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terça-feira, 31 de agosto 2010

Blogueira convidada: Sexismos à parte, por Marjorie Rodrigues

O texto de hoje é de autoria de minha amiga Marjorie Rodrigues. Ele é inédito e foi escrito a convite do Biscoito.

*********

Devo confessar que, no começo do ano, estava um pouco apreensiva em relação a como seria cobertura jornalística das eleições presidenciais. “Podem esperar que vem muito sexismo por aí”, cheguei a twittar. Afinal, teríamos uma situação inédita: duas mulheres entre os três candidatos mais bem colocados nas pesquisas – sendo que uma delas representa o governo que a imprensa, tomando para si o papel de oposição, tanto tem se esforçado para derrubar.

Vale lembrar que a participação das mulheres na política brasileira ainda é muito tímida. Os partidos dizem ter dificuldades para cumprir a cota de 30% de candidaturas femininas. Creio que este é um problema, acima de tudo, cultural. As mulheres se candidatam pouco e as pessoas têm desconfiança em votar nelas, em grande parte, devido à idéia de que mulher “não serve” para política. De que os homens são racionais e as mulheres, sentimentais. De que o comando econômico e político é território masculino, enquanto às mulheres cabe o campo da domesticidade, do cuidado de crianças, doentes e idosos; às mulheres cabe à moda, o enfeite, o supérfluo. Enquanto não rompermos com a idéia arcaica e rígida de que há coisas “de menino” e coisas “de menina”, acredito que o aumento de mulheres em cargos eletivos será um caminho árduo.

Enfim. A imprensa é um dos meios que formam o imaginário coletivo. Portanto, é um dos meios pelos quais é disseminada esta mensagem de que mulher não serve para governar. As últimas eleições presidenciais americanas, as quais acompanhei com bastante entusiasmo, tiveram duas mulheres em posições de destaque (Hillary Clinton e Sarah Palin) e foram um show de preconceito de gênero.

Logo, não pude deixar de pensar: como seriam as nossas eleições, nós que temos uma mídia que escancaradamente nos reduz a bundas, nos compara a objetos, dá espaço a vozes ultraconservadoras e ridiculariza o movimento feminista? Como seriam as nossas eleições, nós que temos uma mídia desenfreada, monopolizada, que fala o que quer e muito raramente é punida por isso? Como seriam estas eleições num país cujos principais humoristas acham racismo e sexismo o cúmulo do cool?

Já no ano passado, as perspectivas não eram das melhores. Há cerca de um ano, o jornalista Marcelo Coelho publicou em seu blog um texto em que media o sex appeal de várias mulheres na política. Jorge Pontual fez o mesmo no twitter, embora tenha voltado atrás e pedido desculpas. Ruth de Aquino caiu no ridículo de entrevistar um psicanalista para dar bronca nos tiques e trejeitos “pouco femininos” de Dilma: “abaixa esse dedo em riste! Seja mais delicada!”. Então, pensei: “ai, ai, ai. Se a coisa já tá assim agora, imagine quando a campanha começar pra valer?”.

Bom, de fato, a mídia não me decepcionou. Sexismo há, e muito. O trio Estado-Folha-Globo (para não citar os jornais regionais, menores, que pegam carona na cobertura destes) fez reportagens de, no mínimo, meia página sobre as roupas, a maquiagem e as transformações estéticas das candidatas. A Folha de S. Paulo chegou a entrevistar o marido de Marina Silva, para ver se ele aprovava as mudanças que ela fez no visual.

Já a revista Veja publicou uma matéria sobre “quão decisivo é o fator beleza numa eleição”. (estranho... Se é tão importante assim, por que nunca tinham escrito sobre o assunto? Só foram escrever agora, que temos duas mulheres? Embora políticos homens sejam citados na matéria, o foco são as mulheres. E são majoritariamente fotos de mulheres que ilustram a reportagem).

Celso Kamura, o cabeleireiro responsável pela mudança no corte de Dilma, também ganhou entrevistas extensas no caderno de política. É necessário? É relevante? Acho que não. Mas, se fosse, cadê as entrevistas com o pessoal que cuida do visual de Serra e de outros candidatos do sexo masculino? O pior foi a ambiguidade utilizada pelo Estadão, na entrevista com Kamura: “este é o homem que faz a cabeça de Dilma”. Recurso já utilizado antes, pela revista Marie Claire, que intitulou uma entrevista com Dilma com "a mulher do presidente".

(Particularmente, também vejo muito de sexismo na mania de chamarem a Dilma de “poste” e dizerem que Lula será seu “tutor”. Ora, Dilma foi Secretária de Minas e Energia de um estado importante, Ministra das Minas e Energia e Ministra-Chefe da Casa Civil. Que o carisma de Lula é algo importantíssimo na campanha, não há dúvidas. Mas daí a usar a palavra “tutela”, sei não. Sinto cheiro de sexismo aí.

Mas Dilma tem se saído muito bem com isso. “Decidam: uns dizem que eu sou mulher de ferro, outros dizem que sou um poste...”, disse ela na famigerada entrevista ao JN. A entrevista chamou a atenção das pessoas pelo nível de grosseria e afetação do casal Bonner e Fátima. A mim, no entanto, o mais chocante foi eles terem passado quase metade do tempo estipulado fazendo inquisição sobre o temperamento, a postura, a conduta da candidata. Ora, a opressão que nós, mulheres, sofremos está muito baseada em códigos de conduta: não se vista assim, não fale assado, não cruze as pernas desse jeito. Eu jamais esperaria que uma das primeiras perguntas da entrevista do JN fosse: “candidata, é verdade que você é grossa?”. Pô, que pergunta é essa?

