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Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



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terça-feira, 31 de agosto 2010

Blogueira convidada: Sexismos à parte, por Marjorie Rodrigues

O texto de hoje é de autoria de minha amiga Marjorie Rodrigues. Ele é inédito e foi escrito a convite do Biscoito.

*********

Devo confessar que, no começo do ano, estava um pouco apreensiva em relação a como seria cobertura jornalística das eleições presidenciais. “Podem esperar que vem muito sexismo por aí”, cheguei a twittar. Afinal, teríamos uma situação inédita: duas mulheres entre os três candidatos mais bem colocados nas pesquisas – sendo que uma delas representa o governo que a imprensa, tomando para si o papel de oposição, tanto tem se esforçado para derrubar.

Vale lembrar que a participação das mulheres na política brasileira ainda é muito tímida. Os partidos dizem ter dificuldades para cumprir a cota de 30% de candidaturas femininas. Creio que este é um problema, acima de tudo, cultural. As mulheres se candidatam pouco e as pessoas têm desconfiança em votar nelas, em grande parte, devido à idéia de que mulher “não serve” para política. De que os homens são racionais e as mulheres, sentimentais. De que o comando econômico e político é território masculino, enquanto às mulheres cabe o campo da domesticidade, do cuidado de crianças, doentes e idosos; às mulheres cabe à moda, o enfeite, o supérfluo. Enquanto não rompermos com a idéia arcaica e rígida de que há coisas “de menino” e coisas “de menina”, acredito que o aumento de mulheres em cargos eletivos será um caminho árduo.

Enfim. A imprensa é um dos meios que formam o imaginário coletivo. Portanto, é um dos meios pelos quais é disseminada esta mensagem de que mulher não serve para governar. As últimas eleições presidenciais americanas, as quais acompanhei com bastante entusiasmo, tiveram duas mulheres em posições de destaque (Hillary Clinton e Sarah Palin) e foram um show de preconceito de gênero.

Logo, não pude deixar de pensar: como seriam as nossas eleições, nós que temos uma mídia que escancaradamente nos reduz a bundas, nos compara a objetos, dá espaço a vozes ultraconservadoras e ridiculariza o movimento feminista? Como seriam as nossas eleições, nós que temos uma mídia desenfreada, monopolizada, que fala o que quer e muito raramente é punida por isso? Como seriam estas eleições num país cujos principais humoristas acham racismo e sexismo o cúmulo do cool?

Já no ano passado, as perspectivas não eram das melhores. Há cerca de um ano, o jornalista Marcelo Coelho publicou em seu blog um texto em que media o sex appeal de várias mulheres na política. Jorge Pontual fez o mesmo no twitter, embora tenha voltado atrás e pedido desculpas. Ruth de Aquino caiu no ridículo de entrevistar um psicanalista para dar bronca nos tiques e trejeitos “pouco femininos” de Dilma: “abaixa esse dedo em riste! Seja mais delicada!”. Então, pensei: “ai, ai, ai. Se a coisa já tá assim agora, imagine quando a campanha começar pra valer?”.

Bom, de fato, a mídia não me decepcionou. Sexismo há, e muito. O trio Estado-Folha-Globo (para não citar os jornais regionais, menores, que pegam carona na cobertura destes) fez reportagens de, no mínimo, meia página sobre as roupas, a maquiagem e as transformações estéticas das candidatas. A Folha de S. Paulo chegou a entrevistar o marido de Marina Silva, para ver se ele aprovava as mudanças que ela fez no visual.

Já a revista Veja publicou uma matéria sobre “quão decisivo é o fator beleza numa eleição”. (estranho... Se é tão importante assim, por que nunca tinham escrito sobre o assunto? Só foram escrever agora, que temos duas mulheres? Embora políticos homens sejam citados na matéria, o foco são as mulheres. E são majoritariamente fotos de mulheres que ilustram a reportagem).

Celso Kamura, o cabeleireiro responsável pela mudança no corte de Dilma, também ganhou entrevistas extensas no caderno de política. É necessário? É relevante? Acho que não. Mas, se fosse, cadê as entrevistas com o pessoal que cuida do visual de Serra e de outros candidatos do sexo masculino? O pior foi a ambiguidade utilizada pelo Estadão, na entrevista com Kamura: “este é o homem que faz a cabeça de Dilma”. Recurso já utilizado antes, pela revista Marie Claire, que intitulou uma entrevista com Dilma com "a mulher do presidente".

(Particularmente, também vejo muito de sexismo na mania de chamarem a Dilma de “poste” e dizerem que Lula será seu “tutor”. Ora, Dilma foi Secretária de Minas e Energia de um estado importante, Ministra das Minas e Energia e Ministra-Chefe da Casa Civil. Que o carisma de Lula é algo importantíssimo na campanha, não há dúvidas. Mas daí a usar a palavra “tutela”, sei não. Sinto cheiro de sexismo aí.

Mas Dilma tem se saído muito bem com isso. “Decidam: uns dizem que eu sou mulher de ferro, outros dizem que sou um poste...”, disse ela na famigerada entrevista ao JN. A entrevista chamou a atenção das pessoas pelo nível de grosseria e afetação do casal Bonner e Fátima. A mim, no entanto, o mais chocante foi eles terem passado quase metade do tempo estipulado fazendo inquisição sobre o temperamento, a postura, a conduta da candidata. Ora, a opressão que nós, mulheres, sofremos está muito baseada em códigos de conduta: não se vista assim, não fale assado, não cruze as pernas desse jeito. Eu jamais esperaria que uma das primeiras perguntas da entrevista do JN fosse: “candidata, é verdade que você é grossa?”. Pô, que pergunta é essa?

Mas, como disse, a saída da candidata petista foi de mestre, apontando o óbvio: não dá para uma pessoa ser mandona e capacho ao mesmo tempo. Dilma, ao dizer, “decidam-se”, deixou claras as limitações e contradições da mania de dicotomizar as mulheres: ou puras ou putas, ou santas ou diabas, ou mandonas ou submissas. Há toda uma miríade de meio-termos. As mulheres são mais complexas do que isto)

Mas enfim, divago. Como dizia, sexismo não falta na cobertura. No entanto, ele não tem tido o efeito sobre o eleitorado que eu pensei que fosse ter. Hillary perdeu as primárias sendo amplamente ridicularizada. Dilma só se fortalece, só cresce. Embora a imprensa chie, invente dossiês, tente reduzi-la a um poste ou um bibelô, a candidata do PT avança nas pesquisas. A ponto de podermos até pensar em uma vitória no primeiro turno.

Não sei quanto a vocês, mas eu me emociono deveras diante da possibilidade de ter a primeira presidenta do Brasil. Ainda mais ganhando assim, de lavada, contra um candidato autoritário, tacanho, que sequer a própria campanha foi capaz de conduzir sem trapalhadas. Ainda mais sabendo que não é qualquer mulher. É uma baita mulher.

Claro que a gente deve evitar o clima de “já ganhou”. Até outubro, tem chão. Mas estou otimista. Não tem como não ficar otimista ao ver essa discrepância entre as pesquisas e a cobertura jornalística. É um sinal não só de que o sexismo tem menos poder do que eu pensava, mas também de que a imprensa tradicional está perdendo um tiquinho de seu poder.

E, caso Dilma seja mesmo eleita, um bom horizonte se abre. Ter uma mulher no cargo mais importante da república, um cargo de extrema visibilidade, será um incentivo e tanto para que outras mulheres tomem coragem para se candidatar. Para que outras mulheres tomem coragem para agir politicamente em suas comunidades, municípios, estados. E, principalmente, para que parte do eleitorado deixe de torcer o nariz para candidatas mulheres. Coisas boas hão de vir.



  Escrito por Idelber às 21:41 | link para este post | Comentários (48)




Clube de Leituras: Rubem Fonseca e Roberto Bolaño

Este é um post do Clube de Leituras dedicado à discussão de Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca, e O Olho Silva, do chileno Roberto Bolaño. Caso você prefira ler o conto de Bolaño no original, em diagramação melhor, ele está disponível aqui. Vou escrever pouco, porque a ênfase é mesmo na conversa da caixa de comentários. A única regra do Clube é que você não pode se desculpar por não ser especialista em literatura.

********

Causou escândalo a publicação de Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca, em 1975. O livro chegou a ser proibido pela ditadura militar, não por motivos políticos, mas por “atentado à moral e aos bons costumes”. Fonseca inaugura uma tradição que teria longa história na literatura brasileira, estendendo-se até os dias de hoje. Não são poucos os ficcionistas (especialmente paulistanos e cariocas) que tomariam Fonseca como modelo para o retrato da violência urbana.

Em termos estilísticos, o conto apresentava certa novidade em relação às representações anteriores da violência. Desaparece o sóbrio narrador da antiga ficção realista, que descrevia os fatos a partir de uma posição distanciada. As frases são curtas, grosseiras, chulas. Já no início do relato, o texto nos instala no interior da reunião dos marginais que recebem as armas e preparam o assalto. Há que se notar a escolha do autor: em vez de narrar a partir do ponto de vista das vítimas (em cujo caso o conto se iniciaria, por exemplo, com a festa dos grã-finos, para depois passar ao choque provocado pela chegada dos assaltantes), Fonseca conscientemente escolhe o ponto de vista destes últimos. Ali se vê o ressentimento de classe, o machismo, a brutal distância que os separa do Rio de Janeiro dos burgueses da Zona Sul.

Outra marca característica da representação da violência que se inicia com Rubem Fonseca é que ela já não traz qualquer conteúdo socialmente redentor. Enquanto que em longa tradição anterior de literatura realista, a violência costumava estar associada a um projeto de transformação social, aqui ela é gratuita e irredimível. O emblema disso é a discussão entre os assaltantes, sobre se os corpos grudam ou não grudam na parede quando assassinados com metralhadora escopeta. A significação da brutalidade e da violência parece se esgotar em si mesma. Não aponta para nada que a transcenda.

*******

roberto-bolano.jpg

Não sei a quantas anda a bolañomania no Brasil, mas ela vai se espalhando pelo mundo de língua inglesa com uma rapidez impressionante. "O Olho Silva" (do livro Putas Assassinas, de 2001) não é, em minha opinião, um de seus melhores contos, mas serve como introdução ao mundo de Bolaño: a melancolia dos jovens de esquerda que, nascidos na década de cinquenta, encararam nos anos setenta a derrota de seus projetos revolucionários. Bolaño é implacável com esse mundo. São temas recorrentes as idealizações retrospectivas do exílio, o egocentrismo e a mesquinharia, a vocação para a desgraça que parece acompanhar essa geração.

No entanto, Bolaño tampouco faz essa autópsia a partir de uma posição exterior. É nítida a empatia do narrador com o personagem que, em meio à homofobia da esquerda da época, demora um bom tempo para assumir sua homossexualidade. Os personagens de Bolaño perambulam pelo mundo (exatamente como seu autor, iconoclasta marginal que chegou a passar fome na Espanha) e vão tentando fazer sentido do que lhes ocorreu a partir de certas migalhas da experiência.

A castração de crianças na Índia aparece ao personagem como uma figura da fatalidade (O que aconteceu em seguida, de tão repisado, é vulgar: a violência da qual não podemos escapar. O destino dos latinoamericanos nascidos na década de cinquenta). O conto termina in media res, mas sugere que nada se alterará nesse ciclo de misérias ao qual os personagens parecem estar condenados. Parte da fascinação da literatura de Bolano advém, creio, do fato de que essa fatalidade não é representada em tintas naturalistas, ou seja, os personagens mantêm considerável iniciativa e individualidade. Mas ela não parece suficiente para reverter o movimento triturador da História.

Estes são meus dois centavos. O que acharam dos contos?



  Escrito por Idelber às 08:53 | link para este post | Comentários (88)



segunda-feira, 30 de agosto 2010

Por que a metáfora do tsunami não interessa à esquerda

Permitam-me, ao melhor estilo do Sapo Barbudo, uma alegoria futebolística.

Na primeira metade dos anos 80, o Atlético-MG era um dos três times mais fortes do Brasil, junto com o Flamengo e o São Paulo--ou o Grêmio, dependendo do momento que você tome. Hexacampeão mineiro, sistematicamente semifinalista ou finalista do Campeonato Nacional, convidado todos os anos aos torneios de verão da Europa (que, naquela época, tinham um prestígio que não têm hoje), o Galo acreditou no conto do vigário de que só havia um time grande em Minas. Nosso único rival, dizíamos, era o Flamengo, já que o Cruzeiro não existia, era um time pequeno.

Claro que o papo é legítimo como provocação de torcedor, mas quando a diretoria do seu clube começa a acreditar nele, pode ter certeza de que se avizinha um desastre. Embriagado por sucessos que nem eram tão grandes assim—afinal, o sonhado bicampeonato brasileiro e a Libertadores não vieram--, o Galo vendeu metade de uma Seleção Brasileira por milhões que jamais apareceram nos cofres do clube, elegeu péssimas diretorias, foi saqueado e não entendeu a transição para o futebol global. Em menos de dez anos, o Cruzeiro havia virado o jogo. Hoje não há atleticano fora dos sanatórios que acredite que competimos com o Cruzeiro em igualdade de condições. Já são quinze anos de supremacia azul no estado e onze clássicos sem vitória (dez derrotas e um empate). Nós nos vemos anualmente lutando contra o rebaixamento ou, no máximo, brigando no pelotão intermediário da tabela. Não há reversão desse quadro no horizonte, porque nosso presidente é um falastrão que personifica a Verneinung freudiana: aquele estágio de cegueira completa em que o sujeito acredita, com todas as forças, que negar a realidade é suficiente para que ela deixe de existir.

Pois bem. Petistas, comunistas, trabalhistas e socialistas: mirem-se no exemplo daqueles alvinegros de Minas. Ainda não ganhamos nada. A esquerda-esquerda (PT, PcdoB, PSB, PSOL e um naco do PDT) não possui sequer 40% do Congresso Nacional, todos os grandes jornais e a TV que domina o mercado nos são abertamente hostis, pelo menos dois Ministros do Supremo Tribunal Federal não perdem uma só oportunidade de nos atacar, e mesmo assim se dissemina, tanto no campo oposicionista, em tom melancólico, como no campo governista, em tom eufórico, o meme de que “está tudo dominado”.

Merval Pereira fala em tsunami, Eliane Cantanhêde, grunhindo contra os “cães da internet”, delira que a imprensa é “o último reduto do contraditório”, e mesmo em blogs de esquerda não é incomum ler coisas como “a oposição será varrida do mapa” ou “o PSDB vai virar um partido nanico”. Eu não sei em que realidade paralela vive essa gente. Na que eu observo, o aecismo está virando o jogo em Minas, Alckmin ainda lidera com folga em São Paulo, um dos melhores senadores petistas, Paulo Paim, está numa briga de foice para não ceder a vaga a uma sub-Miriam Leitão, Beto Richa lidera no Paraná e já sabemos com certeza que perderemos nossa única senadora catarinense. Claro que vários outros contra-exemplos poderiam ser citados, a começar pelo banho de votos que Dilma, pelo que parece, dará em Serra. Vamos crescer e eles vão encolher, isso é fato. Mas mirem-se, por favor, na serenidade de Dilma:






Lembremos que boa parte dos que hoje dizem que o PT já dominou tudo são aqueles que, até pouco tempo atrás, previam sua morte (como Montenegro, do Ibope, chegou a fazer há exatos doze meses) ou falavam de acabar “com essa raça” (como certo oligarca catarinense) ou negavam o fato de que o PT foi o partido que melhor se saiu nas eleições municipais de 2008. Quando este blog, baseado em números do TSE, fez essa observação, disseram que era “torcida organizada”. Agora dizem que dominamos tudo. Curiosamente, aqueles que escondem suas preferências e mentem acerca de uma pretensa neutralidade parecem acreditar que torcida organizada é só a dos outros.

