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sexta-feira, 08 de maio 2009
Um adeus a Eve Kosofsky Sedgwick
A epistemologia do armário não é um tema datado nem um regime superado de conhecimento. Embora os eventos de junho de 1969, e posteriores, tenham revigorado em muitas pessoas o sentimento de potência, magnetismo e promessa da autorevelação gay, o reino do segredo revelado foi escassamente afetado por Stonewall. De certa maneira, deu-se exatamente o oposto. Para as antenas finas da atenção pública, o frescor de cada drama de revelação gay (especialmente involuntária) parece algo ainda mais acentuado em surpresa e prazer, ao invés de envelhecido, pela atmosfera cada vez mais intensa das articulações públicas do (e sobre o) amor que é famoso por não ousar dizer seu nome.
Mesmo num nível individual, até entre as pessoas mais assumidamente gays há pouquíssimas que não estejam no armário com alguém que seja pessoal, econômica ou institucionalmente importante para elas. Além disso, a elasticidade mortífera da presunção heterossexista significa que, como Wendy em Peter Pan, as pessoas encontram novos muros que surgem à volta delas até quando cochilam. Cada encontro com uma nova turma de estudantes, para não falar de um novo chefe, assistente social, gerente de banco, senhorio, médico, constrói novos armários cujas leis características de ótica e física exigem, pelo menos da parte de pessoas gays, novos levantamentos, novos cálculos, novos esquemas e demandas de sigilo ou exposição. Mesmo uma pessoa gay assumida lida diariamente com interlocutores que ela não sabe se sabem ou não. É igualmente difícil adivinhar, no caso de cada interlocutor, se, sabendo, considerariam a informação importante. No nível mais básico, tampouco é inexplicável que alguém que queira um emprego, a guarda dos filhos ou direitos de visita, proteção contra violência, contra “terapia”, contra estereótipos distorcidos, contra o escrutínio insultuoso, contra a interpretação forçada de seu produto corporal, possa escolher deliberadamente entre ficar ou voltar para o armário em algum ou em todos os segmentos de sua vida. O armário gay não é uma característica apenas das vidas de pessoas gays. Mas, para muitas delas, ainda é a característica fundamental da vida social, e há poucas pessoas gays, por mais corajosas e sinceras que sejam de hábito, por mais afortunadas pelo apoio de suas comunidades imediatas, em cujas vidas o armário não seja ainda uma presença formadora.
A Epistemologia do Armário (1990) foi um livro que inventou uma linguagem, encontrou a metáfora perfeita, fundou um campo de estudos e representou muito para todos os gays e lésbicas da academia americana nas áreas de humanas. Foi, sem dúvida, a grande obra da pensadora americana Eve Sedgwick, que nos deixa aos 58 anos, vítima de câncer de mama.
O trecho que cito vem de uma versão bem resumida do livro, traduzida por Plínio Dentzien e publicada em Cadernos de Pagu. Está disponível na internet, mas só em pdf.
Antes da Epistemologia, Sedgwick havia escrito um livro notável, desses que revolucionam a forma como todo um campo de textos é lido. Entre homens: Literatura inglesa e desejo homossocial masculino (1985) nos leva num passeio por séculos de literatura inglesa a partir de Shakespeare. "Homossocial", no título do livro, não quer dizer homossexual ou mesmo homoerótico -- designa, sim, toda a interação entre homens, na medida em que se manifeste um desejo, de ali estar. A leitura que faz Eve do romanção burguês é brilhante: mostra como as personagens femininas com frequência funcionam como peças, metáforas, códigos, moedas das relações homossociais entre homens. A análise, cuidadosa, feita com minúcia, resolve juntos dois problemas nada fáceis para a crítica: 1) o que fazem mesmo as personagens femininas no romanção do século XIX? e 2) qual é mesmo a natureza da economia que organiza as muitas interações que ali têm lugar entre os homens?
Aquela que talvez tenha sido a grande pensadora lésbica do nosso tempo nas ciências humanas é co-fundadora dos estudos da masculinidade na literatura em sua forma atual. Esse fato, que eu considero de uma beleza danada, não é um paradoxo. É só ler Eve para ver que faz todo o sentido.
Eve escreveu outros livros. Lecionou em Duke University, inclusive entre 1993 e 1996, quando eu era doutorando por lá. Por absurdo excesso de opções, acabei nunca fazendo um curso com ela. Mas tenho memória nítida do olhar brilhante com que seus alunos e alunas a acompanhavam, especialmente gays e lésbicas, que tinham ali uma linda história de sucesso na qual se inspirar. Não são poucos colegas gays e lésbicas da minha geração que confirmam que jamais estariam onde estão hoje se não tivesse sido pelo pioneirismo de Eve Sedgwick.
