#51
Alexandre,
"Essa história de "formar uma
rede" é totalmente equivocada, mesmo
se for caso de ativismo. Formar uma
rede é o que as empresas e
instituições tentam fazer."
Então me diga como ficam os
"cidadãos" atomizados frente a um
poder que ele desconhece, de
entranhas burocráticas e de
conchavos, um sistema muito acima e
para além dele. O "cidadão" (coloco
o cidadão entre aspas e explico
depois) ... o "cidadão" moderno me
lembra o ser humano pintado por
Benjamim na modernidade da guerra:
seu frágil corpo nada pode frente à
imensidão de uma máquina de guerra.
Assim também é a política. Ao
"cidadão" se dá o poder de apertar
os botõezinhos de quatro em quatro
anos. Sujeito a uma máquina de
propaganda, uma máquina de CPIs e de
criação de discursos, uma máquina
cujos entremeios Kafkanianos ele
desconhece, ele vai com fé (?) de
quem por fim, sabe das coisas,
apertar botões a cada 4 anos.
Quando se pega um assunto de
interesse cidadão (sem aspas) - pois
não se está a tentar a fama por meio
de uma discussão qualquer acerca da
vida de Michael Jackson, mas de um
processo que envolve um sem-número
de brasileiros e que vai retornar -
na forma de leis à todos os
brasileiros como norma, à qual
todos, mesmo que não rousseanamente
envolvidos na feitura da lei que
obedecemos, mas num momento
posterior, no momento de sua
aprovação, atinge a todos como
suditos desta república, e é,
portanto de qualidade diversa
de qualquer outra discussão de blog,
ou post.
Quando se deixa de ver que um post é
qualitativamente diverso de
outro, estamos num mercado de posts.
"toda manhã, para ganhar meu pão
vou ao mercado, onde se compram
mentiras.
cheio de esperança
alinho-me entre os vendedores."
(Hollywood, Bertold Brecht, tradução
de Aroldo de Campos)
E como todo post, e assim, todo
blog, é equivalente geral, passa-se
a aplicar a ele as regras da troca
como se fora um equivalente, uma
mercadoria qualquer. "Michael
Jackson", "Madona" e "disputa entre
movimentos sociais e empresariado
pela democratização ou manutenção
das coisas como estão" passam, no
universo de blogs, que me parece um
mercado, a estarem sujeitas às
mesmas regras de troca, de
propaganda indireta (já viu que a
propaganda hodierna não é direta?
ela não diz: compre isto para fazer
X, ao contrario, ela diz "o produto
Y é tããããão legaaaalll, e nem diz o
porquê).
Por isso se aplica a mesma regra a
tudo, assim como no mercado a mesa
feita com arte, que leve ao artesão
a sua vida para compor, tem um preço
e entra na mesma régua monetária que
a mesa feita em dois segundos pela
indústria. São mercadorias, e isso
lhes rouba a qualidade, ou o
espírito - têm cada qual apenas um
valor de troca, que as torna
comparáveis. Portanto, o pedido de
linkagem é todo - cada um dele -
todo comparavel por que denota cada
um, sem diferenças, uma e só uma
coisa, ou a cabeça do blogueiro só
pensa por meio de uma regra que
reduz tudo ao mesmo mercado de
trocas? E, dentre as moedas de troca
estão as linkagens e dentre os
prêmios a fama e os pêmios de melhor
blog. A estas regras são submetidos
todo e qualquer assunto (?), a
partir da chamada "boa maneira
blogueira", como se os assuntos não
fossem de qualidades e esferas
distintas (tanto Michael Jackson
quanto Confecom tem o mesmo valor de
troca, como se do ponto de vista
politico eles fossem a mesma coisa?)
Assim, toda a proposta de formação
de rede aparece no mercado de posts
como se fosse a formação de
quadrilha visando a fama, ou o
prêmio, pois o "blogueiro" já não vê
diferença entre isto e um ativismo
"saudável", uma alternativa do
"cidadão" atomizado frente à máquina
politica, umma tentativa de invenção
de um mecanismo político não tão
novo, mas modernizado (todo sujeito
político torna-se político não pelo
isolamento, mas pela associação. que
esta se faça por blogs é só usar o
existente para re-criar em novos
termos o previamente existente).