Mas, como disse, a saída da candidata petista foi de mestre, apontando o óbvio: não dá para uma pessoa ser mandona e capacho ao mesmo tempo. Dilma, ao dizer, “decidam-se”, deixou claras as limitações e contradições da mania de dicotomizar as mulheres: ou puras ou putas, ou santas ou diabas, ou mandonas ou submissas. Há toda uma miríade de meio-termos. As mulheres são mais complexas do que isto)

Mas enfim, divago. Como dizia, sexismo não falta na cobertura. No entanto, ele não tem tido o efeito sobre o eleitorado que eu pensei que fosse ter. Hillary perdeu as primárias sendo amplamente ridicularizada. Dilma só se fortalece, só cresce. Embora a imprensa chie, invente dossiês, tente reduzi-la a um poste ou um bibelô, a candidata do PT avança nas pesquisas. A ponto de podermos até pensar em uma vitória no primeiro turno.

Não sei quanto a vocês, mas eu me emociono deveras diante da possibilidade de ter a primeira presidenta do Brasil. Ainda mais ganhando assim, de lavada, contra um candidato autoritário, tacanho, que sequer a própria campanha foi capaz de conduzir sem trapalhadas. Ainda mais sabendo que não é qualquer mulher. É uma baita mulher.

Claro que a gente deve evitar o clima de “já ganhou”. Até outubro, tem chão. Mas estou otimista. Não tem como não ficar otimista ao ver essa discrepância entre as pesquisas e a cobertura jornalística. É um sinal não só de que o sexismo tem menos poder do que eu pensava, mas também de que a imprensa tradicional está perdendo um tiquinho de seu poder.

E, caso Dilma seja mesmo eleita, um bom horizonte se abre. Ter uma mulher no cargo mais importante da república, um cargo de extrema visibilidade, será um incentivo e tanto para que outras mulheres tomem coragem para se candidatar. Para que outras mulheres tomem coragem para agir politicamente em suas comunidades, municípios, estados. E, principalmente, para que parte do eleitorado deixe de torcer o nariz para candidatas mulheres. Coisas boas hão de vir.



  Escrito por Idelber às 21:41 | link para este post | Comentários (48)


Comentários

#1

Posso estar falando besteira, mas acho que a mídia e o sexismo não estão conseguindo derrubar a Dilma - além dela ser a candidata de um dos melhores presidentes que tivemos devido a quantidade de twitteiros e blogueiros que falam até os dedos doerem sobre o sexismo, sobre política.
"Nós" começamos a campanha contra o sexismo nas eleições desde cedo e sempre estivemos "patrulhando", ao ponto de vários comentaristas sexistas pedirem desculpas após falar alguma M.
Então acredito que a inclusão digital nessas eleições estão influenciando muito mais do que a elite e seu domínio na mídia.
Afinal, parece que os pobres não são os ignorantes que eles sempre gostaram de afirmar, bastou dar um pouco de acesso a cultura, a possibilidades diferentes para analisarem suas opções, que eles conseguiram separar o joio do trigo.

Isso é democracia e também estou otimista :)

Daniela em setembro 1, 2010 12:21 AM


#2

Concordo muito. Talvez porque estava preparada pro chumbo grosso, tenho achado o seximo até "light". Teve coisas bem feias, mas não teve repercussão, não respingou. E a Dilma é uma baita mulher, concordo muito. Estamos muito bem representadas. Não deveria entrar no já ganhou, mas não resisti: comprei minha passagem pra Brasília. Quero muito assistir a esse momento de perto.

Iara em setembro 1, 2010 12:27 AM


#3

A mui provável vitória de Dilma nas próximas eleições é uma grande mostra de que o machismo brasileiro está diminuindo.

Muito embora ele nao esteja em um nível sequer aceitável.

Acredito que as pequenas práticas têm um profundo significado. Em nossas universidades, por exemplo,professores continuam "dando em cima" de alunas que se interessem minimamente por seu trabalho, como se este fosse a pena de sua cauda de pavão; muitos casos de assédio sexual ainda continuam impunes; mulheres riem do humor machista que a elas ofende; entre muitas outras coisas.

Nesse sentido, para mim, a maior vitória da iminente eleição de Dilma é a constatação de que o povo brasileiro não mais se rende à absurda manipilação midiática, e elegerá alguém que é preterida por esta.

Já o machismo, infelizmente, continua aí, firme e forte.

Pedro Marques em setembro 1, 2010 12:34 AM


#4

e o que não dizer do desespero de muitos, convocando os machos selvagens ou os assassinos para que "nos salvem" da Dilma?
Sigamos, valentes, na luta.

draupadi em setembro 1, 2010 12:36 AM


#5

Como sempre, me identifico plenamente com o posicionamento político da Marjorie (e com sua louvável posição de combate), mas passo longe do discurso afetado de patrulha. Esse texto foi bem light, a propósito. Mas, como sempre nos textos da Marjorie, acho que há passagens que poderiam ser melhor ponderadas, sugestões que poderiam ser melhor exploradas, argumentos que mereciam mais sofisticação. Por isso, Marjorie acaba por fazer um tipo de discurso que prega apenas aos convertidos, na maior parte das vezes. O que é uma pena, pois é uma voz que merece ser (bem mais) ouvida.