Com as inevitáveis simplificações, o New York Times fez um obituário. Há outro em português , com trechos da Epistemologia (dica da Mary no Twitter). A primeira fotografia é de David Shankbone, daqui. A segunda, daqui.
Por motivo de força maior, este post se atrasou bastante. Eve nos deixou no dia 12 de abril. Requiescat in pace e que se sintam homenageados gays e lésbicas que frequentam a bodega.
Escrito por Idelber às 03:24 | link para este post
| Comentários (15)
#1
Quando leio as declarações da Igreja Católica a respeito dos homossexuais, fico pensando se não seria o caso de mandar padres que expressam esse tipo de "opinião" para a cadeia. A última novidade é o tratamento "piedoso" de "doentes morais", e o reconhecimento de que, desde que não exerçam a sexualidade que têm, eles não são pessoas más, podendo inclusive abraçar o sacerdócio. Acham certamente que a recomendação de um tratamento "piedoso" pode compensar o tratamento cruel dispensado a eles por todos aqueles que, reconhecendo-os como "doentes morais", sentem-se legitimados em sua crueldade. Acho que se dá pouca atenção (por preconceito, sem dúvida) ao ponto da vida de um homossexual em que ele é mais vitimado por essa crueldade: a adolescência. A violência verbal e física a que um menino que se descobre gay é submetido na escola pelos outros coleguinhas é algo que merece tranquilamente o nome de "massacre psicológico". A televisão não toca no assunto, as revistas e jornais também não. Fala-se muito de "bullying" contra crianças obesas e nerds. Isso sem dúvida existe. Mas é refresco perto daquilo que um garoto homossexual tem que sentir na própria pele. A única diferença é que, mais tarde, o gay encontrará um grupo de referência no qual ele não é aceito "apesar" de sua sexualidade, mas exatamente em função dela, e isso abrirá espaço para uma afirmação de sua personalidade. As chagas da infância, porém, ficarão para sempre.
João Vergílio em maio 8, 2009 7:27 AM
#2
Homem - 4.000,000 de anos.
Apenas desceu das árvores apoiado pelas patas trazeiras. Não falava, não muita coisa.
Mudanças genéticas morfológicas - fala e outras características humanas diferenciáveis dos outros animais.
Homem ser em evolução - porém lenta, imperceptível que se faz devagar quase sem apercebimento, que leva a comportamentos aparentemente inexplicáveis.
Hoje - pesquisadores dizem que o homosexual tem um fator diferenciável no cromossoma X.
Enquanto a evolução não se completa, haja armário e divã.
Não se preocupe. Por hoje é só.
Fred = Jesus era Comunista em maio 8, 2009 10:30 AM
#3
A violência verbal e física a que um menino que se descobre gay é submetido na escola pelos outros coleguinhas é algo que merece tranquilamente o nome de "massacre psicológico"
Na mosca, João Vergílio. Um dos diferenciais do trabalho da Eve é que ela sempre esteve atenta para essa questão: como pensar a constituição da subjetividade gay num contexto marcado por esses horrores que você descreve.
Idelber em maio 8, 2009 11:24 AM
#4
eu acho q nunca vou conseguir estudar ou teorizar sobre isso porque sempre trago muito pra vida pessoal. isso da gente atualizar o armário o tempo todo, sair e entrar incessantemente. acho que é o que constitui mesmo a vivência gay. tipo que ser gay é ficar avaliando sem concluir nunca isso aí, se a pessoa sabe e, caso saiba, se tem importância. adorei o que o joão vergílio disse. que há depois um grupo que te aceita em função disso. e aí tem toda a coisa do orgulho gay, que deve ter problemas, mas que eu nao vejo ainda com exatidao. embora intuitivamente eu saiba q eu nao deveria ter q me orgulhar de ser lésbica. e acaba q sair totalmente do armário nunca acontecerá, por causa desses tais muros mesmo. e aquele q tenta sair definitivamente vira uma espécie de militante ou uma figura desafiadora. tipo nao sai do armário. está sempre fazendo o gesto de sair. sempre saindo, parece q nao supera isso tb. enfim. obrigada por me colocar dentro dessas leituras.
mary w em maio 8, 2009 4:04 PM
#5
A muito tempo leio seu Blog dr.Idelber e o tenho como forma de aprendizado.
Embora o foco não seja sobre cosmogênese e sim a perda irreparável dessa pensadora, não resisto em imaginar que o catolicismo começa a aceitar a teoria científica do big bang pela dificuldade de explicar no Gênesis a figura de Adam Kadmon (hermafrodita), até que se lhe tirasse "uma costela".
