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quarta-feira, 15 de julho 2009

Machado de Assis e a música: "O machete"

machado_de_assis.jpgO Machete foi, durante mais de um século, um conto praticamente desconhecido na fortuna crítica de Machado de Assis. Nos últimos anos, a partir de um trabalho de José Miguel Wisnik, da nova antologia editada por John Gledson e de umas tutameias que eu também andei fazendo, o relato ganhou certa circulação. Note-se a ironia de que este conto, que narra a dissolução de uma família, foi publicado ... no Jornal das Famílias! Não é genial? A data é 1878. Machado escolhe não incluí-lo em Papéis avulsos (1882) nem em qualquer outra de suas antologias. Por que, se o conto é danado de bom? É impossível saber, claro, mas gosto de brincar com a hipótese de que a representação debochada de um dos primeiros cornos de nossa prosa de ficção e a associação explicita da sexualidade com a música popular tenham feito dele um relato perturbador demais.

A história vocês conhecem: Inácio Ramos recebe do pai, “músico da imperial capela”, rudimentos de música. Faz-se exímio executor e um rabequista de primeira categoria. Depois veremos que sua queda não é alheia a essa limitação frequente nos artistas de Machado: a de saber copiar e executar, mas quase nunca criar. Já rabequista, Inácio continua buscando um instrumento que corresponda às “sensações da alma”, quando é cativado pelo violoncelo de um músico alemão em excursão no Rio. Torna-se violoncelista e começa a viver a oposição entre o “simples meio de vida”, a rabeca tocada por dinheiro, e “sua arte”, o violoncelo, para o qual reservava “as melhores das suas aspirações íntimas”. Ele tem isso em comum com Pestana, o criador de Um homem célebre, que é capaz de conseguir para si uma grande fatia do mercado compondo polcas, mas sempre fracassa em seus desejos de ser um músico erudito, um sonatista. Esse tipo de dilema atravessa toda a obra de Machado. No caso da música, ele vai ficando mais agudo na medida em que avança o processo de amaxixamento da polca.

Inácio Ramos é o músico erudito condenado à tristeza tropical. Tocava “a rabeca para os outros, o violoncelo para si, quando muito para sua velha mãe”. O narrador registra a presença da mãe como única figura a dar entrada no espaço de execução da “arte pura” de Inácio. Ao executar sua elegia à mãe falecida, diante da mulher Carlotinha, oito dias depois de casado, a “mocinha de dezessete anos, parecendo dezenove” se lança à celebração com gritos de “lindo, lindo”. Inácio se ofende, como se a mulher houvesse incompreendido a profundidade e a melancolia da peça. Onde Inácio queria o descanso e o luto, Carlota era puro entusiasmo. Onde ele queria coqueiro, ela era revólver. Embora os dois personagens ainda não saibam, esse descompasso entre a recepção real da música e a recepção idealizada pelo artista erudito nacional já anuncia a chegada do terceiro, do tocador de machete, do homem que vem da rua.

Um par de transeuntes, Amaral e Barbosa, estudantes de Direito em férias no Rio, ouvem o violoncelo de Inácio e lançam gritos de “bravo, artista divino!” Só numa visita subsequente Amaral menciona que o amigo Barbosa também é músico. Vale citar o diálogo de Inácio com Barbosa como registro do horizonte de expectativas de um violoncelista encontrando pela primeira vez a cultura popular:

- Também! exclamou o artista
- É verdade, mas um pouco menos sublime do que o senhor, acrescentou ele
sorrindo.
- Que instrumento toca?
- Adivinhe.
- Talvez piano. . .
- Não.
- Flauta?
- Qual!
- É instrumento de cordas?
- É.
- Não sendo rabeca . . . disse Inácio como a esperar uma confirmação.
- Não é rabeca, é machete.

Esse diálogo é importante porque revela um dado chave: Inácio é músico e vive no Rio de Janeiro no fim da década de 1870, mas simplesmente não possui registro de instrumentos de cordas além dos usuais na música burguesa de salão. Ele passa ao largo do processo vivo de constituição de uma linguagem musical brasileira através das rodas de chorões, já em estágio avançado na década de 70. Esse é o processo que, em diálogo com as sonoridades afro-brasileiras -- chamadas no século XIX pelo nome genérico de batuque --, levaria à constituição do primeiro gênero popular urbano brasileiro: o maxixe.

A escolha do instrumento de Inácio não poderia ser mais contrastante com o cavaquinho (podemos aqui usar “cavaquinho” e “machete” como termos intercambiáveis, apesar de algumas diferenças, de afinação inclusive). O violoncelo é um instrumento que, na segunda metade do século XIX, já indicia uma música erudita algo ancilosada e melancólica, em descompasso inclusive com as preferências da elite. A polca já era a música de preferência da elite carioca desde logo depois da sua chegada ao Rio, em 1845. Quando Inácio convida Barbosa para uma demonstração no cavaquinho, trata-se quase que de um chamado a uma exibição folclórico-etnográfica que não mereceria o nome de arte. maxixe.JPG

Para Machado, o problema é que essa arte, ao contrário daquela do performático cavaquinho, já se encontra divorciada da experiência. O machete de Barbosa passa a fazer sucesso e ser conhecido da vizinhança, em saraus estimulados por Carlotinha, que “não cessava de o elogiar em toda parte” . Arma-se o contraste entre Inácio e Barbosa: o artista que se relaciona com a autoria alheia como a dos “mestres” versus o artista que executa composições de autoria próxima, pessoal, coletiva ou desconhecida, mas sempre com liberdade de improvisação sobre elas. O corpo está sempre presente nas apresentações de Barbosa.

Depois do regresso de Amaral e Barbosa a São Paulo, chega a notícia de que eles estariam de novo no Rio por três dias. Aí o leitor já tem elementos para adivinhar o fim. Amaral fica o período combinado e volta. Barbosa adoece e recebe uma carta que “lhe obriga a ficar algum tempo”. Quando Amaral retorna para visitar o casal nas férias seguintes, só encontra Inácio com o violoncelo, uma criança de alguns meses ao pé do instrumento, “dominada ao que parece pela música” e ouve o relato da boca do próprio Inácio: “ela foi-se embora, foi-se com o machete. Não quis o violoncelo, que é grave demais. Tem razão; o machete é melhor”. Como notou Wisnik em seu trabalho, as duas frases finais do conto replicam a fórmula do melodrama: “A alma do marido chorava mas os olhos estavam secos. Uma hora depois enlouqueceu”. O que Wisnik não diz é que essa fórmula – o enlouquecimento ao final – é sempre utilizada no melodrama com personagens femininas.

Tenho com meu amigo e mestre José Miguel Wisnik uma diferença importante na leitura do conto. No seu “Machado Maxixe”, Wisnik afirma que o relato “supõe e promove a identificação positiva com o mundo representado pelo violoncelo, em clara oposição ao mundo representado pelo cavaquinho” (p. 25). Ou seja, meu querido amigo lê no conto um lamento pela queda da arte erudita. Eu já acredito que quando o narrador fala de “arte celestial”, afeita às “sensações da alma” para designar o violoncelo, ou quando, em discurso indireto livre, coloca-se na cabeça de Amaral para perguntar que rivalidade era aquela entre a arte e o passatempo?, há uma nítida ironia. Há um sorriso de canto de lábios. Há um gesto: olha aí, meu chapa, chegou a arte da rua. A obra de Machado de Assis, que foi com frequência acusada de ignorar as classes populares e apresentar um quadro “elitista” do Brasil do Segundo Império, nos ofereceu o esboço de um mapa da constituição de um campo genuinamente popular e urbano na música brasileira.

Ano passado, em New Orleans, meus alunos e amigos Alex e Camila presenciaram uma inesquecível experiência: eu e o querido Zé Miguel nos sentamos, às 4 da manhã, ao fim de uma festa em minha casa, para reler o conto e decidir quem tinha razão. Como fui eu o encarregado de ler o conto em voz alta para todo o público, manipulei a intonação das palavras descaradamente em prol da minha interpretação. Mesmo assim, é óbvio, não resolvemos nada.

Está aberto, pois, o espaço para o bate-papo sobre o conto. A única regra é que você não pode se desculpar por não ser especialista em literatura.



PS: No Consenso só no Paredão, vai rolar hoje também a conversa sobre Extinção, de Paulo Arantes.



  Escrito por Idelber às 06:24 | link para este post | Comentários (72)


Comentários

#1

Claramente influenciada por sua manipulação (rsrsrs), tendo a concordar com a sua visão. Ou seja, acho que Machado vislumbrava sim o crescimento do popular e foi muito feliz em registrá-lo. Não acho que ele claramente fica do lado do erudito.

Só que acho que o pobre músico erudito - inácio - era também um cara do povo, que também apreciava o popular, mas que foi ensinado a se interessar pelo erudito. Quando ele diz que queria aprender a tocar machete ao amigo que gostava do erudito, ele está sendo sincero. Não é porque acredite que assim sua mulher lhe seria mais fiel, mas porque ele mesmo ficaria mais feliz em tocar algo que toca as pessoas e não apenas as "almas". Só não entendo porque ele não aprende, afinal, não seria difícil para ele aprender a tocar um instrumento de corda.

Além disso, gostaria de acrescentar um ponto ao conto:
a carlotinha, que ontem já foi até chamada de maria chuteira por um comentarista, é, a meu ver, a grande vítima desse conto e da forma como as pessoas vêem sua ação.

aiaiai em julho 15, 2009 8:55 AM


#2

Conheci a tese do emaxixamento lá no BRASA de New Orleans. Penso em voltar aqui mais tarde para comentar o conto e a polêmica em questão. Mas algo interessante me intrigou na leitura do texto de Machado que já contrasto com a leitura do Idelber: o uso da tensão entre o popular e o erudito representados pelos instrumentos(o manchete e o violoncelo), a meu ver, não expressa de todo um lamento. Porém, a idéia defendida por Idelber precisa de mais sustentação. Por que acho isso? Tenho para mim, que nem tudo em Machado é ironia sutil e que, quando ele fala da experiência vivida pelo protagonista na sua relação com a música erudita, uma arte sem dúvida divorciada da experiência, está se falando de uma relação positiva, real e concreta com esse tipo de cultura. Que implicações essa positividade traria para a hipótese de Idelber? É isso que pretendo voltar mais tarde aqui para tentar desenvolver.

Obs: desobedecendo a regra de Idelber, por favor me desculpem, não sou como visto especialista em literatura. Mas me interesso muito por ela e as coisas que ela pode nos dizer e ensinar. Abraços.

Jampa em julho 15, 2009 9:35 AM


#3

Eu acho que Machado de Assis reconhece a superioridade prática do popular (pois o que importa na arte é tocar as pessoas), mas prefere o erudito e acredita que, como arte, é superior ao popular. Pela forma como ele retrata os eruditos passamos a sentir muita compaixão por eles, sabemos de sua boa índole e qualidades, mas fica muito claro que eles estão totalmente deslocados da realidade de seu tempo.

