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quinta-feira, 04 de junho 2009

"Amor", de Clarice Lispector e "I love my husband", de Nélida Piñon

clarice.jpgClarice Lispector, invariavelmente, construía histórias em que um personagem prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu. Esses relatos costumam ter uma estrutura que se repete de livro para livro. Em primeiro lugar, há uma descrição do embrutecimento do mundo; depois, o acontecer inexplicável da cintilação, aquilo que, a partir de James Joyce, convencionamos chamar de epifania; finalmente, uma restauração estranha, distanciada da ordem embrutecida. Até aí, não há nada de muito novo. De certa forma, poderíamos dizer que toda literatura narra isso mesmo: ordem / ruptura da ordem / recomposição da ordem. O que é (o) “Amor” senão isso?

De onde, então, a fascinação por Clarice?

Há um momento na trajetória de Clarice, ali pelos anos 50, no período de composição do livro Laços de família (antologia na qual se publica o relato “Amor”), em que a ordem passa a ser inequivocamente associada à vida de uma mulher de classe média. É assim em A Paixão segundo G. H., em Feliz Aniversário, em “Amor”. Reparem no cuidado com que o narrador se refere ao apartamento que estavam aos poucos pagando. A ruptura dessa ordem, também nesse período, começa a ser representada pela emergência abrupta de um ser estranho a ela. Em A paixão segundo G. H., é a famosa barata. Em “Amor”, um cego mascando chiclete. A relação entre a ordem e a personagem não é simples de se definir. Não se trata de uma ordem imposta a ela, como se ela fosse uma mera marionete passiva. Mas tampouco se trata de uma ordem construída teleologicamente, a partir de um plano sobre o qual a personagem tivesse total controle: viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado.

Não sei se isso fica visível numa primeira leitura, mas todo o conto está construído a partir de oximoros: felicidade insuportável, tranquila vibração, náusea doce, bondade dolorosa e por aí vai. Os adjetivos não casam com os substantivos. Esses estranhamentos com a linguagem, situações em que as palavras parecem brigar umas com as outras, são uma das marcas registradas de Clarice. Acometem suas personagens e, particularmente, as mulheres. Submetidas a uma ordem claramente patriarcal, as mulheres de Clarice nunca são militantes revolucionárias em confronto com essa ordem. Elas são sujeitos de um acontecimento no sentido forte do termo: um evento que rearranja toda a ordem, assim como o lugar da mulher em seu interior. A ordem continua lá, mas tudo se transformou: alguma coisa tranquila se rebentara, afinal ela atravessara o amor e o seu inferno.

Já perdi a conta de quantas vezes lecionei, em cursos de graduação, o texto de Clarice em contraponto com o relato de Nélida Piñon, I love my husband. Em geral, situo estas duas histórias no meio do semestre, num momento em que já conheço meus alunos. Gosto de fazer uma brincadeira secreta, comigo mesmo, tentando adivinhar quem vai gostar de qual conto. Praticamente ninguém gosta dos dois ao mesmo tempo. Quase ninguém desgosta dos dois (lembrem-se que meus alunos de graduação são todos norte-americanos; para a pós, vem gente de tudo quanto é canto, mas para a graduação, não). Esse estranho parentesco e aparente incompatibilidade entre os dois relatos sempre me intrigou.

Deixo para vocês as elucubrações sobre “I love my husband”, sobre as mil e uma outras coisas que podem ser ditas sobre o texto de Clarice, e sobre as várias aproximações e contrastes possíveis entre os dois contos.



  Escrito por Idelber às 05:56 | link para este post | Comentários (53)


Comentários

#1

Introdução possivelmente útil

Era na época dos Festivais. Em todo caso, bem antes do divórcio. Havia apenas o desquite (amigável ou litigioso), e a palavra "desquitada" tinha consistência, peso, cheiro e sabor. Foi quando minha mãe ficou doente, e os quatro irmãos pequenos tiveram que ir morar em Botucatu, na casa de meus avós. Meu pai vinha nos visitar nos finais de semana.

A irmã da minha avó, tia Lindalva, andava pela casa dos cinquenta, e era desquitada. Meu pai recomendou expressamente que não a visitássemos quando ele não estivesse por perto. Uma vez por mês, íamos até a casa dela, na volta de um passeio, e tomávamos um café. Era arquivista da prefeitura. O ex-marido, eu não conheci. Dizem que, quando estava bêbado, batia muito nela, fazendo escândalo. Mudou-se de Botucatu depois da separação, e nunca mais ninguém teve notícias dele.

Acho importante lembrar, antes de fazer qualquer comentário, que é contra o pano de fundo desse mundo naufragado que essas duas narrativas se constroem. A de Clarice, infinitamente superior em tudo, consegue alçar vôo para além dele.

João Vergílio em junho 4, 2009 9:59 AM


#2

Obrigado pelo post! Sempre tive uma relação de amor e ódio com a Clarice, de modo que qualquer explicação é bem-vinda.

Li a maioria dos livros dela, e, em geral, nunca entendia lhufas, de maneira que a deixei meio que de lado em prol do Machadão.

A curiosa exceção é "Felicidade Clandestina". Esse, sim, sempre foi um de meus livros favoritos; e nunca entendi este descompasso: é um livro inconfundivelmente "clariceano", mas sempre gostei dele muuuuuito mais do que todos os outros, igualmente "clariceanos". Em particular, gostei do primeiro conto ("não era mais uma menina com seu livro; era uma mulher com seu amante") e daquele da Esperança ("uma esperança pousou na minha casa", "todos estávamos com medo da esperança").

Contudo, ela vai ter de esperar mais um pouco até eu voltar a ela... Acabei de começar Dom Quixote, e depois dele pretendo reler Os Irmãos Karamázovi!

He will be Bach em junho 4, 2009 10:13 AM


#3

Idelba, desculpe por fugir do assunto, mas você devia dar uma olhada nisso:

http://meumundoenadamais.spaces.live.com/blog/cns!39D1DB10A661515A!4991.entry

Uma jornalista escreveu um livro que trás sérias acusações contra a Fundação Armando Álvares Penteado(FAAP) em São Paulo, e agora está sendo caçada pela justiça, e alem disso a veja, da editora abril que tem relações comerciais com a FAAP tenta fazer pouco das sérias e bem documentadas acusações que o livro faz.

Arthur em junho 4, 2009 10:25 AM


#4

vou ler os contos em sequência.

agora, parabéns a He will be Bach. eu ainda preciso juntar coragem para minha quarta tentativa de ler dom quixote. sempre aparece uma outra leitura mais urgente, pra alguma matéria ou que eu pego emprestado e preciso devolver logo. eu chego lá.

Anselmo em junho 4, 2009 10:51 AM


#5

Eu acho esse texto da Clarice muito bom. Meu amigo Cesar me alertou faz alguns anos já para a qualidade, digamos assim, socio-lógica contida em alguns textos dela, ele refletia sobre o "A hora da Estrela". E nessa sua leitura de "Amor", Idelber, senti também essa provocação: a linguagem nos interpela (quase sem nos atropelar) sobre uma condição que poderíamos chamar de social. Ele fala através de uma mulher de classe média. Como poderia ela se dizer senão fosse impelida a descrever contradições "externas" vividas em seu "interior"? Para o escritor existe aí a contudência que é construir a verossimilhança. O problema posto para nós leitores é o de aceitar que existe uma "lógica" nessa aparente "contradição", que existe um "sujeito coerente" em alguém que fala de um "eu" pleno de tensões e dissonâncias internas. Diria que quase nada fica visível numa primeira leitura. Mas os oximoros aparecem como instrumentos fortes da linguagem que trazem a tona elementos que muitas vezes a busca de unidade e coerência escamoteia numa forma mais linear de metáfora. Na minha opinião é esta a grande diferença entre o texto da Clarice e da Pinon(e que vc de alguma forma captou sem deixar explícito): no cerne da construção da personagem Clarice re-constroi a verdade não-coerente contida nas tensões internas de um indivíduo- mulher numa dada sociedade. Pinon está em outro registro, mas qual?

