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Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



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quinta-feira, 30 de julho 2009

Times Inesquecíveis que eu vi, V

(esta adormecida série já homenageou o Grêmio 1981-83, o Internacional 1975-76, o Fluminense 1976 e o Guarani 1978. Agora, finalmente é a vez do Galo 1976-1985)


Das equipes homenageadas até agora, esta talvez tenha sido a que durou mais tempo praticando futebol de altíssimo nível. De 1976 a 1985, o Galo venceu 10 dos 12 campeonatos mineiros que jogou. Foi campeão de todos os torneios de verão imagináveis na Europa, numa época em que o prestígio dessas competições estava em seu auge. Chegou às semifinais de metade dos campeonatos brasileiros de que participou. Sagrou-se o único vice-campeão invicto da história, numa disputa de pênaltis fatídica contra um adversário que acumulara 10 pontos a menos que ele em 21 jogos. Vingou-se contra a mesma equipe, no ano seguinte, na final do torneio dos Campeões do Brasil. Foi novamente vice-campeão brasileiro na mais sensacional final de todos tempos. Deixou de vencer uma Libertadores na pior vergonha da arbitragem brasileira. Estabeleceu recordes de público e de vitórias consecutivas sobre o maior rival. Foi uma das bases da última Seleção Brasileira a realmente encantar o mundo. É verdade que lhe faltaram dois ou três troféus nacionais e internacionais que coroassem seu reinado, mas ninguém menos que Paulo Roberto Falcão a considera a melhor equipe do futebol brasileiro pós-Pelé.

Obra das categorias de base do Atlético, a geração que surge por volta de 1976 (parte dela depois de um estágio no Nacional de Manaus) reconquista a hegemonia do futebol mineiro sobre o Campeão da Libertadores. O Cruzeiro tinha um equipaço, experiente. Mas Jairzinho, Palhinha, Nelinho, Raul e Zé Carlos levaram um baile homérico do Galo de Cerezo, Reinaldo, Marcelo e Paulo Isidoro na final de 1976, no jogo que marca a virada da hegemonia. De todas as encarnações da Máquina, esta era a mais leve, lépida, ágil. O 2 x 0 de 1976 ainda é tido como um dos placares mais injustos do retrospecto do clássico. Consulte os velhos cruzeirenses e eles reconhecerão: o jogo era para ter sido uns cinco ou seis. Nessa final, o goleiro ainda era o argentino Ortiz. A zaga era Getúlio, Modesto, Vantuir e Dionísio; no meio, Cerezo, Danival e Paulo Isidoro; na frente, Marinho, Reinaldo, Marcelo. Essa equipe viveu algo que seria inimaginável hoje em dia: um de seus reservas, Marcelo, chegou a ser titular da Seleção Brasileira de Osvaldo Brandão.



Galo-1976.jpeg

A alma da equipe era a dupla Cerezo-Reinaldo, que se entendiam de maneira impressionante a 30, 40 metros de distância. A marca registrada de Cerezo era o passe longo que mudava completamente o mapa do jogo. Característico de Reinaldo era o seco, rápido, imprevisto toque de gênio: em geral, um ou dois, no máximo, antes da finalização fulminante. Antes de 1976 já se iniciara, com a conivência criminosa dos árbitros, a caça aos joelhos e tornozelos de Reinaldo. A final de 1976 foi uma triste amostra do estrago que açougueiros como Morais e Darci Menezes eram capazes de fazer. Contra Reinaldo, figura particularmente odiada pela CBD do General Heleno Nunes, com frequência valia tudo.

Mesmo assim, marcou mais de 250 gols pelo Galo. Detém o absurdo recorde -- que dificilmente será batido -- de 1,55 gol por jogo no Campeonato Brasileiro de 1977. É o maior artilheiro da história do clássico de Minas Gerais. É o maior artilheiro da história do Mineirão. Fez apresentações memoráveis pela Seleção Brasileira, mas na hora H, em 1982, não pôde completar a equipe dos sonhos de Telê Santana. Entre os que o viram jogar ao vivo, poucos não o consideram o maior de todos.

Aqui, uma seleção de jogadas de Reinaldo. A 1:46s, você verá um dos gols mais incríveis que já presenciei no Mineirão, criado por um drible de corpo com o qual Reinaldo quebra a cintura de toda a defesa do América-RN sem tocar na bola, num 6 x 0 de 1977:




A equipe que termina o Campeonato Brasileiro de 1977 vice-campeã invicta, com 17 vitórias, 4 empates e nenhuma derrota, substituíra Ortiz por João Leite (que seria o goleiro em todo o hexacampeonato de 78-83), Getúlio por Alves (um talentosíssimo lateral que certamente teria tido chance na Seleção se tivesse jogado no eixo SP-RJ), Modesto por Márcio e coloca um ponta-esquerda legítimo, Ziza. Ângelo se firma no meio-campo e Marcelo e Paulo Isidoro se alternam ao lado de Reinaldo na frente. Cerezo passa por sua mais luminosa fase, ao mesmo tempo gênio e desengonçado.

Reinaldo, que havia sido expulso numa partida no início do campeonato, só é julgado e suspenso na véspera da final contra o São Paulo. O mesmo Arnaldo César Coelho que hoje pontifica que "a regra é clara" não expulsa Chicão, quanto este pisoteia um Ângelo que já se contorcia no chão depois de uma solada criminosa de Neca em seu abdômen. João Leite defende duas cobranças são-paulinas, mas Cerezo, Márcio e Joãozinho Paulista (que Barbatana inexplicavelmente escolhera como substituto de Reinaldo, deixando Marcelo no banco!) chutam seus pênaltis quase na arquibancada, afetados pela catimba de Waldir Perez. A cena dos meninos enlameados, deixando o campo abraçados sob os aplausos de 100.000 atleticanos e uns 5.000 são-paulinos, ainda é das imagens mais trágicas da história do futebol brasileiro. Na foto, falta Cerezo, mas esta era a equipe de 1977:



Galo-1977.jpeg



A encarnação de 1980 -- reforçada em 1981 por Nelinho -- ainda é a favorita de muitos atleticanos da velha guarda. Essa é a equipe que põe fim à maior dinastia do futebol brasileiro dos anos 70. Nas semifinais de 1980, o grande Internacional veio a Belo Horizonte e arrancou um 2 x 2. No jogo de volta, em que o Colorado, por sua história recente, era o favorito, o Galo aplicou contundentes 3 x 0 no Beira-Rio, numa das maiores apresentações da equipe. O 1 x 0 e o 2 x 3 que decidiram o Campeonato de 1980 para o Flamengo -- com arbitragens bem conturbadas e 3 expulsões atleticanas no segundo jogo -- ainda são, sem dúvida, a maior final de todos os tempos no Brasileirão. João Leite, Orlando, Osmar, Luisinho e Jorge Valença; Chicão, Cerezo e Palhinha; Pedrinho, Reinaldo, Éder eram os titulares de 1980.


Galo-1980.jpeg


Ao longo da primeira metade dos anos 80, o Galo foi o convidado de preferência dos torneios de verão europeus. Venceu praticamente todos: Paris, Amsterdã, Vigo, Bilbao e Ramón de Carranza viram apresentações históricas dessa equipe. O 4 x 1 sobre o Hamburgo em 1981 realmente deveria ser recuperado para as novas gerações. Aqui, deixo com vocês os gols do 3 x 0 sobre o Paris Saint-Germain. Depois do terceiro gol, de placa, de Reinaldo, o Galo passa a ser aplaudido de pé pelo público francês:



A equipe de 1985, com Nelinho em grande fase, ainda teve chances de voltar à final do Campeonato Brasileiro. Mas num daqueles cataclismos que só acontecem com o Galo, parou na retranca do Coritiba, num 0 x 0 em que um bigodudo chamado Rafael fechou o gol e classificou o time coxa-branca para a final mais melancólica da história do Brasileirão, contra o Bangu.

Durante esse período, o Galo teve, sim, três ou quatro derrotas traumáticas ou revoltantes em jogos decisivos, mas o normal, de todos os dias, era ir ao estádio para ver show de bola. Apesar da horrível década que tem tido desde 2000, o Galo ainda tem vantagem na história do confronto direto contra a maioria dos grandes clubes, fundamentalmente pelas vitórias acumuladas por Cerezo, Luizinho, Paulo Isidoro, Palhinha, Éder, Nelinho, João Leite. Se os Campeonatos Brasileiros tivessem sido disputados no sistema de pontos corridos, essa geração teria se sagrado pentacampeã nacional. A Libertadores e o bi brasileiro não pintaram, mas o Galo 1976-1983 é lembrado com orgulho pela Massa e com carinho por todos os amantes do futebol que o viram jogar.



  Escrito por Idelber às 02:28 | link para este post | Comentários (107)



terça-feira, 28 de julho 2009

Honduras: mais sobre a lógica do golpe

Não é necessariamente um problema oferecer uma teoria da conspiração para explicar um acontecimento. Acho fraco o recurso à desqualificação de uma “teoria da conspiração” sem mais argumentar, como se o fato de uma explicação recorrer a um enredo conspiratório a invalidasse ou tornasse falsa sempre. Se o acontecimento em pauta é um golpe militar, bem, é tautológico dizer houve uma conspiração. O tema é se você desvenda a conspiração certa ou a errada.

O que o excelente trabalho jornalístico do Página 12 demonstra é que não dá para se entender o golpe em Honduras sem remissão aos norte-americanos, inclusive por razões históricas. A relação de Honduras com os Estados Unidos não é comparável à de nenhuma república centro-americana. Ao contrário de Nicarágua, El Salvador e Guatemala, Honduras não passou por processo revolucionário durante os anos 80. Foi, inclusive, a base americana para o lançamento da contra-revolução que derrotou o regime sandinista, e que levou a Guatemala e El Salvador às piores matanças de todos os tempos no istmo. Honduras já servira de base para o golpe militar que derrubou o Presidente Arbenz, na Guatemala, em 1954 e também para a tentativa de invasão de Cuba em 1961. Trata-se de uma história singular, marcada pela relação com os EUA como poder imperialista. Todos esses cachimbos, claro, deixam uma vasta coleção de bocas tortas.

Mas na leitura de Petras – que é, eu suponho, como uma força política tipo PSTU, no Brasil, leria o golpe hondurenho --, os militares americanos da base de Soto Cano, o embaixador Hugo Llorens, o Pentágono, Hillary Clinton, a Casa Branca de Obama e a oligarquia golpista hondurenha se transformam numa massa indiferenciada, como se não houvesse contradições entre esses elementos. Elas existem, mas Petras não as vê.


honduras-2.jpg
Foto: Gustavo Amador, daqui.


É fato que Llorens se reuniu com os golpistas e que ele tem uma história anterior, na Argentina, de lobismo e articulações com os setores mais reacionários. Para o Página 12, enquanto Tom Shannon, subsecretário para a região, chega transmitindo o recado não intervencionista de Obama -- “não fomentaremos golpes” --, as forças golpistas já haviam convencido Llorens de que havia uma alternativa para impedir que Honduras caísse de vez na órbita chavista, e era o golpe militar. O equivalente americano dessa postura é a interpretação paranoica da realidade, que vê o continente supostamente ameaçado pelo “expansionismo” chavista. Não surpreende que as justificativas do golpe (e mesmo algumas de suas análises "ponderadas") recorram à lógica do ia, inventando, por exemplo, uma tentativa de segundo mandato de Zelaya que jamais havia estado em pauta ou tomado parte na consulta popular.

O que mostra o Página 12 é a contradição que vive Obama: para ser coerente com sua política externa, teria que condenar o golpe e trabalhar pela restauração da legalidade. Mas pela própria dinâmica dos acontecimentos, a restauração pura e simples de Zelaya significaria um triunfo de Hugo Chávez, cuja foto vitoriosa é tudo o que a direita americana sonha para apresentar Obama como fraco em política externa. A hipótese do Página 12 me parece correta: não há que se esperar que Obama polarize a cena política americana para ser o paladino da legalidade hondurenha em vésperas de votação do seu plano de reforma da saúde.

Daí a necessidade que os EUA tiveram de instalar a mediação do presidente Óscar Arias, de tantos serviços prestados a eles durante as matanças dos anos 80. Enquanto a Casa Branca vacilava, a OEA – liderada pela Alba, deixando, quiçá pela primeira vez, os EUA a reboque --, havia condenado o golpe em termos inequívocos. O plano apresentado por Arias forçava Zelaya a uma série de concessões mas, para a surpresa de muitos, foram os golpistas que não o aceitaram.

