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segunda-feira, 29 de junho 2009

Golpe de estado em Honduras

Foi um golpe latino-americano clássico, daqueles dos quais já tínhamos nos esquecido. Na madrugada de ontem, o presidente de Honduras, Manuel Zelaya Rosales, foi sequestrado a ponta de fuzis, arrancado de casa por dezenas de militares, colocado num avião e levado à Costa Rica. Era o dia de um referendo não vinculante que consultava a população hondurenha sobre se era desejo seu que nas próximas eleições, de novembro, se votasse também a criação de uma Assembleia Constituinte.

honduras.jpg
(fonte)


Zelaya é um bicho raro na onda esquerdista latino-americana: filho de latifundiário, eleito pelo Partido Liberal, venceu as eleições em 2005 na esteira de sua oposição à pena de morte, defendida por seu adversário. Sem apoio suficiente para um programa reformista no seu partido, foi se distanciando dele e aproximando-se dos líderes da Alba. Acabou ficando com uma base frágil no parlamento, além de enfrentar a hostilidade clara do Supremo Tribunal Eleitoral (cujos membros são nomeados pelo próprio Congresso) e também da cúpula militar. Na época de sua vitória, o STF STE demorou um mês para anunciar os resultados. Esses três artigos dão uma boa ideia do contexto que levou ao golpe.

Trasladado à Costa Rica sem que o governo do país fosse sequer notificado, Zelaya embarcou em seguida para uma reunião extraordinária da Alba em Manágua, com Hugo Chávez (Venezuela), Daniel Ortega (Nicarágua) e Rafael Correa (Equador), além do Chanceler cubano, Bruno Rodríguez. A reunião foi transmitida ao vivo pela TeleSur venezuelana e pela Noticia100, de Manágua, duas fontes chave para acompanhar o que ocorre em Honduras. Em entrevista à CNN Chile, a esposa de Zelaya, Xiomara Castro, descreve o cárcere privado no qual se encontra, em algum lugar do interior do país. Os filhos do casal encontram-se em embaixadas. A Chanceler hondurenha, Patricia Rodas, esteve desaparecida durante todo o domingo. À noite, chegou a confirmação de que ela embarcava rumo ao México.

A reação da comunidade internacional deixou as forças golpistas em situação de isolamento. O Itamaraty se manifestou. A Organização dos Estados Americanos divulgou uma carta condenando o golpe e exigindo -- em linguagem surpreendentemente forte -- a reinstalação de Zelaya em suas funções. Mesmo o embaixador dos Estados Unidos, Hugo Llorens declarou inequivocamente que os EUA só reconhecem Zelaya como o presidente legítimo de Honduras. Um documento do Departamento de Estado mostra a posição dos EUA em prol da legalidade.

O golpista instalado no poder é Roberto Micheletti, nomeado pelo Congresso a partir de uma carta de renúncia com uma assinatura falsa de Zelaya, segundo declaração do presidente legítimo à TeleSur. No momento em que escrevo, milhares de hondurenhos cercaram o palácio presidencial em Tegucigalpa. Ouviram-se disparos. Está convocada para esta segunda-feira uma greve geral em apoio a Zelaya. Além da TeleSur e da Noticia100, a Rádio Es lo de menos, transmitindo com um único profissional, tem sido uma das melhores fontes para acompanhar o imbróglio. O ponto de vista dos golpistas está articulado em praticamente todos os grandes meios de comunicação de massas de Honduras. O mais explícito talvez seja El Heraldo, que chegou a inventar a incrível mentira de que Zelaya planejava dissolver o Congresso. O La Prensa se refere ao povo que protesta nas ruas como turba. Na televisão, ontem à noite, exibiam-se desenhos animados.

Para atualizações mais frequentes sobre a situação em Honduras, acompanhe-me no Twitter.



  Escrito por Idelber às 05:00 | link para este post | Comentários (82)


Comentários

#1

Vivemos mesmo uma nova era. Se fosse no tempo do Bush, o governo golpista teria sido reconhecido.

Lincoln Pinheiro Costa em junho 29, 2009 5:54 AM


Antonio em junho 29, 2009 6:40 AM


#3

A presença de alguma "tecnologia" recente não parece ter conseguido apagar a maneira clássica de se processar um golpe em um país latino americano.

Para os mais jovens é História Contemporânea "ao vivo", o que estará nos livros está agora na Mídia!

Paulo Z em junho 29, 2009 8:48 AM


#4

I have friends in San Pedro Sula and they are very nervous. This seems like news from three decades ago, not 2009.

Mac Williams em junho 29, 2009 9:29 AM


#5

Excelente post.
Tenho acessado muitos artigos e notícias sobre o golpe, mas poucos fazem uma síntese tão rica do contexto geral da coisa.
Vamos divulgar isso, pois não estamos mais na década de 70. Rechaço popular ao golpe militar!

Felipe Bianchi em junho 29, 2009 9:36 AM


#6

O presidente nomeado pela assembléia Hondurenha desafia Chavez.....
Para mim esse pode ser o ponto de partida para as Américas retornarem as mãos da direita golpista!!!

H.ROMEU PINTO em junho 29, 2009 10:01 AM


#7

Eu ouvi dizer que o Zelaya era amiguinho do Chavez. Não gosto nem um pouco do Chavez, mas daí a um golpe de Estado é demais.

Quando li isso, me veio à mente aquela tira do Quino em que um presidente se vê surpreendido por um batalhão entrando em seu gabinete, com o Comandante dizendo: "Acontece que não gosto da sua gravata, senhor presidente."

He will be Bach em junho 29, 2009 10:01 AM


#8

Idelber, versão da Zero Hora, baluarte da direita guasca em Porto Alegre, sobre o golpe em Honduras:

"Manuel Zelaya foi destituído após propor plebiscito sobre reeleição"

Que tal.

Diego Chevarria em junho 29, 2009 10:56 AM


#9

Idelber,

Para mim é impressionante como a incapacidade das elites políticas locais de lidar com o projeto político moderadamente reformista do presidente Zelaya acabaram por: i) forçá-lo a se alinhar com o Chavismo; ii) radicalizaram a situação política local.

Para mim também é impressionante a capacidade de comentaristas de direita de justificarem qualquer coisa, vide os últimos posts do Reinaldo Azevedo em seu blog (se você não os leu, não perca seu tempo com aquilo).

As observações acima me levam a uma última observação. Como é feia a face das elites latino-americanas que vez por outra se revela!

Abs

Arthur

Arthur em junho 29, 2009 11:05 AM


#10

Aí vai mais um trecho da reportagem da Zero Hora:

"A ação militar aconteceu em um dia no qual estava prevista a realização de uma consulta sobre a convocação de uma Assembleia Constituinte, declarada ilegal pela Justiça hondurenha. O objetivo de Zelaya era criar um plebiscito apoio político para instituir a reeleição no país.

