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Um blog sobre política, literatura, música e futebol basquetebol. Na rede desde outubro de 2004.



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quinta-feira, 14 de maio 2009

Choques culturais

Cheguei ao Brasil. Serão cem dias em solo pátrio: quase três meses na minha base belohorizontina, uma semana no Rio de Janeiro e outra no Mato Grosso do Sul. Na chegada, gosto de renovar alguns rituais vinculados ao treinamento dos ouvidos e do olhar expatriados. Há tempos me fascina o efeito que o cruzamento de fronteiras produz nos sujeitos. Sobre isso, escrevi um texto para a Revista Germina, onde eu tentava mapear algumas características bem próprias do expatriado brasileiro. Ao contrário dos mexicanos, por exemplo, que contemplam com credulidade absoluta com os símbolos pátrios, os brasileiros não temos uma data nacional – não há coisa mais insignificante para nós que o 7 de setembro --, nem heróis vitoriosos, nem revoluções, nem guerras de independência. Talvez nosso mais importante ritual de comunhão nacional seja a conversa e a piada acerca de quão esculhambado é o Brasil.

Até o momento, evidentemente, em que uma agência de notícias estrangeira decida fazer uma matéria sobre a violência no Rio ou em São Paulo. Aí saltamos como leões na defesa da honra pátria. Algumas das coisas mais violentas que já li na internet foram reações de brasileiros a algum filme, desenho animado ou série televisiva estrangeira que retratava algum aspecto da realidade brasileira de forma menos lisonjeira que gostaríamos.

A dinâmica psíquica do expatriamento é complexa, e mais ainda, acredito, no nosso caso, dado o considerável poder imaginário da chamada identidade brasileira. No texto da Germina, eu mencionava dois tipos de expatriados: por um lado, o brasileiro nostálgico, que odeia e despreza o país de adoção; por outro, o brasileiro “adaptado”, que não perde uma oportunidade para perorar sobre os horrores do Brasil. Às vezes, o mesmo sujeito oscila, num intervalo de alguns minutos, entre esses dois polos, na maioria dos casos sem perceber a contradição. Já vi um brasileiro tendo crise de choro nos EUA, pelo motivo (imaginário) de que o Bom Bril que lá gorjeia não gorjeia como aqui. Juro que presenciei essa cena.

Durante anos, o meu grande choque cultural ao chegar no Brasil eram os chuveiros. Não sei se era culpa dos chuveiros nacionais ou – mais provável – dos chuveiros aos quais eu tinha acesso. O fato é que a cada banho, eu tinha a sensação de um pinga-pinga insuportável, que me enchia de nostalgia pelas poderosas duchas americanas. Hoje tenho dois ótimos chuveiros aqui em BH e me livrei desse terrível trauma.

Os amigos que gostam de sorvete e iogurte dizem que os de fabricação brasileira não se comparam aos americanos. Não sei; laticínios não são minha praia. Nos EUA, você tem acesso a uma coleção superior de cervejas, tanto europeias como de microcervejarias gringas. No entanto, a cerveja brasileira de boteco, a de todos os dias – digamos, uma Bohemia – é muito superior às Budweisers e Miller Lites da vida. A carne brasileira é tão superior à americana como as estradas americanas são melhores que as brasileiras. E por aí vai.

Hoje, assisto a tudo isso com irônica, borgiana distância. Não sou imune aos efeitos do expatriamento, claro. Ao chegar, preciso ir ao um rodízio de churrasco. Devo sempre renovar minha adoração por Porto Alegre. Preciso comer pelo menos uma coxinha com Guaraná, mesmo sendo a Coca-Cola o meu refrigerante de todo dia e a coxinha algo perfeitamente encontrável nos EUA hoje em dia. Expatriado é assim.

Ainda me causa espanto, é verdade, a estranha mutação genética que acontece com os brasileiros, e particularmente com os belo-horizontinos, quando se convertem em motoristas de um automóvel. Gente hospitaleira, sorridente e generosa se transforma num exército viking assassino, sedento de sangue. Não consigo entender por que as pessoas dirigem como dirigem aqui. Não entendo, simplesmente. Acho que já desisti de entender. Se querem continuar se matando, se ferindo e se insultando no trânsito, paciência.

Fique à vontade, leitor, para iluminar essa dúvida metafísica que tenho, refletir um pouco sobre fronteiras e expatriamento, ou compartilhar histórias de choques culturais, mesmo as que envolvem diferentes regiões do Brasil. Esses relatos são sempre divertidos e me interessam muito.



  Escrito por Idelber às 04:02 | link para este post | Comentários (97)


Comentários

#1

caro Idelber, saudações ATLETICANA, minha experiência não foi tão radical assim, afinal só mudei de BH para São José dos Campos sp cidade que aprendi a gostar, mas um fato me marcou assim que eu cheguei em sp. Quando ainda morava em BH as peladinha no domingo pela manhã era coisa sagrada e depois aquela cervejada.Tinha um custo, tinhamos que fazer uma vaquinha para a bola e a tede da quadra comunitária. Lembro que certa vez um amigo ficou desempregado. Ele continuou fazendo parte da turma sem nenhum constragimento,pois as despesas era ratiada por todos. Pouco tempo depois, já em sp aconteceu uma situação igual a de BH, os caras cresceram juntos, todos vizinhos, já viu conjunto habitacional como é, porém a regra era: não pagou, não joga, e não deixaram ele jogar. foi constragedor ve-lo sentado no banco de cimento humilhado.Foi meu último jogo naquela quadra.
PS qundo vou a BH tenho que tomar um Mate Couro bem gelado com meio limão espremido, só tem ai, ou tinha.

Roberto M Almeida em maio 14, 2009 4:55 AM


#2

O curioso é que isso pode acontecer mesmo com uma simples mudança de bairro, na mesma cidade.

Ou até um expatriado na mesma casa, no mesmo bairro, que tenha mudado de ares com o tempo.

Não é difícil imaginar gente que tenha se mudado pra um apartamento numa avenida comercial, indo de vez em quando procurar uma esquina com uma barraquinha de pastel, em uma rua com meninos jogando bola e aposentados batendo papo na calçada, como na infância.


Gabriel Figueirdo em maio 14, 2009 5:17 AM


#3

Acho q sou como vc, assisto tudo agora de uma irônica/borgiana distância. Pq na realidade não me sinto de pátria nenhuma. Adoro o Rio como adoro Honolulu como adoro Berlim: cada qual em seu espectro luminoso. E acho tudo isso lindo, essa diversidade. Acho q sou mais feliz assim. :)

Lucia Malla em maio 14, 2009 6:06 AM


#4

Eu me sinto assim também. Duas coisas que notei: quando falo do Brasil pros estrangeiros, acho muito difícil colocar em palavras o que é que eu gosto do Brasil. Normalmente eu digo que é fácil ser feliz por aí: me lembro de rever os amigos em um bar em São Francisco, Niterói, com o Rio do outro lado da Baia, o Sol se pondo... ou da carrocinha servindo churrasquinho pra galera voltando pra casa em uma esquina de Guarulhos, perto do aeroporto. Como é que você explica isso? Isso é maior que as notícias de violência e corrupção, ou sou eu que sou maluco? A outra coisa é a contradição que experimento quando estou no Rio, entre momentos de fúria com o caos urbano, como o lugar se degradou, como a gente é mal educada no trânsito, o avanço das favelas sobre a natureza e o muito pior avanço dos condomínios de classe média-alta sobre a mesma natureza; e os momentos de um estado de felicidade que é inconsciente, que fica abaixo da pele, só por estar ali.

Carlos em maio 14, 2009 6:10 AM


#5

Há uns anos passei 3 meses na Europa com um grupo de amigos. Primeira viagem internacional de todos (eu já havia estado na Argentina). Deu pra mapear direitinho: depois de uns dois meses lá o deslumbramento inicial deu lugar a uma nostalgia PESADA, com direito a vídeos de música brasileira 24/7 no youtube - inclusive música breganeja (não me consta que nenhum deles gostasse disso, ou que tenha ouvido desde a volta). A oscilação era cada vez mais gritante. A qualquer sinal de clara superioridade da França sobre o Brasil, todo mundo começava a descer a lenha na república das bananas, pra no final dizer "mas, porra, a gente só dá valor quando sai do país mesmo", "como a gente é feliz lá", etc.

klavdjo em maio 14, 2009 7:40 AM


#6

Adoro este assunto. Acho que depois de uns anos fora a gente equilibra o bom e o ruim de cada lugar, sim, eu funciono desta forma. Mas o que mais me chama a atenção nessa historia de estar fora de seu lugar, é a questão da identificação. Identidade, mesmo. Você é "da" onde (os baianos se comunicam assim)? Eu respondo, do Brasil. Dai pra explicar onde nasci e por onde vivi, até vir pra França, é todo um processo. E pra explicar de onde me sinto parte, hoje em dia, pior ainda... depois de um tempo, acho que o ser humano desprende em certas proporções suas raizes, e depois fica dificil enterrar elas em algum lugar. Tem um livro cuja conclusão me apaixonou, "The ghetto", de Louis Wirth. Do movimento da Escola de Chicago, ele tentou descrever o gueto judeu dessa mesma cidade, ele mesmo judeu. O livro é de 1923, se não me engano. Ele conclui que os judeus eram um grupo fechado (outros aspectos entram em jogo, como a propria trajetoria historica do povo judeu) e que o sujeito judeu era um sujeito entre dois mundos, tentando reconstruir suas referências culturais num outro pais, e ao mesmo tempo sendo parte deste "novo" territorio e tendo que integrar-se. Acho muito interessante essa "integraçao", que é uma forma de suportar o outro, e de ser suportado, pois afinal ambos colaboram socialmente entre si. Mas o "estar entre dois mundos" é fascinante... como assunto antropologico, psicologico... e também no sentido de que eu particularmente acho mesmo perigoso (pra mim). Hoje sei o tanto que aprendi sobre a cultura francesa, e o que admiro e o que não escolho pra mim nisso tudo. Mas é inevitavel o fato de que a gente muda. A pessoa muda, estando no seu pais de uma forma, estando fora, de duas ou mais formas diferentes... enfim, eu acho que a hora de voltar de vez pro Brasil esta chegando :)
Tomo a liberdade de perguntar aos que gostariam de responder: como vcs, que estão fora do pais, lidam com isso? Nao se sentem desterritorializados de algum lugar? Do Brasil, ou mesmo de onde costumavam viver, apos retornar ao pais? Como é "estar entre dois mundos" pra vocês?

