingenuidade de Raul e Saul: “Mas tão lentamente que eles mesmos mal perceberam”, “Sem terem exatamente consciência disso”. Essa ingenuidade fica muito evidente em outras passagens: “... não
tinham preparo algum para dar nome às emoções, nem mesmo para tentar entendê-las”, “... chegaram juntos à repartição [...]. Nesse dia as moças não falaram com eles. Os funcionários barrigudos e desalentados trocaram alguns olhares que os dois não saberiam compreender, se percebessem”. A ingenuidade – que se contrapõe claramente à maledicência dos colegas de repartição, que vêem algo que Raul e Saul não vêem – reforça assim o tom fabular, que se completa com o edifício parecido com uma clínica psiquiátrica ou uma penitenciária, um lugar feio e pavoroso como um castelo mal-assombrado.

Há outra dimensão em que a ingenuidade das personagens pode ser explorada. A questão sobre a sexualidade dos dois não me parece irrelevante. Não pretendo defender que os dois fossem homossexuais. Com efeito, o narrador em nenhum momento afirma que os dois fossem gays e informa que um tinha sido casado e o outro, noivo. Não obstante, ambos estão cercados por uma miríade de signos de uma identidade gay: “The children’s hour”, de Wyler, Visconti, Jane Fonda, Dalva de Oliveira. Talvez resida nisto a diferença, aquilo que os torna especiais: certa sensibilidade que os tornava homens heterossexuais que não estavam em conformidade com a conduta masculina heterossexual normativa.

Raul e Saul se aproximaram, mas não conseguiram entender muito bem o que estava acontecendo entre eles. Eram ingênuos, e o eram porque não estavam preparados para aquilo, porque não tinham sido preparados para aquilo. Tinham sido educados para ser homens heterossexuais e não compreendiam o que se passava. Que havia desejo – não apenas um amor fraternal – entre eles fica óbvio no trecho sobre a noite de ano novo, em que Saul dormiu no apartamento de Raul: “Na hora de deitar, trocando a roupa no banheiro, muito bêbado, Saul falou que ia dormir nu. Raul olhou para ele e disse você tem um corpo bonito. Você também, disse Saul, e baixou os olhos. Deitaram ambos nus, um na cama atrás do guarda-roupa, outro no sofá. Quase a noite inteira, um podia ver a brasa acesa do cigarro do outro, furando o escuro feito um demônio de olhos incendiados”. Amizade e desejo. O conto aborda, além dos temas da solidão e do amor, as fronteiras tênues entre amizade e desejo. Trata-se de uma experiência que pode ocorrer com um homem e uma mulher, dois homens, duas mulheres. Muitas vezes, é uma experiência em si difícil, porque separamos amizade e desejo como campos opostos, irreconciliáveis. No conto, temos dois homens heterossexuais cuja amizade vai se encaminhando para o desejo. Há uma dupla interdição, portanto: a interdição à transformação da amizade em desejo e a interdição a toda e qualquer forma de desejo entre um homem heterossexual e outro. (Entre um homem heterossexual e um homem gay ou bissexual, o desejo pode ocorrer, se respeitadas determinadas regras que estabelecem papéis estritos para cada um.) Se não houve intercurso carnal entre Raul e Saul, isso não significa que não tenha havido nenhum tipo de intercurso. Exatamente no final da primeira parte, uma espécie de apresentação, o narrador pergunta: “... que mais restava àqueles dois senão, pouco a pouco, se aproximarem, se conhecerem, se misturarem?”. Os próprios nomes das personagens não são uma alegoria das muitas semelhanças que os aproximam? Não evocam a troca, a confusão? Assim, o relato que se segue é a história da aproximação, do conhecimento recíproco e da mistura entre eles, simbolizada pelo momento em que Raul presenteia Saul com o sabiá e Saul presenteia Raul com a reprodução de Van Gogh. Cada um oferece ao outro não um mero presente, mas uma parte preciosa de si.

O conto, do início dos anos 80, explora uma experiência que se tornou mais corrente hoje, passados quase trinta anos. A orientação sexual, que estou entendendo como a orientação do desejo, tornou-se instável, imprecisa. O desejo de Raul e o desejo de Saul se desestabilizam, movem-se em direções imprevistas, desconhecidas. Conquanto não cheguem a atravessar a fronteira, aproximam-se bastante dos seus limites.

Agrada-me o final. Muito. Permite a cada leitor imaginar o destino que quiser para aqueles dois. Gosto de imaginar que Raul e Saul permaneceram juntos e, talvez, tenham conseguido entender suas emoções. Eu disse que aquilo que os distinguia podia ser uma sensibilidade diferente. Reforço isso. Seria essa sensibilidade que teria permitido que eles (se) amassem. Eles eram especiais porque ousaram amar.

Fabiano em maio 29, 2009 4:18 AM


#146

Caro Idelber,

Muito bom poder participar deste Clube de Leituras. É a minha primeira vez e espero que haja outras oportunidades.

Não pude (ainda) ler todos os comentários e, por isso, desculpe-me caso eu repita coisas que já tenha sido ditas.

Algo que me chamou a atenção foi o personagem Saul, que me parece a personificação de alguém que tenta sair de um incômodo limbo onde inexiste uma identidade clara para si mesmo, rumo a alguém que tem uma auto-referência clara de si próprio. O fato de Saul desenhar “só rostos, com enormes olhos sem íris nem pupilas” é significativo, assim como a maneira como ele enxerga a tela de Van Gogh e sua “impressão de que o quadro era um espelho refletindo, quase fotograficamente, o próprio quarto, ausente apenas ele mesmo”. O narrador completa: era nessas horas que Saul desenhava.

Nesse contexto, percebo um simbolismo no fato de Saul ter presenteado Raul com o quadro de Van Gogh: era um reconhecimento, inconsciente, de que era naquele amor-amizade que ele se encontrava e se reconhecia, tornando-se um homem com identidade. Coisas que o amor faz com a gente...

Abraço e, mais uma vez, obrigado,

Lelec

Lelec em maio 29, 2009 7:17 AM


#147

Ufa...finalmente terminei de ler os comentários. Valeu cada linha. Como disse um comentarista, é um verdadeiro curso! Agradeço a vc, Idelber, por ter me apresentado esse autor fantástico, através de um conto sensacional, onde cada palavra tem grande importância na interpretação dos acontecimentos. E obrigado aos comentaristas, que dão um show. Confesso que não seria capaz de exprimir em palavras o que o conto me proporcionou, coisa que vocês conseguiram nesse espaço. Fantástico! Abraços a todos.

sidneig em maio 29, 2009 12:23 PM


#148

Idelber,
Ontem não pude participar...Mas deixando a minha humilde contribuição, apesar que depois de todos esses comentários, acredito que eu não posso mais acrescentar muita coisa.

O conto é de uma simplicidade e profundidade que eu nunca imaginaria existir. De um jeito simples, o autor consegue incutir idéias e sentimentos.