O Poder Judiciário de Honduras respaldou a ação das Forças Armadas do país de deter e deportar o presidente, Manuel Zelaya, segundo um comunicado divulgado pela imprensa local.

"Se a origem das ações do dia de hoje estava baseada em uma ordem judicial emitida por um juiz competente, sua execução está dentro dos preceitos legais", assinala o comunicado.

Novo presidente

Ainda no domingo, o presidente do Parlamento, Roberto Micheletti, foi empossado como novo presidente de Honduras. O novo chefe de Estado assegurou que não chega ao cargo "sob a desonra de um golpe de Estado".

— Chego à presidência como produto de um processo de transição absolutamente legal — afirmou Micheletti, agora ex-presidente do Congresso, durante o ato de juramento em uma sessão extraordinária no Parlamento.

...

Micheletti assegurou que receberia "com muito gosto" o deposto Manuel Zelaya se ele então desejar retornar, mas sem o apoio do governante da Venezuela, Hugo Chávez. "


Mas bah, tche, que beleza de visão de mundo!!!

Diego Chevarria em junho 29, 2009 11:12 AM


#11

Cabe ressaltar que a imprensa brasileira está noticiando como se fosse a coisa mais normal do mundo...o motivo mais divulgado é que Zelaya estaria querendo aprovar mais um mandato para ele, uma coisa sem pé nem cabeça!

aiaiai em junho 29, 2009 11:21 AM


#12

Me preocupa a união so Supremo de lá com o Legislativo, como bem lembrou o Nassif pode acontecer igualzinho aqui.

Pedro Migão em junho 29, 2009 12:16 PM


#13

"União do Supremo de lá com o Legislativo...pode acontecer igualzinho aqui". Lembrete: o Executivo tem maioria nas duas Casas Legislativas. Outro lembrete: em todas as partes do mundo a consolidação da Democracia no Brasil é constatada, reconhecida, elogiada, comemorada e recomendada. Assim, essa coisa de "pode acontecer igualzinho por aqui" só pode ser fruto de equívoco fenomenal. Mais um lembrete: o Brasil está no Século XXI.

Dawran Numida em junho 29, 2009 12:39 PM


#14

Retificando e complementando. "o Executivo, no Brasil, tem maioria nas duas Casas Legislativas".
Plantar paranóias não ajuda em nada. Nem a ninguém. Exceto ao atraso.

Dawran Numida em junho 29, 2009 12:44 PM


#15

Difícil saber o que é pior, o golpe em si ou o apóio velado (nem tanto) do PIG. Nem os EUA tiveram a cara-de-pau de defender o golpe, na verdade o embaixador do país em Honduras fez questão de ligar ao Zelaya e afirmar que não teve qualquer participação.

O periódico eletrônico Contrapunto, de El Salvador, vem fazendo uma boa cobertura do golpe e fez uma interessante análise do golpe, um bom resumo e comentou que desta vez tudo indica que os EUA não colocaram suas mãozinhas sujas dessa vez por lá.

O The Angry Arab, aliás, comentou algo bem interessante em relação à mídia, de um lado o PIG buscando denegrir os que protestam contra o golpe, que lhes interessa e aos EUA, e do outro o Irã, onde os manifestantes são sempre defendidos pela mídia, de todos os lados.

Por mais que eu não concorde com ele na questão do apóio dos EUA, CIA e etc aos manifestantes do Irã, é uma análise válida.

Uma coisa interessante em Honduras é o fato de um imbecil do mesmo partido do Zelaya ter sido colocado no poder... Isso demonstra o racha no país e que realmente a situação está complicada, além disso 123 dos 128 legisladores apoiaram Micheletti, ou seja, o golpe. Zelaya se afastou totalmente de sua "base" conservadora e pagou caro por isso.

Busquei condensar os acontecimentos em um post: http://tsavkko.blogspot.com/2009/06/um-novo-dia-um-novo-golpe.html

Raphael Garcia em junho 29, 2009 12:58 PM


#16

está instaurado a ditadura do patronato:

"El nuevo presidente de Honduras dijo que prohibirá a los funcionarios hablar de política en horas de trabajo. #Honduras"

http://twitter.com/diariolaprensa/status/2387349798

se a moda pega

gabriel em junho 29, 2009 1:04 PM


#17

Valeu a dica do Contrapunto, Raphael!

De lá vem a informação do apoio de 123 dos 128 parlamentares ao golpe. Estou tentando procurar uma segunda fonte com essa notícia, porque se ela for real, vai ser punk.

Idelber em junho 29, 2009 1:05 PM


#18

Aliás, este é um excelente momento para a ALBA e a UNASUL mostrarem serviço.

Não dá pra só o Chavez usar a retórica e ameaçar o governo golpista de Honduras, as organizações multilaterais tem que começar a trabalhar, não só repudiar, reclamar, escrever manifestos mas tomar atitudes enérgicas e, quiçá, chegar às vias de fato para defender a democracia em Honduras e na AL.

É a hora da verdade para UNASUL e Alba, isto é fato. Serão só organizações que ficam na retórica, arremedos da OEA(que é outra grande piada) ou realmente tem alguma razão de ser, tem função e tomarão as dores de um país da AL.

Tudo bem, a UNASUL tem por objetivo a defesa na América do Sul, mas isto não exclui responsabilidade no caso. Chavez e Lula já se manifestaram.

Raphael Garcia em junho 29, 2009 1:07 PM


#19

Interessante.....será que é verdade esse artigo da Constituição de Honduras?

ARTICULO 239.- El ciudadano que haya desempeñado la titularidad del Poder Ejecutivo no podrá ser Presidente o Vicepresidente de la República.

El que quebrante esta disposición o proponga su reforma, así como aquellos que lo apoyen directa o indirectamente, cesarán de inmediato en el desempeño de sus respectivos cargos y quedarán inhabilitados por diez (10) años para el ejercicio de toda función pública.

Adhemar Santos em junho 29, 2009 1:31 PM


Idelber em junho 29, 2009 1:35 PM


#21

Vocês viram isto aqui?

"Enviado por Ricardo Noblat - 29.6.2009| 10h35m
Honduras - Quebra da institucionalidade

Do ex-blog do ex-prefeito do Rio Cesar Maia:

1. O presidente Manuel Zelaya foi eleito pelo Partido Liberal (direita) e algum tempo depois se tornou chavista. Com eleições convocadas para novembro deste ano, forçou o direito à reeleição. O Congresso rechaçou a proposta. Zelaya ignorou a decisão do Congresso e partiu para realizar o plebiscito de qualquer forma.

2. O promotor e defensor dos direitos humanos considerou o plebiscito ilegal. O STF, o TSE e o MP o declararam inconstitucional. O parlamento votou lei impedindo. Os comandantes das Forças Armadas foram exonerados. O Supremo determinou que o general chefe do estado maior fosse restituído a seu posto (medida inusitada).

