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Um blog sobre política, literatura, música e futebol basquetebol. Na rede desde outubro de 2004.



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segunda-feira, 15 de junho 2009

Wilson Simonal e o revisionismo histórico da "ditabranda"

simonal-4.jpgEstá em curso um bizarro revisionismo da música e da política dos anos 60/70, segundo o qual o Pasquim e a esquerda teriam tido poder suficiente para canonizar e destruir ícones da cultura brasileira. É o mundo ao revés. O passado é reescrito como se Jaguar e Chico Buarque, e não Médici e Geisel, tivessem comandado a nação. O mote, evidentemente, é o documentário Ninguém sabe o duro que dei, uma recuperação da figura de Wilson Simonal. A história é danada de complexa, muitos mitos a cercam e há vários interesses em jogo – a maioria deles tendo pouquíssimo a ver com Simonal. Quando Reinaldo Azevedo recomenda um filme como uma aula de história brasileira, é bom ficar de olho.

O documentário não é exatamente desonesto no que diz. Mas ele se presta a uma leitura capciosa, especialmente naquilo que não diz. Sem dedicar ao tema semanas de preparação e pesquisa, eu seria incapaz de fazer algo tão espetacular como o post do Samurai no Outono. Por isso eu havia prometido não falar do filme aqui. Mas como promessas em blog foram feitas para serem quebradas, lá vou eu. O Samura já demoliu, com o martelo da razão crítica e do conhecimento histórico, a baboseira que está se armando em torno desse filme. Tomem este post, portanto, como um humilde apêndice ao Samura. Concordo com tudo que está lá e vou acrescentar dois centavos. A necessidade de fazê-lo me foi confirmada outro dia no Twitter, onde dois interlocutores – que me davam a nítida impressão de não terem visto o filme – me martelavam sem qualquer argumento a cantilena que já virou lugar comum: “o patrulhamento da esquerda destruiu a carreira de Simonal”.

Até quem não acompanha a história da música brasileira já conhece o resumo da ópera: Simonal, negro talentoso e carismático, cantor de extraordinários recursos, mestre na divisão rítmica e no suingue, debochado e desafiador, sobe vertiginosamente na preferência popular ao longo da segunda metade dos anos 60, até que em 1971 protagoniza o episódio que mudaria sua vida. Tendo perdido o contrato que realmente lhe dava grana – o da Shell, engavetado depois que Simona fizera o presidente da multinacional esperar no aeroporto durante uma hora e meia enquanto ele dormia --, se dá conta de que os Mercedes, as farras e as noitadas não eram financiados com dinheiro infinito. Descobre-se quebrado. Acusa o contador e contacta meganhas, um deles ligado ao DOPS, para dar-lhe um cacete. Enhanced interrogation techniques, diz o Samura com ironia. Simonal promove uma sessão de tortura em seu contador no DOPS. Quando o contador lhe processa e ele é levado à delegacia para depor, tenta se safar com o conto de que “era um deles”, de que era “um homem do regime”. Daí em diante, está armado o circo para que entre a esquerda má, feia, bobona (e poderosa) que teria transformado Simonal em “dedo-duro”. Que Simonal nunca foi delator do regime é o óbvio do óbvio. Mas isso não quer dizer que você possa entender essa história sem entender a relação entre a música popular e a ditadura daquele momento. Antes disso, claro, dois fatos se impõem: 1) a origem do mito do "dedo-duro" é uma história inventada pelo próprio Simonal no momento do arrego; 2) o assunto foi amplamente tratado pela imprensa antes que o Pasquim iniciasse seu sarro. Isso fica claro no próprio filme.

Analisar um documentário é, antes de tudo, dissecar a relação a câmera e o representado. Quem viu o filme se lembra: os depoimentos de Chico Anysio são gravados em close-up horizontal, quase num tête-à-tête com o espectador. As piadas vão se encarregando de criar a cumplicidade, mas não escondem a pergunta que não quer calar: não seria outro Chico o que deveria estar ali? É bizarro o recurso a Chico Anysio para fundamentar a hipótese do filme, sendo ele, afinal de contas, o autor das frases Não tenho confiança em goleiro negro. O último foi o Barbosa, de triste memória, enunciados tão mais odiosos quanto mais nos lembramos – coisa sabida por qualquer bom vascaíno – que Barbosa foi um dos maiores goleiros da história do ludopédio. A primeira frase é odiosa e a segunda, evidentemente, é falsa. No entanto, seria demais esperar que Chico Anysio respeitasse as glórias de, por exemplo, Mão de Onça ou Dida. Simonal-2.jpg

Mas tergiverso, como diria meu mestre Inagaki. Voltemos ao filme.

Os depoimentos de Toni Tornado já são gravados em close-up diagonal, com a câmera em plano superior ao representado. Curiosa escolha. Diminui-se a imensa figura de Toni. Esse, claro, foi um negão que incomodou bastante o regime. Tornado tinha uma relação muito mais orgânica que Simonal com a tradição de luta negra expressa no soul norte-americano. Ficou famosa sua apresentação de "BR-3" no quinto Festival Internacional da Canção, inspiradíssima em James Brown. A ditadura chegou a temer que Tornado reeditasse os Black Panthers por aqui. Fala-se muito da composição de Simonal e Ronaldo Bôscoli em homenagem a Martin Luther King. Ora, o próprio fato de que um reacionário como Bôscoli pudesse compô-la indica que o processo de domesticação da figura do Doutor King já se iniciara. Mas no revisionismo em curso, um tributo a King passa como se fosse um tributo a Malcolm X, um escândalo do indizível. Não o era. Leiam a tese de Eduardo de Scoville, já recomendada pelo Samura. O fato é que o trabalho da câmera sobre Tornado sublinha a impotência do personagem com sua negação: puxa, não dá para imaginar Simonal como dedo-duro...

Mas é no depoimento do neoanaeróbico Nelson Motta que o filme realiza sua operação ideológica. Ao contrário do que ocorre na filmagem de Toni Tornado, as tomadas de câmera que nos oferecem as peroratas de Motta são feitas de baixo para cima, magnificando o personagem, que tem atrás de si, além do mais, uma imponente coleção de CDs e uma réplica da emblemática obra de Hélio Oiticica, que traz o bandido Cara de Cavalo morto, com a legenda Seja marginal, seja herói. Dá-lhe ideologia subrreptícia. Oiticica, evidentemente, se revira no túmulo.

O fato importante aqui é que Nelson Motta, com a autoridade de quem foi testemunha ocular e ainda é o maior repositório de fofocas da MPB das últimas décadas – autoridade, reitero, também construída pelo trabalho da câmera --, empresta legitimidade à ficção do mártir perseguido. Juntamente com muitos fatos inegáveis, vem uma boa dose de distorção e manipulação. Motta chega a afirmar que a explosão de Simonal no final dos anos 60 representou a chegada do primeiro pop star negro na música brasileira fora do samba. Curioso, né? Eu achava que Jair Rodrigues era negro. Lembremos que o estouro de “Disparada”, na voz de Jair, acontece em 1966 – vai ver que para os tímpanos Zona Sul de Motta, “Disparada” é um samba. Omito, claro, o primeiro grande astro pop da música televisionada no Brasil, o negro Jackson do Pandeiro, que embalou corações e quadris com seu programa nos anos 50. Afinal de contas, seria demais esperar que Motta, em seu leblonismo, conseguisse imaginar arte musical brasileira anterior à Bossa Nova. É a vejificação da história da MPB, em ritmo acelerado.

Wilson%20Simonal%20-%20Tem%20Algo%20Mais%20fr.jpgSe formos analisar em detalhes a música brasileira na virada dos anos 60 para os 70, aí é que a hipótese revisionista desaba de vez. Simonal era um grande artista, não há dúvidas. Talvez só o já citado Jackson fosse tão bom como ele na divisão rítmica vocal. O carisma era inegável. Mas a discussão aqui não gira em torno do talento, mas do lugar do artista num momento histórico. Simonal passa ao largo do grande embate que ocorre na música popular brasileira no final dos anos 60: o choque entre a música acústica de protesto emblematizada por Geraldo Vandré (o que se chamava, entre 1966 e 1968, de MPB, sigla que tinha na época um sentido bem diferente, mais nacionalista, daquele que adquiriria nos anos 70) e, por outro lado, o tropicalismo, que resgatara uma vocação cultural no iê-iê-iê da Jovem Guarda, canibalizando o vasto repertório do pop internacional. Aquele embate se resolve rapidinho. Poucas vezes na história da cultura brasileira um choque entre duas tendências é saldado de forma tão categórica com a vitória de um lado. Os tropicalistas comem Vandré e cia. já no café da manhã. A vitória é total e completa, e definidora dos rumos que tomaria a música brasileira. Já em 1970 não era heresia enfiar guitarra elétrica onde fosse. Sugerir que a esquerda populista musical tivesse, em 1971, força suficiente para derrubar alguém é de um cinismo inominável, vindo de quem sabe algo sobre a história – e de ignorância útil lamentável por parte de quem a desconhece. No caso de Reinaldinho, é ignorância e cinismo.

Resgatemos Simonal? A pergunta não faz o menor sentido para aqueles que, como eu, lhe dedicam ouvidos atentos há anos. O problema com o bafafá em torno do documentário é que em vez de sugerir audição à obra do artista, ele acaba traficando revisionismo mentiroso. Repito: não há mentiras no filme. Mas ele se presta a ser embrulhado com ideologia bolorenta. Aquele que muitos de nós consideramos o melhor disco de Simonal, o S'imbora, de 1965, contém canções de Carlos Lyra e Vinícius de Moraes, Chico Buarque, Garoto, Geraldo Vandré, Marcos Valle. Esta não é exatamente uma lista de artistas “patrulhados pela esquerda”. Comparem-no com o disco de 1972, já em fase de produção na época da coça no contador e, portanto, não atingido de forma nenhuma pela suposta “demolição” feita pela esquerda má, feia, bobona e poderosa. A faixa título é uma composição do intragável Ivan Lins. Antes de chegar ao final do lado 1 do LP, você tem que suportar “Mexerico da Candinha”. I rest my case. Ouçam os discos feitos ao longo de década de 70 e comparem-nos com as pérolas anteriores, não ao cacete no contador, mas à vitória tropicalista, que já acontecera, categórica, em 1968.

Mais além do fato de que fez discos ruins nos anos 70 e passou ao largo dos rumos da música nacional daquele momento, é evidente que Simonal foi boicotado. Contribuiu a isso o fato de Simonal ser um negro de cabeça erguida, debochado, que esfregava seu sucesso na cara do establishment branco? Parece-me evidente que sim. Só afirmaria o contrário alguém como Reinaldinho, que nega a existência do racismo brasileiro, o mesmo ao qual agora ele se agarra como hipótese interpretativa para demonizar a esquerda. Mas peralá: quem eram as figuras com inserção nos meios de produção musical e, portanto, com algum poder de reverter o ostracismo de Simona? Os mesmos Mottas e Mieles que agora emprestam legitimidade para que os Reinaldinhos reescrevam – sem saber nada de música – a história da canção brasileira como se esta tivesse sido sufocada pela esquerda amordaçada dos anos 70.



PS: Aí vai mais um toque aos amigos cariocas: amanhã, terça-feira, dou palestra intitulada "Direitos humanos e vida nua", no IFCS (Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ), que fica no Largo de São Francisco, 01. A falação acontecerá na Sala 411, a partir das 10:30 da manhã. O agradecimento pela organização do evento vai para o Professor Cesar Kiraly.



  Escrito por Idelber às 07:19 | link para este post | Comentários (128)


Comentários

#1

É a primeira vez que leio um post do seu blog, descobri o link no site da Lola, acho. E adorei ler a sua análise do documentário. Bem fundamentada e coerente. Vou recomendar para os amigos, especialmente para um que acredita que Simonal foi o mártir do patrulhismo de esquerda... Se bem que, levando-se em conta a pessoa, ele não vai acreditar.

Valéria Fernandes em junho 15, 2009 8:58 AM


#2

Caro Idelber

Com alguma expectativa começo a ler AGORA o seu texto sobre Wilson Simonal. Creio que você deve ter considerado que subscrever o Samurai (o que acho perfeitamente normal) não foi suficiente!

Vamos lá.

Paulo Z em junho 15, 2009 9:17 AM


#3

Por que a direitinha sempre se acha grande. Por que Reinaldão e Olavão? Estão tentando compensar alguma coisa?

André em junho 15, 2009 10:17 AM


#4

A Revolução de 64 ocorreu justamente para combater as tropas comunistas, financiadas pelo farto dinheiro vindo da URSS, que estavam sendo convocadas para o Golpe Vermelho pelo todo poderoso Pasquim.

André em junho 15, 2009 11:10 AM


#5

Caro Idelber, espero que o seu encontro no COBAL tenha sido proveitoso.
Não entendo porque você coloca o famoso colunista da VEJA na roda como Pilatos no ‘Credo’, mas vamos lá.