Ananda em maio 14, 2009 8:09 AM


#7

Quando é que você vem ao Rio ô figura? Vam marcá quarqué coisa?

Eneraldo Carneiro em maio 14, 2009 8:47 AM


#8

Boa sorte na visita pela pátria.

João Vicente em maio 14, 2009 9:02 AM


#9

Me rachei de rir com a história do chuveiro!! Comigo acontece o mesmo choque, mas pelo motivo contrário. Aqui em Nice, onde moro, a maioria dos banheiros tem uma pequena banheira com um "duchinha". Você pode então imaginar o meu prazer ao chegar no Brasil e tomar banho num box GIGANTE, com um chuveiro que, pra mim, é maravilhoso!!!

Alexandre em maio 14, 2009 9:22 AM


#10

Idelber, o viking sedento de sangue no trânsito encontra seu paroxismo no Rio de Janeiro. Eu costumo dizer que o trânsito do Rio seria perfeito se cada um dirigisse de cada vez, sozinho. Porque é exatamente assim que eles dirigem, em conjunto.

Cássio em maio 14, 2009 9:33 AM


#11

Sei não viu Cássio... a situação em BH só vai piorando. Ainda mais com o sobe-e-desce daqui, que piora às vezes a visibilidade...

Leonardo em maio 14, 2009 9:39 AM


#12

"Ainda me causa espanto, é verdade, a estranha mutação genética que acontece com os brasileiros..."

Não só com os brasileiros, Idelber, talvez seja um fenômeno mundial.

http://www.youtube.com/watch?v=cfnrHz_gM20

Cláudia em maio 14, 2009 9:41 AM


#13

Oi Idelber,

Existe uma coisa que eu tenho curiosidade de saber a teu respeito sobre esses choques culturais. Não é nada, claro, no sentido de reativar um estranho debate que apareceu por aqui em posts anteriores onde alguem questionava a tua legitimidade para falar da realidade brasileira estando você morando nos EUA, não é nada disso. Mas fico realmente muito curioso em saber algo mais detalhado a respeito de teu estranhamento (no mesmo sentido que você problematiza sobre hábitos culturais em geral) em relação às universidades americana e brasileira. Sei que isso é uma questão delicada porque envolve relações com colegas de trabalho etc., mas se você pudesse falar um pouco a respeito de tua experiência seria bem rico. Evidente: não veja aqui nenhuma exigência de seu leitor, mas considere s curiosidade que vem de minha própria experiência de expatriado. Um professor meu escreveu um belo texto a respeito desses choques culturais mais gerais: http://quecazzo.blogspot.com/2008/09/brasil-via-paris-descobertas-de-um.html. O meu, que é bem mais restrito, pode ser lido no http://ooxymore.blogspot.com/2009/04/ufpe-via-universites-en-france.html . Abraço e bem vindo a pindorama!

Jampa em maio 14, 2009 10:02 AM


#14

Algo me diz que esta vai ser daquelas caixas históricas:

Roberto, sua história me emocionou. Só quem joga futebol sabe o que deve ter significado essa experiência humilhante para seu amigo. Parabéns por ter deixado de jogar naquela quadra. Saudações alvinegras.

Gabriel, é isso. Às vezes uma mudança de bairro. Poucas vezes tive choque tão brutal como na mudança do Caiçara para o Sagrada Família, em Belo Horizonte. As Zonas Oeste e Leste de BH são bem diferentes!

Lucia, claro que não pude deixar de pensar em você ao escrever este post -- e admirar essa tranquilidade com que você aproveita o que é único de cada lugar. É isso!

Isso é maior que as notícias de violência e corrupção, ou sou eu que sou maluco? Carlos, você não é maluco, não. É exatamente esse plus que é o inexplicável. Quando vier a BH, compre uma coxinha e sente-se na Praça da Liberdade. Não é preciso mais nada.

Klavdjo, você captou bem a oscilação. É isso. Acontece com uma previsibilidade incrível. Na Europa, na França em particular, acho que a nostalgia deve ser dura. Em certos sentidos, os EUA são mais parecidos com o Brasil.

Ananda, anotei sua sugestão de leitura. Não conheço o livro. Respondendo sua pergunta: eu lido razoalvelmente bem com a coisa porque passo de 120 a 150 dias por ano no Brasil. Um expatriamento completo e total eu teria muita dificuldade de suportar. Para começo de conversa, acho que o Biscoito Fino e a Massa não existiria!

Eneraldo, estarei no Rio entre 09 e 15 de junho :-) Depois marcamos pelo menos um cervejinha geral com os leitores aí na Maravilhosa Inigualável.

Obrigado, João.

Alexandre, a questão do espaço é todo um tema quando chegamos à Europa, não é mesmo? Aí já é uma típica questão do Novo Mundo x Velho Mundo. Puxa, um espaço a mais faz falta, né? Seja no banheiro, seja na sala.

Cássio, Leonardo, Cláudia, taí um assunto que é tipicamente brasileiro: quem tem os piores motoristas. Já dirigi no Rio, mas continuo achando, Cássio, que Belo Horizonte é hors-concours. Acho que a Bahia tem os piores motoristas, e Belo Horizonte os mais sangrentos. Mas cabe discussão :-)

Caro Jampal, claro que eu jamais confundiria uma pergunta rica e embasada como a sua com uma agressão de troll como a que aconteceu aqui outro dia. Li o texto. Magnífico! Resumindo a ópera, eu diria o seguinte: se há um aspecto da vida americana que eu admiro quase incondicionalmente é a universidade. Os caras realmente construíram um sistema de dar inveja. Há algo lá que se parece muito ao Brasil: a informalidade, a relação horizontal entre professor e aluno, a possibilidade de debate em sala de aula. Detesto aquelas coisas magistrais e pomposas da universidade europeia. Por outro lado, há algo na universidade brasileira que me incomoda muito: o compadrio, a contratação de recém doutores formados na própria universidade, os concursos armados de encomenda para o ex-aluno do fulano de tal. Neste sentido, há uma impessoalidade e uma "justiça" nos concursos americanos que não vejo por aqui. Sonho com uma universidade brasileira em que fosse proibido contratar, durante um certo período, um recém doutor formado na própria instituição. Acho que seria uma revolução na universidade brasileira. Abraços.

Idelber em maio 14, 2009 10:20 AM


#15

Só sei que meu patriotismo cresceu muito durante o ano em que morei nos EUA (entre 2007 e 08). Nunca tinha sido um sonho meu morar fora do Brasil. Foi uma experiência interessante, mas parece que faz tanto tempo... Ao voltar pra SC, escrevi um post falando do meu "deslumbramento" com os EUA, e teve leitor que não entendeu. Um me mandou um email falando de como as coisas funcionavam bem lá, e, sinceramente, eu passei meu ano americano coletando evidências em contrário.
E nunca vi uma coxinha nos States! Nem brigadeiro nem nada. Aliás, como eles chamam essas guloseimas? (ajude esta pobre professora de inglês!).

Lola em maio 14, 2009 10:50 AM


#16

Caro conterraneo Idelber,
nasci em BH mas fui criado no sudoeste de Minas e agora moro em Campinas. Sabe que o que vc descreve neste post tem tudo a ver com o que sinto em relação à diferença entre Campinas e minha pequena Carmo do Rio Claro? Qdo estou em BH, embora nunca tenha morado na minha cidade natal, é uma sensaçao de familiaridade, me sinto em casa. Embora Campinas tenha uma populaçao mineira proporcionalmente maior que a dos paulistas, eu so me sinto em casa qdo atravesso a fronteira...Tem jeito nao, nosso dna atleticano-mineiro so se satisfaz nestas plagas.

Ricardo Pereira em maio 14, 2009 10:51 AM


#17

Idelber, fiquei meio nostálgico depois de ler o teu texto, pensando na minha própria identidade territorial, por assim dizer. É que a minha condição de estrangeiro começou cedo, com 1 ano de idade, e não sei ao certo se chegou a terminar. A minha temporada mais longa em outro país durou 8 anos — quase a minha vida inteira, naquele então. Entretanto, havia uma marca: mesmo com tantos anos lá e ainda que alfabetizado no idioma local, conhecedor de sua história, eu era entendido (e obrigado a entender-me) como estrangeiro. Voltei ao Brasil aos 11 anos, indo direto a Brasília, que em meados dos anos 70 era um lugar absurdamente apátrida e insular, muito mais insular do que o próprio Brasil. Deu-se o segundo "não": um brasileiro, mas que vivera quase toda a sua vida fora do país; ainda estrangeiro, portanto, e mais estrangeiro até do que os demais moradores de Brasília... Anos depois, tendo passado uma temporada (2 anos e meio) no México, resolvi instalar-me no Rio de Janeiro. E confesso a você: demorei, demorei muitos anos para considerar o Rio como a minha casa. Não, não chega a ser o meu solo, e creio que nunca chegarei a ter um. Mas é o lugar onde mais me aproximei do "sentir-me em casa". Não à toa ser tão difícil de sair daqui.

Para encerrar tanta melancolia, falta dizer que em minha juventude eu sentia uma inveja sem tamanho dos que falavam sobre o seu contato cotidiano com amigos de infância. Eram tempos pré-internéticos — hoje conseguimos localizar pessoas que nem sabíamos estarem vivas —, e não poder viver (e compartilhar) experiências semelhantes era ruim pra danar...

Abraços

Ricardo Cabral em maio 14, 2009 11:20 AM


#18

Fala Idelber,

Essa coisa do trânsito me lembra muito quando mudei de BH pra Luminárias. Em BH, levava 40 minutos de casa ao jornal quando ia de carro ou busão. Em Luminárias, saía de casa às 5 pras 9 e chegava no serviço às 9. E isso a pé. Sem contar que o serviço era do outro lado da cidade. Ê saudade, sô!