3. A intervenção de Chávez foi alarmante. Mandou rodar as cédulas do plebiscito e fazer as urnas, e as enviou a Tegucigalpa. Insultou as autoridades constituídas hondurenhas - judiciais, militares e parlamentares. Chamou o chefe do estado maior, general Vásquez, de "gorila e traidor". E colocou suas Forças Armadas de prontidão. O presidente Zelaya foi ao aeroporto, com seus correligionários, receber o material desde Caracas. As urnas foram distribuídas por uma frota de táxis contratados.

4. O STF determinou a prisão de Zelaya. Este apresentou sua renúncia à presidência. Pela manhã, o Congresso aceitou a renúncia e nomeou presidente o presidente do Congresso, Roberto Micheletti. Zelaya foi detido pelo exército e transferido para Costa Rica. Negou a renúncia. Então Chávez o transferiu para Nicarágua e convocou reunião dos países do ALBA.

5. Os EUA ainda não reconheceram o novo presidente, assim como o Brasil e o Chile. Entendem que o impasse, e mesmo os excessos inconstitucionais de Zelaya, não requereriam a destituição do mesmo. Brasil, Equador e Bolívia foram exemplos nos últimos 20 anos de presidentes destituídos constitucionalmente, sem uso do exército."

Blog do Ricardo Noblat, agora há pouco. Uau..!

Dalton em junho 29, 2009 1:46 PM


#22

Bom, então o artigo 239 existe na Constituição de Honduras e, aparentemente, foi o dispositivo legal que permitiu o presidente hondurenho ser deposto....

Adhemar Santos em junho 29, 2009 1:54 PM


#23

Adhemar: nenhum artigo da Constituição pode permitir o que aconteceu porque não houve uma deposição legal. Houve um sequestro às cinco da manhã, a ponta de baionetas. É outra coisa, né...

Idelber em junho 29, 2009 1:59 PM


#24

Estranho uma constituição expressamente proibir sua reforma e já declarar a punição do "infrator"...

Quer dizer que a Constituição jamais poderia ser modificada, em hipótese alguma, sob pena de inabilitação? É estranho....

No mais, querendo ou não, golpe é golpe. Não importa se o presidente foi contra o congresso e a justiça, se o referendo fosse ilegal existiam dispositivos capazes de freá-lo, a solução jamais seria a derrubada do presidente por um exército.

Quanto às acusações do Noblat, bem, é o Noblat... Até ele citar fontes confiáveis, tudo que vem daí é mais que suspeito, especialmente quando o Chávez é citado...

Raphael Garcia em junho 29, 2009 2:03 PM


#25

Creio que muita gente no Brasil - os siameses PSDB-DEM, o fetus in fetu deles - PPS, a grande mídia, devem estar morrendo de inveja dos golpistas hondurenhos "será que dá para fazer o mesmo no Brasil?"

Lamentável, Honduras é um país paupérrimo, cuja população encontra-se em uma crise alimentar gravíssima (o Brasil remeteu alimentos para lá recentemente em auxílio). E, quando se vislumbra alguma esperança de mudança a esse quadro, a típica elite latino-americana exsurge novamente.

Lamentável e triste..espero que isso seja revertido urgentemente..

wagner em junho 29, 2009 2:12 PM


#26

Se não fosse golpe precisaria o Exercito sequestrar o presidente? o congresso precisaria apresentar uma carta de renúncia mentiorosa? É interessante vermos como a imprensa lationo-americana é golpista. Sempore que tem golpe das elites ela apoia.

Bruno em junho 29, 2009 2:12 PM


#27

O discurso da direita é realmente bárbaro. Só precisamos mudar os nomes mas as palavras, a intenção é sempre a mesma. Seria para dar gargalhadas, não fosse o assunto tão sério.

De Olavo de Carvalho até Enrique Ortez Colindres, novo Chanceler golpista de Honduras, a distância se mede em vírgulas!

"Aqui não houve golpe de Estado porque os hondurenhos seguem regidos pela Constituição, que o governo anterior quis reformar sem nenhum fundamento e de maneira ilegal", afirmou o chanceler. "Com a influência do dinheiro e a propaganda esquerdista, se fez uma falsa imagem internacional de Honduras, que estamos dispostos a contestar." disse o novo Chanceler golpista de Honduras.

Realmente, um exército se sublevar contra o Presidente, homens encapuzados invadirem sua casa e o expulsarem do país e no lugar indicarem um presidente títere não é golpe. Na república das bananas não deve mesmo ser golpe, é totalmente democrático!

Vamos, por um segundo, aceitar que o Zelaya estava indo contra a constituição. Oras, isso se resolve rasgando-a de vez e o depondo?

É o velho "não brinco mais" da direita. Por essas e outras que Chávez é ditador, Morales é ditador, e por aí vai... Porque eles ameaçam a hegemonia da direita, governam para o povo e não para o latifúndio... Irrita a direita e seu joguinho.

Quando a Esquerda vence nas urnas, no jogo da direita, eles não aceitam mais, pegam a bola de volta e acabam com a brincadeira.

Raphael Garcia em junho 29, 2009 2:36 PM


#28

Quando a Esquerda vence nas urnas, no jogo da direita, eles não aceitam mais, pegam a bola de volta e acabam com a brincadeira. (2)

Pedro Migão em junho 29, 2009 2:43 PM


#29

Não sou conhecedor do direito, muito menos de direito constitucional.
Resta claro, contudo, que o Presidente não ameaçava as instituições como o alegado para apeá-lo do cargo. A ação armada foi despropositada, além de atentar contra as liberdades individuais que a Constituição mesmo defende, já que o Presidente foi expulso do país na calada da noite, sem que houvesse de sua parte nenhuma ofensa armada que justificasse que o mesmo lhe fosse dirigido. Não se seguiu um processo legal de destituição do Presidente. Não há amparo nela para a eleição de um novo chefe do executivo da forma como feita. O mínimo do mínimo, que seria um amplo direito de defesa não foi seguido.
A situação em Honduras não será de fácil resolução e parece que boa parte da culpa cabe à Constituição, que é bem sui generis. Tem um treco lá que dá certa legitimidade à ação das FFAA, por incrível que pareça. A constituição inscreve logo ao início, como um de seus pilares, a "alternabilidade" na presidência. Mais à frente (cap. X, Tit. V), enfatiza que as FFAA devem garantir este princípio. O que isso quer dizer exatamente, não está claro, até mesmo porque o Presidente é o comandante-em-chefe das FFAA, o que faz de quem se levante contra ele um traidor (mais ou menos como no Chile em 73). Ou seja, a Constituição avaliza, de certo ponto de vista legal, sua ação contra alguém que ameaçe o princípio, embora não ampare a forma do uso das armas de maneira autônoma e sem controle institucional.
Para piorar, o cap. I do tit. IV inviabiliza uma reforma constitucional que altere o princípio da "alternabilidade". Portanto, veta até mesmo sua reforma pelo Congresso. Por um lado, deixa num beco sem saída as forças políticas que queiram introduzir inovações na Constituição; por outro, não ampara quem defenda essa alteração. E se este defensor for o Presidente, acaba deixando-o numa posição de criminoso, já que o supremo mandatário (eca!) tem justamente por uma de suas funções velar por ela tal como ela se encontra.
Será que os hondurenhos não têm algum ditado para este tipo de nonsense?