A sinuca de bico em que se encontra a administração democrata é um componente chave para se explicar o porquê dessa situação tão insólita: um mês de golpe em Honduras, o governo de fato não foi reconhecido por país nenhum, mas ainda assim ele se sustenta, em parte pelo jogo ambíguo feito pelos EUA. A situação no país centro-americano é, evidentemente, cada vez pior. Ontem a Liga Camponesa anunciou que já contabilizara pelo menos 184 desaparecidos.



  Escrito por Idelber às 04:48 | link para este post | Comentários (87)



sábado, 25 de julho 2009

Um blog aos sábados: Uma Malla pelo Mundo

Lucia Malla é das pessoas mais queridas da blogosfera brasileira. Cientista de mão cheia, viajante contumaz, estudiosa atenta da questão ambiental, Lucia é conhecida, principalmente, pela extrema gentileza com que trata a todos: uma daquelas pessoas cuja verdadeira ponderação e respeito pelo interlocutor são mesmo incomuns, irradiam compreensão e diálogo por onde passam. Orgulho-me de ser seu amigo e o seu blog é um de meus favoritos de todos os tempos. Se você anda estressado e cedendo à tentação de bater boca, a sugestão é que dê uma passada no blog da Lucia, mergulhe nos arquivos e tome um banho de alto astral, saber científico-viajante e alegria de viver. Lu integra meu blogroll desde o minuto 1, contemporâneos que somos.

Em Indústria Farmacêutica 1 e Indústria Farmacêutica 2 está o cruzamento entre Lucia cientista e Lucia ativista-blogueira-popularizadora de sua ciência. É uma fundamental leitura de nosso tempo. Mas o blog dela é muito mais. Característica que me faz gostar muito é a série Pequenas anotações de viagens virtuais, em que ela linka generosamente, sempre, os blogs que lê. Trata-se de uma arte essencial que Lu sempre exerceu com maestria.

Além do grande conteúdo, o blog de Lu é dos visualmente mais lindos, registro que é das viagens de dois grandes biólogos pelo mundo. As imagens são assinadas por Andre, marido e fotográfo, além de profissional da biologia. Aqui, Lu com um tubarão, uma de suas especialidades:

lu-malla-1.jpg


Mas é, acima de tudo, como blog de viagem que Lu deixou uma marca inesquecível na internet. Ela testemunhou Fernando de Noronha, Havaí, Everest, Seattle, Arquipélago de São Pedro e São Paulo, Ilhas Marshall, Hong Kong e tantos outros lugares que nunca nem sonhei visitar.

Companheira de ateísmo e de cosmopolitismo, cientista, atenta às questões do seu tempo, Lu já enfrentou obstáculos mil para viajar com os bichos que ama -- mas arrancou, de saldo, incríveis histórias.

Bióloga brasileira já citada por revistas de ponta da ciência internacional, Lu foi a encarregada de dar uma lula a Lula quando o Presidente visitou a Coreia. Além de testemunhar mais de quatro cantos do mundo, ensinar-nos muito sobre a conservação do planeta, esbanjar sabedoria e alto astral, Lu imortalizou uma frase na internet brasileira:

Tudo de bom, sempre.

Obrigado, Lu.



  Escrito por Idelber às 22:43 | link para este post | Comentários (27)



quarta-feira, 22 de julho 2009

Convite aos belo-horizontinos: Lançamento do novo livro de Márcia Bechara

Como já disse aqui, sou fã do Casa das Feras, da minha conterrânea Márcia Bechara. Na próxima quinta-feira, a partir das 20:00, na Livraria Quixote (ali na Fernandes Tourinho), Márcia lança seu novo livro: Métodos extremos de sobrevivência:



bechara.jpg


Eu estarei lá. Adoraria rever os conterrâneos.



PS: Enquanto eu preparo outro texto, não deixe de ler o NaMaria News.

PS 2: Se tiver estômago, visite esse festival de injúrias e xingamentos travestidos de notícia.



  Escrito por Idelber às 05:42 | link para este post | Comentários (27)



terça-feira, 21 de julho 2009

Cinco truísmos que querem silenciar o debate

Meu amigo Fabio Durão escreveu um livro assombroso. Chama-se Rio-Durham-Berlim: Um diário de idéias (Unicamp, 2009). São fragmentos, no estilo da Mínima Moralia, de Adorno, compostos nas manhãs anteriores ao trabalho diário que Fabio realizava para sua tese doutoral, já publicada como Modernism and Coherence. Copio o fragmento que inspira este post. Diz Fabio, na página 15:

Não tarda muito até que, no meio de uma interpretação de um texto, o professor de literatura se depare com a mais irritante das interjeições: “cada um tem sua opinião”, exclama o estudante, com a firmeza, ou até o ultraje, de quem defende a democracia. A resposta deve ser clara e firme: em primeiro lugar, este argumento impede o diálogo antes mesmo que ele comece, fazendo assim da sala de aula um ambiente supérfluo. Além disso, note-se, a opinião que conseguisse traduzir o grau de individualidade pressuposto nesta posição deixaria de sê-lo, e se tornaria uma leitura forte. Ou seja, aqui, quanto mais se valoriza a singularidade, mais se expressa o lugar comum, as idéias que ninguém questiona e que circulam com a liberdade das mercadorias mais baratas. É importante que o professor vença sua raiva, que naturalmente nasce desta situação de impotência, por entendê-la. Como toda burrice (infinitamente distante da ingenuidade), esta sabe mais do que pensa. Pois ela na realidade encena o toque de retirada do “eu” para a proteção das muralhas do conhecido. Dificilmente o estudante usaria a mesma expressão se estivesse discutindo, digamos, futebol, em um bar com os amigos. Na verdade, o aluno sabe exatamente o que está se passando: “cada um tem sua opinião” representa um movimento defensivo diante do novo e do difícil (que tantas vezes são indissociáveis). Cabe ao professor entender este medo e reconhecer, talvez com júbilo, que esta ocasião já é sintoma de um primeiro encontro com algo de novo.

Todo o livro de Fabio exibe esse mesmo brilhantismo. São 85 fragmentos, em 76 páginas. Quem gosta de uma leitura inteligente da realidade devorá-lo-á em poucas horas.

**********


Truísmo é o nome que reservamos, em filosofia, para a banalidade que, verdadeira, produz efeitos que vão muito além daqueles que estritamente poderíamos derivar da veracidade que enuncia. Num comentário a um post de Alexandre Nodari, eu desenvolvia a tese de que o truísmo funciona mais ou menos com a dinâmica que Marx identificou para as forças produtivas. Se você se lembra, as forças produtivas, para Marx, vão se desenvolvendo até que elas já não “cabem” no modo de produção no qual elas se encontram, forçando a turbulência revolucionária a partir da qual surgiria outro. Assim (resumindo brutalmente), o desenvolvimento de um sistema de trocas mais amplo na Europa tardo-medieval foi corroendo as bases do Feudalismo e criando as condições para as revoluções burguesas, que romperam as travas que aquele modo de produção impunha às forças produtivas.

Pois bem, os truísmos funcionam assim. Todo truísmo tem seu momento liberador. Ele expressa, como todo clichê, uma banalidade que não é falsa, mas que pode muito bem funcionar para falsificar a realidade – especialmente depois que, já disseminado, passa a ser usado para travar o pensamento e, não raro, silenciar o outro. Já que tirei a semana para fazer posts que vão me servir no futuro, aproveito para tratar de cinco truísmos que encontro com frequência por aí.


1. Cada um tem sua opinião. É o pai, ou a mãe, de todos os truísmos. Como todos os outros, ele é vítima da reversibilidade: ora, se “cada um tem sua opinião”, seria possível, em tese, formular a opinião contrária – a de que cada um não tem sua opinião. Isso significa que, para que esse truísmo seja verdadeiro, ele tem que ser falso. O paradoxo é que quem recorre ao “cada um tem sua opinião” como instrumento de debate não está jamais exprimindo opinião própria. Está, invariavelmente, repetindo opinião ouvida alhures. Afinal de contas, quer afirmação mais universalizante que “cada um tem sua opinião”? Quem diz isso no interior de uma discussão não está abrindo-se para o diálogo. Está fechando-o antes que ele se inicie. Dizer “cada um tem sua opinião” é como dizer “eu sou mentiroso”: trata-se de uma afirmação que implode no momento em que ela é feita.

2. Futebol não tem lógica. Este é o truísmo a que recorremos quando fracassa nossa explicação do jogo. Como todo truísmo, ele é verdadeiro e falso. Afinal, haverá coisa no mundo que tenha mais lógica do que o futebol? Simplesmente trata-se de que o futebol não se pauta por aquilo que costumamos chamar de “lógica” no discurso cotidiano, ou seja, a lógica positivista do encadeamento das causas e efeitos, que ordena esportes mais gerenciais e matemáticos como o futebol americano e o basquete. O futebol funciona de acordo com a lógica da contingência que, se você for observar bem, está muito mais próxima da lógica que ordena o mundo.

3. Não se pode comparar (cinema e literatura): Deixo os dois termos da comparação entre parênteses porque não importa quais eles sejam. A coisa funciona da mesma forma. No caso em questão, o truísmo teve seu momento liberador quando serviu para combater certa tendência a se trabalhar adaptações de romances ou contos a partir de uma metafísica da fidelidade. Ele desnudava uma certa prepotência literária, que insistia em pensar sua arte como superior, e o cinema como acessório que não podia se ombrear com ela. Hoje esse clichê já é, como o "cada um tem sua opinião", um apêndice da preguiça de pensar. Basta relacionar um livro e um filme para que você ouça isso. É invariavelmente um instrumento para silenciar o debate. Basta estabelecer uma comparação para que alguém diga que não se podem comparar coisas diferentes. Como se houvesse algum sentido em comparar coisas idênticas. Esta crítica ao truísmo não implica, claro, que eu ache que toda comparação procede. Há que se ver caso a caso.

4. Todos os que se sentem ofendidos têm o direito de procurar a justiça. É o truísmo favorito dos advogados (não todos, claro), ao qual recorrem quando se critica a decisão de algum Maiorana de processar um Lúcio Flávio, ou de uma Leticia W. de processar um Milton Ribeiro. Evidentemente, o argumento é verdadeiro. Todo mundo tem o direito de procurar a justiça quando se sentir ofendido. O problema é que ele é, como todo truísmo, tautologicamente reversível: a mesma Constituição que assegura o direito de cada ofendido procurar a justiça assegura a liberdade de crítica -- incluindo-se aí o direito de criticar alguém por judicializar discussões políticas ou literárias. Nas conversas sobre a daninha judicialização do debate político no Brasil, todos os que se sentem ofendidos têm o direito de procurar a justiça não costuma funcionar como argumentação: é mecanismo de silenciamento mesmo. Uma variante dele é o truísmo cada um deve se responsabilizar pelo que diz. Ora, isso é evidente. Mas a brincadeirinha da reversibilidade se aplica aqui também: se cada um deve se responsabilizar pelas consequências do que diz, cada um deve também se responsabilizar pelas consequências de seus atos, incluindo-se o ato de decidir processar alguém por ter dito algo. Se você é escritor e decide processar alguém por uma resenha, viverá com a reputação advinda disso, a qual -- diz a história da literatura -- não costuma ser muito boa. Reitero que não sou crítico de todos os processos por injúria, calúnia ou difamação. Os critérios aqui são aqueles, óbvios: extensão do dolo, clareza do propósito de difamar, diferença de acesso aos meios de comunicação etc. Se eu fosse MV Bill, por exemplo, já teria processado Diogo Mainardi. Sim, eu sei que essa decisão cabe ao MV Bill.