Dou como exemplo a sugestão de sexismo na imagem pintada pela oposição de uma Dilma tutelada por Lula.

É óbvio que a campanha de Serra e grande parte da imprensa iria bater nessa tecla. Mas, diferentemente da Marjorie, acho que a imagem de um candidato situacionista tutelado apareceria de qualquer forma, dada a enorme popularidade do presidente e, também, a partir do momento em que figuras centrais do PT e candidatos prováveis em 2010 como Dirceu, Genoino e Palocci saíram de cena. Qualquer figura do PT que, como Dilma, se tornou amplamente conhecida apenas nos últimos anos sofreria esta mesma acusação. Homem ou mulher.

Outra passagem que salta aos olhos: "uma mídia desenfreada, monopolizada, que fala o que quer e muito raramente é punida por isso".

Eu, assim como os leitores desse blog, entendo perfeitamente o que a Marjorie quer dizer com isso e, a grosso modo, concordo com ela. Mas e os outros leitores que esse texto acabar encontrando pelo caminho? O que pensariam dessa passagem? Afinal, Marjorie, a mídia deveria ter freios? A mídia não pode falar o que quer? A mídia deveria ser punida por falar o que quer? WTF? A autora acredita mesmo na democracia e na liberdade de expressão?

Que tal polir um pouco mais os argumentos? Entendam bem: não me refiro, de jeito nenhum, à "domesticação" do discurso da Marjorie. Mas penso que enquanto não lapida seus textos, estes ecoam em menos ouvidos do que deveria - e, para quem concorda com quase tudo, algumas arestas mal aparadas soam como riscos no disco.

Danilo A. em setembro 1, 2010 1:39 AM


#6

Que beleza de texto! Obrigado, Idelber por abrir a casa pra essa ilustre convidada.

Acabei de rever alguns posts seus, Marjorie. Inclusive o fatídico "Bai"...
É totalmente compreensível o cansaço de brincar de blog. Mas, imagino que você já espera a repercussão deste post aqui.
O pouco tempo que acompanhei seu blog me deixou sem dúvida: Você é minha favorita no mundo dos blogs. Nas suas passadas por ele, estarei sempre como seu leitor.


"Mas estou otimista. Não tem como não ficar otimista ao ver essa discrepância entre as pesquisas e a cobertura jornalística. É um sinal não só de que o sexismo tem menos poder do que eu pensava, mas também de que a imprensa tradicional está perdendo um tiquinho de seu poder"

Concordo que essa eleição tem demonstrado a perda do poder da imprensa tradicional. O cada vez maior poder econômico e político dos mais oprimidos cidadãos de nosso país assusta a mídia que fala pra si mesma.

Porém, não estou tão otimista quanto a ser um sinal da diminuição do poder do sexismo. Torço pra que eu esteja enganado. Penso que a eleição de um presidente nordestino e de origem operária significou bem pouco na diminuição do preconceito nestes campos.

É mesmo inegável o efeito simbólico. Mais do que um processo identitário, quando o atual governo promove políticas públicas que contribuem pra emancipação e cidadania de todas e todos, os nordestinos e operários não apenas vêem um deles no poder mas, o próprio crescimento.

Finalmente, concordo contigo que "coisas boas hão de vir" no combate ao sexismo. Que outras mulheres reafirmem seu poder de participação política. E que nossa futura presidenta fortaleça as políticas de cidadania e proteção de direitos das mulheres.

Daniel em setembro 1, 2010 1:44 AM


#7

Ao Danilo:

muito pertinentes as suas observações. Concordo que qualquer candidato que o Lula lançasse encararia as críticas de estar "à sombra" do presidente. Mas, num mundo em que, até pouco tempo, as mulheres estavam, sim, sob tutela, e onde muita gente ainda pensa que as mulheres devam estar ou só podem estar sob a tutela de um homem, acredito que esta palavra adquire uma carga sexista inegável.

Quanto à questão do controle da imprensa, concordo que ela apareceu no texto somente en passant. Mas é que não se pode abraçar o mundo, né? Se eu me alongasse demais nisso, perderia o foco do texto, me alongaria demais. E olha que eu já abro parênteses enormes...

Eu tenho uma idéia muito forte de como, por quê e por quem a mídia deveria ser inspecionada. "Controle" não é sinônimo de censura nem de ataque à liberdade de expressão. O que eu acho é que não se pode confundir liberdade de expressão com liberdade das empresas jornalísticas. Afinal, pode-se chamar o que há hoje de liberdade de expressão, se o mercado está monopolizado em poucas mãos e há várias parcelas da sociedade marginalizadas ou subrepresentadas na produção midiática?

Enfim, este é um assunto muito bacana, mas que nao é o ponto central do texto. Precisaria de outro post para eu explicar tudo o que eu penso sobre.

Bjs

Marjorie em setembro 1, 2010 1:52 AM


#8

Uma coisa interessante foi o uso da imagem da Dilma mandona, que dá bronca e quase faz os homens chorarem. Deixando ministros com os nervos abalados.