João Paulo Rodrigues em junho 29, 2009 2:44 PM


#30

Na Folha, há mais de 1 hora a notícia de destaque sobre isso é totalmente favoravel aos golpistas, apesar de que o fato de uma parte da elite exilada voluntariamente em Miami ser muito menos relevante do que a posição dos governos internacionais. http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u587950.shtml

Bruno em junho 29, 2009 3:25 PM


#31

A Constituição de Honduras foi concebida sob pressão da ditadura militar. Para eludir o art. 239, o Presidente Manuel Zelaya preparou um referendo informal, não-vinculado e sem valor legal (tanto é assim que a participação era voluntária, num país em que o voto é obrigatório). Mais ou menos como o plebiscito da dívida ou da Vale, organizado por entidades sociais no Brasil. Seu valor era apenas moral, para propor uma nova constituinte, livre da influência da ditadura militar.

Patrick em junho 29, 2009 4:16 PM


#32

Duas perguntas sobre o golpe: a Constituição de Honduras não prevê impeachment? E se prevê, por que ele não foi usado?

Silvana em junho 29, 2009 4:53 PM


#33

Idelber,

Mais uma vez deparamos com a tirania. Já não bastasse o boicote das eleições iranianas, agora Honduras, perto de casa, sofre um golpe dos militares, aludindo ao nosso temeroso ano de 1964.

Agora, em tempos digitais, espero que a indignação da comunidade internacional seja veemente expressa. O Twitter mostrou ser uma ferramenta poderosíssima para este fim - como provou as inúmeras twittadas com a tag #IranElection.

Agora, é a vez de disseminar o repúdio aos golpistas e trogloditas de #Honduras.

Tiago Ferreira da Silva em junho 29, 2009 5:02 PM


#34

Tomara mesmo que Obama mostre seu valor e não reconheça este golpe. A última coisa que nossa pobre America Latina precisa é dos velhos conhecidos golpes de estado.

Fábio Fernandes em junho 29, 2009 5:16 PM


#35

Transcrevo mensagem enviada por advogado chileno que está em Honduras (via Valter Pomar via Renam):

> Tegucigalpa amaneció sorprendida con al información del Presidente de la
> República Manuel Zelaya, había sido secuestrado desde la residencia
> presidencial, por un grupo de unos 200 soldados que redujeron rápidamente a
> la guardia presidencial de no más de diez efectivos.

> Acto seguido, el presidente fue llevado a un cuartel aparentemente de la
> fuerza aérea, enbarcado en un avión que voló hasta Miami, y luego a San José
> de Costa Rica. En el aeropuerto de dicha ciudad, fue entrevistado por los
> distintos medios de comunicación, donde su anuncio principal fue que no
> solicitaría asilo político.

> El presidente de Costa Rica, a su vez, anunció que el presidente Zelaya
> era huésped del estado y acto seguido, condenó este atentado contra la
> democracia que afectaba no solamente a Honduras, sino a Hispanoamérica y el
> Caribe.

> En tanto, en Honduras, los Golpistas se apoderaron de la central
> telefónica, cortando las comunicaciones con el exterior y el suministro de
> energía eléctrica de todo el país.

> Hacia las nueve de la mañana, CNN en Español, una transmisión especial con
> la entrevista en el aeropuerto ya citada, apareciendo en pijamas, lo que
> demuestra la violencia, la desconsideración que adquirió como forma el
> secuestro.

> Esta transmisión fue interrumpida a los pocos segundos, de modo tal que
> desde ese momento se interrumpe las transmisiones de televisión e
> internet.

> Hay informaciones de que muchas localidades se había empezado a llevar a
> cabo a la consulta, así como se han constatado manifestaciones de repudio al
> golpe de estado.

> En la capital Hondureña, a mayor abundamiento, se ha instalado en una plaza
> aledaña al palacio presidencial, unas cinco mil personas se convocaron para
> expresar su más profundo repudio.

> En estos momentos, desde el balcón de la residencia del embajador de Chile
> en Honduras, Sergio Verdugo, se aprecia una calma tensa y un silencio
> enmudece la capital, con escaso movimiento, al tiempo que piquetes de
> militares circulan por la ciudad, bloqueando el tráfico vial escaso.

> Veedores Internacionales de distintos lugares de América y Europa, han
> concluido que este golpe constituye una amenaza a la democracia, más allá de
> las fronteras hondureñas. Conspiran contra la búsqueda de mayor
> independencia económica, solidaridad y cooperación, que se está desplegando
> hoy en nuestra América latina y el Caribe.

> La Unión Económica Europea, la Organización de Naciones Unidas, así como la
> Organización de Estados Americanos, han condenado el golpe, circulando la
> información de que muchos países democráticos no va, bajo ninguna
> circunstancia, ha reconocer a un gobierno de facto que instale este
> golpe.

> Los golpistas han ido más allá. En el momento en que la Canciller,
> compañera Patricia Rodas, fue apresada en su despacho, los embajadores de
> Cuba, Nicaragua y Venezuela, con quienes estaban reunidos, siguieron a los
> militares secuestradores, y exigieron ante las autoridades militares del
> cuartel al cual fue dirigida, su inmediata liberación. En respuesta, reciben
> agresión física por parte de las fuerza armadas, y a empellones los
> introdujeron al recinto militar. Esto significa una afrenta a la convivencia
> internacional y muestran que no van a retroceder a presiones.

> A medio día se supo que el embajador de Venezuela había quedado en
> libertad.

> En suma, compañeros y compañeras, se trata de un golpe militar incitado por
> los dirigentes políticos más reaccionarios del Partido Liberal, al cual
> pertenece el presidente Zelaya, con la colaboración de un sector de las
> fuerzas armadas, todo ello sumado a una campaña del terror unido a
> desabastecimiento, como parte de toda una estrategia para impedir el
> perfeccionamiento de una democracia representativa, incorporando, elementos
> progresivos de participación y mediante una encuesta no vinculante, que no
> contenía ninguna amenaza a la constitución.

> El Secretario General de la OEA, José Miguel Insulza, expreso sobre el
> tema, refiriéndose a las rigideces de la Constitución Hondureña " de que
> existen tres clases de constituciones en el mundo: las duras, las flexibles
> y la hondureña.