Os fatos, e a gradação de sua repercussão (em 8 pontos). Primeiro ponto: Wilson Simonal NÃO foi atingido em vôo de cruzeiro. Sua carreira apresentava sinais de estar na descendente. Segundo: Por razões fora do âmbito da música, a ‘SHELL (Petróleo)’ tornou-se naquele momento um dos 2 ou 3 maiores anunciantes no Brasil (ou pelo menos no Sudeste). Terceiro: Quando o Pasquim foi criado, Simonal cantava UM GRANDE SUCESSO de Jorge Ben. As críticas do saudoso semanário ao notável artista vieram depois. Quarto: Chico Anysio foi o mais brilhante e criativo nome artístico (excluindo a música) da TV P&B (tendo iniciado na telinha como Francisco Anísio). Quinto: Em relação ao Tributo a Martin Luther King, deve-se dizer que Simonal e a Imprensa (não necessariamente nesta ordem) colocaram algumas vezes NAQUELE FINAL DOS ANOS 60 a questão dos negros brasileiros na pauta. Qual era, intimamente, o sentimento de Simonal eu não sei, mas ele falava sobre o assunto em entrevistas e em shows (pocket shows). Havia inclusive uma ou duas ‘frases feitas’ a respeito, que circulavam no Rio. Sexto: Fato: Jair Rodrigues era negro, Jair Rodrigues continua negro. Jair Rodrigues era um bom cantor (ainda é). Ele, no entanto, e mesmo atuando ao lado de Elis era considerado alguns (razoáveis) pontos abaixo dela. A explicação era o “Deixa que digam, que pensem...” (a música anterior), considerado na época uma coisa menor. Mas de IMENSO sucesso popular! A interpretação de “Disparada” trouxe o Jair para o rol dos grandes nomes. Sua (oni)presença na telinha da Record também. Jair tornou-se um “pop star” com muito trabalho. Sétimo: Jackson do Pandeiro era sucesso na TV P&B. PORÉM (nos anos 60) tinha uma participação secundária neste ambiente (televisivo do Sudeste), sábado de tarde, primeiros números, nunca o auge do ‘horário nobre’. AQUI eu creio que você, meu caro Idelber, esqueceu-se do ESTRONDOSO SUCESSO de Jorge Ben (creio que em 1963). E, veja lá, Jorge Ben tinha uma figura simpática, mas algo “marrenta”! Superou eventuais problemas e CONQUISTOU AMPLO PÚBLICO com “Chove chuva”, que tocou dois meses seguidos em todos os lugares. Deslanchou sua carreira em SP (na Record). Oitavo: Bem antes de 1970 já havia (pelo menos) uma guitarra em cada prédio de Copacabana (tempere isto para o resto do Rio e do Brasil).

Fatos...

Paulo Z em junho 15, 2009 11:14 AM


#6

Idelber, quando vem a Porto Alegre? Já tomaste uma cerveja Coruja?

Diego Chevarria em junho 15, 2009 11:44 AM


#7

Olha, sabe qualé a verdade?

Ninguém se importa.

Quem vai assistir a um documentário povoado por uns bostas velhas como CHICO ANYSIO e NELSOM MOTTA?

Pô, é pra apelar? Bota aí o Jô Soares no meio de uma vez! Aí vamos ter que abrir DEFCON 3, porque esse filme se transformaria em ameaça nuclear!!!

Galera, o mundo mudou.
"Revisionismo histórico" não cola quando você tem o poder de conseguir a informação de verdade com três palavras no google.

Eu sei que é função desse post justamente ser o resultado dessa busca de três palavras no google...

Mas o recado que eu quero dar é: Fica tranquilo, cara.

MAteus em junho 15, 2009 11:46 AM


#8

Brilhante, Idelber. Seus argumentos se ligam aos dados de Samura para apontar o que há de tendencioso e desonesto em "revisões" como essa. Não comentarei o filme porque ainda não tive a oportunidade de vê-lo. Mas darei rápido pitaco.
Escrevi nesse fim de semana sobre a cinebiografia de Arnaldo Baptista, LOKI, na revista eletrônica do Curso de Cinema da UFSC,a Punctum. Há uma louvável leva recente de documentários brasileiros sobre música popular, na forma de "retratos" de artistas, em que geralmente o secundário é justamente o principal: a música, que se torna o "fundo sonoro" para o que se diz sobre o artista. Isso é lamentável, pois aí é a vida do artista (ou seja, suas versões, seu anedotário) que serve para ler a obra, conduzindo-a, reduzindo-a.
No caso de Wilson Simonal, a "pilantragem" com que ele (via Carlos Imperial) caracterizou seu estilo, numa espécie de versão bronca e cafajeste do tropicalismo, acabou servindo de carapuça para ele mesmo e para os que hoje o consideram um coitadinho, perseguido e destruído pelas esquerdas. Realmente, é muita fé e oportunismo. Além de desrespeitoso à memória desse grande cantor, que, estranhamente, não teve ajuda em vida dos Nelsinhos Mottas da vida, sempre em bons cargos nas grandes gravadoras, rádios e TVs.


Jair Fonseca em junho 15, 2009 11:49 AM


#9

Olá Idelber, vi o filme ontem, antes de ler o seu texto, e devo dizer que concordo com quase tudo. A primeira parte do documentário é bem agradável de se ver, embora depois a gente perceba que se trata daquele velho truque do cinema dito de ficção: enfatizar os aspectos simpáticos de um personagem aos olhos do espectador e depois mandar uma paulada. Sem dúvida que o Simonal era um grande cantor e performer. Como notou a Laura durante a projeção, aquela apresentação com a Sara Vaughan vale o filme. Mas foi preciso apagar Jorge Ben, Jair Rodrigues e a carreira musical abortada do Toni Tornado para engrandecer a figura dele, entre outros procedimentos retóricos e fílmicos, como os enquadramentos que você citou.

O filme também não deixa dúvida que o Simonal catalizou o seu próprio ostracismo e, como bem resumiu o Ziraldo, ficou lá parado na posição certa para alguém mandar a pernada. O depoimento do ex-contador realmente acrescenta algo a essa história confusa e triste e é, na minha opinião, a pièce de résistance do filme, que a partir daquele momento deixou de ser apenas uma tentativa de reabilitar o cantor. Ao mesmo tempo, o depoimento legitima bem mais essa linha do que Anysio, Miele, Boni e Motta juntos, que como você bem notou, poderiam ter feito algo na época para atenuar a desgraça do "personagem".

Poderia acrescentar à sua análise, já entrando na minha seara, que o uso da música "incidental", principalmente na segunda parte do filme, explicita de forma indelével essa intenção reabilitadora dos diretores, dando mais deixas para as interpretações revisionistas de alguns articulistas. Há um segmento emblemático, "à guisa de conclusão", quando os filhos de Simonal tentam colocar o problema em perspectiva, dizendo que é melhor "lembrar as coisas boas" ou algo assim. Eles dizem isso ao mesmo tempo em que soa uma música melancólica e algo trágica, em aparente contradição com as tais "coisas boas" do discurso verbalizado, que carrega na vitimização do personagem construído pelo filme.

A música como direcionadora de sentido em filmes que se pretendem uma representação "fiel" ou "o mais próxima possível do real", como os manuais costumam definir esse tipo de filme, explicita a autoria e deixa mais claras a carga editorial, poderia dizer ficcional mesmo, de todo documentário. O personagem Simonal pode nem diferir tanto daquele construído por quem já o valorizava como performer, mas o fato dele ser usado como argumento para revisionismos históricos serve como mais um elemento nessa história assaz complexa.

Leo Vidigal em junho 15, 2009 11:50 AM


#10

Idelber,

Brilhante! Mas o Paulo Z tá certo, já havia o Jorge Ben fazendo um estrondoso sucesso. Vide não só o "Chove Chuva", mas também "Charles, Anjo 45" já no final dos anos 60. Outra coisa: parece que a história do "dedo duro" não era só pataquada do Simonal. O Rodrigo Vianna postou algo a respeito:

http://www.rodrigovianna.com.br/outras-palavras/simonal-outra-tentativa-de-reescrever-historia

http://www.rodrigovianna.com.br/plenos-poderes/vanzolini-diz-que-simonal-se-gabava-de-ser-dedodur

Abraços!

Johnny em junho 15, 2009 11:56 AM


#11

Corrigindo: "Realmente, é muita MÁ FÉ e oportunismo".

Jair Fonseca em junho 15, 2009 11:56 AM


#12

Johnny e Paulo Z,
o Idelber, respondendo a Nelson Motta, fala de pop stars negros "fora do samba". Jorge Ben começa já com o "Samba Esquema Novo"...

Jair Fonseca em junho 15, 2009 12:04 PM


#13

Correto, Jair, mas eu não enquadraria o Jorge Ben de 1963 como sambista, como acredito que o Idelber também não. O primeiro disco dele é uma fusão de bossa-nova, jazz e uma pitada de samba. A banda que acompanha o atual Benjor é jazzística, no estilo que se tocava no Beco das Garrafas. Já o Jorge Ben posterior, eu nem saberia enquadrar, deixo a cargo de especialistas como o Prof. Idelber...

Johnny em junho 15, 2009 12:12 PM


#14

Pô, Professor, o sr. não quer fazer essa palestra na USP não? :D

Thiago Candido em junho 15, 2009 12:14 PM


#15

Jair,

Você tem razão: se o Nelsinho Motta tinha tanta peninha do Simonal, por que abandonou-o à própria sorte? O diminuto jornalista (em todos os sentidos) tinha espaço nos jornais, na TV e era manda-chuva na poderosa Polygram! Ora, bota o cara pra fazer uma faixa com a Elis, que ele produzia... Aliás, lembrando que a Elis foi enterrada pelo Henfil lá nos idos de 72, por ter cantado nas Olimpíadas do Exército. "Seu" Casseta vai dizer que ela foi coagida???

Johnny em junho 15, 2009 12:23 PM


#16

Boa análise, entretanto, como Jânio de Freitas disse, falta o "dedo" no título do filme. Vivi essa época como "hóspede" dos gorilas e sei o quanto o simona era "amado" pelos covardes torturadores. Mas não só ele. Agnaldo Rayol, Flávio Cavalcanti et caterva, para ficarmos nos mais conhecidos.
Na época pegava muito bem ser amigo dos "homens" da "ditabranda", como quer a FSP.

Armando em junho 15, 2009 12:33 PM


Johnny em junho 15, 2009 12:37 PM


#18

"Vejismo"? É um braço armado brasileiro da Berlusconização Mundial?
E por que não não fazem logo uma reporcagem no Fantástico para reabilitar a memória do Cabo Anselmo: Ele entregou a própria esposa, grávida, para o DOI-CODI? Ora, como todo esquerdista (segundo o pig), ele era a favor do aborto. Ele sumiu do ar, provavelmente com uma nova identidade? Ora, foi beneficiado pela Lei da Anistia, afinal, se não fosse a Lei da Anistia, metade do PT atual estaria preso.
Me desculpem o humor negro, mas a mídia nos faz engolir cada coisa...

Caetano em junho 15, 2009 12:40 PM


#19

Bom, vou falar um negócio que parecerá ortodoxo e corporativista, mas tem algo de verdade: quando se trata de história melhor confiar em livros de história escritos por historiadores. Jornalista não entende nada o que História, não sabe escrever historiografia, comete erros chulos e muitas vezes escreve muitas besteiras... Cuidado. A única revista de história comercial séria e confiavel no Brasil é a da Biblioteca Nacional, o resto é lixo, inclusive críticas escritas em jornalões - como folha e estado - que salvo raras críticas - nos presenteiam com besteiras e "tonterias" absolutamente ridículas.
Agora pelo amor de deus, tem gente que lê esses escrotos citados...?

Augusto em junho 15, 2009 12:47 PM


#20

Como sempre, a esquerda nunca erra. Não é ideologia política, é o reino de Deus na terra. O dia q esquerdista reconhecer os erros o inferno congela...

Rodrigo Leme em junho 15, 2009 12:49 PM


#21

Rodrigo Leme, o RA afirmou que o Poderoso Pasquim dirigido pelos Ditadores (ele usa outros adjetivos que o seu nível argumentação exige, mas que eu vou omitir) Ziraldo e Jaguar destruíram a carreira do Simonal. E nem se penitenciam por isso. O Rei da lógica só enrola seus fãs.

André em junho 15, 2009 1:03 PM


#22

Nossa, Rodrigo, claro que a esquerda erra... e muito... é só olhar o governo lula que fez várias cagadas, por exemplo o MP da grilagem ! A esquerda foi por anos homofóbica, assim como a direita, só pensava no econômico etc mas não existe A esquerda, existêm as esquerdas, assim como as direitas (PSDB, PPS, UDR, FIESP, DEm etc)...

Agora me fala uma coisa... o que é ser de esquerda e o que é ser de direita?

Augusto em junho 15, 2009 1:10 PM


#23

Belo texto, Idelber. Já tinah lido o do Samurai, e o seu foi um ótimo complemento.

-Gostei bastante desse filme, mas, embora ache que ele não foi feito para contribuir nesse revisionismo, sem querer caiu como uma luva. Se fosse intenção do filme demonizar a esquerda de verdade, não teriam ido atrás do contador. O depoimento dele – com uma camera no nível dos olhos, fechada – é o ponto alto do documentário.

-Mas também não dá prá dizer que o filme é totalmente isento. Só prá citar uma coisa, tem lá o depoimento de um cara, não lembro quem é, que fica numa indignação forçada repetindo "Mandaram o Simonal prá Sibéria! Isso que fizeram! Mandaram ele prá Sibéria!" por ser, teoricamente, dedo-duro, naquela clara e ridícula tática de ligar a esquerda, qualquer esquerda, com o Stalinismo. O suposto indignado não lembra, ou omite de propósito, que ser dedo-duro na União Soviética não era motivo prá ir prá Sibéria, muito pelo contrário. Ser dedo-duro era louvável, e até o Eisenstein fez um filme sobre aquele garotinho que dedava o pai contra-revolucionário. Acho que esse é o problema desses revisionistas de hoje em dia, né? Não são muito brilhantes, e consideram a própria platéia ainda menos inteligente que eles.

-Todo mundo sai do filme com essa impressão: se esses caras – Miele, Nelson Motta, Chico Anysio – têm tanta pena do Simonal, por quê não ajudaram o cara?

-O filme mostra bastante uns trechos do Pasquim pegando pesado com o Simonal. E os caras pegavam pesado mesmo. Mas não é muito diferente do que esses Reinaldões, Olavões e Mainardis fazem com quem eles chamam de "petralhas". Se eles tivesses um milésimo da unha do dedinho do pé do talento do Jaguar ou do Henfil, até que não estaríamos tão mal. Quando o Fontanarossa morreu, na Argentina, foi uma comoção. Quando o Jaguar morrer – e espero que demore –, o que vão lembrar vai ser dessa infeliz imagem que fizeram dele nesse filme do Simonal. Chega a ser um desrespeito com a obra do cara, que inclusive foi mais coerente e não usou a tática vaselina do Ziraldo.