André em julho 15, 2009 9:55 AM


#4

Idelber,

Não sei se fui influencido por vc anteriormente. O fato é que após a leitura dos dois contos me pareceu evidente a preferência de Machado pela música de "entretenimento". Se não é preferência pessoal, no mínimo é regozijo por perceber que a música dos "cultos" não é mais a preferida do gosto popular. Para mim um dos elementos que comprova isso é a morte das mulheres que se deleitam com a música clássica. A mãe de Inácio e a mulher do Pestana. Já a alienação musical de Inácio acabou se transformando em alienação mental, após o abandono de sua amada. Creio que tal "evolução" não pode ser interpretada como expressão de lamento pela decadência da música erudita. É o que me ocorre no momento.
Abraço

Eduardo

Eduardo em julho 15, 2009 10:03 AM


#5

realmente, esse "duelo" de interpretacoes entre idelber e wisnik, em plena madrugada, no exterior, tao longe tanto no tempo quanto no espaco do conto, foi uma das coisas mais impressionantes que já vi, um dos maiores testamentos ao poder da literatura. foi lindo.

dito isso, não tenho opinião realmente formada, mas me inclino pro lado do wisnik por um único motivo: ironia deixa marcas e, pra gente poder ler um texto como ironia, a gente tem que localizar e identificar essas marcas de que o autor intecionalmente escreveu com ironia; senao, poderiamos simplesmente ler todo e qualquer texto como o oposto do que ele efetivamente diz, e pronto. ou seja, se o idelber quer defender que o conto é ironico, ele tem o onus da prova de comprovar essa ironia com elementos do texto.

Não fui eu q falei isso, foi o wisnik, estou só citando o argumento que mais perto chegou de me convencer. :)

Alex Castro em julho 15, 2009 10:24 AM


#6

Também não consegui vislumbrar a ironia observada pelo Idelber, penso que o conto mostra o avanço da música popular e sua conquista da alma das pessoas como um processo inevitável, mas sem juízo de valor, ainda que o melodramático final pudesse fazer crer o contrário. Ao menos eu não enxerguei ali nenhum juízo de valor, e sim um processo histórico inexorável. Abraços.

sidneig em julho 15, 2009 10:41 AM


#7

Olá, Idelber,
diferente das outras vezes, acho que irei comentar algumas coisas mais aleatórias.
Primeiro, uma curiosidade: você acha este conto no nível do que alguns consideram os grandes contos de Machado? Vejo a identificação do pop - e como você diz, também a representação do corno (dois temas fundamentais para Machado) - como grandes intuições mesmo. Mas acho a narrativa um pouco previsível, com soluções menos surpreendentes (menos opacas, eu diria) do que em contos como A Missa do Galo e até mesmo Um homem célebre, etc. O corno de Machado depois será ambíguo, é outro projeto, você não acha? Brincando com as hipóteses, também: não será por isso que Machado deixou de incluí-lo em antologias? [tenho exata noção de que estas perguntas não levam a lugar nenhum]
Sobre o pop, Alexandre N foi quem me alertou, em uma conversa de bar, aliás: a obra de Machado de Assis é a sociedade do espetáculo cem anos antes. Seria bom se ele dissesse mais sobre isso, depois. Quem lê Debord, quem lê Warhol, não pode deixar de ler Machado.
De fato, a cisão entre você e Wisnik é muito, mas muito instigante. Quando li Veneno e Remédio - um ensaio que achei maravilhoso, diga-se - fiquei com a impressão de que Wisnik quer jantar com Cândido [e Adorno, talvez] e tomar cafezinho com Derrida. Ali Wisnik elabora a hipótese da elipse, quer dizer: do vazio e do corte. De qualquer modo, Machado não deixa de ser um autor - como todo bom autor - cheio de paradoxos. Eu não saberia decidir entre as duas opções. E pergunto: será que a opção mais fácil é aceitar justamente a existência de um paradoxo? Será que é preciso decidir aí? Não estamos naturalizando o que é o movimento mesmo da ironia: aproximação e distanciamento? É uma pergunta que faço pra você, mas também pra mim.
Há outras coisas, mas fico por aqui, por enquanto. Volto mais tarde.
Um abraço,
Victor.

Victor da Rosa em julho 15, 2009 11:11 AM


#8

O que mais me chamou atenção em "o Machete" foi um aspecto frequente nas obras de Machado, mas que sempre me causam identificação.
Inácio era introspectivo. E demonstrava isso através da erudição. Assim como Bentinho de Dom Casmurro, Inácio foi engolido pela presença popular e alegre de Barbosa. Escobar era belo e foi isso que colocou a tal pulga atrás da orelha do marido de capitu.
No caso de Inácio o contentamento de Carlotinha perante as apresentações de Barbosa o fizeram refletir sobre que tipo de homem ele deveria ser, e pra mim isso o levou a loucura. Ser triste, erudito, incomum; ou ser alegre, popular e comum.
A incapacidade da mudança e o apego a seus preceitos culturais o levaram a ficar sem Carlotinha. E no final das contas sem mais nada, nem o deleite de seu instrumento e nem sem a própria consciência de sua existência.

susy em julho 15, 2009 11:16 AM


#9

Alex, eu concordo com você. Mas, ao menos num trecho, a ironia é clara: quando o Machado diz que machete deve ser triste... Ali não tive como não dar uma risada.
Por outro lado, acho que o Idelber às vezes leva o argumento muito longe (de que o Machado não tenha uma preferência). Até porque não é necessariamente aquele trechinho irônico que citei que sustenta seu argumento; e quanto aos outros trechos em que o ele sugere um certo afastamento do narrador em relação ao que é dito, fico em cima do muro.
Só queria colocar um outro ponto: quando li o texto pela primeira vez, fiquei com a impressão de que o próprio Inácio atira um pouquinho a mulher aos braços do outro quando capitula ao machete. Quer dizer: se seu fascínio pelo machete já dá pistas do desfecho (como escreve o Idelber), ele não indica que o desfecho seja inexorável; e talvez a decisão de Inácio de tocar o machete, ao invés da declaração da derrota, seja seu catalisador. Aí fica a questão: embora eu não ache que o Machado tome uma posição definitiva (ou seja, também não discordo do Idelber; só não sei sei se o que ele afirma pode ser dito com muitra certeza) em relação ao processo histórico tão bem descrito pelo Idelber, o que poderia significar essa possível crítica à capitulação (já que o cara vira corno e louco - além de ser mostrado como alguém um pouco afeminado!)? (Coloco esses "talvezes" porque a discussão tá indo assim; eu, na verdade, não gosto muito de ficar sempre achando que o autor disse uma coisa querendo dizer outra; às vezes ele só quis dizer o que tá lá escrito mesmo. Ou seja: sei lá! Desculpa, mas eu não sou especialista, hehe...)
O que sei mesmo é que, aqui na Alemanha, e não tendo trazido muitos livros, os contos do Machado têm sido a minha salvação. Grande idéia, Idelber!
Abraços!

Bruno em julho 15, 2009 11:22 AM


Bruno em julho 15, 2009 11:38 AM


#11

Sinto um desconforto de Machado em falar do povo, do negro, dos instrumentos populares, etc. É o velho complexo racial que o aproxima da elite branca, estudante de direito em S. Paulo, da música erudita, etc. O niilismo fica patente no destino dos que tentam se aproximar do mundo ideal de Machado, exemplos são o viloncelista sem audiência e o plagiador de Chopin. Assim, o castigo dos deuses aos que tentam se aproximar da elite é a loucura ou o "chifre" e, inapelavelmente, a desconsideração e desqualificação. Claro que o aspecto ideológico de submissão aos valores da elite carioca do século SIX não invalida a beleza dos contos, ainda que sem agregar nada para a libertação social de negros e da cultura popular.

Armando do Prado em julho 15, 2009 11:43 AM


#12

No fim dos anos '80 eu era DJ de jazz numa emissora universitária, desse tipo que tem uma hora de funk seguida por uma hora de ópera. Lembro de uma discussão que começou feroz e acabou ridículo entre um dos DJs de música erudita e um dos DJs de country. O colega da country sustentou que o Hank Williams era tão genial como Beethoven, para a estupefação indignada do colega da erudita.

Não demorou muito para a chegar `a conclusão óbvia de que o contexto histórico reserva papéis distintos para o compositor em momentos e lugares diferentes. E como o Idelber e outros já indicaram, o que Machado mostra aqui é a passagem de um contexto para outro.

Mas tem outro detalhe: o erudito por natureza está sempre definhando, e o popular por natureza sempre incomoda. Música popular que deixou de incomodar--não no sentido de passar uma sensação de desconforto, mas de mexer com categorias estabelecidas--é popular só no nome ou na memória. Ernesto Nazareth agora é tocado principalmente por pianistas eruditas.

Claro, isso não quer dizer que o que é popular hoje vai ser fatalmente reconhecido como erudito daqui a cem anos. Só quer dizer que o Pestana era muito melhor compositor do que ele próprio reconhecia, e que Carlotinha talvez tinha um ouvido musical mais afinado do que o Amaral. Bem, com a Carlotinha talvez foi outra coisa, não sei com certeza.

Sobre o coitado do Inácio Ramos, talvez seria melhor nem comentar. Mas acho que o Amaral, apesar do preconceito dele, estava certo quando disse consigo mesmo que o ponto fraco do Inácio era ridículo.
E aí está a resposta para o Alex sobre a marca da ironia no texto. Inácio não é uma figura trágica, mas uma figura semi-ridícula, tanto que o seu maior fã reconhece isso, só não entende totalmente a razão dessa característica. O problema do Inácio não é que o machete é melhor do que o violincelo, claro, e também não é apenas que o popular tem mais vitalidade do que o erudito. O problema é que ele confunde os próprios sentimentos melancólicos com "alma." A comunhão estética que ele quer está fortemente marcado pela falta de simpatia com o ouvinte, ou a ouvinte, neste caso.
Graças a deus, a ironia machadiana é sutíl, mas tão afiada que doi.

Barbosa, em contraste, nem cogita tocar com alma, mas toca "com nervos." É o detalhe que captura a ação da música popular dentro de nós. Dizer que é corporal é pouco. Mexendo com os nervos, não atua apenas sobre o corpo, mas dentro do corpo, deixando ele antenado, pronto para fazer uma conexão.