Jampa em junho 4, 2009 11:00 AM


#6

Sempre amei Clarice e seu "estranhamentos", já Nélida foi uma grata surpresa, nunca tinha lido nada dela.

Desvendar o que é ser mulher.

"Ser mulher é perder-se no tempo, foi a regra da minha mãe... o tempo não é o envelhecimento de mulher, mas sim o seu mistério jamais revelado", Nélida.

Minha mãe vem dessa geração da mulher "princesa da casa", eu já nasci em plena revolução sexual, feminismo, luta contra a opressão em que essas mulheres viviam.

Depois de ler esse texto me veio a pergunta, e hoje o que é ser mulher?

No âmbito social, hoje as as mulheres obtiveram liberdade sexual, sexo independente de casamento, divórcio, participação no mercado de trabalho. Hoje a alma da mulher não surgi "unicamente no leito,ungido seu sexo pelo homem".

Os texto dessas mulheres me fazem pensar a alma feminina que suger de "um homem cego que mascava chicletes" ou no "futuro como uma sobremesa".

Afinal, o que é ser mulher?

Izabella em junho 4, 2009 11:20 AM


#7

engraçada essa divisão "gostar de um ou outro", eu gostei dos dois. as duas são tristes demais, dá uma sensação de agonia pensar nessas vidas delas, que não têm saída, não tem válvula de escape. pensei no filme "revolutionary road". não sei como os homens lêem isso, mas eu sempre me sinto meio claustrofóbica quando leio Clarice Lispector. é década de 50 mas também tão atual!

Surya em junho 4, 2009 11:21 AM


#8

Idelber,

Muito pertinentes as suas considerações/observações.

Se houver um tempinho, acesse:
http://tutorunopar.blogspot.com/2009/06/os-ultimos-anti-herois.html

Arlei Vieira Coqueiro em junho 4, 2009 12:14 PM


#9

O conto de Clarice organiza-se em torno de três eixos: o Cego, o Lar e o Jardim.

Falemos primeiramente do Cego.

Ele é, como já ficou dito, a irrupção do inusitado no cotidiano, desencadeando a reação de estranhamento que irá culminar na visita ao Jardim e na volta ao Lar. Um cego, por si só, já é uma figura que se destaca na paisagem das ruas. Esse, no entanto, destacou-se especialmente por estar mascando chicletes. É claramente isso que chama a atenção de Ana, e tem sobre ela um efeito quase alucinatório:

"Então ela viu: o cego mascava chicles... Um homem cego mascava chicles. (...) O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir — como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o."

Examinemos um pouco essa oposição: o cego e o chiclete. Não é um par de contraditórios, mas há claramente uma tensão entre eles. O chiclete aponta na direção da descontração, do desembaraço, da irreverência; a cegueira, na direção da da limitação, da dependência, da ausência de horizonte. Não se contradizem, mas se casam muito mal. É isso que desencadeia a sensação de estranheza diante do mundo que se apossa de Ana.

Agora, o ponto mais intrigante.

A primeira reação de Ana, tal como esta é descrita pelo narrador, é de desconforto, oposição, mal estar: "quem a visse teria a impressão de uma mulher com ódio". Rapidamente, porém, a descrição de seus sentimentos pelo cego passará a gravitar em torno daquela que é, talvez, a palavra mais recorrente no texto - a palavra "piedade". Trata-se de um termo associado originariamente ao sentimento de religiosidade, mas que se fixou na língua principalmente como sinônimo de "compaixão".

A palavra ocorre pela primeira vez no texto logo após o episódio dos ovos quebrados, quando o bonde se põe novamente em movimento: "E como uma estranha música, o mundo recomeçava ao redor. O mal estava feito. Por quê? Teria esquecido de que havia cegos? A piedade a sufocava, Ana respirava pesadamente." Note-se que a palavra aparece na boca do narrador, mas num contexto em que ele tenta reproduzir a explicação que a própria Ana tentava dar para um sentimento fortíssimo que ela não consegue compreender completamente. Mal saída da crise que a fizera gritar e deixar cair a rede com os ovos, Ana volta a observar o mundo cotidiano que a cerca, mas este não "recomeça" normalmente, idêntico àquilo que era antes. Recomeça "como uma estranha música". Mais ainda, esse mundo impregnado de estranhamento parece ter vindo para ficar. No instante seguinte ao episódio, Ana parece ter a certeza de que ele deixaria marcas indeléveis: "o mal estava feito". Tudo isso, em função de uma cena quase boba, aparentemente sem nenhum sentido: um homem cego mascando chicles. A pergunta é inevitável: por quê? Temos a sensação de que é Ana quem faz a pergunta a si mesmo. O narrador apenas a transcreve, no máximo avalizando a perplexidade da própria personagem. Por que a visão de um homem cego teria feito o coração dessa mulher disparar de repente? A pergunta retórica - "Teria esquecido de que havia cegos?" - tem como resposta óbvia - "é claro que não". A pergunta, na verdade, só sublinha a perplexidade, e introduz a reposta provisória e sem dúvida um pouco inverossímil que parece ocorrer à própria Ana naquele momento: "a piedade a sufocava". Sufocava-a a ponto de dificultar-lhe a respiração.

A resposta não é inverossímil apenas porque a piedade não costuma atingir as pessoas com uma carga emocional suficiente para alterar o ritmo respiratório. Ela é inverossímil porque está em conflito com os sentimentos descritos no momento do episódio. Como conciliar essa "piedade" com aquela expressão de "mulher com ódio" que ela exibia? Apesar disso, a menção à piedade acompanhará a narrativa até o final, exigindo uma interpretação que lhe dê alguma razoabilidade.

Num primeiro momento, a piedade serve para distinguir Ana de todas as outras pessoas do mundo. Só ela parece ter sentido compaixão pelo pobre cego. O restante da humanidade permaneceu dura, insensível, inabalável diante da desgraça do pobre homem. Por oposição a ela, fraca em sua piedade, os outros aparecem fortes em sua indiferença: "em cada pessoa forte havia a ausência de piedade pelo cego e as pessoas assustavam-na com o vigor que possuíam". A sensação de fraqueza vem, é claro, da crise pela qual acabou de passar, mas é reinterpretada à luz da chave de leitura que Ana parece ter escolhido para decodificar o episódio.

Logo em seguida, porém, e pouco antes de se dar conta de que passara do ponto em que deveria descer, esse sentimento de "piedade" começa a ganhar contornos bem mais verossímeis, imiscuindo-se no contexto geral da vida dessa mulher. A passagem é primorosa, e merece transcrição integral:

"Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite - tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro. E um cego mascando goma despedaçava tudo isso. E através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca."

A piedade não está mais no primeiro plano, nem é capaz de explicar sozinha os sentimentos que se apossaram de Ana. A piedade, agora, é o meio, a lente através da qual Ana enxerga a falta de sentido de toda a sua vida. De algum modo, essa piedade (seja ela de que tipo for, e tenha a origem que tiver) efetuou uma denúncia, ou pelo menos teve o poder de desencadear um processo de denúncia sistemática de uma existência "desenraizada". A piedade, então, irá unir-se, através dessa denúncia, a uma outra sensação: o nojo. Aquele cotidiano bem arrumado, estável, previsível e "doce" irá aparecer como algo completamente inaceitável, algo que ela desejaria pôr para fora, que lhe causa náuseas, e parece subir de seu estômago até a boca. "A piedade pelo cego era tão violenta como uma ânsia, mas o mundo lhe parecia seu, sujo, perecível, seu." Entenda-se, "ainda seu, mas sujo", "ainda seu, mas a ponto de perecer, de se desintegrar completamente, de sumir".