Eles oscilam entre a retórica da aniquilação do adversário e a retórica de que o adversário quer aniquilá-los. Esse jogo não interessa à esquerda. São 500 anos de governo do PFL que nós mal começamos a reverter. Não nos esqueçamos da lição de Telê Santana: 3 x 0 no placar? É hora de partir pra cima e fazer o quarto.


PS: Isto aqui tem que ser denunciado.

PS 2: A coisa lá no Twitter hoje está bem animada.



  Escrito por Idelber às 07:31 | link para este post | Comentários (42)



sábado, 28 de agosto 2010

Montenegro pediu desculpas. E vocês, Datafolha?

Este texto também está publicado na Revista Fórum.

*********

Completaram-se exatos doze meses da imortal declaração de Carlos Augusto Montenegro, presidente do Ibope, à revista Veja, acerca da sucessão presidencial. Citemos, pois recordar é viver: O partido [PT] deu um passo a mais na direção do seu fim. . . A Dilma, em qualquer situação, teria 1% dos votos. Com o apoio de Lula, seu índice sobe para esse patamar já demonstrado pelas pesquisas, entre 15% e 20%. Esse talvez seja o teto dela. A transferência de votos ocorre apenas no eleitorado mais humilde. Mas isso não vai decidir a eleição. Foi-se o tempo em que um líder muito popular elegia um poste.

O gênio Montenegro, mais de um ano antes das eleições e diante do presidente mais popular da história do Brasil, decidira que o “poste” não seria eleito e que seu teto era 20%. Deixando de lado o desrespeito da referência ('poste') a uma mulher que já havia sido Secretária da Fazenda e das Minas e Energia do Rio Grande do Sul, Ministra das Minas e Energia e Ministra-Chefe da Casa Civil (assumindo este último cargo durante a maior crise institucional do país desde a queda de Collor), Montenegro colocou a credibilidade de seu instituto na berlinda, fazendo futurologia com nítidos de ares de torcida. Nada tenho contra quem torce pelos seus candidatos, mas em certas posições (presidência de institutos de pesquisa, ministério do Tribunal Eleitoral), convenhamos que é melhor esconder as preferências. Montenegro deixou que as suas interferissem na análise.

Além de tropeçar na futurologia, Montenegro também tropeçava nas referências ao passado. Na mesma entrevista, ele disse: Nas eleições municipais de 2008, entre as 100 maiores cidades, o PT perdeu em quase todas. Montenegro deveria ter consultado com mais atenção os números do Tribunal Superior Eleitoral, pois nos municípios brasileiros com mais de 200.000 eleitores, o PT foi o partido que mais venceu em 2008. Naquelas eleições municipais, no chamado G-78 o PSDB teve 13 vitórias, o PMDB teve 18 e o PT teve 20 [Contagem (MG), S.B.do Campo |(SP), Mauá (SP), Guarulhos (SP), Petrópolis (RJ), Anápolis (GO), Canoas (RS), Joinville (SC), Rio Branco (AC), Fortaleza (CE), Cariacica (ES), Vitória (ES), Betim (MG), Recife (PE), Belford Roxo (RJ), Nova Iguaçu (RJ), Porto Velho (RO), Carapicuíba (SP), Diadema (SP), Osasco (SP)]. Somadas às duas vitórias do PC do B (Olinda e Aracaju), às cinco do PDT (Macapá, Serra, Niterói, São Gonçalo e Campinas) e às quatro do PSB (Belo Horizonte, João Pessoa, São José do Rio Preto e São Vicente), as forças aliadas ao presidente Lula saíram das eleições municipais governando 59 entre as 78 maiores cidades do país. Mas, para Montenegro, o PT havia perdido “quase todas”.

Por tudo isso, o gesto de Montenegro é bastante louvável. Mas já que se desculpou de suas estapafúrdias certezas acerca do futuro, ele poderia ter aproveitado a oportunidade para se desculpar também por traficar informações falsas sobre o passado recente.

Enquanto isso, o DataFolha segue em seu autismo. Depois do estrepitoso fracasso da sua estratégia de inflar artificialmente os números de Serra, produzindo um monstrengo em forma de sanfona que nenhum analista político sério reconheceria como verossímil, o DataFolha repete a mesma prática com os números de São Paulo, recusando-se a registrar a subida de Mercadante que até mesmo o Ibope já reconheceu. No excelente gráfico feito por Alê Porto, é possível ver a discrepância entre os números da eleição presidencial do DataFolha e dos outros institutos:


Observando a evolução da corrida paulista e o impacto da "onda vermelha" nas eleições estaduais, cabe a pergunta: será que o DataFolha vai passar outra vergonha, agora em São Paulo?



  Escrito por Idelber às 17:41 | link para este post | Comentários (42)



sexta-feira, 27 de agosto 2010

Reedição do Clube de Leituras

Para dar o mui necessário respiro da campanha eleitoral, o blog vai reeditar o Clube de Leituras na próxima terça-feira. Para quem nunca participou, a coisa funciona assim: nós decidimos de antemão uma data e um texto, todo mundo lê, na madrugada anterior ao dia marcado eu publico um post com algumas anotações sobre o conto e conversamos todos na caixa de comentários. O Clube tem uma única regra. É proibido se desculpar por não ser especialista em literatura.

A reedição do Clube de Leituras me foi sugerida pela Flávia Cera e pelo Victor da Rosa. Eles pensaram no escritor argentino César Aira, mas o que há por aí do Aira na internet está em espanhol. Sabendo que muita gente tem preguiça de ler em castelhano, sugiro que encontremos algum conto de escritor brasileiro. O projeto Releituras tem muita coisa, assim como o site Domínio Público. Decidam-se por um texto e, no momento que tivermos a escolha feita, eu atualizo este post com o título da obra. Pode ser um conto ou dois contos que possam ser comparados. Se o clube voltar com fôlego, pensamos num romance.


Atualização: Depois de algumas horas de conversas, nos decidimos por dois contos: O Olho Silva, de Roberto Bolaño, e Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca. Na madrugada de segunda para terça, então, eu coloco aqui um post para iniciar o papo. Obrigado a todos os que ofereceram outras sugestões. Elas estão anotadas para uma próxima edição do Clube.



  Escrito por Idelber às 08:26 | link para este post | Comentários (72)




Blog endossa Jô Moraes para Deputada Federal em Minas

Esta foi fácil. O endosso do blog para a Câmara dos Deputados em Minas Gerais--ou seja, o voto que eu vou efetivamente depositar na urna--é de Jô Moraes (PCdoB, 6565). Aí vão minhas razões:




Como sempre, caixa aberta para quem quiser endossar alguém, argumentar ou discutir minha escolha.



  Escrito por Idelber às 07:42 | link para este post | Comentários (17)



quinta-feira, 26 de agosto 2010

O que aconteceu com o PSDB?

Antes do post, dois avisos:

1. Este é um post para quem tem paciência de ler.

2. Este post utiliza trechos de um livro meu, já publicado. O post foi escrito por sugestão de Alexandre Nodari, a quem agradeço.

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Depois do baile de Marcos Coimbra, do Vox Populi, no Datafolha, da revelação de que, mesmo de acordo com este último, Dilma já ultrapassou Serra até em São Paulo, da chegada do guru indiano, do abraço dos afogados, do pedido de Serra ao PSTU e da inesquecível estreia de Soninha como coordenadora do site de campanha de Serra, postando no Twitter uma foto do candidato com ….. Bento XVI! (pela repercussão já se vê quão apropriado era o gesto para o público do Twitter, né?), a verdade é que hoje eu não consegui preparar um post sério sobre as eleições.

Entremos em outra conversa. Afinal de contas, há um grande mistério a se desvendar. Como a campanha do PSDB se esfacelou desse jeito? Se eu acreditasse em teorias conspiratórias, diria que algum aloprado do PT se infiltrou lá dentro e está comandando a campanha.

Sou um total e absoluto viciado em eleições. Acompanho-as, bem de perto, aqui e aí no Brasil, desde 1982. Eu lhes juro que jamais vi um colapso parecido. Talvez o que aconteceu com os democratas, na eleição de 1984, nos EUA, chegue perto. Ou o colapso dos radicais, na Argentina, depois do governo de Alfonsín.

Já que não tem nenhuma graça tripudiar dos caras--deixemos essa tarefa para gente mais competente--, passemos a analisá-los, sério mesmo.

Nos últimos dias, foram publicados três excelentes textos sobre a história recente do PSDB. Tenho dois centavos a acrescentar-- e são realmente só dois centavos. Vladimir Safatle publicou na Folha um artigo intitulado O Colapso do PSDB, cujo tom era basicamente de perplexidade. Como é que o PSDB virou isso?, parece perguntar-se o texto. Safatle—pensador que admiro e de quem vocês ainda vão ouvir falar muito--rememora a época em que ele votava no partido e menciona a contradição: víamos uma geração de políticos que citavam, de dia, Marx, Gramsci, Celso Furtado e, à noite, procuravam levar a cabo o “desmonte do estado getulista”, “a quebra da sanha corporativa dos sindicatos”, ou “a defesa do Estado de direito contra os terroristas do MST”.

A perplexidade do Safatle se explica facilmente. As coisas não foram bem assim. Quando os tucanos começam a falar em “virar a página do getulismo”, Celso Furtado (quem dirá Marx ou Gramsci) já não eram exatamente ídolos por lá. Isso, o texto do João Villarverde mostra muito bem, ao detalhar que a equação que FHC tinha que resolver era unir a ala mais PUC-Rio de Bacha, Franco e Fristch, com outra mais heterodoxa, dos irmãos Mendonça de Barros, outra mais fiscalista, com Serra, e outra com visão sofisticada de gestão pública, como Bresser e Nakano e a turma mineira, que começava a dar as caras . O que faz FHC? Aposta tudo na ortodoxia da PUC-RJ. Por isso está corretíssimo o João quando diz que os números positivos que vemos hoje de desemprego baixíssimo, salários em alta e transferências de renda para redução da terrível desigualdade social que (ainda) temos, não vêm de FHC. Esses números vêm de escolhas feitas pelo governo Lula.

O Celso de Barros já trabalha mais o lado político da coisa. A tese do Celso é que foi o governo FHC quem possibilitou a unificação dessa turma. Para um partido que nascia de uma dissidência parlamentar, sem nenhuma base no movimento social, foi aquela conjuntura bem particular de 1993-4, do Plano Real, que tornou possível que se criasse ali uma unidade. A conversa que o João propõe ao PSDB-- entre os fiscalistas, os gerentes e os desenvolvimentistas--, se ela acontecesse, provavelmente levaria o PSDB a … ser base do governo Lula! É a conclusão do Celso.

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Pois bem. Onde entram meus dois centavos? Numa tese simples: você não vai entender o PSDB se você voltar a 1988. Tem que voltar mais. Minha proposta é que voltemos a 1975. É a data de publicação de Autoritarismo e redemocratização, do FHC. Trata-se (e isso, só para esclarecer, é tese minha, não é fato histórico com o qual todo mundo concorde) do livro que estabelece a forma como a transição democrática entenderia a ditadura militar. O que faz FHC naquele livro? Por um lado, ele critica—corretamente, a meu ver—setores da esquerda que caracterizavam o estado ditatorial brasileiro como “fascista”. Por outro lado, ele propõe a tese de que a ditadura era fruto do interesse de uma burocracia estatal hipertrofiada. Dito assim, parece coisa de doido, mas a minha tese é que ali naquele livro, em 1975, se articula a concepção de estado que possibilitaria a hegemonia conservadora na transição de 1985.

Como? Vamos ao livro.

Segundo FHC, a razão de ser do estado ditatorial no Brasil deveria ser procurada menos nos interesses políticos das corporações multinacionais (que preferem formas de controle estatal mais permeáveis a seus interesses privados) do que nos interesses sociais e políticos dos estamentos burocráticos que controlam o Estado (civis e militares) e que se organizam cada vez mais no sentido de controlar o setor estatal do aparelho produtivo (pag.40).

Trocando em miúdos? Para FHC, já em 1975, a ditadura não era produto do interesse de classe capitalista, mas do excesso de burocracia do estado.

A eficácia ideológica dessa tese reside na curiosa identificação entre autoritarismo político e estatismo econômico, como se os dois caminhassem necessariamente juntos. O modelo explicativo de FHC pressupunha que um estado ditatorial é menos permeável a "interesses privados." FHC manufaturava a miragem de uma burocracia que atuava em seu próprio nome, uma "burguesia estatal"--e a expressão é do próprio FHC, não minha--com interesses misteriosamente não coincidentes com os do capital multinacional. Esta fantasia ideológica teve, não cabe dúvida, papel central na consolidação da hegemonia liberal-conservadora na "transição à democracia." Ao fim e ao cabo, a ditadura, FHC nos faz crer, nunca operou segundo o interesse da classe capitalista, mas de uma anacrônica burocracia estatal. Enquanto corretamente criticava o rótulo de "fascista," dado aos regimes militares por setores da esquerda (esses regimes, diferentemente do fascismo, não se basearam na mobilização popular, não fizeram uso de uma estrutura partidária e não precisaram de expansão internacional), FHC redefinia as elites dirigentes como "burocracia de estado". Leiam, por favor, com atenção, essa citação extraída da página 133. O grifo é meu:

Vê-se, portanto, que não há símile possível entre as burguesias dependentes-associadas da América Latina e suas congêneres dos Estados Unidos ou da Europa. O espaço econômico da burguesia internacionalizada (inclusive, neste caso, dos setores locais desta burguesia) transcende os limites nacionais sem que precise de ajuda dos Estados locais... O escudo real das burguesias locais internacionalizadas, neste aspecto, é o conglomerado multinacional, protegido, e aliado com os estados das sociedades-matrizes. Ao contrário, os estados locais servem de suporte político mais para os "funcionários", os técnicos, os militares, os fragmentos desgarrados da burguesia local não integrados à internacionalização do mercado do que aos grandes interesses burgueses internacionalizados.

Trata-se aqui de um pedaço sólido de ideologia: os mercado-livristas nacionais e internacionais se convertem em fatores marginais no regime ditatorial, já que este último supostamente havia atuado em nome de uma misteriosa capa burocrática não redutível ao interesse de classe capitalista. Mantenha-se em mente o lembrete de que uma burocracia estatal, diferentemente de uma classe social dominante, pode ser removida do poder sem que se faça dano algum ao modelo econômico hegemônico. A definição da ditadura como "estado autoritário" prepara o caminho para o próximo passo, uma aliança opositora fortemente hegemonizada pelo conservadorismo neoliberal, com vistas a uma redemocratização que se reduz à desconcentração do poder político do executivo e nunca questiona o modelo econômico imposto pelas ditaduras. Ao fim e ao cabo, aqueles em cujo interesse se sustentavam os generais haviam sido cuidadosamente isentos de toda a responsabilidade na barbárie ditatorial.