Daniel em junho 15, 2009 1:14 PM


#24

Vi o filme há algumas semanas e concordo com as visões aqui colocadas. A sensação que tive é de que se tentou partir da idéia de que a queda de Simonal teria sido injusta mas que no confronto com os acontecimentos a idéia não conseguiu decolar. Diante disso, de uma suposta fraqueza do argumento inicial, até que o resultado foi legal. Longe de endossar a sub-leitura de Reinaldo Azevedo, também vejo o documentário como um belo retrato daquele período histórico. Aliás, diante da impossibilidade de acesso aos documentos oficiais, a história do período vêm sendo recuperada e construída graças aos vários documentários que têm sido feitos nos últimos anos. Não fosse por eles e a lacuna seria ainda maior.

Cláudia em junho 15, 2009 1:22 PM


#25

Johnny, lembro ainda que Nelson Motta, junto a seus cargos importantes em diversas mídias, ainda produzia shows diversos e foi dono de várias casas noturnas, que poderiam ter acolhido o Simonal em seu período de vacas magras.
Um cara importante, como Nelsinho, no cenário musical, agora dá uma de PPS ou FHC da cultura brasileira. Tenha dó!

Jair Fonseca em junho 15, 2009 2:32 PM


#26

O Nélson Motta não fez nada para amenizar a queda do Simonal e agora vem com uma dessas? Como tantos outros, o Simonal sofreu foi de sucesso.

Tiago Mesquita em junho 15, 2009 2:46 PM


#27

Valeu a pena ter ficado acordado até as 7 da manhã fazendo este post. Porra, ele estava entalado na garganta. Jair, meu velho, é uma honra que você tenha gostado!

Para quem não sabe, o Prof. Jair Fonseca, da UFSC, é um dos maiores conhecedores da história da música popular brasileira.

E haveria que se acrescentar muita coisa ainda que eu não disse. É interessante como o filme representa o Jaguar. O Samura fala um pouco disso. É um teatrinho do arrependimento criado pela edição e pelo trabalho de câmera em torno do Ziraldo, para subrrepticiamente traficar a imagem de um cruel Jaguar. O Daniel disse algo importante ali em cima. Daqui a pouco o Jaguar morre e vai ficar, dele, essa imagem: ah, foi o cara que destruiu o Simonal....

Quando um sujeito como Reinaldo Azevedo, que não sabe a diferença entre um aboio e um xaxado, começa a reescrever a história da música brasileira nas páginas da revista de maior circulação no país, é porque a coisa é grave. E com a vejificação completa de Nelson Motta, a direita ganhou alguém capaz de "argumentos" legitimados com autoridade de especialista. É o mundo ao revés.

Idelber em junho 15, 2009 2:54 PM


#28

"Motta chega a afirmar que a explosão de Simonal no final dos anos 60 representou a chegada do primeiro pop star negro na música brasileira fora do samba. Curioso, né? Eu achava que Jair Rodrigues era negro. Lembremos que o estouro de “Disparada”, na voz de Jair, acontece em 1966 – vai ver que para os tímpanos Zona Sul de Motta, “Disparada” é um samba."

"Aquele que muitos de nós consideramos o melhor disco de Simonal, o S'imbora, de 1965."

Não é preciso ir muito longe para descobrir que Simonal estava por aí, e já havia estourado, bem antes de 1966. Uma revisão teria impedido que a sua tendenciosidade viesse à tona.

Antonio Pedro em junho 15, 2009 2:54 PM


#29

Antonio, são duas coisas diferentes. Que S'imbora tenha sido seu melhor disco não quer dizer que ele tivesse estourado em 1965. Motta -- você se lembra do filme? -- não fala da estréia de Simonal. Fala da explosão dele como ídolo pop. Esta acontece, sem dúvida, depois do sucesso de "Disparada" na voz de Jair. O grande marco é o coro de 30 mil pessoas no Maracanãzinho, na abertura do show de Sérgio Mendes.

De qualquer forma, o exemplo de Jackson do Pandeiro enterra a hipótese de Motta acerca do pioneirismo de Simonal como ídolo pop negro fora do samba.

Idelber em junho 15, 2009 3:00 PM


#30

Caro Idelber,
Não vi o filme. Portanto, não tenho como entrar no mérito. Mas o discurso de "resgate" eu pesquei rapidinho, numa visita ao Rio de Janeiro. Amigos e conhecidos falaram a mim dessa "necessidade" de resgatar o cantor Simonal. Eu sempre o achei talentoso. Ainda admiro o cantor. O problema é que a persona pública parece que está sendo resgatada apenas como "a vítima das esquerdas". Incrível. Gostei da análise... Lúcida e justa. Como sempre.
Um abraço

Olímpio Cruz Neto em junho 15, 2009 3:05 PM


#31

Ô, Idelber, sou só um amador da música e do cinema brasileiros! Eu tiro é onda, já que sou professor de literatura...

jair Fonseca em junho 15, 2009 3:08 PM


#32

Caro Olímpio, é incrível a quantidade de pessoas que me dá o mesmo depoimento que você. Estamos, de verdade, diante de um revisionismo histórico de intenções nada puras. Gente que nunca nem ouviu falar de Simonal repete a cantilena do mártir perseguido pela esquerda. Assim vão se consolidando as mentiras como se fossem verdades. Abraço.

Idelber em junho 15, 2009 3:20 PM


#33

Idelber, como de hábito, o post está excelente. Da mesma forma que aconteceu com o Olímpio, diversos amigos me disseram: "você não pode deixar de assistir ao filme". Levando-se em consideração a posição política de alguns deles, é quase como se dissessem "você não pode deixar de ver o que seus companheiros esquerdistas fizeram com o pobre Simonal". O que está ocorrendo hoje é uma verdadeira disputa pela memória, o que se traduz em filmes como este ou nas argumentações da Folha em torno da questão da "Ditabranda". Até agora, a direita brasileira estava perdendo esta disputa: não é exagerada aquela noção de que se a direita ganhou a luta política no Brasil, com a ditadura, ela havia perdido a luta ideológica. Por conta disto, mesmo os reacionários mais empedernidos procuravam sempre se definir politicamente como liberais, de "centro" ou mesmo sociais-democratas. Agora, há a tentativa de se virar o jogo: está em curso um verdadeiro revisionismo histórico e uma das trincheiras onde esta luta está sendo travada é a grande imprensa. Em 2004, "O Globo" conseguiu a proeza de produzir um caderno especial sobre os 40 anos do golpe, sem mencionar a sua participação no mesmo ou as ligações das Organizações Globo com o regime. E o pior, na própria academia estão sendo formuladas novas interpretações para o golpe e para a ditadura que dão margem para culpabilizar as próprias esquerdas pelos excessos do regime ou até pela implantação do mesmo. Um bom exemplo disto é a biografia do Jango, escrita pelo Marco Villa, da UFScar, por sinal um dos intelectuais queridinhos da CBN e da Globo News. Sem maniqueísmos e reconhecendo os inúmeros erros cometidos pela esquerda, não dá para assistir a isto tudo passivamente.

Abraços.

Ps. Infelizmente não pude ir a Cobal e amanhã, estarei dando aula no horário de sua palestra, no IFCS. Mas fica o meu abraço.

Abobrinhas Psicodélicas em junho 15, 2009 3:57 PM


Marjorie em junho 15, 2009 4:03 PM


#35

Não vi o filme e nem vou ver. Só de ver quem está falando bem da "coisa" já imagino o meu sono ou minha raiva. tenho mais o que fazer!

aiaiai em junho 15, 2009 4:26 PM


#36

Não li os textos do infeliz colunista da Veja.

considero primoroso seu desmentido a Nelso Motta. Assim como é enriquecedora a análise da decadência musical de Simonal que você faz. mas discordo de alguns pontos da análise em geral.

pra minha leitura, o filme deixa evidente que a personagem é complexa nas falas dos filhos que, confrontadas a outras falas, ficam uma coisa mto besta, superficial mesmo. O fato de o filme nao parar aí e investigar, é um valor.

é que criticar o filme por permitir uma leitura enviesada e revisionista é complexo. o filme foi bem na reportagem, na minha opinião por ouvir o contador espancado, os amigos, os críticos e os revisionistas (os produtores que lhe viraram as costas). a montagem errou ao dar mais da metade do documentário pro mito do dedo duro. será q precisava tanto? não sei.

o documentário mostra claramente que quem inventou a história de dedo-duro foi a mídia convencional (NP e afins). e mostra que Simonal deu corda pra isso.

E mostra Ziraldo e Jaguar fazendo autocrítica: desceram a lenha no simonal por causa desse contexto. o documentário mostra tirinhas do Henfil aloprando o cabra (assim como ele tbem aloprou a Elis Regina por um período, e depois voltou atrás). o ziraldo reafirma isso textualmente. escrevo reafirma, pq ele surge repetindo e resumindo o que as outras falas e recortes de jornal vinham mostrando, feito empregado em alguns outros trechos do documentário.

qdo o pasquim faz isso, de fato inibe que expoentes da música se solidarizem com ele.

nesse ponto, acho que vc tem razão de afirmar que caberia pressionar mais a turma dos produtores pra dizer qeu eles não deram força nenhum pro simonal. pressionar pra que dissessem quais foram os nãos que levaram (se é que as negativas não partiram deles próprios, claro). isso daria menos margem a revisionismo.

menos, mas não nos livraria desse mal.

daria pra pensar que direitista nenhum faz autocrítica sobre a tortura e as violações de direitos humanos na ditadura. qdo algum esquerdinha o faz, dá margem à revisionismo, pq a patrulha da direita vai lá explorar ao máximo como se fosse um feito.

mas vou ler mais a respeito, pq nem eu estou mais tao convicto disso tudo que escrevi.

Anselmo em junho 15, 2009 4:36 PM


#37

Idelber, vale lembrar que o Paulo Vanzolini, na última Carta Capital, disse que o Simonal era dedo-duro, sim. Well, o Vanzolini, com folha corrida de respeitáveis serviços acadêmicos e musicais, me parece mais confiável que o Chico (Anysio) ou o Nelsinho Motta...

Ricardo Montero em junho 15, 2009 4:39 PM


#38

Excelente post, Idelber. Colocando cada coisa em seu lugar.
Claro que aproveitei e li o do Samurai, ótimo por sinal.

Mariê em junho 15, 2009 4:48 PM


#39

Idelber,

O problema maior dessa instrumentalização toda que se tem feito desse documentário é que dela resulta um discurso que tem encontrado campo fértil junto às novas gerações - que desconhecem em detalhes o que ocorreu durante o período militar. É só ler o que esse pessoal tem postado por aí.. é de estarrecer como tá funcionando o revisionismo.

Aliás, esse processo vem de longe – do livro do Gáspari ao documentário sobre o Boilesen, passando pela divulgação de ficha policial falsa de Dilma Roussef e pelo ataque aos professores Konder Comparato e Maria Victoria Benevides pela Folha de São Paulo, entre muitos outros exemplos.

Não se trata, na minha opinião, de uma “coincidência” – há um objetivo político óbvio por trás disso, que é desconstruir a imagem heróica dos que lutaram contra a ditadura como forma de criar condições para enfraquecer e tornar mais críveis os ataques à candidatura das forças de esquerda (leia-se Dilma Roussef) na próxima eleição presidencial .

Veja bem, não estou insinuando com isso que o doc sobre Simonal foi feito com essa intenção – embora, sem a informação essencial sobre de onde vieram realmente os recursos que o financiaram seja uma hipótese a considerar -; mas sim que ele está sendo utilizado, instrumentalizado para tais fins.

Quanto a Simonal não ter sido dedo-duro, tenho sérias dúvidas. Parece-me que existem provas en contrário, sim - e que podem ser colhidas em diversas fontes e em órgãos públicos abertos ao público, o diretor do doc é que não quis mostrá-las. Vou dar apenas um exemplo - na minha opinião, o melhor disponível sobre o assunto -, que contém em si várias referências sobre onde achar e quem entrevistar: trata-se de uma longa matéria investigativa, muito bem documentada, assinada pelo repórter Mario Magalhães (que tem em seu currículo a honra de ter sido defenestrado do cargo de ombudsman da Folha de São Paulo por conta de sua independência crítica). Intitula-se ""Juiz apontou cantor como informante" e foi publicada pelo jornal em 26/06/2000, na pág. C7.

Perdão por citar a fábrica de linguiças, mas foi por uma causa nobre...

Mauricio Caleiro em junho 15, 2009 4:51 PM


#40

"Orgãos públicos abertos ao público" foi péssimo... Ou não?

Mauricio Caleiro em junho 15, 2009 4:54 PM


#41

Marjorie: valeu o link, grande notícia!

Pessoal, vou ali abrir uma cervejinha e volto para responder os últimos comentários, porque há muita bola para se bater aí.

Idelber em junho 15, 2009 5:10 PM


#42

para a pessoa aiaiai (que não sei a que gênero pertence),

vale a pena ver o filme, apesar do Reinaldão ter gostado. Eu não conhecia NADA do Simonal, só os filhos – que não são exatamente o melhor da obra dele. O Pedro Alexandre Sanches tem destacado uma coisa interessante, de uma leva de documentários musicais que têm resgatado imagens perdidas da memória da música brasileira. Coisa perdida na mão de colecionadores, já que as TVs nunca tiveram muito interesse nisso e perderam um monte de registro pelas mais variadas razões. Pelo que a gente vê na TV, a memória musical do Brasil se resume a alguns trechos de alguns festivais de música. O documentário do Simonal certamente se enquadra nessa categoria. Eu nunca tinha visto nenhuma das imagens de arquivo apresentadas ali – nem a impressionante apresentação pras 30mil pessoas, nem o dueto com a Sarah Vaughan, nem os programas de TV. Nesse aspecto de resgate da memória, o filme é bem legal.

daniel em junho 15, 2009 5:17 PM


#43

Não extrairia conclusões tão profundas, (risos), mas me parece que tentaram reabilitar o Simonal músico, tentando separar das questões políticas envolvidas.

Sei que é complicado, mas me parece que a intenção foi essa.