Deixa-se escapar as brechas que
existem como se fossem coisas "que
só empresas e instituições fazem"
(?). (a respeito de instituições, me
lembro como se fosse ontem o momento
em que deixei a minha infância
conceitual e passei a entendê-las de
outro ponto de vista: foi quando,
num banho de água fria uma
professora de sociologia disse que
não é porque as instituições tenham
um mesmo nome - como "escola", por
exemplo - que elas representam a
mesma coisa: passei a tentar
enxergar para além do nome, cada
instituição em particular - por ex,
sabemos que PT e PSDB estão sujeitos
às mesmas regras do jogo polítco,
mas ao mesmo tempo são instituições
diferentes, para além das regras que
as moldam grosso-modo).
Mas voltando à essa ideia de que
"redes" é o que empresas e
instituições fazem: isso quer dizer
que o recurso é eficiente, e por
isso as esquerdas perdem campo em
deixar de fazê-lo, pois abrem um
vacuo ocupado pela direita e com
isso abrem seu flanco, ou que é um
recurso do mal? Não seria
ingenuidade pensar dessa segunda
maneira?
Partidos também caberiam nisso - é
coisa de direita. Vamos abandonar os
partidos então. Formação de opinião,
através de textos tambem. Não é o
que a Folha faz? Vamos também
abandonar isto, pois deste ponto de
vista, os blogs e a imprensa escrita
não passam da mesma coisa. É coisa
de direita. Vamos voluntariamente
nos atomizar e vamos ver o que
acontece. Pensar assim é um acerto
ou um erro? Você me responde.
Entre os n projetos de estudo que
faço, elaboro um método topologico
para a análise da internet. É
discurso comum que redes "brotam"
"espontâneamente". Do ponto de vista
da análise dos discursos, essa
ideologia se aparenta tanto à
ideologia de mercado, onde a mão
invisível trabalha para que a
bonança se estabeleça, e segundo o
qual os grandes oligopólios não são
se não o fruto de um mérito - da
capacidade de produção de produtos
bons que são reconhecidos pelo
mercado, que nesse segundo momento é
o composto de consumidores
atomizados que gostam da qualidade
do produto, compram e assim "brota"
"espontâneamente" uma marca forte. É
também um discurso que bebe nas
fontes de discurso biologico.
"Brotar" e "espontâneo" são coisas
que remetem ao crescimento vegetal.
Mas, invertamos a analise. Quais os
limitadores de acesso de textos pela
internet? O primeiro é o mais obvio:
a linguagem. Para além disso, há
mecanismos que enquadram a busca: O
Google, por exemplo, tem um
procurador. Quais os parâmetros
deste procurador? São vegetativos e
"espontâneos", ou eles tem, por um
acaso um formato que impõe uma
hierarquia aos textos? Agora,
digamos que, finalmente, você achou
um site. A partir deste site você
tem links: eles abrem
"espontâneamente" seu acesso para
tudo o que existe, ou limitam seu
acesso a links escolhidos por
outros? Vamos pensar nos blogs, e
tomemos como parâmetro as
ferramentas comuns, o blogroll, por
exemplo. Como é que você inicia as
suas leituras? Por procuras por
palavras-chaves diretamente no
Google, ou por seu blogroll, onde
você se utiliza de um mecanismo de
restrição para abrir outras páginas,
onde os links remetem a outros
escolhidos por outrem? É espontâneo
isso?
Ser sociologo é desconfiar de tudo:
inclusive do mais "óbvio", pois o
óbvio é na maior das vezes, discurso
ideológico. A pergunta acima é
apenas isto: uma pergunta. Não é uma
afirmação, não é uma conclusão. Se
trata de uma pergunta de alteridade
(pela qual o pesquisador assume uma
postura antropológica de perguntar
sobre as coisas mais óbvias para
poder encontrar o que há de não-tão
-óbvio, o que no caso tem cor e
cheiro de uma super-estrutura
condicionante). O mesmo ocorre com
os Feeds: eles abrem ou limitam a
leitura ao que sai nos Feeds
assinados? Por conta disso eu dou
precedência à procura pelo google,
não assino Feeds, abro blogs de
comentaristas, dou precedência ao
espaço de comentário e não ao post,
mas mesmo assim, retorno aos blogs
que gosto, como este. Na verdade,
nenhum procedimento é antítese
completa às ferramentas de procura,
pois o google tem suas regras e os
comentaristas estão também seguindo
links específicos.