Tese deste atleticano blogueiro: a teoria do autoritarismo foi a base ideológica dada pelas ciências sociais--e em particular, FHC--à hegemonia conservadora na chamada transição democrática. A teoria do autoritarismo é a língua da transição conservadora, não sua teoria. Não há contradição, portanto, entre FHC-o-firme-opositor-ao-regime-militar em 1975 e FHC-o-implementador-de-políticas- neoliberais em 1998. O primeiro foi, de fato, a condição de possibilidade do segundo. Não tem sentido, portanto, perguntar-se o que aconteceu com o valente soldado da democracia. FHC jamais "traiu" nada. O que ele entendia por "democracia" estava dado já em 1975.

Segundo FHC, o êxito das políticas econômicas oficiais dependia da capacidade que o estado tivesse para tornar-se, mais e mais, empresário e gestor de empresas. Com isso, em vez do fortalecimento da "sociedade civil" - das burguesias - como parecia desejar a política econômico-financeira, foi robustecendo a base para um Estado expansionista, disciplinador e repressor (pag.199). Qual é o gesto de FHC, então, em 1975? Apresentar a ditadura como produto de uns poucos burocratas estatais, opostos em tudo à "sociedade civil," esta segunda estranhamente reduzida à burguesia liberal. Posto de tal modo o assunto, a eleição política se limitava inevitavelmente a um cardápio de duas alternativas: democracia ou autoritarismo. A aliança liberal-conservadora que levaria Tancredo Neves e José Sarney ao poder podia agora aparecer como a encarnação de uma ânsia universal de democracia.

Por isso, acredito que erram os amigos de esquerda que lamentam que FHC "traiu" os seus ideais dos anos 70. O projeto do estado mínimo, e a essa curiosa associação entre empreendedorismo estatal e excessiva concentração burocrática, com tendências ditatoriais, já estava dada em 1975. Depois desse passeio histórico, não há como manter a tese de que a saída para a democracia brasileira é uma aliança entre PT e PSDB. Essa aliança já era impossível desde antes que esses partidos fossem criados.


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PS: O blog do Noblat publicou o baile de Marcos Coimbra no Datafolha com título falso. O título correto do texto é "Pesquisas polêmicas" e não inclui a palavra "vexame".

PS 2: O blog do Josias de Souza mentiu ao dizer que no almoço de Lula na Folha de São Paulo, em 2002, onde ele foi destratado, Frias Filho não lhe havia perguntado como ele poderia governar sem falar inglês (episódio relatado por Lula no comício de anteontem em Campo Grande). Perguntou, sim. A pergunta foi relatada por Ricardo Kotscho, testemunha ocular, no livro Do Golpe ao Planalto (Companhia das Letras), publicado em 2006. Quatro anos se passaram desde a publicação do livro de Kotscho.

PS 3: A charge que ilustra o post vem do Diário do Nordeste.



  Escrito por Idelber às 05:59 | link para este post | Comentários (73)



quarta-feira, 25 de agosto 2010

Blog endossa Raul Pont para Deputado Estadual no Rio Grande do Sul

Aí vai mais um vídeo com um endosso deste blog para as eleições do dia 03 de outubro, o Deputado Raul Pont, do Rio Grande do Sul:



Se você tem candidato a Deputado Estadual e quer declarar voto ou argumentar em favor dele(a), agora é a hora. O espaço está aberto.



  Escrito por Idelber às 13:27 | link para este post | Comentários (22)



terça-feira, 24 de agosto 2010

Links

Aí vão algumas notícias e links que podem ser de interesse:

1. Se você apóia Dilma Rousseff para presidente, saiu um pdf que você não pode deixar de ter à mão. São 40 páginas com aquelas coisas detestadas ou desdenhadas pelos que só reclamam do “Fla x Flu entre petistas e tucanos”: números e gráficos. Nesse pdf você encontrará o número de empregos criados nos últimos 16 anos; o número de universidades criadas nos últimos 16 anos; a evolução da dívida brasileira em relação ao PIB; o valor do salário mínimo. Está tudim, tudim, neste pdf.

2. Você se lembra do comentário grosseiro e classista de Boris Casoy sobre os garis? Pois é, Celso Lungaretti, veterano de muitas batalhas, escreveu na época um texto de repúdio. Agora, chega a notícia de que Casoy o está processando. Lungaretti ofereceu a Casoy o direito de resposta mas, como costuma ser o caso com os funcionários dos nossos conglomerados máfio-midiáticos, não é o direito de resposta que buscam. O Biscoito Fino e a Massa está à disposição de Lungaretti para o que eu puder fazer. Já há mobilização por aí.

3. Depois da bela declaração de voto do Celso de Barros, foi a vez de Carlos Hotta escrever outro excelente Por que votarei em Dilma Rousseff.

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4. Na Argentina, o governo de Cristina Kirchner entrega à sociedade ampla pesquisa, de 400 páginas, que mostra a cumplicidade dos donos dos jornais Clarín, La Nación e La Razón com a ditadura militar instalada em 1976. É claro que eles chiaram. Em particular, o documento investiga como as ações da empresa Papel Prensa, da qual Clarín e La Nación hoje são acionistas, passaram das mãos da família Papaleo-Graiver aos donos dos três jornais citados. Quando aconteceu a transferência? Acertou, bidu, em 1976. Papel Prensa surgiu em 1972 das mãos do … Grupo Abril, sim, ele mesmo, o conglomerado máfio-midiático dos Civita. Como já é de tradição nas últimas décadas, a Argentina investiga seu passado em níveis impensáveis no Brasil. Mas para os porcalistas da Família Marinho, trata-se de “investida contra a imprensa”. Como já afirmou este blog em outras ocasiões, um dos maiores mistérios da última ditadura militar brasileira é o montante exato de dinheiro público apropriado pelas Organizações Globo. Quantos milhões de dólares passaram dos cofres públicos para a Globo sob a forma de subsídios, subvenções, isenções fiscais, propagandas do Exército ou métodos menos ortodoxos? Ninguém sabe. Precisamos urgente de uma campanha: ajude um porcalista da Globo a descobrir qual porcentagem do seu salário é paga com dinheiro público roubado pela ditadura.

5. Depois de desistir do seu candidato, a Folha de São Paulo passa a fabricar mentiras sobre a favorita. A manchete de ontem, em letras garrafais, anunciava que “Dilma estuda aperto econômico”. A manchete era falsa. Não há nenhum “arrocho” em discussão na campanha de Dilma.

6. Voltou à Internet um mito, um ídolo. Está de blog novo o Almirante Nelson.

7. Muitos devem saber que a Abert e a ANJ, que adoram capital estrangeiro exceto quando esse capital compete com eles, moveram uma ação contra o portal Terra. A ação recorre ao artigo 222 da Constituição, que limita a participação do capital estrangeiro em empresas de comunicação. A Abert e a ANJ querem, portanto, em seu próprio interesse, fazer a ginástica mental de aplicar à Internet a legislação das TVs e rádios. Parece que a ação não vai prosperar. O procurador da República Márcio Schustershitz deu parecer contrário e sugeriu o arquivamento da ação (via Coleguinhas, Uni-Vos!).

8. Momento histórico para o Brasil: está inaugurada a TV dos Trabalhadores, à qual você pode assistir online.

9. O blog convida as leitoras gaúchas ao evento desta tarde, às 18:30, com o Deputado Raul Pont (PT, 13400), no Prefácio Bar, que fica na Sarmento Leite, 1024, ali na Cidade Baixa:


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10. A cada dia impressiona mais a ignorância do candidato a vice escolhido por José Serra. Salvo erro do G1, o que é sempre possível, o Sr. Indio descobriu uma invasão americana à Colômbia em 1984 para sanar o sistema de saúde dos próprios EUA. Pior, disse que devemos fazer a mesma coisa. O que quer sugerir essa besta quadrada? Que o Brasil deve invadir a Colômbia?

11. Por falar em Serra, já são 96 horas desde que ele afirmou que o governo financia “blogs sujos”. O Cloaca News está interpelando José Serra judicialmente para que ele declare quais são esses blogs. O Biscoito se junta ao desafio: Seja homem, José Serra, e explique-nos a quais blogs você se referia.


PS: Crédito da foto: Ricardo Stuckert, no Blog do Planalto.



  Escrito por Idelber às 08:45 | link para este post | Comentários (47)



segunda-feira, 23 de agosto 2010

Dez Batalhas Chave da Esquerda nas Eleições ao Senado

1.Senado Piauí: Uma das mais auspiciosas possibilidades das Eleições 2010 é chutar Heráclito Fortes para fora do Senado. Qualquer um que saiba qualquer coisa sobre a figura entenderá a torcida entusiasmada deste blog. Típico representante da mais escrota oligarquia nordestina—que vem tendo seu domínio político solapado pelo crescimento do PT, do PSB e do lulismo na região--, Heráclito corre sério risco de ter que se candidatar a vereador ou prefeito de Teresina em 2012. Sempre lembrando que cada estado elege dois senadores este ano, os números atuais do Ibope são: Wellington Dias (PT) lidera com 42%, Mão Santa (PSC) tem 22%, Ciro Nogueira (PP) e Heráclito (DEM) pontuam nos 14% cada um e Antonio José Medeiros (PT) tem 5%. Independente das discussões acerca do “voto útil”, ou sobre se Medeiros pode crescer e brigar pela segunda vaga (o segundo candidato do PT ao Senado chegou a marcar 14% em outra pesquisa, a 180 Graus/Jales), o Biscoito endossa a corrente pra trás contra Heráclito.

2.Senado Amazonas. O números atuais do Ibope para o Senado no Amazonas são: ex-governador Eduardo Braga (PMDB) 86%, atual senador "Artur Neto” (PSDB) 43% e deputada federal Vanessa Grazziotin (PC do B) 33%. Vanessa é antiga militante dos movimentos populares no Amazonas, sua campanha vem crescendo, e há 18% de eleitores que só citaram um candidato ao Senado na pesquisa Ibope (além dos 7% de indecisos). Arthur Virgílio foi humilhado na última eleição majoritária no Amazonas (ficou na casa dos 5%) e o blog aposta que ele vai perder a vaguinha no Senado. Além do fato óbvio de que Vanessa está comprometida com o projeto popular de crescimento com distribuição de renda do governo Lula, aqui há o dado adicional de que os tucanos ficam muito mal colocados na discussão sobre a Zona Franca. Sem dúvida, seria bem emblemático eleger uma mulher feminista e comunista para tirar a vaga do senador que gosta de ameaçar bater em presidente da república (ameaça tão típica do machismo nosso de cada dia). Arthur Virgílio é a personificação do atraso e este blog coloca qualquer modesto recurso que possa ter à disposição da campanha de Vanessa Grazziotin (PC do B). Eu conheço a trajetória da candidata e endosso com entusiasmo.

3.Senado Pernambuco. Na terra em que nem Jesus nem o Pe. Cícero é mais popular que Lula, o lulismo de resultados (apud Diário Gauche) quer mostrar com quantos votos se elegem dois senadores. Eduardo Campos (PSB) está disparado para governador, humilhando o neoudenista “autêntico” Jarbas Vasconcellos numa surra de 60% a 24%. Campos deve se reeleger no primeiro turno. Os números do Ibope para o Senado são: Humberto Costa (PT) 44%, Marco Maciel (DEM) 43%, Armando Monteiro (PTB) 27%, Raul Jungmann 12%. Além do grande júbilo de de ver Jungmann derrotado, o lulismo pode emplacar dois senadores e tirar Maciel do Senado. O blog enfaticamente endossa Humberto Costa e Armando Monteiro, dobradinha que vem subindo. Cabe uma palavra sobre o candidato do PTB: ao contrário do que a filiação partidária poderia sugerir, trata-se de alguém que me sinto à vontade endossando. É advogado, não é da oligarquia atrasada, vem do empreendedorismo industrial e tem boa história parlamentar (é oriundo, inclusive, do PSDB, passou pelo PMDB e não lá ficou porque o PMDB-PE é meio inóspito para um lulista). Monteiro tem muito mais a dar aos pernambucanos no Senado que um Maciel já semi-aposentado e do lado errado da História. Sobre Humberto Costa creio que não é necessário dizer muito. Os pernambucanos o conhecem. O blog endossa a dobradinha lulista.


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4.Senado Rio Grande do Sul: Tarso Genro lidera a corrida para governador, não com folga, mas lidera. Na corrida para as duas vagas do Senado, briga de foice entre três: Paulo Paim (PT) e Germano Rigotto (PMDB) têm 39% cada um e Ana Amélia Lemos (PP) tem 38%. Ainda recompondo-se da surpresa de que uma papagaia da RBS pontue nesses níveis, o blog lembra que há 44% de indecisos (trata-se de uma “eleição de 200%”, pois há duas vagas) e que a onda dilmista com certeza está impactando o estado adotivo da candidata petista à Presidência. Conhecedor da trajetória de Paulo Paim como sindicalista, militante pela igualdade racial, Constituinte de 1988 e ativo Senador da República nos últimos anos, o blog se coloca à disposição dos amigos gaúchos para ajudar no que for possível para que ele dispare logo e assegure a primeira vaga ao Senado.

5.Senado Paraná. O tucano Beto Richa lidera as pesquisas para governador, mas há espaço para o crescimento de Osmar Dias (PDT) que, depois de inacreditáveis idas e vindas, dignas de uma novela mexicana, finalmente assumiu a condição de candidato unificado do lulismo ao Palácio das Araucárias. Para o Senado, o lulismo mantém as duas primeiras posições nas pesquisas: Roberto Requião (PMDB) tem 48%, Geisi Hoffmann (PT) tem 32%, Ricardo Barros (PP) tem 15% e Gustavo Fruet, esperança "ética" do tucanato, pontua nos 11%. O blog repudia os que afirmam que a “privatização do Banestado aconteceu há 10 anos e não há por que discutir isso agora”. Os paranaenses mais jovens têm o direito de ouvir toda a discussão: quem foi e quem não foi responsável pelo negócio que custou bilhões de reais aos cofres do Paraná. Emplacando essa discussão e mostrando a diferença de projetos entre o governo Lula e o governo FHC, a base aliada tem tudo para eleger os dois senadores. O blog está à disposição no que puder ajudar.

6.Senado Goiás: O tucanato e o peemedebismo neolulista brigam pelo governo estadual, e os números para o Senado são: Demóstenes Torres (DEM) 43%, Lúcia Vânia (PSDB) 26% e Pedro Wilson (PT) 16%. Com 47% de indecisos e 26% que só citaram um candidato para as duas vagas, tudo pode acontecer aqui. Pedro Wilson tem história e conta com o apoio deste blog. Uma sugestão enfática que fazemos é que o deputado Pedro Wilson desabilite o jingle de campanha que toca automaticamente quando abrimos o site. Quem navega na internets odeia essas coisas, Deputado. É melhor ter o jingle como uma opção que o internauta pode escolher ouvir ou não.

7. Senado Rio Grande do Norte: Rosalba Ciarlini (DEM) lidera a corrida para governador com 46% contra os 26% de Iberê (PSB). Todas as minhas fontes potiguares sugerem, no entanto, que Iberê sobe e que a eleição para governador vai para o segundo turno. Para o Senado, os números são: Garibaldi Alves Filho, do neolulismo peemedebista, tem 60%. José Agripino (DEM) tem 51% e Vilma de Faria (PSB) pontua nos 43%, Vilma é ex-prefeita, ex-governadora, é parte do efeito arrasa-quarteirão anti-demo que os socialistas têm emplacado no Nordeste, e conta com total apoio deste blog. Vilma tem um Flickr e um Twitter meio abandonados. Talvez eles pudessem ser úteis na arrancada para chutar Agripino para fora do Senado.