Parece até comigo escrevendo texto em blog sobre o poder alienante do Discovery Kids... :0)

Pedro Migão em junho 15, 2009 5:19 PM


#44

Oi Idelber, muito bom o post. Já havia lido o texto do Samurai também e gostado muito. Mas há um ponto da sua análise que eu discordo. Não acho que Simonal foi engolido pelo Tropicalismo. Acho que ele foi engolido por que ele se apresentava como um produto que não se renovou.
Ele gravava os tropicalistas, se apresentava vestido de hippie e tparia guitarra elétrica e experimentalismos se isso vendesse. Isso nunca vendeu.
O próprio Caetano fala como os Odair José, os Robertos, Ronnie Vons permitiam que os tropicalistas fossem longe em seu experimentalismo.
Com exceção de Odair José em "O Filho de José e Maria", nenhum desses cantores jamais abraçou o tropicalismo.
Roberto Carlos passou a carreira inteira se renovando e, depois do iê iê iê, partiu para os sucessos da MOtown, para a canção pop de Frank Sinatra etc.
Elis Regina também (pra citar as duas personalidades da música que misturavam sucesso popular e significância cultural) e o que ela abraçava era o que se formava como a escola dos "compositores profissionais" que havia saido da bossa nova, do jazz, do rock. Não é à toa que ela vai ter seu melhor momento depois de descobrir os mineiros, quem fez melhor a síntese suave de todas as explosões do rock, da tropicália, do samba, do sambajazz, da vanguarda hermetiana.
Na minha opinião, o grande renovador desse formato pop na música brasileira foi o Jorge Ben, em discos como o primordialmente acústico Tábua de Esmeraldas e no semi-acústico Solta o Pavão, ele influenciaria Erasmo, Roberto, Tim Maia e também os tropicalistas.
Gilberto Gil mesmo fala que descobriu o poder da música negra ao ouvir Jorge Ben. Ele fez o que Gil sonhara em fazer com sua música.
Simonal nunca se alinhou com os músicos nacionalistas. Nunca tomaria parte nessa discórdia de tropicalistas e nacionalistas, mas ele era um produtão fonográfico. Cantava bem, tinha talento, mas não tinha substância musical, não era mesmo pra durar.

Lauro Mesquita em junho 15, 2009 6:55 PM


#45

Assim como não eram pra durar as geniais descobertas de Nelson Motta como Patrícia Marques, As Frenéticas, Paula Lima. Todos com talentos, todos inseridos em um nicho de mercado que é o máximo que a vista dos empresários musicais brasileiros alcança. Nelson Mota e Carlos Imperial vendiam esses produtos e viveram disso por um bom tempo. Depois que acumularam fracassos os dois partiram pra outros ramos e deixaram o barco na mão de gente tão perigosa quanto, que o digam os Rick Bonadios (e suas armas)...

Lauro Mesquita em junho 15, 2009 6:59 PM


#46

Esse geniais do Nelson Mota é entre aspas, por favor. hahahaha

Lauro Mesquita em junho 15, 2009 7:01 PM


#47

Laura,

Entre os produtos do Nelson, você não mencionou a Marisa Monte que, no entanto, iria abandoná-lo logo no início. A atual protegida do sujeitinho é a Vanessa da Matta, esta sub-Gal Costa que conquistou as massas. E a própria Gal, coitada, amargando um semi-ostracismo...

Johnny em junho 15, 2009 7:06 PM


#48

Perdão, é Lauro...

Johnny em junho 15, 2009 7:09 PM


#49

Idelber,
Mas todo esse discurso do resgate da vítima das esquerdas é sacanamente colocado sempre nas entrelinhas. Há algumas semanas, "O Globo" publicou longas reportagens com base nos arquivos da "didabranta"(sic), em que o único objetivo era esmagar a figura histórica do Brizola e seu governo popular no Rio. Não quero fazer a defesa do governo do velho Brizola, mas é sempre assim... Isso aconteceu justamente quando veio a público o debate sobre o "muro" nas favelas... Por que os mesmos jornais não lembram do que Carlos Lacerda fez para erradicar os pobres da Zona Sul do Rio e o resultado foi justamente esse descaso nos últimos 40 anos com a "população carente" da cidade?
Como você disse, o incrível é que o "leblonismo" - essa doença infantil do conservadorismo - arrotado por Nelsinho Motta ganhou mais força como corrente de discurso no Rio justamente durante os seis anos do governo Lula...
É duro, hein?

Olímpio Cruz Neto em junho 15, 2009 7:18 PM


#50

Pois é, mas mesmo a Marisa Monte quando ela chegou pelas mãos do Nelson MOtta, ela tinha essa cara for export tão prezada pelo Mielle no depoimento dele no filme. Assim como o Emílio Santiago, logo que apareceu. Todos são cantores absurdamente técnicos que poderiam apresentar qualquer repertório com o nível de exigência das audiências mais caretas do jazz.
O curioso é que o mesmo Miele que se gaba de ter sido da "turma da bossa nova" não tenha se lembrado que o melhor e mais importante cantor do Brasil é um sujeito sem vozeirão e sem essa prontidão para se apresentar. É João Gilberto. ECom aquele jeito de apresentação no quarto.

O Lorenzo Mammi tem um texto genial em que ele compara esses estilos de interpretação do jazz americano (onde bebem Simonal, Santiago e bebiam Marisa Monte e Elis) e o novo padrão de interpretação trazido pela bossa nova.

O texto se chama o Projeto Utópico da Bossa Nova e tem aqui na página da NOvos Estudos do Cebrap (http://novosestudos.uol.com.br/acervo/acervo_artigo.asp?idMateria=520), que infelizmente é só pra assinante. Se alguém se interessar é só me falar que eu tento enviar.

Lauro Mesquita em junho 15, 2009 7:22 PM


#51

Oi Idelber,
Ótimo post. Não sou muito de comentar, mas como já escrevi sobre esse filme, fiquei com vontade de opinar. Eu, pessoalmente, acho um pouco de exagero classificar o documentário como panfleto ideológico. Concordo com tudo o que o comentarista Daniel escreveu: não acho que o filme seja totalmente isento, mas fica bem claro que Simonal não era santo. O depoimento do contador deixa claro que Simonal caiu no ostracismo por seus próprios erros, e não porque foi sepultado pela esquerda 'maldosa'. Mas concordo no seguinte: parece que só Ziraldo e Jaguar foram culpados pela morte artística do Simonal. Não foram, é claro. Como muitos lembraram, alguns figurões que deram depoimentos não mexeram um dedo na época para ‘salvar’ o ídolo. Por que não questionaram isso? Mas, feita essa ressalva, acho que esse filme é imperdível. Bem produzido, lindas imagens de arquivo, boas entrevistas, ótima trilha. Para mim, vale como uma bela apresentação do Simonal.

tatiana em junho 15, 2009 7:25 PM


#52

Lauro,

De fato, no primeiro disco da MM fica patente a intenção de vendê-la pra gringos.

Já o negócio do Miele era cantor histriônico. Curioso que ele conviveu com o João Gilberto antes do sucesso deste. Lembrando que antes do JG houve o Mário Reis, que levou o estilo coloquial carioca para o canto e cantava baixinho e suave... Outros que influenciariam a BN e cantavam suave foram o Dick Farney, o Lúcio Alves e o Johnny Alf. Claro que o JG radicalizou, levando o minimalismo ao extremo....

Johnny em junho 15, 2009 7:35 PM


#53

Olá!

Interessante isso aqui:

Quando Reinaldo Azevedo recomenda um filme como uma aula de história brasileira, é bom ficar de olho.

Claro, devemos dar ouvido mesmo a um trotskyísta que dará palestra sobre (vejam só, pessoal!) direitos humanos!

É cada uma...

Até!

Marcelo Augusto em junho 15, 2009 7:36 PM


#54

Acho salutar resgatar a história da música popular brasileira. Basta ver que, ainda esta semana, estréia no circuito comercial o filme Loki, do Paulo Henrique Fontenelle, sobre a obra de Arnaldo Baptista, dos Mutantes. Não discordo da Tatiana quanto ao mérito de produzir um documentário sobre o Simonal. Como disse, acho o cara um cantor talentoso. Mas preciso ver o filme para formar juízo. A única coisa que me chamou a atenção foi esse discurso da "vítima" que várias pessoas que encontrei no Rio levantaram... Como se o cara não tivesse feito as bobagens que fez. Ele as cometeu. Isso é fato.

Olímpio Cruz Neto em junho 15, 2009 7:37 PM


#55

O que eu não entendo é que entre os grandes artistas que trabalharam com Hitler na Alemanha Nazista apenas Wilhem Furtwrangler, o maestro da Filarmônica de Berlim no período conseguiu manter sua carreira(E isso apenas porque Yehudi Menuhin, o judeu que era o mais conhecido violinista do seu tempo arriscou sua PRÒPRIA CARREIRA tocando com o cara). Arno Breker é vilanizado até hoje. Leni Riefenstahl nunca mais filmou.

Cadê o RA defendendo a reabilitação destes dois? ;-)

Andre Kenji em junho 15, 2009 7:38 PM


#56

André,

O que dizer de Strauss então? Esse continuou sendo bem acolhido mesmo tendo permanecido na Filarmônica de Berlim durante o nazismo, e regendo em eventos nazistas... (pode ser visto em vídeos na internet)... esse nunca foi perseguido... foi?

Augusto em junho 15, 2009 7:47 PM


Augusto em junho 15, 2009 7:52 PM


#58

muito bom o texto

só me incomoda um pouco a recorrência à dualidade "música de protesto vs tropicália". Parece-me que o cenário "pop" daquele período era mais complicado do que esta clássica divisão faz parecer. De qualquer forma, excelentes os argumentos.

o melhor de todo o texto:
Resgatemos Simonal? A pergunta não faz o menor sentido para aqueles que, como eu, lhe dedicam ouvidos atentos há anos.

gaf em junho 15, 2009 8:50 PM


#59

Abobrinhas, eu acho o Villa e o Roberto Romano dois acadêmicos que perderam completamente o respeito próprio. Ontem mesmo eu conversava com um jornalista que confirmava como funciona o recrutamento de “especialistas” na mídia. Cavucam até encontrar um dócil que diga o que eles querem. E aí é para sempre. Quando a mídia precisa de um historiador, é Villa. Quando precisa de um filósofo, é Romano. O Sakamoto fez dois ótimos posts sobre isso.

Anselmo, na mosca o seu comentário. Não acho que discordemos em nada. Foi mesmo constrangedor ver o Max de Castro, por exemplo, dizendo que não entendia como um civil poderia entrar no DOPS para dar uma coça em alguém. Esqueceu-se, claro, do detalhe de que Simonal entrou lá acompanhado de uma agente do próprio DOPS...

aiaiai, o filme vale a pena. É bobagem deixar de ver as coisas porque pessoas mal intencionadas estejam se apropriando delas para traficar mentiras. Aí é que se torna mesmo importante assistir.

Mauricio, Ricardo, conheço tanto o depoimento do Vanzolini como a matéria citada (Magalhães é um repórter corretíssimo, mas ele não afirma que o juiz está certo; afirma que o juiz afirmou). Continuo achando a hipótese de um Simonal dedo-duro político uma coisa meio estapafúrdia. O que acontece é que quando um mito adquire pernas próprias, ele funciona assim mesmo. O próprio Simonal inventou o mito, no momento em que se viu no arrego lá na delegacia. É verdade – e o filme mostra isso – que agentes das forças de segurança, em outros contextos, por outros motivos, repetiram o mito. Mas ele não tem a menor verossimilhança. Jamais apareceu alguém dedurado por Simonal. Ele não tinha o menor contato com a música de protesto. Tudo na sua trajetória, até mesmo o seu deboche, desqualifica a suspeita. Não tendo aparecido nenhuma vítima para confirmar, acho que é caso encerrado. Mas acredito, Mauricio, que você acerta na mosca quando aponta um movimento mais amplo que tem, sim, repercussões políticas presentes, bem visíveis. Eu nem quis citar Dilma no texto para não abrir o flanco para me chamarem de paranóico. Mas é meio óbvio, né?

Magnífico comentário, Lauro. Concordamos em tudo. Eu não quis dizer que o tropicalismo tivesse engolido Simonal. Eu trouxe o tropicalismo à baila para indicar qual era o antagonismo central no final dos anos 60. Jorge Ben – que você nota acertadamente ter sido o grande renovador – estava mais ou menos inserido naquele antagonismo, embora não fosse parte direta dele. Os tropicalistas tinham, com ele, uma relação de inspiração e admiração. Simonal passava ao largo disso. Tinha uma trajetória paralela. Esse dado é importante porque ajuda a contextualizar a queda de Simonal na irrelevância. Mas, sem dúvida, o tropicalismo não o “engoliu”. O seu comentário enriqueceu muito o post. Sua observação sobre o Miele vai na mosca: como é possível alguém relatar um “não” à afirmativa de que Simonal foi o maior cantor brasileiro, dizer que depois houve silêncio, e não se lembrar de João Gilberto? Claro, apesar de ser o eixo central da Bossa Nova, João jamais compactuou com o leblonismo direitista.

tatiana, de novo, concordo totalmente com seu comentário. Acho que tentei fazer uma diferenciação no post: o filme, como você afirma, não é um panfleto ideológico. Nem de longe. Reitero aos leitores: é um filme importante e há que se assistir. Há algum trabalho ideológico, eu acho, no movimento da câmera. Mas o que realmente pega é o discurso bolorento que está se formando em torno dele: esse revisionismo suspeito que o Lauro, Olímpio, Mauricio e outros destacaram.

Supimpa a caixa de comentários, para variar. Abraços agradecidos.

Idelber em junho 15, 2009 9:01 PM


#60

Oi Idelber,

Não sei se eu sou um dos "martelantes" a quem você se refere no começo do texto, mas discuti rapidamente a situação do Simonal com você no Twitter. E você está certo: eu de fato não vi o filme, só ouvi falar, longa e detalhadamente, sobre ele. Ou seja, tudo o que eu digo aqui pode ser besteira. Mas vou dizer mesmo assim porque o VT do jogo do Brasil acabou.