Bryan em julho 15, 2009 11:47 AM


#13

Inácio claramente frustra-se desde o início. "Inatio", talvez, dele mesmo.E impotente fulminando com o abandono de Carlotinha. Sinto tb a ironia e a previsibilidade do desfecho mais facilmente que outros contos dele, mas talvez também influenciado por saber o quê esperar de um conto Machadiano. O ritmo do conto tb me traz recordações de 'Casa Tomada' de Cortázar e aquela sensação que "novos tempos" vão aprisionando e sufocando os protagonistas até serem 'expulsos' da casa, no caso do Cortázar, ou da loucura tocando para si (e a criança) sua "elegia plangente".
abraços

googala em julho 15, 2009 11:57 AM


#14

Minha contribuição para a discussão:
http://odisseialiteraria.com/2009/07/sincretismo-cultural-e-a-questao-da-nacionalidade-em-machado-de-assis/

Falo sobre a ideia de nacionalidade, presente nos contos.

Leandro Oliveira em julho 15, 2009 12:21 PM


#15

Oi gente, boa tarde. É a minha primeira entrada aqui nesse blog, achei a discussão legal. Faço mestrado na história justamente sobre esse tempo e esse tema (cultura na virada do século) e, se bem seja difícil concorrer com as "leituras fortes" de um Wisnik ou do Cândido, dá pra colocar alguns temas pra discussão.

Acho que essa divisão fatalista entre erudito e popular é rígida demais, não considera o que existe de mais belo na música e na criação artística como todo: sua capacidade dinâmica e as linhas de interrelações. Em alguns momentos acho que essas ideias rígidas acabam atrapalhando mais do que ajudando, sobretudo em se tratando da música que, como bem apontado por Szendy na "história da escuta" (algo assim) é um típico objeto histórico sem pertencimentos claros. Claro que a música tem um compositor e um interprete próprios e definidos, mas por "estar na ar" ela deixa de "pertencer" a uma classe ou artista. Acho que é preciso tomar um pouco de cuidado, porque já na década de 1910 o Conservatório Dramático e Musical de SP (típico local de público elitista) fazia apresentações de violeiros do interior enquanto no Campo de Santana ou no Parque da Luz, locais completamente abertos a todas as classes, havia apresentações da Banda Militar tocando Chopin e Brahms, e ai? No fundo, tudo acaba caindo na célebre frase de Sinhô: "samba é que nem passarinho, é de quem pegar".

http://blogdoarauto.blogspot.com/2008/03/samba-que-nem-passarinho.html

Valeu! Um abração!

Julio em julho 15, 2009 12:50 PM


#16

Estou mais para a interpretação do Idelber. Mesmo porque a própria história já é uma, digamos, ironia. O mais pobre (ou, vá lá, popular) toca o instrumento mais refinado. Já o estudante de direito de S.Paulo,portanto, elite, toca o instrumento popular. A meu ver a contraposição e o caráter irônico do conto já surge daí. E, sempre do meu ponto de vista e da leitura que fiz, erudito, erudito mesmo nenhum dos dois (Inácio e Barbosa) efetivamente eram.

severino em julho 15, 2009 1:03 PM


#17

Estou mais para a interpretação do Idelber. Mesmo porque a própria história já é uma, digamos, ironia. O mais pobre (ou, vá lá, popular) toca o instrumento mais refinado. Já o estudante de direito de S.Paulo,portanto, elite, toca o instrumento popular. A meu ver a contraposição e o caráter irônico do conto já surge daí. E, sempre do meu ponto de vista e da leitura que fiz, erudito, erudito mesmo nenhum dos dois (Inácio e Barbosa) efetivamente eram.

severino em julho 15, 2009 1:04 PM


#18

Incrível como a ficção machadiana se presta a interpretações. As tensões popular/erudito, talento criativo/aptidão técnica, estrangeiro/nacional são recorrentes no conto e no romance machadianos. Cabe lembrar “Cantiga de esponsais”, “Um homem célebre”, “Ex-cathedra”, o conhecido/poeta que dá o apelido a Bento em “Dom Casmurro”, além do Panegírico de Santa Mônica no mesmo romance. Confesso que considero Machado tão rico, se prestou e se presta a teorias tão sofisticadas, que, como diz o Idelber, creio que me falta até os dois centavos de contribuição. Lembro apenas a beleza da frase, a correção do texto que, em Machado, produzem um prazer estético que releva a precariedade do arsenal crítico do leitor. Ao contrário do que disse alguém em outro comentário, as marcações narrativas, em Machado, não seriam relevantes. Observo que ele ficcionaliza uma tese, uma discussão, e a estrutura narrativa, as reviravoltas românticas ficam em plano bem secundário.

José em julho 15, 2009 1:10 PM


#19

Boa tarde, pessoal. Adorei tudo o que li e gostaria de explicitar mais meu ponto de vista daqui a pouco.

Pra que vocês vejam como funcionam os ouvidos de um psicanalista. Cláudio Costa ouviu a história deste conto e imediatamente fez uma leitura do nome do personagem:

Inácio Ramos = E Nascem Ramos.

Idelber em julho 15, 2009 2:30 PM


#20

José #18 - você acredita mesmo, contra 90% da crítica de Machado de Assis, que a estrutura narrativa fica em segunda plano? Pra pegar o exemplo mais evidente, o tratamento do tema do adultério, do erotismo e de qualquer coisa, vá lá, em "Dom Casmurro", não existiria sem aquela estrutura narrativa. O Idelber, aqui em cima, acaba de dar um exemplo de como a linguagem e a idéia estão absolutamente enlaçadas. O que está em jogo, a meu ver, é exatamente o contrário do que você diz: a estrutura narrativa de Machado não deixa de ser o que você chama de tese; ou, em outras palavras: o que você chama de tese só pode acontecer através da estrutura narrativa. Dizer que a literatura de Machado de Assis ficcionaliza uma tese, neste contexto, é ignorar inclusive o uso que o autor faz da ironia, pois é irônico inclusive que Machado opte pelo próprio Bento narrando, como se dissesse: "agora é contigo, te vira". E por aí vai, os exemplos são muitos....

Victor da Rosa em julho 15, 2009 2:55 PM


#21

aiaiai
" Não é porque acredite que assim sua mulher lhe seria mais fiel, mas porque ele mesmo ficaria mais feliz em tocar algo que toca as pessoas e não apenas as "almas" [...]. A carlotinha [...] é, a meu ver, a grande vítima desse conto e da forma como as pessoas vêem sua ação."

Suzy
"A incapacidade da mudança e o apego a seus preceitos culturais o levaram a ficar sem Carlotinha."

Por que vítima? Antes de ela abandonar Inácio, ele já fazia uma autocrítica e dava sinais de que pretendia agradar a esposa. Não vejo no texto nenhum indício que o objetivo dele seria o sucesso. Pelo contrário, ele sempre valorizou Carlotinha, tocava apenas para ela, a pedido dela, reservava o violoncelo para os momentos de intimidade e foi ela quem insistiu para que ele tocasse em público. Amaral e Barbosa também incentivaram o concerto. Inácio sabia que não era popular. Para trabalhar, ele usava a rabeca.

Acredito que o texto não tenha a intenção de dizer que a música erudita estava em decadência. Simplesmente o objetivo de Inácio não era ser admirado por ninguém. Daí, desistiu da apresentação. Ou seja, Inácio nunca esteve interessado na fama. Só tocava violoncelo para agradar Carlotinha, querendo inclusive mudar de instrumento por causa dela. E ela simplesmente abandona-o. Me pareceu um gesto de crueldade e intolerância.

Bruno
"talvez a decisão de Inácio de tocar o machete, ao invés da declaração da derrota, seja seu catalisador"
Por quê?

José
as reviravoltas românticas ficam em plano bem secundário
Discordo. Discordo do Idelber e do Wisnik. Como percebeu severino, Inácio era pobre, e Barbosa, estudante de Direito. Ou seja, as posições estão invertidas. Não importa a classe social de ninguém. Não vejo no texto uma discussão entre popular e elitista, qual é melhor, mais querido, o que é o futuro etc. Isto seria ridículo (palavras do Amaral, não minhas, please). A música erudita sempre se pôs no seu lugar: a intimidade, sem fazer sucesso. É a sua função, sem expectativa de mudança, sem lamentar por isto, sem criticar isto. Acho que o texto se limita à questão do triângulo amoroso, por incrível que pareça. A música existe, no texto, apenas para revelar a sensualidade (ou falta dela) nos personagens.

Curioso que essa situação me lembra algo que aconteceu 100 anos depois: o sucesso do Pink Floyd, com músicas lentas e bem-elaboradas, e sua superação pelos Sex Pistols, músicos mais fracos, mais populares e mais enérgicos. O rock progressivo quase desapareceu, mas o punk rock ainda faz sucesso.

Euler em julho 15, 2009 3:36 PM


#22

Não vejo propriamente uma identificação "com o mundo representado pelo violoncelo, em clara oposição ao mundo representado pelo cavaquinho”, mas a constatação da não-interpenetrabilidade desses mundos. Ou seja, antes da identificação com qualquer um dos lados e de um suposto lamento pela queda de um deles, estaria a constatação de um problema real de qualquer país não-europeu do século XIX, com exceção dos Estados Unidos, e que seria exatamente a falta de identidade. E se sequer é possível falar em termos de identidade, seria possível falar em lamento? Ou melhor, seria possível pensar que Machado, com toda a argúcia que lhe caracterizava, poderia ser tão ingênuo a ponto de se entristecer pela desvalorização de uma arte, a erudita, que, a rigor, nunca nos pertenceu? Não sei, acho difícil. Claro que o que escrevi aqui não se deriva unicamente da leitura de O Machete, mas creio que este conto se insere perfeitamente na problemática das 'idéias fora de lugar.'

Cláudia_SP em julho 15, 2009 3:38 PM


#23

ahahaha. tb fiz uma leitura parecida com o nome:"inatio/inato". Mediocridade inata de Inácio, ou seria inapta?

googala em julho 15, 2009 4:07 PM


#24

Puxa, os comentários estão tão bons que eu nem sei muito bem por onde agarrar a coisa e responder. O Julio fez uma observação muito boa (o Bryan também notou isso). "Popular" e "erudito", claro, não são categorias estanques, impermeáveis. Elas evoluem com o tempo. Tome a valsa, por exemplo. É uma dança camponesa. Na pesquisa que fiz para escrever sobre este conto, compilei algumas reações da imprensa europeia da época à chegada da valsa aos salões, quando começa a sua incorporação pela elite. São reações de pânico, com nítidos traços misóginos, já que a valsa -- sendo a primeira dança de corpos enlaçados, contrastando com os minuetos, as polonaises ou as quadrilhas -- estava muito associada a um prazer feminino sobre o qual pesava um interdito.

Machado escreveu muitas crônicas, vocês sabem. Durante quatro décadas, de 1859 até 1900, ele comentou assuntos cotidianos em publicações como Diário do Rio de Janeiro, A Semana e o citado Jornal das Famílias. Como se fosse um blog!