Obviamente cobrando a figura da mulher terna e cordata, prendada e educada em colégio de freiras.

Para uma grande maioria essa imagem de firmeza é elogio. É sinal de que ela não vai deixar barato, não vai ser enrolada pelos malandros.

Se esquecem que para essa grande maioria da população a mulher é a chefe da família. Ou em termos que eles posam entender mais fácil, é o "homem" da casa. Coisa que não se vê com frequência nesse pequeno estrato onde essa critica pode surtir efeito.

Junta isso com a favela no estúdio, a de "plástico", e vc começa a perceber o grau de distanciamento da realidade de algumas pessoas.

Ticão em setembro 1, 2010 2:57 AM


#9

Belo texto para começar o dia!

Lembrando que faltam apenas 31 dias para a gente eleger a primeira presidenta do Brasil!

aiaiai em setembro 1, 2010 7:03 AM


#10

Também me emociono diante da possibilidade de termos uma mulher na presidencia.
A sociedade brasileira se transforma e a cada passo vai deixando pra trás o que o trio Estado-Folha-Globo tenta remoer. Benditos 8 anos e que os próximos assim sejam!

Maína Junqueira em setembro 1, 2010 9:26 AM


#11

As sociedades primitivas não guerreiras tendiam ao matriarcalismo. Nelas a mulher é que comandava a família, a sociedade e o governo.

A humanidade abandonou o matriarcalismo em troca de uma cultura guerreira, resultado do aumento drástico das populações humanas, produzindo lutas por território. Na guerra, o masculino é mais efetivo. O comando da mulher é doce, pois toda mulher é um pouco mãe.

Ontem, como sempre, peguei um ônibus, para ir dar minha aula. O ônibus era conduzido por uma motorista mulher. A viagem foi muito mais suave, sem os solavancos típicos da forma masculina de dirigir veículos.

Que tal retornarmos, aos poucos, ao matriarcalismo?

Roberto Locatelli em setembro 1, 2010 9:50 AM


#12

Que coisa boa começar o dia lendo um texto assim. Também me emociono e estou me preparando para ir à festa em Brasília. Como diz a Mary W: não sei se meu coração aguenta, mas quero ir, rs! Obrigada à Marjorie, pelo belo texto e ao Idelber, pela publicação neste espaço. Aliás, sou mais uma que ficou dando pulinhos de alegria com a volta do Biscoito. Abçs.

cris em setembro 1, 2010 10:10 AM


#13

Concordo com o argumento do texto. Preocupação estética com políticos sempre houve, e digo isso porque já vi matérias extensas na televisão que dissertavam sobre quantas figuras no congresso usavam botox, mas aconteceu um boom dessas divagações depois que Dilma apareceu como presidenciável.

É bom saber que essa tática, muito longe de ser apenas uma amenidade, não tem funcionado.

A propósito, Idelber, você viu a entrevista de José Serra no Jornal da Globo de ontem? Willian Waack e Christiane Pelajo não cismaram de alfinetar somente Dilma, mas também Serra. É triste que pouco ou nada de projeto político tenha sido discutido nas duas entrevistas, mas ao menos não houve uma discrepância de tratamento igual àquilo que vimos no Jornal Nacional.

Abraços

Gustavo Santana em setembro 1, 2010 10:23 AM


#14

Bem-vindos, bem-vindas, bom dia.

Caro Roberto, não gostaria de polemizar, porque hoje é o dia da Marjorie pilotar a bodega, mas não posso deixar de pontuar uma coisinha. Esta não é exatamente a minha área mas, segundo entendo, já é consensual entre os antropólogos que a tal "sociedade matriarcal" (entendida como sociedade em que o poder estivesse concentrado nas mãos das mulheres) jamais existiu. Também segundo entendo, a grande referência na desmontagem desse mito de uma era de ouro matriarcal é o livro The Myth of Matriarchal History: Why an Invented Past Won't Give Women a Future, de Cynthia Eller. Há bastante literatura sobre isso, infelizmente quase toda fechada para acesso online (um gostinho aqui, aqui ou aqui).

A Wikipédia é péssima referência para essas coisas, mas mesmo ela já registrou esse consenso, de que a tal "sociedade matriarcal" é uma ilusão retrospectiva.

Abraços.

Idelber em setembro 1, 2010 10:25 AM


#15

Idelber, essa sua amiga é doida, ela quer que alguém entreviste o cabeleireiro do Serra? Quem corta o cabelo do Serra é quem anda cortando o meu, a natureza.

André em setembro 1, 2010 11:01 AM


#16

André, não falo pela Marjorie, mas me parece que o que o texto diz não é "quero que entrevistem o cabeleireiro do Serra". O texto está apontando que quando a candidata é mulher, estilistas, cabeleireiros, aparência, vestuário, simpatia pessoal e coisas do tipo passam a ser tema constante na campanha política, de uma forma que jamais acontece quando o candidato é homem. E eu concordo com ela.

Idelber em setembro 1, 2010 11:07 AM


#17

Olá, Professor Idelber.

A História, na sociedade patriarcal em que vivemos, é escrita por aqueles que ganharam a guerra.