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8. Senado São Paulo: Não há muito o que dizer aqui. A eleição de Marta Suplicy para o Senado da República seria um momento histórico para o projeto que se aglutinou em torno de Lula, para o PT, para os movimentos populares de São Paulo, para sua população mais pobre e para as mulheres. Os números do Ibope no momento apontam: Marta com 31%, Quércia (PMDB) com 20%, Romeu Tuma (DEM) com 19%, Ciro (PTC) e Netinho (PC do B) com 18%. O Ciro do PTC deve cair um pouco (ele se beneficia da bizarra confusão de uma parte do eleitorado, que o confunde com Ciro Gomes) e há espaço para que Netinho cresça. Mas todas as fontes paulistas do blog coincidem em que seria sonhar demais imaginar que a esquerda possa levar as duas vagas, especialmente porque Netinho e Marta brigam por votos mais ou menos entre a mesma faixa da população. A prioridade total é a eleição de Marta.

9. Senado Acre: No estado em que um petismo bem próximo a Marina Silva deve eleger Tião Viana governador com folga, os números para o Senado são: Jorge Viana (PT) tem 64% e está eleito. Brigam pela segunda vaga Petecão (PMN) com 35% e Edvaldo Magalhães (PC do B), com 27%. Considerando que 29% só citaram um candidato e 25% ainda estão indecisos, o comunista, que tem tido bela atuação, possui todas as chances de abiscoitar a segunda vaga, surfando no tsunami do sapo barbudo. Edvaldo precisa, no entanto, fazer uma página na internet um pouco melhor que esta.

10. Senado Bahia:: Jaques Wagner (PT) deve se reeleger governador no primeiro turno e, para o Senado, o lulismo já garantiu pelo menos uma das duas vagas. Mas pode muito bem ficar com as duas. Os números de hoje são: César Borges (PR), o resquício do carlismo, tem 38%, Lídice da Mata (PSB) tem 25% e Walter Pinheiro (PT) tem 23%. Lídice vem do PSDB, mas há que lembrar que o PSDB da Bahia não é o PSDB de Higienópolis: o tucanato baiano foi aliado do lulismo em momentos chave da peleja anti-carlista na Boa Terra. Lídice depois solidificou essa opção migrando para o PSB. Há uma histórica tradição dos institutos de pesquisas eleitorais subestimarem o voto de esquerda na Bahia, para depois serem surpreendidos por "ondas vermelhas" no dia da eleição. A vitória de Jaques Wagner é o mais recente exemplo. O blog torce por e endossa Lídice e Walter, que vêm trabalhando em dobradinha.


PS: Como se viu, em todos os casos trabalhamos com números do Ibope. Os números do Sensus e do Vox Populi têm tendido a ser mais favoráveis às forças políticas endossadas por este blog e, em muitos casos, são depois confirmados pelo Ibope. Este blog não considera o DataFolha um instituto que satisfaça os mínimos requisitos de credibilidade hoje.

PS 2: Estes prognósticos do DIAP para o Senado sugerem o quadro que todos esperam, encolhimento do DEM e crescimento da esquerda. Falta precisar quais serão as dimensões desses movimentos.

PS 3: As fotos que ilustram o post são de São Bernardo nesta madrugada, e foram retiradas do Flickr da Dilma.



  Escrito por Idelber às 06:27 | link para este post | Comentários (52)



domingo, 22 de agosto 2010

Rodolfo Enrique Fogwill (1941-2010)

fogwill.jpg É difícil escrever o obituário daqueles em torno dos quais se cristalizaram rótulos ou anedotas redutoras. Fogwill, o desbocado, o enfant terrible, o cocainômano, o iconoclasta desmascarador dos mecanismos da má fé no mundinho literário. Fogwill, o publicitário que usa seus talentos para desprezar a publicidade e vencer na literatura. Fogwill, o poseur cheio de desafetos que soube ser atento e generoso até a última crônica. Fogwill, o excêntrico que quase todos os grandes autores argentinos da última geração cultuaram como a um mestre.

Nada disso pode obscurecer o que mais importa: Fogwill foi dos maiores escritores de um país de escritores, sem dúvida um dos mais refinados estilistas do castelhano de nosso tempo. Debochado que era, chegou a dizer que das duas horas diárias que dedicava à literatura, 85% iam para o invento e a burilada de poemas, e 15% para a sua quase universalmente admirada e elogiada prosa. Entre outras façanhas, deu forma romanesca definitiva à insanidade da Guerra das Malvinas: Los pichiciegos, relato que transcorre num subterrâneo alheio à realidade da derrota ainda desconhecida por seus habitantes (os maltrapilhos soldados argentinos), foi escrito de um tirambaço e publicado logo depois da guerra. Com 200 e poucas páginas, pôs no bolso toda uma ficção do que Fogwill chamou desaparicologia, os primeiros, tateantes intentos da literatura argentina de entender a ditadura que havia roubado as vidas de 30.000 cidadãos. “Imortalizar” é um clichê na crítica literária, mas não há melhor forma de descrever o que Los pichiciegos fez com a miséria de experiência humana que viveram os garotos enviados às Malvinas.

Sobre o mítico romance, salvo engano o único lançado no Brasil, Fogwill contou:

Nessa época eu morava no décimo andar, minha mãe no quinto. Eu descia, ao meio-dia e à tardinha, para filar algo, e a televisão estava ligada o tempo todo. Essa foi a minha única relação com as Malvinas. E no trampo... Eu tinha estado em cana, e me contrataram de diretor de criação de uma agência de publicidade que era da família do presidente (Roberto) Viola, que ostentava todas as contas publicitárias das empresas em que tinha havido intervenção do governo ... [Los Pichiciegos] foi um experimento mental. Eu me disse: 'sei de ...'Eu sabia muito do Mar do Sul e do frio, porque sofri muito frio navegando. Sabia da molecada, porque eu via a molecada. Sabia do Exército Argentino, porque qualquer um que tenha prestado serviço sabe. Cruzando essa informação, construí um experimento ficcional que está muito mais próximo da realidade do que se me tivessem mandado às ilhas com um gravador e uma câmera fotográfica no meio da guerra. Com o imediatismo dos fatos você se perde.

*************

Logo que chegou a notícia da sua morte, pedi à minha amiga Paola Ehrmantraut, doutora em literatura com tese da qual tive a honra de ser leitor, que me enviasse umas linhas sobre o romancista, contista e poeta que ela estudou tão bem. Disse Pao:

Para mim será sempre o escritor do espaço fechado, o que se animou a comprimir o ambiente e deixar que os personagens solucionem o resto. N'Os Pichiciegos, ele mesmo se colava entre as páginas e entre memórias do único sobrevivente daquela caverna sufocante. Lá estava Fogwill como testemunha tangencial de seus experimentos de compressão (claro, sempre esquivo e diagonal, já que, bom lutador, lançava golpes laterais). Eu gostava dos contos de Muchacha Punk e Música Japonesa, porque eram sólidos, os personagens como linhas em planos, traçados sem dúvidas, com o pulso firme.


***********

Como introdução à escrita de Fogwill, ofereço a tradução de minhas estrofes favoritas do Chamado aos maus poetas:

Precisa-se de maus poetas.
Boas pessoas, mas poetas
ruins. Dois, cem, mil maus poetas
se necessita mais para que estalem
as dez mil flores do poema.

Que neles viva a poesia,
a desnecessária, a fútil, a sutil
poesia imprescindível. Ou o in-
verso: a poesia necessária
a prescindível para viver.

[...]

Tudo isso abunda: faltam os poetas
os mil, os dez mil ruins, cada um
armado com seu livro de merda. Faltam,
seus ensaiozinhos e seus romances em preparação
Ah ... e os currícula,
e seus dez mil applys nos faltam.

Não é a morte do homem, é uma grande ausência
humana de maus poetas. Que floresçam
cem milhões de tentativas abortadas,
releituras, chatices,
pastas de cartolina, ilustrações
de gente amiga, jantares
com gente amiga, exegeses, escólios,
tempo perdido como tudo.

Precisa-se de poetas gay, poetas
lésbicas, poetas consagrados à questão do gênero,
poetas que cantam a fome, o homem,
o nome de seu bairro, a arte e a indústria,
a estabilidade das instituições,
a mancha de ozônio, o buraco
da revolução, a greta ácida
das mulheres, o pulsar
inaudível do pentium e a guerra
entendida como continuação da política
do comércio,
do ócio de escrever.

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Fogwill será velado hoje, na casa dos grandes. Que ele durma bem e que as editoras brasileiras acordem.



  Escrito por Idelber às 06:01 | link para este post | Comentários (12)



sábado, 21 de agosto 2010

Serra e Folha: Decadência de um modelo de manipulação midiática

Há algumas diferenças entre a campanha presidencial de 2006 e a deste ano, e uma das mais notáveis é a perda de influência dos setores da mídia que apostaram numa compreensão unilateral da informação. Esse (des)entendimento da informação como uma avenida de mão única é parte da explicação do colapso da candidatura de José Serra e do baile sociológico-estatístico sofrido por um de seus suportes, o DataFolha. Eles apostaram no mundo velho.

Desde o princípio, a candidatura de Serra optou por um modelo de relação com a informação: a opção pela compra da boa vontade dos oligopólios de mídia com contratos públicos em São Paulo, a truculência na direção da TV Cultura e a forte tendência autoritária, censora, de ligar para redações pedindo cabeça de jornalista ou de reagir agressivamente a qualquer pergunta indócil, questionadora. Essa tendência se manifestava tão mais claramente justo quando o Sr. Serra e a direita brasileira insistiam que o governo federal “censura” a mídia, como se não soubéssemos o que a imprensa brasileira publica sobre o Presidente Lula.

Superestimando o poder dos conglomerados máfio-midiáticos do país, Serra apostou neles as suas fichas e perdeu. Foi mais um de seus muitos erros, numa lista que inclui a sucessão de trapalhadas na escolha de um Vice que ele nunca vira, a modorrenta e ególatra espera à qual submeteu a si e seus correligionários antes de se candidatar, a ingênua ideia de que poderia dar xeque-mate em Aécio simplesmente esperando sentado em sua cauda de pavão, o privilégio ao método de bastidores, conchavos e guilhotina em vez do embate de peito aberto na pólis. Não são esses, no entanto, os motivos de sua derrota, como sabe qualquer interessado em política brasileira que não viva em Marte. O motivo básico de sua derrota é só um: o povo quer continuar o governo Lula e quem continua o governo Lula, segundo o próprio, é a Dilma. Assim de simples.

Por isso, é de uma desfaçatez inominável que a Folha faça um editorial de cônjuge traído, chilique de cornudo(a) que se sente abandonado(a) pelo seu candidato, o mesmo que a Folha teimosamente insiste em não endossar em editorial. Lendo a Folha de hoje, não há como não fazer a pergunta: como é possível que ela não soubesse que essa seria a estratégia, que esses “erros” de Serra, afinal de contas, não são simples erros, mas consequências necessárias da própria concepção de política de Serra nos últimos tempos? Descobriram agora que ele é autoritário, não ouve ninguém, adora conchavos e tem tendência ao autismo político? Onde estiveram nos últimos vinte anos em que lhe ofereceram apoio, editorialistas da Folha? Ou vocês não enxergaram antes porque estavam lá nos bastidores dos conchavos também? Que tal agora descobrir que Serra tem uma política de comunicação baseada no unilateralismo, na troca de favores com os oligopólios e com a distorção mentirosamente neutra da informação? Que tal, por exemplo, fazer uma investigação e revelar como é possível que três funcionários ou membros do PSDB sejam "sorteados" para fazer perguntas num debate aí na sua própria cozinha, Folha? Que tal avançar nas descobertas, Folha?

Continue lendo "Serra e Folha: Decadência de um modelo de manipulação midiática" no site da Revista Fórum.


PS: A atriz mineira Débora Vieira busca patrocínio para um projeto de espetáculo teatral que tem muito boa pinta. Aqui vai o link para o pdf do projeto. Se quiser ajudá-la, é só escrever a debora.o.vieira arroba gmail ponto com.



  Escrito por Idelber às 05:31 | link para este post | Comentários (66)



sexta-feira, 20 de agosto 2010

Autocrítica do dunguismo de esquerda

Durou uma semana a promessa de não falar de futebol. Diante do bicampeonato colorado da América, da linda exibição da Seleção de Mano Menezes aqui nos EUA e umas reflexões minhas posteriores à Copa do Mundo—competição da qual eu assisti a todas as partidas, incluindo aquele imortal Paraguai x Japão--, tenho um ou dois centavos a acrescentar às discussões sobre o período de Dunga na Seleção, especialmente acerca da relação do futebol com a política.

Dizendo na bucha o que o post veio dizer: acho que muita gente, não só de esquerda, mas principalmente da esquerda, incluindo este blogueiro, pecou contra a memória do grande futebol e de Telê Santana ao emprestar apoio a uma Seleção autoritária, evangélica e castradora, pelo simples motivo de que Dunga resolveu, em alguns momentos, confrontar o poder opressivo com que as Organizações Globo mandam no futebol brasileiro. Nessa disposição—a de igualar o acesso de todas as emissoras ao time, por exemplo—não há nada com o que discordar. Isso é louvável e talvez tenha sido a única coisa boa que Dunga fez na Seleção. Mas no momento em que isso se manifestava na agressão verbal a um jornalista numa coletiva (evento em que só um lado, a priori, tem microfone), passava a ser escroto e injustificável, mesmo que o jornalista tivesse provocado com muxoxos ou sorrisos irônicos. Como o poder da Globo é, de verdade, muito daninho, e posto que combatê-lo tem sido tarefa tão inglória no futebol, muitos, eu incluído, aceitaram jogar fora o bebê precioso do bom futebol (e da civilidade!) junto com a água suja do combate à Globo. Até nos dispusemos a esquecer que, evidentemente, o técnico da Seleção não significa nada nesse combate enquanto Ricardo Teixeira continuar mandando na bagaça.

Falando por mim mesmo, como sempre é o caso no blog, e sem a menor ideia de se algum dia terei companhia, me penitencio: perdoai-me, Senhor, porque dunguei. Só restam o júbilo de que o blog estava parado durante a Copa e o texto definitivo de Mary W, que explica o porquê da dungagem entre pessoas como eu.


robinhowho.JPG


Fico à vontade para fazer a autocrítica aqui porque já levei duas surras argumentativas vindas de pessoas qualificadas, de quem posso dizer que tenho orgulho de ser amigo: José Miguel Wisnik, autor do melhor livro sobre futebol jamais escrito na terra do futebol, e o Dr. Sócrates, capitão do melhor time brasileiro dos últimos 40 anos. Em Londres para o Festival Literário (onde acabei trabalhando de intérprete simultâneo no debate dos dois), o Zé Miguel, pessoa de fala mansa e pausada, que nunca esbraveja, chegou ao limite da sua ênfase, em inesquecível perorata pra cima de mim. A palavra "imperdoável" foi usada. Eu, calado, ouvia e absorvia, porque estava 100% errado e ponto. O Zé havia estado certo o tempo todo, mesmo enquanto a Seleção de Dunga conquistava seus títulos e eu vociferava contra os “negativistas”. Na Copa América, como muitos brasileiros, torci contra a Seleção, mas na competição seguinte, ao ver a virada de 3 x 2 sobre os EUA, numa TV do aeroporto de Confins, eu já havia dungado.