Alguns pontos achei relevante...a relação de Raul e Saul, quase platônica, e os próprios nomes. Como alguém comentou anteriormente, a diferença de apenas uma letra, faz com que várias vezes, os personagens acabem por se fundir em um só.

E outro comentário interessante é o fato de as duas únicas almas existentes na repartição, acabaram por sair de lá.

O fato do relacionamento (ou não) velado entre os dois protagonistas, parece ser a causa do mal estar no trabalho. Pelo fato de ambos virem de relacionamentos heterossexuais, parece amedrontar os companheiros de trabalho, por notar que o homosexualismo está mais próximo do que muitos imaginam.

Outro problema desencadeado pode ter sido a rejeição dos dois personagens boa pinta em relação às mulheres da repartição.

Leo Lagden em maio 29, 2009 3:53 PM


#149

ler um conto destes e depois uma caixa de comentários destas fez meu dia.

obrigado a todos!

Radical Livre em maio 29, 2009 6:33 PM


#150

Não adianta, nada vai me curar do espírito de porco. Então aqui vai a perguntinha singela: como é que alguém pode ser despedido da repartição (pública, eu suponho). E a estabilidade?

F. Arranhaponte em maio 29, 2009 7:44 PM


#151

hahaha, esse é o meu querido Arranhaponte! O comentário não é de espírito de porco de jeito nenhum :-) Se há algo no conto que atenta contra sua verossimilhança, então isso tem que ser parte da análise também. Needless to say, eu nem tinha pensado nisso.

OK, estou saindo com os filhotes, mas já que você levantou a lebre, para confirmar sua hipótese de que há uma agressão à verossimilhança, você teria que ver:

1. Se há no conto algo que estabeleça cabalmente que era público, e não particular (a palavra "repartição" indica necessariamente domínio público? Na minha cabeça sim, mas seria o caso de confirmar).

2. O conto é de 1982. Teria que se ver se essa estabilidade existia então, nos termos de hoje (ela é regulada pela CLT, correto?).

3. Se não há (ou não havia), alguma cláusula que criasse uma exceção na estabilidade por motivos, por exemplo, de "atentado ao pudor".

Se essas três perguntas forem respondidas na direção que confirma sua hipótese, você acaba de realizar a proeza de, depois de 150 comentários, dar uma voadora certeira na verossimilhança do conto -- reiterando mais uma vez que este supostamente tão douto professor de literatura continuará recebendo lições constantes de humildade na internet.

Idelber em maio 29, 2009 7:58 PM


#152

Caro, o Matamoros, que viu meu comentário, observou que ele também usa "firma" - além de repartição, é claro. Mas eles passaram por concurso, o que é muitíssimo mais típico do setor público. Enfim... curta aí o passeio com os filhos, abração

F. Arranhaponte em maio 29, 2009 8:03 PM


#153

Arranha, é chute:

será que homossexualismo não era na época justificativa suficiente para exonerar alguém do serviço público? embora, claro, não ache que isto faça o conto melhor ou pior...

tatuagem, por exemplo, não podia nesta época (tinha discussões na praia sobre onde colocar a tatuagem de forma a não diminuir suas chances de entrar para carreira pública)...

Radical Livre em maio 29, 2009 9:04 PM


#154

Eu não sei. Acho que não, ainda mais alguma coisa impossível de provar. Mas, de fato, não tenho nenhuma certeza. A sério, quando li, na hora, achei um pouco inverossimilhante - digo, a demissão. Não dei muita bola porque tendi, como alguns outros que comentaram aqui, a ver um tom de fábula no conto. Embora, talvez, o fato de, para mim, ter ficado um pouco num terreno entre a fábula e o mundo real tenha provocado alguma sensação de artificialidade, de algo um pouco forçado, especialmente o final

F. Arranhaponte em maio 29, 2009 9:23 PM


#155

Quanto ao comentário sobre a estabilidade no emprego dos personagens, vale lembrar que esta apenas existia para funcionários públicos depois de dois anos de trabalho (hoje em dia são três), segundo a Constituição vigente à época em que o conto foi escrito, e eles não completaram o primeiro ano, se não me engano existe uma cronologia no conto, as estações do ano, os meses, e eles iam tirar férias antes de serem demitidos, ou seja, completariam ainda um ano de trabalho. Não caberia, portanto, a estabilidade. Mas, caso fossem mesmo funcionários públicos, o que não creio, seria necessário um processo administrativo com direito à defesa e ao contraditório, o que não é mencionado. Quanto ao concurso, eles existem também em empresas públicas (regidas pela CLT, Caixa Econômica Federal, por exemplo, e nunca implicaram nem implicam em estabilidade) e em empresas privadas, apenas, nestas últimas, não são - os concursos - obrigatórios por lei. Se eram funcionários públicos, não sei, mas à estabilidade, pelo visto, eles não tinham direito.

José em maio 29, 2009 9:26 PM


#156

Início do terceiro parágrafo:

"Passaram no mesmo concurso para a mesma firma".

Pela uso da palavra firma, parece-me evidente que eles trabalhavam em uma instituição privada, não no serviço público. E suponho que ninguém dirá que instituições privadas não realizam concursos para selecionar empregados.

E se hoje ainda ocorrem casos de demissões por discriminação - de gênero, etnia, cor, aparência, orientação sexual etc. - imaginem como não era a situação no início dos anos 80, quando o país ainda estava sob regime militar...


Respondendo sua pergunta, Idelber, a estabilidade dos servidores públicos civis está prevista no § 4º, art. 41 da Constituição, onde se determina que, para adquiri-la, o servidor deve ser submetido a uma avaliação especial de desempenho por comissão instituída para essa finalidade. Na esfera da União, o regime jurídico dos servidores públicos civis é regulamentado pela Lei n. 8.112. Essa lei rege os servidores da administração direta e da administração indireta autárquica e fundacional da União. As empresas públicas e as sociedades de economia mista - que também integram a administração indireta e são pessoas jurídicas de direito privado - não possuem servidores, mas empregados públicos, que são regidos pela CLT. Estes podem ser demitidos, sem justa causa, a qualquer momento, de acordo com os interesses da empresa pública ou da sociedade de economia mista em que trabalhem. Não possuem, portanto, estabilidade, que é um privilégio exclusivo de servidores.

Cada esfera da federação possui um regime jurídico próprio para os seus servidores. O da União, como dito, é a Lei n. 8.112, que prevê que o servidor (da União) somente adquirirá estabilidade no serviço público após três anos de efetivo exercício em um cargo. Um único exemplo sobre como funciona essa estabilidade: cada cargo possui um período de estágio probatório, que, na União, é de 36 meses; suponhamos que um servidor do Ministério da Fazenda (Executivo) seja aprovado em um concurso para o Tribunal de Contas da União (Legislativo), mas seja reprovado no estágio próbatório desse segundo cargo; esse servidor, após ser exonerado do seu cargo no TCU, retornará para seu antigo cargo no Ministério da Fazenda, porque ele havia adquirido a estabilidade antes de tomar posse no cargo do TCU; se não tivesse estabilidade e fosse reprovado no estágio probatório do TCU, estaria na rua, com uma mão na frente e outra atrás.