5. O problema são os radicalismos dos dois lados. Eis aqui mais um que é pai, ou mãe, ou tio, de vários outros truísmos. Os que anunciam que o problema são os radicalismos dos dois lados gostam de se apresentar como moderados, ponderados, razoáveis, racionais. É o truísmo preferido dos que justificam a barbárie na Palestina Ocupada. É o truísmo favorito dos que justificam a violência policial contra estudantes (cujo movimento tem, sim, vários problemas). Esse é um truísmo particular, porque ele se baseia num uso completamente enganoso da palavra “radicalismo”. Ora, só é possível ser radical numa direção: a da raiz. Basta ir ao seu dicionário etimológico e ver de onde vem a palavra. Quando alguém reduzir um problema político ao “radicalismo dos dois lados”, você pode ter certeza de que: 1) ele não é equidistante em relação aos dois lados; 2) ele quer que você acredite que ele é isento ou equidistante com respeito aos “dois lados”.

Há muitos outros, mas comecemos com estes cinco. Estão todos convidados a completar a lista.



  Escrito por Idelber às 07:39 | link para este post | Comentários (194)



segunda-feira, 20 de julho 2009

Respostas a algumas perguntas frequentes

Aí vai um post que explica alguns dos princípios que regem a relação deste espaço com seus leitores e com outros blogs. Senti a necessidade de escrevê-lo depois de receber dois emails de pessoas que haviam aberto blogs e me procuraram pedindo a tal fatídica “parceria de links”. Como sabe quem bloga há algum tempo, não há nada que tire um blogueiro do sério como esse pedido. O que era diferente nesses casos é que os dois blogs em questão eram promissores. Mas o pedido é muito brochante. Aí pensei que valeria a pena aproveitar e esclarecer algumas coisas.

1.Podemos fazer uma parceria de links? Mô fio, não peça isso a um blogueiro jamais. Você queima seu filme antes de entrar na roda. “Parceria de links”, pelo menos aqui, não existe. Quando vejo um blog de que gosto, divulgo-o sem pedir nada em troca. Qual a melhor forma de trazer leitores ao seu blog então? Ora, ir armando uma rede de contatos e fazer comentários nos posts sobre os quais você tem algo relevante a dizer. Eu, pelo menos, nunca recebo aqui um comentário de blogueiro ainda não conhecido sem que eu dê uma clicadinha para visitá-lo. Se gosto do que vejo, copio o link para o meu Google Reader. Se começo a lê-lo regularmente, ele passa ao blogroll aí à esquerda. Quando vejo algum post que acho que pode ser do interesse de quem me lê, dou o link aqui no corpo dos textos. O Biscoito linka muito e com frequência há anos. Não leio religiosamente todos os blogs linkados aí à esquerda, mas não há blog em língua portuguesa que eu leia com regularidade que não esteja listado aí. Cada um faz isso de uma forma: existe gente que é completamente pautada por blogs ausentes de seu blogroll. Eu prefiro usar meu blogroll para dizer com clareza ao leitor a quem eu leio. Se não está aí, é porque não leio ou, pelo menos, não passei a ler regularmente ainda.

2.Você não respondeu meu comentário: Sempre foi minha prática responder os comentários. Ficou impossível, como qualquer pessoa razoável pode atestar visitando as caixas do Biscoito. Mas tenha certeza de que seu comentário foi lido com atenção e de que sou grato pela visita. Não tem sentido ficar entupindo a caixa com “obrigados” e “volte sempre”, mas espero que a apreciação esteja implícita. Responder ou não a um comentário é, na maioria dos casos, produto de fatores aleatórios: tempo, disposição, ter ou não ter algo que acrescentar, ter ou não ter chegado a tempo de respondê-lo antes que um monte de outros comentários tenham sido feitos etc. Se respondi ao comentário de outro leitor que não você, não pense que aquele foi mais apreciado que o seu. Na verdade, boa parte dos meus comentários favoritos aqui ficou sem resposta.

3.Você ignorou meu email / meu twitt / minha chamada no MSN / Gtalk / Facebook: Sempre foi minha prática responder os emails que recebo, mas já está ficando impossível. Se você precisa de algum link ou informação, envie um breve email ao endereço disponível aí à esquerda, e as chances são de praticamente 100% de que você receberá uma resposta. Se você me enviar um email de 17 parágrafos debatendo algum tema do blog, as chances são de praticamente 100% que ele ficará sem resposta. Não vejo muito sentido em discutir opiniões por email. Para isso está a caixa de comentários. Quanto ao MSN / Gtalk / Facebook: eu não bloqueio ninguém nessas ferramentas de comunicação instantânea. Eu praticamente não as uso.

4.Você está interessado em uma parceria para avaliar o produto tal e escrever sobre ele? Terminantemente não. O Biscoito não faz propaganda de nada a não ser do que leio e gosto, ouço e gosto, vejo e gosto. Não estou interessado em conversar com nenhuma empresa sobre nenhum produto.

5.Gostaria de enviar-lhe o meu livro ou ensaio. Receberei com todo prazer e muito provavelmente lerei. É só enviar um email e pedir o endereço. Você com certeza receberá o agradecimento pelo envio. No entanto, lembremos Derrida: o dom deixa de ser dom no momento em que se inscreve numa expectativa de economia de troca. Se você quer me dar algo, eu aceito, se for dádiva mesmo. Não me cobre nada. Eu posso fazer uma resenha ou não. Isso depende não só de eu ter gostado, mas também de eu sentir que tenho algo a dizer sobre a obra. Recebi vários livros de que gostei muito e que ainda não foram resenhados aqui – em parte por falta de tempo mesmo. Casa das feras, de Márcia Bechara, Transparência pública, opacidade privada, de Túlio Vianna, Segurança Pública, Direitos Humanos e Violência, de Rafael Fortes e Visita às casas de Freud e outras viagens, de Sérgio Telles são quatro magníficas obras que já li e gostaria de resenhar. Pode ser que role ou não. Portanto, a ausência de comentário sobre o seu envio não quer dizer nada. A certeza que você pode ter é que, se você for um jovem contista, me enviar o seu livro e eu achar que ele é uma porcaria, eu não farei uma resenha dizendo isso. Não tenho o menor interesse em detonar um jovem escritor.

6.Estamos concorrendo no concurso de blogs tal e qual, você pode ajudar? Já fiz isso muito mas, sinceramente, acho que já deu. Os concursos de blogs cumprem lá o seu papel, sempre é bacana a divulgação extra que eles trazem, mas me cansei um pouco deles. Acho, inclusive, que a grande maioria dos leitores não está muito interessada se você ganhou o selinho do concurso tal. Isso vale tanto para outros blogs como para mim. Com certeza o Biscoito voltará a ser indicado para concursos, mas eu não planejo voltar a divulgar nenhum deles aqui.

7.Estou cursando a disciplina tal e quero fazer uma entrevista com você. Sim, estou à disposição, desde que seja algo que eu não tenha respondido antes. Portanto, se você é estudante universitário e gostaria de fazer uma entrevista comigo, eu sugeriria que você desse uma olhada nas mais de dez que fiz por aí na web. Se as perguntas forem qual é o potencial dos blogs e das novas mídias? ou você acha que os blogs vão substituir a grande imprensa?, aí não, porque eu já respondi isso umas trinta vezes. Se as perguntas forem novas, em geral dá.

8.Se posso aproveitar para fazer uma sugestão, aí vai: o silêncio do outro, na internet, raramente significa o que achamos que ele significa. Trata-se de um mundo superpovoado de signos e, na ausência deles, é melhor não interpretar muito. Eu tenho visto ao longo dos anos que essa é uma boa técnica para manter a sanidade mental.

Se algum blogueiro quiser completar com algo que vem da sua experiência, fique à vontade. Se algum leitor quiser usar o espaço para saber algo mais, fique à vontade também. Sei que este é um post que em alguns momentos pareceu meio rabugento, mas eu tinha a necessidade de escrevê-lo, inclusive para ter o link na próxima vez que eu receber alguma dessas perguntas, o que vem acontecendo quase diariamente. Boa semana para todos.

PS: O blogroll dá as boas vindas a dois blogs que comecei a ler com muito gosto e proveito: Ademonista e Tiago Pereira.

PS 2: Quem esteve aqui em Minas este fim de semana e me encarou bravamente numa maratona de Originais foi a turma que escreve o excelente blog do Guaciara.



  Escrito por Idelber às 07:15 | link para este post | Comentários (55)



sexta-feira, 17 de julho 2009

A esquerda e o unicameralismo

(esta é minha coluna deste mês na Revista Fórum. Acompanhe também o Twitter da revista).


O senso comum da classe média brasileira aceita indignar-se contra políticos individuais acusados ou culpados de corrupção. Também aceita vociferar contra todo o sistema político, com diferentes versões da cantilena todo político é igual. A última delas é a Não reeleja ninguém, vergonhosa campanha pseudopolítica lançada por Daniela Thomas e disseminada por Marcelo Tas. Mas esse senso comum só consegue oscilar entre entender a corrupção como defeito moral individual ou como inevitabilidade de nosso sistema ou raça. Daí que a conversa sobre corrupção no seio da classe média brasileira seja tão enfadonha. Ela passa do moralismo individual ao fatalismo coletivo (humano ou nacional) sem espaço para que uma conversa realmente política se estabeleça. Curiosamente, isso acontece no interior de uma sociedade que, apesar de complexa, enorme e em franca democratização, ainda não construiu canais para a discussão do unicameralismo.

Digo “curiosamente” porque seria de se esperar que a estrutura bicameral do Congresso brasileiro e a desproporcionalidade que caracteriza o Senado já teriam entrado em pauta nas discussões políticas sobre corrupção. Mas não é esse o caso. A julgar pela mídia e pelo senso comum da classe média, pareceria que essas duas coisas não estão relacionadas. Sem emplacar um debate real sobre as relações entre a corrupção e as estruturas do sistema político brasileiro, fica mais fácil apresentá-la como uma questão de origem moral. E qualquer pessoa de esquerda sabe que quando um problema político vem embrulhado como se fosse um problema moral, são os defensores do status quo, os poderosos e as forças conservadoras que se beneficiam.

No Brasil, o unicameralismo ainda se vincula, na cabeça de muitos, a uma adesão supostamente inconclusa, fingida ou formal à democracia representativa. Existe gente inteligente, como Antonio Cícero, que associa o unicameralismo ao perigo de abolição da democracia representativa no chavismo plebiscitário e na democracia “direta”, como se uma coisa fosse prima da outra. É como se, para que as pessoas acreditassem que você realmente defende a existência de um parlamento, fosse necessário achar natural a existência de dois. É uma lógica bizarra, mas que tem suas raízes históricas.

Não se podem tirar conclusões apressadas de uma lista aleatória dos países que adotam o unicameralismo. Um rol não exaustivo inclui: China, Portugal, Suécia, Finlândia, Islândia, Dinamarca, Israel, Estônia, Croácia, Cuba, Venezuela, Peru, Equador, Angola, Líbano, Grécia, Guatemala, Honduras, Turquia, Sérvia, Hungria, Coreia do Sul, Ucrânia, Nova Zelândia, Estônia, Macedônia, Chipre, Bulgária e Bangladesh. Há sistemas políticos de todo tipo nessa lista, evidentemente. É fato que o unicameralismo predomina em países menores, sem as proporções continentais do Brasil. Também é correto que são democracias bicamerais os Estados Unidos, a Rússia, o Canadá e a Índia. Também é certo que o único país unicameral territorialmente comparável ao Brasil é a China, não exatamente um modelo de democracia. Mas a discussão está longe de se esgotar aí.

Unibicameral_Map-1.jpg

(mapa dos países uni- e bicamerais, daqui)


Nos EUA, existem alguns motivos sólidos que justificam o Congresso bicameral. Apesar das semelhanças raciais e territoriais entre os dois países, esses motivos não se aplicam ao Brasil. Os EUA foram criados a partir da expansão de um núcleo migratório concentrado em 13 colônias de território bem menor que aquele que o país viria a ocupar no século XIX. Com a compra da Louisiana e o roubo, via guerra, de um enorme pedaço do México, os EUA fundaram um sistema em que se faziam necessárias algumas concessões à paridade entre estados desiguais – tratou-se, literalmente, de avançar rumo ao Oeste. No Brasil, o federalismo serve aos interesses de oligarquias, chefes locais, capangas de vários tipos e, acima de tudo, ao PMDB, expressão mor do clientelismo nacional. Por tudo isso, é dificílimo emplacar uma discussão real sobre o unicameralismo no interior das estruturas políticas brasileiras.