> Por tanto, no nos cabe en mi calidad de observador internacional, en
> representación de los Socialistas Allendistas de Chile, de lamentar y
> condenar profundamente los acontecimientos suscitados en un país hermano, y
> expresar mi solidaridad a un Presidente electo democráticamente, que sólo
> tenía por intención hacer de Honduras un país más inclusivo, democrático, y
> en donde los derechos humanos fundamentales y el estado de derecho se
> respetan.

> Rony Núñez Mesquida.

> abogado

> Observador Internacional Consulta República de Honduras

> Dirección Política nacional Socialistas Allendistas de Chile.

> Tegucigalpa, Honduras

Idelber em junho 29, 2009 5:20 PM


#36

Os principios do contraditório e da ampla defesa, e a soberania popular tão de castigo em Honduras.

João Calmon em junho 29, 2009 5:22 PM


#37

o PIG deles parece ser mais ativo que o nosso...

Lord Jim em junho 29, 2009 5:31 PM


#38

A blogosfera brasileira não parece tão indignada como na eleição iraniana.

Cassol em junho 29, 2009 5:34 PM


#39

A direita no Brasil não só apoia o golpe de Estado em Honduras como se ofende com a palavra golpe. Pra ela, trata-se apenas de uma “restituição da democracia”. É a mesma direita que chama de Revolução de 1964 o nosso golpe de Estado. É igualzinho: pra essas pessoas, o exército de Honduras está, assim como o nosso esteve em 64, apenas salvando o país do comunismo. Golpe pra garantir a democracia! Espero que este golpe dure tanto como aquele contra Chavez em 2002. Opa, aquilo também não foi golpe!

Lola em junho 29, 2009 5:41 PM


#40

Fuçando nos blogs brasileiros mais de direita, é fácil encontrar gente torcendo pra que os militares daqui "aprendam" com os de Honduras e deponham já o Lula... Mas o pessoal de direita se diz fã da democracia - desde que a democracia eleja quem eles querem.

Lola em junho 29, 2009 5:45 PM


Ricardo Horta em junho 29, 2009 6:05 PM


#42

Esse discurso revisionista e pró-autoritário das direitas é muito amedrontador. Na greve da USp foi parecido. Aquela conversa de maioria silenciosa e tudo mais.

A direita fecha os olhos pra violência política e tenta justificar um golpe e um crime de sequestro com base na birra ao Hugo Chavez. É muito louco. Já que o presidente hondurenho estava cometendo irregularidades, por que ele não passou por um processo de impeachment ou coisa que o valha?

Esse recurso digno de Fernandinho Beira-Mar aplicado pelas forças militares Hondurenhas (com toda a classe da Escola das Américas) só mostra a necessidade do país passar por uma profunda reforma constitucional.

Quanto ao revisionismo histórico da direita, acho que é hora de um grande esforço de resistência a essa defesa do autoritarismo.

Lauro Mesquita em junho 29, 2009 6:05 PM


#43

A diferença é que lá a democracia e as instituições estão menos desenvolvidas que aqui no Brasil. Mas acredito que este golpe hondurenho tenha lições a ensinar ao Brasil.

Pedro Migão em junho 29, 2009 6:05 PM


Tiago Mesquita em junho 29, 2009 6:05 PM


#45

A diferença é que lá a democracia e as instituições estão menos desenvolvidas que aqui no Brasil. Mas acredito que este golpe hondurenho tenha lições a ensinar ao Brasil.

Pedro Migão em junho 29, 2009 6:05 PM


#46

Lola, o RA está dizendo isso com todas as letras:

"Por iniciativa também do Legislativo e do Judiciário, as Forças Armadas podem ser chamadas a garantir “a lei e a ordem” se elas estiverem sendo violadas — e ninguém pode violá-las, nem o presidente da República."

Esse trecho não fala sobre Honduras, fala sobre o Brasil... Fazia tempo que eu não via ninguém de tal envergadura (afinal, goste-se ou não, o RA é o principal colunista da maior revista do país) falar tão abertamente sobre o exército tomar o poder...

Paranóia?

Marcelo P. em junho 29, 2009 6:13 PM


Ricardo Horta em junho 29, 2009 6:13 PM


#48

Lola, o RA está dizendo isso com todas as letras:

"Por iniciativa também do Legislativo e do Judiciário, as Forças Armadas podem ser chamadas a garantir “a lei e a ordem” se elas estiverem sendo violadas — e ninguém pode violá-las, nem o presidente da República."

Esse trecho não fala sobre Honduras, fala sobre o Brasil... Fazia tempo que eu não via ninguém de tal envergadura (afinal, goste-se ou não, o RA é o principal colunista da maior revista do país) falar tão abertamente sobre o exército tomar o poder...

Paranóia?

Marcelo P. em junho 29, 2009 6:14 PM


Ricardo Horta em junho 29, 2009 6:14 PM


#50

Caro Idelber, desculpe-me o comentário duplicado, deu erro na rede aqui.

Marcelo P, escrevi algo parecido mais cedo, e isto explica a inexplicável defesa que o Presidente Lula faz do Sarney. Ele sabe que, se perder o Legislativo, já era !

Pedro Migão em junho 29, 2009 7:13 PM


#51

Olá Idelber!!

Primeira vez que comento aqui....

Seria muito bacana ser feita uma analise sobre o tratamento da midia sobre o Irã e sobre Honduras.. em todas as questões.... isso ainda vai dar muito pano pra manga..

abs

Rodrigo em junho 29, 2009 7:25 PM


#52

Apesar do que aconteceu remontar às velhas práticas golpistas do continente, é muito positivo ver o grau de organização na reação diplomática dos países da América Latina assim como o posicionamento de Washington.
Assustador mesmo só o posicionamento de parte da direita brasileira. O apoio a isso daí é um sintoma claro de um grave problema psiquiátrico.

P.S.: Idelber, onde está escrito "Na época de sua vitória, o STF demorou um mês para anunciar os resultados" não seria Corte Suprema ou Supremo Tribunal Eleitoral?

Hugo Albuquerque em junho 29, 2009 7:43 PM


#53

Exatíssimo, Hugo, como sempre. O STE, não STF. Corrigido, obrigado :-)

Idelber em junho 29, 2009 7:50 PM


#54

O presidencialismo no âmbito das Américas (não estoi incluindo os EUA) está novamente pendendo, quem diria, para o personalismo.

O infeliz incidente da queda do mandatário de Honduras parece ter acionado este sentimento menor. Os presidentes latino-americanos fizeram nestas últimas horas (e ainda estão fazendo isso), questão de pronunciar-se em seu nome pessoal sobre a indignidade que foi o afastamento de um cidadão eleito para a presidência de Honduras. Exercem alguns mandatários latino-americanos, no entanto, o poder de uma forma menos republicana do que exerceu, por exemplo (e por absurdo, já que foi um monarca), o longevo imperador brasileiro que pensava mais em nosso país e para o nosso país.