A estabilidade, contudo, não é absoluta, hoje. Em regra, um servidor estável só pode ser demitido - demissão é uma forma de punição - após um processo administrativo disciplinar ou por sentença judicial. Há uma situação, porém, em que a Administração pode exonerar servidores, ou seja, dispensá-los sem justa causa, mas agora não me lembro qual é. Fico devendo.

Fabiano em maio 29, 2009 9:32 PM


#157

José, não entedi seu segundo ponto. Ser "mesmo funcionário público" significa já ser por mais de dois anos? Se for isso, resolve o problema. Eles ainda não eram, e portanto poderiam ser demitidos sem o processo administrativo com direito à defesa e ao contraditório. Quer dizer, poderiam ser demitidos por um ato arbitrário do chefe. E aí resolve o problema e o CFA foi preciso e há verossimilhança (pelo menos do ponto de vista legal). Abraço

F. Arranhaponte em maio 29, 2009 9:33 PM


#158

Bem, já que fui eu que inaugurei aqui o exercício de buscar pelo em casca de ovo, acho que o uso de "firma" e "repartição" é um pouquinho (bem pouquinho) de desleixo, ou distração, porque repartição, que eu saiba, tem um claro sentido de serviço público. Vai ver é diferente dependendo da região do País (talvez no Sul possa ser diferente?). No Rio, onde moro, repartição é sinônimo de trabalho público, que dizer, do espaço de trabalho e por extensão do trabalho. No Houaiss, a definição não fala em serviço especificamente público:

2 divisão ou serviço de organização ou estabelecimento que se destina a atender serviços comunitários; seção
3lugar em que funciona essa divisão; escritório

Mas eu sou meio inimigo das definições dos dicionários brasileiros. Acho que frequentemente não vão ao ponto de como a língua é de fato usada.

Pqp, Arranhaponte, vai ser chato assim na mansão de carvalho

F. Arranhaponte em maio 29, 2009 9:42 PM


#159

Uma pessoa se torna servidor público - não é funcionário público, que é um conceito genérico, usado no direito penal e apenas no direito penal, abrangendo qualquer tipo de função pública, por concurso, por indicação, por eleição etc. - uma pessoa se torna servidor público no momento em que, após a nomeação, toma posse em um cargo público. Essa nomeação pode resultar de um concurso, situação em que o servidor será de tipo efetivo, ou de uma indicação, situação em que o servidor será de tipo comissionado. O servidor ocupante de cargo em comissão pode ser livremente nomeado - desde que obedecidos os requisitos do cargo - e livremente exonerado: jamais adquire estabilidade.

Fabiano em maio 29, 2009 9:53 PM


#160

PS: Nós ainda estamos falando de literatura e do Caio?

Fabiano em maio 29, 2009 9:54 PM


#161

Tentando voltar um pouco ao texto. Eu escrevi que para mim a história se passa num lugar e num tempo indefinidos. Embora em determinado momento, próximo ao final, o narrador fale que Raul e Saul planejavam viajar juntos, para Parati, Ouro Preto ou Porto Seguro, em nenhum momento a cidade onde transcorre a ação é nomeada, permanece sempre como "a cidade". Por que devemos supor, então, que eles estavam no Brasil? Não poderiam estar em uma cidade do Uruguai, da Argentina, do Chile etc.?

Fabiano em maio 29, 2009 10:13 PM


#162

Fabiano, eu próprio fui o primeiro a admitir que era picuinha...mas acho que indiretamente essa bobagem toca num ponto que tem a ver com literatura. Que é a questão de até que ponto o conto é uma fábula, e se, nesse caso, pode (ou não) prescindir da verossimilhança no sentido mais estrito. Eu senti um pouco assim, como fábula, até empurrado pelas indefinições - uma cidade qualquer, um vem do Norte, outro do Sul- e pela simetria meio, digamos, mágica (não que eu goste desta palavra) entre os dois. No entanto, é uma fábula que tenta ser (e em grande parte é) perfeitamente casada com a realidade, isto é, nada do tipo "era uma vez num reino distante dois lindos rapazes que...". Acho que este casamento de fábula e realidade dá força ao conto, que parece ao mesmo tempo muito natural e muito emblemático. Neste sentido, a cena final, da demissão, é meio chave. Porque ela pode ter quebrado (ou não) a química sutil entre a fábula e a realidade. Quando eu li, eu dei uma travada ali, e agora me pergunto se, ao tentar o gran finale mais forte mencionado pelo João Vergílio, ele não tenha, na verdade, desafinado. Enfim, estou chutando para tudo que é lado. Eu li apenas uma vez, e rápido. Mas o Idelber avisou que aqui os amadores não deveriam se preocupar muito por não ser profissionais. Então...

F. Arranhaponte em maio 29, 2009 10:24 PM


#163

Bem, Arranhaponte, depois que escrevi meu último comentário fui tomado por uma dúvida. Espero que você não se aborreça com o que vou escrever. De todo modo, não sou um profundo conhecedor de teoria literária. Se eu estiver enganado, peço a alguém que me corrija. Seguinte: verossimilhança e inverossimilhança são auferidas no texto, não em um confronto do texto com a realidade. Se os elementos que compõem um universo ficcional se relacionam de uma maneira tal que produzem, no espírito do leitor, a percepção de que ali, naquele universo ficcional, tudo aquilo é possível e tudo aquilo faz sentido, então temos verossimilhança. Quando ao menos um elemento ou a relação entre dois elementos não consegue produzir um efeito de convencimento, então temos uma situação de inverossimilhança – o que não significa necessariamente que todo o universo ficcional em questão seja inverossímil. Um exemplo idiota de tão banal: criticar como inverossímeis as histórias do Super-Homem ou da Mulher-Maravilha, argumentando que não existem, no mundo real, seres humanos que, como os dois, sejam capazes de voar ou possuam super-força, é incorrer em uma utilização incorreta do conceito de verossimilhança. Inverossímil seria, por exemplo, uma história em que ele ou ela não conseguisse, sem nenhuma explicação, erguer um objeto que ambos são capazes de erguer. Uma situação assim seria incompreensível e não faria sentido para o leitor. Por que estou dizendo isso? Por que me parece que você está discutindo verossimilhança e inverossimilhança confrontando o texto com a realidade. (Se o que eu disse acima estiver correto, podemos não saber nem mesmo em que país Raul e Saul estão.) Pois bem, a pergunta que lhe faço é a seguinte, Arranhaponte: onde, no texto, e apenas no texto, está a contradição, logo a inverossimilhança, entre firma e repartição, entre concurso e demissão?