A Índia é bicameral, mas sua Câmara Alta, chamada de Conselho dos Estados (Rajya Sabha), elege seus representantes de forma quase proporcional. Estados populosos, como Uttar Pradesh e Maharashtra, têm respectivamente 31 e 19 assentos, contra 1 representante para estados menores como Mizoram ou Sikkim. Na Rússia, o bicameralismo é até mais excludente que no Brasil. O Conselho da Federação (Câmara Alta) concede dois representantes a cada um dos 84 “sujeitos federais” do país, entre repúblicas, províncias ou territórios. Eles não são, no entanto, eleitos diretamente. Um deles é escolhido pelo Legislativo da província e o outro é nomeado pelo governador e referendado por esse mesmo Legislativo regional. A queda de braço com os capangas que tendem a controlar o Conselho da Federação é, aliás, um dos elementos chave para se entender o governo de Vladimir Putin. Já no Canadá, o Senado tem alguma proporcionalidade, ao contrário do Brasil. De seus 105 membros, cada uma das grandes quatro regiões do país recebe 24 assentos, com o restante sendo dividido entre as províncias menores. Em compensação, sua forma de escolha é menos democrática. Os senadores canadenses são nomeados pelo Governador Geral.

Sempre acreditei que a democracia brasileira ganharia muito se fossem criados canais onde a discussão sobre o unicameralismo prosperasse. Não é, evidentemente, uma bandeira que um grande partido possa assumir sem um tremendo desgaste. O PT, com sua respeitável bancada de 11 senadores, não a levantaria mesmo que houvesse avançado mais em seu interior o debate sobre o unicameralismo – um modelo de organização do legislativo muito mais próximo da visão de democracia genuinamente representativa que animou boa parte do partido em sua origem. Eis aqui, pois, a trava à reforma política brasileira: ela só pode florescer quando adquirir força suficiente no interior de espaços cuja existência ela ameaçaria. Vivemos nesse paradoxo, que explica por que a reforma política é bem mais difícil do que foi a reforma da Previdência. Mais uma crise de legitimidade do Senado, no entanto, pode acabar abrindo a fresta para que a reflexão sobre as instituições saia do chato terreno moral e ouse imaginar formas de organização política cujo poder democratizador nós talvez nem possamos ainda vislumbrar.

PS: Veja também o post do Tiago Pereira sobre o assunto, com o qual estou inteiramente de acordo.



  Escrito por Idelber às 13:41 | link para este post | Comentários (118)



quarta-feira, 15 de julho 2009

Machado de Assis e a música: "O machete"

machado_de_assis.jpgO Machete foi, durante mais de um século, um conto praticamente desconhecido na fortuna crítica de Machado de Assis. Nos últimos anos, a partir de um trabalho de José Miguel Wisnik, da nova antologia editada por John Gledson e de umas tutameias que eu também andei fazendo, o relato ganhou certa circulação. Note-se a ironia de que este conto, que narra a dissolução de uma família, foi publicado ... no Jornal das Famílias! Não é genial? A data é 1878. Machado escolhe não incluí-lo em Papéis avulsos (1882) nem em qualquer outra de suas antologias. Por que, se o conto é danado de bom? É impossível saber, claro, mas gosto de brincar com a hipótese de que a representação debochada de um dos primeiros cornos de nossa prosa de ficção e a associação explicita da sexualidade com a música popular tenham feito dele um relato perturbador demais.

A história vocês conhecem: Inácio Ramos recebe do pai, “músico da imperial capela”, rudimentos de música. Faz-se exímio executor e um rabequista de primeira categoria. Depois veremos que sua queda não é alheia a essa limitação frequente nos artistas de Machado: a de saber copiar e executar, mas quase nunca criar. Já rabequista, Inácio continua buscando um instrumento que corresponda às “sensações da alma”, quando é cativado pelo violoncelo de um músico alemão em excursão no Rio. Torna-se violoncelista e começa a viver a oposição entre o “simples meio de vida”, a rabeca tocada por dinheiro, e “sua arte”, o violoncelo, para o qual reservava “as melhores das suas aspirações íntimas”. Ele tem isso em comum com Pestana, o criador de Um homem célebre, que é capaz de conseguir para si uma grande fatia do mercado compondo polcas, mas sempre fracassa em seus desejos de ser um músico erudito, um sonatista. Esse tipo de dilema atravessa toda a obra de Machado. No caso da música, ele vai ficando mais agudo na medida em que avança o processo de amaxixamento da polca.

Inácio Ramos é o músico erudito condenado à tristeza tropical. Tocava “a rabeca para os outros, o violoncelo para si, quando muito para sua velha mãe”. O narrador registra a presença da mãe como única figura a dar entrada no espaço de execução da “arte pura” de Inácio. Ao executar sua elegia à mãe falecida, diante da mulher Carlotinha, oito dias depois de casado, a “mocinha de dezessete anos, parecendo dezenove” se lança à celebração com gritos de “lindo, lindo”. Inácio se ofende, como se a mulher houvesse incompreendido a profundidade e a melancolia da peça. Onde Inácio queria o descanso e o luto, Carlota era puro entusiasmo. Onde ele queria coqueiro, ela era revólver. Embora os dois personagens ainda não saibam, esse descompasso entre a recepção real da música e a recepção idealizada pelo artista erudito nacional já anuncia a chegada do terceiro, do tocador de machete, do homem que vem da rua.

Um par de transeuntes, Amaral e Barbosa, estudantes de Direito em férias no Rio, ouvem o violoncelo de Inácio e lançam gritos de “bravo, artista divino!” Só numa visita subsequente Amaral menciona que o amigo Barbosa também é músico. Vale citar o diálogo de Inácio com Barbosa como registro do horizonte de expectativas de um violoncelista encontrando pela primeira vez a cultura popular:

- Também! exclamou o artista
- É verdade, mas um pouco menos sublime do que o senhor, acrescentou ele
sorrindo.
- Que instrumento toca?
- Adivinhe.
- Talvez piano. . .
- Não.
- Flauta?
- Qual!
- É instrumento de cordas?
- É.
- Não sendo rabeca . . . disse Inácio como a esperar uma confirmação.
- Não é rabeca, é machete.

Esse diálogo é importante porque revela um dado chave: Inácio é músico e vive no Rio de Janeiro no fim da década de 1870, mas simplesmente não possui registro de instrumentos de cordas além dos usuais na música burguesa de salão. Ele passa ao largo do processo vivo de constituição de uma linguagem musical brasileira através das rodas de chorões, já em estágio avançado na década de 70. Esse é o processo que, em diálogo com as sonoridades afro-brasileiras -- chamadas no século XIX pelo nome genérico de batuque --, levaria à constituição do primeiro gênero popular urbano brasileiro: o maxixe.

A escolha do instrumento de Inácio não poderia ser mais contrastante com o cavaquinho (podemos aqui usar “cavaquinho” e “machete” como termos intercambiáveis, apesar de algumas diferenças, de afinação inclusive). O violoncelo é um instrumento que, na segunda metade do século XIX, já indicia uma música erudita algo ancilosada e melancólica, em descompasso inclusive com as preferências da elite. A polca já era a música de preferência da elite carioca desde logo depois da sua chegada ao Rio, em 1845. Quando Inácio convida Barbosa para uma demonstração no cavaquinho, trata-se quase que de um chamado a uma exibição folclórico-etnográfica que não mereceria o nome de arte. maxixe.JPG

Para Machado, o problema é que essa arte, ao contrário daquela do performático cavaquinho, já se encontra divorciada da experiência. O machete de Barbosa passa a fazer sucesso e ser conhecido da vizinhança, em saraus estimulados por Carlotinha, que “não cessava de o elogiar em toda parte” . Arma-se o contraste entre Inácio e Barbosa: o artista que se relaciona com a autoria alheia como a dos “mestres” versus o artista que executa composições de autoria próxima, pessoal, coletiva ou desconhecida, mas sempre com liberdade de improvisação sobre elas. O corpo está sempre presente nas apresentações de Barbosa.

Depois do regresso de Amaral e Barbosa a São Paulo, chega a notícia de que eles estariam de novo no Rio por três dias. Aí o leitor já tem elementos para adivinhar o fim. Amaral fica o período combinado e volta. Barbosa adoece e recebe uma carta que “lhe obriga a ficar algum tempo”. Quando Amaral retorna para visitar o casal nas férias seguintes, só encontra Inácio com o violoncelo, uma criança de alguns meses ao pé do instrumento, “dominada ao que parece pela música” e ouve o relato da boca do próprio Inácio: “ela foi-se embora, foi-se com o machete. Não quis o violoncelo, que é grave demais. Tem razão; o machete é melhor”. Como notou Wisnik em seu trabalho, as duas frases finais do conto replicam a fórmula do melodrama: “A alma do marido chorava mas os olhos estavam secos. Uma hora depois enlouqueceu”. O que Wisnik não diz é que essa fórmula – o enlouquecimento ao final – é sempre utilizada no melodrama com personagens femininas.

Tenho com meu amigo e mestre José Miguel Wisnik uma diferença importante na leitura do conto. No seu “Machado Maxixe”, Wisnik afirma que o relato “supõe e promove a identificação positiva com o mundo representado pelo violoncelo, em clara oposição ao mundo representado pelo cavaquinho” (p. 25). Ou seja, meu querido amigo lê no conto um lamento pela queda da arte erudita. Eu já acredito que quando o narrador fala de “arte celestial”, afeita às “sensações da alma” para designar o violoncelo, ou quando, em discurso indireto livre, coloca-se na cabeça de Amaral para perguntar que rivalidade era aquela entre a arte e o passatempo?, há uma nítida ironia. Há um sorriso de canto de lábios. Há um gesto: olha aí, meu chapa, chegou a arte da rua. A obra de Machado de Assis, que foi com frequência acusada de ignorar as classes populares e apresentar um quadro “elitista” do Brasil do Segundo Império, nos ofereceu o esboço de um mapa da constituição de um campo genuinamente popular e urbano na música brasileira.

Ano passado, em New Orleans, meus alunos e amigos Alex e Camila presenciaram uma inesquecível experiência: eu e o querido Zé Miguel nos sentamos, às 4 da manhã, ao fim de uma festa em minha casa, para reler o conto e decidir quem tinha razão. Como fui eu o encarregado de ler o conto em voz alta para todo o público, manipulei a intonação das palavras descaradamente em prol da minha interpretação. Mesmo assim, é óbvio, não resolvemos nada.

Está aberto, pois, o espaço para o bate-papo sobre o conto. A única regra é que você não pode se desculpar por não ser especialista em literatura.



PS: No Consenso só no Paredão, vai rolar hoje também a conversa sobre Extinção, de Paulo Arantes.



  Escrito por Idelber às 06:24 | link para este post | Comentários (72)



terça-feira, 14 de julho 2009

Clube de Leituras: "O Machete", de Machado de Assis

'Bora fazer outra edição do Clube de Leituras? Então vamos. A proposta é que vocês leiam nas próximas 24 horas um conto genial de Machado de Assis. Trata-se de “O Machete”, publicado originalmente no Jornal das Famílias, em 1878, e jamais compilado por Machado em livro. O relato só viria a ser republicado muito tempo depois. Ele está, claro, disponível na internet. Se você prefere o formato pdf, clique aqui. Se prefere ler em html mesmo, clique aqui.

Não quero adiantar muita coisa sobre o conto, mas trata-se de uma das primeiras reflexões sobre a música popular do Rio de Janeiro na era de surgimento e consolidação do então demonizado maxixe. A discussão será sobre “O Machete”, mas há outro conto de Machado que pode iluminá-lo consideravelmente. É o clássico “Um homem célebre”, que também está disponível em pdf ou em html.

Para preparar a discussão, você pode consultar um post do Biscoito: Machado de Assis e a invenção do pop. Eu fiz também um trabalhinho acadêmico (pdf) sobre Machado e a música, que não faz muita falta ler agora, já que o post de amanhã será, em grande medida, baseado nele.

Então, temos quorum para uma conversa sobre Machado de Assis e a música amanhã? Quem se alista?