Acho que ninguém discute que a equação Simonal = dedo-duro existe. Até eu, que nasci em 83, tinha um vago conhecimento da história do Simonal antes do lançamento do filme. E acho que ninguém discute que essa equação está errada, que Simonal nunca dedurou ninguém. O que não o torna um santo - o contador que o diga. Mas a acusação de dedo-duro era falsa. E ela veio, de um jeito meio teelfone-sem-fio, da "esquerda".

Se não levou Simonal ao ostracismo, essa acusação certamente tornou o ostracismo mais melancólico. A descrição detalhada do filme que me fizeram incluía uma aparição do Simonal na TV, documentos na mão para provar que ele nunca tinha dedurado ninguém. Ou seja, também não procede o argumento de que a "esquerda" não tinha poder para fazer mal naquela época.

Coloco "esquerda" entre aspas porque acho "esquerda" e "direita" formas eficientes de classificar ideias mas pouco úteis na hora de dividir as pessoas. Sou um pouco de direita e um pouco de esquerda, como qualquer pessoa sã; e fico meio desconcertado diante de pessoas que parecem totalmente encampadas em um dos lados, porque fica parecendo que a mente da pessoa está no automático: o que está do meu lado é sempre bom, o que está do outro lado é sempre ruim, e a argumentação fica para depois. Por isso, gostaria de sugerir uma pauta para o blog: grandes erros passados da esquerda e grandes qualidades presentes da direita.

Abraços,

Lucas

Lucas Murtinho em junho 15, 2009 9:06 PM


#61

Caríssimo Lucas:

Desde já peço desculpas se o uso do verbo "martelar" soou ofensivo. Não era a intenção. Sim sim sim sim sim! É claro que a pecha de dedo-duro foi decisiva na queda de Simonal. Não há dúvidas disso. Acho o seu comentário corretíssimo, mesmo você não tendo visto o filme. Corretíssimo, quero dizer, exceto por uma frase:

E ela [a acusação] veio, de um jeito meio telefone-sem-fio, da "esquerda".

Não veio não, Lucas. Ela veio da delegacia na qual Simonal se encontrou num arrego danado, na hora em que sua sessão de torturas sobre o contador foi parar na justiça. Antes de chegar ao Pasquim, esse mito passou largamente pela imprensa. Como comparar o poder de penetração da grande imprensa brasileira -- Globo inclusive -- com o do Pasquim? Como imaginar que eram Jaguar e Chico Buarque -- e não os Mottas e os Mieles -- que estavam em condições de trazer Simonal de volta às luzes da ribalta? Como inventar a história de uma esquerda que controlava a produção de espetáculos musicais no Brasil dos anos 70? Não se deixe levar por essa história, Lucas. São interesses escusos. Discuto sem problemas os erros da esquerda. Fiz uma cobertura enraivecida do mensalão. Está lá nos arquivos. Anteontem houve post sobre o insuficiente apoio da esquerda à luta contra a homofobia. Estou abertíssimo a esse papo. Mas não vou deixar de desmontar o mito de uma esquerda todo-poderosa no Brasil dos anos 70, enterrando no ostracismo o pobre Simonal. Quem sabe o ABC sobre essa história não acredita nisso.

Está anotada sua sugestão de pauta, embora eu já a siga esporadicamente. Agora, aceite a minha: vá ver o filme, pô! Com atenção ao trabalho da câmera, please :-)

Abração afetuoso e parabéns pela iniciativa da Copa de Literatura.

Idelber em junho 15, 2009 9:22 PM


#62

O mais interessante do filme, e que aliás é seu ponto central, tem passado batido das discussões sobre ele, por algum motivo. É o fato de que quem enterrou Simonal foi ele próprio. Quem disse que ele era delator não foi o Pasquim coisa nenhuma, foi o Simonal.

Acho curioso que, até hoje, o brasileiro não consiga sair do debate "Henfil foi do mal com seu cemitério ou não foi?", quando o mais tocante de toda a história é como uma época em que a política era tão onipresente pode engolir e aniquilar uma pessoa criativa como Simonal. Aliás, isso é bem verdade, o próprio filme cai nessa discussão a meu ver bastante secundária, no trecho que discute o ostracismo do Simonal.

Mas concentrando só no principal, creio que dá pra dizer o seguinte. Segundo o que diz o filme, ao que consta, ele não era um delator, era mesmo apolítico; pelo visto, era tão apolítico e cego para o que se passava à sua volta (a julgar, reitero, pelo que o filme diz) que caiu na bobagem da bravata mais irresponsável que poderia fazer: dizer-se amigo dos homi.

Vi o filme no festival de cinema brasileiro de Paris em 2008 e fiquei impressionado com o caráter trágico do personagem, aliás, com sua atitude à la hybris que o faz digno do teatro grego. Cheguei a fazer um post sobre o assunto. Conversei com um dos diretores (não me lembro o nome, não era o Casseta, era o único que não saiu de nariz empinado depois da sessão), e ele me disse que a ideia era bem essa. Por sinal, foi com isso na cabeça que eles partiram para a entrevista com o contador.

E sobre essa entrevista: é o ponto de amarração do filme inteiro e ninguém parece dar a atenção que o trecho merece. Ao contrário, concentram-se no que vem depois e querem fazer do filme uma recuperação da imagem do Simonal. Principalmente, claro, na direita (hoje, pelo que estou vendo, ser de direita nada mais é do que odiar os que são de esquerda...). Veja bem: um filme que mostra o sujeito como sendo alienado, irresponsável e violento, capaz de mandar capangas encherem um contador de porrada, porque ele mesmo dissipava sua grana.

Para mim, o que o filme mostra é um sujeito muito babaca, mas muito carismático e com uma voz linda. Isso pode valer pra muitos grandes artistas: geniais e terrivelmente estúpidos. Mas, num tempo como a ditadura, isso pode ser fatal. É o que o filme mostra, a meu ver. O fato de que a gente só consiga discutir se o Jaguar pegou pesado ou não, se o sujeito era delator ou não (me pergunto que informações ele poderia ter, falando nisso), pra mim é uma demonstração de que ainda temos muitas feridas abertas.

Ou melhor, que as feridas estão abertas, não há dúvidas. O filme é só mais um exemplo.

Diego Viana em junho 15, 2009 9:47 PM


#63

escutei uma vez o Arbex falando, em uma palestra no IFCH-UNICAMP, onde os alunos reclamavam que os alunos de exatas eram bitolados e desligados da política universitária, algo assim:

"Se você fala sempre as mesmas coisas,vão sempre aparecer as mesmas pessoas para te ouvir"

Acho q por isso que nao rolou o debate que vc queria! ;-)

Ligeirinho em junho 15, 2009 10:10 PM


#64

Ligeirinho, debate aqui rola todo dia, em tudo quanto é assunto. Será que hoje não rolou porque a turma que quer criar o mito do Simonal sufocado pela esquerda ficou sem argumentos?

A caixa está aberta :-)

Idelber em junho 15, 2009 10:14 PM


#65

“Derrocada estética veio antes do ocaso político”

“Wilson Simonal também perdeu seu público por gravar discos com repertório discrepante, que traziam clássicos ao lado de nulidades”

Tárik de Souza , 26/06/2000.

http://www.cliquemusic.com.br/br/Acontecendo/Acontecendo.asp?Nu_materia=253

Paulo Pereira em junho 15, 2009 10:23 PM


#66

Idelber,

O post foi na mosca. O filme é de um revisionimo histórico sem tamanho. Eu postei um post sobre o caso, mas é evidente que você escreveu tudo o que eu pensava com muito mais propriedade.Documentários são obras francamente políticas - muito mais do que a própria ficção - e eles raramente acontecem por acaso. Aqui, mais do que a média, as coisas não são à toa.

O Ligeirinho cita o Arbex e eu faço questão de lembrar o mesmo por aqui também, pelo menos a concordância dele quando me perguntou, há dois meses atrás, se a história da ditabranda era saudosismo ou projeto e eu apontei para segunda opção - leia o Brasil nos tempos da Tempo da Cólera (ou a Folha vejou) na Caros Amigos de Abril, produto daqueles três debates que ele travou nas suas aulas de conjuntura na PUC e me diga se ele pensa o contrário do que eu estou dizendo.

Hugo Albuquerque em junho 15, 2009 10:34 PM


#67

Diego Viana mandou bem: a entrevista do contador é o ponto alto do filme, incluí-la transformou um revival chapa-branca num belo documentário. Se tivessem tratado melhor o Jaguar, o filme daria menos brecha pros caronistas de direita.

Hugo também mandou bem: "Documentários são obras francamente políticas - muito mais do que a própria ficção - e eles raramente acontecem por acaso" Existe uma idéia errada de que documentário tem que ser isento, tem que "ouvir os dois lados", como se fosse uma reportagem (reportagem num país utópico, naturalmente;não no Brasil). Na verdade é o contrário: documentário tem que ser opinativo, tem que tomar partido! Grandes documentarios são mais autorais – no sentido de refletir idéias e conceitos de quem os fez – do que muita obra de ficção.

E documentários são instrumentos políticos mesmo à revelia dos autores. Não prever o uso do seu filme como instrumento político pode ser fatal para o diretor. A própria trajetória do Simonal é um exemplo de ingenuidade com consequências trágicas.

daniel em junho 15, 2009 10:55 PM


#68

Ildelber, confesso que entrei poucas vezes aqui (e não sou umvoraz leitor de comentários). Então se vc diz que sempre há debate e dessa vez reclamou que não houve (twitter, @ligeirices),concordo com o que disse em cima do meu comentário. Até poderia tentar fazer o advogado do diabo, mas tb não saberia o que dizer.Citando agora Sabino,culpa sua, que não deixa o Alfredo falar! abraços!

Ligeirinho em junho 15, 2009 10:57 PM


#69

Lauro,
sobre seu comentário #44, lembro que o Ronnie Von abraçou sim o tropicalismo, principalmente no LP de 1969, com os ótimos arranjos e direção musical do Damiano Cozzella. Como se sabe, o tropicalismo foi onda rápida, mas mesmo em alguns discos posteriores de Ronnie Von a marca da coisa ficou em seu pop esquisitão.
Abrass

Jair Fonseca em junho 15, 2009 11:25 PM


#70

É. Importante hoje é falar sobre música popular. Afinal, não tem nada acontecendo no Irã...

Eita. Lema do esquerdista: "Quando a realidade o contradiz, ignore-a."

Abraços,

Mr X em junho 15, 2009 11:43 PM


#71

Mr. X, nada disso. Foi você que veio ao post errado. Está rolando coleção de links sobre o Irã no post anterior.

Idelber em junho 15, 2009 11:49 PM


#72

hmmm por essa lógica você também seria de esquerda Mr. X...

Hugo Albuquerque em junho 15, 2009 11:51 PM


#73

Idelber,

Leio sempre seu blog nas horas vagas. Nas não-vagas, trabalho com pesquisa em direitos humanos. Se pudesse juntar as duas coisas e ainda polemizar um pouquinho sobre Agamben com um interlocutor tão qualificado... Queria eu estar no Rio e ir ao IFCS amanhã de manhã. Se você tiver anotações, podia publicá-las aqui - "fazer um post" como vocês dizem.

Um abraço, e parabens pelo post sobre o Simonal. Mais um pequeno rizoma crescendo na terra apodrecida pela grande mídia, que se soma belissimamente a outros dantes escritos por estes pagos. E, claro, um belo ato de resistência pela história da música brasileira. Mesmo para aqueles que não conhecem o aboio.

Marco Antonio em junho 15, 2009 11:56 PM


#74

Idelber, obrigado pelo trabalho e pelas informações.
Esses revisionismos são perigosos: Ditabranda, Holocausto que não existiu, Rede Globo controlando a cultura brasileira.
A propósito, você está sabendo da nova lei que entrega à iniciativa privada os espaços culturais do Rio de Janeiro? Adeus CCBB, Teatro Carlos Gomes e João Caetano, etc. Parece que só o Teatro Municipal escapou, pelo menos por enquanto.....
Que relações se podem fazer entre Organizações Sociais sem fins lucrativos, as Organizações Globo e a Lei Rouanet, em vigor desde meados da década passada?

Bruno Marcondes em junho 16, 2009 12:01 AM


#75

Desculpe, post incompleto.
Esse Nelson Motta também é um picareta.
Essas relações devem ser feitas com essa nova lei.
O Brasil já está com a educação e a saúde completamente privatizadas. Agora vem a cultura.
Essas coisas terão uma consequência, em um futuro bem próximo, muito drásticas.
Abraços!

Bruno Marcondes em junho 16, 2009 12:08 AM


#76

O filme questionou aquela "geração pasquim" , depois das mamatas que muitos deles conseguiram quando a "esquerda" entrou no governo, das indenizações e aposentadorias vergonhosas do Sr Ziraldo e companheiros, eu me pergunto....aquilo era ideologia ou investimento para o futuro, ser de esquerda não seria simplesmente business??.

Douglas em junho 16, 2009 12:56 AM


#77

Muito bom este teu post. Junto com o do Samura, dá uma boa ideia do que foi a música e a cultura brasileira nos anos 60/70. Agora, que está acontecendo uma tentativa revisionista geral, com olho em 2010, está.
No mais, nessa sua tour pelo Brasil, rola uma esticada em Curitiba?
Abraços.

Otto em junho 16, 2009 1:06 AM


#78

Idelber, te vejo amanhã. Adoro o Centro de Ciências Humanas da UFRJ, e adoro aquela parte do Rio, a praça Tiradentes, os sebos que tem lá, os prostíbulos....
Até lá, meu chapa!!

Bruno Marcondes em junho 16, 2009 1:18 AM


#79

Puxa, Otto, infelizmente Curitiba não vai rolar. Seria um prazer, inclusive porque acho que vocês têm aí hoje o melhor escritor brasileiro da atualidade, o Cristovão Tezza, de quem sou grande fã. Está na agenda para um futuro próximo. Abração!

Até lá, Bruno. Vamos ver se rola um chopinho depois.