Aquele abraço

Paulo Morais em maio 14, 2009 11:25 AM


#19

Idelber,
bom esse papo do chuveiro. A coisa que mais me aterroriza quando viajo "para fora" (qualquer lugar fora do Brasil) é a possível inexistência de banheiro dentro do quarto do hotel. Recentemente fui para um congresso na Suécia e fiquei num hotel mais barato em Estocolmo onde não havia um box. Era a pia, com um chuveirinho acoplado, e um ralo, Só. Quase chorei, mas imbuído da convicção de que viajante não pode mesmo ter luxo, resignava-me toda manhã em ficar apertado naquele espaço jogando aguinha de ducha manual no corpo mal ensaboado. Quando finalmente fui para a cidade do congresso - Umea, onde jogava nossa querida Marta - quase chorei de emoção com o tamanho do banheiro, dotado de box, cortina e um chuveiro decente.
Seria preciso um Gilberto Freyre para descrever a economia afetiva que envolve brasileiros, banheiros, água e banho. Um sistema de objetos que é coisa nossa, rsrsrs.

João Marcelo em maio 14, 2009 11:39 AM


#20

Bom, me sinto expatriado dentro do Brasil. Atualmente morando em Rondônia, sinto uma falta imensa da Praça Sete, da coxinha do Café Nice que eu comia em pé mesmo, no balcão, com uma coca-cola geladinha, sinto falta de Santa Tereza, do Venda Nova, do Shopping Cidade, onde eu sempre ia assistir filmes quando matava aula. Sinto falta até mesmo do trânsito insano de BH, que só não é pior do que o de Curitiba - ali, sim, é coisa de doido.

Rodrigo Lima em maio 14, 2009 11:52 AM


#21

Olá Idelber,

Venho assinando seu blog há alguns dias e o conheci através do Infinito Positivo, do Ery. Achei seu texto bastante pertinente e gostaria de compartilhar algumas características com vocês. Não sei se terá muito a ver com o contexto mas parece ser um bom exercício.

Quando no período da faculdade e, portanto, um pouco mais jovens desenvolvi certa rancor pelos estadunidenses. Estar dentro de uma faculdade de geografia nos faz ser muito críticos e acabamos ultrapassando a crítica racional para alienada. Hoje, entendo que os estadunidenses e o próprio país Estados Unidos possuem uma série de defeitos e interferências nos mundos mais pobres. Todavia, ser racional e saber diferencial as coisas boas que eles fizeram para o mundo moderno também é fundamental.

Seria no mínimo hipócrita levantar a bandeira anti-americana sendo que muitas das novidades, principalmente ligadas a internet, são utilizadas por mim com muito prazer.

Achava que os problemas do nosso país eram todos por fatores externos. Hoje aprendemos que além dos externos temos os internos, talvez muito piores que os anteriores.

Grande abraço e parabéns pela postagem...

Ítalo de Paula Pinto em maio 14, 2009 12:02 PM


#22

Idelber,

Como professor de linguas talvez vc tenha tido a sensação que eu tive, as duas vezes que retornei de temporadas no exterior (UK e USA). Logo chegando ao aeroporto noto como o portugues é lento em comparacao ao ingles. Como a fala é mais cantada e pausada, outro ritmo completamente diferente do ritmo do Inglês. Esse estranahamento dura umas 2 semanas até o cérebro se habituar ao novo ritmo. O curioso é que isso ocorre mesmo me comunicando em portugues diariamente com minha familia.
Os outros estranahamentos sao normais. Trânsito selvagem, sujeira, etc...

Ricardo Leao em maio 14, 2009 12:10 PM


#23

Idelber, sobre o automobilismo, Monteiro Lobato deu a letra (São Paulo, 10/9/1923):
"(...) meti-me em automobilismo. Comprei um Ford e já ando a perturbar o trânsito da cidade. Ontem dei o primeiro tranco numa carroça, mas ainda não esmaguei nenhum pedestre. Curiosa a mudança de mentalidade que o automóvel ocasiona. O pedestre passa a ser uma raça vil e desprezível, cuja única função é atravessar as ruas. Quem adquire auto promove-se de 'pedestre' a 'rodante' - e passa a desprezar os miseráveis pedestres que se arrastam pelas superfícies, como lagartas."
http://lobato.globo.com/lobato_Linha.asp#1918_1925

Jean Scharlau em maio 14, 2009 12:18 PM


#24

O importante é como tratar o diferente. Aproveitá-lo. Frequente e infelizmente estar num carro ou U.F. diferente é motivo para ser condenado por suas características (que determinam a diferença): tanto dirigir devagar quanto rápido é condenável, puxar o r ou falar chiado também, simplesmente porque são diferentes. Mas a questão é que aproveitar a diferença é bom para quem o faz. Isso teoricamente é óbvio, mas por outro lado vejo absurdos quase nazistas em certas frases inocentes com termos como "é que o baiano é assim...", "é que o povo gaúcho...": algo do tipo como se somente baiano pudesse dançar e somente gaúchos pudessem ser sérios (e é uma baita baboseira).

(Eu acho o pessoal aqui do RS muito bairrista, mas talvez por morar aqui, pois talvez todas as populações o sejam um pouco e evidentemente não em sua totalidade interna.)

Porém, ao quase encerrar este comentário no qual visivelmente me confundi um pouco e não desenvolvi o suficiente para dizer o que queria (até por ser um comentário), percebi que isso nada mais é que um uso errado (e totalitário) de uma diferença que realmente (e incrivelmente) existe de estado para estado, cidade para cidade, bairro p/ bairro... Algo como em Torres são gaúchos, mesmo que esteja muito mais perto de SC. Talvez o ranço que eu tenha com o bairrismo gaúcho me fechou um pouco a questão.

joao~grando em maio 14, 2009 12:26 PM


#25

Idelber,a carne brasileira é melhor do que a americana,inclusive a texana?

Sueli-Porto Alegre / RS em maio 14, 2009 12:28 PM


#26

Eu me sinto meio como o Ricardo se sentiu em relação ao Rio. Moro na Paraíba há dez anos, mas ainda a não sinto como minha casa. Acho que não vou sentir nunca. Em nenhum lugar.
A sensação de "território meu" eu não tenho mais nem nos bairros em que morei em São Paulo, tão conhecidos e com tantas histórias minhas e de amigos, familiares.
Fiquei até os 18 em Sampa, depois passei 1 ano e meio em Seattle, fui pra Nice e fiquei mais 2 anos e depois segui para Bruxelas, onde fiquei mais um ano. Aí voltei pra Sampa, onde fiquei mais 2 anos e finalmente vim embora pra João Pessoa.
O que eu sinto é meio que um mosaico de conforto. Cada lugar me remete a coisas muito lindas e muito dolorosas, ao mesmo tempo. Pois em todos eles tive passagens muito difíceis e muito amorosas.
Ciclicamente, preciso voltar a Nice, onde deixei "família" (a que a gente escolhe, não a de sangue) e a São Paulo, cujas pessoas me fazem falta, mas de cuja "mentalidade" eu tenho prazer de saber que consegui desenvolver uma certa distância.
Lugares atrasados e conservadores são terríveis, mas por outro lado, o timing da pequena cidade faz com que vc tenha outro olhar sobre muitas coisas.
Não tenho saudades dos EUA nem da EUROPA (enquanto lar). Porque em ambos os lugares existe aquele "lack of emotional atoms" nas relações que, em geral, que me incomoda. E olha que eu fiz grandes amigos nos dois lugares.

Mari em maio 14, 2009 12:32 PM


#27

Lola, que bacana vê-la aqui! É curioso o que você relata, porque se não houvesse no Brasil tanta gente deslumbrada com os EUA, talvez o movimento contrário não fosse tão forte. Durante muito tempo, ouvi a acusação de que eu era "antiamericano", por causa das minhas críticas à ideologia dominante e à política externa deles. Agora, com a eleição de Obama, parei de ouvir essas críticas, apesar de que as minhas opiniões continuam as mesmas ... Quanto à tradução, acho que não há no inglês uma palavra que designe exatamente a ideia de "salgadinho". Diríamos mesmo bar food ou snacks ou appetizers ou munching food. Mas aí não entra o brigadeiro... Nos EUA você não encontra coxinha no balcão, mas é fácil comprá-la pré-preparada, até mesmo pela internet. Abração!

É isso, Ricardo, no nosso caso não se aplicam aqueles célebres versos do Drummond: "no elevador penso na roça / na roça penso no elevador".

Ricardo, você é um exemplo perfeito de um outro tipo de expatriado: o sujeito que não está enraizado em lugar nenhum. Sei que provoca certa angústia às vezes, mas também é uma experiência riquíssima. Você está muito mais imune que os outros às idealizações que inevitavelmente acompanham o enraizamento... Faltou você nos dizer onde passou a infância. Fiquei curioso!

Paulo, é isso aí. Além do fato de que, em BH, você corre risco de morte a qualquer momento desses 40 minutos... Abração.

João Marcelo, o chuveiro é uma questão antropológica fundamental. Na Europa, o bicho realmente pega. Eles não têm, com o banho, a relação que nós e os americanos temos. Se eu não sentir uma certa pressão da água sobre meu corpo, me sinto sujo, é como se não tivesse tomado banho. Haja Gilberto Freyre para entender isso.

Caramba, Rodrigo, pegue um avião quando possa e venha cá comer uma coxinha na Praça Sete. Você está com saudade mesmo, dá para ver.

É isso, Ítalo, quando o tema é EUA, as emoções afloram de um jeito que não acontece com outros países. Em parte, por causa da fascinação da nossa classe média deslumbrada. Em parte, pelo fato de que nem sempre os críticos da política externa americana tomamos os devidos cuidados de separar a história de agressão imperialista da história de realizações notáveis daquele povo. Acho que é isso!

Ricardo, a diferença de prosódia que noto entre o inglês e o português não passa tanto pela velocidade, mas por um certo "desperdício" que é parte da nossa relação com a língua. Os anglofalantes são mestres em ir "direto ao ponto". Nós floreamos, damos voltas, somos mais barrocos. Certas frases, se traduzidas literalmente do inglês ao português, soam brutais e mal educadas...

Jean, que citação, meu chapa! Genial. E isso aí era os primórdios do automóvel.

João, acho que no Rio Grande do Sul há uma cultura de explicitar mais o antagonismo, quando ele existe. Eu gosto disso. Nesse ponto, sou muito pouco "mineiro"...

Sueli, não há nem comparação. Não faltará quem me chame de "antiamericano" por isso, mas a carne brasileira é muito superior. Tenho um amigo argentino, tremendamente carnívoro, que não come carne nos EUA. O corte não segue a linha da carne, o que afeta bastante o gosto.