Vejam esta crônica de 1876, dedicada à morte de Georges Sand, que nota o relativo descaso ante a morte de Sand em comparação com a grande comoção que causa a morte de qulquer soprano. A crônica se dirige à óbvia conclusão de que a música de massas alcançava uma penetração jamais sonhada pela literatura. Diz Machado:

Ora, expirou há pouco uma mulher, que me hão de conceber tinha um gênio maior que o do soprano referido, mulher que ocupa um dos mais altos lugares entre os prosadores de seu século. Madame Sand nunca venceu tanto por mês. Rendeu-lhe menos Indiana ou Mauprat do que rendem ao soprano de que trato meia dúzia de sustenidos bem sustenidos.

Oh! se tu tens algum filho, leitor amigo, não o faças político, nem literato, nem estatuário, nem pintor, nem arquiteto! Pode ter algum pouco de glória, e essa mesma pouca; muita que seja, nem só de glória vive o homem. Cantor, isso sim, isso dá muitos mil cruzados, dá admiração pública, dá retratos nas lojas; às vezes chega a dar aventuras romanescas. .

Eu sou o primeiro a reconhecer que, se você aplicar literalmente o dito nas crônicas aos textos de ficção, triunfa a leitura de Wisnik. Há um certo desconforto de Machado com a emergência da indústria cultural, que ele registra tão bem nas crônicas. Minha hipótese é que as crônicas são um lugar de rascunho das hipóteses de Machado sobre a cultura.

Mas o que acontece nos textos de ficção é que ... bem, vai se impondo a dinâmica da ficção. Inácio é um personagem meio patético que, inclusive, não tem a dimensão semi-trágica do Pestana, de "Um homem célebre". Não acho que em "O Machete", Machado esteja "celebrando" a chegada do cavaquinho triunfalmente. De forma nenhuma. Ele não celebrava nada triunfalmente. Por isso, a questão não é saber qual forma artística Machado achava "superior", mas notar como os personagens que representam cada esfera se relacionam com o seu mundo e sua realidade. E aí, me parece claro que Machado notou a chegada de outro mundo e seu narrador está como que dizendo ao personagem (Inácio): olha, bicho, chegou esse mundo aí e os teus valores têm que ser revistos. Tu não tens lidado com essa mudança de forma muito produtiva.

Volto mais tarde. Muito obrigado!

Idelber em julho 15, 2009 4:16 PM


#25

Mas se Inácio pretendia aprender a tocar Machete, ele não estava revendo seus valores? Mesmo assim, não adiantou.

Euler em julho 15, 2009 4:27 PM


#26

Oi gente!

Muito bons os comentários daqui. Severino, por exemplo, fez uma excelente observação - essa inversão de papéis me passou batido!

Agora, meu pitaco gigantesco (para variar):
Há rios de tinta tentando distinguir música erudita de popular, e não é à toa: dizer que "não
dá para distinguir" é relativismo demais. Ambas se relacionam e se interpenetram - inclusive, Idelber, eu ia mesmo mencionar a valsa, que inicialmente assombrou a elite e acabou por ser incorporada por esta como se "sempre tivesse sido assim". Mas o erudito e o popular também se distinguem.

Uma das principais diferenças é o papel do improviso. Tem até uma brincadeira que diz:
"Se você quiser que um pianista toque, ponha a
partitura na frente dele. Se você quiser que um
guitarrista pare de tocar, ponha a
partitura na frente dele." E Machado, mostrando
que entende do assunto, ilustra bem essa
diferença: na música popular, você inova na
interpretação por meio do improviso, em razão do
quê Barbosa faz tanto sucesso. Na música erudita,
para inovar na interpretação, você precisa
estudar MUITO. Aquelas sutilezas que
aparentemente só os versados no assunto pegam
foram arduamente treinadas. Inácio, assim, está
descolado de seu meio. Inclusive, vejo em seu
comportamento uma coisa que vi em muitos músicos:
essa afetação, esse orgulho ferido, essa pose de
que todo mundo tem obrigação de reconhecer em
cada fio de cabelo o duro que ele deu para poder
tocar. Ele é um artista sem público - e, logo,
sem emprego.

Por isso, leio esse conto, em primeiro lugar,
mais como um diagnóstico: a situação difícil dos
músicos eruditos, inclusive talentosos, que
simplesmente não encontram quem os ouça. O total
abandono do Conservatório Dramático e Musical, a
expulsão do Neschling, a decadência do Theatro
Municipal, o fracasso da Cidade da Música etc.

Em segundo lugar, e mais importante, identifico
uma crítica de Machado dirigida ao comportamento
de determinados músicos eruditos, que, por
ficarem excessivamente enclausurados no alto de
sua blasé, são engolidos pela música popular, com
prejuízo da preservação daquilo que tanto
veneram.

Idelber, nesse comentário #24, concordo contigo: Machado estava aberto a ambos esses estilos; penso que, se ele lamentava a música erudita estar na lama, ao mesmo tempo lamentava o fato de essa obliteração impedir que o erudito e o popular con-vivam. Tanto que, como o Severino observou, é o pobre quem toca o cello, e o rico quem toca o cavaquinho, e pensou-se até que Inácio poderia compor um "concerto para violoncelo e machete".

A reação de Inácio em relação ao entusiasmo da
Carlotinha mostra bem esse enclausuramento: que
mal há em que um lamento tenha provocado euforia?
A música triste só pode provocar tristeza?
Provocar alegria é privilégio de músicas alegres?
Se fosse assim, dado o número de músicas de amor
no mundo, todas as pessoas estariam amando umas
às outras loucamente (essa tirada é do Zappa).
Enfim, com essa pose toda, Inácio deu um tiro no
pé, e assinou a própria sentença de cornice. A
música erudita sempre tem espaço para novos
ouvintes (tanto que ainda ouvimos compositores
mortos há 250 anos), mas se ficar dando coices
desse jeito, vai é ficar isolada. A prevalência
excessiva de música popular é tão danosa quanto a
prevalência excessiva de música erudita. O Bryan
disse que o erudito, por definição, está sempre
definhando. Não é verdade. O erudito só definha
se os Inácios por aí afora se recusam a conviver com a diferença.

E, para arrematar, peço desculpas por não ser
especialista em literatura. :)

He will be Bach em julho 15, 2009 4:30 PM


#27

Caro Victor da Rosa, não sou mesmo especialista em Machado, sou apenas um leitor palpiteiro. Talvez tenha me expressado mal. Quando mencionei narrativa estava me referindo à peripécia, à movimento de extração romântica na narrativa, que Machado de "Helena" utilizaria. Por exemplo, em "O espelho", a estrutura da narrativa é cerebral, simbólica, jamais emocionante. Quando menciono a estrutura da narrativa, tenho em mente contos tais como “Missa do galo” e “Uns braços”. Para mim, nestes contos o mais impressionante e esteticamente relevante não é o enredo, a estrutura da história, mas o texto em si, a frase bem realizada que às vezes leva até mesmo a alguma tese. Mal comparando, é como se na narrativa a laranja rolasse, e nestes contos, a laranja ficasse parada e fosse espremida caprichosamente. Até em contos como “Noite de Almirante” e “D.Paula” a estrutura da narrativa não é tão marcante quanto a forte impressão de algumas frases. Claro que nesta última história, “D.Paula”, há na narrativa o reflexo da história da sobrinha na história vivida por D.Paula. E o efeito narrativo deste reflexo é belíssimo, mas nada como a frase em que D.Paula ouve o nome do rapaz, e ajeita o mantelete para disfarçar o impacto da coincidência; ou, para ser mais claro, a frase final do conto “D.Paula”(se lembro bem: “Eita, que sinhá hoje deita tarde como o diabo!” tem um efeito estético muito mais eficaz do que o espelho narrativo na estrutura. Já li “Dom Casmurro” algumas vezes ao longo da vida, mas nada ficou mais marcado em mim, e me deu mais prazer, do que a extrema felicidade de tantas frases no texto.

José em julho 15, 2009 4:38 PM


#28

Engraçado, muitos comentários nao viram ironia nos textos. Para mim ela é óbvia, como uma sensação; eu precisaria parar para procurar os traços dela, o que nao fiz. E nao vejo nos textos tanto um confronto entre o erudito e o popular quanto entre uma cultura espontânea e real e outra importada e "super-egóica", alienada nesse sentido, por impostada, artificial, nao realmente vivida. A forma como Machado descreve os modos de Pestana compor quando compõe polca ou quando tenta compor sonatas me parece deixar isso claro; um pouco menos como quando ele descreve o modo do Barbosa tocar, versus a alienação (no sentido estrito, de estar fora de si, do ambiente, dos outros) do Inácio. Acho que se há identificação de Machado com um dos dois estilos, é com o autêntico.

E sinto nesses contos exatamente o mesmo olhar com que Machado olha para a sociedade brasileira da época em geral; seu farisaismo e artificialismo, seu caráter imitativo dos valores europeus sem realmente os partilhar.

Ao passo que ele, Machado, os partilhava realmente, tem um grande conhecimento da cultura ocidental, em especial inglesa, e é realmente um criador, capaz de transformar aquela tradição em algo próprio e daqui.

O aspecto que acho com que ele pode se identificar com Inácio é o de alguém duplamente ilhado, primeiro porque "valendo menos" na sociedade, de origem popular e mulato, no meio daquela fidalguia de araque, mas ainda assim fidalguia; depois pela superioridade intelectual real, que o colocava solitário na torre no meio daqueles medíocres todos.

Acho que os 2 contos nao sao só uma metáfora para o artista brasileiro, mas tb para o homem Machado, que tinha "um pé na cozinha", como se diz hoje, mas vivendo nos salões, num desconforto de quem nao pertence mais a nenhum dos dois mundos.

Anarquista Lúcida em julho 15, 2009 5:32 PM


#29

Não tenho como não concordar com a tua visão Idelber. Há um trecho em especial em que a dicotomia "alma" e "corpo", "elevação" e "popularidade" vai pros ares:

"— Quando o nosso filho nascer, disse ele, eu comporei o meu segundo canto.

— O terceiro será quando eu morrer, não? perguntou a moça com um leve tom de despeito.

— Oh! não digas isso!

Inácio Ramos compreendeu a censura da mulher; recolheu-se durante algumas horas, e trouxe uma composição nova, a segunda que lhe saía da alma, dedicada à esposa."

Inácio compõe por "encomenda" de sua esposa: "saía da alma" é um eufemismo para isso. A grande ironia é manter duas linguagens distintas para dois supostos campos distintos (uma para o violoncelo, outra para o cavaquinho) enquanto é narrado a intersecção entre esses dois campos. Daí a facilidade de escorregar e acreditar por demais nos significantes, sem ver o trabalho "dialético" que o enredo dá a eles.