Idelber em junho 16, 2009 1:26 AM


#80

Caro Idelber,

Cabe acrescentar que a turma do Casseta e Planeta, cujo integrante Cláudio Manoel é um dos idealizadores do filme do Simonal, há muito já deixou claro o seu imenso desprezo por todo e qualquer ideal progressista presente em nosso país. O grupo de humoristas aparece aos olhos da sociedade brasileira como um bando de debochados dispostos a não perdoar ninguém com suas piadas infames e sem graça, mas um olhar minimamente atento percebe rapidamente que eles não atiram para qualquer lado. Seu veneno é cirurgicamente dirigido, o que pode ser confirmado por entrevistas com seus integrantes.

Dois exemplos de fatos recentes:

Marcelo Madureira criou polêmica ao falar abertamente que Glauber Rocha era uma "merda". Bom, mesmo que isso não expresse diretamente uma opinião política, pode ser interpretado como tal dentro da atmosfera revisionista de que você fala.
O cinema de Glauber Rocha nunca foi bem compreendido pelo grande público e sempre foi comum associá-lo aos "intelectuais chatos" de esquerda que passavam horas reclamando de tudo. Eu mesmo, que tenho 29 anos, já ouvi muita gente da geração do meu pai dizer que, não só Glauber Rocha, mas todo o bom cimema brasileiro e mundial era um saco e que ninguém entendia. Quem dizia que entendia era, ou porque estava drogado e imaginava coisas, ou porque era simplesmente chato e queria ser diferente. Mas que relação isso tudo tem com o revisonismo, que não é apenas da história da ditadura, mas de toda a chamada contracultura dos anos 60 e de seu legado político e cultural?
Parece que quando Marcelo Madureira disse aquilo, muitos sessentões que nunca conseguiram apreciar um bom filme mas tinham vergonha de falar mal, se sentiam menores perante os intelectuais, que eles no fundo ainda respeitavam, se sentiram livres.
Marcelo Madureira os libertou. Agora eles podem falar abertamente que aquilo era tudo coisa de doidão e que eles não entendiam porque não havia o que entender.
É muito parecido com o que faz o Diogo Mainardi em relação a tudo que diz respeito ao Brasil. É como se ele dissesse: "Ei você! Não se sinta mal porque você não ficou tão rico quanto você sonhava. A culpa não é sua! É do Brasil! Porque aqui, ganhar dinheiro é pecado! Aqui não se respeita o espírito empreendedor que é natural do ser humano. E você que passou anos ouvindo ladainha de esquerdista intelectual e de milico nacionalista e que sempre teve vergonha de dizer que odeia essa terra e sua gente, agora você está livre. Pode bradar a vontade. A culpa não é sua."
Não é isso que vemos estampado nas páginas da Revista Veja? Nos escritos do colunista favorito da, como você diz, República Morumbi-Leblon?
Aliás, Marcelo e Diogo Mainardi parecem se dar muito bem. Os dois já tiveram oportunidade de, juntos, soltar suas piadinhas na TV. Era tudo deboche em cima de filmes "chatos", "ministros da cultura doidões", "presidentes analfabetos", e por aí vai. Eles acham muita graça nessas coisas.

Um outro fato: No momento em que o nosso Ministro do Meio Ambiente, figura que sempre mereceu o meu imenso respeito e até meus votos, vem travando uma luta aberta com as forças do atraso ruralista, o Casseta e Planeta, através daquele infeliz pseudônimo Agamenom, vem redicularizar no jornal o pobre do Minc com aqueles clichês: "maconheiro", ministro da fumaça", e por aí vai.
Por aí a gente vê que essa turma não gosta mesmo é da esquerda. Mas enquanto outros, como o Reinaldinho e o Minardi a atacam frontalmente, esses palhaços fazem de tudo para expô-la ao ridículo. Esquerda para eles não é só uma opção política, é tudo que eles não entende, acham chato, monótono, repetitivo e entediante.
Assim, eu concluo dizendo que eu vejo uma atmosfera revisionista que pretende, não só diminuir ou minimizar a violência do regime militar, mas também mostrar que a esquerda era também muito má, além de metida a besta, e pretensiosa.
E acredite, eu conheço um monte de gente que está se sentindo vingada através desses caras. Se eles se sentiam menores, humilhados ou burros, agora eles podem reverenciar em alto e bom som a sua mediocridade.

Desculpe o comentário imenso

Abraços
Pedro

Pedro Rangel em junho 16, 2009 2:08 AM


#81

pra quem tem pretensoes intelectuais chamar um adversario pelo diminutivo é mo minimo lamentavel!

john em junho 16, 2009 4:00 AM


#82

Ainda tenho dúvidas de se acredito na existência de esquerda e direita, é só um comentário a um comentário que vi acima, alguém questionou o que era esquerda e o que era direita? E também me pego nessa dúvida muitas vezes... De qualquer forma... sou de 88 talvez para a minha geração essa distinção seja mero simbolismo... e mais Simonal também não passa de simbolismo... e depois de toda essa discussão virou um pouco ficção, olhe só, pode ser um absurdo dizer isso, mas... Meu receio é de que a verdadeira história seja destruída pela interpretação deturpada de uns poucos vivos daquela época, sabe toda história é ficção, não importa o grau de comprovação dos fatos, toda história é ficção concluo; já que daqui uns muitos anos serão documentários feitos sobre outros documentários.
Sinto que aquela ficção que todo adolescente lê (1984); de fato não é tão fora da realidade assim... será que quem organiza os fatos já não imprime ai uma maneira totalmente pessoal de ver a história? Pelo visto é professor Idelber, você é professor de que?
Fico feliz toda vez que visito seu blog, sinto-me diante de um ser humano real, com angustias, e opiniões, com conceitos, e talvez arriscaria dizer com ideologias... mas; sei lá são só impressões... esses meios são vagos, rs
Só queria comentar que ao longo dos comentários e do post, tive vontade de ver o filme, e tive vontade de nem ter ouvido falar do filme, não consegui concluir nada sobre as verdades e mentiras expostas, já que não conheço nadica dessa história; mas fui convencida por esse argumento: “o filme vale a pena. É bobagem deixar de ver as coisas porque pessoas mal intencionadas estejam se apropriando delas para traficar mentiras. Aí é que se torna mesmo importante assistir.”
Agora vou até sentar na sala do cinema mais segura, sem tantas chances de ser falsamente influenciada e levada a crer em fatos mentirosos, rs ou sei lá né vai que saio de lá acreditando em tudo; é melhor pensar que tudo é ficção! rs Amei as observações sobre o posicionamento da câmera... vou reparar nos plonges e contra plonges, mas já estou saindo tão influenciada daqui que agora vou ter que ir estudar essa história.

Priscila MOnteiro em junho 16, 2009 4:22 AM


#83

Apoio a idéia de fazer um post sobre a sua palestra... rs
assim o rio ta meio longe pra chegar amanhã cedo...
mas quando vier palestrar em são paulo... presença confirmada nem que seja só para conhecer a cara do que aqui escreve, rs, por sinal boa palestra!

Priscila MOnteiro em junho 16, 2009 4:29 AM


#84

Mas quem faz revisionismo com a ditadura é a esquerda...

Sei que é meio tabu tocar nesse tema, mas vamos tentar.

As vítimas (mortes) do regime militar no Brasil em vinte anos foram 500 ou algo assim. Digamos, 500 pra arredondar. Aceitemos até que os números estejam errados e tenham sido o dobro, 1000. (Morre mais do que isso nas mãos do tráfico e da violência urbana toda semana na dita democracia, mas não vem ao caso.) Ditadura por ditadura, as outras ditaduras latinoamericanas (Chile, Argentina) mataram e reprimiram muito mais. É possível que tenha morrido mais gente nas mãos da guerrilha na Argentina do que nas mãos dos militares no Brasil. A ditadura cubana então, nem se fala, matou mais de cem mil pessoas. E não falemos nas vítimas dos trotskystas, stalinistas, e mais recentemente dos islâmicos é claro (quantos já morreram nas mãos dos mulás em 30 anos de mulocracia? Bem mais que 464, com certeza. E não falemos dos atentados islâmicos ou ditadores árabes, pois lá no Oriente Médio a porrada é ordem do dia).

Portanto, é claro que a ditadura no Brasil foi mais "branda" do que em muitos outros lugares, sejam de esquerda, de direita ou de inspiração religiosa. Isso é fato. Se há mérito em ressaltar isso como "vantagem" ou não, ou se deve-se contar mortos de um lado ou de outro do conflito e ficar medindo quem matou mais, já não sei, pessoalmente acho um pouco de mau gosto, inclusive o termo besta "ditabranda". A ditadura militar não foi um período bom ou elogiável, e ainda bem que esse período já passou.

Ou seja: não se trata aqui de defender a ditadura de modo algum (não a defendo), apenas de não fazer revisionismo histórico ou apresentar visões deturpadas e maniqueístas, simplistas. Não foi uma "repressão de militares malvados contra esquerdistas bonzinhos que lutavam em nome do povo e só queriam o fim do regime ditatorial e o respeito aos direitos humanos e o casamento gay e todas as bandeiras atuais da esquerda", como fica parecendo aqui. O governo militar era um governo que na época tinha vasto apoio popular, e lutava contra guerrilhas não-populares de inspiração comunista (i.e. não-democrática).

Acho que o Fernando Barros e Silva, apesar de ser de esquerda, escreveu um artigo bom sobre o assunto.

Para nossa sorte, no Brasil, o povo na época não tinha muito interesse nessa bogagem de Revolução Socialista, e portanto, os guerrilheiros não passaram de um bando de gatos pingados de classe média, pobres jovens ilusos que lamentavelmente, em alguns casos, tiveram um triste fim. Houve também muitos lamentáveis casos de jornalistas e artistas perseguidos. Mas sei também de muitas pessoas que vieram ao Brasil nesse período, justamente porque aqui era mais "tranquilo": quem não se envolvia com política, pouco tinha a temer.

Na Argentina foi muito pior, de um lado e de outro:

http://www.lanacion.com.ar/nota.asp?nota_id=1013652

Se alguém no entanto tiver outros dados, favor informar.

Quanto ao Simonal, não conhecia, e quanto ao Irã, acho que já ficou bastante claro até para os mais ilusos que não é exatamente uma "ditabranda".

Abraços,

Mr X em junho 16, 2009 6:16 AM


#85

Dito isso, acho que hoje a situação é diferente, e tanto "esquerda" quanto "direita" mudaram. A esquerda hoje não quer mais a "ditadura do proletariado", quer casamento gay, direitos maiores para minorias, e cada vez maior poder estatal (bem, isso não mudou). A direita tampouco está interessada em ditadura mas em liberdade econômica (que em geral exige democracia), visto que os regimes mais ditatoriais do momento na América Latina, como o modelo chavista (*) e a caquética Cuba, são de esquerda.

(*) Acho que o Chávez lembra mesmo é Getúlio Vargas ou Perón, que foram tanto ditadores quanto democratas, conforme convinha ou havia possibilidade. Nesse sentido, o Chavez é um padrão na América Latina, não exceção e muito menos renovação.

Mr X em junho 16, 2009 6:33 AM


#86

MAs quem acabou com carreiras, e com vidas, foram as ditaudras. De Cuba à Argentina, todos jogaram músicos no ostracismo ou na vala. O Vandré, de tanto apanhar, enlouqueceu, o Sérgio Ricardo não conseguia gravar. O disco Zapatria foi todo cesurado e o seu compositor não conseguia mais tocar em nenhum lugar. Enquanto isso, o Don e Ravel estavam por aí, gravando tudo.

Tiago Mesquita em junho 16, 2009 8:51 AM


#87

MAs quem acabou com carreiras, e com vidas, foram as ditaudras. De Cuba à Argentina, todos jogaram músicos no ostracismo ou na vala. O Vandré, de tanto apanhar, enlouqueceu, o Sérgio Ricardo não conseguia gravar. O disco Zapatria foi todo cesurado e o seu compositor não conseguia mais tocar em nenhum lugar. Por fim, o Tenório Junior foi barbaramente assassinado na Argentina. Enquanto isso, o Don e Ravel estavam por aí, gravando tudo. Já já vão falar que a campanha pelas diretas estragou a vida desses pobres diabos.

Tiago Mesquita em junho 16, 2009 8:52 AM


#88

Caro Idelber
Com o aprofundamento da discussão do episódio Simonal seria melhor que a chamada “música e a política dos anos 60/70” fosse convenientemente desmenbrada. A distribuição e a simultaneidade das imagens de TV, por exemplo, era muito mais ampla com Toni Tornado do que no episódio “Meu limão, meu limoeiro”. Simonal fez sucesso (um grande sucesso) com uma realidade televisiva bem diferente do momento em que passa a ser repelido (apesar do período relativamente curto entre um episódio e outro). Por isso uma das qualidades do filme é a de reunir imagens de origens variadas de um período em que a TV encontrava-se em renovação (período em que Simonal alcançou sucesso popular).

Não deixa de ser curioso que quando sobram críticas para produtores musicais com uma visão internacional da música brasileira, é esquecido o fato que Simonal conseguiu dar seu salto decisivo sobre um representate deste olhar internacionalizado da nossa música (que foi Sergio Mendes).

Não fosse o episódio policial/político/violento creio que dificilmente estaríamos discutindo Simonal. No mesmo período outras carreiras artísticas foram também atingidas, caindo vertiginosamente, sem a mesma repercussão.

Se já seria difícil para quem gravou o disco ‘S´imbora’ repetir a dose em discos seguintes, para Simonal o sucesso alcançado em shows, a empatia que ele alcançou com públicos diversos, parece ter afetado suas escolhas conduzindo-o para o episódio que lhe foi fatal.

Paulo Z em junho 16, 2009 9:07 AM


#89

Mr. X, manifestações como as que tem ocorrido no Irã jamais seriam permitidas no Brasil da década de 70. Em compensação o Irã tem um histórico deplorável em relação aos direitos das minorias. Então, como comparar ditaduras?

