Meu Perfil
Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.
Ataulfo Alves completaria hoje cem anos. Filho de sanfoneiro e repentista, nasceu na Zona da Mata em 02 de maio de 1909. Emblematicamente, foi o primeiro negro a entrar no clube chique da sua Miraí natal, numa homenagem feita já nos anos 60, duas décadas depois de sua consolidação como grande compositor do samba. Espero que a elite pensante do interior de Minas aproveite a data para refletir um pouco sobre sua história. Não é nem necessário dizer que, quando a homenagem foi feita, Ataulfo já era o filho mais famoso da história de Miraí.
A genialidade musical de Ataulfo é uma das pontes que une o samba amaxixado dos anos 20 ao que se convencionou chamar de samba “sincopado” ou “samba do Estácio” nos anos 30. Ele foi um dos primeiros a estabelecer um verdadeiro paradigma na cultura brasileira: a migração de mineiros ao Rio, onde eles invariavelmente se convertem em figuras nacionais. Aconteceu com Drummond, Ary Barroso, João Bosco, Milton Nascimento, Fernando Sabino, Clara Nunes, Hélio Pellegrino e muitos outros (eu já disse isso aqui: Minas-Rio e Nordeste-São Paulo são os dois fluxos migratórios sem os quais você não entende a cultura popular brasileira do século XX).
Com seu inconfundível arranjo de cordas, os Novos Baianos revisitam "Na cadência do samba":
Apesar de sintetizar a essência do samba carioca de seu tempo, Ataulfo manteria algo “mineiro” em sua música. Um jeitim, uma certa nostalgia e, inclusive, arrisco eu, uma certa forma de harmonizar.
A atleticana eterna, a maior de todas, fez uma releitura bluesy de "Na cadência do samba":
Pouca gente sabe disso, mas Ataulfo é componente fundamental da pré-história das escolas de samba. Foi diretor de harmonia do “Fale Quem Quiser”, em 1928, logo depois de chegar ao Rio. O “Fale Quem Quiser” foi um importante bloco ali no Rio Comprido.
A bonita voz de Ataulpho Alves Jr., cantando o pai:
A lista de clássicos é longa: Almirante gravou “Sexta-feira”. Logo depois, Carmen Miranda emplacou “Tempo perdido”. Em seguida, Floriano Belham gravou o primeiro sucesso de Ataulfo, “Saudade do meu barracão”. As mui famosas viriam depois. Ele foi co-campeão dos carnavais de 1940 e 1941, com “Oh, seu Oscar” e “O Bonde de São Januário”. Daí em diante, foi uma sucessão caýmmica de clássicos: “Ai, que saudades da Amélia” (com Mário Lago), “Mulata assanhada”, “Na cadência do samba”. Seu último grande sucesso foi “Laranja madura”.
Conexão alvi-negra New Orleans-Minas: Louis, JK e Ataulfo:
Há uma diferença importante a se estabelecer entre Ataulfo e outros negros de seu tempo que venceram o preconceito e as enormes barreiras. Ataulfo não era como Pixinguinha, que se impunha pela alucinante formação erudita. Era diferente de Zé Ketti, o negro militante e rebelde. Ataulfo era um mineiro conciliador. Embarcou na cooptação do regime Vargas, fazendo os bem-comportados versos O bonde São Januário / leva mais um operário / sou eu que vou trabalhar.
Discordo daqueles que querem relativizar o machismo de uma canção como “Ai que saudades da Amélia”. Honrar a memória de um artista não é cegar-se para aquilo que, na sua produção, merece críticas. Ataulfo não é diminuído por ter sido o cantor do operário obediente em “O Bonde São Januário” e do machista nostálgico das Amélias. Era um homem negro negociando uma posição incrivelmente complexa na cultura de seu tempo.
Ataulfo foi chave para a virada decisiva na carreira de Clara Imortal:
A minha canção favorita de Ataulfo sempre foi “Leva meu samba”. Com o perdão da cacofonia, há ali uma levada absolutamente única e genial, que traz as conquistas rítmicas do samba do Estácio a um crescendo que, pelo menos para mim, é absolutamente contagiante. Das regravações de Ataulfo, não há como não destacar o imperdível disco de Itamar Assumpção, que é uma genuína releitura da obra do mineiro.
A cidade de Miraí está em festa até o dia 03. Já foram inaugurados o memorial e o site do centenário. Você que, como este blogueiro, já passou dos trinta, não deixe de aplicar Ataulfo aos seus filhos ou parentes mais jovens. O fim de semana é de Ataulfo no Biscoito. Fique à vontade para compartilhar links e vídeos.
Idelber, dê só uma escutada na levada do Ciro Monteiro (mocinho de tudo, em 1939) cantando MANIA DA FALECIDA, parceria do Ataulfo Alves com o Wilson Batista.