Os atuais indianos (que se declaram "arianos", se não em pele, em ideologia) sempre disseram que, antes deles chegarem ali, vindos da Europa do Norte (que hoje conhecemos como Noruega, Dinamarca, etc) NÃO EXISTIA NAQUELA REGIÃO NENHUMA CIVILIZAÇÃO. Diziam que ali havia apenas uma meia dúzia de pobres nativos incultos com hábitos totalmente inaceitáveis e pele desagradavelmente escura. Por isso, seus ancestrais (antecessores dos vikings) ocuparam de maneira suave e pacífica a região. De fato, os vikings - e seus ancestrais - sempre foram um povo meigo e pacífico.

No começo do século 20, alguém abriu um armário, e dele caíram cadáveres: arqueólogos ingleses descobriram uma maravilhosa civilização no Norte da Índia e Paquistão. Alguma coisa se encontra em www.harappa.com/.

Repito, professor Idelber: a História é escrita pelos que venceram a guerra.

Roberto Locatelli em setembro 1, 2010 11:07 AM


#18

Curiosidade:

a frase "é preciso preservar a pureza da raça ariana" não foi inventada por Hitler. Está nos Vêdas, os livros "sagrados" escritos pelos arianos invasores da Índia. A suástica nazista também foi retirada da mesma fonte.

Roberto Locatelli em setembro 1, 2010 11:08 AM


#19

Não custa lembrar que já na pré-campanha a Folha chamou a Dilma e a Marta de vadias e vagabundas (no seu finado blog, o Pedro Dória disse que o Josias tinha um post regular com aquele nome, mas na época eu fiz uma busca sistemática e, pelo menos nos 8 meses anteriores, esse post do Josias não apareceu). Pelo que se anunciava, a campanha anda até que bem sóbria, até bem pouco tempo atrás essa turma estaria pedindo para os milicos saírem dos quartéis. Claro que devemos sempre buscar um nível melhor e denunciar escrotices como essas, mas é fantástica a melhoria que conseguimos em uma geração.

André em setembro 1, 2010 11:12 AM


#20

Marjorie que bom ler o seu texto. também me emociono deveras com a possibilidade da Dilma presidenta.

Bartira G. em setembro 1, 2010 11:54 AM


#21

"A razão sem os sentimentos é impotente" diz o filosofo Peter Singer.
O Brasil é impotente e cheira mal já faz 500 anos. Já era a hora da politica ter um espirito mais romantico, com mais perfume e sensibilidade.
Deixa as damas aproximarem!

hugoperpetuo em setembro 1, 2010 12:02 PM


#22

Marjorie,

se fala tanto da postura grosseira da Dilma, e muito pouco da postura angelical que atribuem a Marina que, seguindo o raciocínio, entraria na mesma condição de sexismo. Da Marina não se pode esperar um tom de voz mais alto. É claro que não é tão forte quanto a Dilma porque ela é candidata do governo (e acho que é por aí que está vindo o chumbo grosso).
Queria destacar aqui - com todo o nojo que cabe ao tema -(acho que a Débora já falou) aquele cartaz que incitava o assassinato de Dilma e que foi endossado pelo Mobiliza Mulher do PSDB (sobre isso a Cynthia escreveu lá no Sexismo na Política). Isso é muito grave, devia ser investigado e deveriam prender quem fez aquilo. Mas, de resto, concordo com você: não foi tão ruim quanto se esperava.
Pensando na beleza: eu já fui mais radical com isso (e concordo plenamente com o que vc diz em relação à ambiguidade no caso do cabeleireiro), mas hoje penso diferente. Deixemos que perguntem mesmo, deixemos que o universo político seja tomado pelo feminino com batons, penteados, tratamentos de beleza. Eles nunca vão deixar de perguntar de política, nunca. Eles sempre vão querer perguntar sobre a taxa de juros, emprego, saneamento básico, etc. Não tem como a mídia fingir que as mulheres não entendem desses assuntos. Mesmo que a pergunta venha depois de: qual é a cor do seu esmalte? Seria interessante nos (as mulheres) apropriarmos dessas "regras" e convertê-las a nosso favor. Colocar essas diferenças no raciocínio das pessoas que, na maioria dos casos, pensa como homem, pelo menos um pouquinho.
Um beijo, querida. E parabéns pelo texto!

Flávia Cera em setembro 1, 2010 12:30 PM


#23

salve, idelber,

bastante esclarecedor o post dessa moça. com a provável eleição da dilma, é claro que será um avanço muito do paidégua sobre a questão da mulher na política brasileira.
tô otimista, principalmente porque fortalecerei os argumentos nas discussões com amigos e familiares leitores do best seller, importaatíssimo pra literatura ocidental,diga-se de passagem, "os homens são de marte e as mulheres são de vênus" ahahahah

abçs

carlos -fort-ce em setembro 1, 2010 12:34 PM


#24

Ainda que eu admita que certamente qualquer candidato lançado pelo Governo seria forçado a lidar com a imagem de “sombra” ou “marionete” - dada a grande popularidade do presidente - não consigo deixar de ver o sexismo atuando no cenário da candidatura da Dilma. O que, com um candidado do sexo masculino, já seria assunto recorrente, no caso da Dilma ganha uma outra camada sexista visível, por exemplo, no discurso em torno de sua suposta postura “durona” ou “mandona”. Fosse a Dilma um homem, certamente esses ou quaisquer outros adjetivos do tipo transformariam o dito cujo em uma pessoa “de atitude”, "que impõe respeito" e por aí vai. Que fique registrado que quero um governo que saiba dialogar, mas acho que me fiz entender.