André em junho 16, 2009 9:43 AM


#90

Respondendo ao grande Jair em #69, é verdade, tinha me esquecido. O disco foi produzido pelo Rogério Duprat né?

Abração

Lauro Mesquita em junho 16, 2009 11:33 AM


#91

Este Mr. X, coitado, está mal informado. Cem mil mortes em Cuba? Dê uma olhada no blog do Eduardo Guimarães o post sobre o assunto. Ah, sim, o Chávez, com uma porção de referendos, é ditador, o Uribe não, país em que cerca de 3000 opositores são assassinados por ano pelas forças paramilitares.
No caso da nossa "ditabranda", se forem computados os mortos pelo Esquadrão da Morte (que atuava com anuência do regime), o número muda muito: cerca de 350 por ano no final dos anos 60.
Até hoje, como se sabe, a polícia mata centenas de inocentes, praticamente todos pobres e pretos. Culpa da democracia? Culpa de uma sociedade de classes cujo aparato repressivo está a serviço mãos das classes dominantes. Limpeza étnica e social. Ah, e em banqueiro branco e de olhos azuis não se pode nem pôr algemas.

Otto em junho 16, 2009 11:37 AM


#92

Demororu 80 e tantos comentários, mas finalmente alguém conseguiu enfiar Cuba num post sobre música.

Mr. X diz que "A esquerda hoje não quer mais a "ditadura do proletariado", quer casamento gay, direitos maiores para minorias, e cada vez maior poder estatal (bem, isso não mudou)." Essas definições são fantásticas. Queria saber onde o Mr. X coloca os anarquistas – que se localizam na esquerda – nessa definição dele.

No mais, não entendi as colocações dele. Se Cuba não tem a ver com esse assunto aqui do post, que dirá então o Irã.

Daniel em junho 16, 2009 12:53 PM


#93

Caro Idelber:

Antes de mais nada, não vi o filme. Mas me parece óbvio que ele está servindo a um certo revisionismo histórico. Agora, acho que este revisionismo é um braço da luta política. Mais especificamente, ele anda junto com o fenômeno descrito alhures como a udenização do PSDB.

Para se contrapor ao PT – e, talvez, para fazer suas alianças com o DEM -, os tucanos tiveram que se 'endireitar'. Essa guinada para a direita acabou sendo, consciente ou inconscientemente, por recuperação do discurso da UDN.

Eis o busílis. Udenizando-se, é preciso que o legado político deste grupo, que foi vitorioso em 64, é sempre bom lembrar -- Tancredo Neves rotulava a ditadura militar como o Estado Novo da UDN -- seja recuperado, valorizado.

E aí tome o ditadômetro, este discurso anticomunista maluquete 20 anos depois da queda do Muro de Berlim, a obsessão com Cuba etc. etc. etc…

Saladino em junho 16, 2009 1:07 PM


#94

Se a pretensão do documentário foi transformar Simonal em um martir, o tiro saiu pela culatra. Se fosse antes da "blogosfera" talvez desse certo. Hoje, nada mais fica alheio aos olhares atentos dos blogs. Fico me perguntando o que fez o Guilherme Fiuza (Lixam-se - revista Época) expor seus frágeis argumentos sobre a derrocada de Simonal. Será que o jornalista achou que eles seriam digeridos facilmente pelos leitores? Será que ele quis apenas fazer um agrado aos patrões? Se for a primeira hipótese, ele deu com os "burros n'água".

Leonardo em junho 16, 2009 1:22 PM


#95

Parece-me óbvio o motivo: o Idelber vive criticando a ditadura brasileira e outras coisas menores (greve de universidades), mas recusa-se a fazer um post criticando o Irã, os mulás e o Amadinehjad. Mas deixa pra lá. O Chavez e o Lula apoiam o iraniano, então se explica o silêncio de Idelber e outros. O chefe mandou. ;-)

Abraços,

Mr x em junho 16, 2009 2:30 PM


#96

Jackson do Pandeiro não pode enterrar a hipótese de Nelson Motta porque nunca foi "grande astro pop da música televisionada no Brasil". Fez algum sucesso em dupla com Almira, nunca sozinho, nos tempos da Rádio Nacional. Quando a "música televisionada" começou a existir ele já nem estava mais por aí. Querer colocá-los no mesmo nível, em termos de "astro pop", é desconhecer a história.

E chamaram o desconhecido Simonal para abrir o show de Sérgio Mendes no Maracanãzinho... Sérgio Mendes, apesar do estrondoso sucesso nos States, era praticamente um ninguém para o grande público brasileiro. Simonal foi o grande chamariz para garantir o sucesso do show. Concordo que foi um marco mas só quem não viveu aquela época pode dizer que explodiu ali.

Antonio Pedro em junho 16, 2009 3:11 PM


#97

Aê Mr. X, por quê vc sente essa obsessão em pautar o blog dos outros? Me parece que tem um fundinho de censura aí: pessoas que não condenam o Irã nem falam mal de Cuba estão proibidas de escrever sobre música ou greve na USP.

Típico de direitista embolorado: se diz defensor da democracia mas mal consegue esconder a excitação com censura e borrachada em estudante.

Mas talvez o Idelber possa satisfazer essas hordas de pigmeus fazendo um post similar ao do Serra ditador com o título "Amadinehjad não tem moral para ser presidente do Brasil!" Aí acho que os emboloradinhos ficam contentes.

daniel em junho 16, 2009 4:49 PM


Cláudia em junho 16, 2009 6:13 PM


#99

Jackson do Pandeiro não pode enterrar a hipótese de Nelson Motta porque nunca foi "grande astro pop da música televisionada no Brasil". Fez algum sucesso em dupla com Almira, nunca sozinho, nos tempos da Rádio Nacional. Quando a "música televisionada" começou a existir ele já nem estava mais por aí.

Antonio, acho que está lhe faltando um pouquinho de informação. "Quando a música televisionada começou a existir Jackson não estava mais por aí"? Tem certeza? Nunca ouviu falar mesmo de um programa intitulado Forró do Jackson, na TV Tupi, Canal 6? Vamos à aulinha de história então.

Com a minha já legendária paciência, copio para você trechos do livro Jackson do Pandeiro -- o Rei do Ritmo, de Fernando Moura e Antônio Vicente (Editora 34, 2001). Os grifos são meus. Na página 215, temos:

"...TV Tupi, Canal 6, lançou o famoso programa comandado por J. Silvestre, O céu é o limite, no mesmo período em que inseria em sua programação o Forró do Jackson [...] O que pesou foi a oferta de um programa televisivo semanal, de meia hora de duração, às 20:15 das sextas-feiras. No Forró do Jackson, dirigido por Mário Provenzano, os dois poderiam fazer o que quisessem, desde que repetissem a performance rítmica e plástica utilizada nos auditórios radiofônicos [...] Com som e imagem associados, um público que já os admirava do rádio e das encenações ao vivo agora poderia tê-los por completo, através daquele novíssimo e inexplorado meio de comunicação de massa.

[...] Para a televisão, ele leva luz, movimento e simetria. Prende a audiência, exatamente, pela estética. Já havia perto de 50 mil aparelhos daquele 'rádio com imagem' entre Rio e São Paulo, a maioria da marca Invictus. Cinco anos depois, já seriam 200 mil. [...] A televisão ansiava por uma outra postura. Jackson percebe isso e começa a estabelecer um outro -- e novo -- diferencial. 'Ele utilizava o palco como uma manifestação quase teatral, quase que coreográfica. 'Nenhum outro artista daquela época tinha essa percepção', atesta Zuza Homem de Mello, privilegiado observador das irriquietas e envolventes apresentações da dupla. [...]

A agenda era massacrante. Aos domingos, integravam dois programas da Rádio Tupi: O Matinê Tupi, conduzido por Airton Perlinguero, e Caleidoscópio [...] Às segundas, pela manhã, participavam de um dos mais concorridos programas de auditório da estação, Dia de festa, com Silveira Lima. Nas terças o compromisso era com a televisão, na Festa do Arraial Televendas, dividindo os primeiros passos na nova mídia com o popular apresentador Abelardo "Chacrinha" Barbosa -- ainda sem qualquer adereço pré-tropicalista [...]. Juntas, as três figuras conseguiam paralisar os sorrisos nos rostos dos telespectadores. Depois da folga das quartas, seguiam para São Paulo, alternando os horários entre a rádio e a TV Record, até o sábado à noite. Recomeçavam o ciclo no outro dia, já pela manhã. Logo na sequência são trocados os horários, em comum acordo entre as duas praças, para adequação ao dia do Forró do Jackson, às sextas -- um dos maiores índices de popularidade da estação [...] Enquanto boa parcela do universo artístico continuava a investir no cinema como principal veículo propagador de imagens, Jackson e Almira descobriam o rápido caminho da televisão como eficiente alavanca. Transformaram-se em pop stars."


Suficiente, Antonio? Cheguei até a página 218. As páginas seguintes continuam descrevendo o extraordinário sucesso dos programos televisivos de Jackson e Almira. Dê uma lidinha no livro. Ele é muito bom. Impedir-lhe-ia de dizer bobagens como Quando a "música televisionada" começou a existir Jackson já nem estava mais por aí.

Abraços. De nada.

Idelber em junho 17, 2009 1:31 AM


#100

Lauro, a produção (chamava-se direção musical, na época) do "disco tropicalista" do Ronnie Von é do Cozzella, um experimentalista eventualmente mais doido que o Duprat.
Abrass

Jair Fonseca em junho 17, 2009 1:44 AM


#101

Pessoal,

Em vez de ver o filme do Simonal assistam ao não menos famoso ´Homenagem ao 90 anos de Jackson do Pandeiro´, com Maurício Sandália & Cia Corisco de Coco e Rojão.

Fiz esse show no Sesc Santos dia 10.06, em pleno hora que começou o jogo Brasil x Paraguai e o povo foi todo pro show. Nem o Sesc acreditou...

Jackson do Pandeiro tá com mais moral que o Dunga !!

Abraços do Sandália ....

Maurício Sandália em junho 17, 2009 3:05 AM


#102

Caro Idelber
Com o aprofundamento da discussão do episódio Simonal seria melhor que a chamada “música e a política dos anos 60/70” fosse convenientemente desmenbrada. A distribuição e a simultaneidade das imagens de TV, por exemplo, era muito mais ampla com Toni Tornado do que no episódio “Meu limão, meu limoeiro”. Simonal fez sucesso (um grande sucesso) com uma realidade televisiva bem diferente do momento em que passa a ser repelido (apesar do período relativamente curto entre um episódio e outro). Por isso uma das qualidades do filme é a de reunir imagens de origens variadas de um período em que a TV encontrava-se em renovação (período em que Simonal alcançou sucesso popular).
Não deixa de ser curioso que quando sobram críticas para produtores musicais com uma visão internacional da música brasileira, é esquecido o fato que Simonal conseguiu dar seu salto decisivo sobre um representate deste olhar internacionalizado da nossa música (que foi Sergio Mendes).
Não fosse o episódio policial/político/violento creio que dificilmente estaríamos discutindo Simonal. No mesmo período outras carreiras artísticas foram também atingidas, caindo vertiginosamente, sem a mesma repercussão.
Se já seria difícil para quem gravou o disco ‘S´imbora’ repetir a dose em discos seguintes, para Simonal o sucesso alcançado em shows, a empatia que ele alcançou com públicos diversos, parece ter afetado suas escolhas conduzindo-o para o episódio que lhe foi fatal.

Paulo Z em junho 17, 2009 5:06 AM


#103

Demais! Colocamos chamada para esta Assaz Atroz matéria no blog da PressAA.

É por essa e por outras que os barões da mídia esperneiam.

Abraços

Editor-ASSAZ-ATROZ-chefe

Assaz Atroz em junho 17, 2009 11:48 AM


#104

Sabe que vc ate escreve bem, mas e so isso.Usa sempre os mesmos artificios para adapatar a logica aos suas premissas.E uma pena

Parreira em junho 17, 2009 1:03 PM


#105

Parreira, se quiser demonstrar isso com algum argumento minimamente articulado, a gente conversa :-)

Idelber em junho 17, 2009 1:06 PM


#106

Caro Idelber,

Cabe acrescentar que a turma do Casseta e Planeta, cujo integrante Cláudio Manoel é um dos idealizadores do filme do Simonal, há muito já deixou claro o seu imenso desprezo por todo e qualquer ideal progressista presente em nosso país. O grupo de humoristas aparece aos olhos da sociedade brasileira como um bando de debochados dispostos a não perdoar ninguém com suas piadas infames e sem graça, mas um olhar minimamente atento percebe rapidamente que eles não atiram para qualquer lado. Seu veneno é cirurgicamente dirigido, o que pode ser confirmado por entrevistas com seus integrantes.

Dois exemplos de fatos recentes:

Marcelo Madureira criou polêmica ao falar abertamente que Glauber Rocha era uma "merda". Bom, mesmo que isso não expresse diretamente uma opinião política, pode ser interpretado como tal dentro da atmosfera revisionista de que você fala.
O cinema de Glauber Rocha nunca foi bem compreendido pelo grande público e sempre foi comum associá-lo aos "intelectuais chatos" de esquerda que passavam horas reclamando de tudo. Eu mesmo, que tenho 29 anos, já ouvi muita gente da geração do meu pai dizer que, não só Glauber Rocha, mas todo o bom cimema brasileiro e mundial era um saco e que ninguém entendia. Quem dizia que entendia era, ou porque estava drogado e imaginava coisas, ou porque era simplesmente chato e queria ser diferente. Mas que relação isso tudo tem com o revisonismo, que não é apenas da história da ditadura, mas de toda a chamada contracultura dos anos 60 e de seu legado político e cultural?
Parece que quando Marcelo Madureira disse aquilo, muitos sessentões que nunca conseguiram apreciar um bom filme mas tinham vergonha de falar mal, se sentiam menores perante os intelectuais, que eles no fundo ainda respeitavam, se sentiram livres.
Marcelo Madureira os libertou. Agora eles podem falar abertamente que aquilo era tudo coisa de doidão e que eles não entendiam porque não havia o que entender.
É muito parecido com o que faz o Diogo Mainardi em relação a tudo que diz respeito ao Brasil. É como se ele dissesse: "Ei você! Não se sinta mal porque você não ficou tão rico quanto você sonhava. A culpa não é sua! É do Brasil! Porque aqui, ganhar dinheiro é pecado! Aqui não se respeita o espírito empreendedor que é natural do ser humano. E você que passou anos ouvindo ladainha de esquerdista intelectual e de milico nacionalista e que sempre teve vergonha de dizer que odeia essa terra e sua gente, agora você está livre. Pode bradar a vontade. A culpa não é sua."
Não é isso que vemos estampado nas páginas da Revista Veja? Nos escritos do colunista favorito da, como você diz, República Morumbi-Leblon?
Aliás, Marcelo e Diogo Mainardi parecem se dar muito bem. Os dois já tiveram oportunidade de, juntos, soltar suas piadinhas na TV. Era tudo deboche em cima de filmes "chatos", "ministros da cultura doidões", "presidentes analfabetos", e por aí vai. Eles acham muita graça nessas coisas.