Na Copa, o Brasil jogou um futebol sofrível, deixou na Baixada Santista seus mais criativos jogadores, optou por não ter mexidas táticas no banco, cultivou um irritante proselitismo evangélico, se transformou num amontoado de volantes de passes laterais e eliminou da língua portuguesa a possibilidade de que se use, sem ironia, a palavra “comprometimento”. É um dano considerável. Para piorar, perdeu entrando em insólito colapso emocional na partida contra os holandeses, previsível para aqueles que, como Zé e Sócrates, vinham fazendo a crítica do modelo imposto na Seleção, surpreendente para aqueles que, como eu, havíamos dungado. Eu nunca tive ilusões de que Dunga tinha uma grande equipe, mas confesso que jamais esperei que os caras pirassem daquele jeito ao levar o gol de empate numa partida que dominavam. Depois entendi o porquê: Desequilíbrio emocional, mentalidade igrejeira, feroz repressão e falta de bola mesmo.

Desejo que muitos leitores do blog possam um dia ter a experiência de ouvir o Dr. Sócrates numa mesa, com a cervejinha, dizendo o que significa ganhar, porra? O que é ganhar? Ganhar não é porra nenhuma, não significa nada. Como Dunga, além de peitar a Globo, vinha ganhando tudo, a combinação foi sedutora para mim, e eu terminei esquecendo-me dessa lição por um ano. Inexplicavelmente, torci por essa Seleção de 2010 com intensidade inédita desde 1986. Não há nada de condenável nisso em si, claro, mas desta vez aconteceu pelos motivos errados.

Esta semana, vendo o brilho dos meninos do Mano Menezes naquele espétaculo de um 2 x 0 com sobras em cima dos EUA, recheado de tabelas em alta velocidade, jogadas surpreendentes, passes não óbvios, lançamentos de visão, dribles, alegria de jogar, enfim, eu pensei cá comigo: seria legal deixar uma autocrítica da minha dungagem.

Ei-la aqui, dedicada ao Zé e ao Magrão. Prometo não voltar a pecar.


PS: O que acharam da Copa?



  Escrito por Idelber às 08:48 | link para este post | Comentários (53)



quinta-feira, 19 de agosto 2010

Diálogos no Formspring

Num dia em que as duas grandes notícias foram o protesto de Elba Ramalho pela falsificação de sua voz no programa de Serra e a fuga desesperada de Serra, com estudantes ao seu encalço, depois do debate no Tuca, não há muito mais que comentar sobre a campanha. O que é da ordem da informação imediata eu tenho compartilhado lá no Twitter.

Dando pausa nos textos sobre a campanha, então, aproveito para copiar e colar aqui a sequência de algumas conversas que tive com leitores lá no Formspring. Como saberá a maioria, o Formspring é um serviço que lhe permite fazer perguntas anonimamente a pessoas cadastradas lá. Nos últimos dias, recebi aproximadamente 200 e, destas, respondi 123. Se você é autor de uma das que sobraram, minhas desculpas. Aos outros leitores, espero que a montagem que segue faça sentido. Ela junta, para facilitar a leitura, perguntas que lá na página do Formspring estão dispersas, mas que são momentos de uma mesma conversa. Aí vão, separadas por tema. A caixa está aberta para a conversa sobre qualquer um deles, ou sobre outras perguntas já respondidas lá no Formspring.

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Conversas sobre moral e política:

Você pode explicar um pouco melhor o que é "moralização da política"?
"Moralização da política" é uma expressão que eu, pelo menos, sempre uso precedida do termo "discurso" ou "retórica". Ou seja, não é uma realidade existente, é um papo. É aquele papo de que "tem que acabar com a safadeza destes políticos que estão aí". É o discurso preferido dos sonegadores de impostos e subornadores de guardas de trânsito em lugares como o Leblon, Barra da Tijuca, Higienópolis e Mangabeiras.

O que seria "reduzir a politica à moral"? Isso é ruim? Por quê?
Ver a resposta abaixo sobre ser "nietzscheano em moral", para ver por que eu considero reduzir a política à moral um desastre escabroso.

Vc é marxista?
Em política, sim. Em psicologia sou freudiano, em ética espinosista, em moral nietzscheano, e em visão de mundo "geral", Weltanschauung, sou atleticano.

O que significa ser nietzscheano em moral e espinosista em ética? Obrigado.
Bem, acho que a Genealogia da Moral é um livro que deixa mais ou menos claro o que é ser nietzscheano em moral: é não acreditar que ela exista como fenômeno fundante e/ ou eterno. É não acreditar que existam essências como "o bem", "o mal" ou "o justo" em si mesmas. Para Nietzsche, primeiro há uma guerra, uma pancadaria, uma luta. Na origem, sangue. 

Depois dessa luta de caráter político, os vencedores estabelecem o que é "o bem" ou "o justo". A política funda a moral, não o contrário. Entender isso é ser nietzscheano em moral. 

Não vou me estender sobre o que é ser espinosista em ética mais além de sublinhar: a ética de Espinosa é uma ética radical (vai à raiz, é imanente, não precisa de nenhuma "muleta" transcendental) que privilegia a potência e a liberdade. Nisso, para além de toda a polêmica acerca do que é "Deus" em Espinosa, ela é uma ética radicalmente ateia.

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Sobre Trótski:

Por que Trotsky como referência?
1. Porque Trótski foi acima de tudo um cosmopolita. 

2. Porque Trótski foi, ao mesmo tempo que militante, escritor e polemista. Aliás o único, eu diria, em toda a tradição marxista, que foi escritor de verdade. 

3. Porque ele nunca traiu, da forma grosseira que outros traíram. Pode ter errado pra cacete, mas foram atos de ordem diferente. 

4. Porque foi o cara que encarnou a tradição dos vencidos, pensou o problema da derrota, que é um problema central para todos os que se consideraram revolucionários no século XX. E viveu a vida coerentemente com isso, como um derrotado. 

5. Finalmente, porque foi quem se manteve relevante. Você lê os livros doutrinários de Plekhanov e cia. hoje e não se aproveita nada. Mesmo Lênin (seus livros, não sua história) é algo irrelevante hoje. Você lê os livros de Trótski e há ali pensamento vibrante, é algo que te força a matutar. Minha Vida é uma das autobiografias mais reflexivas do século XX, sem dúvida. 

É nesse sentido que eu me digo "trotskista", claro. Não no sentido de que eu ache que a Quarta Internacional tem a verdade sobre a luta de classes, ou algo do tipo.


Na sua resposta à pergunta sobre Trotsky como referência, você diz "pode ter errado pra cacete, mas foram atos de ordem diferente.". Em que você acha que Trotsky errou?

Errou em 1921, mandando abater os marinheiros grevistas "como perdizes". Foram erros que favoreceram a burocratização. Pode ter errado também ao se isolar demais na época da IV Internacional, mas em meio a tantas desgraças não dá pra esperar que o sujeito seja o melhor estrategista.

Mas Trotsky estava certo no que se refere ao modelo de Estado que queria criar e aos rumos que queria para a Revolução?
Ninguém pode estar "certo" ou "errado" no que se refere a um modelo que o sujeito esperava realizar, mas não realizou. Como julgar o que o passado sonhou para o futuro se o sonho passou bem longe do que efetivamente aconteceu? Estar "certo" ou "errado" se aplica a algo que o sujeito histórico efetivamente fez, não ao que ele declarou como esperança para o futuro. 

Enquanto pôde "fazer", enquanto esteve ao leme (1917-1924), acho que Trótski acertou. Mas também acho que "acertar" e "errar" não se aplicam ao que ele imaginou depois que seria o comunismo quando realizado. Isso aí é algo que cumpre o papel de ficção constitutiva pro cara, não é algo ao qual se aplique "acertar" ou "errar": é o horizonte que torna possível o pão com manteiga da política cotidiana. Jefferson, Napoleão ou Robespierre também não "acertaram" no que sonharam para o futuro. O que não tira de nenhum desses sonhos o seu valor. 

É como eu vejo a coisa.

Porque alguns ex-trotskistas se tornam direitistas de "destaque" (R.A., Magnoli, Neocons)? Há algo no próprio trotskismo que permita "explicar" essa passagem?
Rapá, é dos mistérios mais complexos que existem. Teria que se fazer um estudo. Por um lado, acho que é porque os trotsquistas costumam ser muito hábeis com a palavra, bons polemistas, mas ao mesmo tempo figuras muito minoritárias. Se você juntar a isso a arrogância de que está treinado para achar que tem a verdade sobre a luta de classes, a potencialidade de endoidar pro outro lado é grande .

Mas reconheço que essa é uma análise simplista e muito mais coisa teria que ser dita.

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Sobre a famosa metáfora do Fla x Flu:

Você acha mesmo que não há nada de bom no PSDB? Ninguém? A política no Brasil não anda muito chata com este Galo x Cruzeiro?
Não existe nenhum Galo x Cruzeiro. O PT tem a preferência de 26% dos eleitores brasileiros e a soma de todos os outros partidos não chega a isso. O PSDB não passa de 5%. Não existe nenhum Galo x Cruzeiro ou Fla x Flu. Existe um Inter de Milão x Madureira. Trate de adequar suas metáforas à realidade, minimamente. Para isso estão os números do IBGE.

Há alguém bom no Madureira? Ou só na Inter de Milão? rs
Existem jogadores de caráter no Madureira. Mas não é isso que importa. O que importa é o que o time, como um todo, fez em campo. E o que esses caras fizeram em campo entre 1995 e 2002 foi um desastre.

Torço para o Madureira. Mas acho você um cara correto. Acho que há gente boa e ruim de todo lado. Abraços e parabéns pelo espírito democrático. Abs.
Concordo que há gente boa e ruim de todo lado! Mas também acho que esse fato não pode obscurecer a observação tática de como o time está jogando, o que ele quer no jogo. Forte abraço.

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A mesma pergunta pessoal, feita em dois tons diferentes (e, portanto, respondida de formas diferentes):


Li que está nos Eua ha cerca de 20 anos. Pq não lecionar e desenvolver pesquisa aqui no Brasil?
Teria sido um prazer e uma honra começar a carreira numa universidade federal brasileira e essa era minha expectativa quando comecei a pós-graduação aqui nos EUA. Em 1996, quando terminei o doutorado, as federais brasileiras simplesmente não estavam contratando. Sabe como é? Era aquela época em que se falava de "desmontar a Petrobras osso por osso". 

Aí tive ofertas para ficar aqui e agora, com condições excepcionais de trabalho nos EUA (que me permitem inclusive passar quase a metade do meu tempo no Brasil), não me interessa voltar, no momento. Mas desejo encerrar a carreira no Brasil, dentro de década e meia, por aí.

Não é meio hipócrita ser marxista e ir trabalhar...nos EUA? Por q vc não vai pra China, Cuba, Coreia do Norte...?
Ora, por uma razão muito simples! Há muitos mais marxistas nos EUA que em Cuba, China ou Coreias! Falo sério mesmo: se você se interessa por debates interiores à teoria marxista, não há melhor lugar para se estar hoje que os EUA. E lembre-se que os EUA tomaram medidas dignas de Estados Unidos Soviéticos da América em pleno governo ... . Bush!

É óbvio que moro nos EUA porque aqui tenho melhores condições de trabalho, graças ao fenomenal sistema universitário deles. Lei da oferta e da procura, manja? Aquela coisa que os liberais anticomunistas adoram evocar. 

Mas não se avexe: graças às políticas do governo Lula (e à crise dos EUA), a greta entre os salários e condições oferecidos no sistema universitário americano e no brasileiro está encurtando muito. E o Brasil está começando a repatriar os seus cérebros, muitos de seus doutores perdidos durante a era FHC: eu sou um deles. 

E quanto até trotsquistas barbudos que são professores titulares em universidades de elite americanas (com direito a 1/3 do tempo no Brasil de graça!) começarem a ter motivos estritamente egoístas, econômicos pra voltar ao Brasil, pessoas como você vão ficar sem discurso, porque se nutrem de um rancor bobo, de Guerra Fria, que as afasta completamente de Jesus.



  Escrito por Idelber às 06:25 | link para este post | Comentários (31)



quarta-feira, 18 de agosto 2010

Baile de Dilma no primeiro dia de TV; Serra inventa a favela de plástico

Já se esperava que os programas de TV de Dilma Rousseff e José Serra mostrariam um tremendo contraste de competência. Essa lavada tende a acontecer há tempos na política brasileira: o PT (e sua coalizão de esquerda: PSB, PC do B, PDT) tem feito programas de TV superiores aos dos outros partidos, e isso é simplesmente da ordem do fato. O Brasil chegou a proibir cenas externas numa campanha presidencial por puro medo de que o povo visse Lula nos lugares reais em que o povo vive (isso numa época em que Lula tinha 35, 40% de popularidade; hoje ele anda na casa dos 85%). Agora imagine: um país faz rede de televisão nacional para dar a conhecer seus candidatos, mas proíbe a exibição de imagens do próprio país. Hoje, sem essa proibição, depois de sete anos e meio de presidência Lula, mostrar o Brasil, mostrar o Brasil de antes e o de hoje é tudo o que governo terá que fazer na televisão para eleger sua candidata. Fez, no primeiro dia, muito mais: Dilma deu uma homérica surra televisiva em Serra, num contraste de qualidade (e autenticidade e verdade) de programas de TV que permanecerá como marco na história das campanhas eleitorais no Brasil.

Ex-prefeito da cidade e ex-governador do estado que têm o mais alto número absoluto de favelados no país, Serra conseguiu inventar o programa com a favela de plástico, numa constrangedora montagem de estúdio que lembrou as chanchadas da Atlântida. Atenção, estudantes e pesquisadores das áreas de ciências humanas e sociais! Quando aparecerem aqueles frankfurtianos-adornianos dizendo que tudo o que a indústria cultural e a TV produzem é manipulado e mentiroso, não se esqueça de dar mais uma volta na dialética deles e contraargumentar que até mesmo a mais deslavada mentira (a favela de plástico de Serra) não deixa de trazer em si profunda verdade (a verdade sobre o que é a candidatura Serra, ou seja, a sua impossibilidade de realmente visitar e estar numa favela brasileira). Poucas vezes na história dos programas político-eleitorais uma falsificação foi tão reveladora da verdade. Decupado pelo Brizola Neto, aí vai o clipe desse imortal momento de chanchada mágico-fantástica:



Mas o programa de Serra não mentia apenas na construção da favela de estúdio. Neste mesmo clipe de 20 segundos, você encontra duas outras escabrosas mentiras, uma política e uma pessoal. Mentira número 1: o jingle dedica mais tempo ao nome do presidente ao qual o candidato fez oposição, ou seja, de má fé ele tenta associar o candidato a uma figura política que não é da turma dele, e à qual ele se opõe desde 1982. 2: o jingle mente sobre o nome do próprio candidato, que é José Serra, jamais encurtado para "Zé" na política, e sim para "Serra". Sobrenome até se muda, mas o nome? Como assim, depois de 50 anos de vida pública ele vira "Zé"?