Sim, sabemos que é alegórico mas, ainda assim, para que se rotule e julgue tem que haver explicações.
marisa em maio 8, 2009 4:05 PM
#6
Hermafrodita - evoluçao chegando ao fim (fim? a evolução não cessa), porém ainda incompleta se estéril ou apenas com um dos órgãos funcionando.
Um estudo mostra que possivelmente seremos hermafroditas, como as minhocas.
Mas esqueceram de nos ensinar morfologia humana e sua evolução.
Então tome de ignorância e preconceito.
A escola precisa ensinar física e química para dar combustível ao AMWAY paranóico.
Fred = Jesus era Comunista em maio 8, 2009 4:52 PM
#7
mary, acho que foi com Eve que descobri que o armário não era exatamente uma "linha de chegada" que podia ser simplesmente atravessada, assim e pronto. Foi uma grande sacada, porque na cabeça de um hetero típico, não é muito intuitivo entender que o armário continua exercendo toda sorte de efeitos. Acho que mesmo para o hetero mais atento, a tendência é não entender muito bem que o armário continua mediando muita coisa, durante muito tempo, mesmo depois da "saída" (que, aprendi com Eve também, nunca é uma saída pura e simples, sem ambiguidades, sem retrocessos, etc.). Obrigado a você pela interlocução :-)
Idelber em maio 8, 2009 5:11 PM
#8
Ontem mesmo conversava com uma grande amiga lésbica sobre esse tema do armário. Eu comentava o filme Milk e dizia para ela como é surpreendente que quatro décadas depois as idéias e protestos do Milk ainda precisem ser consideradas.
Nesse assunto, a gente parece andar um passinho e retroceder cinco passos imensos ...
Ela me falava da dificuldade de sair do armário e como isso é um processo sem fim...a cada novo contato (amigos, parceiros comerciais, professores, empregados, etc) ela precisa ponderar de novo o que fazer, como e em que medida.
É ridículo, na minha visão, mas a humanidade ainda vai ter que gramar muito para derrubar completamente esse e outros preconceitos.
Vou sugerir esse livro para ela. Obrigada.
aiaiai em maio 8, 2009 6:28 PM
#9
Ignorância total minha. Para minha vergonha, sair do armário era apenas uma gíria, criativa como cada um no seu quadrado. E nunca parei para pensar na inexorável realidade do entra-e-sai do armário de muitos homossexuais. Armário é quadrado, aliás.
Fábio Carvalho em maio 8, 2009 10:39 PM
#10
lembrando que lou reed praticamente inventou a expressão, em MAKE UP:
Then comes pancake factor number one
Eyeliner, rose hips and lip gloss, such fun
You're a slick little girl, you're a slick little girl
Rouge and coloring, incense and ice
Perfume and kisses, oh it's all so nice
You're a slick little girl, you're a slick little girl
Now we're coming out, out of our closets
Out on the streets, yeah, we're coming out
1971, por aí.
;>)
Biajoni em maio 9, 2009 2:13 AM
#11
Posso acrescentar que o sair do armário não lida só com a reação do "outro". O processo interno pega demais tb. Tem gente que se descobre na boa, sem se sentir culpado. Meu processo foi até que rápido, mas demorei anos ainda me impondo o famoso sonho "mas ainda quero ter filhos com um homem que eu amo", o que era, na verdade, nada mais do que um reflexo dos meus próprios grilos. Por outro lado, tenho várias amigas que viveram anos com mulheres e depois dos 30 se apaixonaram por homens, principalmente porque estavam a fim de ser mães (posso estar falando bobagem colocando como causa, mas os casos que estou citando, acho que tem a ver).
Então, além do confronto com a sociedade, no dia a dia, com as diferentes reações, vc ainda tem que lidar consigo mesmo.
É por isso que o grupo dos iguais acaba se transformando em gueto, uma espécie de proteção, de zona de conforto.
Hoje em dia, não declaro minha homosexualidade de maneira afirmativa, deixo sempre para soltar a informação de maneira sutil e da forma mais natural possível. Por outro lado, evito carinhos excessivos na frente de crianças.
Tem gente que eu sei que não entende. Não dá. E aí, deixo quieto. As pessoas preconceituosas acabam não se dando conta que esquecem o próprio preconceito quando a afetividade surge com a convivência. Comigo, sempre foi assim. Os únicos que deixaram de falar comigo foram os pais da minha primeira namorada, quando ela resolveu contar a verdade. Até aquele momento, eu era a amiguinha mais querida da casa. :-)
Adoraria poder me portar como um casal hetero na rua da minha cidade. Mas acho que isso vai ser coisa para meus sobrinhos netos.
abs a todos
Mari em maio 9, 2009 3:20 AM
#12
Agradecendo muito o seu comentário, Mari, que mistura análise e depoimento de um jeito tão bonito, eu gostaria de destacar um trecho:
Por outro lado, evito carinhos excessivos na frente de crianças. Tem gente que eu sei que não entende. Não dá. E aí, deixo quieto. As pessoas preconceituosas acabam não se dando conta que esquecem o próprio preconceito quando a afetividade surge com a convivência.