Fabiano em maio 29, 2009 10:55 PM


#164

Fabiano, eu entrei quase de brincadeira e agora já estou comentando quase a sério. Deixa eu pensar um pouco, e ver também se (e, nesse caso, o que) os outros tem (algo) a dizer. Mas você tem um ponto, sem dúvida. Abração

F. Arranhaponte em maio 29, 2009 11:33 PM


#165

Olha, não dá nem para descrever a minha alegria com esta caixa de comentários. O conto do Caio era uma minúscula parte do projeto que tenho de escrever um livro sobre masculinidade na ficção brasileira e na ficção argentina. Eis que depois de 48 horas debatendo o texto com os leitores, eu tenho material para escrever um livro de 300 páginas só sobre esse conto do Caio.

Sobre a verossimilhança: o Fabiano tem toda a razão de que se trata de um conceito interno ao texto. Mas o Arranhaponte tem toda a razão de cavucar esses detalhes, porque o conto, apesar de um certo tom de fábula, em nenhum momento estabelece um pacto de verossimilhança que fuja às expectativas realistas.

Explico-me: numa fábula de Esopo, por exemplo, não há nada "inverossímil" em que um burro ou um leão fale, chore, etc. Por quê? Porque o texto já de cara estabelece com você aquele pacto de verossimilhança. Aqui, neste espaço do relato, é verossímil que o burro e o leão falem. E leitor nenhum deixa de aceitar isso, porque a aceitação é um pressuposto para você começar a ler o texto.

Já, por exemplo, num romance de Flaubert ou Machado de Assis, se um personagem começasse a voar, você diria que porra é essa?, e a não ser que esse ato de voar fosse explicado mais tarde -- fosse reinstalado dentro de um pacto de verossimilhança --, o texto perderia força. É a sensação que temos naqueles filmes em que um deus ex machina aparece no final e resolve tudo. Saímos insatisfeitos, com toda a razão. O filme propõe um pacto e depois trapaceia, demonstrando ter sido incapaz de desatar os nós que o próprio filme havia criado.

O que é, por exemplo, um texto do realismo mágico? O realismo mágico não é senão um relato em que acontece um choque entre dois pactos distintos de verossimilhança. Há um grupo de personagens (em geral da cultura dominante, urbana) que funcionam dentro de um pacto realista. Há outro (em geral da cultura dominada, indígena ou, pelo menos, quase sempre rural) em que coisas "mágicas" acontecem. Humanos voam, há invasões de exércitos de formigas, etc. Cem anos de solidão é o grande exemplo . Realismo mágico não tem nada a ver com "descobrir a magia na realidade", como alguns críticos bobos disseram por aí. Realismo mágico é a expressão literária de um choque entre culturas no qual uma deles (a dominada) só pode ser entendida pela outra (a dominante) como algo demoníaco, inexplicável.

OK, vamos ao conto do Caio: não há ali nenhum choque de pactos distintos de verossimilhança. Apesar do tom meio fabular, tudo está num registro realista. E é por isso que a pergunta do Arranhaponte faz sentido. Há oito ocorrências do termo "repartição" e cinco ocorrências do termo "firma". Isso é um deslize? Parece-me que sim, a não ser que exista, no Sul do Brasil, algum uso desses dois termos que aceite uma interseção entre eles. Na minha cabeça, pelo menos, não há. Na minha cabeça, "repartição" é público e "firma" é privado. Mas eu manejo o dialeto mineiro da língua portuguesa e moro fora do Brasil há 20 anos. Se eu estiver errado, me corrijam.

Então, essa questão é, sim, importante. Eu resumo o imbróglio em 2 perguntas:

1. Está ou não está cabalmente claro no conto que se trata de serviço público?

2. Se a pergunta 1 for respondida na afirmativa, impõe-se outra: Em 1982, um funcionário com menos de um ano de serviço podia ou não podia ser despedido por, digamos, "atentado ao pudor"? Entendo toda a brilhante explicação do Fabiano (obrigado, Fabiano), mas ela se aplica a funcionários com menos de um ano de serviço? Ou está correto o José quando afirma que na época essa estabilidade só se aplicava a quem tinha mais de dois anos de trabalho?

Essas questões são importantes, sim. São parte do pacto de verossimilhança.

Nossa! Se algum grupo de leitores já usou a internet para mergulhar tão fundo num conto, me mostrem que quero ver.

Idelber em maio 29, 2009 11:43 PM


#166

Uau! Literatura também é cultura internética!
Voltando dos afazeres akadêmicos, encontro isso tudo. Li penso que a coisa compõe um todo - em partes, como convém aos novos (velhos) tempos.
Caio Fernando Abreu merece essa homenagem viva.
Lembro-me de um livreto, em off-set, bem punk, quase mimeógrafo, bem "literatura marginal", que me caiu às mãos adolescentes em algum momento dos anos 70. Lá estava um conto do cara. Pouco tempo depois, sua foto estava na capa da revista Escrita, se bem me recordo, com a manchete: "Sou o Ney Matogrosso da literatura". E ele era pouco conhecido.
Hoje, confirma-se que o Caio é pop.

Jair Fonseca em maio 30, 2009 12:41 AM


#167

Bem, evidentemente, toda a minha explicação sobre a questão da estabilidade refere-se à situação instituída após a Constituição de 1988. Vou retomar parte do que o José disse. Antes de a Lei n. 8.112/90 ser sancionada, o regime jurídico dos funcionários públicos civis da União era a Lei n. 1.711/52. (A lei anterior adotava o termo funcionário, enquanto a nova utiliza o termo servidor.) De acordo com o artigo 82, inciso I, o funcionário nomeado em virtude de concurso adquiria estabilidade após dois anos de exercício. O art. 207, inciso III, estabelecia como um dos casos para a aplicação da penalidade de demissão a “incontinência pública e escandalosa, vício de jogos proibidos e embriaguez habitual”. Notem a diferença em relação à Lei n. 8.112, que prevê a aplicação da demissão por “incontinência pública e conduta escandalosa, na repartição” (art. 132, V). As conseqüências são óbvias: antes de 1990, um funcionário público podia ser objeto de um processo administrativo por uma conduta considerada incontinente e escandalosa que tivesse ocorrido quando ele não estivesse no exercício de suas funções. Mas o que era considerado incontinência? O jurista Contreiras de Carvalho assim a define: “A incontinência consiste na falta de abstenção de prazeres sensuais, ou melhor, na prática destes em termos imoderados, expondo quem os pratica, se de modo público e escandaloso, ao ridículo e à condenação da sociedade”. (Sinto um calafrio na espinha lendo um troço como esse). O trecho foi retirado da segunda edição da obra “Estatuto dos funcionários públicos interpretado”, de 1957 (p. 177). Alguém discorda que a conduta de Raul e Saul seria facilmente tipificada como incontinência pública?