Do ponto de vista da análise
sociológica que procura como um
objeto "grupos humanos", esta
restrição por mecanismos
assumidamente "neutros" seria capaz
de formar grupos? Como definir isto
sociológicamente? A hipótese é que
sim, há a formação de grupos, por
mais frouxos que eles sejam, pois
admitem mais e mais leitores e
assinantes, mas as ferramentas às
quais cada um que entra no grupo
(seja por meio de uma procura por
interesses, seja por outras vias) se
submetem não são "neutras" nem
"espontâneas". Aliás, Alexandre, me
dê uma definição de "espontaneidade"
que poderemos discutir isto melhor.
Estamos, por exemplo, em um blog, um
dos muitos, que tem uma percepção de
si como membro de um grupo:
"blogosfera crítica", por exemplo, é
uma das auto-denominações
espontâneas deste grupo humano que
se comunica e se forma a partir das
linkagens de seus blogs. Espontâneo
quer dizer, aqui, a percepção
(não informada metodologicamente,
mas por se fazer parte de uma dada
cultura) de que se faça parte de um
grupo social. Por menos que se possa
medi-lo e por menos que esse grupo
seja fechado, a percepção espontânea
pode estar informando algo ao
sociólogo: que este suposto grupo
tenha suas fronteiras (eu sou
diferente dele, eu sou mais parecido
com estes, sim, uma coisa tribal).
Como passar da percepção social do
indivíduo em seu grupo à ferramentas
sociológicas de analise?
É por isso que uma das minhas
inspirações neste projeto sai da
geografia pós-moderna: a análise do
espaço - que tento subverter para a
análise do espaço virtual - segundo
a qual, pela análise das vias de
circulação no espaço se chega a um
desenho do espaço distinto do mapa
produzido a partir de uma medida
métrica. Por meio desta geografia é
possível evidenciar que, por
exemplo, apesar de Paraisópolis
estar metricamente muito perto aqui
de casa (moro no Butantã), o Butantã
está, na verdade, estudando-se a
circulação dos grupos sociais, muito
mais próximo da Avenida Paulista do
que de Paraisópolis, e ambos,
Butantã e Av. Paulista, estão muito
mais próximos de Campinas, por
exemplo, do que de Paraisópolis,
apesar de que pelo mapa métrico
possamos ter uma idéia distinta
disto. Há mais distinções no espaço
- e também no espaço virtual - do
que supõe a nossa percepção métrica
rudimentar.
"as redes se formam". Tá ai um bom
mandamento de Deus, o novo deus que
devemos inscrever na nova tábua dos
mandamentos da "ética blogueira", ou
do "manual de bom-tom da internet".
Não sou contra manuais de etiqueta.
Eles normalmente explicitam regras
de convivência que impõem uma ordem,
e se o mundo não tivesse uma ordem,
eu nem saberia o que fazer quando me
levanto de manhã: andar de bike,
trabalhar, tomar banho, comer
macarronada, tudo isto ao mesmo
tempo, ou numa ordem especifica? Meu
senso informado culturalmente põe
estas atividades em uma ordem
compatível com a ordem do mundo, o
que é, de certa forma, bom para mim.