Bom ler o biscoito outra vez, bom ver a Marjorie escrevendo além de 140 caracteres.


Rita

Rita em setembro 1, 2010 1:03 PM


#25

Também não quero cantar vitória antes do tempo mas estou tão convicta de que o governo de Dilma representa a melhor continuação do governo Lula que é impossível não se imaginar lá. Um dos motivos para essa minha convicção é a percepção de que, ao mesmo tempo que certos debates vêm tomando corpo, são igual e sistematicamente interditados - este é precisamente o caso da discussão sobre direitos humanos que inclui a tortura e a situação da mulher. Não defendo nenhuma espécie de bonapartismo mas me parece que atingimos um ponto em que se torna necessário um reforço extra para que finalmente essas questões se desenrolem e, na minha opinião, esse reforço viria na figura legitimadora de uma mulher e ex-guerrilheira como Presidente. Sinto que a sociedade brasileira está madura o suficiente para encarar discussões de gente grande e que é justamente isso o que dizem os números das pesquisas: "nos deixem falar".

Cláudia em setembro 1, 2010 1:23 PM


#26

Eu gostaria de acreditar que, eleita, Dilma confrontaria o fisiologismo que é regra na convivência entre partidos políticos nas Casas; que colocaria o mercado financeiro em seu devido lugar, obrigando os bancos privados a reduzir spreads; que baixaria os juros para para 2% reais; que alteraria as taxas de câmbio; que não ficaria refém de decisões reacionárias do Judiciário; que teria disposição para realizar reformas patrimoniais e agrárias; que, afinal, cumpriria um programa de esquerda de fato, com o apoio de seus eleitores, assumindo todos os confrontos e consequências advindos desse compromisso. Eu gostaria.

marcos nunes em setembro 1, 2010 1:53 PM


#27

Sem dúvidas, Marj.

E ainda que visualizando os vários 'pqs' de perguntas tão toscas, concordo com a Flávia Cera quando ela diz:

'Deixemos que perguntem mesmo, deixemos que o universo político seja tomado pelo feminino com batons, penteados, tratamentos de beleza. Eles nunca vão deixar de perguntar de política, nunca.

Ah, e claro, é realmente arrepiante o fato de poder ter uma presidentA eleita. Sem palavras, até!

Beijão!

Vanessa em setembro 1, 2010 5:04 PM


#28

Não tenho nenhuma dúvida que o sexismo, o machismo e o preconceito estão aí em todos os aspectos da sociedade, e, claro, na política. Também não dá pra não ver (e prever) o jogo sujo, a baixaria de quem está a um passo de perder a eleição (o caso da faixa do Bruno é um exemplo,felizmente inócuo, mas horroroso).

Agora, tem um outro lado da moeda que é muito ruim também. É usar a condição de mulher (ou negro, nordestino ou outro grupo que sofre discriminação) para classificar qualquer crítica (mesmo as mais fundadas) como preconceito. Marta Suplicy vivia fazendo isso em São Paulo, assim como Pitta, e mais do que todos, Lula. Acho lamentável que isso possa acontecer com Dilma, porque não é necessário (Luiza Erundina nunca usou esse artifício).

Sobre o fato de que o foco na aparência de Dilma é maior que na aparência de candidatos homens: a transformação (da aparência) de Dilma, só no último ano, foi muito maior que a transformação de qualquer político que me lembre de já ter passado por algum processo desse tipo. Uma mudança maior não mereceria um foco maior?

wagner em setembro 1, 2010 5:07 PM


#29

Bem, o único ponto em que discordo é o que defende que a acusação de Dilma ser um "poste" de Lula seria devido ao sexismo - não é algo que eu consiga imaginar acontecendo, por exemplo, caso Marta Suplicy fosse a candidata do PT. Ora, ao contrário desta (e de Marina Silva, quando ainda fazia parte do PT), Dilma é uma personagem recente na história do partido - e que está disputando sua primeira eleição; além do mais, é impossível negar que o fator predominante para sua escolha como presidenciável do PT foi o apoio do presidente Lula; duvido que, caso Lula tivesse se mantido afastado do processo de escolha de seu sucessor, seu partido a tivesse escolhido.

Igor em setembro 1, 2010 5:14 PM


#30

Olá,
Idelber.

Não vou comentar o texto em si, pois, não creio que tenha nada a acrescentar, mas concordo com tudo o que está escrito.
Mas, devo confessar, não conhecia a Marjorie e, após ler este texto, quis ler mais alguma coisa dela, porém não consegui entrar no blog da Marjorie.

Pergunto: O que eu preciso fazer para consegui-lo?

É isto.
Obrigado pela atenção.