É só em casa, diante da realidade bruta daquela vida que, de repente, parecia não caber mais nela, que a piedade irá se despindo de seus primeiros disfarces. Abraça o filho, e se sente estranha no papel de mãe que ela aceitara até ali tão bem. Olha para as paredes da casa, para a família, para toda aquela crosta de aparências que foram se sobrepondo a ela, e já não se reconhece. Tem vergonha de estar sentindo tudo aquilo que há de mais condenável numa esposa, numa mãe, mas já não consegue negar aquela percepção bruta a si mesma. "Estava diante da ostra. E não havia como não olhá-la. De que tinha vergonha? É que já não era mais piedade, não era só piedade: seu coração se enchera com a pior vontade de viver."

O episódio do cego começa, então, a se revelar por inteiro. O que ela sentira não foi piedade, ou não foi apenas piedade. Foi uma piedade associada à constatação de que ela não estava vivendo a própria vida, e que todos os fios que a ligavam à sua verdadeira pessoa estavam rompidos, soterrados por um cotidiano no qual ela já não se reconhecia. O cotidiano de um "santo", e não de uma Pessoa. "Ah! era mais fácil ser um santo que uma pessoa! Por Deus, pois não fora verdadeira a piedade que sondara no seu coração as águas mais profundas? Mas era uma piedade de leão."

A piedade revolucionária, "de leão", que Ana sentira não fora pelo cego mascando chicletes. Fora piedade dela mesma, que se reconheceu naquele cego como um símbolo. Alguém que caminha por um mundo de possibilidades, sem que lhe seja permitido olhar para nenhuma delas. Alguém que está rodeado pela vida, mas não se sente no direito nem sequer de percebê-la, de encará-la, de distinguir suas cores. Alguém que, apesar de cego, segue pelo mundo sem se dar conta da própria cegueira, completamente à vontade na escuridão, nadando nas trevas como um peixe,de braços estendidos, sem saber muito bem o que acontece ao seu redor, feliz e infeliz, rindo e não rindo, rindo e não rindo, mascando chicles, até dar ódio naquela que, finalmente, quando o perigo da tarde parecia estar indo embora, consegue se enxergar.

Cacete, como escreve essa maldita!

João Vergílio em junho 4, 2009 12:35 PM


#10

Eu gostei dos dois contos. Cada um a sua maneira narrando histórias de mulher. Mergulhadas no cotidiano inventado pra elas. Do qual têm vontade, mas medo de sair. De enfrentar a vida e sofrer, porque bela e nojenta. E rica e espinhosa.

Os dois falam da culpa que a mulher sente quanto quer ser-se. Os filhos, o marido, enfim, precisam da sua presença. As horas estranhas são as que para pra pensar em si. E não sabe o que fazer com sua própria vida.

O cego de Clarice, pra mim, representa sua própria cegueira (in)voluntária. Por isso primeiro o ódio e depois a piedade. Por si mesma.

Por ora fica essa primeira impressão. Mais tarde tento voltar com um pouco mais.

Mariê em junho 4, 2009 1:10 PM


#11

Amigos: continuo, como sempre, lendo com atenção e reservando outros comentários para que cada um possa colocar sua leitura sem minha presença constante direcionando o debate para um lado ou outro.

Só quero reiterar que essa "incompatibilidade" entre os dois contos -- no sentido de que quem gosta de um não costuma gostar do outro -- é algo que observo entre meus alunos de graduação, ou seja, entre estudantes norteamericanos. Daí a ressalva feita no post.

Não sei por que isso acontece. Realmente não sei. Mas é minha experiência.

Idelber em junho 4, 2009 1:16 PM


#12

Eu gosto dos 2 contos. Não conhecia nenhum deles e me senti muito tocada pelos dois, chorei ao lê-los, por isso estou aqui hoje. Apesar de minha paixão por Clarice, gosto mais do conto de Nélida. Por quê? Talvez porque “Amor” seja um dos raros textos em que Clarice tenha escrito mais palavras do que precisava, há palavras “sobrando” neste conto.

Os 2 textos me parecem ter em comum a vida sem felicidade (“descobrir que também sem felicidade se vivia”, C). As personagens principais vivenciam um tipo de casamento muito tradicional, em que são submissas, “princesas da casa” presas a uma ordem que está fora delas, está no tipo mesmo de casamento, para que este “funcione” e a vida prossiga. Esta aparentemente inexpugnável “ordem sem felicidade” contém no entanto uma brecha, uma espécie de desarrumação interna, de rápido deslocamento da personagem, que a permite, mesmo por um instante só, ver a própria vida não como foi ou é, mas poderia ter sido (“o futuro”, no caso de Nélida; o sentimento pelo cego, em Clarice). Esta breve, estreita brecha é extremamente perigosa, pois ela — e só ela — tem o poder de expor para a personagem a essência do seu casamento, contrapondo-lhe a visão de uma alternativa (“outra pátria, outra língua”, N).

O conto de Nélida parece centrar-se na violência contida naquela “vida sem felicidade”, principalmente no esforço patético da personagem para satisfazer um marido que não pode nunca ser satisfeito. A brecha aí é rápida mesmo. O conto de Clarice, ao se estender sobre as brechas que representam o cego e o Jardim Botânico, parece centrar-se na oposição vida que é x vida que poderia ser. A incômoda, perigosa visão de um outro futuro, “felizmente é uma sensação fugaz” (N, irônica) nos 2 contos: finalmente tudo volta à ordem da infelicidade, as duas aprisionadas, afastadas “do perigo de viver”(C). Os títulos dos contos, parecidos, são primores de ironia.
PS - Joã Vergílio, a-mei o seu comentário, que li agora, após escrever o meu aqui. Ele me mostrou coisas a respeito da piedade, do poder da piedade na personagem de C., que eu não havia percebido.

Janaina Amado em junho 4, 2009 3:37 PM


#13

Eu gosto mais do texto da Clarice porque o da Nelida parece mais militante, quase didático. No texto dela, os questionamento da mulher são muito profundos e não combinam com a situação em que ela está. Embora ela repita que esse é o acordo e tal. E nenhuma das duas mulheres dos contos é militante revolucionária. Mas é importante o salto que elas dão. Uma coisa bem beauvoriana mesmo. Da transição. Aquilo da "mulher naturalizada" transformar-se em "mulher em situação" e aí, então, "mulher liberada". As duas me pareceram dar esse salto aí, e saíram da condição naturalizada. E estão percebendo as construções. A mulher da Nélida justifica as construções (daí duvido que ela vá chegar no terceiro estado) e a mulher da Clarice está convulsionando com isso. E percebendo o "natural" como podre etc. Me parece que ela vai voltar pro estágio 1, não sei se tem estômago pra permanecer "em situação", muito menos pra se libertar. Mas isso é super palpite, claro. A mulher da Nélida é o inimigo. Sério. Tem de penca. Extremamente conscientes, são conservadoras por opção. Tipo Rainha Vitória assim. Usam a "revelação" pra fortalecer o patriarcado. Porque acreditam nele ou sei lá. Ela é uma vaca, no conto. Porque ela sabe o que tá acontecendo e tem a vaidade de nos mostrar que tá consciente, mas não move uma palha pra alterar. Fala em "futuro" e blá. Mas eu acho que é só pra mostrar pro marido também. Que ela tá quieta, mas tá sabendo. Perigosa, essa mulher. Mas do ponto de vista do feminismo, acho que não vai virar nada. Nenhuma das duas.

mary w em junho 4, 2009 3:55 PM


#14

Só passei para registrar que desde que li os dois contos ontem não me ocorre nada para dizer. Ou ocorrem tantas coisas que fica impossível de escrever. Vou esperar mais um pouco para ver se o sentimento toma algum formato inteligível.