Mari, que história, a sua. É difícil imaginar uma coleção mais heterogênea de lugar. É o que eu disse ao Ricardo: o desenraizamento traz certa angústia, mas é também uma riqueza. O seu olhar será sempre questionador, esteja onde você estiver. Cantilenas identitárias não a seduzirão com muita facilidade.

Abraços.

Idelber em maio 14, 2009 12:52 PM


#28

Me fez lembrar da coleção de ensaios do Roberto da Matta "Tocquevilleanas, notícias da América". Vale a pena.

Tiago Pereira em maio 14, 2009 1:03 PM


#29


Já na Europa não há quem não sinta saudades das poderosas "duchas" brasileiras. Mesmo quando não passam de um chveirinho vagabundo, são muito melhores que aqueles banhos horrorosos numa banheirinha, com uma ducha manual pendurada num ganchoa menos de cinco centímetros de nossa cabeça.

João Vergílio em maio 14, 2009 1:39 PM


#30

Idelber,

você, Itapuã e uma banda de Sergipe são testemunhas de que nunca escrevo sob o signo do bairrismo (mentira!), mas em verdade vos digo: esta sua afirmação de que "os brasileiros não temos uma data nacional" pode até ser verdadeira. Mas, aqui na minha pátria provinciana, besta e bela chamada Bahia, temos uma data da qual nos orgulhamos: o glorioso dois de julho.

Quanto ao sorvete, nenhum, nos 18 continentes, pode ser comparado ao da Sorveteria da Ribeira.

Por fim, em relação ao trânsito, também somos campeões - de falta de educação e de truculência.

Abraços.

Franciel em maio 14, 2009 2:05 PM


#31

Muito, muito bem colocado o adendo, Franciel. Sempre defendi que nossa data real de independência é o 02 de julho, em que os baianos deram seu sangue por todos nós. Mas só posso retirar minha afirmação de que não temos data nacional no dia em que o resto do Brasil souber o que é o 02 de julho. Convenhamos, não conseguimos sequer manter o nome do aeroporto de Salvador...

Mas noto, caro Franciel, nesta bela quinta-feira, certa relutância de Vossa Senhoria em abordar o tema futebol, de menção frequente em vossas intervenções nesta caixa?

Idelber em maio 14, 2009 2:12 PM


#32

Idelber,

é que sou avesso à propaganda. Mas, já que você solicitou... Maestro, nossos comerciais, por favor, em caixa alta.

WWW.INGRESIA.OPSBLOG.ORG

Pronto. É só sintonizar nesta intimorata emissora e ouvirá mais uma abalizada resenha sobre o ludopédio.

Franciel em maio 14, 2009 2:30 PM


#33

Idelber,
minhas experiências são todas brasileiras mesmo. Mas posso fazer uma comparação(zinha) sobre o trânsito e os motoristas de algumas cidades onde morei: Cuiabá - o trânsito é uma loucura, todos querendo chegar antes e estacionar antes e etc. Foz do Iguaçu os motoristas te ultrapassam pela direita, pela esquerda e se deixar passam por cima de ti (tudo sem dar seta).
Porto Velho é sui generis porque não tem muito carro nas ruas, então é tranquilo (pelo menos é minha impressão).
Mas hoje, em Brasília, posso dizer que aqui as pessoas se respeitam mais no trânsito. Nas tesourinhas brasilienses vigora uma lei não escrita: quando há engarrafamento, quem está subindo a tesourinha sempre deixa um dos carros que está na saída da tesourinha entrar. Sempre. É uma gentileza rara no trânsito brasileiro, mas que aqui funciona super bem. Existem, claro, os egoístas apressadinhos, mas a grande maioria dos motoristas aqui é bastante civilizada. Sem contar a questão da faixa de pedestres que é super respeitada. O pedestre deu sinal com a mão é automático: o veículo para. Isso me agrada muito.
Abç

Mariê em maio 14, 2009 2:34 PM


#34

Idelber, o problema da língua é crucial no mundo acadêmico, estou percebendo apenas agora, que comecei a escrever coisas em inglês e debater nessa língua. Meu texto teve que passar por uma severa revisão de colegas que dominam quase como nativos o idioma, e não apenas em termos gramaticais, preposições etc. Refiro-me ao modo de construir frases e raciocínios, já que o português permite uma série de floreios barrocos e uma profusão da voz passiva que simplesmente não cabem no inglês. Isso se traduz na própria economia intelectual do discurso, com as famosas perguntas anglo-saxãs do tipo "qual a pergunta" e "qual o ponto" que tanto me atormentam. Mas é um puta exercício de concisão e tradução mental, e não apenas linguística. Às vezes sinto que vou começar a pensar de forma diferente temas de meu trabalho de tanto reenquadrá-los nessa "outra" economia discursiva, rsrsrs.

João Marcelo em maio 14, 2009 2:35 PM


#35

Poxa, esqueci de mencionar a diferença dessas cidades "grandes" sobre a que morei toda a vida e onde ainda mora toda a minha família, Três Pontas, interior de Minas Gerais. Pequenininha, mas muito simpática. Sinto muita saudade, pois só vou uma vez por ano.
Abç

Mariê em maio 14, 2009 2:37 PM


#36

Idelber,

mandei uma mensagem respondendo à sua pergunta, mas creio que caiu no spam. Veja aí.

Franciel em maio 14, 2009 2:39 PM


#37

Ananda...
Já tive uma professora com esse nome. Não seria você, por acaso, Ananda do Anglo?

Matheus em maio 14, 2009 2:39 PM


#38

Ananda, eu lido com o expatriamento de uma forma bem natural, light. Pq adoro ser estrangeira (neofobia é algo q nunca tive mesmo). Inclusive no Brasil - passei 2007 e 2008 entre SP e Rio, e percebi exatamente isso, o quanto virei "estrangeira" na nossa cultura. O quanto certas coisas "brasileiras" já não são fundamentais para a minha vida e não me identificam. É interessante e libertador, de certa forma (pelo menos para mim, "nômade" por natureza).

Lucia Malla em maio 14, 2009 3:20 PM


#39

Uma visão muito boa sobre esse lance de viver na gringa:

http://hbdia.com/wordpress/2008/10/29/13-fatos-ficticios-sobre-o-brasil/

Abraço!

panóptico em maio 14, 2009 3:41 PM


#40

Mariê, obrigado pelo depoimento sobre o trânsito. Eu jamais suspeitaria isso sobre Brasília. Apesar do caos do trânsito de São Paulo -- ou talvez por causa dele -- sempre achei que os motoristas são mais educados também. Dirigem melhor, com certeza. Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Salvador são uma selva completa. A única dúvida que tenho é por que não morre o dobro de gente. E você é conterrânea de Milton Nascimento! (sim, sei que ele nasceu no Rio, mas é mesmo de Três Pontas)

Panóptico, que link sen-sa-cio-nal! Obrigado :-)

Idelber em maio 14, 2009 3:50 PM


#41

Ô Idelber, se estiver em Campo Grande-MS e se a permanencia for pública, avise por que eu gostaria de conhecê-lo.
Abraços,
Vida

Geraldo Vida em maio 14, 2009 3:53 PM


#42

Esse negocio de estar fora do pais vai do jeito de cada um . Eu ja estou fora 2 anos do Brasil,e nao tenho esse banzo que muita gente sente.Pessoalmente nao tem muita coisa que me faz falta.O que me da mais tristeza e ver as noticias de violencia urbana e de roubalheira de politicos.Isto sim e de desanimar.

fernando em maio 14, 2009 3:55 PM


#43

Caro Geraldo, parece que minha passagem por Campo Grande se limitará ao aeroporto. Estarei, na maior parte do tempo, em Dourados, neste congresso aqui.

Idelber em maio 14, 2009 3:57 PM


#44

A relação dos mexicanos com seu país é bem mais complexa, inclusive, acredito, que a nossa esquizofrenia brazuca que oscila do amor ao ódio em 5 segundos, aqui fora e em casa. Mas acho mais eficiente e agradável deixar um grande poeta mexicano [José Emilio Pacheco] comentar o assunto por mim. Fiz uma série no meu blogue com poemas brasileiros e mexicanos sobre o assunto e esse é um dos melhores para mim:

ALTA TRAICIÓN
No amo mi patria.
Su fulgor abstracto
es inasible.
Pero (aunque suene mal)
daría la vida
por diez lugares suyos,
cierta gente,
puertos, bosques de pinos,
fortalezas,
una ciudad deshecha,
gris, monstruosa,
varias figuras de su historia,
montañas
-y tres o cuatro ríos.
No me preguntes cómo pasa el tiempo, 1969

Paulo Moreira em maio 14, 2009 3:58 PM


#45

Aqui em BH penso que é uma mistura de claustrofobia pela extensão limitada da visão (por causa das ladeiras), extresse pela excesso do controle de embreagem e, como o sobe-e-desce faz um caminhar mais lento, o povo compensa ao volante. Em outras palavras, é insanidade mesmo. Tenho usado pouco a moto, apesar dela ser bem mais ágil e econômica. Não estou com pressa de ir pro céu.
Bem vindo, Idelber.

josaphat em maio 14, 2009 4:17 PM


#46

Quanto a carne não há duvidas. Depois de 3 anos nos EUA não há dúvidas que a nossa carne é superior. Não só o corte, mas o m;etodo intensivo de criar o boi Americano, combinado com uma dieta a base de milho, não foram a tal capa de gordura que dá um sabor especial a nossa Picanha. Nao que a carne do boi Americano seja magra, é muito gorda, mas a gordura está entranhada no meio da carne (a gente fritava carne moida sem óleo), e os abor dessa gordura nao me grada muito (acho que por isso o churrasco Americano tem tanto molho).
Mas tudo é gosto. Um amigo meu Americano que mora aqui no Rbasil ha anos gosta no dosso churrasco, ams quando passamos um tempo junto nos EUA ele confessou que sentia falta da carne Americana.

Ricardo Leao em maio 14, 2009 4:18 PM


#47

Idelber, claro que ele é de Três Pontas e ninguém tasca! Ele vai muito lá, todo fim de ano a gente tem o prazer de cruzar com ele.

Há dois anos ele participou de um show na "praça da igreja" (toda cidadezinha tem a sua). Para promover outros cantores da região e foi muito, muito maravilhoso.

Sobre o trânsito: Brasília não é perfeita, mas existe sim essa gentileza mútua.