Veja você caro Idelber, por exemplo, a posição de professores transmitindo noções de História aos jovens brasileiros. Como explicarão nossos professores da História Contemporânea este personalismo presidencialista? Como explicarão nossos professores nestes tempos de busca de um protagonismo que inclui e que responsabiliza, a atuação que tangencia o egoismo, dos supremos mandatários da AL?

É terrível que por sobre um acontecimento digno do romance latino-americano, de alguma coisa que parecia já ser apreciado como coisa do passado, que presidentes com uma noção de diplomacia essencialmente presidencialista se promovam falando em nome próprio. Vida que segue.

Paulo Z em junho 29, 2009 8:09 PM


#55

Já são dois batalhões militares rebelados contra o governo golpista de Honduras:

http://tercerainformacion.es/?Dos-batallones-del-ejercito-de

Idelber em junho 29, 2009 8:13 PM


#56

Só para relembrar: a onde de Golpes de Estado na América Latina, nos anos 1950/1970, também começou num país centro-americano, a Guatemala, quando o governo democraticamente eleito de Jacobo Arbenz foi derrubado por um Golpe inteiramente organizado e financiado pela CIA.

Esses gorilas hondurenhos (com todo o respeito que os verdadeiros Gorilas merecem...) tem que ser isolados da comunidade internacional.

Nenhum governo do mundo deveria reconhecer os golpistas hondurenhos. É presiso isolá-los totalmente da comunidade internacional.

E para sufocar a economia local, bastará os países nos quais vivem muitos hondurenhos proibir a remessa de divisas para os habitantes do país que a economia hondurenha já sofrerá um forte baque.

Marcos D. em junho 29, 2009 8:29 PM


#57

Idelber, um bloqueio de remessas de divisas, de hondurenhos que vivem no exterior, para Honduras, promoveria um grande estrago na economia do país.

Veja isso:


"Remessas de divisas feitas por hondurenhos vivendo no exterior atingem a casa de 2,7 bilhões de dólares anuais e equivalem a quase 22% do PIB do país que fechou 2007 em 12,3 bilhões de dólares.".

http://www.cicbr.org.br/bancodedados/relatorios/251.pdf

Marcos D. em junho 29, 2009 8:35 PM


#58

Ótima lembrança, Marcos. Eu imaginava que era muito, mas 22% é um índíce quase governadorvaladaresco!

Idelber em junho 29, 2009 8:42 PM


#59

Os leitores confusos com a tergiversação pseudo-jurídica dos direitistas: estas são as ações dos auto-intitulados "defensores da democracia" sob Micheletti: AUMENTA REPRESSÃO EM HONDURAS.

Hudson Lacerda em junho 29, 2009 9:37 PM


#60

Caro Idelber,

O que me questiono agora, após o golpe, é até que ponto o apoio de Chávez é benéfico para Zelaya e para a estabilidade em Honduras. Claro que um presidente eleito democraticamente tem todo o direito de se alinhar política e ideologicamente com quem quiser. Mas de que adianta a ideologia quando não se está no poder ou não se tem condições de ocupá-lo? Para mim, Chávez virou uma espécie de "Brizola" para Honduras. Pode esbravejar, mas se não colocar os tanques venezuelanos na capital hondurenha (e acho que ele não tem apoio nem do povo hondurenho, nem do povo venezuelano para fazê-lo), ele mais atrapalha do que ajuda. Radicalizar o discurso para um presidente que não conta com apoio das elites nem das forças armadas é burrice.

Zelaya tem direito e poder para reivindicar algo simples: sua volta como chefe do Executivo. Seu poder está justamente no apoio internacional que tem recebido. Nenhum país reconheceu o governo golpista. O próprio embaixador americano foi muito claro em declarar que os Estados Unidos só reconhecem Zelaya como presidente de Honduras. Por falar em Estados Unidos, aqui vivem mais de um milhão de hondurenhos, de uma população que não chega a 7,5 milhões de pessoas.

Sem o apoio externo, os golpistas são obrigados a negociar e Zelaya pode tentar voltar ao país para cumprir seu mandato, que termina no final do ano. Nesse sentido, pode tentar articular alguma candidatura de sua preferência, mas que necessita ser mais de centro. Fora isso, a outra opção é botar para quebrar: invadir o país com uma força estrangeira, prender os militares, os membros das elites que apoiaram o golpe, os parlamentares oposicionistas e alguns de seu próprio partido, os juízes da Suprema Cortes e por aí vai. Mas isso, além de difícil, é bastante improvável.

Acho que o golpe foi de uma canalhice sem tamanho. Mas meu argumento é de que Zelaya precisa dar uma moderada. Alguns governantes, como Chávez e Evo Morales, conseguem dar uma guinada política em seus países e aguentar o rojão. Outros, não. A título de comparação, em 2005, Zelaya foi eleito com 49.9%, Chávez foi reeleito em 2006 com 62.84%. É nesse delicado e difícil cálculo de forças que se vê o exercício da boa e velha arte da política.

Raphael Neves em junho 29, 2009 9:52 PM


#61

O Reinaldo Azevedo está que nem pinto no lixo!

Democracia não é atalho para ditadura

segunda-feira, 29 de junho de 2009 | 15:31

Venezuela, Bolívia, Equador, Nicarágua… Qual é o problema central desses países? A democracia se tornou apenas um atalho para a ditadura. Honduras estava nesse caminho. Recorre-se a processos constituintes para matar a democracia representativa, instituindo, em seu lugar, formas pilantras de “democracia direta”, que nada mais são do que uma pantomima plebiscitária, manipulada por grupo de pressão. O modelo é tão “popular e democrático”, que acaba erigindo “guias geniais”, “condutores do povo”. Vale dizer: a democracia direta dos bolivarianos precisa de ditadores que se eternizem no poder.

Ignorar o método dessa gente é coisa típica de vigaristas. Golpista, em Honduras, era Zelaya. Até agora, o que aconteceu lá obedece ao mais estrito rigor constitucional, pouco importa se houve renúncia, como parece ter havido, ou deposição. Se o novo governo, caso sobreviva, e os militares não obedecerem ao calendário eleitoral e criarem dificuldades para a oposição democrática, aí, então, a coisa muda de figura.

Raphael Tsavkko Garcia em junho 29, 2009 9:58 PM


#62

Idelber,

Fim de semana marcado por golpe de estado e pela perda de um dos ícones da nossa comunidade jurídica. Morreu no sábado, aos 94 anos de idade, o Professor Goffredo da Silva Teles Jr., que teve atuação destacada na luta contra a ditadura militar brasileira e foi professor de incontáveis gerações de estudantes nas Arcadas. Não tive o privilégio de ser seu aluno, pois ingressei na Faculdade no ano seguinte à sua aposentadoria. Fica o registro e o exemplo a ser seguido por todos aqueles que fizeram o juramento de cumprir a Constituição.