Stive Ferreira em setembro 1, 2010 5:36 PM


#31

Acompanhei bem a gestão de Marta Suplicy na cidade de São Paulo. Na minha opinião, uma gestão incoparavelmente melhor que os oito anos de Serra/Kassab. Ela não usava a desculpa de ser mulher para se defender dos ataques diários (no mesmo nível que vemos agora nas eleições presindenciais)de toda a velha mídia. Aliás, a mídia a tratava como uma verdadeira prostituta por ter "abandonado" o senador Suplicy (e casado com o "argentino" Favre)e por ter personalidade forte.
Mesmo assim, em 2004, o Serra (saído de uma campanha presidencial) era o único nome no Brasil que poderia derrotá-la, e foi o que aconteceu. 6 anos depois, hoje, o que vemos é uma cidade sem estado, abandonada.

frank em setembro 1, 2010 7:06 PM


#32

Bem, o Igor, #29, tocou numa tecla interessante, mas a campanha do Serra tem como principio, desclassificar o governo lula , o pt , e todo políitico deste partido. Eles, o s PSDBistas, e parte da imprensa, estão fazendo julgamentos morais. Há de um lado os justos e de outro os imorais. Daí que frases do tipo "acabar com essa raça" tendem a circular dentro da normalidade do script da direita que a imprensa apoia. Se neste momento o Lula ou a Dilma usar essa frase seria o caos.
Não sei se ACM foi o primeiro a usar o termo 'poste' mas, em 1982, a dois meses das eleições e diante da morte de seu candidato Clériston Andrade, ele buscou o prefeito de Feira de Santana Jõao Durval para substituí-lo. Indagado sobre pouca visibilidade de seu novo candidato ele respondeu: "...na Bahia eu elejo até um poste.”. E o poste se elegeu.
Serra deu a prefeitura de São Paulo a um poste.
E tudo isso se deu sem grande comoção da imprensa. Muitas vezes , estes casos são tratados apenas como anedotas da vida política brasileira.
A Marta perder para aquele cara foi uma coisa de outro mundo. Ela revolucionou o transporte e a educação em São Paulo, mas sua tentativa à reeleição foi boicotada pela mídia que, entre outras coisas, insistiu, nos 'escandalos' de sua vida particular.
Creio que há sexismo sim quando acusam Dilma de ser um poste, pelo imediato complemento do termo, coisas do tipo tutelada, marionete etc. A Marta também foi acusada de ser tutelada por Frave.
Ao contrário dos exemplos de ACM e Serra/Kassab na prefeitura de São Paulo, a intenção, no caso da Dilma, não é reforçar o poder de quem 'tutela' , mas diminuir a grandeza de um passado.
Gabeira barbarizou na ditadura, e embora seja homosexual, tem uma relação pública com seu passado muito mais tranquila que a Dilma. Ou pelo menos seu passado é menos explorado do que o da Dilma. E não acredito que isso se deva somente à sua revisão pública de seu passado.

fm em setembro 1, 2010 8:30 PM


#33

Olá. Gostei muito do post. Acho incrivelmente relevante. Não vital essa observação sobre o sexismo e de ridículas observações sobre a questão de Dilma e Marina serem mulheres. Sou um entusiasta da figura feminina em fatos importantes como a nossa atual situação política; Soninha mostrando que mulheres podem falar de futebol sem necessitar de "decotes generosos", ouvir piadas com duplo sentido e ainda mostrar sorrisos idiotas e na ficção por exemplo as mulheres fortes que escrevem seu destino como A Noiva em Kill Bill de Quentin Tarantino.

Agora, acho que não tem nada haver o fato dela ser mulher significar um bom governo, ou ser melhor no enganoso mundo da "polititica". Aqui no Brasil, a sexóloga, esquerdista Marta Suplicy tentou levar o governo da cidade de São Paulo levantando dúvidas sobre a sexualidade de Kassab. Estratagema baixíssimo. Seja homem ou mulher. E o que dizer da candidata a vice-presidenta dos EUA,a transloucada Sarah Palin? Ser homem ou mulher, não deve ser o fato determinante para se escolher aquele(a) que levará a Nação (para cima ou para baixo!). Um abraço.

Douglas Soares em setembro 1, 2010 10:47 PM


#34

O que algumas pessoas parecem não entender é que não se pode igualar o tratamento dispensado a um homem e a uma mulher invocando, de maneira traiçoeira, a igualdade de condições entre os gêneros. É absolutamente diferente, por exemplo, chamar um branco de branquela e um negro de, ora, negro. Há uma pesada, insuportável carga histórica e cultural na palavra e na entonação que não pode ser desprezada (nem esquecida). Da mesma forma, quando se afirma que Dilma é um poste, é evidente a mensagem de que é Lula, não o presidente, mas o homem, que a fez o que é. Se fosse um homem, seria apenas um poste. Mas se não tivermos em mente o significado de nossas palavras no contexto em que usamos, estamos, sim, correndo o risco de reforçar preconceitos. Podemos nos esquivar apelando para o argumento fácil da igualdade de condições, mas isso não terá o condão de desfazer o estrago.

Cajueiro em setembro 2, 2010 12:38 AM


#35

Ah, por favor. Todo mundo sabe que a Dilma é grossa, é mandona, grita com seus subordinados e até com quem não é subordinado, e que já teve gente até que saiu do gabinete dela chorando.

Eu queria saber se a Marjorie gostaria de ter uma chefe assim. Isso é sim uma questão extremamente relevante, e a imprensa tem que enfocar a questão. Eu não lembro de nenhum outro político que tenha esse grau de antipatia pessoal -- talvez porque a própria vivência política-partidária (coisa que Dilma não tem) apare as arestas e torne as pessoas mais tolerantes.