  Escrito por Idelber às 08:04 | link para este post | Comentários (23)



segunda-feira, 13 de julho 2009

Ateus, saiam do armário! Ateísmo e falsas simetrias

O Biscoito Fino e a Massa combate as falsas simetrias desde outubro de 2004. Outro dia, numa mesa de bar, tive que ouvir a velha história de que “machismo” e “feminismo” são duas coisas idênticas; de que as mulheres deveriam abandonar essa história de feminismo porque ... afinal de contas, somos todos seres humanos! Uma amiga querida, feminista, encarregou-se de explicar o óbvio: que o machismo é a justificativa ideológica de uma opressão milenar, que subjuga as mulheres, relega-as à condição de serventes, e que o feminismo representa a luta por uma sociedade em que todos tenhamos os mesmos direitos-- uma sociedade em que as mulheres possam, por exemplo, legislar sobre seu próprio útero. Daí, a conversa da nossa interlocutora descambou para a discussão do racismo, onde ela de novo repetia a ladainha de que uma camisa 100% negro e uma camisa 100% branco representavam coisas igualmente reprováveis, como se não tivesse havido aquele pequeno detalhe chamado escravidão.

Está em curso uma perigosa tendência a silenciar os ateus. O argumento – calhorda, cafajeste, ignorante – é que cada vez que um ateu sai do armário, se assume como tal e começa, a partir dali, a articular publicamente suas razões para ser ateu, ele está repetindo, mimetizando, reproduzindo a doutrinação evangélica com a qual somos bombardeados todos os dias. Cada vez que os ateus começamos a falar publicamente sobre essa mais óbvia e razoável das escolhas vem alguém nos acusar de ... estar querendo evangelizar os outros!

Dá pra imaginar uma simetria mais falsa?

Uma pesquisa recente, da Fundação Perseu Abramo, mostra que os ateus representamos o grupo social mais discriminado socialmente. Mais que negros. mulheres, travestis, gays, lésbicas. Mais, até mesmo, que transsexuais. Eu não estou dizendo que a discriminação cotidiana que sofre, por exemplo, um ateu branco, é comparável à que sofre um negro de qualquer crença. Não é. Não é, em primeiro lugar, porque ser negro e, até certo ponto, ser gay, são coisas impossíveis de se esconder. Ser ateu, não. Mas se você perguntar a um brasileiro em qual membro de grupo social ele não aceitaria votar de jeito nenhum, os ateus estamos, disparados, em primeiro lugar. Vivemos ainda nesse estranho regime que associa a moralidade à crença religiosa, como se existisse alguma relação entre religiosidade e comportamento moral, como se não soubéssemos nada sobre a lambança feita pelos padres com as crianças e adolescentes – para não falar dos séculos de lambança obscurantista e anticientífica promovida pelas religiões.

A crítica que ouço por aí a Richard Dawkins – que ele está liderando um movimento ateu que tem caráter evangelizante, doutrinador, e que portanto ele acaba se parecendo a um crente – é de uma burrice digna de um cristão*. Nós passamos séculos em que os ateus não tínhamos sequer o direito de falar na esfera pública enquanto tais. Nós vivemos num mundo onde professores são despedidos por serem ateus; adolescentes recebem suspensão na escola por serem ateus; políticos que se declaram ateus têm pouquíssimas chances de serem eleitos. Essa mais razoável e óbvia das conclusões filosóficas – a de que o mundo não foi criado por nenhum ser onipotente – ainda é motivo de perseguição severa para qualquer um que a abrace.

Apesar do caráter laico da República Federativa do Brasil, garantido na nossa constituição, as religiões ainda gozam desses estranhos privilégios: não pagam impostos, por exemplo. A pior parte é que elas podem dar palpite em absolutamente tudo -- desde o currículo escolar até o útero alheio – mas, no momento em que são questionadas, o debate é silenciado com aquele mais cretino dos argumentos, ah, tem que respeitar minha religião.

Entendam o ponto de vista d' O Biscoito Fino e a Massa sobre isso: tem que respeitar religião porra nenhuma. Tem que acabar com essa história de que, todas vezes que apontamos a misoginia, a homofobia, os estupros de crianças, a guerra anticiência, os séculos de lambança obscurantista, sempre aparece alguém para dizer "ah, tem que respeitar minha religião".

Ideias não foram feitas para serem "respeitadas". Ideias foram feitas para serem debatidas, questionadas, copiadas, circuladas, disseminadas, combatidas e defendidas, parodiadas e criticadas. De preferência com argumentos. Seres humanos merecem respeito. Pregação contra o que seres humanos são, por sua própria essência e identidade (gênero, raça, orientação sexual) não pode ser confundida com sátira antirreligiosa. A maioria dos carolas adora confundir sátira antirreligiosa com ataque misógino ou homofóbico. Não entendem que sua superstição é, essa sim, uma opção.

As três famílias que chamo de minhas – a sanguínea, a de meu amor e a da mãe de meus filhos, todas elas majoritamente católicas – são testemunhas de que jamais invadi um ritual religioso deles para fazer sátira, questionar o que quer que seja ou tentar converter quem quer que seja. O ritual acontece no espaço privado – que é onde ele tem o direito constitucional de acontecer – sem que eu jamais o desrespeite. Mas isso não é porque eu “respeito a religião”. Isso é porque eu os respeito, como pessoas. Tenho a opção de acompanhar o ritual em silêncio ou afastar-me porque, afinal de contas, são três famílias maravilhosas.

Entendam: o debate na esfera pública são outros quinhentos. E, neste debate, nós chegamos para ficar. Ateus, saiam do armário. Sem medo. É muito melhor.

* Atualização em 15/02/2011: Para entender a rasura, visite esse post.



  Escrito por Idelber às 07:05 | link para este post | Comentários (674)



sábado, 11 de julho 2009

Um blog aos sábados: Rafael Galvão

Rafael Galvão é, antes de tudo, um preguiçoso. Ele é a prova definitiva de que a natureza faz as coisas direitinho. Com a erudição e o talento absurdos que possui, já teria dominado o mundo, caso se empenhasse. Tal como está, ele é só o autor de um dos melhores blogs já escritos em qualquer língua. Sem o menor respeito pelas mais elementares etiquetas do politicamente correto, implicando com cidades, com o orgulho local, com o que ele chama de pseudo-feministas, sem mover uma palha para responder aos seus comentaristas e sem comentar em lugar nenhum, ele é uma lenda viva entre os que presenciamos a pré-história dos blogs brasileiros.

Se você nunca ouviu a expressão As alegrias que o Google me dá (atenção: no fim da página há um link para a continuação da festa), você está perdendo o que de mais divertido – e ao mesmo tempo revelador – já foi feito nos blogs. As respostas do Rafael às expressões que lhe trazem leitores pelo motor de busca são um achado sensacional, não só pelas pérolas de humor que ele extrai da coisa, mas porque o “Alegrias que o Google me dá” é um verdadeiro retrato da miséria humana, inconcebível antes da internet. O Google ocupa hoje, claro, a posição que Jacques Lacan chamava de sujeito suposto saber. Ele é o Grande Outro ante o qual não só projetamos o não-saber, mas vivemos a ilusão de fazê-lo privadamente. Eu daria tudo para ver a cara de um sujeito que reencontrasse um dos seus termos de busca (penes piqueno) no interior de uma sátira do Paraíba.

Eu não teria nenhum motivo para gostar do Rafael Galvão: o cabra é stalinista, flamenguista, fã de Paul McCartney e redige melhor que eu. O texto é sempre escrito naquele português escorreito, límpido. Não há nem sombra das estrovengas barrocas que eu enfio no meio das frases. Sobre os Beatles, eu, lennonmaníaco, não seria louco de polemizar com o Paraíba. Eu sairia machucado. Ele é, provavelmente, a pessoa que mais conhece Beatles no Brasil.

Para aqueles leitores que às vezes se deixam influenciar pela paupérrima retórica indignada da República Morumbi-Leblon, eu recomendo fortemente o blog do Paraíba. Ali você aprende um pouco sobre o que é a política na realidade, vista sem hipocrisia, longe da vociferação que sobre ela nos oferecem aqueles que a odeiam. Leia Meu presidente, Sobre o Bolsa Família, A UDN vestida de azul e amarelo, Orgulho de ser brasileiro, Petrobras e política, Neo-nazistas, agora do outro lado e Os que defendem o genocídio palestino. Para começar. Quando se cansar da política, leia o Manual do Bem Foder e a Pequena eulogia a um gênio da raça que desgraçou a si e ao seu mister. Rafael também é mestre na arte de fazer previsões, entrar em polêmicas e transformar comentários de leitores imbecis em posts geniais.

Eu tenho a honra de ser co-autor de um post no blog do Paraíba. Ainda acho que é o melhor post que já escrevi, e é quase tão bom como os posts dele. Antes de oferecer o link, faz-se necessária uma explicação. Lá nos primórdios, quando ainda blogávamos com a inocência de quem faz uma traquinagem de moleque, eu cometi a irresponsabilidade de fazer uma brincadeira. No meio de um chat organizado pelo Alex, onde se reuniram vários blogueiros, apareceu uma figura de codinome Solitária 4.2, que ninguém conhecia. Depois de trocar com ela uns flertes virtuais – eu era solteiro --, inventei a história de que alguém havia sequestrado meu perfil para dar as cantadas. Depois, fui ao blog e inventei a história de que o blog também havia sido sequestrado. Exagerei tudo deliberadamente, para que os leitores percebessem a brincadeira. Ali eu aprendi que, na internet, não se brinca com a credulidade humana.

Foi um fuzuê. Alguns leitores entenderam e se divertiram. Outros, não. Comecei a receber telefonemas de amigos e familiares em pânico. Era a véspera de uma palestra minha em Northwestern University, em Chicago, e um professor de lá, leitor do blog, resolveu entrar na brincadeira. Deu-me a ideia de anunciar que um impostor havia aparecido, passando-se por mim, e que ele havia sido recebido com a seguinte pergunta: se você é mesmo o Idelber, diga lá: quem foi o artilheiro do Campeonato Brasileiro de 1977, em que ano se publicou o primeiro poema gauchesco argentino e onde nasceu Raul Seixas? A história que se seguiu foi narrada por Rafael numa inesquecível entrevista.

Homenagear o Paraíba é uma forma de me lembrar do porquê de eu escrever aqui: porque, sim, cumpre algum papel político, constrói redes sociais, compartilha conhecimento, et cetera e tal. Mas, acima de tudo, porque é divertido. Quando deixar de ser, a gente fecha a bodega.

Obrigado, Paraíba.



  Escrito por Idelber às 08:09 | link para este post | Comentários (36)



sexta-feira, 10 de julho 2009

Solidariedade a Lúcio Flávio Pinto

Este é um convite a que você faça uma doação à conta bancária de Lúcio Flávio Pinto, um dos mais valentes jornalistas brasileiros, condenado a pagar 30 mil reais de indenização à família Maiorana, dona do grupo Liberal, afiliado paraense da Rede Globo de Televisão. A história da condenação de Lúcio e todos os links relevantes estão disponíveis nesse post publicado aqui no Biscoito anteontem. O Jornal Pessoal, informativo quinzenal e independente editado por Lúcio, não aceita propaganda e se mantém com a venda em bancas. A condenação é um golpe duro contra esse veículo.

Aí vai, por questão de transparência, o comprovante da minha doação de 100 reais:

**** (comprovante retirado por múltiplas sugestões de amigos).

Os dados da conta são:

Lúcio Flávio Pinto
UNIBANCO (banco 409)
Conta: 201.512-0
Agência: 0208
CPF: 610.646.618-15


Acabo de ter a notícia de que Lúcio está no hospital acompanhando seu irmão, Raimundo José, também jornalista, dois anos mais novo que ele. Raimundo está enfrentando o estágio final de um câncer.

Uma das coisas que aprendi a admirar nos EUA é uma certa cultura da doação. Não fosse por ela, provavelmente estaríamos agora amargando John McCain e Sarah Palin na Casa Branca. Eu ficaria muito honrado se conseguíssemos dar uma demonstração de força e levantássemos uma contribuição legal para o Lúcio. É evidente que qualquer quantia ajuda: 5, 10, 20 reais, o que puder. O importante é o gesto. Caso você o faça, deixe aqui o alô.



  Escrito por Idelber às 06:41 | link para este post | Comentários (77)



quinta-feira, 09 de julho 2009

Entrevista sobre o AI-5 Digital

Acho que ainda não coloquei este vídeo aqui no blog. É a entrevista que fizeram comigo os gentilíssimos profissionais da TV Assembleia de Minas Gerais, sobre o AI-5 Digital, do Senador Eduardo Azeredo -- aquele que estreou na política dando uma facada nas costas do irmão.