Abç

Mariê em maio 14, 2009 4:24 PM


#48

Eu particularmente sou meio que nem a Lucia, meio nômade. A primeira vez que saí para a Inglaterra por um ano tive acessos de Brasilidade por lá. depois fui ficar 3 anos no Oregon e não queria voltar (me considero até mais Oregoniano do que Brasileiro muitas vezes). Agora vou voltar para os EUA (par a Pensilvania) e chegamos a conclusao (eu e familia) que somos nômades mesmo.
Não que não goste ou despreze o meu país, mas atualmetne ma acho mais do mudo do que de um lugar em especial e o bom do ambiente Universitário Americano é que vc se sente no meio do mundo.
Sentirei falta daqui, sim de muitas coisas, da cominda, da musica, da lingua portuguesa (que acho linda literariamente e oralmente, mas cientificamente o inglês é mais eficiente), do do cheiro outonal das manhãs (que me pareceúnico), e de outras pequenas coisinhas que vão fazer as nossas lembranças.

Ricardo Leao em maio 14, 2009 4:28 PM


#49

Pois é. Ouvi dizer que Tom Jobim afirmava que viver nos Estados Unidos é uma maravilha, mas é uma merda; e viver no Brasil é uma merda, mas é uma maravilha.

José Lacerda em maio 14, 2009 4:37 PM


#50

Seja benvindo, amigo. Vamos tomar umas no Mercado Central, com pastel 3x1 (carne, queijo e jilo!!!) + um carninha na chapa?

Cláudio Costa em maio 14, 2009 5:25 PM


#51

Creio que a leitura do apocalipse motorizado (http://www.apocalipsemotorizado.net/), Idelber, pode esclarecer um bom tanto das suas dúvidas sobre o pq das pessoas dirigirem assim por aqui.

Ulisses Adirt em maio 14, 2009 6:15 PM


#52

Oi.

Bem, depois de 8 anos morando nas universidades da Georgia/USA [essa é a melhor difiniçaão, estou há 10 meses de volta ao Brasil. Agora entendo porque tantos brasileiros angustiados que conheci nao conseguem voltar. É mesmo foda! Eu mesma tive que fazer uma roleta russa pra nao ser responsabilizada pelas minhas decisões. O balanço? Choques? Ainda nao estou pronta para tais elocubraçoes. Eu diria que como boa taurina eu estou ainda ruminando. Achismos por enquanto eu já tenho dois: de que nunca vou perder as saudades que sinto [desde o minuto em que comprei a derradeira passagem de volta] do sistema universitário americano, tanto que até agora nao consegui me mover para fazer a famigerada revalidação do meu diploma; e a de que o Brasil é a minha base emocional e de que nunca me afastarei voluntariamente do Rio de Janeiro, meu caos maravilha.

E o Brasil em mim?
Eu o percebo todo, e adoro o que vejo, nessa música, nessa voz, nessa letra:

http://webneguinha.blogspot.com/2009/05/raiz-da-liberdade-que-sempre-foi-eterna.html

Idelber, bem-vindo!

Bjs "intrões" :-)

Katia

Katia em maio 14, 2009 6:24 PM


#53

Olá,Idelber
Agora não me recordo de nenhuma experiência de choque que não seja a falta da comida de minha mãe lá do interiorzão de minas e eu cá em Juiz de Fora me contentando com peripécias culinárias.

Soube de seu blog através de minha professora na Faculdade de Letras e não hesitei em visitá-lo. No ano passado, assisti sua palestra no simpósio sobre Machado de Assis na UFJF e não me esqueço das assertivas regadas a muitos graus, vindas da mesa, após as apresentações. Até conversei rapidamente com vc no café, sobre música eu acho.

Bem, apenas gostaria de informar a respeito de mais um leitor que se apresenta por aqui.

Abraço

Edmon em maio 14, 2009 6:36 PM


#54

O que eu estranho mesmo quando volto ao Brasil é a existência de crianças de rua.

Leo em maio 14, 2009 6:40 PM


#55

Eu me adapto muito rapidamente aos lugares em que vou, tanto para morar como para passar alguns dias. E na soma geral, vivi mais no brasil que em qualquer outro lugar.

Mas essa relaçnao com o chuveiro é campeã.
E quando se trata de Europa a coisa complica. Aqui no brasil eu nunca enfrentei qualqquer problema.
Uma boa ducha é tão natural para nos brasileiros que, quando estou na europa, às vezes me esqueço que tenho que fazer a tal pergunta: Há ducha no quarto?
Mas acho pior quando sou informado que o quarto tem ducha e depois constato a presença da ducha mas ela está sobre uma banheira. Não tem jeito, são duas coisas incompatíveis: banheira com fundo arredondado e liso, e sabão. É queda na certa. E por outro lado, o chuveiro tem que estar numa altura ideal. coisa que a banheira não permite.
Uma vez, em Sevilha, me hospedei em um Hostal com ducha no quarto. Minha surpresa ao entrar no quarto foi constatar que a ducha estava literalmente dentro do quarto, ao lado da cama, e não num sala separada.
Para resolver o problema do escoamento da àgua um gênio sevilhano decidiu inclinar o piso do quarto todo, de modo que tomar banho ali era um exercício de malabarismo. Na verdade dormir, ou permanecer naquele quarto exigia malabarismos. Eu passei uma semana sem lavar os pés, já que invariavelmente chegava bêbado no Hostal, e levantar o pé era mais do que impossível ehehehehe.
E ainda há as hospedagens nas quais seus proprietários se sente no direito de bater à porta para reclamar que o banho está demorado demais. É decorrente.
Esses exemplos demonstram, categoricamente, a total falta de engajamento por parte dos europeos à refrescante causa da ducha ehehe.
Sobre o transito em são paulo, eu devo dizer que de tanto o Idelber afirmar que os paulistas são bons motoristas, estou começando a acreditar nisso.
Mas o que mais me enerva no transito daqui, é o fato dos motoristas que trafegam numa avenida qualquer bloquearem o acesso a outros que querem entrar na tal avenida. É uma guerra. A da turma da 23 de Maio contra a da turma da Av. bandeirantes. Uma rua ou avenida contra a outra.
É um saco esse espírito de grupo no trânsito paulistano ehehehe.
Idelber, já que você esta me ajundando a ver os motoristas de são paulo sobre um outro ângulo, vou começar uma campanha para ajudar você a ver o futebol sobre um outro angulo também.
Eu até entendo sua frustação em relação ao Galo, mas por exemplo, você bem que poderia ver o futebol sob o ângulo de um time que foi ao fundo do poço e resurgiu vitorioso. Como o Corinthians, por exemplo. E veja que bom, as cores, ou a falta delas, são as mesmas.
Brincadeiras à parte, seus textos sobre futebol fazem muita falta.
Abraços, e curta muito sua estadia.

fm em maio 14, 2009 6:50 PM


#56

Acho que a frase do Jobim que citaram acima é algo como: "Nova York é bom, mas é uma merda; o Rio é uma merda, mas é bom". Acho a coisa mais sintética e inteligente que já disseram sobre nuestra vila...

João Marcelo em maio 14, 2009 7:02 PM


#57

O melhor texto que já li sobre expatriados estava em uma revista de avião. Clique no título deste post para ver o texto completo: http://maffalda.net/2006/05/nowhere-man-tom-mueller.html.

Maffalda em maio 14, 2009 7:05 PM


#58

Idelber, a misteriosa transformação de cidadãos hospitaleiros em vikings homicidas não é exclusividade brasileira e, nem mesmo, fenômeno recente. Vale à pena ver e rever o clássico desenho do Pateta, de 1950 (!!!)"Motormania".

http://www.youtube.com/watch?v=2pUBH8zmg8w

Abração

Juliano Napoleão em maio 14, 2009 7:14 PM


#59

Uau, os comentários aqui estão ótimos.
Eu me adapto relativamente bem às indas e vindas. É claro que, como profissional das letras, a única coisa de que sinto falta é o português. O inglês e o espanhol sempre serão "ruídos" pra mim. Fico extremamente cansada quando a exposição é demais. Mas, por outro lado, consigo me abstrair com facilidade. As conversas que eu pegaria de ouvido em português, ou seja, as conversas alheias,as de passagem, eu realmente consigo não ouvir. Simplesmente desligo a audição, o que faz os outros sentidos se aguçarem. O problema é quando estou assim e inesperadamente alguém fala comigo; demoro a reagir.
Certa vez li um texto ótimo sobre como quem está acostumado a ver a cultura americana através do cinema, sente-se entrando numa dimensão 3D quando vai os EUA pela primeira vez. Eu queria nunca perder esta capacidade, porque achei fascinante a primeira vez em que vi um xerife com estrelinha no peito e chapeuzinho de xerife, uma criança vendendo limonada na frente de casa, os jovens negros com a fralda da camiseta terminando no mesmo lugar onde começa o cós da calça, ou seja, no joelho... Adoro a sensação de estar vendo um filme acontecendo ao vivo.
Uma coisa com que nunca vou me acostumar é com o porte de armas. Impossível não levar um choque quando entro em algum lugar que tem na porta um aviso de "deixe sua arma aqui". Isto me faz lembrar que em qualquer outro lugar posso estar ao lado de alguém com uma arma na cintura.
Eu, que odeio falar ao telefone, também observo uma certa obsessão do americano com o telefone celular. É quase impossível ver alguém sozinho que não esteja falando ao telefone: dirigindo, andando de bicicleta, correndo, comendo, fazendo compras etc. Isto faz com que eu dê constantes foras, por causa da minha alienação auditiva. Como boa parte deles usa fones sem fio, com o aparelho telefônico escondido em algum lugar, quando começam a falar perto de mim muitas vezes acabo perguntando se estão falando comigo.
Há outras míninas coisas de que sinto falta, tanto aqui (por exemplo, melancia sem caroço é o máximo, e nem quero saber como conseguiram tal mutação) quanto lá (ai, que saudade de um queijo minas de vez em quando...), mas tento me adaptar da melhor maneira possível. Adoro aprender novas maneiras de fazer e de ver as coisas.