Sobre a relação Machado-sociedade do espetáculo, não conhecia (devo ter passado batido) o "Machado de Assis e a Invenção do Pop" - muito bom. Se fosse bolar uma genealogia intelectual por meio da atribuição errônea, eu diria que que Machado de Assis é o teórico da "sociedade do espetáculo", a Minima Moralia de Adorno é uma interpretação não-deliberada de Machado e o prefácio das teses de Guy Debord. Aproveitando o gancho, por díspares que pareçam as dicussões, falei um pouco da contemporaneidade do Machado no debate que tá rolando no meu blog. Um abraço

Alexandre Nodari em julho 15, 2009 5:57 PM


#30

Alexandre, caríssimo, estava justamente agora redigindo um longo comentário lá no seu blog, na cara de pau mesmo, sem ter lido o livro. Daqui a pouco entra.

Idelber em julho 15, 2009 6:00 PM


#31

off ma non troppo: acabei de esbarrar num vídeo incrível que serve como ilustração de um dos temas em discussão.

http://www.youtube.com/watch?v=c6SHsF1n9Qw

klavdjo em julho 15, 2009 6:17 PM


#32

Olá, José, compreendo o que você diz, mas acho que inclusive aí existe construção narrativa. Dom é tão retórico e com tantas manobras na escrita - e por isso tão bom de ler, talvez - também porque é narrado por um advogado mal-amado que quer te convencer de um bocado de coisas, então te seduz. É muito difícil separar. Tome cuidado, aliás. [rss] Abração,

Victor da Rosa em julho 15, 2009 6:32 PM


#33

Gostaria de palpitar a partir do comentário #11. Concordo com o que disse na medida em que observamos os músicos em questão como artistas sem legitimidade no seu fazer principal. Sim, Pestana era famosa pelas polcas, mas não por seu conhecimento "erudito". Inácio, nem se fala. A arte se faz na medida em que se legitima em um espaço, portanto, prega-se para convertidos. Os músicos se portam como "átopos", sem legitimidade na sociedade que os abarca. Mas, como ficou evidente, a dicotomia erudito e popular, elite e popular, se resolve com a morte e a loucura burguesa que tiveram.

Ps: Idelber, no "Machete", teria alguma idéia sobre aquele vizinho filósofo? Esta relção de Machado com a filosofia é muito interessante...

Leonardo em julho 15, 2009 6:35 PM


#34

Caro Idelber, desulpe quebrar os comentários literários acerca de Machado por aqui. Mas sinto falta de um post sobre os caminhos tortuosos pelos quais vem passando nossa amiga Sotomayor.

Guilherme Póvoas em julho 15, 2009 6:37 PM


#35

tirando o complexo de édipo do nosso violoncelista (ele não tocava para Carlotinha, tocava para a mãe), concordo num ponto com o Idelber e, por isso mesmo, acho que o Visnik está certo. Me explico: não vejo ironia no conto. Vejo o Machado mostrando a música popular ganhando força, e ganhando força junto aos abastados. Como diz o Idelber, é um sinal de : " se toca", sem ironias, embora me pareça que ele tenha preferência pelas clássicas.
Para "freudear" mais um pouco. Será o que a tristeza maior com Carlotinha não foi porque ela traiu a música clássica?

descanjicado em julho 15, 2009 6:43 PM


#36

Meu palpite:
Essa dicotomia entre popular e erudito parece existir apenas na cabeça dos falsos intelectuais, medíocres, que estão entre um e outro e não alcançam nenhum dos dois. Outros criam essa dicotomia na mente, fazendo conceitos prévios sobre facetas culturais, excluindo deliberadamente o que cada uma tem de melhor, é o preconceituoso.
Inácio e Pestana se encaixariam no primeiro caso. Machado de Assis, ícone maior da literatura brasileira, no segundo.
Ora, a erudição de Guimarães Rosa vem justamente da forma como ele alcançou a alma popular – o cavaquinho, a polca – através da construção de personagens e histórias complexas – o violoncelo, a sonata.
No outro extremo, temos o Patativa de Assaré, cuja erudição e admiração dos acadêmicos vêm justamente do conhecimento profundo do próprio seu universo sertanejo e a forma alcançada para mostrá-lo ao mundo.
Nesses dois exemplos, não temos como apontar dicotomia entre popular e erudito. São apenas gênios e, não, medíocres como os personagens machadianos dos contos analisados.
Poderão dizer que Guimarães Rosa e Patativa não são músicos e eu dou exemplos de erudição em Helena Meireles, Zé Côco do Riachão - ambos violonistas aclamados e autodidatas - e Elomar – que aprendeu a ler em literatura de cordel - e de popular no Heitor Villa Lobos, com suas músicas complexas que se tornaram populares.
Concluindo, os personagens machadianos não se entregaram de corpo e alma aos seus “universos particulares para se tornarem universais”, tentaram alcançar o universal sem ter alcançado a profundidade de seus mundos.

Fernando Gurgel em julho 15, 2009 7:20 PM


#37

Eu fiquei entre uma e outra visão.
Sinto alguma dificuldade em perceber o conto somente como um relato da queda da arte erudita, mesmo porque eu não diria que Inácio fosse o artista erudito ideal para representar essa queda.
Muito pelo que Machado diz sobre a formação de Inácio, que foi toda calcada na bagagem músical de seu velho pai. E segundo a descrição de Machado o velho não era lá essas coisas:
'Músico da imperial capela’, ’um pobre artista cujo mérito estava na voz tenor e na arte com que executava a música sacra'.
Inácio torna-se um rabequista de primeira categoria, porém, 'sentiu um vazio', sonhava com 'alguma coisa melhor', que lhe foi oferecida pela apresentação de um 'velho alemão', de quem Inácio recebe 'algumas lições' que só pode aproveitar mais tarde, depois de economizar para comprar o instrumento.
Não me parece muito promissor.
Inácio vai do entusiasmo ao descontentamento na busca por algo que toque sua alma e que ele na verdade não sabe o que é. Aprende rabeca mas isso não lhe preenche a alma, tornasse violoncelista mas conclui ao final que rabeca é melhor. Não há muita convicção. Ele está entre a musica erudita e a não erudita.
Da forma como foi descrito, Inácio é um sujeito preso a uma música, que quando lhe foi passada pelo 'velho alemão' já era cadáver.
E segue essa impressão nos momentos em que Inácio é descrito tocando; sempre faz frio, é noite e em algum lugar distante sem 'público.
Por outro lado, ele já começa descrevendo Barbosa como 'um exemplar daquela falange fervorosa e moça animada de todas as paixões, sonhos, delírios e efusões da geração moderna'.
A descrição que Machado faz dele tocando o 'novo gênero' serve para qualquer roqueiro atual. Mas também me pareceu a descrição de um fósforo; riscou, queimou e acabou.
E Machado não deu muito apoio ao machete; 'A perícia era, na verdade, grande; o instrumento é que era pequeno'.
Se o músico erudito não é lá essas coisas, o popular também não passa muita segurança. Embora faça uma ressalva sobre este último; 'Ouvi-lo tocar era o menos; vê-lo era o mais. Quem somente o ouvisse não poderia compreendê-lo.'. O que me parece ser uma apreciação positiva e a percepção da nescessidade uma nova maneira de interagir com música.
Mas Carlotinha foi atrás do trio elétrico. Barbosa, machete, a música popular, leva a melhor.

fm em julho 15, 2009 8:19 PM


#38

No século XIX no Rio de Janeiro provinciano e racista o mulato de "alma branca" do morro da Providência encantava a elite predadora que o acompanhava nas novelas diárias nos jornais. Sim, o marido da Carlotinha, pobre-diabo, não tinha o direito de almejar tocar um instrumento sério, enquanto que, o popular por sua vez, só servia mesmo para encismar almas pervertidas, e a maior prova, é a fuga com mocinha fútil.

Machado passou a vida como branco, acariciando a elite burra de todos os séculos: alienado e alienante. Ele era o alienista. Não é a toa que João Ribeiro dele dizia:

"Houve a campanha tempestuosa do abolicionismo: Machado não tugiu nem mugiu. Não foi abolicionista nem escravocrata; foi sempre um ausente nesse tumulto, e habitava Sirius como queria Renan. - Fez-se a República. E Machado nem era monarquista nem republicano. Todos nós nos dividíamos; ele apenas lia os jornais, ouvia aas conversas e sorria".

Não é a toa, também, que a elite bem-pensante o idolatra e esquece outro mulato, este sim, negro de corpo e alma, que colocou o dedo nas feridas da elite burra: Lima Barreto. Por que um é idolatrado através dos seus supérfluos personagens e o outro é tratado como alcoolatra e inconveniente? E que dizer do seu contemporâneo Euclides da Cunha, convenientemente colocado à margem? Ou do grande Graciliano Ramos que viveu no início do século XX, muito superior a Machado e, talvez por isso mesmo, ignorado pelos doutores da elite pensante? Lima Barreto, Euclides, para ficarmos nos dois, valem por dezenas de Machados.

Armando do Prado em julho 15, 2009 11:09 PM


#39

Prometi um comentário, mas nem consegui tempo para fazê-lo. Fica minha desculpa. Adorei em todo caso o debate. Abraço. Acho que o impasse continua, né?

Jampa em julho 16, 2009 12:20 AM


#40

Puxa, Armando (#38) análise reducionista assim nao vale! Para começar, Machado nao acariciava a elite burra, muito pelo contrário, a ironizava e denunciava, mas sutilmente (até porque nao era de grandes crenças e arroubos, era cético demais para isso). Nao foi um revolucionário nem um homem engajado, mas reduzir o seu valor por causa disso é demais, nao? Lima Barreto foi grande, e mais engajado que Machado. Mas nao se pode dizer que tenha sido um melhor escritor. E dizer que Graciliano Ramos é ignorado é muita má vontade...

Anarquista Lúcida em julho 16, 2009 12:22 AM


#41

Armando (#38),

"Houve a campanha tempestuosa do abolicionismo: Machado não tugiu nem mugiu. Não foi abolicionista nem escravocrata; foi sempre um ausente nesse tumulto, e habitava Sirius como queria Renan."

Muito estranho esse relato. Afinal, segundo alguma página perdida nas milhares da minha edição da Aguilar, o Machadão esteve presente nas festividades comemorativas da abolição.

"Fez-se a República. E Machado nem era monarquista nem republicano. Todos nós nos dividíamos; ele apenas lia os jornais, ouvia aas conversas e sorria."
O Machadão estava é certo em não tomar partido. Se o posicionamento político de Machado na época não era claro, é porque ele via que, do jeito que a República tinha sido instituída, não fazia diferença alguma ser monarquisa ou republicano.

He will be Bach em julho 16, 2009 12:57 AM


#42

Armando,
Sobre o envolvimento de Machado tanto na luta abolucionista quanto na crítica ao regime, dê uma olhadinha no livro "Machado De Assis Afro-Descendente, de Eduardo de Assis Duarte.