Chegam de Brasília notícias de que são muito boas as chances de derrotar o orwelliano projeto do senador do PSDB. Mas todo cuidado é pouco. Aí vai o papo. A entrevistadora, Vivian, foi uma gentileza só. Bem informada, clara, incisiva, ela fez as perguntas que tinham que ser feitas, me questionou, interrogou, mas me deu tempo para explicar o ponto de vista dos que lutamos contra o AI-5 Digital. Se você ainda não viu, aqui está o vídeo. A edição é cortesia de Alexandre Inagaki.


Entrevista com Idelber Avelar sobre o AI-5 Digital



PS: Na caixa de comentários do post anterior, começou a se articular uma vaquinha em solidariedade ao bravo jornalista Lúcio Flávio Pinto, do Pará. O próximo post trará detalhes sobre como você pode contribuir.



  Escrito por Idelber às 04:58 | link para este post | Comentários (28)



quarta-feira, 08 de julho 2009

Ronaldo Maiorana, da corja dos Marinho, espanca e sai livre; Lúcio Flávio Pinto faz jornalismo e é condenado

LucioFlavioPinto.gifPrepare-se, caro leitor, para outro mergulho no Brasil profundo. Lúcio Flávio Pinto talvez seja hoje o jornalista mais respeitado e destemido da Região Norte. Ele é o solitário redator do Jornal Pessoal, empreitada independente, que não aceita anúncios, tem tiragem quinzenal de 2 mil exemplares e mesmo assim provoca um fuzuê danado entre os poderosos, dada a coragem com que Lúcio investiga falcatruas e crimes. Lúcio já ganhou quatro prêmios Esso. Recebeu também dois prêmios da Federação Nacional dos Jornalistas em 1988, por suas matérias dedicadas ao assassinato do ex-deputado Paulo Fonteles e à violenta manifestação de protesto dos garimpeiros de Serra Pelada. Em 1997, ele recebeu o Colombe d’Oro per la Pace, um dos mais importantes prêmios jornalísticos da Itália. Em 1987, foi o jornalista que investigou o rombo de 30 milhões de dólares no Banco da Amazônia, por uma quadrilha chefiada pelo presidente interino do banco e procurador jurídico do maior jornal local, O Liberal.

Há 17 anos, os representantes paraenses da corja comandada pela família Marinho perseguem-no de forma implacável. Ronaldo Maiorana, dono (junto com seu irmão, Romulo Maiorana Jr.) do Grupo Liberal, afiliado à Rede Globo de Televisão, emboscou Lúcio por trás, num restaurante, e espancou-o com a ajuda de dois capangas da Polícia Militar, contratados nas suas horas vagas e depois promovidos na corporação. O espancamento, crime de covardia inominável, só rendeu a Maiorana a condenação a doar algumas cestas básicas.

Alguns meses depois da agressão, Lúcio foi convidado pelo jornalista Maurizio Chierici a escrever um artigo para um livro a ser publicado na Itália. O texto, eminentemente jornalístico, relatava as origens do grupo Liberal. Em determinado momento, dentro de um contexto bem mais amplo, ele fez referência às atividades de Maiorana pai no contrabando, prática bem comum, aliás, na Região Norte na época. Como se pode depreender da leitura do artigo, nada ali tinha cunho calunioso, posto que – uma vez processado --, Lúcio anexou aos autos toda a documentação que provava a veracidade do que afirmava. A obra investigativa de Lúcio fala por si própria: veja a qualidade da prosa e da pesquisa que informa o trabalho de Lúcio e julgue você mesmo. O que ele oferece em seus textos, entre muitas outras coisas, é a documentação, história e raízes daquilo que é sabido até mesmo pelos mosquitos do mercado Ver-o-Peso: que n'O Liberal só se publica aquilo que é de interesse da corja dos Marinho.

Mas eis que chega do Pará a estranha notícia de que o juiz Raimundo das Chagas, titular da 4ª vara cível de Belém, condenou Lúcio a pagar a soma de 30 mil reais aos irmãos Maiorana – representantes paraenses, lembrem-se, da organização comandada pelos Marinho. Lúcio também foi condenado a pagar as custas processuais e os honorários advocatícios. A pérola de justificativa do juiz fala do “bom lucro” de um jornal artesanal, de tiragem de 2 mil exemplares por quinzena. Ainda por cima, o juiz proíbe Lúcio de usar “qualquer expressão agressiva, injuriosa, difamatória e caluniosa contra a memória do extinto pai dos requerentes e contra a pessoa destes”, o que constitui, segundo entendo, extrapolação característica de censura prévia contrária à Constituição Federal. O juiz fundamenta sua decisão dizendo que Lúcio havia “se envolvido em grave desentendimento” com eles. É a velha praga do eufemismo: um espancamento pelas costas se transforma em “desentendimento”. A reação de Lúcio à sentença pode ser lida nesse texto.

O Biscoito se solidariza com Lúcio, coloca o site à disposição para o que for necessário -- inclusive para a publicação de qualquer material objeto de censura prévia – e suspira de cansaço ao fazer outro post que mais parece autoplágio, dada a tediosa repetição desses absurdos. Resta a pergunta: até quando os Frias, Marinho, Civita, Mesquita e seus comparsas vão manter esse poder criminoso Brasil afora?


PS: Meu muito obrigado ao Victor Barone pelas Originais no Mato Grosso do Sul e pela entrevista comigo.



  Escrito por Idelber às 04:07 | link para este post | Comentários (56)



terça-feira, 07 de julho 2009

O Caso Ouro Preto: Radiografia de mais um crime da mídia brasileira

E agora, Folha? E agora, Estado de São Paulo? E agora, Globo? E agora, Estado de Minas? Quem vai cobrar de vocês a sua cota pela quase destruição das vidas e das famílias de Camila Dollabela, Edson Poloni Aguiar, Cassiano Inácio Garcia e Maicon Fernandes, inocentados por absoluta falta de provas do assassinato de Aline Silveira Soares, ocorrido em outubro de 2001 em Ouro Preto? Durante anos, a mídia brasileira tratou esse caso com absurda falta de responsabilidade, enfiando-nos goela abaixo sandices sobre “seitas satânicas” e “rituais macabros”, simplesmente porque um delegado resolveu associar a morte de Aline a um jogo de RPG, esquecendo-se, no processo, de qual era o seu papel, ou seja, o de coletar provas no local do crime. Agora, quem vai indenizar Camila, Edson, Cassino e Maicon pelos crimes de linchamento prévio e acusação sem provas?

O Biscoito não tem mais nada a dizer sobre este caso a não ser sugerir aos seus leitores que 1) procurem nos arquivos os rastros dos crimes cometidos por UOL, Estadão, Globo e Estado de Minas contra as pessoas citadas e suas famílias; 2) leiam esse sensacional post de Felipe de Amorim que, com ponderação que me falta neste momento, faz uma radiografia indispensável.

Atualização: Outra leitura indispensável sobre o caso é esse artigo de 2005, escrito por minha amiga Cynthia Semíramis.



  Escrito por Idelber às 19:13 | link para este post | Comentários (42)




Resposta de Kabenguele Munanga a Demétrio Magnoli

Como já é de costume na mídia brasileira, achicalha-se primeiro, nega-se direito de resposta depois. Com muito orgulho, o Biscoito publica a réplica de Kabengule Munanga, Professor Titular de Antropologia da USP, ao ataque de Demétrio Magnoli n' O Estado de São Paulo. O artigo também está disponível no AfroPress.


kabenguele.jpgEm matéria publicada no jornal O Estado de S. Paulo de 14 maio de 2009, intitulada “Monstros tristonhos”, o geógrafo Demétrio Magnoli critica e acusa agressivamente as Universidades Federais de Santa Maria (UFSM) e de São Carlos (UFSCAR) e também a mim, Kabengele Munanga, Professor do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

As duas universidades são criticadas e acusadas por terem, segundo o geógrafo, criado ”tribunais raciais” que rejeitam as matrículas de jovens mestiços que optam pelas cotas raciais. No caso da Universidade Federal de Santa Maria, trata-se apenas de Tatiana de Oliveira, cuja matrícula foi cancelada menos de um mês após o início do curso de Pedagogia.. No caso da Universidade Federal de São Carlos, trata-se do estudante Juan Felipe Gomes. O acusador acrescenta que um quarto dos candidatos aprovados na UFSCAR pelo sistema de cotas raciais neste ano de 2009 teve sua matrícula cancelada pelo “tribunal racial” dessa universidade.

A questão que se põe é saber se além desses estudantes, cujas matrículas foram canceladas, outros alunos mestiços ingressaram em cerca de 70 universidades públicas que aderiram à política de cotas. Se a resposta for afirmativa, os que tiveram sua matrícula cancelada constituem casos raros ou excepcionais que mereceriam a atenção não apenas de Demétrio Magnoli, mas também de todas as pessoas que defendem a justiça e a igualdade de tratamento.

Mas por que esses casos raros, que constituem uma exceção e não a regra, foram “injustiçados” pelas comissões de controle formadas nessas universidades para evitar fraudes, comissões que o sociólogo Demétrio rotula de “tribunais raciais”? Por que só eles? Por que não ocorreu o mesmo com os outros mestiços aprovados? Houve realmente injustiça racial ou erro humano na avaliação da identidade física dessas pessoas que foram simplesmente consideradas brancas e não mestiças apesar de sua autodeclaração? Os erros humanos, quando são detectados, devem ser corrigidos pelos próprios humanos, como o foi no caso dos estudantes gêmeos da UnB. As injustiças, flagrantes ou não, devem ser apuradas e julgadas pela própria justiça que, num estado democrático de direito como o Brasil, deverá prevalecer. Acho que os estudantes Tatiana de Oliveira e Juan Felipe Gomes, e tantos outros que o sociólogo menciona sem entretanto nomeá-los, devem procurar um advogado para defender seus direitos se estes tiverem sido efetivamente violados pelos chamados “tribunais raciais”. Entendo que o geógrafo Demétrio tenha pena deles, considerando a sua sensibilidade humana.

Se realmente houve erro humano na verificação da identidade desses estudantes, a explicação não está na citação intencionalmente deturpada de algumas linhas extraídas de um texto introdutório de três páginas ao livro de Eneida de Almeida dos Reis, intitulado MULATO: negro-não-negro e/ou branco-não-branco, publicado pela Editora Altara, na Coleção Identidades, São Paulo, em 2002.

Veja como é interessante a estratégia de ataque do geógrafo Demétrio Magnoli. Ele escondeu de seus leitores o título do livro de Eneida de Almeida dos Reis, assim como a casa editora e a data de sua publicação para evitar que possíveis interessados pudessem ter acesso à obra para averiguar direta e pessoalmente o fundamento das acusações. De fato, ele não disse absolutamente nada sobre o conteúdo desse livro, e passa a impressão de ter lido apenas vinte linhas do total de três páginas da introdução, a partir das quais constrói seu ensaio e sua acusação. Com sua inteligência genuína, acho que ele poderia ter feito uma pequena síntese desse livro para seus leitores; se ele o tivesse mesmo lido, entenderia que nada inventei sobre a ambivalência genética do mestiço que não estivesse presente no próprio título da obra “Mulato: negro-não-negro e/ou branco-não-branco”. Desde quando a palavra ambivalência é sinônimo de “monstro tristonho”? Estamos assistindo à invenção, pelo geógrafo, de novos verbetes dos dicionários da língua portuguesa?

O livro de Eneida de Almeida dos Reis resultou de uma pesquisa para dissertação de mestrado defendida na PUC de São Paulo sob a orientação de Antonio da Costa Ciampa, Professor do Programa de Estudos Pós-graduados em Psicologia da PUC São Paulo. Ele foi convidado a fazer a apresentação do livro, na qualidade de professor orientador, e eu para escrever a introdução, na qualidade de ex-professor na disciplina “Teorias sobre o racismo e discursos antirracistas”, ministrada no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da USP. O livro se debruça sobre as peripécias e dificuldades vividas pelos indivíduos mestiços de brancos e negros, pejorativamente chamados mulatos, no processo de construção de sua identidade coletiva e individual, a partir de um estudo de caso clínico. É uma pena que nosso crítico acusador não tenha tido a coragem de apresentar a seus leitores o verdadeiro conteúdo desse livro, resultado de uma meticulosa pesquisa acadêmica, e não da minha fabulação.