Cláudia em junho 4, 2009 4:08 PM


#15

Cheguei a pensar na 'piedade' como um sentimento provindo do superego da Ana, como que sentindo compaixão cristã pelo cego que se permitia mascar chicles, como se esse ato em si fosse transgressor da ordem natural à qual ela estava submetida.

Mas pensando com os amigos, acima, de fato parece uma extrema piedade por si mesma, e um ódio concomitante, também por si, ao ver-se presa a um roteiro pré-estabelecido de feminilidade.

abraços!

Thiago Cunha em junho 4, 2009 4:16 PM


#16

Creio que os dois contos tentam abordar o nexo entre as relações afetivas e o tempo. Um dos textos mais fortes de Adorno é um fragmento de Minima Moralia, suas "reflexões sobre a vida lesada", em que ele aborda justamente este nexo, tentando descobrir o porquê da exclusividade nas relações afetivas - o porquê nelas vigora o "princípio da anterioridade", e daí o ciúme, o sentimento de posse, o conservadorismo (o inferno do sempre igual). A hipótese de Adorno é de que "a irreversibilidade do tempo oferece um critério moral objetivo" na manutenção das relações - e esse princípio da anterioridade embasaria também desde os trotes universitários até o fascismo, pois "Historicamente o próprio conceito de tempo se forma com base na ordem da propriedade": a cronologia nasce para "objetivamente" ordenar o que é de quem. Amparadas em critérios de propriedade e de tempo cronológico, as relações afetivas deixam de ser uma relação específica entre pessoas, para ser uma relação exclusiva entre elas. O que os dois contos abordam é justamente uma temporalidade dos afetos que transborda este padrão. Nas ficções de Clarice, isto é comum, como v. ressaltou; ninguém como ela trabalha o acontecimento que vem a irromper o tempo cronológico, às vezes na forma da "história natural" ou "imemorial", como em Amor ou G.H, às vezes na forma do "acontecimento místico", como em A hora da estrela (e talvez esta novela rompa com o padrão mulher de classe média; trata-se de uma lupen, mas mesmo assim isto não significa uma conversão de Clarice à idéia de representação dos romances sociais: o acontecimento de Macabéa é "igual" aos de G.H. ou mesmo Água viva - até certos trechos deste estão presentes iguaizinhos n'A Hora da estrela), em todo caso, sempre uma outra ordem do tempo que se insinua dentro do tempo cronológico, que ameaça destrui-lo de dentro - daí a força "revolucionária" que vejo em Clarice: a felicidade, a completa subversão da ordem acontece, isto é, se torna possível dentro da mesmice do cotidiano, que guarda estilhaços de um tempo outro (o tempo kairológico), de uma outra temporalidade, de novas formas de afeto (a barata, o cego, a cartomante, etc.) - e é isso que os marxistas mais caretas não compreendem, confundindo-o com uma saída via interioridade, quando absolutamente nada acontece nas ficções de Clarice sem um impulso externo, ainda que mínimo - nas suas ficções todo instante e todo evento é uma pequena porta por onde pode entrar o Messias, ou a revolução). No conto da Nelida Piñon, isto tudo também aparece, ainda que, talvez, de forma mais simplista: não há propriamente um acontecimento, a outra temporalidade que emerge se dá na forma mais binária do passado/futuro (com direito a uma referência um tanto esquisita quando menciona a África), mas aqui se trata de uma narrativa em primeira pessoa, e acho que tem um componente de representação social ausente em Clarice. Pra encerrar, que já tá longo demais o comentário: nos dois casos, a irrupção desta outra temporalidade tem a ver com uma tentativa de experimentar uma outra ordem dos afetos, aquela que está na própria origem de todo o afeto, uma ordem onde o casual e o mais intenso não se convertam em algo próprio e exclusivo, mas mantenham a especificidade do afeto entre as pessoas.

Alexandre Nodari em junho 4, 2009 4:35 PM


#17

Carissimos,
como interpretar o Jardim, no conto de Clarice? Ou ainda: Como um jardim tão lindo ("meio sonho") começou a passar a Ana imagens tão sombrias? Exemplo: "pareceu-lhe ter caído numa emboscada", "fazia-se no jardim um trabalho secreto", "pequenos cerebros adormecidos"(!),"crueza do mundo", "mundo tão rico que apodrecia", "o jardim era tão bonito que ela teve medo do inferno". Enfim, tudo isso após a passagem de um gato (sempre um gato!).
O cego mascando chiclete, o gato, o Jardim, todos eles me aparecem como elementos surrealistas.

Mudando de conto, uma coisa que gostei especialmente no conto de Nélida foi a irônica imagem inicial do esforço da esposa para que o marido enfrente a vida lá fora e traga de volta - para a sala de visita !! - um pão sempre quentinho e farto. Essa imagem se contrapõe completamente ao final, onde o "cotidiano confirma o gosto do pão comido às vésperas", e que será o mesmo pão a alimentá-a amanhã. Para a sociedade, essa é uma vida com pão quente e farto, para a mulher é sempre o mesmo e eterno pão amanhecido. Nesse conto o Marido é a própria hipocrisia...reclama que ela conserta unicamente a parte menor de sua vida (o nó da gravata), mas não permite a ela um futuro, apenas o presente que lhe garante sua condição feminina sem futuro.
Grato, Idelber, por mais essas duas ótimas indicações de leitura.

sidneig em junho 4, 2009 4:37 PM


#18

Opa, terminei de escrever e vejo que a Mary já interpretou algo do Jardim..."natural" como podre. Pode ser por aí. O natural do casamento como algo podre ou uma visão do inferno...rs.

sidneig em junho 4, 2009 4:43 PM


#19

Sim, é importante ressaltar, como fez o Alexandre, que A hora da estrela rompe com esse paradigma da mulher de classe média, embora, como também notou o Alexandre, o processo pelo qual passa Macabéa mantém parentesco com aqueles que vemos em A paixão segundo G.H. ou "Amor". Lembremos que Clarice experimenta forte politização na virada dos anos 60 para os anos 70. Ela esteve na linha de frente da famosa passeata dos cem mil.

Mary, seu comentário me fez pensar muito e me ajudou a entender essa bobagem com a qual ando encafifado: por que certos alunos gostam tanto de um conto e desgostam do outro. Noto que os(as) alunos(as) que preferem o relato de Clarice com frequência fazem a observação de que acharam a ironia de Nélida óbvia demais. Aqueles(as) que têm opinião oposta costumam dizer que Clarice "complica" desnecessariamente o relato e que a volta à normalidade naturalizada, no final do texto, lhes parece forçada ou inverossímil.

Idelber em junho 4, 2009 4:52 PM


#20

Idelber: acredito que A hora da estrela seja uma alegoria da censura - S.M., o narrador está o tempo todo tentando "enquadrar" Macabéa, retratá-la como uma alienada, mas ele nunca consegue levar a cabo essa empreitada, Macabéa sempre lhe escapa por entre os dedos. O final é contundente: não há um Destino (o visto pela cartomante) para Macabéa, o que quer dizer que ela constrói seu próprio destino, pela ação (pela história). Há diversas evidências textuais nesse sentido: a presença de "soldados" ao longo da narrativa, o narrador que diz escrever por "força de lei", etc. Em suma, a novela "mostra" como a alienação dos lupens, ou dos migrantes pobres, é uma construção social (Lúcia Sá argumenta que S.M. apontaria para algo como "setores médios" - não lembro o termo, mas enfim, posiciona Rodrigo S.M. como alegoria da visão da classe média; eu já acredito que S.M. indica "Sou Macabéa" - diversas vezes ele sofre despersonalizações -, e a novela trataria, a partir do contexto social imediato, das duas forças presentes na linguagem: a poética e a censória; mas enfim, este não é o tema de hoje).