Ana em julho 16, 2009 1:09 AM


#43

Esse debate Lima Barreto X Machado de Assis é tão estéril. Os dois lados saem perdendo. Paulo Arantes, por exemplo, joga o Lima Barreto fora em meia frase, só pra louvar o Machado. Mas o inverso é igualmente tosco.

Alexandre Nodari em julho 16, 2009 1:20 AM


#44

Machado que me perdoe, mas eu não resisto: Aécio Neves e José Serra juntos no Mineirão torcendo pelo Cruzeiro. Resultado:...rsrsrs

Mariano em julho 16, 2009 1:58 AM


#45

E por falar nisso, ô, TRIsteza...

Ricardo Amaral em julho 16, 2009 2:26 AM


#46

haha, o Batata só aparece no meu blog em eventos futebolísticos. Batata, a festa está acontecendo no meu Twitter. Apareça por lá. Aliás, quem quiser celebrar a vitória do Estudiantes, e o cabal pé frio de Serra e Aécio, apareça lá no Twitter.

Idelber em julho 16, 2009 3:07 AM


#47

Fui ler seu twitter. Só tenho um comentário: as pesquisas de opinião sobre torcida mostram que não há diferença de classes entre a torcida do Galo e do Cruzeiro. é mito que a torcida do atletico seja mais pobre que a do Cruzeiro. As diferenças são de geração. Os mais novos e mais velhos são cruzeirenses. Mas, de qualquer modo adoreia a vitória do Estudiantes.

Bruno em julho 16, 2009 3:25 AM


#48

Primeiro o Supremo decidiu que todos podemos ser jornalistas. Agora vem o Idelber e diz que podemos ser críticos literários. Então aguentem, que vou palpitar, embora a prudência recomende que eu deveria continuar lendo em silêncio e não escrever bobagem.
Começo discordando do comentário #1. Por que esse complexo de Liza Simpson que considera as Carlotinhas, Capitus, Madames Bovarys e Anas kareninas vítimas desses porcos chauvinistas, desses atleticanos machistas? Para mim, ela não se foi com o Machete, foi-se com o estudante de uma classe social mais elevada. Ela não se casou com o Inácio por amor, mas por falta de opção: ficou órfã de um negociante que morreu pobre e, ainda que fosse acostumada a viver de festas e passatempos,não viu outra alternativa a não ser casar com o músico do bairro. Quando chegou o estudante de outro nível social e galanteador, viu a oportunidade de subir na vida. Do contrário, teria feito como aquela moça da trova cantada pelo Coral do XI de Agosto: " a moça disse pra outra, com esse eu não me arrisco, pois ele estuda direito, no Largo de São Francisco".
Arriscou-se e abandonou a família. Deliberadamente.
Agora, uma homenagem aos campeões:http://www.youtube.com/watch?v=Y3Bal1z0L58

Lincoln Pinheiro Costa em julho 16, 2009 3:31 AM


#49

Bem feito ao Cruzeiro. Quem manda se juntar ao pé frio do Serra, o Vampiro! O curintiano (sic) do presidente deve estar se divertindo.

Armando em julho 16, 2009 11:35 AM


#50

Por favor, professor, tem que ter um post sobre a Libertadores aquí no Biscoito.
Aecinho e Serra, uma dupla geladíssima...(ainda com a crueldade de usarem a Dunga sentado entre os dois!)
Ser tri é só para tricolores.

frank em julho 16, 2009 1:04 PM


#51

Entre a arte erudita e arte popular Machado claramente fica com a arte popular. Tanto no conto “O homem célebre” como no conto “O machete” de Machado de Assis o mote dessas duas narrativa é uma clara gozação – eu ri muito nesses dois contos- que ele faz da insatisfação de certos artistas popular que querem se tornar artistas eruditos. Na visão de Machado o artista popular brasileiro é muito bom no que faz. A nossa arte popular é criativa, graciosa, alegre e por isso tem boa aceitação do público, é uma arte, aliás que vende, tem mercado, permite ao artista sobreviver dela. Todavia, alguns desses bons artistas populares são alienados, não se reconhecem como produtores de arte, mas sim de entretenimento, e acabam trocando esta arte pela arte erudita. Arte esta que não dominam e nem poderiam dominar porque não fazem parte de sua cultura. Como o músico Inácio Ramos que ama e se casa com Carlota (que pode ser lida como música) que tinha movimentos “vivos e rápidos, a voz argentina, a palavra fácil e correntia, toda ela de uma índole mundana e jovial”, poderia ser um compositor de música erudita, romântica, “severa e melancólica”? Quando ele tenta ser este artista erudito que ele não é, ele perde a própria capacidade de criação artística, a inspiração lhe foge, e o que cria na verdade é uma cópia, mesmo que inconsciente, de obras eruditas. É por isso que Carlota (a musa, a música) o abandona e o troca pelo artista que não a renega e a ama mesmo de forma descompromissada. É esta alienação artística que o leva no final do conto a alienação total.

Marcos em julho 16, 2009 1:15 PM


#52

O questionamento sobre uma suposta falta de crítica social de Machado não é raro. Talvez ele não tenha sido o crítico social por excelência, mas ainda assim a sociedade permanece indissociável daquele que, na minha opinião, é seu grande tema, as relações familiares, e, dentro delas, a posição do homem. Pai contra Mãe, Noite de Almirante, Terpsícore, O Machete, todos esses contos giram em torno da família, ou da constituição da, e das dificuldades materiais e emocionais de se mantê-la. Estando no século dezenove, o sustento do lar é tarefa sobretudo masculina e é aqui que se faz o ponto de contato com o mundo externo, bastante hostil aos pobres e irrelevante aos abastados. Este enfoque, embora utlizado para falar do homem, não deixa de ser uma crítica social, não? Já Um Homem Célebre parece enfatizar menos o aspecto família que também não deixa de estar lá mas mais como pano de fundo para o que verdadeiramente interessa, a irrealização do ideal. Talvez o lamento de que fala Wisnik seja muito mais fácil de ser detectado aqui que em O Machete, embora a questão não seja exatamente a perda da arte erudita e sim o não alcançar a própria alma.

Cláudia_SP em julho 16, 2009 2:37 PM


#53

gostei de ler opiniões tão distintas e diversas, o conto cresce a cada leitura.
para interpretações, acho importante cuidar em não dissociar quando o efeito está justo no cruzamento, cuidar para não fazer outro texto a partir de uma passagem destacada (ou ao menos saber das conseqüências disso).

Claro q leio ironias nesse conto ("O q ele sabe apenas é q o machete deve ser instrumento triste, pq a melancolia de Inácio tornou-se cada vez mais profunda."), aliás, nem lembro de um texto do Machado em q não houvesse uma - mas não chego a ver a ironia dita por Idelber. Inclusive concordo justamente com sua opinião (não há um lamento, há uma constatação), só não a tenho como irônica. Se fosse arriscar uma voz para Machado neste conto (quando não o narrador), seria a de Amaral, q não vê uma dicotomia em q um "estilo" está EM DETRIMENTO de outro.
Acho pouco querer notar apenas uma fórmula no conto, um único significado.
O q Inácio gostava em Carlota (fora a teoria freudiana acima expressada) era "ouvi-la e vêla (...) além disso, como que precisava às vezes daquela expressão de vida exterior para entregar-se todo às especulações de seu espírito." [pg.3]
Ou seja, ela representava um oposto, um oposto q ele não era, mas q admirava, gostava de estar próximo. Viu esse oposto no machete, em Barbosa. Quis mergulhar nele - para isso deixou de si e enloqueceu, como acontece com aqueles q não se adaptam ou se perdem nas condições/contradições da vida.
Amaral sabia q o convívio era possível. Para Inácio, não foi.

É bonito de se notar repetições no texto, como a q sublinha alguma falta de sensibilidade em Carlotinha, q só percebe q algo se passa com o marido qdo as lágrimas vêm à tona e não qdo ainda lhe são internas.

E no final o filósofo estava certo.

O filósofo, no fim, estava certo.

arbo em julho 16, 2009 4:08 PM


#54

desculpem a frase duplicada, acima.

e não sei se só eu notei assim (e se percebi mal) mas na mesma página 3, achei uma frase deliberadamente dúbia, qdo fala do momento em q Inácio decidiu-se por casar com Carlotinha:
"mas só a amou deveras, depois q ela ficou órfã e qdo a alma lhe pediu um afeto para suprir o q a morte lhe levara."
lendo, entendo q o q faltava suprir era o q a morte da mãe de Inácio levara; mas tbm DEIXA pensar no q a morte do pai de Carlota levou...

arbo em julho 16, 2009 4:17 PM


#55

A questão da ironia, acho que decide-se facilmente no amor. Diz-se que Carlotinha amava Inácio. Que o amor resolve tudo. É ou não é ironia?

O Problema não é tanto do popular e do erudito, mas é que Inácio era o personagem romântico (por amor tocava pra ela, mesmo sem ela não entender). Já a Carlotinha não, é mais prática, mais "realista" (deixou de lado as frivolidades, pois assim se fazia necessário, e não por amor a ele).
Aliás, o próprio final, melodramático mas para o homem mostra isso.

Então, eu acho que o conto é mesmo sobre as inversões de papéis (o pobre tocando violãocelo, o homem romântico a mulher não etc.). E aí, com os papéis invertidos em relação ao esquematismo nosso, tudo fica meio girando em falso. Queremos apontar a crítica ao popular (ou erudito), mas os papéis trocados fazem a crítica girar em falso.
Queremos falar criticar a mulher pela cornisse, mas culpamos o próprio Inácio etc.

Manoel Galdino em julho 17, 2009 5:08 AM


#56

Idelber, Idelber...
Gosto do mundo dos livros, mas leio pouco. Só conhecia de Machado o Memórias Póstumas de Brás Cubas, da época do colégio e de uma professora que o adorava. “Marcela amou-me durante onze meses e oitocentos contos de réis” – eu fiquei maravilhado com o estilo dele; diante de uma cena ou situação, sempre descobria dois ângulos concorrentes para dizê-la, ou dois sentidos contrapostos. Gostei daquela arquitetura gramatical e sinto que incorporei esse jogo narrativo desde aquela época à minha maneira de falar e de pensar.
Ante-ontem, ao ler o seu post do Clube de Leitura, cliquei no clique aqui e em segundos tinha na minha tela O Machete. E comecei a ler motivado pelo jogo narrativo dele. “Inácio, conseguintemente, aprendeu melhor a música do que a língua, e aos quinze anos sabia mais dos bemóis que dos verbos”. E fui lendo sem pressa pescando essas pérolas. Até quase amanhecer, e durante todo o dia de hoje, intercalado nos fazeres de meu trabalho.
Quando voltei ao biscoito ontem meio-dia, o seu artigo e cerca de 25 comentários foram uma tempestade de reflexões sobre o conto que me deixaram desnorteado, tantas e tão diversas facetas abertas sem perigo de conclusão.
Reli então, de cabo a rabo, ouvindo a história contada pelo narrador. E o que vejo é a saga de um homem com a natureza voltada para seu próprio interior, desde pequeno dedicado à música sacra, que tem a ventura (ou desventura) de cruzar seu caminho com Carlota [“era uma mocinha de dezessete anos, parecendo dezenove, mais baixa que alta, rosto amorenado, olhos negros e travessos”, “era naturalmente faceira e amiga de brilhar”, “vivera de festas e passatempos”, “toda a riqueza da filha era a beleza, que a tinha, ainda que sem poesia nem ideal”].