Para entender porque essas pessoas mestiças foram consideradas brancas, apesar de terem declarado sua afrodescendência, é preciso voltar ao clássico “Tanto preto quanto branco: estudos de relações raciais”, de Oracy Nogueira (São Paulo: T.A. Queiroz, 1985). Se o geógrafo Demétrio tivesse lido esse livro, acredito que teria entendido porque as pessoas brancas que possuem algumas gotas de sangue africano são consideradas pura e simplesmente negras nos Estados Unidos – apesar de exibirem uma fenotipia branca – e brancas no Brasil. Ensina Nogueira que a classificação racial brasileira é de marca ou de aparência, contrariamente à classificação anglo-saxônica que é de origem e se baseia na “pureza” do sangue. Do ponto de vista norteamericano, todos os brasileiros seriam, de acordo com as pesquisas do geneticista Sergio Danilo Pena, considerados negros ou ameríndios, pois todos possuem, em porcentagens variadas, marcadores genéticos africanos e ameríndios, além de europeus, sem dúvida. Quando essas pessoas fenotipicamente brancas e geneticamente mestiças se consideram ou são consideradas brancas no decorrer de suas vidas e assumem, repentinamente, a identidade afrodescendente para se beneficiar da política das cotas raciais, as suspeitas de fraude podem surgir. Creio que foi o que aconteceu com os alunos cujas matrículas foram canceladas na UFSM e na UFSCAR. Se não houver essa vigilância mínima, seria melhor não implementar a política de cotas raciais, porque qualquer brasileiro pode se declarar afrodescendente, partindo do pressuposto de que a África é o berço da humanidade..

Lembremo-nos de que no início dos debates sobre as cotas colocava-se a dificuldade de definir quem é negro no Brasil por causa da mestiçagem. Falsa dificuldade, porque a própria existência da discriminação racial antinegro é prova de que não é impossível identificá-lo. Senão, o policial de Guarulhos não teria assassinado o jovem dentista identificado como negro pelo cidadão branco assaltado, e os zeladores de todos os prédios do Brasil não teriam facilidade para orientar os visitantes negros a usar os elevadores de serviço. Por sua vez, as raras mulheres negras moradoras dos bairros de classe média não seriam constantemente convidadas pelas mulheres brancas, quando se encontram nos elevadores, para trabalhar como domésticas em suas casas. Existem casos duvidosos, como o dos alunos em questão, que mereceriam uma atenção desdobrada para não se cometer erros humanos, mas não houve dúvidas sobre a identidade da maioria dos estudantes negros e mestiços que ingressaram na universidade através das cotas.

Bem, o geógrafo Demétrio Magnoli leva ao extremo a acusação a mim dirigida quando me considera um dos “ícones do projeto da racialização oficial do Brasil”. Grave acusação! Infelizmente, ele não deu nomes a outros ícones. Nomeou apenas um deles, cuja obra não leu, ou melhor, demonstra não ter lido. Mas por que só o meu nome mencionado? Porque sou o mais fraco, pelo fato de ser brasileiro naturalizado, ou o mais importante, por ter chegado ao ponto mais alto da carreira acadêmica? Isso parece incomodá-lo bastante! Um negro que chegou lá, ao topo da carreira acadêmica, numa das melhores universidades do país, mas nem por isso esse negro deixou de ser solidário, pois milita intelectualmente para que outros negros, índios e brancos pobres tenham as mesmas oportunidades.

De acordo com as conclusões assinaladas no livro de Eneida de Almeida dos Reis, muitos mestiços têm dificuldades para construir sua identidade por causa da ambivalência (Mulato: negro-não-negro e/ou branco-não-branco) , dificuldades que eles teriam superado se tivessem política e ideologicamente assumido uma de suas heranças, ou seja, a sua negritude, que é o ponto nevrálgico de seu sofrimento psicológico. Se o sociólogo acusador tivesse lido este livro e refletido serenamente sobre suas conclusões, ele teria percebido que não alimento nenhum projeto ou plano de ação para suprimir a mestiçagem no Brasil. Isto só pode ser chamado de masturbação ideológica, e não de análise sociológica, nem geográfica! Como seria possível suprimir a mestiçagem, que é um fato fundamental da história da humanidade, desafiando as leis da genética e a vontade dos homens e das mulheres que sempre terão intercursos interraciais? Nem o autor do ensaio sobre as desigualdades das raças humanas, Arthur de Gobineau, chegou a acreditar nessa possibilidade. Se as leis segregacionistas do Sistema Jim Crow no Sul dos Estados Unidos e do Apartheid na África do Sul não conseguiram fazê-lo, os ícones da racialização oficial do Brasil, entre os quais nosso colega me situa, terão esse poder mágico e milagroso que ele lhes atribui?

Entrando na vida privada, gostaria que o sociólogo soubesse que tenho um filho e uma neta mestiços que não são monstros tristonhos como ele pensa, pois são educados para assumir sua negritude e evitar assim os graves problemas psicológicos apontados na obra de Eneida de Almeida Dos Reis, através da indefinida personagem Maria, (ver p.39-100). Como se pode dizer que os mestiços são geneticamente ambivalentes e que política e ideologicamente não podem permanecer nessa ambivalência e ser por isso taxado de charlatão acadêmico? Creio que se trata apenas de uma reflexão que decorre das conclusões do próprio livro e que de per si não constituiria nenhum charlatanismo. Não seria um contra-senso e um grave insulto à USP que esse “charlatão acadêmico” tenha chegado ao topo da carreira acadêmica? E que tenha orientado dezenas de doutores hoje professores nas grandes universidades brasileiras, como a USP, UNICAMP, UNESP, UFMG, UFF, UFRJ, Universidade Federal de Goiás, Universidade Federal de São Luiz do Maranhão, Universidade Estadual de Londrina, Universidade Candido Mendes, PUC de Campinas, etc. Creio que, salvo o geógrafo Demétrio, os que me conhecem através de textos que escrevi, de minhas aulas e de minhas participações nos debates sociais e intelectuais no país e no exterior, não me atribuiriam esse triste retrato.

Disse ainda o geógrafo Demétrio que “do ponto mais alto da carreira universitária, o antropólogo professa a crença do racismo científico, velha de mais de um século, na existência biológica de raças humanas, vestindo-a curiosamente numa linguagem decalcada da ciência genética”. Sinceramente, não entendo como Demétrio conseguiu tirar tanta água das pedras. Das 20 linhas extraídas, de maneira deturpada, de um texto de três páginas de introdução, ele conseguiu dizer coisas horríveis, como se tivesse lido tudo que escrevi durante minha trajetória intelectual sobre o racismo antinegro. A colonização da África, contrariamente às demais colonizações conhecidas na história da humanidade, foi justificada e legitimada por um corpus teórico-cientí fico baseado nas idéias evolucionistas e racialistas produzidas na modernidade ocidental. Teria algum sentido para mim, que milito contra o racismo, professar o racismo científico para lutar contra o racismo à brasileira? Acho que nosso geógrafo quer me transformar num demente que não sou. As pessoas que leram seu texto no jornal O Estado de S. Paulo podem pensar que eu sou esse negro ex-colonizado que professa as mesmas idéias do racismo científico que postulou a inferioridade e a desumanidade dos africanos, incluída a dele mesmo. Como entender que meus alunos de Pós-graduação, a quem ensino há vinte anos “As teorias sobre o racismo e discursos antirracistas”, uma disciplina freqüentada por alunos da USP, de outras universidades e outros estados, têm a coragem de ocupar um semestre inteiro para escutar profissões de fé em favor do racismo científico?

Se o geógrafo Demétrio quer saber mais sobre mim, ingressei na Faculdade em 1964, aos vinte e dois anos de idade. Tive aulas de Antropologia Física com um dos melhores biólogos e geneticistas franceses, Jean Hiernaux. Uma das primeiras coisas que ele me ensinou era que a raça não existe biologicamente. Através de suas aulas, li François Jacob, Nobel de Fisiologia (1965) e um dos primeiros franceses a decretar que a raça pura não existe biologicamente; e J.Ruffie, Albert Jacquard e tantos outros geneticistas antirracistas dessa época. Portanto, sei muito bem, e bem antes de Demétrio que o racismo não pode ter mais sustentação científica com base na noção das raças superiores e inferiores, que não existem biologicamente. Sei muito bem que o conteúdo da raça enquanto construção é social e político. Ou seja, a realidade da raça é social e política porque tivemos na história da humanidade povos e milhões de seres humanos que foram mortos e dominados com justificativa nas pretensas diferenças biológicas. Temos em nosso cotidiano, pessoas discriminadas em diversos setores da vida nacional porque apresentam cor da pele diferente. Nosso sistema educativo é eurocêntrico e nossos livros didáticos são repletos de preconceitos por causa das diferenças. Não sou um novato que ingressou ontem na universidade brasileira. No Brasil, fui introduzido ao pensamento racial nacional por grandes mestres, como João Baptista Borges Pereira, que foi meu orientador no doutoramento, Florestan Fernandes, Octavio Ianni, Oracy Nogueira, entre outros. Não sei onde estava Demétrio nessa época e em que ano ele descobriu que a raça não existe. Acho um exagero querer me dar lição de moral sobre coisas que eu conheço muito antes dele. Isto não quer dizer que ele não possa me ensinar temas pertinentes à geografia, como por exemplo, o que se pode ler em seu livro sobre a África do Sul – “Capitalismo e Apartheid”, publicado pela Editora Contexto, São Paulo, 1998, que oferece algumas informações interessantes sobre a história do sistema do apartheid. Esse livro faz parte da bibliografia recomendada na disciplina ministrada na Graduação, não obstante algumas incorreções históricas nele contidas.

Um dos maiores problemas da nossa sociedade é o racismo, que, desde o fim do século passado, é construído com base em essencializações sócio-culturais e históricas, e não mais necessariamente com base na variante biológica ou na raça. Não se luta contra o racismo apenas com retórica e leis repressivas, não somente com políticas macrossociais ou universalistas, mas também, e, sobretudo, com políticas focadas ou específicas em benefício das vítimas do racismo numa sociedade onde este é ainda vivo. É neste sentido que faço parte do bloco dos intelectuais brancos e negros que defendem as políticas de ação afirmativa e de cotas para o acesso ao ensino superior e universitário. Na cabeça e no pensamento de Demétrio Magnoli, todos os que fazem parte desse bloco querem racializar o Brasil, e isso faz parte de um projeto e de um plano de ação. Que loucura!

Defendemos as cotas em busca da igualdade entre todos os brasileiros, brancos, índios e negros, como medidas corretivas às perdas acumuladas durante gerações e como políticas de inclusão numa sociedade onde as práticas racistas cotidianas presentes no sistema educativo e nas instituições aprofundam cada vez mais a fratura social. Cerca de 70 universidades públicas estaduais e federais que aderiram à política de cotas sem esperar a Lei ainda em tramitação no Senado entenderam a importância e a urgência dessa política. Acontece que essas universidades não são dirigidas por negros, mas por compatriotas brancos que entendem que não se trata do problema do negro, mas sim do problema da sociedade, do seu problema como cidadão brasileiro. Podemos dizer que todos esses brancos no comando das universidades querem também racializar o Brasil, suprimir os mestiços e incentivar os conflitos raciais? Afinal, podemos localizar os linchamentos e massacres raciais nos Estados onde se encontram as sedes das universidades que aderiram às cotas? Tudo não passa de fabulações dos que gostariam de manter o status quo e que inventam argumentos que horrorizam a sociedade. Quem está ganhando com as cotas? Apenas os alunos negros ou a sociedade como um todo? Quem ingressou através das cotas? Apenas os alunos negros e indígenas ou entraram também estudantes brancos da escola pública?