Muito poderia se escrever sobre a imensa superioridade técnica do programa de Dilma: trabalho de câmera, qualidade das imagens externas, edição do filme, multiplicidade de ângulos e tomadas, trabalho com a luz—essa lista não está nem próxima de ser exaustiva. Aconteceu um baile de dramaturgia e cinematografia, sras. e srs. Mas ele não chega nem perto do baile político que ocorreu:







Como notou o Marco Aurélio Weissheimer, o programa de Dilma destacou o significado histórico de uma candidatura. De cara, aniquilou a possibilidade de qualquer outro factoide com a militância anti-ditatorial de Dilma. Encarou o tema de frente, falou dele com orgulho, trouxe o testemunho de ex-companheiras de cela e alinhavou pela primeira vez, na história pós-1989, a ditadura militar e a memória como temas legítimos numa eleição presidencial. Foi histórico, porque ao falar de si Dilma falou também do coletivo, contou aos mais jovens um passado que eles não viveram. Foi, ao mesmo tempo, um ato verdadeiro e um golpe preventivo: tente agora, Revista Veja, inventar um factoide do tipo Grupo de Dilma discutiu assalto a banco em 1969; tente agora, Folha de São Paulo, desenterrar outra ficha policial falsa enviada como spam. Querem falar de 1969? A campanha respondeu: assistam a esse programa, esse pronunciamento, e aí a gente fala de 1969, e de 1971 também. O jogo agora é outro, baby.

(Ao colunismo da grande imprensa, partidário mas que não se assume como tal, apresentando-se sempre como pretensamente neutro, restou torcer para que o povo não tenha dois documentos para votar, ou torcer que um milagre em Minas Gerais leve a eleição ao segundo turno--Minas, aquela "república independente das Alterosas", cuja "lingua", o mineirês, Serra já declarou não entender muito bem.)

No programa da noite, estabelecida a candidata, comoventemente contada sua história, apresentada como mineira-gaúcha que é (temperada de ampla experiência de Brasília), foi o momento da entrada de Lula. Sua entrada estabelece o contraste que interessa a Dilma, entre o que foi o Brasil de FHC, com Serra ministro, e o que tem sido o Brasil de Lula:





Logo depois que as primeiras reações ao contraste televisivo se espalhavam pela internet, saíram os números da pesquisa Vox Populi, dando Dilma com 16 pontos na frente, por 45 x 29. Nas goleadas do futebol, há sempre um momento em que o jogo "sai do controle", e qualquer tentativa de empate vai virando tentativa de manter em derrota em números aceitáveis. 17 de agosto bem pode ter marcado esse momento da partida para a candidatura de José Serra, tão equivocada desde o começo, tanto em sua estratégia como em sua concepção de Brasil. Seus programas de TV só confirmaram essa verdade, mesmo quando mentiam.



PS: Caríssimos em Goiânia, o blog convida a que liguem na Mostra de Cinema Árabe, que acontece aí nos dias 27 e 28 de agosto.



  Escrito por Idelber às 05:14 | link para este post | Comentários (26)



terça-feira, 17 de agosto 2010

Blogs e política, links, livros, Dilma

* Acho que os dois grandes blogs desta eleição têm sido o Tijolaço, do Deputado Brizola Neto e o Na Prática a Teoria é Outra, do Celso. Ambos, com conteúdo original e frequente, fazem um contraponto à péssima imprensa, formada basicamente por Monday morning quarterbacks, ou seja, comentaristas redundantes do acontecido. No reino destes últimos, a novidade é que até o Josias desembarcou da candidatura Serra.

* Alô meninos, alô mães e pais, alô apreciadores da boa literatura infantil: Seguindo este link e clicando na imagem você baixa O Reinado de Bené, de Andressa Gonçalves e Paulo Morais, ficção que se nutre da memória oral dos reinadeiros de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito de Divinópolis. A orelha foi escrita por Ana.

* Por falar em orelha, Elvis e Madona, sensacional melodrama underground de Luiz Biajoni, sai em breve com orelha minha, parcas linhas relatando o quanto me diverti com o livro. Biajoni é uma luminosa inteligência pop da internet brasileira, e eu me orgulho de ter dito isso lá atrás.

* Uma diferença entre a eleição de 2006 e a de 2010 nos blogs é que uma matéria como a da Época antes seria tema de inúmeros posts com denúncias de manipulação e má fé que se arrastariam durante dias. Vivemos agora em outra temporalidade. A reação é instantânea. Um naco imenso da população já sabe que a baixaria é manipulada, e assim as paródias pululam imediatamente. Dois exemplos são a mudança em massa de avatares dos tuiteiros, adotando a imagem da Dilma na revista, ou esses belos trabalhos do Abunda Canalha:

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* Já recomendei aqui, mas não custa ressaltar que o Por que votarei em Dilma Rousseff, do Celso, é um banho de números. Cito o parágrafo demolidor: A pobreza caiu algo como 43%. Vou dizer com palavras, para não dizerem que sou cabeça-de-planilha: a pobreza no Brasil caiu quase pela metade. Rodrigo Maia, escreva essa frase no quadro cem vezes. Mais de 30 milhões de pessoas (meia França, não muito menos que uma Argentina inteira) subiram às classes ABC. Cortamos a pobreza extrema pela metade (mas ainda é, claro, vergonhoso que tenhamos pobreza extrema). A desigualdade de renda caiu consideravelmente: a renda dos 10% mais ricos cresceu à taxa de 3 e poucos % na Era Lula, enquanto a renda dos mais pobres cresceu mais ou menos 10% ao ano, as famosas taxas chinesas. E tem uns manés que acham que os pobres votam no Lula porque são ignorantes ou mais tolerantes com a corrupção. Dê essas taxas à nossa elite e o Leblon inteiro tatua a cara do Zé Dirceu.

* Pretendo gravar pelo menos dois outros vídeos, endossando o Deputado Raul Pont (PT, 13400) para a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul e a Deputada Jô Moraes (PC do B, 6565), para a Câmera dos Deputados por Minas Gerais, antes de fazer o meu Por que votarei em Dilma. Impossível escrever outro na mesma semana que o do Celso.

* Se você apoia Dilma para Presidente, saiba que já está no ar o blog oficial Dilma na Rede, que é de conteúdo colaborativo: você se cadastra e escreve, cria comunidades etc. Se já está lá, visite meu perfil e adicione. Se ainda não entrou, entre. Está bem feita a coisa.

* Vai rolar agora em São Paulo o Primeiro Encontro de Blogueiros Progressistas, com muita gente boa. Prometo estar aí em espírito.

* Aí vai uma explicação sobre uma mudança na página inicial do blog: muitos leitores já me disseram que ficavam perdidos no imenso blogroll. Fiz uma listinha de “Indispensáveis”, que são simplesmente os blogs em que clico primeiro no Greader. É no intuito de orientar quem chega ao mundo dos blogs. É uma lista que vai variar, evidentemente. Ela também inclui blogs maravilhosos que pararam, como o Ao Mirante, Nelson e a Palestina do Espetáculo Triunfante, ou que quase pararam, como o Pensar Enlouquece. Estão lá os outros lugares na web em que saem textos meus: a Fórum (com periodicidade), o Sul 21 e a Agência Carta Maior, todos eles espaços com os quais tenho orgulho de colaborar.

* Por falar em indispensáveis, mais uma vez o Leandro Fortes dá uma aula de verdadeiro jornalismo, mostrando como o caso Lunus—de exposição do dinheiro (que era mesmo ilegal) no comitê de campanha de Roseana Sarney, em 2002, em ato que dinamitou sua candidatura—tinha todas as digitais do governo Fernando Henrique e, explicitamente, de José Serra. E agora a Revista Veja quer requentar a denúncia para culpar .. quem? O PT, claro. Tudo isso com o profissional que investigou o fato escrevendo na internet e mostrando que FHC esperou até tarde o fax de confirmação do sucesso da operação, que as bestas dos arapongas enviaram da própria empresa investigada! O jogo agora é outro, baby.

* Convido a todos a que circulem o resultado de uma colaboração de blogueiros. O Trabalho Sujo publicou alguns adesivos geniais feitos por Tom Scott para satirizar o pseudo-jornalismo. Eu os traduzi e tanto o Branco Leone como o Tiagón compuseram imagens com a tradução. Aqui vai o pdf do Tiagón, com as versões em português dos selinhos satíricos: (Atualização:o Alexandre Matias dá o link a um arquivo jpeg muito melhor que o meu, feito pelo Thiago. Agora sim, dá pra circulá-lo por aí).

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* Se você é um dos (três ou quatro!) que já trollou este blog vituperando se você é tão marxista por que vai trabalhar nos EUA? Por que não vai pra Coreia ou Cuba?, a espera valeu a pena: regozijai-vos, irmãos, eis aqui vossa resposta.

* Como este blog jamais se furtou a celebrar o fato de que tudo, absolutamente tudo é possível de ser dito na internet, deixo-os com este inacreditável post: o Datafolha é parte da conspiração para eleger a Dilma, diz um blog. E viva o direito de ser doido! (via Alex Castro).

* É claro que a notícia do dia foi que até mesmo segundo o IBOPE, amigo maior da Globo, instituto dirigido por aquele Montenegro que dizia que o teto de Dilma era 15 ou 20, a danada já disparou, está se aproximando dos 50 e abriu vantagem de dois dígitos. Tudo isso antes do sapo barbudo dos 86% de popularidade aparecer na TV pedindo voto pra ela.

* A vida de Serra anda tão difícil que ele foi a Porto Alegre e, em extraordinário ato falho, se referiu à governadora (sua aliada combalida e sem chances de ser reeleita) como Yeda “Cruzes”. Está tudo no blog do Milton Ribeiro, com fotos impagáveis. Não satisfeito, Serra chegou de madrugada e tuitou que em São Paulo fazia ainda mais frio que no Rio Grande! Pouparemos o ex-governador de uma leitura freudiana, mas Nassif anda depenando o coitado com requintes de crueldade.



  Escrito por Idelber às 03:39 | link para este post | Comentários (19)



segunda-feira, 16 de agosto 2010

A estupefação dos vestais: Sobre "Ficha Limpa"

Os vestais da moralidade que formaram a base de sustentação cidadã da Lei “Ficha Limpa” estão estupefatos. Perplexos, constatam que a lei não mudou o Brasil! Que surpresa, os corruptos estão todos por aí! Já sancionada por Lula, a lei gerou 1.080 impugnações de candidaturas, 19 delas definitivas. Salvo desatenção deste blogueiro, nem um único dos mais visíveis apoiadores da lei até sua sanção—seja pessoa física ou jurídica--veio a público comemorar, saudar, aprovar ou celebrar em qualquer tom os resultados do “Ficha Limpa”. Suspeito que é porque os resultados são um desastre, e nem de longe autorizam a suposição de que encaminham o que os seus autores esperavam, ou seja, a tão propalada moralização da política (em nome da qual a coalizão de apoio ao “Ficha Limpa” aceitava dar uma pisadinha no Artigo 5o, inciso LVII, que estabelece a presunção de inocência na Carta da República).

O Supremo, claro, já avisou que vai dar uma protelada na palavra final, no que faz muito bem: a sociedade que permitiu que geringonça tão flagrantemente inconstitucional se impusesse como lei deve arcar durante algum tempo com as consequências. Os resultados práticos, até agora, são o que se sabe: Heráclito Fortes conseguiu liminar com Gilmarzão—de pouca monta, porque Heráclito vai perder no voto—enquanto que o vereador Aldo Santos, do PSOL de São Bernardo do Campo, que utilizou um automóvel da Câmara em apoio a um ato do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, num uso claramente legítimo do mandato, se encontra, no momento, impedido de concorrer. Paulo Maluf, claro, continua com a “Ficha Limpa”. É possível recitar um rosário de semelhantes inconsistências nos resultados do “Ficha Limpa” quase no país inteiro.

Como há muita confusão até hoje (maior entre os apoiadores do “Ficha Limpa”), é importante oferecer à leitura o texto da Lei Complementar n. 135/2010, e ressaltar que ela não retira a elegibilidade como consequência de condenações “em primeira” ou “em segunda instância”, posto que a lei não usa esse vocabulário da instância. Ela declara inelegíveis:

os que tenham contra sua pessoa representação julgada procedente pela Justiça Eleitoral, em decisão transitada em julgado ou proferida por órgão colegiado, 

Ou proferida por órgão colegiado, bidu, é o pedacinho chave, claro. Para incontáveis brasileiros, um “órgão colegiado” pode ser a primeira instância. Qualquer prefeito que for a julgamento por improbidade administrativa já o será por órgão colegiado. É inacreditável, mas quase ninguém que apoiou o “Ficha Limpa” sabia que estava concedendo ao Tribunal de Justiça do Maranhão, por exemplo, a prerrogativa de facto de declarar unilateralmente quem é e quem não é elegível no estado. Coisa boa não podia dar. Legislavam para o Brasil como se estivessem legislando para a Holanda.

Depois de derrubado o argumento de que o Projeto—agora Lei--"Ficha Limpa” moralizaria, ou contribuiria para moralizar, a política brasileira, restaram três fundamentações principais audíveis por aí, todas bastante frágeis, me parece. Elas são: 1. o argumento de que mesmo que se considere a presunção de inocência como um princípio a se respeitar e se concorde que o “Ficha Limpa” a contradiz, há que se temperar esse princípio com outros, como a probidade e a moralidade do legislador ou executivo público; 2. o argumento de que a Lei não contraria a presunção de inocência porque ela não estabelece nenhuma pena, mas tão somente um critério de elegibilidade, algo assim como ser alfabetizado; 3. o argumento (no fundo uma variação mais tosca do anterior) de que não se está contrariando a presunção de inocência, posto que se trata aqui de uma matéria eleitoral e não penal.

Os sofismas em que repousam todos eles são visíveis. Começo pelo último, que é o mais primário: ora, se está sendo retirada a elegibilidade de alguém como base num processo penal em andamento, não adianta dizer que a Lei “Ficha Limpa” não estabelece que o cara vá em cana, mas só o declara inelegível, para daí argumentar que a matéria é só eleitoral e não penal. Evidentemente, se a perda de direitos ante a Justiça Eleitoral ocorre por causa de um processo penal, e se o raio do processo penal está em andamento, como é possível que se diga ah, não estamos desrespeitando a Constituição, pois não falamos aqui de matéria penal e sim eleitoral? A Lei “Ficha Limpa” concede poderes penais à Justiça Eleitoral antes da conclusão do devido processo penal. E aí seus apoiadores contra-argumentam dizendo que o babado não é penal, mas eleitoral? Caríssimo profissional do Direito e da Justiça apoiador do “Ficha Limpa”, se quiser me demonstrar que não há uma falácia, um sofisma aqui, sou todo ouvidos.

O segundo argumento (de que a Lei não contraria a presunção de inocência porque ela não estabelece nenhuma pena, mas tão somente um critério de elegibilidade, como ser alfabetizado ou ser brasileiro) também sofisma: ser alfabetizado ou não ser estrangeiro são características da pessoa e não têm qualquer conteúdo discriminatório como requisito de elegibilidade. Nós, como sociedade, através dos representantes eleitos para a Constituinte de 1986 (Carta de 1988) decidimos, por exemplo, que para ser presidente da República é necessário ser brasileiro nato, naturalizado não vale. Para ser Senador, é necessário ter pelo menos 35 anos de idade, para ser Governador, 30, etecétera. Tudo isso pode mudar por emenda constitucional, claro, mas é o que está lá no momento. Esses requisitos são coisas completamente distintas de uma condenação em uma instância da Justiça Eleitoral, algo da ordem da opinião de outrem que, enquanto não transitada em julgado, não pode acarretar culpabilidade ou retirada de direitos. É estapafúrdia a comparação entre ser brasileiro nato ou alfabetizado, por um lado, e a ausência de condenação provisória, em processo em trânsito na Justiça Eleitoral, por outro. Equipará-los como requisitos de elegibilidade é um exercício de comparação entre maçãs e naves espaciais.