E o ponto crucial, a ferida do conto, está para mim na angústia de Inácio em ter que assistir a Carlotinha se apaixonando por Barbosa, sem nada poder fazer para impedir (“A vida correria assim monotonamente bela, e não valeria a pena escrevê-la, a não ser um incidente, ocorrido naquela mesma ocasião”).

A beleza da vida, para ele, estava na profundidade de seu próprio ser, somente alcançada pelo toque do violoncelo. Não sabia lidar corpo a corpo com a nervura de Carlotinha, e chega lenta e mudamente ao desespero da perda da paixão ao som do cavaquinho.

Os instrumentos são apenas figuras de expressão. Não me pareceu que Machado ali revelasse uma vocação estética pela arte popular ou erudita. É só a história de um homem melancólico refugiado nas suas alturas interiores que tem o desafio de lidar com a paixão por uma mulher fogosa de olhos negros e travessos ao perder seu afeto preferido, sua própria mãe.

Chamou mais a minha atenção, do ponto de vista estético, o conflito entre duas outras maneiras de ver a arte. A expressão pura, livre de destinatários e interlocutores, o prazer concentrado na fruição e não na entrega, que era o mundo de Inácio; e a troca de emoções entre artista e público pela exibição de seus talentos, o artista é uma pessoa que se comunica com os outros através de sua arte.

Acho que já perdi o bonde da discussão a essa altura, mas está aí o que senti.

Dalton em julho 17, 2009 5:34 AM


#57

Caro Dalton, não só você não perdeu bonde nenhum, como chegou na hora exata para me ajudar a ver uma dimensão da diferença entre as duas práticas artísticas sobre a qual eu não havia pensado o suficiente ainda: a questão da troca entre produtor e consumidor da música. Essa distinção é chave e só a partir do seu comentário eu pensei um pouco mais sobre ela. Obrigadíssimo.

Volto ainda nesta sexta para responder mais comentários.

Idelber em julho 17, 2009 5:41 AM


Ricardo em julho 17, 2009 10:36 AM


#59

Acho que eu é que sou o errado, mas o Machado é o único autor brasileiro que eu considero como realmente e que escreveu coisas realmente interessantes e não esses pervertidos sexuais, acho também que isso seja pelo fato de ter lido O Cortiço com 12 anos de idade (obrigado por causa da escola)...
Mas ainda tenho pra mim que mesmo o Machado (sem perversões) não é para crianças, acho tambem que as escolas pecam quando tentam passar certos livros para crianças.

http://viagemaleatoria.wordpress.com/2009/03/25/como-ler-e-se-afastar-da-leitura/

João Carlos em julho 17, 2009 11:23 AM


#60

Do "Machete" me parece interessante como o Machado coloca a "imagem do gesto" do Barbosa em posição indispensável para a compreensão da sua arte, escrevendo que "Ouvi-lo tocar era o menos; vê-lo era o mais. Quem somente o ouvisse não poderia compreendê-lo". Os dois contos dariam ótimos curtas... Só não gosto muito do melodramático final, como foi notado no texto. Não me parece tão "machadiano", ao menos o Machado da última fase. Talvez seja de uma fase "machetiana"...

Sobre o jogo... O Serra é pé de gelo, sempre esteve no Parque Antártica quando o Cruzeiro detonou com o Palmeiras, como em 96 e 98... Já o Aécio não, justiça seja feita, já viu muita taça sendo erguida no Mineirão...
Idelber, Ricardo e demais secadores, que o time de vocês continue ganhando títulos "terceirizados" e colecionando camisas alheias...

Leo Vidigal em julho 17, 2009 5:03 PM


#61

Caro Idelber,
penso-sinto que a sua interpretação sobre o conto em questão é uma forçada de barra. Para mim, o conflito acontece entre um erudito em música (num meio totalmente medíocre que foi, é e ainda será por muito tempo o nosso querido Brasil) e um malabarista, exibicionista, populista, canalha-tocador-de-cavaquinho (certamente não um Paulinho da Viola) e, principalmente, de outros pelinhos, em geral, bem burrinhos (não estou a falar de mulheres, pois o conto poderia possuir como personagem uma mulher sendo a musicista que perde seu marido para uma dançarina de quinta que, como é usual, posaria de amiga do casal até o momento do roubo final.
Vou mais além, o violoncelo, o cavaquinho, o músico, o canalha e a burrinha são os ingredientes de um refinado prato machadiano que poderia ter outros ingredientes para um outro conto, por exemplo: uma professora doutora, extremamente dedicada ao seu trabalho e que recebe em sua casa, todo sábado, uma aluninha de mestrado que não está de olho no projeto científico de seu tema, mas no canudo carnudo do marido medíocre da professora doutora.
Em poucas palavras, Machado relata de maneira brilhante o conflito ontológico entre: o fácil e o difícil; o-plantar-colher-batatas e o roubo das batatas; o descobrimento árduo de uma lei da natureza e o plágio descarado de oportunistas de plantão; o trabalho vital de uma imensa massa de trabalhadores e um bando de desclassificados detentores do capital que são endeusados por uma mídia subserviente, etc...
Embora de final previsível, o que me comoveu no conto foi a dor final do compositor que, como parece induzir Machado, atingiu certamente a maturidade em sua arte ao compor uma obra ao seu filho que nasceu; mas aí, justamente aí, recebeu o ferimento mortal e traiçoeiro da insanidade humana. E para um ser em seu zênite de criação, mas diante de tamanha abominação, só há três coisas dignas: morrer; enlouquecer; ou matar!
Pois ninguém é Jó!

P.S.: Vou fazer uma provocação: Inácio poderia ser, hoje, um músico erudito e o Barbosinha um cantador qualquer de qualquer rock do Raulzinho!!

Ramiro Conceição em julho 17, 2009 6:56 PM


#62

Na verdade, Machado de Assis narra os conflitos de Hernesto Nazareth. Nazareth viveu exatamente este conflito. Um fantástico compositor popular. Seus choros, Odeon, Batuque, Brejeiro e tantas outras maravilhas são até hoje o seu lado mais popular. Nazareth detestava que classificassem seus choros como maxixe, ele os classificava como tangos ou shotes brasileiros. Odeon mesmo é o símbolo dessa questão, pois representa o grande sucesso de Nazareth tocando piano na ante-sala do cinema Odeon, tanto que ele compôs o choro com este nome em homenagem ao cinema, onde tocava para custear os seus estudos de música erudita na qual ele é bastante influenciado por vários compositores europeus, sobretudo Shopin com suas lindíssimas valsas que eram dolentes, bastante carregadas na tristeza, cara caterística do caboclo brasileiro, mesmo com a sua estrutura formal baseada nos mestres europeus. É interessante observar que esse conflito que Nazareth vivia na fase pré-erudita da música brasileira que pode ser chamada de pré-nacionalista, é um tema absolutamente atual, onde vivemos, no campo da pedagogia da música os mesmos conflitos, nessa ideia de buscar o rigor técnico com paridade com as grandes orquestras internacionais, como gosta de bradar Fernando Henrique Cardoso com a OSESP e a absoluta anulação na Sala São Paulo dos compositores contemporâneos dessa linguagem brasileira.

Escrevi, no Cultura e Mercado, vários artigos sobre essa loucura nessa neocatequese embutida nos projetos guris, aonde o objetivo é construir uma criança que negue o seu universo e mergulhe no rigor técnico para que, numa translocada disputa, consiga uma premiação, talvez um troféu Dória em Campos do Jordão e vá estudar fora do Brasil.

Machado de Assis narra muito bem esse conflito construido na alma do artista brasileiro. Por isso não canso de repetir que é no meio cultural erudito que se aloca o pensamento mais reacionário deste país.

Observe a biografia de Nazareth e verá que, tanto o tocador de mahete (cavaquinho de cinco cordas) que representa o lado da música de batuque de Nazareth, quanto o violoncello que representa as valsas de cunho erudito. E o povo se identicava mais com o lado popular. Nazareth foi encontrado morto à beira de uma cachoeira, louco. Alguns dizem que ele estava com as mãos na posição que se toca o piano, e outros dizem que ele estava com as mãos nos ouvidos. Mas as duas versões narram que estava louco, justamente por não ser visto como um compositor erudito.

Carlos Henrique Machado em julho 18, 2009 12:08 AM


#63

Desculpem meu erro, é Enesto Nazare, e não Hernesto!
Abs

Carlos Henrique Machado em julho 18, 2009 12:16 AM


#64

Obs
Machado de Assis, não faz uma crítica ao músico, nem ao popular nem ao erudito que estavam contidos em Nazareth.
A critica estava no "oráculo europeu" no eurocentrismo que tinha dentro deste ambiente "erudito" brasileiro, como é ainda hoje, um petrificado conceito de que esta linguagem só pode ser dominada por mestres europeus.
ou seja, Nazareth jamais seria aceito dentro do ambiente da cultura institucional com suas lindas valsas brasileiras, justo por ser brasileiro.
O preconceito, muito bem narrado por Machado em sua crítica, era da "elite cultural brasileira" com o homem brasileiro. Nada mudou!!!!!!

Essa briga não era exclusividade de Nazareth. Villa Lobos também teve atitudes de confronto com esse mundo. Essa é, na verdade, a grande briga dos modernistas da Semana de 22. Mário de Andrade narra muito bem sobre isso em seu livro, "Ensaio Sobre a Música Brasileira", principalmente quando fala do Choro número 5 - Alma Brasileira, de Villa Lobos.

Carlos Henrique Machado em julho 18, 2009 12:53 AM


#65

Caro Carlos Henrique Machado,
para mim, o seu comentário esclarece em profundidade o conto de Machado. Desconhecia completamente o fim trágico Nazareth: “morto à beira de uma cachoeira, louco”. Vem a mim um sentimento de revolta, pois, pelo seu relato, em compaixão, consigo compreender a dor final de Nazareth.
No Brasil, nos últimos 20 anos, muitos Nazareths estão à morte, a tocar por migalhas junto a “gemedores-sertanejos-com-diarréia-crônica”: excrementos gerados pela cólica intestinal da ditadura do jabá das grandes gravadoras. Portanto:

Viva a pirataria!
Viva Machado!
Viva Ernesto Nazareth!
Viva Villa-Lobos!
Viva Elomar!
Pau, fogo e cacete no jabá!