Um outro fato: No momento em que o nosso Ministro do Meio Ambiente, figura que sempre mereceu o meu imenso respeito e até meus votos, vem travando uma luta aberta com as forças do atraso ruralista, o Casseta e Planeta, através daquele infeliz pseudônimo Agamenom, vem redicularizar no jornal o pobre do Minc com aqueles clichês: "maconheiro", ministro da fumaça", e por aí vai.
Por aí a gente vê que essa turma não gosta mesmo é da esquerda. Mas enquanto outros, como o Reinaldinho e o Minardi a atacam frontalmente, esses palhaços fazem de tudo para expô-la ao ridículo. Esquerda para eles não é só uma opção política, é tudo que eles não entende, acham chato, monótono, repetitivo e entediante.
Assim, eu concluo dizendo que eu vejo uma atmosfera revisionista que pretende, não só diminuir ou minimizar a violência do regime militar, mas também mostrar que a esquerda era também muito má, além de metida a besta, e pretensiosa.
E acredite, eu conheço um monte de gente que está se sentindo vingada através desses caras. Se eles se sentiam menores, humilhados ou burros, agora eles podem reverenciar em alto e bom som a sua mediocridade.

Desculpe o comentário imenso

Abraços
Pedro


Pedro Rangel em junho 17, 2009 6:43 PM


#107

Eu queria acrescentar uma coisa, tomando como gancho o que o Paulo escreveu: "No mesmo período outras carreiras artísticas foram também atingidas, caindo vertiginosamente, sem a mesma repercussão."


A pergunta é: quem? Se falarmos dos EUA, dando uma olhada na Billboard dos anos 60 (via wikipedia, por exemplo), vemos diversos artistas esquecidos nos dias de hoje. Tipo Sly & The Family Stone. Mas no Brasil, o máximo que teríamos são os cantores da Jovem Guarda, mas ainda são lembrados enquanto movimento (digo, coletivamente).


É importante lembrar também de Emilinha Borba & Marlene e Ângela Maria. Mesmo após o declínio, continuaram sendo lembradas com louvores. Cely Campelo também recebeu homenagens esporadicamente, e suas músicas ainda são executadas em algumas festas. Simonal poderia ter tido o mesmo destino, se não tivesse sido a polêmica do "dedo-duro".


Enfim, Simonal não chegou a ser 100% abandonado nos anos 70 e 80, uma vez que aparecia ocasionalmente no "Qual é a música", de Silvio Santos - que por sinal não era contrário ao regime militar. Mas nem de longe lembrava o sucesso de antes, isto nem era comentado. Eu era criança na época, via Simonal e fiquei surpreso, anos depois, ao saber que aquele cantor supostamente de segunda linha houvera feito tanto sucesso. De qualquer forma, a surra no contador merece críticas específicas.


Acho que a questão deve ser abordada no contexto da guerra fria. Havia pessoas bem intencionadas e pessoas cruéis tanto no regime militar quanto entre os comunistas. Um grupo atacava severamente, e às vezes injustamente, o outro. Simonal foi para a esquerda o que (por exemplo) Raul Seixas foi para a direita. Pessoas que pouco tinham a ver com a guerrilha, mas que sofreram as consequências.

Euler em junho 17, 2009 8:53 PM


#108

Você faz o mesmo que acusa no documentário (plano alto, baixo) quando diminui o Motta com "vejificação", "leblonismo", "tímpanos Zona Sul".
Exatamente o mesmo.

Qualquer documento, mesmo o seu, tem algum viés, algum posicionamento. É bastante inocência achar que, por ser um documentário, ele seja neutro.

Acho sua crítica bastante lúcida, pois também acho que não é lá, nem cá, que a história ali é complicada, como todas as histórias :)

Spark em junho 18, 2009 12:16 PM


#109

Idelber, sensacional. Não li ainda o artigo do mestre que deu origem ao seu. Assisti ao filme "Simonal - Ninguém sabe o duro que eu dei". Saímos da sala impactados e com a sensação que você deixa claro no seu post. O seu artigo cala os que "pensam", leia-se o tal do R, cujo nome me recuso a proferir. Não sei se calam porque ele deve sofrer de desconhecimento do passado. Mas seguramente vai de encontro ao que muitos que viram o filme pensam. AH, creio que faltou incluir na lista de Mieles e Motas os Bonis. Parabéns mais uma vez e abraços digitais,

Mari-Jô Zilveti
http://nomadismocelular.wordpress.com

Mari-Jô Zilveti em junho 18, 2009 4:53 PM


#110

Idelber, esqueci de acrescentar meu twitter: http://twitter.com/zilveti.

Abraços. Vou lá conferir sua palestra.

Mari-Jô Zilveti em junho 18, 2009 5:23 PM


#111

Idelber, desculpe insistir, mas você não publicou o comentário, no qual eu dizia que faltava incluir na lista de Mielles e Mottas os Bonis. De resto, endossamos aqui em casa o seu artigo e o comentário de Pedro Rangel. Os cassetas não são os únicos, por sinal, despolitizados. Outros humoristas seguem os mesmos caminhos. Nada contra os humoristas, por favor. Mas tanta despolitização no humor revela um apego desmesurado ao neo-liberalismo em que vivemos.

Mari-Jô Zilveti em junho 18, 2009 5:58 PM


#112

Mari-Jô, o seu comentário havia ficado preso na caixa de junk. Não há moderação de comentários aqui. Já fui lá e liberei. Acontecendo de novo, me mande um email na hora que a gente libera. Abraços.

Idelber em junho 18, 2009 6:00 PM


#113

Também havia ficado preso o comentário do queridíssimo Paulo Z, que agora é o #88. Maldita caixa de junk!

Idelber em junho 18, 2009 6:03 PM


#114

Coitadinho do Simonal...

Milton Ribeiro em junho 19, 2009 8:42 AM


#115

Quem mais era dedo duro? Hebe Camargo? Flávio Cavalcanti?
Em todo meio artístico tem os direitistas e os esquerdistas. Os bajuladores e os contrários aos sistemas etc.
Não seria possível (nem a lei da física aceitaria) entre 2 mil a 3 mil artistas ter um único delator de colegas...

João em junho 19, 2009 11:13 AM


#116

Graças a Deus, alguém chamou o Ivan Lins de intragável!

Eliane em junho 21, 2009 4:35 PM


#117

Com relação ao Simonal, o que se discute não é o fato de Geisel e Médici terem comandado a nação, mas sim a existência de uma panelinha do Rio de Janeiro articulada com outra de São Paulo ter decidido banir um cantor brasileiro para o ostracismo, sem nenhum motivo plausível, a não ser os boatos plantados pela panelinha.

Que a dita panelinha quisesse criticar o Simonal por ter se valido de agentes do DOPS para espancar seu contador, isso é perfeitamente compreensível, mas daí a inventar que ele era delator e agente da ditadura e, com base nisso, destruir a carreira do cantor, vai uma grande diferença.
O documentário mostra a verdade dos fatos, sem fazer drama. Ninguém é obrigado a gostar do Simonal, a achar que ele era o máximo, mas francamente crucificar o rapaz, com base em boatos é o fim da picada. Isso não tem nada a ver com ser da esquerda, ou ser da direita, isso só tem um nome: maucaratismo.
Quanto ao documentário, aqueles que o produziram estão de parabéns. Tem muita gente no Brasil que posa de santo e de dono da verdade, que se finge ou se fingiu de esquerda para tirar proveito da situação e receber polpudas pensões da viúva, sem nunca ter dado um dia de trabalho ao serviço público. Pois é, o Simonal morreu desgostoso de depressão e de cirrose enquanto esses aí estão numa boa, cheios da grana, e ainda fazem hora com a cara de todo mundo.

Lucia Reis em junho 22, 2009 6:49 PM


#118

Pra quem acha que Simonal não fez nada de bom nos anos 70, recomendo o olhaí, balândro... é bufo no birrolho grinza! (73), Jóia (71) e principalmente o Simonal (70), que não sei porque nunca aparece na lista dos melhores discos já feitos no Brasil.

Sou fã do trabalho do cantor por influência de minha mãe e tive sorte de trabalhar na divulgação do filme, fui atrás disso qdo soube do filme e tal. Mas sendo eleitora da esquerda, me sinto ofendida qdo dizem que o filme foi uma "obra da direita" pra limpar a barra do Simonal. Eu jamais faria parte de uma coisa dessas.

Assim como tb é uma burrice sem tamanho falar que ele caiu no ostracismo por "culpa da esquerda" e agora quererem linchar o Ziraldo e o Jaguar. (Do "outro lado", agora tão pegando o Nelsomotta pra Cristo tb). *rs

O irônico é que 2 dos diretores conheceram melhor a obra do Simonal depois de "Cidade de Deus", que teve a trilha produzida por ninguém menos que... o filho do Ziraldo!

Sim, ele errou no caso do contador, mas por esse crime ele foi preso e condenado. E fim!

Mas não, ficam requentando matéria e repassando informações erradas num círculo bad vibe sem fim. Ontem uma amiga me disse que a professora dela na faculdade de Jornalismo disse na aula que a Elis Regina também era informante da ditadura. Só rindo mesmo!

Os próprios filhos do Simonal são os mais sensatos nessa história, dizem que não adianta ficar remoendo e querer fazer com os outros o que fizeram com o Simonal.

Como disse uma amiga, até seria "melhor" mesmo que ele tivesse sido informante pois a essa hora tudo já teria sido esquecido, afinal a gente adorar perdoar todo mundo.

Flávia Durante em junho 23, 2009 7:53 PM


#119

Beleza de comentário, Flávia. Espero poder fazer um post mais detalhado sobre a produção do Simonal nos anos 70. Concordamos sobre o Simonal (1970). Provavelmente discordamos em alguma coisa sobre o Jóia. Abração.

Idelber em junho 23, 2009 8:01 PM


#120

Minha opinião sobre o Simonal continua a mesma, nunca mudou - sem dúvida nenhuma ele tinha algum talenta mas, sem dúvida nenhuma também, era um péssimo caráter.

Patriarca da Paciência em junho 24, 2009 12:08 AM


#121

Sinto que cheguei tao atrazado, mas aqui esta:

http://blogentrelinhas.blogspot.com/2009/06/furo-da-folha-simonal-era-dedo-duro-sim.html

De Mario Magalhaes, via "Entrelinhas" do Luiz Antonio Magalhaes.

Ivan Moraes em junho 25, 2009 3:58 PM


#122

Oi, Idelber.

Tenho certeza que você sabe o quanto respeito você e seu blog, e por isso mesmo me sinto completamente à vontade de dizer que me parece altamente equivocada sua argumentação em relação ao caso Simonal.

O bom é que seu texto, entre vários outros, me inspirou a retomar uma história inacabada, uma reportagem até hoje inédita sobre o dito cujo. Tá no seguinte link, sob o título "Simonal e a ditabranca":

http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2009/06/simonal-e-ditabranca.html

Abraço.

Pedro Alexandre Sanches em junho 25, 2009 6:24 PM


#123

O intragável Ivan Lins agora é parceiraço do Chico Buarque...

Persegonha em junho 26, 2009 11:24 PM


#124

Caro Idelber

Ainda não terminei de ler o texto citado na mensagem #122, de pedro a. sanches, e percebo que factualmente é "encorpado".

Creio que o simples conhecimento de alguns dos fatos lá citados (antes mesmo de qualquer comentário) podem desmistificar a idéia de que houvesse no cotidiano daquele período, situações absolutamente claras envolvendo os personagens principais deste caso.

Sugiro a leitura do texto que (até onde li) derruba alguns mitos. Vida que segue.

Paulo Z em junho 27, 2009 7:18 AM


#125

É isso aí, meu caro. Se o patrulhamento da esquerda fosse assim tão forte, teria destruído também a carreira do Nelson Rodrigues, que, acho, foi bem mais perseguido pelos caros do Pasquim que o Simonal.

Bruno Brasil em junho 29, 2009 1:59 PM


#126

É isso aí, meu caro. Se a patrulha da esquerda tivesse tanto poder, teria acabado também com a carreira de Nelson Rodrigues, que acho que foi até mais perseguido pela galera do Pasquim que o Simonal.

Bruno Brasil em junho 29, 2009 2:03 PM


#127

Cê já escutou Simonal cantando com Sarah Vougan A Sombra do seu Sorriso? Pois escute. E pense.

Monica em julho 3, 2009 2:26 AM


#128

A verdade é que o Simonal foi vítima de patrulhamento de esquerda SIM, mas, também foi vítima do racismo da direita. E esse, evidentemente, foi muito mais nocivo ao artista do que o patrulhamento de esquerda.

É claro que ícones da direita como o Reinaldinho & Veja vão usar o filme para distorcer os fatos tentando botar tudo na conta da esquerda.

Por outro lado essa mania que a esquerda brasileira tem de se auto-canonizar, como se nunca cometesse erros, é além de irritante, prejudicial à própria ideologia.

Paulo Freitas em julho 24, 2009 12:52 PM


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