Concluindo, penso que existe um debate na sociedade que envolve pensamentos, filosofias e representações do mundo, ideologias e formações diferentes. Esse pluralismo é socialmente saudável, na medida em que pode contribuir para a conscientização de seus membros sobre seus problemas e auxiliar a quem de direito, o legislador e o executivo, na tomada de decisões esclarecidas. Este debate se resume a duas abordagens dualistas. A primeira compreende todos aqueles que se inscrevem na ótica essencialista, segundo a qual a humanidade é uma natureza ou uma essência e como tal possui uma identidade genérica que faz de todo ser humano um animal racional diferente dos demais animais. Eles afirmam que existe uma natureza comum a todos os seres humanos em virtude da qual todos têm os mesmos direitos, independentemente de suas diferenças de idade, sexo, raça, etnias, cultura, religião, etc. Trata-se de uma defesa clara do universalismo ou do humanismo abstrato, concebido como democrático. Considerando a categoria raça como uma ficção, eles advogam o abandono deste conceito e sua substituição pelos conceitos mais cômodos, como o de etnia. De fato, eles se opõem ao reconhecimento público das diferenças entre brancos e não brancos. Aqui temos um antirracismo de igualdade que defende os argumentos opostos ao antirracismo de diferença. As melhores políticas públicas, capazes de resolver as mazelas e as desigualdades da sociedade, deveriam ser somente macro-sociais ou universalistas. Qualquer proposta de ação afirmativa vinda do Estado que introduza as diferenças para lutar contra as desigualdades, é considerada, nessa abordagem, como um reconhecimento oficial das raças e, conseqüentemente, como uma racialização do Brasil, cuja característica dominante é a mestiçagem. Ou, em outras palavras, as políticas de reconhecimento das diferenças poderão incentivar os conflitos raciais que, segundo dizem, nunca existiram. Assim sendo, a política de cotas é uma ameaça à mistura racial, ao ideal da paz consolidada pelo mito de democracia racial, etc. Eu pergunto se alguém pode se tornar racista pelo simples fato de assumir sua branquitude, amarelitude ou negritude? Como se identifica então o geógrafo Demétrio: branco, negro, mestiço ou Demétrio indefinido? Pelo que me consta, ele se identifica como branco, mas não aceita que os negros e seus descendentes mestiços se identifiquem como tais e lutem por seus direitos num país onde são as grandes vítimas do racismo. A menos que ele negue a existência das práticas racistas no cotidiano brasileiro, e as diferenças de cor, sexo, classe e religiões que exigiriam políticas diferenciadas.

A segunda abordagem reúne todos aqueles que se inscrevem na postura nominalista ou construcionista, ou seja, os que se contrapõem ao humanismo abstrato e ao universalismo, rejeitando uma única visão do mundo em que não se integram as diferenças. Eles entendem o racismo como produção do imaginário destinado a funcionar como uma realidade a partir de uma dupla visão do outro diferente, isto é, do seu corpo mistificado e de sua cultura também mistificada. O outro existe primeiramente por seu corpo antes de se tornar uma realidade social. Neste sentido, se a raça não existe biologicamente, histórica e socialmente ela é dada, pois no passado e no presente ela produz e produziu vítimas. Apesar do racismo não ter mais fundamento científico, tal como no século XIX, e não se amparar hoje em nenhuma legitimidade racional, essa realidade social da raça que continua a passar pelos corpos das pessoas não pode ser ignorada.

Grosso modo, eis as duas abordagens essenciais que dividem intelectuais, estudiosos, midiáticos, ativistas e políticos, não apenas no Brasil, mas no mundo todo. Ambas produzem lógicas e argumentos inteligíveis e coerentes, numa visão que eu considero maniqueísta. Poderão as duas abordagens se cruzar em algum ponto em vez de se manter indefinidamente paralelas? Essa posição maniqueísta reflete a própria estrutura opressora do racismo, na medida em que os cidadãos se sentem forçados a escolher a todo momento entre a negação e a afirmação da diferença. A melhor abordagem seria aquela que combina a aceitação da identidade humana genérica com a aceitação da identidade da diferença. Para ser um cidadão do mundo, é preciso ser, antes de mais nada, um cidadão de algum lugar, observou Milton Santos num de seus textos. A cegueira para com a cor é uma estratégia falha para se lidar com a luta antirracista, pois não permite a autodefinição dos oprimidos e institui os valores do grupo dominante e, conseqüentemente, ignora a realidade da discriminação cotidiana. A estratégia que obriga a tornar as diferenças salientes em todas as circunstâncias obriga a negar as semelhanças e impõe expectativas restringentes.

Se a questão fundamental é como combinar a semelhança com a diferença para podermos viver harmoniosamente, sendo iguais e diferentes, por que não podemos também combinar as políticas universalistas com as políticas diferencialistas? Diante do abismo em matéria de educação superior, entre brancos e negros, brancos e índios, e levando-se em conta outros indicadores socioeconômicos provenientes dos estudos estatísticos do IBGE e do IPEA, os demais índices do Desenvolvimento Humano provenientes dos estudos do PNUD, as políticas de ação afirmativa se impõem com urgência, sem que se abra mão das políticas macrossociais.

Não conheço nenhum defensor das cotas que se oponha à melhoria do ensino público. Pelo contrário, os que criticam as cotas e as políticas diferencialistas se opõem categoricamente a qualquer política de diferença por considerá-las a favor da racialização do Brasil. As leis para a regularização dos territórios e das terras das comunidades quilombolas, de acordo com o artigo 68 da Constituição, as leis 10639/03 e 11645/08 que tornam obrigatório o ensino da história da África, do negro no Brasil e dos povos indígenas; as políticas de saúde para doenças específicas da população negra como a anemia falciforme, etc., tudo isso é considerado como racialização do Brasil, e virou motivo de piada.

Convido o geógrafo Demétrio Magnoli a ler o que escrevi sobre o negro no Brasil antes de se lançar desesperadamente em críticas insensatas e graves acusações. Se porventura ele identificar algum traço de defesa do racismo científico em meus textos, se encontrar algum projeto ou plano de ação para suprimir os mestiços e racializar o Brasil, já que ele me acusa de ícone desse projeto, ele poderia me processar na justiça brasileira, em vez de inventar fábulas que não condizem com minha tradicionalmente pública e costumeira postura.



  Escrito por Idelber às 04:04 | link para este post | Comentários (157)



sábado, 04 de julho 2009

Um blog aos sábados: Drops da Fal!

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Fal Azevedo inventa, na internet brasileira, todo um sentido de comunidade através dos blogs -- isso, mes amis, bem antes que o Biscoito sonhasse existir. Longe das discussões políticas, dos geeks, das pendengas sobre jornalismo, uma enorme comunidade de leitores – muito especialmente de leitoras – se reúne em torno da Fal com carinho e devoção que, para mim, são comoventes. Se você não conhece o Drops da Fal e já fez na vida alguma afirmação sobre “blogs”, desculpe-me, mas você tem que voltar lá atrás e começar tudo de novo.

A escrita da Fal não se parece com nada que você conheça. Algum crítico literário mais apressado poderia dizer que é uma “reprodução da oralidade”, mas é muito mais que isso. Às vezes, é como se a dicção registrasse os movimentos do corpo. Tente imitar aquilo e você passa vergonha. É inimitável. Eu brinquei uma vez com a ideia de que os blogs inventavam outra forma de narrar a experiência. Aquela banalidade bruta, do cotidiano -- vizinhos, programas da madrugada, o policiamento do prazer -- pode de repente exalar uma cintilação inaudita no momento em que se transforma em matéria narrável. É com isso que Fal nos brinda todos os dias. Tradutora de mão cheia, ela inventa uma língua. Nada menos.

Houve duas ocasiões em que Fal deixou o Biscoito Fino e a Massa no chinelo. A primeira foi na cobertura do mensalão. No fogo cruzado que caracterizou os idos de 2005, com a direita exultante e a esquerda atônita, faltava uma língua para falar daquilo. O Biscoito tentou e aí estão os arquivos. Mas foi na cobertura ao vivo da Fal que o absurdo de todas as partes envolvidas se revelava. Eu aprendi mais sobre política com a cobertura da CPI feita pela Fal que com qualquer tratado de sociologia.

A segunda foi na época em que resolvi seguir uma novela, Páginas da Vida. A novela era boa, havia muito que se comentar. Mas era impossível não repetir os apelidos que Fal criava para os personagens. O meu pobre post sobre a novela acabou sendo um plágio descarado da festa orgiástica que Fal armava com seus leitores.

Em agosto de 2007, a morte de Alexandre foi, para mim, a confirmação definitiva de que qualquer ideia de justiça neste mundo é um conto da carochinha. Alexandre ainda é o autor do email mais belo que já recebi na vida, uma missiva em que ele encomendava cuidados, preocupado que estava com a vinda de Fal a Belo Horizonte. Ali se via, fariseus, o que é o amor em estado puro.

Roland Barthes sabia das coisas: a honra pode ser imerecida, mas a alegria nunca o é, disse ele em algum de seus livros. Espero que Fal não se importe com a minha revelação pública de que tenho a alegria – a honra, com certeza, eu não mereço – de ser o herdeiro do último objeto que Alexandre tocou em vida. Das minhas mãos ele só sairá para as de meus filhos.

O Drops da Fal é uma história da internet brasileira. É também um lugar para se renovar, diariamente, a alegria de viver. Apesar de tudo.

Obrigado, Fal.



  Escrito por Idelber às 07:33 | link para este post | Comentários (46)



quinta-feira, 02 de julho 2009

100 horas de golpe em Honduras

Na próxima vez que alguém o acusar de acreditar em teorias da conspiração, caro leitor – sem prejuízo ao fato inconteste de que há, sim, gente disposta a crer em conspirações inverossímeis --, experimente retrucar o seguinte: ante os fatos ocorridos em Honduras na última semana do mês de junho de 2009, pertence ao cético o ônus de provar que a política não sucumbe, frequentemente, à lógica da pura conspiração. Pois se o que acontece ante nossos olhos em Honduras não é uma conspiração, alguém me sugira por favor um melhor vocábulo.

Já são bem mais de 100 horas de golpe em Honduras. Nenhum país do planeta reconhece o governo golpista. Ele foi condenado por OEA, Alba, ONU, SICA, Grupo do Rio e até pela Associação dos Ombudsmen das Américas. O presidente deposto falou em Assembleia da ONU e recebeu apoio e reconhecimento unânimes. Cuba e EUA condenam juntos o golpe. O golpista, presidente de facto, Micheletti, chega ao cúmulo de arrolar em seu favor o “apoio de Israel e Taiwan”, e não há internauta no planeta que encontre confirmação disso em fontes independentes nos dois países.

No entanto, a conspiração golpista conta com bases em: 1) parlamento; golpistas argumentam que é ampla maioria, mas não há confirmação independente mais além do fato, sim, de que havia desgaste parlamentar de Zelaya -- como é, aliás, comum para qualquer presidente latino-americano em fim de mandato que não tenha aprovação lulística; 2) cúpula militar; 3) setores de um Poder Judiciário absolutamente oligárquico; 4) imprensa, que opera livremente para disseminar o golpe – TVs abertas de Honduras e jornais El Heraldo e La Prensa – e é brutalmente censurada, perseguida, sabotada e encarcerada quando se coloca com independência ou com simpatias à resistência.

Se a imprensa estivesse funcionando em estado de mínima igualdade de condições em Honduras, o contexto atual seria bem distinto, não há dúvidas.

No momento em que escrevo, há, sim, hondurenhos assistindo a conferência de imprensa de Manuel Zelaya, mas só os que têm acesso à CNN em espanhol. Todas as TVs abertas de Honduras insuflam o golpe abertamente e inflam o número de participantes das aglomerações golpistas. Os sinais da TeleSur foram bloqueados. Os sinais dos canais de TV que transmitiam a conferência de Zelaya também o foram, logo depois. Há um completo blecaute de mídia em Honduras.

Para acompanhar as atualizações mais frequentes, veja o Twitter. Por aqui, a caixa fica aberta para reflexão sobre este insólito e inaudito golpe que, se tem algum precedente comparável, realmente, eu o desconheço.

Atualização:O Secretário da OEA, o chileno Inzulza, chega amanhã a Honduras com o ultimato da organização.

Atualização II: Confirmei a notícia de que o dono dos jornais El Heraldo e La Prensa (a mesma pessoa!) perdeu a boquinha em 2007, no governo Zelaya. Ele vendia drogas e armas ao estado. Talvez a fúria contra Chávez tenha algo que ver com a indústria farmacêutica, já que agora muitos medicamentos entram gratuitamente a Honduras pela Alba. Além de dono dos dois jornais, o Sr. Canahuati é também um barão da indústria de drogas.



  Escrito por Idelber às 18:27 | link para este post | Comentários (77)