Lincoln Pinheiro Costa em junho 29, 2009 10:56 PM


#63

Há conspiradores no ar de mudança da América Latina. Tenho a sensação de que os grupos que historicamente sempre dominaram a política na AL não estão dispostos a abrir mão so que consideram um privilégio dos privilegiados. E se isto for verdade, ainda corremos riscos. Ora oposições destrutivas e golpistas não admitem viver fora de sua visão estreita de democracia. Honduras perigosamente pode ser o laboratório de um mundo que todos não aceitamos mais.

jose leal em junho 29, 2009 11:08 PM


#64

Salve, Lincoln, saudações alvinegras e meu respeitoso Requiescat in pace para o Professor Goffredo da Silva Teles Jr. Obrigado por compartilhar a triste notícia.

Idelber em junho 29, 2009 11:59 PM


#65

jose leal,

Esses grupos jamais admitiram isso, o que muda agora é o próprio grau de enraizamento das instituições políticas latino-americanas e a integração regional bem como - e até mais importante - o posicionamento americano em relação a esse tipo de golpismo. Acho que os setores não-democráticos do continente estão, de fato, alvoroçados, mas o golpe tende ao fracasso na medida em que não encontrou nenhum respaldo. Pode ter sido o acontecimento mais desastroso possível para os profetas da ditabranda.

Hugo Albuquerque em junho 30, 2009 12:51 AM


#66

Olá Idelber, tudo beleza?

Um tema off-topic. Você está ligado no que disse o Lula no fórum de software livre? Ele deixou claro no discurso a sua posição sobre o projeto do Azeredo (o AI-6). Eis o link:

http://www.youtube.com/watch?v=g9YKmaXvhQM&eurl=http%3A%2F%2Fwww.agenciafisl.com%2F&feature=player_embedded

Um abraço,
Paulo

Paulo Morais em junho 30, 2009 12:59 AM


#67

Zelaya anunciou que voltará a Honduras na quinta-feira, com uma comissão da OEA:
"Voy a cumplir mi mandato de cuatro años, estén ustedes -los golpistas- de acuerdo o no"
http://www.telesurtv.net/solotexto/nota/index.php?ckl=53100

Hudson Lacerda em junho 30, 2009 1:02 AM


#68

Paulo Morais: Será que o Lula finalmente resolveu parar de dizer barbaridades - apoio a Sarney, ao Ahmadinejad, aos genocidas na ONU, etc, etc, etc - e colocar acasa em ordem?

Quebrei o pau com o Eduardo Guimarães hoje pelas luladas, haha!

Raphael Tsavkko Garcia em junho 30, 2009 1:48 AM


#69

Que RA que nada. Se for para xingar, xinguem alguém relevante... ;-)


Honduras Defends Its Democracy
Fidel Castro and Hillary Clinton object.

*
By MARY ANASTASIA O'GRADY

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Hugo Chávez's coalition-building efforts suffered a setback yesterday when the Honduran military sent its president packing for abusing the nation's constitution.

It seems that President Mel Zelaya miscalculated when he tried to emulate the success of his good friend Hugo in reshaping the Honduran Constitution to his liking.

But Honduras is not out of the Venezuelan woods yet. Yesterday the Central American country was being pressured to restore the authoritarian Mr. Zelaya by the likes of Fidel Castro, Daniel Ortega, Hillary Clinton and, of course, Hugo himself. The Organization of American States, having ignored Mr. Zelaya's abuses, also wants him back in power. It will be a miracle if Honduran patriots can hold their ground.
[THE AMERICAS] Associated Press

That Mr. Zelaya acted as if he were above the law, there is no doubt. While Honduran law allows for a constitutional rewrite, the power to open that door does not lie with the president. A constituent assembly can only be called through a national referendum approved by its Congress.

But Mr. Zelaya declared the vote on his own and had Mr. Chávez ship him the necessary ballots from Venezuela. The Supreme Court ruled his referendum unconstitutional, and it instructed the military not to carry out the logistics of the vote as it normally would do.

The top military commander, Gen. Romeo Vásquez Velásquez, told the president that he would have to comply. Mr. Zelaya promptly fired him. The Supreme Court ordered him reinstated. Mr. Zelaya refused.

Calculating that some critical mass of Hondurans would take his side, the president decided he would run the referendum himself. So on Thursday he led a mob that broke into the military installation where the ballots from Venezuela were being stored and then had his supporters distribute them in defiance of the Supreme Court's order.

The attorney general had already made clear that the referendum was illegal, and he further announced that he would prosecute anyone involved in carrying it out. Yesterday, Mr. Zelaya was arrested by the military and is now in exile in Costa Rica.

It remains to be seen what Mr. Zelaya's next move will be. It's not surprising that chavistas throughout the region are claiming that he was victim of a military coup. They want to hide the fact that the military was acting on a court order to defend the rule of law and the constitution, and that the Congress asserted itself for that purpose, too.

Mrs. Clinton has piled on as well. Yesterday she accused Honduras of violating "the precepts of the Interamerican Democratic Charter" and said it "should be condemned by all." Fidel Castro did just that. Mr. Chávez pledged to overthrow the new government.

Honduras is fighting back by strictly following the constitution. The Honduran Congress met in emergency session yesterday and designated its president as the interim executive as stipulated in Honduran law. It also said that presidential elections set for November will go forward. The Supreme Court later said that the military acted on its orders. It also said that when Mr. Zelaya realized that he was going to be prosecuted for his illegal behavior, he agreed to an offer to resign in exchange for safe passage out of the country. Mr. Zelaya denies it.

Many Hondurans are going to be celebrating Mr. Zelaya's foreign excursion. Street protests against his heavy-handed tactics had already begun last week. On Friday a large number of military reservists took their turn. "We won't go backwards," one sign said. "We want to live in peace, freedom and development."

Besides opposition from the Congress, the Supreme Court, the electoral tribunal and the attorney general, the president had also become persona non grata with the Catholic Church and numerous evangelical church leaders. On Thursday evening his own party in Congress sponsored a resolution to investigate whether he is mentally unfit to remain in office.

For Hondurans who still remember military dictatorship, Mr. Zelaya also has another strike against him: He keeps rotten company. Earlier this month he hosted an OAS general assembly and led the effort, along side OAS Secretary General José Miguel Insulza, to bring Cuba back into the supposedly democratic organization.

The OAS response is no surprise. Former Argentine Ambassador to the U.N. Emilio Cárdenas told me on Saturday that he was concerned that "the OAS under Insulza has not taken seriously the so-called 'democratic charter.' It seems to believe that only military 'coups' can challenge democracy. The truth is that democracy can be challenged from within, as the experiences of Venezuela, Bolivia, Ecuador, Nicaragua, and now Honduras, prove." A less-kind interpretation of Mr. Insulza's judgment is that he doesn't mind the Chávez-style coup.