O art. 482, ‘b’, da CLT, estabelece que “incontinência de conduta ou mau procedimento” são motivos para a rescisão do contrato de trabalho, por justa causa, pelo empregador. Esse trecho continua inalterado, passados sessenta e seis anos da sanção da lei. Nenhum adendo restringindo o alcance da norma ao local de trabalho. Não obstante, suponho que hoje somente um magistrado desarrazoado aplicaria esse dispositivo da lei interpretando-o de maneira a contemplar um espaço que não estivesse compreendido pelo âmbito estrito do local de trabalho. Caso a relação de trabalho de Raul e Saul fosse regida pela CLT, sua conduta também poderia ser tipificada como incontinente e eles poderiam ser demitidos por justa causa.

Nada do exposto acima resolve os problemas formulados, mas talvez nos ajude a dar mais alguns passos. Acho que consegui responder, ao menos em parte, a terceira pergunta que você fez no comentário 151, Idelber.

Se eles fossem funcionários públicos, somente poderiam ser demitidos após a realização de um processo administrativo, mesmo se ainda não tivessem adquirido a estabilidade. Porém... Lembremos que a administração pública era muito menos profissionalizada do que é atualmente. Se hoje o princípio da legalidade, que determina que o administrador deve agir em estrita observância à lei, é cotidiana e largamente inobservado, na década de 70 e no início dos anos 80, épocas prováveis da ação, a, digamos, desatenção a esse postulado era muito maior. E, reiterando o que disse em outro comentário, estávamos sob um regime de exceção. Somando tudo isso, acho bem possível que dois funcionários públicos fossem demitidos por incontinência pública e escandalosa, sem a realização de um processo administrativo. E quem, naqueles tempos, procurava a justiça alegando ter sido discriminado por ser homossexual ou por ter sido considerado homossexual?

Tenho duas hipóteses para a utilização das palavras firma e repartição, as quais na nossa realidade são, sem dúvida, contraditórias. A primeira foi aventada por alguém em um comentário anterior. (Está tarde e estou com sono, portanto, não vou procurar o autor, a quem peço desculpas por não citar devidamente.)

1: a firma em que Raul e Saul trabalhavam seria uma empresa pública ou uma sociedade de economia mista, entidades que também promoviam concursos para admitir pessoal; neste caso, eles seriam empregados celetistas e poderiam ser demitidos sem delongas, ou seja, sem um processo administrativo. (A maioria de nós não faz a mais vaga idéia das diferenças entre uma autarquia, uma fundação, uma empresa pública, uma sociedade de economia mista e uma entidade paraestatal, que, ao contrário das demais, não integra a administração indireta. Tenho 32 anos. Não sabia nada dessas diferenças há cerca de um ano e meio. Então, se, estrito senso, uma empresa não tem repartição, dada a confusão que fazemos entre as entidades da administração indireta, costumamos dizer erroneamente que uma empresa pública e uma sociedade de economia mista, que são firmas, possuem repartição. Tal repartição do Banco do Brasil, tal repartição da Petrobrás, tal repartição, pensemos em algo que existia naqueles tempos, da Telesp etc.)

2: o texto é marcado por uma série de imprecisões e omissões.Oito ocorrências de ‘repartição’ e cinco ocorrências de ‘firma’ não são um número alto para um deslize? Se a firma do texto for uma instituição privada, não seria possível que o emprego conjunto de firma e repartição seja um recurso a mais para aumentar a imprecisão, a ambigüidade, sobre a geografia dos espaços onde se desenrola a ação?

Sinceramente, se existe algo que me parece incoerente no texto é o fato de, perto do final, a narrativa referir as cidades de Parati, Ouro Preto e Porto Seguro. Até então não havia nenhuma, nenhuma menção a um lugar específico. Essa menção, justo no final, desequilibra a economia espacial do conto. De repente, o leitor – que imaginava a ação transcorrendo em uma cidade sem nome e sem localização, uma cidade para onde viam pessoas do norte, do sul, do leste e do oeste – é obrigado a associar a uma cidade imaginária cidades reais.

PS: Por gentileza, não pensem que sou bacharel ou estudante de direito. Nada mais distante de mim.

Fabiano em maio 30, 2009 3:16 AM


#168

O art. 207, inciso III, estabelecia como um dos casos para a aplicação da penalidade de demissão a “incontinência pública e escandalosa.

Perfeito, Fabiano. Está confirmada a verossimilhança da demissão.

E sua explicação para o "firma" e o "repartição" também me parece perfeita. Você tem razão: não tem sentido falar de deslize se são cinco ocorrências de um e oito do outro.

Idelber em maio 30, 2009 5:05 AM


#169

Não que o chefe, o autor da carta anônima e os demais integrantes da repartição não fossem capazes de alegar o artigo 207, inciso III, para justificar a demissão. Não duvido do manejo de regras dessa gente guardiã da moral.

Mas Raul e Saul não têm conduta pública escandalosa. No máximo, um vomitou durante uma festinha em que o outro tocou violão. Nessa oportunidade, eles foram embora em táxis separados!

No mais, meu pai (que era mineiro) fez concurso para uma empresa privada com filial no Rio. Eu me recordo de ele se referir aos amigos que trabalhavam na mesma "repartição". Nada a ver com serviço público brasileiro. Era um banco americano. Meu pai e esses amigos não trabalhavam com atendimento ao público. Houve uma época que seu local de trabalho era na agência mesmo, mas depois ele passou trabalhar em outro endereço. Estou seguro de já ter ouvido ele falar desses amigos mais próximos como "colegas da minha repartição" (nunca da "minha agência").

Fábio Carvalho em maio 30, 2009 9:58 AM


#170

Obrigadíssimo pelo depoimento, Fábio. Eu confesso que fiquei encafifado com o uso intercambiável desses dois termos no conto. Trata-se do tipo de situação em que não adianta ir ao dicionário. É melhor ouvir os falantes da língua mesmo.

Idelber em maio 30, 2009 10:02 AM


#171

Idelber!
Ainda sobre "firma" e "repartição", lembro que devemos situar o texto à sua época. Não sei em outros estados, mas aqui no RGS, até 1980 os Cartórios Judiciais (Toda a estrutura do Judiciário)eram privados. O escrivão prestava concurso e era funcionário público, os funcionários eram empregados do Escrivão pelo regime da CLT, alguns escrivães, faziam concursos, para selecionar funcionários, apesar de ele ser o "chefe" e ter o poder de contratar e demitir. Tenho a explicação do Fabio como a mais convincente e acho que no caso, ainda podemos considerar a licença poética...
Abraços!

paulovilmar em maio 30, 2009 12:00 PM


#172

Não concordo com o Fábio quando ele afirma que Raul e Saul não tinham conduta pública escandalosa. Afinal, era essa justamente a acusação feita pelos missisvistas anônimos: "comportamento doentio", prática de "desavergonhada aberração", "relação anormal e ostensiva" etc.