Ana em maio 14, 2009 7:28 PM


#60

Idelber, adoro seus posts semi-antropológicos. Com relação ao expatriamento do banheiro, achei engraçado que você sentia falta do chuveiro estado-unidense (aliás, tem um episódio de Seinfeld que trata exatamente desse sofrimento com o pinga-pinga); de minha parte, não senti diferença alguma entre os chuveiros de lá e os de cá. Em compensação, bateu uma nostalgia danada do glorioso box de vidro nacional. Aquelas cortininhas de plástico são mesmo muito humilhantes. Agora, as coxinhas. Me empolguei super quando li o post e já ia te perguntar onde em New Orleans, onde?? E aí leio nos comentários que é de uma coxinha-fake que você estava falando. Pena. Mais um motivo para eu aproveitar as coxinhas, croquetes e tortinhas da minha avó enquanto há tempo. Um beijo e boas férias!

Camila em maio 14, 2009 8:23 PM


#61

Idelber, acho que o trânsito no Brasil é um caso perdido. É inacreditável como governos atrás de governos (federais, estaduais, municipais) não dão a mínima sequer para o argumento mais pragmático de que, cada vida que se perde, significa uma pessoa a menos pra produzir riqueza, consumir, pagar impostos. Está pouco se lixando para a vida humana? Pense ao menos no dinheiro que deixará de circular com a morte de um cidadão. Faça as contas. Mas nem isso. Falar em mobilidade urbana no Brasil é papo de comunista. Segurança no trânsito é fechar as janelas e ligar o ar-condicionado. Se possível, ter um carro blindado. Às vezes, acho que o trânsito é um meio de controle populacional. Em todos os sentidos. Quem não morre, se delicia do ódio causado por um engarrafamento. Está consumido, mas, uai, o ódio lhe lembra que PODE ter um carro, PODE pagar o IPVA, PODE pagar o seguro, PODE pagar o combustível, PODE pagar a manutenção, PODE pagar as vagas de garagem. E assim, aceita o seu destino. "O poder tem seu preço", deve pensar. O motorista é o mais bovino dos cidadãos. Mas, ai se ele encontra uma rua deserta.

Cajueiro em maio 14, 2009 8:37 PM


#62

Seja muito bem-vindo e aproveite bem a estadia! Um abraço!

José Eduardo R. de Camargo em maio 14, 2009 9:30 PM


#63

Nada como o solo e os costumes da terrinha.

Guilherme Póvoas em maio 14, 2009 10:57 PM


#64

Depois de uma vida em BH, estou em Brasília há três anos e ainda tentando amortecer o choque. Não consigo definir o que é Brasília, mas garanto que não é cidade. É um local onde as pessoas transitam da casa para o trabalho e vice-versa. É interessante por reunir pessoas de todo país. Mas, talvez pelo desenho positivista, Brasília tem o dom de afastar as pessoas, gerando um isolamento absurdo. Você sabe que existem vizinhos porque eles passam de carro na sua porta e colocam o lixo para fora. Diz a lenda que o brasiliense que mora em prédios, antes de sair de casa, verifica se o corredor está vazio pelo olho mágico. Assim, não precisa desejar “bom dia” a ninguém.
As tesourinhas, a que a Mariê (#33) se refere, são traumáticas para os recém chegados. O próprio Oscar Niemeyer não passava por elas. Abandonava o carro nos canteiros e seguia a pé. Ele se inspirou em Moscou para fazer a cidade, mas, devido à rigidez com que o projeto foi implantado, o local ficou devendo em humanidade. Depois de passar por aqui, Baudrillard diagnosticou:
“Em Brasília, a abstração da cidade oferece pelo menos uma certeza: ao menos aqueles que são loucos o suficiente para atravessar suas vias expressas urbanas – pondo a perigo suas vidas no processo – são seres humanos. A raça humana não é, em nenhum lugar, tão incongruente como nesse entorno extra-terrestre, com a exceção dessas criaturas minúsculas que se tocam e andam a pé.”

jeferson melo em maio 14, 2009 11:48 PM


#65

desde os 17 anos, ao deixar minha governador valadares, na época com menos de 20 mil habitantes, me sinto um expatriado neste país.

reencontrei minha "experiência valadarense" há dois anos, quando passei seis meses, ao lado de minha filha e neta, numa cidadezinha de dez mil habitantes no máximo. natividade, perdida na solidão dos cerrados de tocantins, não se parece nem um pouco, tanto do ponto de vista geográfico como urbano, com a valadares da minha infância e adolescência, exceto por um detalhe: é uma cidadezinha do interior com gente acolhedora sem pressa para nada. o sol demora um tempo quase infinito para atravessar o azulão do céu desde que nasce atrás da serra até se por em cores refulgentes na linha do horizonte definida pelos platôs escarpados dos cerrados. os pássaros parecem voar em slow motion. os nativitanos avançam em movimentos gentis pelas ruas semi-desertas sob o calor escaldante como se iluminados pelo nirvana búdico. testemunhei um fato inalcançável pra muitos avôs urbanóides: minha neta aprendeu a andar de bicicleta com seus coleguinhas de rua que andam em bando pela cidadezinha como as andorinhas ziguizagueiam através da sua paisagem carregada de quietude.

ali, mineiro-estrangeiro a maior parte da minha vida, também tive a minha iluminação: compreendi, aos 63 anos, a origem de todas as minhas neuroses e inquietações. céu e inferno são escolhas pessoais.

joão gil em maio 15, 2009 12:14 AM


#66

Mais uma temporada brasileira, Idelber! Beleza!
Em relação às nossas universidades, concordo com você, no geral, principalmente em termos do recém-doutorado na instituição de origem do doutor.Isso é muito injusto, mesmo, por propiciar protecionismos e privilégios. Quanto aos concursos, a coisa depende da idoneidade, honestidade e senso de justiça da banca. Eu, por exemplo, vim parar aqui na UFSC por ter sido o primeiro aprovado em concorridíssimo concurso, mesmo sendo forasteiro. E fui bem recebido.
A respeito dos choques culturais, concordo com o Leo do #54: é duro topar com crianças de rua, no Brasil. Quando comentei sobre isso, em uma temporada em Cuba, o pessoal ficou horrorizado. Mesmo naquele miserê, lá não tem essa de abandonar crianças à própria, digamos, sorte.
Opa, daqui a pouco aparece alguém pra mandar pra lá!
Abrass

Jair Fonseca em maio 15, 2009 12:21 AM


#67

Bem-vindo, Idelber! Que pena que você não vai passar por São Paulo dessa vez. Aliás, essa bipolaridade dos brasileiros expatriados a qual você se referiu não me é estranha: Eu, como nordestino radicado em São Paulo, não raro, sinto algo parecido - e com meus pais é mais frequente.

abração

Hugo Albuquerque em maio 15, 2009 1:08 AM


#68

#64 Jeferson, Brasília realmente é uma cidade inumanda (não acho palavra melhor), não é feita para pedestres e não tem aconchego. Suas vias são uma loucura nesse sentido de excluir o humano. As tesourinhas, quando não se conhece são realmente um pesadelo. Mas depois que se pega a lógica da coisa fica tudo fácil demais. Só pra se ter uma idéia Brasília é o único lugar do mundo onde eu não me perco.
Ah, e meus vizinhos não fazem parte desse universo do olho mágico, cumprimentam sempre, e sempre de cara boa. Nenhuma intimidade, mas também não procuro por isso, mas um cordial bom dia, boa noite, sempre.
Espero que vc comece a gostar mais daqui, embora digam que quem gosta adora e quem não gosta odeia essa cidade.
Abç

Mariê em maio 15, 2009 1:35 AM


#69

Bom, dos choques que já experimentei o único que me frustrou (você deve se lembrar) foi o da carne argentina. Juro que comi umas solas de sapato por lá, para minha imensa desolação. Talvez seja a globalização, o mercado que esteja obrigando nuestros hermanos a exportarem a carne boa. Sei lá, pra mim é um mistério insondável. Garanto que, mesmo sendo mineiro, conheço um bom pedaço de carne - paladar treinado em Porto Alegre, churrascarias e outros eventos gauchescos pelo sudeste. Fora isso, quando voltei depois de 10 dias em Pernambuco, senti um prazer odissíaco ao rever um fogão a lenha sob manjares que só MG faz por você.
É isso.
Seja bem vindo.

Beto em maio 15, 2009 2:53 AM


#70

Puxa, tanta coisa que responder aqui! Acho que vou deixar por aqui mesmo. Pode né? Os comentários estão muito bacanas -- aprendi muito, me diverti muito.

João Gil, o seu comentário me emocionou.

Idelber em maio 15, 2009 3:38 AM


#71

E, Cláudio, é claro que está marcado nosso chopinho com carne na chapa no Mercado.

Obrigado a todos pelas boas vindas.

Idelber em maio 15, 2009 3:45 AM


#72

eu também pensava que brasileiro dirigia mal, até conhecer os motoristas angolanos. aqui tem até um monumento ao caminhoneiro onde se vê a estátua de um homem erguendo um volante com suas duas mãos. ou, como se quisesse dizer: vejam o que sobrou do caminhão...

Iraldo em maio 15, 2009 5:25 AM


#73

Eu já morei em quatro estados, experimentei mudanças culturais bastante significativas, mas nunca tive dificuldade em me adaptar. Essa história da coxinha me intriga cada vez mais.

Também tenho um compromisso pessoal com uma determinada coxinha quando vou a Juiz de Fora. Não é qualquer uma, é "aquela" coxinha, que se compra com um guaraná caçula (quase não existe mais essa garrafinha de vidro, acho que a venda é para clientes selecionados).

É um lance forte mesmo. Tão forte que eu já cheguei até a comentar isso com o dono da lanchonete. É o mesmo cara, filho da dona, que continua dona, aliás, dos tempos que eu batia cartão na lanchonete. O cara riu. Disse que eu não era a primeira pessoa a fazer o comentário. E que no dia anterior uma fulana tinha ido lá para informar que tinha criado uma comunidade de saudosistas da coxinha no orkut.

Uma amiga, que mora em Floripa, me contou que vai a Juiz de Fora no final de maio. Ela não conhece a cidade. Me perguntou o que eu sugeria. Adivinha a minha dica?