The struggle against chavismo has never been about left-right politics. It is about defending the independence of institutions that keep presidents from becoming dictators. This crisis clearly delineates the problem. In failing to come to the aid of checks and balances, Mrs. Clinton and Mr. Insulza expose their true colors.

Write to O'Grady@wsj.com
Printed in The Wall Street Journal, page A12

Andre Kenji em junho 30, 2009 2:19 AM


#70

Paulo, valeu, sim, vi o discurso do Lula. Falei dele no Twitter, apesar de não o ter tematizado aqui ainda. Disseram as testemunhas que ele foi ovacionado de pé aos gritos de "software livre" :-)

Idelber em junho 30, 2009 6:28 AM


#71

Idelber,

Bom, não que seja relevante, mas essa foto aí que você tirou do Facebook na verdade é da Reuters. Saiu no NY Times também: http://www.nytimes.com/2009/06/29/world/americas/29honduras.html?pagewanted=2&_r=1&hp

Parabéns pelos posts e pela "cobertura" no Twitter.

Abraço,
Rapha

Raphael Neves em junho 30, 2009 11:42 AM


#72

Chávez finalmente colocou os pingos nos "i's", ou pelo menos fez a retórica avançar com um pouco mais de corpo. A possibilidade d eintervenção militar da ONU seria uma solução, algo mais palpável que o mero "repúdio" internacional. A pressão funciona em parte, o isolamento idem, porém neste meio tempo a população local sofre, é morte e tem seus direitos humanos violados.

do JB:

"- A comunidade Alba (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América) estará atenta nas próximas horas, porque em um cenário de agressão contra a delegação que for a Honduras abriria outro tipo de porta. Então haveria que colocar, por exemplo, a intervenção militar das Nações Unidas - disse Chávez segundo comunicado da presidência.

- Não sou partidário desta medida, mas a lanço como uma hipótese. Uma resolução das Nações Unidas ou da OEA, uma força política, diplomática, com segurança militar internacional, teria que pensar nisso - disse em Managua antes de retornar a Caracas."

Raphael Tsavkko Garcia em junho 30, 2009 10:56 PM


#73

Olá,

alguém encontrou informação sobre o que exatamente ia a referendo? Preferencialmente uma imagem da cédula... O tal artigo 239, draconiano, de fato diz que até mesmo aquele que *propuser* uma reforma no dispositivo de inelegibilidade perde seus direitos políticos por 10 anos. No entanto, se o objeto do referendo ou consulta era apenas a convocação ou não de uma assembleia constituinte originária (que sempre tem força para alterar mesmo cláusulas pétreas), não dá para entender como o presidente deposto teria infringido o artigo.

Paulo Santoro em julho 1, 2009 11:38 PM


#74

É lamentável que o golpe de estado em Honduras tenha se concretizado com auxílio do Poder Judiciário. Nas ditas repúblicas democráticas os tres poderes deve ser independente e harmônico entre sí, verdadeira balela. Vejam e analisem a situação de quaiquer repúblicas e depois me digam se existe alguma que segue esse princípio. Quando não é o Executivo que domina é judiciário e o legislativo coitado esse poder que é tido como o poder do povo é o que menos tem força. Aqui no Brasil como em Honduras não é diferente o judiciário intervem em tudo e não se contentam em fiscalizar e garantir as aplicações das Leis, mas querem legislar e executar gestão pública. Os golpistas sempre usaram as forças armadas para atingir seus objtivos e quando chegam ao poder agem dez vezes pior que o mais tirano dos Monarcas, então de que vale o discurso de República Democrática. Na verdade aqui quanto lá em Honduras querem é proclamar a REPÚBLICA DOS MAGISTRADOS > ditadura dos juízes. Faz muito tempo que defendo a idéia da fundação de um REINO ARISTODEMOCRÁTICO,isto é, um poder exercido de forma mixta entre os cabeças pensantes e a população sobre a liderança de um Rei constitucional. VIVA O REINO! ABAIXO A REPÚBLICA DOS MAGISTRADOS! ATÉ A VITÓRIA!

DINARTE DA COSTA PASSOS em julho 2, 2009 10:34 AM


#75

Interessante, a maioria dos comentários neste post parecem ter uma flagrante tendência esquerdista. Até parece que o socialismo e a esquerda em geral é "a verdade final." O mais interessante ainda, é que ninguém fala do golpe ou golpes, perpetrados através de manobras pelo Hugo Chaves para se perpetuar no poder na Venezuela (Hitler subiu ao poder de maneira similar). A nova religião da moda é socialismo. E, o mais interessantíssimo ainda é ver que historicamente o socialismo foi e tem sido uma "perfeita" falha em qualquer lugar que foi adotado. Mas parece que as pessoas ou não têm capacidade de enxergar isso, ou, para elas apoiar o socialismo que falhou, lhes é de interesse.
"Que é isso companheiros?"

Só dando risada mesmo.

Charles

Charles em julho 2, 2009 5:51 PM


#76

Ah, em tempo: Aparentemente Zelaya estava tentando seguir os passos do Hugo.
Charles

Charles em julho 2, 2009 5:53 PM


#77

Eu sempre fui contra a golpre de estado, já vivemos em uma outra epoca, nos dias de hoje o que deve sobreviver é a democracia, mas a democracia ampla e total, não essa democracia dirigida onde somos obrigados a votar e pagar seguro obrigatorio, o caso de honduras deve se entender o que o presidente estava querendo fazer ao país, pelo que li, ele queria implantar a sua reeleição como estão querendo aqui no brasil...isso não seria uma ditadura?

Saul Freitas em julho 8, 2009 8:44 AM


#78

Pois é, Saul, o que você leu na mídia era mentira. A consulta não era sobre segundo mandato. Era sobre se a população queria ou não uma urna para votar numa Assembleia Constituinte. Nada a ver com ditadura.

Idelber em julho 8, 2009 8:57 AM


#79

A direita aqui no Brasil, provavelmente apoia o "Golpe". Espero que em 2010 continuemos com a corrente política atual. Não ao SERRA e outros bixos.

Gênese em julho 9, 2009 2:40 PM


#80

no hay que darle tanta importancia al señor mel zelaya, el necesita engañar al mas pobre y desvalido que no entiende que el, igual que el señor micheletti y todos ellos que pelean entre si usando nuestra fuersa y necesidad para logra el poder ellos todos buscan poder y mas poder ninguno da un paso en falso, ninguno da de lo que tiene para el que no tiene ni siquiera los religiosos que igual buscan poder luchen por sus propios ideales no por los de mel y micheletti.

glenda carcamo em julho 20, 2009 6:08 PM


#81

EU APOIO TUDO ISSO

CARLOS MAIA em julho 26, 2009 12:11 PM


#82

puta que paruiu bando de vead@ com 6 faz um trem desse

ihha em julho 27, 2009 9:29 PM


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