Coloquei lá no meu blog o fragmento do Adorno que mencionei no meu comentário; acredito que seja uma ótima chave de leitura aos dois contos.

Abraço

Alexandre Nodari em junho 4, 2009 5:18 PM


#21

Para mim, a coisa mais interessante da revelação da Ana é que ela entende de repente não apenas a posição dela dentro do apartamento--quer dizer, dentro da família partriarcal--mas dentro da cidade--quer dizer, dentro do mundo. Em ambas as partes, essa posíção implica ter um papel em relaçãos desiguais e inconstantes, onde ela--como ela reconhece--não é nenhuma santa. "Com horror descobria que pertencia à parte forte do mundo."


É uma descoberta além da capacidade da narradora do conto da Nélida.


Outra diferença que me chamou a atenção é a especificidade no espaço e no tempo. Ana, depois de fazer as compras, pega o bonde (coisa que já não se faz) entra no bairro do Botafogo, sobe a Voluntários da Pátria em direção a Humaitá (coisa que também já não se faz, que Voluntários é mão única no outro sentido desde a abertura do metrô de Botafogo) passa o ponto dela, e desce em frente do muro do Jardim Botânico. Sabemos muito bem onde ela está.


De outras frases, podemos entender que ela mora em um desses prédios de apartamentos de 3 cômodos e quarto de empregada na Zona Sul, financiados pelo BNH. Moradia predileta da classe média carioca da época, mas, neste caso, um pouco afastado da praia para ser chique.


Onde está a narradora da Nélida? Sei lá, não me interessa muito.


Por que o inglês do título da Nélida? Porque aqui nos EUA é a terra das Stepford Wives? Então cabe perfeitamente.


Bryan em junho 4, 2009 5:39 PM


#22

Concordo com os que preferem Clarice : pra mim, o conto dela é um pequenino e perfeito diamante, o da Nélida é um strass (rhinestone) bem grande e vulgar. Aproveito para perguntar se mais algum de seus alunos é como eu, que amo os contos da Clarice, mas não suporto seus romances. Acho que é porque me dão uma espécie de náusea mental, um enjôo perfeitamente bem definido pela expressão em inglês "too much of a good thing". Da Nélida, não gosto de nada. E nem é falta de tentar.

Cynthia em junho 4, 2009 6:08 PM


#23

Idelber, excelente iniciativa, e parabéns também por deixar seus leitores tão à vontade para dizer o que pensam...
João Vergílio : sua análise é brilhante, das melhores que já li sobre o conto e clarice. Tenho a impressão de que vc já deve ter escrito ensaio ou livro sobre ela...
um abraço,
clara loperz

clara lopez em junho 4, 2009 6:20 PM


#24

Maravilhosos os dois contos e tão absurdamente atuais!

Teria muitas coisas a dizer, mas os comentaristas já estão fazendo um belo trabalho. Me delicio só em ler.

Mas...vou colocar uma pimentinha: achei os contos absurdamente atuais porque exatamente neste momento - de uns 3, 4 anos para cá - vejo crescer um movimento de mulheres que dizem que "querem ter o direito de serem esposas e mães" e que "tudo bem, eu posso trabalhar e ser independente, mas e se eu não quiser? Não tenho esse direito?".

Elas querem ser Anas e "esposas que amam seus maridos". Em geral, tendo a achar que todo mundo tem o direito de escolher o que quer, mas nesse caso, não acho não. Acho um equívoco monstruoso a mulher QUERER se colocar no papel exclusivo de esposa e mãe em pleno século XXI, sabendo de todas as batalhas que tiveram que ser lutadas - e ainda são - para que as mulheres possam ser mulheres, assim como os homens são homens.

Estou colocando isso aqui, porque quero descobrir se existem mais lados nessa história que eu não estou vendo? Será que sou eu a equivocada?

aiaiai em junho 4, 2009 6:31 PM


#25

aiaiai (!), talvez 'equivocada' não seja a palavra... Eu também achava um absurdo, até entender que, clichê dos clichês, não há fórmula, receita pra felicidade. Uma pessoa muito querida na minha vida me mostrou que ela não querer tudo o que eu quero não significa que ela queira menos do que eu. Queremos coisas diferentes, só isso. E a felicidade dela me mostrou que tudo vale a pena se a alma blablabla.

Você fala nas 'batalhas lutadas para que mulheres possam ser mulheres, assim como homens são homens'. Mas o que faz os homens 'homens'? E o que faz as mulheres 'mulheres'? Izabella perguntou isso lá em cima, e acho que não há resposta, pra nenhuma das duas perguntas. Aliás, acho que não deveria ser essa a pergunta. Acho que deveria ser 'o que faz o ser humano ser humano'? Isso me interessa muito mais.

carol de assis em junho 4, 2009 7:07 PM


#26

Cynthia, é interessante essa diferença que você nota entre suas reações aos contos e aos romances de Clarice. Para citar outro caso (e trata-se de um escritor que, na minha opinião, não chega nem aos pés de Clarice), isso também costuma acontecer com os contos e os romances de Rubem Fonseca: são textos que parecem ter sido produzidos por escritores diferentes.

Fica difícil comparar as reações dos meus alunos aos dois gêneros porque na graduação eu nunca leciono romances de Clarice, a não ser A hora da estrela (que tem mais parentesco, me parece, com os contos que com os outros romances). Não dá para pedir a um garoto que acaba de aprender português que leia A paixão segundo G.H. ou Água viva. É contraproducente.

Sinto nos alunos de graduação norteamericanos, mais que nos brasileiros, uma tendência a preferir a história com princípio, meio e fim, sem ambiguidades narrativas e sem asperezas na linguagem. É, afinal de contas, a terra da well made story.

Mas com Clarice, em geral, há muito pouco meio termo. Quem gosta, ama de paixão. Quem não gosta, costuma ter verdadeiro horror :-)

Idelber em junho 4, 2009 7:11 PM


#27

Adoro a Clarice e também acho gritante a diferença entre as duas autoras. Os fluxos de consciência das personagens de Clarice são metafóricos e cheios de significância, enquanto as entrelinhas de Piñon são apertadas, de uma "explictude" tão grande que rouba o prazer de ler. Acho que o que eu quis dizer fica claro na comparação de dois excertos:

*** "Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia." (Amor, de Clarice)

***“A idéia de que eu não podia pertencer-me, tocar no meu sexo para expurgar-lhe os excessos, provocou-me o primeiro sobressalto na fantasia do passado em que até então estivera imersa. ” (I love my husband, de Nélida Piñon)

Christine em junho 4, 2009 7:33 PM


#28

O JARDIM

A entrada no Jardim marca a passagem de um ambiente fortemente marcado pela cultura (o Bonde),

para um ambiente pré-cultural, "selvagem". O uso da expressão "o Jardim" nos faz pensar imediatamente no Jardim do Éden, e na vida anteriormente à Queda, quando Eva não fora ainda condenada ao quinhão feminino do sofrimento dos mortais.

Clarice marca essa separação do mundo da cultura ocultando Ana em um atalho lateral. O lugar é relativamente

escuro. Impossível avistar dali qualquer vestígio da cidade, que ficou para trás. O máximo que Ana podia ver era "a

aléia onde a tarde era clara e redonda", contrastando com a penumbra dos ramos que cobria o atalho. Ana está,

portanto, protegida ali das lembranças da cultura, e isso a acalma. Adormece dentro de si.
Aos poucos, no entanto, essa atmosfera calma vai dando lugar à expectativa vaga de que algo irá acontecer a qualquer momento. Ela tem a impressão de ouvir um barulho estranho. Volta-se. É só um gato. A brisa balança

os ramos e agita o rendilhado das sombras no chão. De repente, ela começa a sentir que caiu numa "emboscada",

e isso traz de volta um certo mal-estar, pois "fazia-se no Jardim um trabalho secreto do qual ela começava a se aperceber."