Se alguém conseguir ouvir
isto do começo ao fim sem mexer o corpo, ganha um chope de brinde.
E, antes que eu me esqueça, um desagravo. Uma das mais belas letras de Mário Lago que, sabe-se lá por quê, acabou virando uma espécie de ícone do machismo.
Dez chopes na seqüência para quem me apontar uma única faísca de machismo
nesta letra, que exalta a solidariedade, jamais a submissão.
Gravação de 55, com o próprio Ataulfo, acompanhado das Pastoras. (A gravação original é bem mais antiga, e está disponível no site do IMS, mas não tem o mesmo molejo desta aqui.)
Hoje vou abusar do espaço. Escutem esta outra gravação da "música maldita". Anterior à gravação que postei acima, mas com uma introdução e um acompanhamento orquestrais de primeiríssima.
Bom, já que o dono do barraco deu permissão, aqui vai mais um pitaco: O Bonde de São Januário, parceria de Ataulfo com Wilson Batista, que tentava se redimir desse verdadeiro "hino à malandragem" que fora Lenço no Pescoço. Lenço no Pescoço que motivara esta reação de Noel Rosa, dando origem à famosa "polêmica" entre ambos.
Esse site do Instituto Moreira Salles é absolutamente VICIANTE.
É dos melhores sites da internet brasileira, sem dúvida.
Só no Brasil um mesmo artista comporia, num intervalo de uns poucos anos, duas canções tão antitéticas como "Lenço no Pescoço ë "O Bonde São Januário", não é?
Pois é. Tem todo um folclore em torno do Bonde de São Januário - que a censura do Getúlio teria pressionado, que a letra original falava em "otário", e não em "operário", e por aí vai. Talvez alguém aqui saiba contar a história direitinho. O fato é que o Wilson Batista é, de longe, o compositor que mais bate de frente com a ordem estabelecida durante o governo de Getúlio Vargas. As letras têm miséria ("Boas Festas"), luta de classes ("Pedreiro Valdemar"), maconha ("Chico Brito"), preconceito contra mãe solteira ("Nega Luzia"), preconceito contra preto ("Preconceito"), tortura policial, e por aí vai. É o mundo da favela, sem filtros nem disfarces. Na veia.
Puxa, eu não sabia dessa lenda do otário / operário! Será que é verdadeira? Eu teria que perguntar ao meu amigo Carlos Sandroni, um dos brasileiros que mais conhecem o samba dos anos 30.
Eu estou bebendo minha WestMalle e assistindo Chicago Bulls x Boston Celtics. Estão servidos?
Idelber, lembrarei dessa sua oferta (11:54) amanhã assistindo ao clássico Santos x Corinthians. E só de birra vou passar no supermercado e comprar a cerveja mais cara que tiver só para lhe oferecer e deixar você com vontade também.
Mudando de assunto. Você disse:
"Discordo daqueles que querem relativizar o machismo de uma canção como “Ai que saudades da Amélia."
Daí o João Vergílio vêm e diz:
"Dez chopes na seqüência para quem me apontar uma única faísca de machismo nesta letra, que exalta a solidariedade, jamais a submissão."
E aí?
ótima música pra esquentar uma fria noite de outono em Santiago de Chile.
Por falar em eixo de migração, quem sabe eu não complete a rota BH - Stgo - NO?
Bela lembrança!!
O talento e a obra do Ataulfo dispensam comentários, mas a gente não cansa de comentar.
Eu não conheci o Ataulfo [pai] mas tive o privilégio de conhecer o filho, este ano. Grande figura! Que bom que ele não deixa o obra do pai se perder.
Sou jornalista. Moro em BH.
Recentemente criei um blog de variedades. Gostaria que conhecessem. Já que estamos falando de samba: no meu blog, num dos primeiros posts, lembro nosso querido Cartola - que teria feito 100 anos, em 2008. Farei uma homenagem a ele com o lançamento em BH, no dia 06/06/09, do livro: Cartola, os tempos idos. O livro é de autoria dos cariocas Marília Trindade Barboza [presença confirmada no evento] e Arthur de Oliveira.
A conversa continuou, e eu estava dormindo. Sempre quis ser um boêmio, mas não tem jeito. Não nasci prá isso. Meus bons genes acabam me enfiando num pijama antes da hora.
Quanto à "polêmica" em torno da mulher de verdade, Cláudia, a ênfase eram os dez chopes na sequência, e não o machismo.
Quando passar aqui por São Paulo, Idelber, considere-se intimado. E, até segunda ordem, os primeiros dez você paga. Lá no Frangó, conhece? Mas, não se preocupe. Antes do quinto copo, meus bons genes me despacham para casa. Isso se minha mulher, que não é nenhuma Amélia, não me despachar antes.