Agora, a explicação do Fábio para o uso de firma e repartição foi simplesmente irretocável! Acho que agora todas as dúvidas foram sanadas.

Fabiano em maio 30, 2009 1:59 PM


#173

Ô Fabiano, então você concorda com o pessoal da repartição? (provocação minha essa; eu não vi nada de escandaloso na conduta publicada, mas, em verdade, acho que a "Telma" narradora omitiu o que as duas "Telmas", bêbadas, fizeram naquela festinha e em outros momentos do conto)

Fábio Carvalho em maio 30, 2009 8:37 PM


#174

Provocação aceita, Fábio! No post, o Idelber observou com muita clareza que duas histórias são narradas em‘Aqueles dois’: “a história do afeto homoerótico entre Raul e Saul e a história do pânico homofóbico dos colegas”. Portanto, respondendo sua pergunta, Fábio, não importa se a seus olhos a conduta de Raul e Saul não parece escandalosa. A mim também não parece. Tampouco importa o meu olhar também. O que importa é o olhar dos colegas de repartição, o importante são os significados construídos por esses colegas. (Ou, para seguir o Idelber, o que importa é a dificuldade dos colegas de repartição para conseguir significar e compreender a conduta dos dois e a relação entre eles.) Quando emprestei meu exemplar de “Morangos mofados” a uma amiga, anos atrás, ela, que tinha adorado ‘Aqueles dois’, comentou justamente que enquanto Raul e Saul ainda não entendiam que afeto era aquele que os unia e não sabiam muito bem o que estava acontecendo entre eles, os outros, os colegas da repartição, já tinham construído um sentido para aquela relação e estavam convencidos de que sabiam muito bem o que se passava.

E, não, não considero que Raul e Saul fossem duas Telmas, ou seja, dois homossexuais enrustidíssimos. (O narrador também não é uma Telma.) Escrevi isso lá em cima: para mim, eles eram dois homens heterossexuais que se viram diante de um desejo desconhecido. Nesse texto – e em outros – Caio abordou a questão da instabilidade do desejo. O desejo não permanece parado, estabilizado, o desejo é nômade, se movimenta, ultrapassa as delimitações estabelecidas pelo sistema classificativo que utilizamos para tentar apreendê-lo e controlá-lo.

Fabiano em maio 30, 2009 10:47 PM


#175

Idelber, você escreveu que em algum lugar o Caio deve estar sorrindo. Pois bem, acho que ele está bom no meio de nós. Procurando uma informação qualquer pela rede, topei com uma citação extraída da peça "O homem e a mancha", da qual não me lembrava mais. As palavras não são do Caio, mas de um grande amigo dele, Vicente Pereira. O Caio, contudo, se apropriou delas e as fez suas, com o devido reconhecimento ao amigo:

"Sempre que mais de três pessoas estiverem reunidas em meu nome, eu estarei entre elas. Com um decote bem profundo..."

Fabiano em maio 30, 2009 10:55 PM


#176

Genial! E o comentário sobre o sorriso do Caio foi o número 100.

E, caramba, se três pessoas reunidas em nome dele já eram suficientes para um decote profundo, imagine os trajes aqui nesta caixa ...

Idelber em maio 30, 2009 11:09 PM


#177

Ah, e quase 100 comentários atrás eu queria dizer que essa análise do Cesar, defendendo uma tese na qual de início eu não acreditava, me convenceu completamente.

É tanta coisa que eu queria responder aqui, que é melhor eu nem tentar. Senão o blog fica uma semana sem post novo.

Idelber em maio 30, 2009 11:12 PM


#178

Fabiano,

Como eu não tenho que alimentar blog com novos posts, mas apenas me beneficio do trabalho alheio, vou alongando a caixa de comentários. Eu não sei negritar aqui, então maiúscula não é grito, mas grifo.

Concordamos que não importa o que eu e você achamos da conduta de Raul e Saul. A minha provocação foi pela frase "não concordo com o Fábio quando ele afirma que Raul e Saul não tinham conduta pública escandalosa". Eu quis forçar a barra de que VOCÊ teria reputado a conduta de ambos como escandalosa. Não foi isso que você disse. O pessoal da repartição, conforme consta, assim julgou - e isso é o que importa. Concordamos integralmente aqui.

Não creio haver nenhum homossexual que caiba, sem restrições e acréscimos, dentro de um rótulo de Telma ou de Jacira. Essas são categorias descritas pelo próprio autor em outro conto. São caricaturas. E uma caricatura nunca é fiel à pessoa desenhada. A caricatura acentua os traços reais, pode (e deve) fazer de um nariz grande, sei lá, 80% de uma face, mesmo não sendo esse percentual correspondente à verdade se verificado com régua e compasso.

Aqueles Dois aparecem em nuances e complexidades. De fato, não são nada caricatos. Recorrer a uma caricatura que se pareça com ambos (no meu ponto de vista, é claro) não é uma redução grosseira, tampouco uma incompreensão do momento e da forma como aquele desejo surgiu entre eles. Raul e Saul, de fato, enrustiram um desejo que tiveram - e aqui eu sei que discordo de você.

Há muitas referências da Telma n'Aqueles Dois. Vou detalhar um trecho que só mencionei rapidamente em comentário anterior. No conto A Lenda das Jaciras, a Telma ataca depois que bebe e nunca se lembra de nada no DIA SEGUINTE. "Jane Fonda no filme THE MORNING AFTER perde", escreve Caio F. A seguir, trechos do parágrafo onde a Jane Fonda aparece n'Aqueles Dois:

"Aos domingos, agora, Saul sempre telefonava. E vinha. Almoçavam ou jantavam, BEBIAM, fumavam, falavam o tempo todo (...) Uma noite, porque chovia, Saul acabou dormindo no sofá. DIA SEGUINTE, chegaram juntos à repartição, cabelos molhados do chuveiro (...). Quando faltavam dez minutos para as seis, saíram juntos, altos e altivos, para assistir ao último filme de Jane Fonda".

(Foi, portanto, no dia seguinte à primeira noite que Saul dormiu na casa de Saul. Eles não poderiam ir de manhã ao cinema para ver The Morning After, porque seria inverossímil - afinal o cinema não abre pela manhã. Mas foram no dia seguinte, quando chegaram, pela manhã, juntos e de cabelos molhados. E foi exatamente nesse dia que começaram os olhares e as piadinhas na repartição, que ambos não compreenderiam, se percebessem.)

A homossexualidade é determinada pelo desejo e não pelo comportamento, penso que todos concordamos nesse ponto. O Cássio, lá em cima, falou da coisa meio adolescente, meio adulta vivida por Raul e Saul, dois heróis que acabam não transando. Mas ambos estão na casa de 30 anos. Há um descompasso entre a idade e essa coisa meio adolescente, meio "eu não sei o que está acontecendo".

O que pode explicar tanta "adolescência" e "ignorância" em dois homens adultos, com experiência heterossexual pretérita (e infeliz)? O enrustimento, a culpa, a vergonha. O que mais?