No entanto, é preciso notar que o
fato de comermos cereais e não
feijão (bom, ele também é um cereal,
do ponto de vista botânico) no café
da manhã não é uma escolha meramente
informada pela nossa vontade, mas
culturalmente ordenada. Segundo,
regras são produtos histórico-
sociais que tendem a simplificar as
coisas, e uma de suas benesses é
tornar a vida mais simples (imagina,
se a cada manhã, eu me pusesse a
considerar todas as fontes possíveis
de nutrição, o seu balanceamento,
etc). No entanto, é preciso lembrar
que não é porque as regras tornem o
mundo mais simples de lidar, que o
mundo corresponda a estas regras e
seja, por isso simples. Não é. O
mundo é complicado. Terceiro, é
preciso lembrar (se quiser uma
citação eu indico Norbert Elias, mas
não é o único) que regras sociais -
como a etiqueta - surgem em manuais
escritos (como acima, mas existem
outros) não só para elucidar aos que
pertencem ou adentram um grupo social o que é de
bom tom, e por isso torna-se a
convivência harmoniosa dentro do
grupo, mas em geral as regras de
costumes viram obras escritas quando
é preciso diferenciar os
pertencentes ao grupo dos não-
pertencentes ao grupo, e demandar
que se alguém passe a pertencer a um
grupo, deve agir segundo as regras
prescritas. Nos séculos por volta de
XVI, XVII, começam a surgir manuais
de comportamento à mesa, de
comportamento em ambiente público,
não so por que as esferas público-
privado começam a se diferenciar (em
Elias lemos que não se deve dirigir
a palavra a alguém, caso no momento
ele esteja defecando), mas também
por que começa a surgir uma classe
de "novo nobre" (os burgueses que
compram títulos de nobresa) de quem
o nobre de sangue quer se
diferenciar. Nestes tempos é
possível vislumbrar o mesmo
ocorrendo nos blogs. As regras de
pertencimento ao grupo precisam ser
explicitadas (e apesar de socióloga
acreditei que uma racionalidade
politica pudesse suplantá-las) para manter um padrão de convivência, mas também para ditar o que é de bom-tom e o que não é, e assim impor a diferenciação entre blogueiros (cujo ethos está ligado a um tipo de regras blogológicas) e o ativista (para dizer que este não é espaço de ativismo: o ativismo pertinente é so aquele que sai "espontaneamente" de blogs, e que diz respeito apenas ao que os blogs tenham em comum entre si - para dentro do grupo - e não com outros loci da sociedade - ou o que os blogs tenham em comum com os de fora. esta me parece ser uma das razões porque os blogs se movimentam em torno da Azeredo, mas não em torno das liberdades de expressão em geral).
Os movimentos em torno da Azeredo foram a inauguração da forma de ethos político que sai dos blogs. Foi legal, mas este modelo que saiu do não-à-ditabranda inaugurou também um modelo que vira um mito (é recorrentemente citado por blogueiros quando questiono suas formas de participação política) e constitui, atualmente o padrão, a norma de como deve ser a movimentação política partida de blogs. Mas por mais que um modelo seja legal, é sempre interessante questioná-lo e colocar novas perguntas a ele. Se é fato que há regras que delimitam, impelem e também limitam este jogo, por que não ser ciente delas, ao invés de ficar repetindo as palavras de ordem "espontâneo" e "brotamento"? Não seria legal, para além da ciência sobre as regras explícitas e não explícitas, passar a pensá-las, modificá-las, armar estratégias a partir dessa crítica e reformulá-las de maneira politicamente coerente? Se você deixa de fazêlo, serão, como você mesmo disse, as instituições e as empresas que o farão.
A denominada (auto-denominada ou denominada por outros) "blogosfera crítica" nasceu de um impulso muito consistente: usar uma nova tecnologia a partir da qual todos podem se tornar formadores de opinião para, exatamente, fazê-lo. Mas, mais do que isso, nasceu de um impulso re-ativo às besteiras ditas pelos Jornais. Outro detalhe, é que ela remete prioritariamente ao discurso escrito e tende a enxergar quase que necessariamente apenas ele (isso se deve, creio, ao fato de que a blogosfera se apoia no escrito, não na formação imagética das opiniões e nem à formação oitiva das opiniões, universo estranho a ela). Dessa forma, a blogosfera critica elegeu, numa ação reativa, a imprensa escrita como seu inimigo. Como cada grupo humano tende a acreditar que o seu grupo é o centro do mundo (nenhum ser humano jamais deixou sua tribalidade pra trás), e portanto, o seu inimigo também é o inimigo da humanidade, então a blogosfera crítica tende a se ver como o salvador do mundo por meio do texto escrito, numa batalha de Titãs, contra o inimigo público número um, que seria a imprensa escrita, denominada "grande midia". Mas os números mostram que se de fato a mídia for o inimigo público número um (há, talvez outros inimigos a se adicionar a esta lista), a "grande mídia" não é a mídia impressa, pois TV e rádio atingem num fluxo muito mais ininterrupto e com poder de penetração muito maior, o conjunto de uma população.