Fiquem aí com uma música, essa sim, verdadeiramente machista. Autoria do Haroldo Lobo em parceria com Wilson Batista, que prova, assim, que a gente pode não ter muita razão quando bate, mas ele tinha lá suas razões para estar apanhando... :=))
Interpretação memorável de Vassourinha. Aposto um milkshake como o Idelber não é capaz de escutar quietinho na cadeira. (Só vai ser duro convencer o garçom do Frangó a me servir um milkshake.)
"eu já disse isso aqui: Minas-Rio e Nordeste-São Paulo são os dois fluxos migratórios sem os quais você não entende a cultura popular brasileira do século XX"
Concordo com o João Vergílio: não dá pra considerar machista a canção de Ataulpho e Mário Lago. Ela é um retalho poético de vida que diz de sua época, com delicadeza e melancolia.
Lembro-me de um depoimento de Lago, pouco antes de sua morte, respondendo a essa acusação de suposto machismo. Disse que ninguém acusa certas letras do Chico Buarque de machista, ao incorporarem poeticamente falas de submissão feminina. Será porque a voz poética em Amélia é masculina?
Na minha opinião, a questão não é bem essa. Se você analisar a letra, há um personagem descrevendo a vida conjugal com a mulher atual, que gosta de fazer gastos muito superiores às suas posses, e se lembrando da antiga mulher, Amélia, que sempre lhe foi solidária nos momentos mais difíceis. Passavam fome juntos. Acho que o tema da música é a solidariedade, e não a submissão.
Há músicas do próprio Mário Lago que têm um tom um pouco sexista para os nossos ouvidos, como esta belíssima valsa que ele compôs com Benedito Lacerda. Há outras músicas da mesma época que exaltam um tipo de mulher que, hoje, seria mais antiquada do que necessariamente submissa. Emília, de Wilson Batista e Haroldo Lobo, é um caso típico.
P.S.: O arranjo de "Número Um" (como boa parte dos arranjos das músicas cantadas por Orlando Silva nessa primeira fase da carreira) é de Radamés Gnatalli. Se apurarem o ouvido, ouvirão o piano no meio da orquestra. Com toda probabilidade, o jovem maestro é quem está tocando. Orlando por um fio não erra o primeiro agudo. Reenvia a voz com precisão milimétrica ao seu alvo em menos de um décimo de segundo. Cobrador de bonde. Inacreditável. Que voz! E, acima de tudo, que sabedoria musical. Sempre que solta a voz nas alturas, aproveita os dois compassos seguintes para um exercício de suavidade. É isso que faltava em Francisco Alves, eu acho.
Quanto a "Bonde São Januário", eu conhecia a "versão não autorizada", da mesma época,fruto da rivalidade futebolística, citada por Edigar de Alencar em seu ótimo livro sobre o carnaval carioca:
"O Bonde São Januário/
vai levar mais um otário/
Pra ver o Vasco apanhar."
Bem, otário ou operário, Ataulfo foi um grande mestre de nossa música popular. Só o vi pessoalmente uma vez, quando garoto, num dos inúmeros festivais de música que aconteciam na década de 1960. Ele fazia parte do júri. Eu e um amigo fomos até ele e pedimos seu autógrafo no único papel que tínhamos à mão, nossas cadernetas escolares. O velho sambista, elegante como sempre, declarou sua satistafação em ver que tinha fans entre adolescentes em plena época dos Beatles e do iê-iê-iê.
E dando uma de chato: o mineiro Milton Nascimento nasceu no Rio de Janeiro.
Idelber,
faltou mineiro aí..Geraldo Pereira também não era desse barco, ou estou viajando? Lembro-me de um partido interpretado por Xangô da Mangueira em que se cantava "Quando vim de Minas/trouxe ouro em pó", acho que Clara gravou. São muitos os indícios dessa ponte aérea. Quando Minas e Rio se cruzam, o Brasil anda pra frente...
Finalmente, vale a lembrança de Wilson Batista, um dos maiores compositores rubro-negros da História. Só por ter feito a clássica "Flamengo joga amanhã eu vou pra lá/ vai haver mais um baile no Maracanã", já merecia estar na galeria. Em tempos de pentatri, vale a lembrança.
não esperei completar 30 pra seguir seu conselho.
tenho ainda 25 e meu filho de 2 já escuta e canta os versos do saudoso sambista de miraí.
justíssima a homenagem. o problema é sempre esperar as "datas redondas" para relembrar os grandes nomes.
lembro que em 2007, ao assistir um bom show de samba em bh sugeri que tocassem alguma música do ataulfo. a mocinha cantora confessou que não tinha nenhuma no repertório. então adverti-la que em 2009, com o centenário eles seriam levados a aprender a tocar ataulfo alves.
mês passado assisti novamente a essa mesma banda que tocou "pois é" e "na cadência do samba"...