Fábio Carvalho em maio 15, 2009 5:56 AM


#74

Eu acho que mudar de país é, de um certo modo, mudar de identidade. Porque a identidade tem muito a ver com o teu entorno, com o que você faz, as roupas que você veste, teus hábitos. E isso não é definitivamente fácil, principalmente se você já viveu por tempo suficiente imersa num determinado contexto. Sou de BH também e vivo em Milão há quase 3 anos. Parece pouco, mas minha impressão é de que tem muito tempo, dada a densidade da experiência. Eu fico lembrando de quando eu, recém-chegada, me sentia uma ET com os casacos pesados, com as roupas sobrepostas em camadas (estilo "cebola", que a gente veste veste veste pra sair na rua e depois tira tira tira dentro de casa). Eu tive dificuldade até com zíper: na hora de sair do trabalho, por exemplo, minhas colegas se vestiam rapidinho e ficavam um tempão me esperando! E o estilo então. Quem era eu, que tipo de roupa eu gostava/me sentia cômoda; que tipo de programa me agradava; os trajetos, os percursos, as ruas da cidade sempre tão estreitas e tão curvas, sempre tão parecidas ao ponto de me confundir. Os prédios antigos, os balcões pra fora parecendo que eram dependurados. Ahh, e a língua! A língua que eu achava que sabia e descobri que estava no período da lalação ainda. Comunicar-se em outra língua acontece numa viagem de turismo, se você tem boa vontade. Ser inteligente em outra língua, tirar teu sustento dela, são outros quinhentos. As modalidades, os códigos de convivência, o ritmo. Tudo alterado. É como você ter de construir um outro eu. Mantendo o Eu, claro, senão você é um esquizofrênico. Hoje já me sinto "expatriada" como vocês disseram e costumo dizer, brincando com a expressão pejorativa "extra-comunitário" que usam aqui na Itália pra referir-se a quem não é europeu, que sou EXTRA-TERRESTRE. E tenho visto vantagens nesse sentimento, pois sou mais livre pra realizar minhas intervenções culturais e sociais. Tenho uma saudade boa do Brasil, bem controladinha dentro do peito. Mas minha casa é aqui. Sinto uma emoção incrível ao chegar no meu apartamentinho tipicamente europeu e ver os meus objetinhos, o cheiro da minha família, da comidinha que a gente faz. Lar é isso, não é? Um abraço a todos.

Claudia Souza em maio 15, 2009 7:05 AM


#75

Ei, Idelber, vamos nos ver !!
Abraços,
Fefê

Fefê em maio 15, 2009 9:43 AM


#76

idelber, vi a troca de palavras com o Franciel. espero q ele tenha te linkado isso aqui (genial):
http://impedimento.wordpress.com/2009/05/13/reminiscencias-e-contradicoes/

arbo em maio 15, 2009 10:46 AM


#77

Idelber, benvido a cidade do glorioso. Minhas experiências de expatriamento são curtas, mas capazes de gerar um sentimento de desprendimento de lugar.
Sempre achei o transito de BH pior que demais cidades brasileiras. Porém, por ser um lugar com uma geografia particular, acho que as pessoas sabem explicar melhor as localizações. Em Porto Alegre, achei o transito gentil e ordenado. Quase tive um filho de alegria quando um carro parou para que eu pudesse atravessar a rua. Porém, não sabem informar como chegar ao Parque Redenção, caso você esteja a 3 Km de distância. E isso se aplica a Brigada Militar. Apesar de não saberem explicar, não se deve assustar se se oferecerem para acompanha-lo ao destino.
Sempre penso no Rio como o lugar do caos ordenado. E o transito de lá também é assim. Acho que Sampa tem os melhores motoristas. Passamos uma vergonha imensa certa vez. Estavamos em uma rua lateral (perpendicular) para chegar a travessia santos-guarujá. Havia um engarrafamento monstro. Um cara abriu para entrarmos. Porém, não era para entrar, era para atravessarmos o engarrafamento e voltar ao final da fila. Nunca escutei tanta buzina. Quando entramos no Ferry viram que a placa do veículo era de Minas e entenderam. Outra coisa que me assustou em São Paulo foi o fato dos sinais (faróis, farolera, etc) ficam do outro lado do cruzamento. Se isso fosse em BH, não haveria transito. Aqui, a cultura de fechar cruzamento é absurdamente comum.
Outro grande choque que passei foi quando estava no estado do Amazonas. Lá na cabeça do cachorro, em Santa Isabel do Rio Negro. Acostumado com o ritmo de BH, quase entrei em colapso. Uma viagem da cidade à Manaus demora 2,5 dias. E a distância é quase a mesma de BH a Valadares, porém o trecho é feito a barco pelo Rio Negro. As pessoas falavam na maior tranquilidade que iriam a Manaus e que chegariam em duas semanas. E nisso, inclua a prefeita, que morava em Manaus. Outro choque na cidade foi ver que tudo, absolutamente tudo, fechava de 12h às 14h. Mas a isso rapidamente me adaptei, pois o sol neste horário é inclemente. E o melhor a se fazer era ir para o Rio Negro e se banhar. Outro choque, mas este me doeu muito, foi a questão do fuso-horário diferente. Almoçava todos os dias no unico restaurante da cidade. Nunca me importei de a televisão ficar ligada no horário da refeição e até gostava, pois dava para acompanhar noticiário esportivo. Contudo, em Santa Isabel era um insuportável infortunio (de fazer perder o apetite), pois era o horário em que passava VídeoShow na globo. Era um sofrimento indizivel escutar todos os dias a Angélica.
Desculpe ter saído um pouco do tema.

Saudações alvinegras!

Rodrigo Gomes Freitas em maio 15, 2009 12:27 PM


#78

Só mais uma coisinha: uma amiga escreveu um texto no blog dela sobre a experiência de morar no centro de BH. Muito legal
http://viveretctera.blogspot.com/2009/05/se-nome-seu-bairro.html

Rodrigo Gomes Freitas em maio 15, 2009 12:34 PM


#79

Chuveiro bom, só importado mesmo e pagando mais caro. Os da Lorenzetti são uma piada.

Rodrigo em maio 15, 2009 12:53 PM


#80

meu querido, é verdade. os mineiros no trânsito são um perigo mortal. morei dois anos em JF e fiquei assustada, principalmente nas estradas. pelo que sei, o índice de acidentes lá é o maior do país, e vi muitos. mas saí viva e adoro Minas anyway, embora pouco depois de estabelecida lá, passado o entusiasmo inicial, só ficasse ouvindo Tom Jobim e chorando pela "Guanabara" da boca banguela. bem clichê mesmo. acabei voltando. seja bem-vindo.

maira parula em maio 15, 2009 1:06 PM


#81

Fábio,

Não sei qual lanchonete é esse, mas em JF há mesmo muitos rituais: o mechidão do Galdino, o torresmo do Bigode (apesar disso aqui http://folhademacondo.blogspot.com/2007_12_01_archive.html#8770708269771078463)...

Beto em maio 15, 2009 1:27 PM


#82

e se posso deixar um comentário de passagem, tendo a me surpreender com a facilidade com q as pessoas decretam certas coisas como

"Em Porto Alegre, achei o transito gentil e ordenado. Quase tive um filho de alegria quando um carro parou para que eu pudesse atravessar a rua. Porém, não sabem informar como chegar ao Parque Redenção, caso você esteja a 3 Km de distância. E isso se aplica a Brigada Militar. Apesar de não saberem explicar, não se deve assustar se se oferecerem para acompanha-lo ao destino."

Uso o parágrafo para efeito de exemplo, não é nenhuma implicação, pois foi só um dos mtos q li aqui. Não sei se foi o caso, mas COM O QUE ME SURPREENDO é pessoas passarem pelos lugares e voltarem de lá com frases afirmativas assim. Não sei se estou sendo mto chato, mas é q me surpreende mesmo. Vindo de pessoas q admiro (e portanto FALAM-ME com mais segurança) tendo até achar incrível isso. Mas no geral me parece INACREDITÁVEL, na real. Deve ser efeito da cadeira de Estatística q tô fazendo. Mas tu passar UMA VEZ (ou vezes insuficientes) por um lugar e voltar de lá com um guia de viagem repleto de verdades me parece meio ilusório.
Claro q diverte às vezes.
Ah, do exemplo em questão: em Porto Alegre inúmeros carros NÃO parariam (é a moda), a grande maioria das pessoas não tem mta noção espacial (isso no MUNDO, não particularmente em Porto Alegre), e essa história de acompanharem você até o destino acabou ontem, quando inventaram A MODERNIDADE (ns)

arbo em maio 15, 2009 3:08 PM


#83

Sim, sou mal informado (infelizmente) sobre o trânsito do dia-a-dia de Porto Alegre, mas me pareceu muito mais humano que o trânsito de outras capitais, achei. A questão de saber bem a localização não é demérito, e sim, uma características. Se soou depreciativo, peço desculpa, pois não foi minha intenção. Acho, através da minha restrita vivência em outros estados, que os brasileiros não sabem informar bem. Característica, novamente, para mim, os belohorizontinos desempenham bem. E aqui eu ando muito e peço muita informação.
Quanto a prestatividade do povo portoalegrense continuo achando que é verdadeira.

Rodrigo Gomes Freitas em maio 15, 2009 3:58 PM


#84

Acho q não me fiz entender. Usei o parágrafo para efeito de exemplo, sem qq implicação com ele ESPECIFICAMENTE. Portanto, não li como "demérito", só expus uma verdade que para mim VAI ALÉM da geografia. Sem rancores - repara. E também nota que eu não sou, a priori, contra classificações do tipo "o povo porto-alegrense é prestativo", só (de novo) SURPREENDO-ME com classificações, ãhn, LIGEIRAS, o que, aliás, nem sei se foi o SEU caso (mas lembra: eu não tava falando do SEU caso).
Abraço, Rodrigo.

arbo em maio 15, 2009 4:22 PM


#85

ah, informativo sobre o trânsito de porto:
c
a
o
s

arbo em maio 15, 2009 4:23 PM


#86

Beto,

De fato, existem vários rituais para os expatriados de Juiz de Fora. Tem o mexidão do Galdino, a pizza "grega" do Futrica (ainda existe?), a pinga de leite do Bigode do Vô (que baixaria o antendimento que linkaste aí em cima, a propósito), entre outros.

O meu roteiro favorito, e sempre repetido, é a coxinha da Pipita. Quando desço do ônibus na Praça da Estação, já subo a Halfeld e dou uma passada por lá. Tenho diversos amigos e conhecidos que, assim como eu, não residem mais em Juiz de Fora, mas sempre dão um pulinho lá na época do natal, para visitar os familiares. Eu já encontrei vários deles comendo coxinha na Pipita.

Fábio Carvalho em maio 15, 2009 5:46 PM


#87

Estou seriamente tentado a editar a descrição do blog, ao estilo Marina W: um blog sobre política, literatura, música e coxinhas.