Ramiro Conceição em julho 18, 2009 12:43 PM


#66

MPN
by Ramiro Conceição


No salão de festas do Inferno,
a jequice dança ao “sertanejo”
enquanto Lúcifer,
que não é inábil,
tolo ou trouxa,
escuta,
em lágrimas,
Beethoven
num MPN
de última geração.

Ramiro Conceição em julho 18, 2009 2:48 PM


#67

Oi Ramiro,
Esta questão deste conto de Machado é de uma visão que impressiona, sob a atmosfera que se vivia naquele momento. Em primeiro lugar, Machado não viu Nazareth morrendo louco, pois o mesmo morreu em 1908 e Nazareth em 1934.
O fato é que justo na década de 1870 morre a mãe de Nazareth, sua professora clássica de piano e ele passa a não só frequentar as rodas de choro como também inicia suas composições, mais próximas de uma linguagem popular. No entanto, para que sua música não fosse confundida com as peças populares ele a escrevia e executava terminando suas frases e iniciando as p´roximas com o ralentando, para se afastar ao máximo do conceito de maxixeiro; além de impedir com o ralentando que alguém dançasse suas músicas.
Nazareth, de temperamento introvertido, sentiu bastante a morte de sua mãe, como o primeiro dos três casos trágicos de sua vida. Bastante sistemático, Nazareth tinha um comportamento psíquico que já denunciava uma acentuada disfunção mental.
Temos que lembrar que o Brasil neste período em diante, vivia um processo de transformação profundo, com a busca de uma identidade da cultura brasileira junto com a abolição, a queda do Império e a chegada da Répública, ou seja, a chaleira do debate estava assoviando.
Vamos tentar entender o seguinte, a viola caipira e a machete, essa espécie de cavaquinho de 5 cordas, chegam no Brasil praticamente junto com os jesuítas, como os primeiros intrumentos de corda beliscada e foram extremamente úteis na catequese, porque os índios se apaixonaram, sobretudo, pela viola, facilitando a fusão da música indígena (o cururu ou catira) com uma poesia cristianizada dos portugueses; alés da introdução de cantigas populares de Portugal.
Todo este processo atravessa praticamente a história brasileira até o séc. XIX, quando o Brasil começa a ter uma identidade própria, como disse Mário de Andrade: não era mais africano, nem indígena, nem português. Tínhamos, como bem observa Mário, uma fusão de raças e, consequentemente, uma fusão bastante satisfatória que já dava consistência para uma atitude de caráter nacional.
Acontece que com a chegada de pessoas de todos esses ciclos econômicos: cana-de-açúcar (Norte e Nordeste), o ouro (Minas Gerais) e o café (Vale do Paraíba, todos esses elementos já haviam sido fundidos, dos lundus africanos às polcas européias, as músicas populares portugueses e também as músicas dos índios, a busca naquele momento na cidade do Rio de Janeiro por um conceito de urbanização, significava negar toda uma memória rural, contida em muitos moradores do Rio ou seus ancestrais. E assim, como a viola caipira, a machete também é negada. No entanto, Nazareth credencia em suas músicas esse homem do campo, compondo: Brejeiro, Matuto, etc, utilizando sempre acordes em terça, típico das violas. E logicamente, com esta memória afetiva contida na população, era muito mais fácil que ocorresse uma identificação.
Na realidade, acho que Machado de Assis se inspira na próprias histórias de Nazareth e na sua angustiante luta para impor uma característica nacional em uma linguagem erudita que em 1917, ou seja, alguns anos após a morte de Machado de Assis, Nazareth compõe o que ele classifica como o seu primeiro choro "Apanhei-te cavaquinho", utilizando na mão esquerda a batida típica do cavaquinho ou machete, que encantava o povo e na mão direita toda a redondilha das flautas em estudos de escala, mostrando que ele conseguira fundir em seu piano esta linguagem.
O mais interessante disso tudo, foi Machado de Assis ter perceber tudo o que estava acontecendo na música naquele momento, traduzida nas questões de um músico, que era Nazareth, que como eu disse, já mostrava traços de uma ´personalidae perturbada, que Machado transporta para as questões de cunho institucional antagônicas com o sentimento do povo.
Temos que lembrar que ele cansou de fazer a comparação, onde desenhva sempre, com bastante firmeza, a capacidade criativa do povo que tinha que enfrentar uma elite caricata e burlesca.
Mas vamos continuar este papo, porque nada é mais atual do que este tema, hooje, no meio cultural brasileiro.
Grande abraço!

Carlos Henrique Machado em julho 18, 2009 8:09 PM


#68

O trecho que mais me chamou a atenção foi este (certamente por minha formação musical, ouvir costuma ser não mais nem menos, mas tudo):
"Ouvi-lo tocar era o menos; vê-lo era o mais. Quem somente o ouvisse não poderia compreendê-lo."

A música de Barbosa (do machete) está associada a vida (corpo, alegria), enquanto que a música de Inácio (do violoncelo) está associada a morte (alma, melancolia):

Por um lado:
"Havia no violoncelo uma poesia austera e pura, uma feição melancólica e severa que casavam com a alma de Inácio Ramos."
"Não quis o violoncelo, que é grave demais."

Por outro:
"Barbosa tocou-a, não dizer com alma, mas com nervos."
"Carlotinha foi a denunciadora; ela achara infinita graça e vida naquela outra música"

E aí entram também as mencionadas diferenças entre composição (algo já feito, portanto estático, morto) e improvisação (algo que se cria no momento, que está vivo).

Inácio compôs mais sob efeito de imagens tristes, como a morte da mãe, a censura da esposa (ou a idéia de perdê-la), e finalmente seu abandono por ela.

No caso de composição dedicada à esposa, foi a censura da mulher que levou o violoncelista a compor, não houve iniciativa espontânea de homenageá-la:
Inácio Ramos compreendeu a censura da mulher; recolheu-se durante algumas horas, e trouxe uma composição nova, a segunda que lhe saía da alma, dedicada à esposa."

(O que naturalmente levanta suspeita sobre a estabilidade do relacionamento do casal...)

Já a composição em homenagem ao nascimento do filho (a única inspirada por um acontecimento alegre) foi justamente a que abriu as portas ao machete, e conseqüentemente ao abandono de Inácio por Carlotinha.

Machado de Assis enfatiza a importância do momento em que os dois transeuntes, ao ouvir e aplaudir a música, entram pra estória:
"A vida correria assim monotonamente bela, e não valeria a pena escrevê-la, a não ser um incidente, ocorrido naquela mesma ocasião."

No final, Carlotinha (não sei por quê, suspeitei desse nome desde o princípio) preferiu o "machete" ao artista de "alma de anjo"...

Hudson Lacerda em julho 20, 2009 2:21 AM


#69

Sobre a questão erudito versus popular: Inácio queria compor um concerto para violoncelo e machete, o que significaria uma tentativa de "elevar" o instrumento popular da Madeira, ou de unir os dois universos.

Não creio que seja realmente uma questão de decidir se machete é "melhor" ou não do que violoncelo. O conto aborda um conflito real bem mais complexo, como mostrou o Carlos Henrique Machado. (parente do Machado de Assis?)

Hudson Lacerda em julho 20, 2009 2:49 AM


#70

Idelber, desculpe-me mudar a pauta, mas estava ouvindo a CBN (bem feito para mim) que entrevista o embaixador (sic) L'Amprea, sobre as futuras visitas dos mandatários do Irã e Israel. Claro, o bandido e marginal do Irã não deveria ser recebido, já o de Israel, sim, pois somos irmãos, co-fundadores, próximos, etc.
É muita cara de pau desses pseudos "embaixadores", se já não bastasse o outro que cedeu a mulher para o ACM procriar e agora tenta colher parte da herança. Até quando sustentaremos esses escrotos?

Armando do Prado em julho 21, 2009 4:25 PM


#71

"A única regra é que você não pode se desculpar por não ser especialista em literatura." - ok, não me desculpo por isso, mas não sou especialista em literatura.

Para mim esse conto é uma obra menor de Machado. (Claro que uma obra menor de Machado é como uma obra menor de Chaplin, ainda assim são grandes.) Vá lá que frente aos posteriores Memórias Póstumas e Dom Casmurro, toda obra é menor (como uma baleia é anã diante de uma sequóia).

E, tirando o fato de que Machado sem dúvida era um ótimo observador social, a psicologização da análise de suas obras é algo que me incomoda. Parece muito com os testes de Rorschach, a interpretação vai de acordo com o freguês.

P.e., em vez de insinuar a superioridade do popular sobre o erudito, o fato do machetista ter roubado a mulher do rabequista pode insinuar o caráter baixo e pouco nobre.

A de Inácio Ramos = E nasce ramos permitiria um Amaral = Amará L.; ou Barbosa = Bar Bossa ou Barba Rosa; ou Carlotinha = Carlos Tinha.

Alguém poderá dizer que a chave interpretativa é o vaticínio do vizinho e filósofo de que o violoncelo iria levar Ramos ao hospício...

Parece mais que a imaginação é o limite.

[]s,

Roberto Takata

Roberto Takata em julho 22, 2009 9:30 AM


#72


Realmente a música erudita e popular sempre e, sempre, se confrontarão. Suscitando encon-tros e desamores. Machado de Assis soube tirar muito proveito deste confronto para, novamente em um triangulo amoroso (adultério), criar uma dualidade entre um cenário onírico, ideal, pretensa-mente desejado e acalentado pelo protagonista se colocasse frente as peripécias de seu tempo. O novo afronta o passado; a juventude vem dizer ao senhor do passado que chegou sua hora. O enre-do tramado pelo tempo são como notas musicais cada uma tem seu lugar na pauta – é o homem buscando a genialidade absoluta na sonoridade da Vida.
Como observaram alguns, a musica erudita esta na casa do povo, mas o que faz bailar o homem comum são versos cadenciados pelas ruas.
É a velha e boa ironia machadiana. Que através do tempo/espaço nos lega uma admirável visão da sociedade carioca e suas inúmeras mazelas ao ritmo da polca, do maxixe, do samba e com refrão em Mozart. Como se diz: “tudo acaba em valsa!”.
No final o acorde final é dado pela realidade extremada:
- “(...) A criança, dominada ao que parece pela música, olhava quieta para o instrumento. Durou a cena cerca de vinte minutos (...)”.
- “(...) a alma do marido (traído) chorava, mas os olhos estavam secos. Uma hora depois enlouqueceu”.
A criança seguirá o destino do pai! A entrega efetiva a dor, sem a remissão da música. Seria cômico se não fosse trágico, ou será: tragicômico!
É o mestre brincando com suas marionetes os conduzindo à frustração total de suas medío-cres existentes.
Demerval. Setembro de 2009.

Demerval Vaz da Silva em setembro 25, 2009 4:28 PM