É um depoimento como o seu que me dá a dimensão de que Eve não estava só fazendo uma teoria: estava captando mesmo a dinâmica dessa experiência que a palavra "armário" descreve. Sente-se ao mesmo tempo total compreensão pela estratégia que você desenvolveu e total raiva da estrutura social que a forçou a ter que ter uma estratégia pra isso. Queria lhe dizer que se algum dia você e sua companheira/namorada/esposa estiverem perto dos meus filhos -- (Alexandre, 12, Laura, 9) -- espero que possam ver que pelo menos essa contribuiçãozinha à melhora do mundo eu (e a mãe deles) já dei (demos).
Mais até que as questões legais de herança, plano de saúde, casamento ou aposentadoria, sempre me chamou a atenção esse interdito sobre a expressão do afeto em público. É muito brutal. Obrigadíssimo por esse comentário.
Fábio, não se avexe de não saber isso ou aquilo sobre essa metáfora. Ela é vasta. Eu sabia isso aí que você não sabia, mas em compensação não tinha nem ideia de que o armário tem, para muita gente pelo menos, se não para todos, uma dimensão reiterativa. Eu achava que não, que todos os que saíam do armário, o faziam e pronto -- que o sofrimento e tudo mais até lá podia até ser dose, mas que tratava-se de uma linha que se cruzava e c'est fini. Pura ingenuidade minha, claro, como descobri depois.
Por isso insisto sempre que em questões de homofobia, racismo, sexismo, o primeiro princípio é: ouça quem é vítima de preconceito ou discriminação. A partir daí conversa-se, claro, mas ouvir primeiro a quem passa pela coisa. Abraços.
Idelber em maio 9, 2009 4:15 AM
#13
Bia, que lembrança, cara. Na mosca. Lou é uma parte tão importante dessa história.
Ainda não li "Buceta" :-(
Mas vou encomendar chegando ao Brasil ;>)
Idelber em maio 9, 2009 5:20 AM
#14
Acrescentando sobre as crianças. Não me incomoda "ter cuidado" na frente delas. Aliás, hoje em dia, fisicamente falando, reservamos carinhos calientes para a nossa intimidade, independente da platéia. Óbvio que com adultos e amigos, numa festa, se der na telha, a gente se solta.
Mas segurar a mão, abraçar, poder dar uns beijinhos em qualquer lugar é que faz falta. Ao mesmo tempo, não me sinto a vontade chocando ninguém. Cada um tem seu mundo e temos que conviver com isso.
Com as crianças, o que eu sinto é que não cabe a mim decidir. Não são meus filhos. E não quero interferir. Nos últimos 10 anos, convivi diariamente com um grupo de 8 jovens. Eles tinham 10 e agora tem 20. Lembro bem que por volta dos 15, principalmente os meninos, eram cheios de preconceito com "viadinhos" e "gente besta". Coisa de menino, sabe? Sendo que os mesmo conviviam com a gente na maior inocência, testemunhando nosso afeto, mas sem relacionar qualquer tipo de peso/conotação a nossa relação. E o tempo foi se encarregando.
Nós nunca falamos abertamente do assunto até recentemente, deixando que eles mesmos fossem descobrindo as coisas. Invariavelmente, em algum momento, nossas amigas chegavam e relatavam a pergunta essencial: "Mãe, a Mari e a Ana namoram?"
Hoje, todos sabem, alguns falam abertamente, outros não, mas eu sinto que entendem e tenho certeza que nosso exemplo serviu para os próprios trabalharem suas percepções.
Não falam mais as besteiras que falavam aos 15 anos. E nós continuamos as mesmas de sempre. Demonstrar afeto é diferente de demonstrar carícias íntimas, percebe?
bjs
Mari em maio 9, 2009 1:10 PM
#15
Legal essa história, Mari, sim, sim, eu vejo bem a diferença -- eu pensava em demonstração de afeto mesmo. Puxa, é muita história de agressão que já ouvi por um simples andar de mãos dadas. É punk. Quantos heteros já pararam para pensar mesmo sobre a simples liberdade de mãos dadas, né?
Parafraseando a Lucia Malla, tudo de arcoíris sempre :-)
Idelber em maio 9, 2009 4:04 PM
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