Idelber em maio 15, 2009 5:49 PM


#88

hehehe... Dando a minha contribuição, a melhor coxinha que já provei foi no Frangó, em São Paulo.
Site: http://www.frangobar.com.br/

Ana em maio 15, 2009 7:11 PM


#89

Eu acho que consigo até dissertar sobre essa coxinha. (Já que a caixa de comentários não tem moderação de apetite, lá vai...)

"As coxinhas da Pipita"

Elas são graúdas. Desafiam, desde o século passado, os padrões então estabelecidos pela dita maravilhosa repartição da Ofélia. Todas seguem, nos dias atuais, com contornos mais arredondados que o modelo mental que fomos acostumados a fazer delas. Fernando Botero as apreciaria como musas alimentadoras.

Sua superfície é uniformemente dourada. Provocante. Assim se embala, em casca crocante, uma combinação de sublime paladar. Nenhuma coxinha jamais será comparada às da Pipita, que faz pose de menina sapeca no letreiro aceso da galeria. Tem sardinhas nas bochechas. É uma Lolita da gastronomia. Um perigo para quem sofre do coração e precisa se submeter às dietas.

Todas as coxinhas que pude eu ali comi, quentinhas, muitas vezes feitas na hora. Nada me foi dado por amor. Eu paguei caro por todas as mordiscadas inesquecíveis que dei. A Pipita é programa para quem tem algum sobrando. Mas é uma troca justa, eu acho. Há diversos indícios de que os tais "ingredientes selecionados", vendidos nas propagandas de tudo, ali não sejam mais uma mentira comercial.

A saborosa camada de massa macia certamente mereceu bom caldo de galinha no preparo. Depois sempre está um recheio desfiado com capricho e cheiro verde picado ainda fresco. Nenhuma cartilagem jamais percebi nas centenas de unidades que consumi ao longo de quase três décadas. Se pedida, e eu peço sempre, a versão com Catupiry é com fartura e aquele erre-arroba-sobrescrito que o diferencia de um requeijão genérico.

Nunca acompanhei de perto o seu frigir, mas tenho suspeita de que a imersão não se dá no óleo diesel comum das lanchonetes. Ela é sempre sequinha, nada de guardanapo besuntado de gordura no final. Enquanto se come, com um pouco de sorte sentado nos bancos de madeira que existem no fundo da loja, possivelmente ninguém se dá conta de quanto tempo essa experiência irá perdurar na memória. Mas muita gente tem essa memória, conforme já dito.

A Pipita vende caro suas coxinhas, calculo em mais de 5 reais a unidade. Olhando assim, a gente acha que de galinha ela não é: é perua, fina, VIP, burguesa e capitalista. Mas é deliciosa. Ela só não tem nenhum compromisso em distribuir renda e gerar emprego para além das portas da loja que a ostenta. O lumpesinato galináceo que vira nugget e coxinha congelada não frequenta seu recheio.

Eu apresentei mal a Pipita, aliás. Não é uma lanchonete qualquer. É também uma bombonière, que detém a exclusividade da venda dos também caros chocolates Kopenhagen. Ou seja, depois da coxinha, se você quiser, tem sobremesa daquelas. Se você pudesse, diga não iria amanhã mesmo dar um pulinho na Pipita para conhecer as coxinhas mais faladas das Gerais.

Fábio Carvalho em maio 16, 2009 1:28 AM


#90

Olá Idelber,

Sou expatriado há quase 4 anos, quando deixei BH e vim para Paris.

Nesse tempo, confronto-me cotidianamente com esse tal choque cultural, ao mesmo tempo em que tento entender o que seja "identidade brasileira" ou "mineiridade", uma entidade metafísica à qual me agarro como um náufrago à bóia.

Concordo quando você diz que nossa identidade passa ao largo de datas, heróis e eventos históricos.

Mas discordo quando diz que "nosso mais importante ritual de comunhão nacional seja a conversa e a piada acerca de quão esculhambado é o Brasil." Não é bem assim, às vezes é justamente o contrário: junto às inevitáveis piadinhas sobre a bagunça brasileira, vêm a rodo o tripudiar dos hábitos dos parisienses e o louvor ao sabor da nossa carne e à beleza de nossas mulheres.

Creio que a felicidade do expatriado está em saber se equilibrar entre as coisas boas e ruins que todos os lugares e todas as gentes têm. É claro, há momentos em que esse equilíbrio se rompe, como na Copa do Mundo.

Umas das minhas mais marcantes experiências de expatriado foi a de assistir a uma Copa longe do Brasil. Foi transcendental a comunhão dos brasileiros com quem assistia aos jogos. Recriávamos no microcosmo parisiense a algazarra brasileira. Depois, nos dispersamos todos e não nos vemos mais. Na noite em que Henry sepultou a desequipe de Parreira, voltei para casa sozinho, andando pelos boulevares fantasiado com camisa, chapéu e bandeira. Em torno de mim, Paris explodia de alegria. Os carros faziam buzinaço, o trânsito todo engarrafado, pessoas festejavam e zombavam de mim quando cruzavam comigo nas ruas. Foi uma daquelas noites em que o futebol é teatro da vida e que uma partida vira uma importante referência afetiva na sua história pessoal.

No mais, vou me equlibrando, enquanto a Copa do Mundo não vem, junto com outra desilusão.

Daqui a três semanas, o equilíbrio vai se romper de novo, pois chego a BH. Como sempre, vou direto a uma churrascaria, vou jogar pelada com os amigos, comer pão de queijo com café no centro (meu rito pessoal): enfim, vou mergulhar na brasilidade, seja lá o que isso signifique.

Espero (muito) que você esteja em BH no mês de junho e que você organize um encontro do blog em algum boteco de BH. Gostaria de conhecê-lo, de verdade.

Abraço

Lelec em maio 16, 2009 5:11 AM


#91

Lelec, sim, estarei aqui em junho. Entre em contato :-)

Idelber em maio 16, 2009 5:26 AM


#92

desde criança "volto" ao brasil...
meu velho é venezuelano e vivi lá de guri.
na época, minha fascinação eram o cheiro do guaraná antártica, já dentro do avião da varig, e, chegando, aquele galeão cheio de gente falando português

hoje, volto via ibéria, adoro a sensação da galera falando português, e o guaraná... maómeno
-em vitória, vou de caldo de cana e pastel frito, família, e muqueca, muita muqueca
-indo à bh, filé, picanha, chope, pernil, linguiça, chope, mercado central, miríade de botecos e restaurantes, os amigos bons, e chope ;)

pro trânsito em quase toda cidade no braza, no comments... mas o país sem defeitos que atire a primeira pedra

com certeza, duchinha na banheira é horroroso, mas hoje em dia me dá uma paranóia danada aqueles dois fios de chuveiro elétrico encima da cabeça e corpo molhados, pufs

o boi no brasil é feliz, meu chapa, feliz
olé!

rudolf em maio 16, 2009 3:48 PM


#93

Bom dia a todos

eu também sou dos que me adapto aos lugares a que compareço, temporaria ou demoradamente
tanto que sou tricolor-atleticano (aliás, Idelber, estive com o filhote ontem lá no Mineirão, apesar do Celso Roth: GALÔ!)

a vinda do Rio para BH, com alguns estágios intermediários, me provocou o choque cultural do chuveiro: acho que é porque na zona sul do Rio os chuveiros são a gás, muito mais potentes que os chuveiros elétricos, por mais que estes evoluam

eu já acho o trânsito em BH civilizado, quando a base de comparação é o carioca; lógico que está piorando, como está piorando BH como um todo com a economia alicerçada na construção civil e no automóvel

da leitura dos comentários, fica a questão: o nomadismo, de que eu sou fã ( não só relativamente a lugares, mas a trabalho e a pessoas também ) só é possível hoje asociado ao trabalho?
o nomadismo só é aquele a que o trabalho nos leva?
ou ainda há lugar para a atitude de "eu vou largar tudo e começar de novo em outro lugar"?

abçs

rabbit em maio 17, 2009 9:15 AM


#94

depoimento pessoal

quando vim morar em BH, snetia falta da finada União Soviética: a CCCP, a saber, chopp, cerveja, caminhada e pizza

explico:
C: BH há 13 anos não tinha chopp de qualidade, mas me adaptei logo à cervaja supergelada daqui
C: café; nã dava para entender como um estado produtor da café não servia um tão bom como no Rio ou em SP; hoje, isso mudou completamente
C: corrida; como ex-morador do Rio e de outras cidades de praia, foi difícil me adaptar às pistas urbanas de BH para correr e caminhar
P: pedaço de pizza; qualquer boteco no Rio tem, e aqui em BH só se acha no hipercentro, mas não são boas

Mesmo assim, adoro BH... mas tá chegando a hora de mudar

abçs

rabbit em maio 17, 2009 9:23 AM


#95

E olha que, depois da putaria da Ambev, TODAS as cervejas nacionais do 'dia-a-dia' ficaram aguadas. Até mesmo a Bohemia e a Original perderam qualidade...

Luis Henrique em maio 17, 2009 11:30 AM


#96

Caro Idelber:
Compartilho vosso espanto quanto ao trânsito no Brasil. É algo realmente difícil de se entender. A propósito, sugiro que você acompanhe o caso do deputado estadual Fernando Ribas Carli Filho, do PSB/PR, o qual matou dois jovens em uma colisão com outro automóvel em Curitiba. Há indícios de que ele teria conduzido seu veículo bêbado, a 190 km/h...
Abraço,
Rafael.
Blumenau/SC

Rafael em maio 18, 2009 8:42 PM


#97

Matheus, não sou eu... sou mestranda em antrologia, não professora de inglês :)
Lucia, te admiro. Acho isso bonito mesmo. Mas sou o tipo de de pessoa que precisa plantar as raizes em algum lugar... sempre fui apegada aos lugares e pessoas.
Acho que isso é parte do que somos como ser humano. Meu irmão tem um discurso parecido com o seu, do desapego "positivo". Mas na pratica o lance dele é outro, hehehe :)
E quanto ao trânsito, não posso deixar de dizer que a cidade do Rio é o local mais caotico do mundo ao meu ver... Salvador, Paris, Strasbourg (hahahaha) e mesmo SP, não são alucinantes como o Rio de Janeiro...

Ananda em maio 19, 2009 1:39 PM


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