Essa Telma que se oculta em Raul e Saul tem, penso eu, imensa carga dramática. Até no fim. No momento da demissão, Saul não fala nada, baixa os olhos. Ao ouvir as acusações do chefe, Raul levanta-se, põe a mão sobre o ombro do amigo e consegue falar uma única palavra: nunca. Ele nega. Noves fora a caricatura da Telma, o fato é que Raul NEGA. E, segundo A Lenda das Jaciras, negará até a morte. Isso é muito, muito triste.

P.S.: Essa do decote profundíssimo é sensacional. Caio é Jacira (o basfond com a Rachel de Queiroz, o decote profundo), Telma (a bebida, o Ney Matogrosso na capa da revista), Irma (frágil) e Irene (descolada) ao mesmo tempo. Eu, aqui, pensei nele como o homossexual mais Leila Diniz do Brasil.

Fábio Carvalho em maio 31, 2009 3:26 AM


#179

Tinha pouco menos de 20 anos quando li Morangos mofados, e o Clube de Leituras do Biscoito, ao trazer de volta "Aqueles dois", com tantos incríveis comentários, proporcionou uma viagem que só posso agradecer.

Eu gostaria de comentar sobre um ponto específico. A discussão lá do início, sobre se Raul e Saul são ou não são gays, me lembrou uma entrevista que vi com o Caio, não sei mais onde, em que ele dizia não se considerar gay. Na época fiquei bastante contrariado com isso, e um tanto cinicamente fiquei pensando até que ponto o escritor libertário não havia sucumbido ao preconceito que combatia. Hoje eu acho que entendo melhor a declaração do Caio, e penso mais na desconfiança e no pudor da sua geração de se render a um rótulo. Imagino que o tamanho do horror de se ver engessado sob uma palavra era equivalente ao da crença no potencial libertador das coisas que são vividas antes (ou para além, ou a despeito) dos rótulos. Por isso acho que ao deixar deliberadamente de lado a informação sobre a "natureza exata" da relação francamente homoerótica (e minuciosamente mapeada) de Raul e Saul, Caio pretende que sejamos testemunhas desse antes de qualquer coisa, para que não percamos a força do surgimento do eros que, ao desafiar a caretice reinante, mostra todo seu poder revolucionário e libertador. Para o escritor que viveu seus 20 anos em 1968, esse é um tema certamente caro. Já era diferente no varejo, mas no atacado a mesma caretice dos anos 1960 ainda reinava no início daqueles anos 1980, e "revolução" e "liberdade" não eram ainda palavras gastas até a medula, fazendo com que a insurgência adolescente continuasse de certa forma atualizada no homem de 34 anos, e ecoasse com clareza nos seus leitores mais jovens. Dezessete anos mais novo que ele, e de uma geração que herdou diretamente o que foi conquistado pela sua, tudo isso fazia total sentido nos meus 20 anos: nessa época e com essa idade, não havia possibilidade de se pensar em relação homoerótica que não fosse necessariamente revolucionária e libertadora de todas as opressões.
O bonito comentário #4, da Janaína, sobre o qual o Idelber já chamou a atenção, é para mim particularmente verdadeiro: não só "Aqueles dois", mas a literatura toda do Caio foi fundamental para dar corpo, medida e humanidade para o que até então era um difuso e sofrido desencaixe, uma experiência de solidão aterradora. Por isso, tanto tempo depois, a história de Raul e Saul ainda aciona lembranças, sentimentos e crenças tremendamente poderosos. Não há como voltar ao conto sem, em alguma medida, voltar a ter 20 anos. Distanciamento crítico totalmente comprometido, que me faz curioso de saber a quantas anda a força e qual é o papel desse eros hoje.

Então pergunto: 27 longos e transformadores anos depois de escrito, como é que alguém que atualmente tenha 20 anos lê "Aqueles dois"? O que mais ficou datado, além da palavra "repartição" e das fichas telefônicas que Saul não tem para poder ligar para Raul?

Cleber em maio 31, 2009 12:46 PM


#180

Há uma adaptação desse conto feita para o Teatro. Muito interessante, pois mantem essa tensão dos dois funcionários que não se assumem gays, mas cuja falta de catalogação leva à demissão.
A peça é da cia Luna Lunera e já esteve em muitas partes do Brasil.
Abraço

Fabrício Muriana em junho 1, 2009 2:08 AM


#181

Fiz um comentário contra a aproximação entre Missa do Galo e o conto de Caio, mas tenho que reconhecer - só agora li - que o argumento do César #80 é interessante mesmo. Fiquei me sentindo um neo-formalista!

Victor da Rosa em junho 1, 2009 4:52 PM


#182

Bela escolha, belo tema.
E o OLiveira, da redação, diz que concorda contigo, Idelber, meu bom: Carlos Gardel, diz ele, era um gato.

sleo em junho 2, 2009 11:53 AM


#183

sou doutorando em literatura e estou trabalhando com 5 contos de caio fernando abreu, entre eles "aqueles dois"; longe de mim pensar que uma leitura acadêmica é coisa mais séria que a discussão que se faz aqui acerca dessa narrativa! há tanta caretice e, como disse haroldo de campos,tanta sisudez na universidade que, acabamos,muitas vezes passando ao largo de leituras imprescindíveis à fatura estética, como questões periféricas da própria estrutura de obra literária...
particularmente, acho um horror atribuir a caio a pecha de autor gay, atribuída principalmente, ao fato de quem nenhum outro autor tinha tratada com tanta delicadeza o tema do homoerotismo masculino no brasil, daí a apropriação pela "comunidade gay" do autor até pra realizar uma visão mais positiva do desejo e do amor entre homens gays...
o que quero falar do conto "aqueles dois" é que ele é matéria de minha tese e, gostaria, aqui, de saber, se posso me servir e abocanhar as muitas opiniões sobre o conto, embora eu não possa, natural e infelizmente dar os devidos créditos a cada opinião, mas apenas citar o site...
entre outras questões trabalhadas no conto, aproveito pra discutir a cidade (inominada) em "aqueles dois", as problemáticas homoeróticas como pano de fundo e a reverberação da cidade sobre os sujeitos e seus desejos...
é isso aí! evidentemente, não dá pra não discutir os intertextos fílmicos do conto e um certo vislumbre camp na citação de tanta referência musical...
vamos ver no que vai dar!
aproveitem pra opinar...
consultem meu blog (desatualizadíssimo devido à leitura de tanta obra teórica e a escrita da tese)...
beijo pra todos!
mariano

mariano em junho 2, 2009 12:22 PM


#184

Discordo (data vênia, datíssima vêbnia, como dizia o Marco Maciel, esse trotskista incompreendido) da Ana Maria, ainda que tenha adorado a interpretação dela. Sobre sabiá e Van Gogh, prefiro uma tese mais careta, das referências comummente associadas aos dois.