Um exemplo foi o uso de imagens pela TV do que ocorreu em 8 de maio na USP. A questão do editoramento das imagens, a forma como elas são recortadas, colando-se a elas um discurso falado remete às técnicas de cinema e lembra um filme de Rambo: apareceram imagens colossais, tomadas por câmaras aereas, do poder do estado em forma de helicópteros. Talvez eles fossem 2 ou 3 (não contando o helicóptero de onde as imagens eram captadas, mas eles se transformaram, no nível da percepção num esquadrão de uns vinte. Isto devido não só à editoração, mas ao poder do campo-contra-campo, e lembravam-me a análise de Rovai (Livro chamado "Imagem, Tempo e Movimento: Afetos "Alegres" no Filme o Triunfo da Vontade") de como o acontecimento (o Congresso Nazista de 30 e pouco) foi montado não para ser ele mesmo grandioso, mas para que a imagem deste fosse grandiosa (e assim deixar para a posteridade o que a cultura nazista denominava de ruína, o monumento ao qual a cultura remete como fundador de sua tradição). Voltando aos helicópteros sobrevoando os frágeis corpos de estudantes (estou traumatizada, hoje em dia basta ver um helicóptero para me sentir pequena e revoltada, isso é o poder destas imagens - elas dizem: cidadão, você não passa de um frágil corpo sob o poder de um estado moto-serra), o écrã os multiplica, pela coreografia de helicópteros que passavam sob o espaço aéreo da tomada da câmera, em 20 helicópteros, utilizando-se do fato de que a manobra de retorno do helicóptero está fora do campo (do écrã). Nas tomadas próximas, apareciam explosões, talvez mais fumaça que fogo, mas ainda assim muito eficientes imageticamente, e corpos de estudantes saltando para longe da explosão )o que parecia, ou lembrava, da imagem cinematográfica da explosão como algo que produz um movimento de ar tão forte que lança os corpos centrifugamente. Mas, para além da própria forma como foram confabuladas as imagens do real, está o próprio fato de que tais imagens apareçam na mídia, e há ai um fenômeno muito mais perverso, de longa datação.
Quando as vi, além do meu estômago virar, passei a me perguntar: Que deu na Globo? Agora, será que a mídia passou de construtora de um discurso (imagem, fala e escrito) acerca do real, e passou a ser delatora de um estado perverso, ou será que há mais coisas entre a imagem e o real do que supõe nossa percepção socialmente emoldurada? Há algumas décadas os estudantes diziam que a mídia não mostra o que acontece: os movimentos estudantis somente apareciam em imagens como "impedimento de tráfego" (o que constitui um dos níveis deste discurso - perverte-se os ideais datados da revolução francesa num discurso de "liberdade do ir e vir"). Neste momento aparecem imagens do real desnorteadoras para mim, que não sou parte do grande público de Rambo, mas será que as mesmas desnortearam o grande público de Rambo? Ou será que por um (não tão longo) processo de educação dos sentidos este público está habituado a assistir as imagens (que me impactam como horror) como espetáculo, como entretenimento (a forma de transformação do tempo de não-trabalho em mercadoria a ser consumida), como lazer. Para além disso, não está este público do Rambo acostumado a torcer por Rambo (que de um outro ponto-de-vista não seria mais que um covarde, detentor de todo o poder de fogo que um estado bélico e imperialista possa oferecer, e agindo em nome deste) como se ele fosse o mocinho, o "prince charm" que deve ganhar a batalha? Quem era o Rambo do filme da Globo sobre os ocorridos de 8 de maio na USP? Os estudantes? Não. A polícia? Dias depois desmarquei aula para ir à manifestação que não saiu (dia 10) devido à chuva, e mais uns dias depois, meus estudantes disseram "esse povo da FFLCH gosta de apanhar, eles têm mesmo é que apanhar". Vi este tipo de opinião em muitos outros que assistiram comento pipoca, às imagens na TV.
Retornando deste longo percurso, eu me pergunto: será mesmo que a Folha de São Paulo é o inimigo publico número um? Ou será que o inimigo público número um tem seus vários ramos, imersos nas mídias, nos institutos de pesquisa, nos discursos científicos, no cinema, atacando-nos na nossa hora de recreio, de lazer, e de leitura informativa, na forma de educação, de informação, de entretenimento, e como diz Clara Crocodilo, escondidos nos nossos cérebros, esperando o momento oportuno para nos atacar e aos nossos entes queridos?
A desconfiança com relação à quebra de uma regra: será ela apenas a manutenção de um ambiente em termos aceitáveis para todos os que façam parte dele, ou terá ela características mais perversas, mantenedoras de uma realidade social tal qual ela está?
"A massa ainda comerá o Biscoito Fino que fabrico" (Oswald Andrade)