Todo o problema exegético dessa parte do conto consiste em se determinar a natureza exata dessa "emboscada", desse "trabalho secreto" que Ana sente que a está de algum modo ameaçando. O Jardim que apartou a personagem de todas as forças e símbolos da cultura é, a um só tempo, real e imaginário. O gato existe, o pardal existe, e existem também as árvores carregadas de frutos, os caroços no chão, a aranha e as parasitas no tronco das árvores. Só que todos esses elementos estão, por assim dizer, magnificados, exibindo cada um dos detalhes de sua força vital. Os caroços no chão estão ampliados: vemos suas circunvoluções lembrando (muito a propósito...) "pequenos cérebros apodrecidos". O banco não está simplesmente úmido; está manchado de "sucos roxos", ricos em matéria orgânica. O rumorejar da água é suave, mas "intenso". A aranha é vista de tão perto que suas patas podem ser adjetivadas - são "luxuosas". Dálias e tulipas são volumosas, cheias de carne. Quase sentimos na pele o abraço das parasitas folhudas que dão uma abraço "macio" e "colado" no tronco das árvores. A brutalidade da vida, da natureza da qual o corpo da mulher faz parte assume uma grandeza incomum e se impõe com força sobre o mundo da cidade que Ana traz na memória. Dentro do jardim, não valem as regras que fizeram Ana renunciar à felicidade para contentar-se com uma alegria servida em conta-gotas. A regra, ali, é a busca desimpedida e plena da vida. A aranha mata sua presa com uma crueza tranquila. O assassinato recupera seus direitos, e sua profundidade. A morte não é passagem para coisa nenhuma, nem tem um sentido maior. É parte do grande ciclo, e nada mais. Ali no Jardim mães não têm que amar seus filhos, nem cuidar deles. Não têm que voltar para casa e render-se aos pequenos encantos da vida doméstica. Nâo recebem irmãos para jantar, nem têm que agradecer aos céus a companhia de um marido bom e atencioso. (O homem de Clarisse não é uma caricatura ambulante.) É isso que a fascina. E é isso também que a faz sentir nojo.

Ana sente com toda a força, naquele momento, o "mal-estar da cultura", na forma de um fascínio irresistível pelo abandono de todas as convenções nas quais está presa. Mas a cultura que Ana carrega consigo, até mesmo naquele refúgio, se vinga, e chama-a de volta, lembrando-a de "crianças e homens grandes com fome" - suas crianças, antes de mais nada, seu marido e seus irmãos, que a esperam em casa para o jantar. É essa lembrança que lhe provoca nojo, náusea, subindo-lhe à garganta em meio à cena selvagem. Culpa, enfim. "Quando se lembrou das crianças, diante das quais se tornara culpada, ergueu-se com uma exclamação de dor." E fugiu, agarrada à rede de tricô suja de ovos que se espatifaram. Fugiu do Jardim, com sua "impersonalidade soberba" (esta expressão mereceria um parágrafo!), e voltou para o Lar.

O que restará disso tudo?

João Vergílio em junho 4, 2009 8:19 PM


#29

Alexandre, concordo com você sobre a importancia do tempo nos dois contos. Nos 2,como no tipo de relação que Adorno estuda, o futuro não cabe, pois o futuro sempre contém o imprevisível, justo o que deve ser afastado da vida das duas personagens.
Idelber, amigos,sou uma clariciana apaixonada, gosto muito mais do conjunto da obra da Clarice do que da Nélida (de quem aprecio mesmo "A República dos Sonhos"), mas acho ligeiro afirmar que o conto de Nélida é óbvio. É de leitura mais fácil, sim (daí o gosto dos seus alunos de graduação, Idelber), mas não há mal nisso (aliás, é raro ser mais difícl do que Clarice). E seu "I love my husbad" não me parece óbvio, por um motivo: a narradora não tem a menor idéia de como sair daquela situação/relação, ela sabe descrevê-la mas não sabe interpretá-la, não sabe porquê está ali nem como chegaram àquilo, há um vazio de onde brota a angútia. Nesse sentido, as duas personagens situam-se no mesmo patamar, e o destino sugerido para elas é parecido.

Janaina Amado em junho 4, 2009 8:53 PM


#30

IDELBER

Embora o assunto seja outro, permita-me postar aqui a minha homenagem poética às famílias enlutadas:

A MORTE PEGA CARONA NO VOO AF 447

A minha mente está ensandecida
Confusa, teço mil indagações
Imagino-me naquele voo
O que pensaria ao me despedir da vida?
Como agiria diante da morte que se aproxima?
O que passaria diante de meus olhos
Medrosos, atormentados, delirantes?
-------------------------
Por que os aviões possuem cadeiras flutuantes
Se eles afundam com as pessoas dentro?
Deveriam ter boias nas asas, no bico, no rabo
Ou voassem como borboletas
Que pudessem pousar aqui ou acolá
No topo das árvores, nos cumes dos montes
No tapete azul do mar.
--------------------------
Penso nas famílias vitimadas pela tragédia
Primeiro a esperança mesclada de medo
Depois o terror ainda matizado de dúvidas
Por último a dor que fará parte de suas vidas
Destroçadas, dilaceradas, mortificadas
Como tentáculos que enredam coração e mente
Para sempre, eternamente.
----------------------
Mas, também penso em milhares de mortes anuais
Morridas nas estradas de nosso país
Com rasgos de notícias nos jornais
Rápidas, rasteiras, indiferentes
Sem abalo popular, porque elas brotam da terra
Elas não brotam dos céus.
No corpo dos mortos, apenas véus.
-----------------
Elas ocupam a atenção da mídia e dos governantes
Apenas no balanço do final de ano, como estatísticas
Será por que acontecem com tempo e espaço diferenciados?
Mas, para as famílias a dor é igual, pois
No céu ou na terra, a tragédia é sempre a mesma
Como somos impotentes diante da morte
Venha ela de onde vier! Triste sina, má sorte.

Lu Dias (www.almacarioca.net)

Lu Dias BH em junho 4, 2009 9:34 PM


#31

Não tenho muito apreço pela Clarice Lispector, a não ser achá-la muito bonita. Acho seus livros muito confusos e chatos de ler. Mas um texto assim, mais curto, é sempre mais eficaz. E Esse conto, especificamente, não poderia nunca passar em branco para uma mulher perto de seus 35 anos, casada e com filhos. Algo já longe da juventude e ainda distante da maturidade. Esse é um tempo em que a vida é mais vida, com todo o seu peso, sem a leveza do início e o desprendimento do final.

Difícil isso.

Ana surta ao ver um cego na rua no meio da tarde. Aquele cego rompe os limites do mundinho que ela criou e chamou de vida. Durante aquela tarde, a definição de vida se torna bem mais elástica para ela. E desesperadora também. Ao final do dia... deixemos que a própria Clarice nos conte:

"E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia."

"Assim ela o quisera e o escolhera". Essa frase, que fecha dois parágrafos do conto, fica quase que piscando no final dele também.