Finalmente, o sofisma em que repousa o argumento 1 é de caráter temporal: ok, admite-se, a presunção de inocência constitucional é, sim, violada pela Lei “Ficha Limpa”, mas ela não é o único princípio presente na Carta. Há outros e, baseados na verdade incontestável de que não existe direito absoluto (na medida em que qualquer direito pode, hipoteticamente, entrar em conflito com outro, situação na qual o juiz terá que ponderá-los e decidir), teríamos que reconhecer que os princípios, por exemplo, da probidade e da moralidade do administrador público também deveriam entrar nessa ponderação e temperar o princípio da presunção de inocência, relativizando-o.

Mas mesmo que você aceite que a presunção de inocência deve ser relativizada, o argumento continua absurdo: pois se a falta de probidade e moralidade para administrar a coisa pública só pode ser declarada depois de encontrada a culpabilidade, e se esta por definição não pode ser declarada se o processo está em andamento, como é possível temperar o princípio da presunção de inocência com uma violação que ainda não existe, ainda não pode ser declarada existente de outro princípio? A Lei “Ficha Limpa” tampouco faz o menor sentido como ponderação de dois princípios constitucionais.

O blog saúda os que tiveram a coragem de se manifestar criticamente ante esse projeto desde o princípio, como Marco Aurélio Weissheimer e Túlio Vianna , e absolutamente não se surpreende com a estupefação dos vestais. Sabíamos, desde o começo, que o “Ficha Limpa” era primo do “Cansei” e do “Não reeleja ninguém”.

Como sempre é o caso nos posts sobre Direito e Justiça, são bem-vindos quaisquer profissionais da área que queiram me explicar se estou dizendo alguma bobagem. Tão bem-vindos como quaisquer outros que queiram opinar, já que a lei afeta a todos, na medida em que restringe nossa possibilidade de votar em quem queiramos. O blog esclarece que continua usando o termo "Ficha Limpa" entre aspas, mesmo depois de sancionada a lei, posto que segundo a Constituição do Brasil não há "Ficha Suja" até trânsito em julgado de sentença penal condenatória.

PS: Estou gostando muito (por enquanto) do Formspring, e já deixei mais de 60 perguntas respondidas por lá. Há umas 40 na fila.

PS 2: Em poucas horas, a blogosfera deu uma resposta fulminante à "matéria" de porcalismo feita pela Revista Época sobre Dilma Rousseff. O blog Na Prática a Teoria é Outra fez um dos melhores posts do ano e para completar Celso emplacou o Por que votarei em Dilma Rousseff lá no Amálgama. Nada a acrescentar a esses dois brilhantes textos.



  Escrito por Idelber às 07:11 | link para este post | Comentários (65)



sábado, 14 de agosto 2010

Sobre o conflito colombiano

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Este post foi inspirado por um comentário da Ana Paula a um texto anterior. Agradeço à Ana Paula pela interlocução.

Saltam aos olhos nas discussões mais histéricas da direita sobre a Colômbia alguns fatos, vários deles óbvios pra quem olhou o assunto com um mínimo de interesse:

No conflito colombiano, o dinheiro da droga financia todos os lados, incluindo paramilitares e Estado. Falar de “narcoguerrilheiros” com relação às Farc é tão correto como falar de “narcoparamilitares” e “narco-estado”. É, digamos, correto num sentido (na medida em o dinheiro da droga é o eixo do financiamento) e incorreto em outro (na medida em que aqueles grupos cumprem vários outros papeis, que vão além do narcotráfico e não se resumem a ele).

À direita não interessa a reintegração pacífica das Farc, porque isso acarretaria a perda do seu bicho-papão, o desaparecimento da suposta ameaça que, sabemos, convoca toneladas de grana americana, através de projetos como o Plan Colômbia--emblema do estrepitoso fracasso que é a "guerra as drogas". Com o péssimo histórico de intervenção norte-americana na Colômbia, as coisas pioram ainda mais. As iniciativas de desarmamento com as que concordaram as Farc durante o governo de Belisario Betancourt (1982-86) resultaram em assassinatos de milhares de ex-guerrilheiros reinsertados: um enorme naco de todos os ex-combatentes que toparam ser candidatos ou líderes comunitários. O estado colombiano chegou ao ponto de chacinar líderes das Farc desarmados que se dirigiram a um encontro de negociação: o tipo de crime de guerra que teria horrorizado a qualquer um, de Napoleão a Clausewitz a Churchill. Ao longo das últimas décadas, a Colômbia viveu no que poderíamos chamar a Democracia dos Esquadrões da Morte. Tudo isso com dinheiro americano enviado para o exército sendo canalizado, direto, às mãos de paramilitares, processo documentado nas ligações de Ever Mendoza (codinome HH) e Mario Montoya, general colombiano condecorado em Washington.

Os colombianos sabem que a raiz do problema é o reconhecimento de que a Colômbia não vive uma “guerra ao terrorismo” (essa é uma “guerra” declarada pelos EUA, num estranho uso do termo, diga-se), mas um estado permanente de guerra civil. Esse condição, ao contrário do que sugeriu recentemente um ignorante editorial do Estadão, não começa com as Farc. Quando estas surgem, o conflito já tem pelo menos 15 anos. De forma que é totalmente enganoso e mentiroso dizer que "os colombianos estão sujeitos ao terror das Farc há 40 anos". Se o Estadão quiser fazer historiografia, tem que voltar a outra data: 9 de abril de 1948, assassinato de Jorge Eliécer Gaitán, candidato liberal à Presidência, que vinha promovendo um esforço de paz para retirar a Colômbia do estado em que ela vivia desde o século XIX, o de intermitentes guerras civis (no século XIX foram quatro que atingiram dimensão nacional: 1876-77, 1885-86, 1895, 1899-1902).

Quando surgem as Farc, nos anos sessenta, já são mais de dez anos de matanças generalizadas na Colômbia. As Farc não eram o que são hoje: surgem como reação compreensível de autodefesa de camponeses e trabalhadores rurais, temperados de guevarismo, como todas as guerrilhas da época. Com o tempo, o isolamento e o beco-sem-saída do conflito, as Farc enveredaram pelo caminho que se conhece: o sequestro, o banditismo comum, as relações com o dinheiro da droga. Não é, hoje, evidentemente, um projeto que alguém de bom senso possa “apoiar” em qualquer sentido. Mas só por ignorância ou má fé se pode imaginar que esse era o caso em 1965.

Nas últimas décadas, as Farc são responsáveis por atrocidades e crimes. Mas em qualquer levantamento das atrocidades colombianas, bem mais de dois terços dos horrores são perpetrados por paramilitares e Estado (e, pior, às vezes pelas duas forças conjuntamente). Até os relatórios das gringuíssimas agências de direitos humanos mostram isso.

Ninguém em sã consciência vai "apoiar” as Farc, mas elas são um dos atores armados a se sentar à mesa de negociação. Elas têm 60 prisioneiros. 600 dos seus homens estão em cárceres do estado. Uma enorme proporção dos que se desarmaram e se converteram em “reinsertados” foi vítima de assassinato. É óbvio que, dado o histórico da Colômbia, algum tipo de garantia de segurança é o básico para qualquer ator armado que se desarma. Esse foi um dos eixos de processos de paz como o da Irlanda do Norte. Mas enquanto o conflito colombiano for entendido com a língua estadunidense da “guerra ao terrorismo”, isso não acontece. Porque com o “terrorista” você não se senta.

Enquanto a solução definitiva de paz não acontece, no Brasil uma direita irresponsável e um jornalismo pedestre, ignorantes da diferença entre Medellín, Bogotá, Cali e Barranquilla, ficam brandindo termos como “narcoterroristas”, sem incentivar nenhuma saída que não seja mais violência. Fazem isso agora, sabemos, por puro desespero político-eleitoral. Vêm enganando, felizmente, um número cada vez menor de incautos.



  Escrito por Idelber às 20:23 | link para este post | Comentários (25)



sexta-feira, 13 de agosto 2010

O vexame de Bonner e um aniversário de 21 anos

Este blogueiro inicia hoje uma colaboração semanal com o site da Revista Fórum. Um trecho de cada um desses posts será publicado aqui, seguido de um link para que você termine a leitura no site da própria revista.


William Bonner e Fátima Bernardes com certeza não terão percebido a ironia involuntária, mas os grotescos espetáculos das entrevistas (agressiva e mal educada) com Dilma Rousseff e (subserviente e omissa) com José Serra marcaram a “maioridade”, por assim dizer, o vigésimo-primeiro aniversário da manipulação mãe de todas, a fabricação de outro debate Lula x Collor (diferente do debate que aconteceu) nas salas de edição de vídeo das Organizações Globo em 1989. O show de grosseria com Dilma e o show de subserviência com Serra foram indicação de que tudo continua o mesmo na Globo, mas tudo mudou no mundo que a rodeia. O seu poder de moldar a realidade nem de longe é o mesmo.

Aqui, como em qualquer outro campo, não convém ceder ao otimismo exagerado. De todos os conglomerados máfio-midiáticos do país, Globo é o único que mantém inegável capilaridade nacional e poderes de fogo e de barganha. Não é absurdo supor que ela foi a principal causadora da ida das eleições de 2006 para o segundo turno, com as bombásticas fotos ilegalmente obtidas de um delegado da Polícia Federal, cuja exibição exigiu que o Jornal Nacional ignorasse o maior acidente aéreo da história do Brasil.

Mas de 1989 a 2006 a 2010 o país cumpriu um ciclo, amadureceu e não é absurdo supor também que, para a maioria dos telespectadores da entrevista com Dilma Rousseff, tenha sido William Bonner quem “pagou o mico”, pareceu sem argumentos, desequilibrado e anti-jornalístico.

Termine a leitura de "O vexame de Bonner e um aniversário de 21 anos" no site da Fórum, e depois volte aqui se quiser comentar.



  Escrito por Idelber às 17:41 | link para este post | Comentários (29)




Pato Fu, Música de Brinquedo

Como é que ninguém tivera essa ideia antes? Escolher um grupo de canções “adultas” (mas com algum apelo infantil, em geral na melodia), juntar instrumentos de brinquedo—pequeno set de bateria, baixo, piano, guitarra, xilofone, mas também autoramas, bichinhos de pelúcia, joguetes eletrônicos de primeira geração--, explorar as possibilidades deles, amplificar a bagaça, convidar um par de crianças e daí produzir versões dessas músicas: é a proposta do Música de Brinquedo (2010), décimo disco de estúdio do Pato Fu, banda mineira na ativa desde 1992. O Pato Fu é Fernanda Takai, John Ulhoa, Ricardo Koctus, Xande Tamietti e Lulu Camargo. John, guitarrista, é veterano da vanguarda roqueira belo-horizontina dos anos 80 e ex-integrante do Sexo Explícito. Fernanda é vocalista que já deixou marca na música brasileira popular de hoje.

Em Música de Brinquedo, essa espécie de viagem gulliveresca produz situações insólitas, como a de um microfone ser duas vezes maior que o amplificador do contrabaixo. A brincadeira é o aprendizado do som possível com aqueles instrumentos, acrescidos de sons de outros brinquedos. Um texto de John Ulhoa explica a concepção do disco:

A ideia pareceria absurda há poucos anos. No entanto, desde o CD Daqui Pro Futuro (2007) começamos a flertar com sons de caixinhas de música, realejos, pianos de brinquedo… Em algumas de minhas produções recentes usei muitos desses instrumentos, muitos comprados como presente à nossa (minha e de Fernanda) filha de 6 anos, mas que acabavam invariavelmente na frente de um microfone na sala de gravação do estúdio que temos em casa.

Um projeto como esse é mais complicado que um disco comum. A começar pelos próprios instrumentos. Não só são mais difíceis de se tocar, mas também de se encontrar. Nem todos os instrumentos de brinquedo são “tocáveis” e separar as tranqueiras das verdadeiras jóias é uma empreitada e tanto. Bastante pesquisa foi feita em lojas, oficinas artesanais e sites. Eu, por exemplo, em qualquer viagem que fiz nesse período, voltava com a mala cheia de cornetas de plástico, tecladinhos eletrônicos baratos e qualquer tipo de traquitana que pudesse fazer um som e tivesse um apelo infantil.

Mas esses arranjos de brinquedo teriam um efeito muito mais potente se aplicados a canções conhecidas. Aí é que estava a graça, que ficou muito clara quando fizemos “Primavera”: colar essa sonoridade em clássicos do pop, recriar todas as frases melódicas de músicas que não fossem só conhecidas, mas que tivessem arranjos emblemáticos. O que procuramos é o prazer de ouvir velhas canções adultas em seus arranjos originais, tirados praticamente nota por nota, só que com instrumentos de brinquedo. E assim fizemos. Descobrimos quais seriam estas canções. Foi mais difícil do que a gente pensava. Eram muitos os pré-requisitos que as candidatas tinham que trazer. Mas estão aí, e estamos muito orgulhosos de como ficaram ao final.

Entre as várias faixas possíveis, ficam aí como aperitivos as escolhas do blog das versões do Pato Fu (e crianças) para “Live and Let Die”, de Paul e Linda McCartney:

e Primavera (Cassiano e Sílvio Rochael), nesta com o adendo de que se você foi criança nos anos 80 é possível que reconheça algum brinquedinho aí:

Está no YouTube também o Making of (Parte 1 e Parte 2), que é uma graça.

O que Pato Fu realiza aqui não é bem "música para crianças", mas música adulta que convida adultos a uma audição infantil, encantada: o tipo de coisa de que muitas crianças costumam gostar também. É um marco entre os lançamentos de 2010.



  Escrito por Idelber às 06:24 | link para este post | Comentários (19)




Blog endossa Dr. Rosinha para Deputado Federal no Paraná

Inicio hoje a publicação de uma série de vídeos com declarações de voto para as eleições do dia 03 de outubro. Eu voto em Minas Gerais, mas incluirei alguns endossos a Deputados Federais de outras unidades da federação, cujo trabalho eu tenho acompanhado de perto nos últimos anos. Meu primeiro recado vai para os amigos paranaenses e meu endosso é do Doutor Rosinha, do PT (1313). Aí vão minhas razões:




Este espaço está aberto para que você declare seu voto na próxima renovação da Câmara dos Deputados, desde que seja em seu próprio nome, sem fazer cópia/cola (spam) de material de campanha já disponível alhures. Outras declarações de voto minhas virão por aí.



  Escrito por Idelber às 02:03 | link para este post | Comentários (30)



quinta-feira, 12 de agosto 2010

José Serra mente até sobre sotaque

Evidentemente, a última coisa que um professor de línguas/literatura, não importa de que posição política, deve fazer com as recentes declarações de José Serra—de que “não entende” sotaques em Minas Gerais, Goiás e Pernambuco—é acreditar nelas. Sim, porque a afirmativa de que é possível que um brasileiro alfabetizado como Serra viaje pelo Brasil e tenha problemas de comunicação oral, por culpa de variações dialetais do português brasileiro, é uma afirmativa comparável a “Serra criou os genéricos”, ou seja, trata-se pura e simplesmente de uma mentira, encapada, como outras, com uma camada de típico preconceito classista da República Morumbi-Leblon.

Isso não existe no Brasil. Serra estava mentindo. Vamos à sociolinguística elementar que nos permite mostrar por que ele estava mentindo.