NO caso do holandês, o quadro citado é o mais emblemático da expectativa pela chegada do gauguin em Rles, onde Van Gogh pretendia criar uma comundiade art´pistica, a começar pelo amigo, enviado à cidade com grana do Theo Van Gogh, irmão e mecenas do torturado (e provavelmente homossexual enrustido) pintor. Um quadro que fala de dois, de ausência, de sonhos. E de amor masculino não (ou quem sabe) convertido em relação carnal.

No caso do passarinho (que parece mesmo um gato, fazem até carinho na cabeça dele), vejo uma refer~encia à imagem arquetípica do sabiá na literatura brasileira, o sabiá do Gonçalves Dias, que, na Canção do Exílio, gorgeava nas palmeiras como não se gorgeava alhures.

(pausa para elogios e auto-congratulações pelo alhures)

O sabiá é a imagem sonhada pelo exilado em busca da terra natal, da domesticidade, do lugar para onde quer voltar. O carinho na cabeça do sabiá, além da óbvia e freudiana metáfora fálica, é também um sinal de afeto e domesticidade.

Em breve te mando meu ensaio sobre o Waly Salomão, Idelber, com a pretensão de trazer uma contribuição a esse seu livro sobre imagens de masculinidade. Estou escrevendo o dito cujo, e acho que tem umas coisinhas de que voc~e vai gostar.

sleo em junho 2, 2009 12:32 PM


#185

Idelber, eu fico feliz em ver que passei uma semana longe da caixa de comentários e quando eu volto aqui já estás em mais de 180 comentários. Só para dar os parabéns pela iniciativa mesmo.

Cássio em junho 3, 2009 1:23 PM


#186

Gosto muito do conto, como de quase tudo que já li do Caio Fernando Abreu. Só queria dizer que pra sair do armário alguém "tem" que estar dentro do armário, o que não é o caso, nenhum dos dois estava no armário. Também não vejo nada de gay no conto, é um conto de encontro entre duas "almas" que se completam. Acidentalmente os dois são do mesmo sexo, mas isso é, como já disse, um acidente.
Idelber queria tbm dizer do privilégio que é poder ler seu blog.
Abraço

Fernando Gouvea em junho 4, 2009 4:25 PM


#187

parece-me que a discussão sobre se tratar de uma relação homoerótica não deixa dúvida! é muito interessante o que alguém aqui no blog já disse que a relação afetiva entre raul e saul é antes sabida pela repartição (ou firma?) do que por eles próprios, e esse fato é estruturante pra relação dos dois! fiquei pensando que não saber que nome dar ao sentimento entre os protagonistas se deve à história da construção do amor homoerótico, somente hoje, na contemporaneidade, ganhando lugar de relevância na agenda dos direitos civis! durante muito tempo muitos homens e mulheres não sabiam dar nome aos sentimentos afetivos pelas pessoas de mesmo sexo, não somente porque foram proibidas socialmente de exporem seus desejos e suas paixões, mas também porque era preciso inventar um novo discurso que não tivesse como matriz as relações patriarcais nas quais se fundam a heteronormatividade! então, ser gay e lésbica era novo pra os próprios sujeitos homoeróticos que não conseguiam dar um nome a essa demanda senão partindo da existência de relacionamentos já consagrados pela heterossexualidade institucionalizada! penso que a dificuldade de raul e saul em definirem o que sentem um pelo outro pode muito facilmente ser atribuído a uma espécie de recalque de não poderem viver e expressar livremente sua afetividade, uma vez que, convencionalmente, aprendemos as regras da convivialidade. porém, não acho que seja uma questão muito importante discuti se os dois sabem ou não sabem que o que sentem um pelo outro é da ordem da transgressão: a problemática maior é que eles sabem que socialmente o que sentem é visto com olhos de censura e gestos de sanção! a amizade de um com o outro assegura correrem o risco de inventar novas formas relacionais que não estejam previstas no repertório familiar e fraternal; trata-se de uma busca alternativa e uma forma de contestação ao "mundinho" ortodoxo da heterossexualidade. Eles resolvem politizar os sentimentos, e para isso é preciso inventar a própria vida e inaugurar outros nomes pros possíveis modos de relacionamentos.

mariano em junho 4, 2009 9:22 PM


#188

Li somente até a metade dos comentários postados até agora, por isso espero não sei se alguém comentou algo bem parecido o que direi a seguir.

Tive uma leitura do conto coerente com o que entendo do título. Aqueles dois tanto pode dar um ar de preconceito, como um ar de admiração pela relação de amizade e ou com amor que vai surgindo.

O preconceito estaria nas fofocas da repartição que começa a desconfiar da relação e os põe em suspeição, "aqueles dois...hum...sei não". A repartição reduz o olhar sobre eles à questão se ali haveria uma relação homossexual. Só que fofocas podem ser letais. Então, há o fato das cartas, vejam, anônimas (talvez não tenha havido um movimento corporativo orquestado contra eles), que poderiam ser de algum espírito de porco para fazer piada deles. Piada preconceituosa, claro. Porém sem consequência além disso.

Por outro lado, aqueles dois eram, ao mesmo tempo, o que havia de interessante ali, mesmo que somente para eles observarem, e então, isso explicaria o ai, ai do final do conto, quando todos correm pra janela para vê-los pela última vez e suspiram, "aqueles dois...ai, ai...". Suspiram ao começarem a perceber a infelicidade a que ficarão condenados eternamente, pois, apesar das piadinhas, estava indo embora, aqueles dois a que eles dedicaram a obervar nos últimos meses.

Edu em junho 6, 2009 1:25 AM


#189

O conto é muito interessante, o autor é muito bom, o blog é superlegal.
Adorei a história, tenho 9 anos e admirei muito o seu conteúdo, acho muito bom que nem todos tem o horrível hábito de preconceito.
Penso que a opção sexual de Raul e Saul, (oculta para os trabalhadores da repartição) não teria algo a ver com outras pessoas.
Estou gostando MUITO do seu blog, Idelber, espero que os próximos contos do Clube de Leituras sejam tão bons quanto esse.

Luana Lara em junho 9, 2009 2:07 AM


#190

Luana, você tem nove anos? Que maravilha, menina! Volte sempre ao blog! Minha filha Laura também tem nove :-)

Idelber em junho 9, 2009 2:16 AM


#191

Papis,

É a minha amiga Luana da Escola da Serra, eu mostrei o seu blog quando estava na casa dela e ela simplesmente ADOROU!
Ela gostou DEMAIS do conto do Caio Fernando Abreu!!

Laura Lemos em junho 9, 2009 12:45 PM


#192

Minha linda! Eu não sabia que era a Luana sua amiga. Sabe, esta foi uma das caixas de comentários mais legais da história do blog. Aí, para fechar com chave de ouro, aparecem você e a Luana! Te amo :-)

Idelber em junho 9, 2009 7:49 PM