Somos 5 em junho 4, 2009 10:00 PM


#32

Janaina. concordo demais com vc. alem do q vc disse, eu acrescentaria q nao é obvio pq o marido tb é oprimido. e varias vezes a gente sente. e ela chega a dizer q nao quer acabar com a noite dele etc. ela mostra esse dominio do espaço domestico, ela q determina o fluxo. e a gente sabe o qto ele pode ser opressivo. e ela usa o "eu te amo" como arma. e aquele café, q ela determina quando deve ser bebido. enfim. um clima de afundaremos juntos, darling. acho até q o titulo pode ser pra dar um tom de sitcom americano no pesadelo. (eu nunca tinha lido. e li hj à tarde e cada hora q passa eu gosto mais desse conto aí).

mary w em junho 5, 2009 12:49 AM


#33

Nutrido e informado por esta douta caixa de comentários, em histórica reunião realizada esta noite no antológico Pedacinhos do Céu, a facção belo-horizontina do Comitê Editorial do Biscoito decidiu que o autor deste blog não pode mais lecionar "Amor" e "I love my husband" na mesma aula. Entra na categoria sacanagem. Mais não disseram os membros do CE e mais não lhes foi perguntado.

Idelber em junho 5, 2009 4:44 AM


#34

Janaína e Mary,

Não sei se estou entendendo exatamente o ponto de sua argumentação. Vocês concordariam comigo que o conto de Nélida Piñon não contém "personagens", mas apenas "tipos ideais"? Que o Marido, por exemplo, é pouco mais que uma caricatura? Que a incapacidade dessa Esposa de enxergar o homem que vive na mesma casa que ela é pelo menos tão grande quanto a incapacidade que ele próprio tem de enxergá-la?

Adorei o "afundaremos juntos, darling". Definição precisa.

Abraço às duas.

João Vergílio em junho 5, 2009 8:00 AM


#35

O que dá dramaticidade máxima à experiência de Ana, no conto da Clarice (com cê, João Vergílio... com cê, imbecil!) é justamente o fato de que seu marido NÃO é um bobalhão insensível, ou uma samambaia que acompanha a política pelos jornais. Ele está fazendo o café. Ele a espia "com a maior atenção". Ele capricha na construção do discurso que dirige a ela ("deixe pelo que pelo menos me aconteça de o fogão dar um estouro"). Ele é carinhoso.

Adianta? Nas profundezas e nas alturas em que Clarice Lispector se move, não adianta nada. Só piora.

Daqui a duzentos anos, continuará sendo verdade. Para homens e mulheres. Quem já não fez seu passeio vespertino pelo Jardim Botânico? O problema não é o "machismo", ou coisa que o valha. É a cultura (qualquer cultura), e seu mal-estar constitutivo. O ser humano não sobrevive no Jardim. A dor é irredimível. Grande Clarice!

João Vergílio em junho 5, 2009 8:13 AM


#36

Acho até difícil comparar. O conto da Clarice vai muito além do chavão feminista. Ana abre uma fenda no cotidiano pela qual enxerga, sei lá, o que há de subterrâneo em seu (nosso) mundo organizado: a natureza implacável (que fascina e dá nojo), as pulsões que precisamos soterrar para construir qualquer coisa, qualquer ordem social, qualquer cultura. Não se trata, acredito, de perceber que podia ter outra vida (livre as injunções da pequena classe média etc), mas de perceber que qualquer pacto social se dá sobre, e contra, o universo vivo e violento que ela entrevê no Jardim Botânico, no qual pouco importam a individualidade, as necessidades de proteção e amor, etc. Quanto ao conto da Nélida, acho ralo, de primário didatismo.

Teresa em junho 5, 2009 10:00 AM


#37

"Daqui a duzentos anos, continuará sendo verdade. Para homens e mulheres. Quem já não fez seu passeio vespertino pelo Jardim Botânico? O problema não é o "machismo", ou coisa que o valha. É a cultura (qualquer cultura), e seu mal-estar constitutivo. O ser humano não sobrevive no Jardim. A dor é irredimível. Grande Clarice!"

Passei aqui só para agradecer ao João Vergílio por ter escrito isso. Eu gosto tanto, tanto da Clarice, e a obra dela foi e é tão importante na minha construção pessoal, que não saberia nem eleger uma linha de raciocínio lógico pra começar a escrever sobre ela. E o João compôs aí um parágrafo que eu gostaria de ter escrito. Eu acho que a Clarice ultrapassa, e muito, as questões de gênero (embora também fale delas). Ela fica sempre ali no limite do indizível, do que há de mais transcendente na condição humana. Quando a gente acha que está começando a entender, percebe uma brecha pra uma outra camada de leitura, e assim por diante. Pra mim a obra dela continua crescendo.

Ju Sampaio em junho 5, 2009 11:24 AM


#38

O jardim é o Jardim do Éden às avessas.
O refúgio perfeito que deveria estar acima do bem e do mal corrobora com a crueza dos sentimentos que ela experimenta e que outrora foram jogados para debaixo do tapete e vivem no seu inconsciente.
A crise desencadeada pelo cego sai do imaginário e aflora num universo tangível que se torna fonte inesgotável de metáforas para representar o estado de excitação que ela se encontra.
A fascinação pelo sombrio, pelo pútrido e pelo belo a fazem ter medo do inferno, medo do desejo, medo da piedade de si mesma.

Lucas em junho 5, 2009 12:37 PM


#39

Victor, está aceita a sugestão para o Clube, feita por você na outra caixa de comentários. Realmente, a Nélida ficou muito prejudicada numa virtual comparação com a Clarice. Nem eu mesmo consegui incluí-la no post.

Idelber em junho 5, 2009 12:58 PM


#40

Idelber, não sei se a discussão terminou ontem, ou se a gente pode continuar, é só a 2ª vez em que participo... Queria só responder ao João Vergílio: se a personagem de Clarice é realmente mais rica, a personagem de Nélida não me parece caricatural, já que tem sentimenos e percepções próprias (como as de que o casal está condenado a pogredir financeiramete, ou a de que o futuro lhe é interdiato pelo marido, etc.) Além disso, ela tem aquela atitude, que me parece doer muito nela, de querer a pulso agradar o marido para tentar ser apreciada e amada, mas, devido ao tipo de relação que têm, jamais ele poderá ser agradado, nem pode amá-la. Acho isso tocante, bem mais do que estereótipo. A figura do marido é mais caricatural, sim (os parágrafos finais do conto de Clarice humanizam o marido, tirando-o do estereótipo em que até então ele também estivera), mas se pode dizer, em favor da Nélida, que o que importa no seu conto é a perspectiva da narradora. E concordo com vc., João Vergílio, que nem marido nem mulher, no conto de N., têm a mesma incapacidade de enxergar-se como seres humanos: como no conto de C., ambos só enxergam o ator que vive aquele casameno, exatamente o estereótipo.
O que me agrada muito nos 2 contos é que conseguem tensionar e tornar interessantes texto sobre vidas chatíssimas. Hoje, noto uma tendência a contos sobre cotidanos que apenas reproduzem a monotonia das vidas chatas de que tratam, tornando-se, assim, mais chatos do que as vidas que descrevem!
Adorei participar!

Janaina Amado em junho 5, 2009 12:59 PM


#41

Oxi, Janaína, mas é claro que a discussão pode continuar. Escrevam à vontade!

Idelber em junho 5, 2009 1:02 PM


#42

Erratas: "...o futuro lhe é INTERDITADO pelo marido"
"... que nem marido nem mulher, no conto de N., têm a MENOR CAPACIDADE de..."
É no que dá escrever correndo!

Janaina Amado em junho 5, 2009 1:33 PM


#43

Um reparo ao João Vergílio. O nojo que a Clarice sente não tem relação com a caretice, mas sim com a loucura mesmo (e uso as palavras caretice e loucura por falta de tempo de procurar algo melhor).

O nojo e a excitação estão juntos, são faces da mesma moeda, ou da mesma descoberta, digamos assim. Eu pensei em ir ponto a ponto nas referências do texto ao nojo e à náusea, mas estou sem tempo. De cabeça, me lembro apenas que no "subir à garganga", aí sim, me parece que a referência é a enfrentar a volta à normalidade - mas o nojo já estava lá antes, como fascínio e prazer.