Claro que estão certos os colegas acadêmicos mineiros entrevistados na matéria de Juliana Cipriani para o Estado de Minas: variações dialetais existem e um ato de comunicação aqui ou acolá pode tropeçar nessas variações, em combinação com o ruído do ambiente e outros fatores. Mas a afirmativa de que possa existir uma dificuldade sistemática, genuínos problemas de compreensão oral de um brasileiro viajando pelo país é um disparate. O brasileiro comum sabe disso intuitivamente, não é necessário ser da área de Letras. Quando Serra alega incompreensão de sotaque, ele está combinando uma mentira com um preconceito, uma desculpa esfarrapada para não ouvir o outro acoplada à real crença—real, ainda que amparada numa mentira—de que o outro não tem nada de importante a dizer.

Por mais que um alemão possa testemunhar que a variação dialetal da Bavária lhe causa problemas de compreensão, ou por mais correto que seja supor que um cidadão dos cafundós do Alabama e alguém do norte da Escócia, falando a “mesma” língua inglesa, poderiam não se entender, no Brasil isso não existe. Se há uma coisa que distingue o Brasil de outros países de extensão comparável é a sua assombrosa unidade linguística (com “unidade” aqui, claro, o único que se quer dizer é que todos falam, com incontáveis variações sócio- e idioletais, reconhecidamente a mesmíssima língua). Se você é falante nativo de português nascido no Brasil, a afirmativa de que “não entenderá” o sotaque de tal ou qual lugar é uma patacoada. É como aquele brasileiro que sai “para a América” e um ano depois diz que “esqueceu o português”.

Por isso, a segunda coisa que um professor de línguas/literatura não deve fazer com a afirmativa de Serra é ceder à tentação de dar-lhe lições de sociolinguística do português brasileiro e passar-lhe um atestado de ignorância. É verdade que a República Morumbi-Leblon continua não sabendo nada de Linguística, mas aqui não se tratava de ignorância. Era má fé mesmo, no seco.



  Escrito por Idelber às 10:24 | link para este post | Comentários (57)



quarta-feira, 11 de agosto 2010

José Serra e seu descompasso com o mundo

As declarações feitas por José Serra sobre política externa ao longo da campanha impressionam por sua irresponsabilidade, truculência, ignorância, xenofobia, belicismo, leviandade, provincianismo, estreiteza de visão e isolacionismo. Postas em prática como política de Estado, seriam receita certa para que o Brasil jogasse no lixo boa parte do prestígio internacional que acumulou durante os últimos anos. Com levianas referências ao Irã, aos vizinhos-irmãos do Mercosul e à vizinha-irmã Bolívia, o Sr. José Serra demonstrou seu total despreparo para suceder o Presidente Lula como porta-voz do Brasil no mundo. As recentes acusações ao PT, de manter “relações” com as Farc, mostram que o candidato do PSDB optou por tentar mobilizar o ódio como cabo eleitoral. Não costuma dar certo.

Na RBS, no dia 06 de maio, em meio a uma das vitórias mais expressivas da história da diplomacia brasileira, José Serra saiu-se com a pérola de que “Eu não receberia nem visitaria o presidente Ahmadinejad. Mas manteria com o Irã relações normais, comerciais”. O gênio José Serra quer inventar jabuticaba jamais vista na história da diplomacia: relações “normais” nas quais um dos lados se permite estabelecer de antemão que não recebe nem visita o outro. Com que autoridade ele vem dizer que não recebe nem visita um chefe de nação importante, reconhecido como legítimo por toda a comunidade internacional? Será pura tentativa de mobilizar o ódio e a xenofobia para dividendos eleitorais, esse alinhamento com uma posição que só o estado de Israel e as piores forças políticas dos EUA continuam mantendo? Se ainda restasse a Serra um mínimo de humildade e disposição de ouvir e aprender--coisa que não tem faltado a Lula--, ele teria se lembrado de que há mais história em um milímetro cúbico de cultura persa que em toda a pobre coalizão que o sustenta, formada pelo rancor de uma pequena parcela da classe média brasileira, algumas oligarquias anacrônicas e o intelectualmente indigente e eticamente enlameado pseudo-jornalismo das Globos, Vejas e Folhas.

O Brasil é um país jovem, de importância crescente, e os melhores momentos de sua excepcional diplomacia se deveram sempre à opção por paz, autodeterminação dos povos e disposição ao diálogo. E vem esse Sr. dizer que não conversa com o chefe político da milenar civilização persa? Com que direito? O presidente brasileiro recebe e visita até mesmo o chefe do estado israelense, que mantém há 43 anos a mais longa e brutal ocupação militar estrangeira da era moderna, marcada por violações a dezenas de resoluções da ONU. E José Serra quer ganhar votinhos às custas da demonização do presidente do Irã, país que nunca invadiu ninguém e onde o Brasil é visto como nação amiga?

Os insultos aos países vizinhos são, a curto prazo, de consequências ainda mais graves. Em declaração à FIEMG, José Serra qualificou o Mercosul como uma “farsa”, para depois tentar consertar o desastre dizendo que era necessário “flexibilizá-lo”. O candidato ainda não explicou como se procede para flexibilizar uma farsa, mas é nítida sua hostilidade aos pilares da integração política pacífica da América do Sul. Exímia desmontagem dessa verdadeira farsa que é a sequência de declarações de Serra sobre o Mercosul já foi feita por Martín Granovsky, analista internacional argentino, com fatos, números e argumentos (em texto disponível em português, na tradução de Katarina Peixoto para a Agência Carta Maior). Com elegância, Granovsky lembra a José Serra o óbvio: “a chave da estabilidade sul-americana é a sólida relação entre a Argentina e o Brasil”; com as políticas de integração do Mercosul, ambos cresceram e diminuíram a pobreza, sendo pouco afetados pela crise que vem devastando países como a Grécia, a quem se impõe agora o mesmo “remédio” do FMI, de tão nítida lembrança para brasileiros e argentinos que viveram sob FHC e Menem. Na América Latina, quem mais sofreu a crise recente foi o México, justamente o país que optou por não diversificar seu comércio exterior e atrelar-se aos EUA.

A acusação de José Serra ao governo boliviano, de cumplicidade com o tráfico de cocaína, é episódio gravíssimo, sobre o qual o governador deve desculpas e/ou explicações. É de uma cegueira sem fim. A declaração é desprovida de qualquer tipo de provas, aposta na confusão ignorante entre folha de coca e cocaína, e estimula a xenofobia e o racismo. Seja qual for a política que você defenda para as drogas ou seu grau de apoio à integração e à colaboração sul-americanas, a acusação feita por José Serra é um desastre de relações internacionais. Se olhasse um pouquinho para a história da Bolívia, o Sr. Serra teria uma dimensão do ineditismo que é a existência de um governo democrático estável, que combina crescimento e redução da desigualdade no país.

O mais recente episódio foi a desastrada acusação de seu vice, Indio da Costa (DEM), ao PT, segundo a qual o partido estaria “ligado” às Farc e ao narcotráfico. Tentando depois corrigir o desastre, José Serra limitou a acusação à suposta relação do PT com as Farc, salientando que estas, sim, traficam drogas. O fato mais óbvio sobre o conflito colombiano o Sr. Serra não tem coragem de mencionar, claro: o dinheiro da droga financia todos os atores políticos armados, incluídos os paramilitares e setores do próprio aparato estatal. Até mesmo a direita hispano-americana reconhece que não há solução possível para o conflito colombiano sem que todos os atores políticos se sentem à mesa de negociações. Com José Serra no comando do país, poderíamos renunciar a qualquer protagonismo brasileiro na resolução do problema. Podemos, inclusive, esperar que a posição brasileira seja a de piorar ainda mais a situação de conflito. Seria uma ruptura com as melhores tradições da nossa diplomacia. As recentes conversas entre Hugo Chávez e o recém eleito Juan Manuel Santos Calderón mostram o acerto da escolha do Itamaraty e do governo Lula nessa área.

José Serra tem todo o direito de defender a política externa que seu partido executou nos anos 90, de alinhamento automático e subordinado com os Estados Unidos. Que ele tenha a coragem de colocá-la ao veredito do eleitorado brasileiro. Mas que tenha um mínimo de responsabilidade. Nossa condição de país pacificamente integrado com seus vizinhos, solidário com seu crescimento e bem quisto nos quatro cantos do mundo é um tesouro por demais precioso para que se brinque com ele em nome de um mero, e passageiro, desespero eleitoral.



  Escrito por Idelber às 18:43 | link para este post | Comentários (45)




Vindicação de Joaquim Barbosa

joaquim-barbosa-stf.jpg Se você acha que a matéria do Estadão sobre o Ministro Joaquim Barbosa e a reação raivosa que ela estimulou em (felizmente limitadas) comarcas não tem absolutamente nada a ver com raça, nada a ver com o Ministro ser o primeiro negro da Suprema Corte deste país de negros e mestiços, se você realmente acha que o órgão de imprensa da família Mesquita--quero dizer, dos credores da família Mesquita--não estava mandando um recado, chamando a atenção do negro desobediente que ousou (em licença médica por não poder sentar-se) ser visto de pé num bar, se você, de verdade, acha que o episódio em nada se relaciona com nosso clássico racismo cordial, se você pensa que essa inédita invasão da privacidade de um ministro do STF não tem nada a ver com Barbosa ser negro, aí, caríssimo leitor, só resta a este blog pedir-lhe que pingue um colírio, esfregue os olhos e mire de novo o seu entorno. O episódio é o suprassumo do classismo racista de uma elite que esperneia de forma tão desproporcional à (infelizmente limitada) perda de privilégios que experimentou sob o governo Lula. Como o Deputado Brizola Neto já se fartou de demonstrar acerca de outras matérias neste ano de aposentadoria do Biscoito, a matéria do Estadão é mais um episódio de porcalismo feito sobre um factoide, um nada, mais um capítulo da putrefação desse lixo que ainda responde pelo nome de "os três jornalões".

A matéria do Estadão foi publicada sem que o jornalista ouvisse o Ministro ou entrevistasse fontes ligadas a ele, coisa que eu pude fazer em questão de minutos, sem estar vinculado a qualquer grupo de mídia, munido só de internet e fone, a milhares de quilômetros do Brasil. O problema médico do Ministro Barbosa o impede de sentar-se, posição em que sente muita dor. Ele foi visto em pé, num bar, e a fotografia mal intencionada não conseguiu sequer registrar o acompanhamento da cachacinha que permitiria à reporcagem aludir ainda mais diretamente ao mito racista que a sustenta, o do neguinho rebelde e indolente que ousa tirar uma folga médica, que tem a petulância de viver sua vida enquanto se trata.

Joaquim Barbosa é aquele que disse algumas verdades a Gilmar Mendes, e é também o relator do processo do chamado mensalão, condição na qual chegou a ser incensado pela insuspeita Veja. Nem o mais delirante pefelê diria que não tem sido um magistrado rigoroso. Agora, que a estratégia já não é incensá-lo, mas fritá-lo, o jornalismo do Estadão descobre que há casos acumulados com juízes do Supremo, que há lentidão no Poder Judiciário brasileiro, que existem--oh, céus!--processos na gaveta. É uma piada pronta comparável a um adversário de Sarney ser condenado no Maranhão por abuso de poder econômico.

Na nota de Joaquim Barbosa à imprensa, ele foi menos incisivo do que poderia ter sido, a exemplo do histórico mas tímido direito de resposta do PT à Veja. Ambos se limitaram à defesa, quando poderiam (até juridicamente falando) ter atacado. Nenhum dos dois, evidentemente, chegou aos calcanhares do melhor direito de resposta de todos os tempos. Este blog não os culpa por isso. A conjuntura hoje é diferente da época em que Brizola conseguiu fazer valer o direito de enfiar a verdade goela abaixo da Globo.

Curiosamente, não há nenhum jornalista brasileiro que tenha feito o levantamento de quantos processos estão parados nas gavetas dos outros nove membros do STF, já que o grande escândalo era o backlog de Barbosa. Mas o texto do Ministro Joaquim é suficiente para que confiemos: ele não vai se calar. Ele sabe que seu papel é epocal. Este blog, que tem longo histórico de dar seus pitacos não-especialistas sobre matérias referentes a Direito e Justiça, presta ao Ministro Barbosa sua solidariedade e convida o jornal da família Mesquita--digo, dos credores da família Mesquita--a considerar a possibilidade de que um pedido de desculpas, em editorial, esteja na ordem do dia.



  Escrito por Idelber às 01:34 | link para este post | Comentários (74)



terça-feira, 10 de agosto 2010

Reinauguração

Este espaço afasta as teias de aranha e reabre as portas amanhã, quarta-feira, 11 de agosto. Obrigado pelas muitas manifestações de apreço pelo blog oferecidas no último ano. Como as postagens foram interrompidas para o trabalho acadêmico, suponho que seja de bom tom dar notícias sobre o que rendeu este último ano. Há dois livros meus no prelo, já entregues às editoras, que serão publicados no ano de 2011 (sim, para quem se acostumou à temporalidade da internet, dizer que o ritmo das editoras universitárias é lento compete com o eufemismo do século).

Brazilian Popular Music and Globalization Citizenship, volume que co-organizei com Christopher Dunn, sai no começo do ano que vem por Duke Press, reúne ensaios de 18 pesquisadores (metade brasileiros, metade norte-americanos) sobre as relações entre vários momentos da música brasileira e a produção, ou o cerceio, da cidadania. Não há lançamento brasileiro previsto, mas o livro sai em capa mole e deve ter bom preço da Amazon. Convido desde já aos que leem inglês a que deem uma conferida, no primeiro semestre de 2011.

Figuras da Violência: Ensaios sobre ética, narrativa e música popular sai pela Editora UFMG, também em 2011. É um livro diferente e bem mais longo que aquele que saiu em inglês, embora dele aproveite alguns ensaios. Gostei do resultado final e quero estar no Brasil para lançá-lo ano que vem.

Também está no prelo um livrinho meu sobre a Palestina Ocupada, pequena brochura paradidática de 200 páginas feita para a Editora Publisher. Aproximadamente 2/3 do livro estão escritos e a Publisher, sim, será rápida na produção, de forma que é possível que ele saia este ano ainda.

Começo a preparar agora um livro sobre masculinidade na literatura, que deve demorar um par de anos para tomar corpo, pelo menos.

Fora disso, estive publicando uns artigos sobre o escritor argentino Gustavo Ferreyra em livros nos EUA e na Europa, sobre direitos humanos ali (texto disponível na íntegra) e alhures, sobre cânone literário em revistas chilena (texto disponível na íntegra) e mato-grossense-do-sul, estive palestrando em lugares interessantes como Incheon e Seul, na Coreia, e li pra cacete, além, claro, de escrever uma coluna mensal na Fórum, que uma parte dos leitores deste blog acompanhou. Foi um ano produtivo.

Dado o contexto do Brasil de hoje, o blog vai tratar pesadamente de política, mas promete pelo menos uma dose de literatura / cultura / música / filosofia por semana. É muito difícil que eu volte a falar de futebol nesta bodega, mas essa promessa já foi feita e quebrada antes. Os velhos posts em que eu compartilhava links de outros blogs desaparecerão, pois isso agora se faz no Twitter. Abri também uma conta no Formspring, serviço que permite que você faça perguntas de forma anônima.

Haverá ajuda para que eu libere os comentários rapidamente.

Nesta madrugada entra o primeiro texto desta segunda reencarnação do Biscoito.



  Escrito por Idelber às 17:59 | link para este post | Comentários (137)