É claro que a ruptura na Clarice vai muito além da dicotomia mulher reprimida/mulher liberada. Mas tem uma tintura de caretice familiar dos anos 50 que, do jeito que ela leva a coisa, torna-se algo muito mais fundamental e atemporal (acho que nem uma hippie de Arembepe no final dos anos 60 voltando para casa com os cogumelos para o chá vespertino da comunidade de amor livre escapava incólume desse cego mascando chiclete).

Dá para ter uma leitura feminista, e não está errada, mas se cavucar mais fundo, sai muito mais do que isso

F. Arranhaponte em junho 5, 2009 2:02 PM


#44

eu acho q sao tipos ideais, sim. por isso q parece didático à primeira vista. mas depois aparece isso q a janaina falou. eles estao realmente presos nesses papéis. o modelo de família está roubando a alma deles. e aí a tentativa dela, de tentar interpretar o q está acontecendo. e conseguindo apenas ser cínica.
(alguns comments dizem q a clarice consegue ir além do feminismo ou das questoes de genero. por pura militancia eu devo dizer q o feminismo nao é apenas. q as questoes de genero nao sao somente. nao é um mero apontar de dedo "olha a mulher sendo submissa aí". é uma profunda reflexao sobre nosso lugar no mundo, a partir de uma perspectiva que, historicamente, foi se construindo como essencial etc etc etc.)

mary w em junho 5, 2009 6:30 PM


#45

Arranhaponte,

Vou palpitar sem reler, o que pode ser desastroso. Em todo caso, minha impressão é que o nojo está sempre ligado à eclosão desse magma pré-cultural, selvagem, que ameaça a crosta de sociabilidade dentro da qual cultivamos nossas personas.

João Vergílio em junho 5, 2009 6:58 PM


#46

É o que eu acho também. Mas nisso que você escreveu

"Aquele cotidiano bem arrumado, estável, previsível e "doce" irá aparecer como algo completamente inaceitável, algo que ela desejaria pôr para fora, que lhe causa náuseas, e parece subir de seu estômago até a boca."

eu fiz uma leitura diferente da sua. Nesse trecho do conto

"E através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca."

eu tive a impressão de que essa vida cheia de náusea doce, até a boca, é a, digamos, "nova" vida, a vida "selvagem". Eu confesso que até fiquei na dúvida, mas, depois, relendo todas as referências a nojo e enjoo, eu meio que me convenci de que estava certo em relação àquele trecho. Quer dizer, o nojo/enjoo é parte integral da experiência "selvagem", e não estaria em nada ligado, nem por confronto, à vida (sempre na falta de melhor palavra) "comportada". Mas eu posso estar errado, é claro


F. Arranhaponte em junho 5, 2009 7:34 PM


#47

Mary, o "apenas" nesse caso não é de forma alguma pra diminuir a relevância dessa abordagem, mas sim pra ampliar a quantidade de pessoas inseridas nela. Não é como em "não é apenas uma questão de mulheres" mas sim como em "não é uma questão apenas de mulheres". Porque eu acho que esse "nosso lugar no mundo" aí que você percebe que a Clarice toca é compartilhado por homens e mulheres, ela realmente vai num âmago que não tem gênero, é da espécie.

Ju Sampaio em junho 5, 2009 7:50 PM


#48

Eu só li o conto da Clarice, então talvez devesse fazer só meio comentário.

O fato é que ao ler esse conto (que eu já conhecia mas não liguei o nome à "pessoa"), principalmente nos primeiros parágrafos, não conseguia me esquecer de um outro post aqui do Biscoito sobre as bobagens ditas pela Maria Mariana numa entrevista para a Época – aquela do "Deus quer o homem no leme".

Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia […]"

Esse trecho acima poderia ter sido a epígrafe daquele post! Tudo que eu conseguia pensar depois de ler o conto era: aquela menina Maria Mariana precisa urgentemente ver um cego na esquina!

Daniel em junho 5, 2009 8:30 PM


#49

Pena... Desta vez, o post acabou antes de se esgotar.

João Vergílio em junho 5, 2009 11:15 PM


#50

O conto Amor, de Clarice Lispector, me fez lembrar dois outros textos, um do
Drummond, em "A Bruxa":

“Em dois milhões de habitantes,
quantas mulheres prováveis
interrogam-se no espelho
medindo o tempo perdido
até que venha a manhã
trazer leite, jornal e calma.”

O outro é um conto do Antonio de Alcântara Machado, “Apólogo brasileiro sem véu de alegoria” que pode ser lido no link http://www.biblio.com.br/conteudo/alcantaramachado/mcontosavulsos.htm

Abraço Idelber e parabéns pelo espaço

José em junho 6, 2009 11:25 AM


#51

De novo pegando o bonde passando. Dessa vez por culpa da contumaz falta de Internet que a cidade onde eu moro atualmente nos vitima.
Por isso serei rápido e lacônico ao máximo: eu gostei mais, muito mais do da Clarice e minha esposa gostou mais do da Nélida. Ambos gostamos dos dois e refletimos sobre a vida que ambas as mulheres viviam. Onde aquelas mulheres eram espelho de nossa vida (se é que eram - chegamos a conclusão que temos uma vida bem mais emocionante que as duas, até nas desavenças; rsrsrs). Enfim debatemos literatura pela primeira vez em seis anos juntos e um de casados. Obrigado por isso professor.
Muito obrigado. Adorei ver minha neguinha se interessando naquilo que eu mais cobro dela nos seus momentos livres: a leitura. Mais uma vez, obrigado.

Abs.

Edk em junho 8, 2009 3:24 AM


#52

desculpe chegar muito atrasada ao debate, mas ainda queria deixar minha pequenina contribuição.
há um contraponto interessante ao contos da clarice e da nélida na novela "tadeu" da hilda hilst (está no livro "tu não te moves de ti", infelizmente não achei um link). lá, não é uma mulher, mas um homem que se sente aprisionado na vida construída por sua esposa e ensaia um movimento de libertação. a princípio, pode-se dizer que o homem tb é oprimido pelos papéis designados pelo sistema patriarcal. mas acredito que os três textos juntos mostram que a questão vai além disso e indicam que o ser humano é constrangido pela cultura em que está inserido, como falou o joão vergílio. são as estrutuas de organização da sociedade como um todo que vai, aos poucos, brutalizando e padronizando as relações e os seres. mas há fissuras! e a literatura é uma delas. acredito que os contos mostram esse poder de humanização que a arte pode ter.

luciana em junho 12, 2009 2:05 PM


#53

Completamente atrasada... Bom, sou mais uma como seus alunos. O conto Amor é maravilhoso, o da Nélida é chatíssimo e estereotipado, e soa longo demais. Mas faço uma leitura de Amor bem diferente da de todos aqui. Ana foi atingida por algo que ela nem sabe o que é, a piedade pelo cego, com sua intensidade, o mistério e a força da vida e da morte no Jardim. Isso a nocauteia, a desestrutura momentaneamente. Mas nao acho que o conto a represente como tendo uma vida limitada (é lindo aquele trecho em que ela diz que veio a cair por um acaso numa vida de mulher, e fala dos filhos como algo verdadeiramente bom e suculento -- estou citando de memória um conto que já li há mais de cinco anos)e que volte a essa vida comezinha. Tb é lindo o final, e o seu maravilhamento com o instante pleno, tanto que ela quer pegá-lo "como a uma borboleta". Ela reitera a opção que fez, e o acontecimento a reforçou nessa opção. Pode ser uma leitura pouco feminista, mas me parece sustentável pelo conto.

Anarquista Lúcida em julho 17, 2009 2:13 AM