Outra coisa que não tem nada a ver com sexismo é o rótulo de "poste", que foi colado em Celso Pitta, Eduardo Conde, Luiz Antonnio Fleury Filho, Cássio Taniguchi e vários outros administradores sem vivência política-partidária que só foram eleitos para cargos executivos porque apoiados pelos seus antecessores.

Voto em Dilma, com o nariz tapado, é claro, porque um governo que abafou a investigação contra Daniel Dantas não merece nenhuma confiança. Tenho clareza de ela que é apenas a menos pior candidata.

E não esqueço de que, durante as prévias do Partido Democrata norteamericano, colegas blogueiras feministas fizeram campanha contra Barack Obama apenas porque ele é homem. E hoje, quem vejo direcionar o governo Obama, na política externa, para posições extremamente semelhantes à de George W. Bush, é a sra. Hillary Clinton, outrora tão elogiada.

Marcus em setembro 2, 2010 6:40 AM


#36

Marcus, permita-me uma anedota pessoal, sem qualquer relação com o tema da "Dilma autoritária".

Quando eu cheguei aos EUA para fazer pós-graduação, caí numa turma que era basicamente de brasileiros. Não havia muitos gringos fazendo mestrado em literatura brasileira na época (só no doutorado eu passei pro espanhol). Meus colegas não eram pessoas que tinham uma história de muita relação com a literatura. A maioria tinha sido professor de inglês em cursinho, por hobby, e havia se candidatado à pós nos EUA como forma de passar um tempo aqui. A maior parte deles havia aprendido inglês viajando com os pais para a Disney, ou outros destinos do tipo. Vinham de uma classe social bem diferente da minha.

Uns dois ou três meses depois da minha chegada, um pequeno grupo se aproximou de mim para dizer que as minhas participações no seminário os deixavam um pouco "desconfortáveis", porque eu falava de um jeito muito "intenso", e às vezes alguns deles sentiam "medo" de discordar de mim. Eu não disse nada e esperei para levantar a lebre na aula seguinte.

Calma e pausadamente, eu trouxe o assunto à baila, olhando ao redor da mesa, nos olhos de cada um, e disse: "você vem do Morumbi; você vem da Barra da Tijuca; você vem de Higienópolis; você vem do Leblon; você vem do Mangabeiras. É normal que o meu jeito de falar lhes pareça agressivo. Eu sou filho de porteiro com professora de ensino primário que ganha salário mínimo, e vocês não estão acostumados a se relacionar com alguém da minha classe social a não ser como serventes. Esta situação de súbita igualdade com alguém do andar do baixo é nova para vocês. Aos poderosos, lhes é dada a possibilidade de sempre falar macio. A hierarquia está implícita. Eu, por outro lado, posso lhes garantir: se eu sempre tivesse falado macio, eu não estaria aqui. Teria sido triturado no meio do caminho."

Houve desconforto no momento, mas me tornei amigo de todos eles.

É a anedota pessoal da qual eu sempre me lembro quando alguém diz que uma mulher numa posição de poder ou liderança está agindo de forma muito "agressiva" ou "autoritária".

Idelber em setembro 2, 2010 9:23 AM


#37

Chamar esta história de anedota pessoal foi um jeito de suavizar a fala para não causar o mesmo efeito de novo? :)

Jean Scharlau em setembro 2, 2010 9:31 AM


#38

Pois é, Idelber. Eu também faço uma relação entre esta 'postura autoritária' da Dilma e o esforço para que uma mulher em sua posição seja ouvida e respeitada.
Pessoalmente, já fui chefiado por várias mulheres durante minha vida profissional. Algumas delas, com certeza, deixariam a Dilma no chinelo. No ambiente em que eu circulo profissionalmente, predominantemente masculino, as poucas mulheres que se sobressaem falam e jogam duro como poucos homens conseguem. Se não o fizessem, não chegariam aonde estão.

Radical Livre em setembro 2, 2010 9:40 AM


#39

como mulher que veio do 'andar de baixo', filha de uma dona de casa [que mal terminou o antigo primário] e um marinheiro [cassado pela ditadura e depois anistiado], me identifiquei muito com a 'anedota pessoal'. nunca havia pensado por esse prisma. sempre fui considerada 'intensa' demais nas minhas posições, agressiva, até. mas acho que, se não fosse por isso, também não teria chegado a lugar nenhum.

cris em setembro 2, 2010 9:46 AM


#40

filha de manicure, bisavó analfabeta e avó aposentada. Todas morando juntas numa só casa. Se não fosse direta em tudo, não teria chegado onde estou hj.

AleP em setembro 2, 2010 10:22 AM


#41

Acho que me confundi um pouco na minha mensagem anterior. O objetivo não era tanto criticar o "autoritarismo" da Dilma, mas afirmar que essa questão é relevante, tem que ser abordada pela imprensa, e não tem necessariamente relação com a Dilma ser mulher. O último presidente mandão que nós tivermos era tão inflexível que nunca conseguiu construir uma maioria estável no Congresso.

Não nego que parte da imprensa está sendo sexista com a Dilma, mas há que se perguntar se não foi também sexista o processo de extreme makeover pelo qual Lula e o PT fizeram ela passar.

Eu vi a "antiga" Dilma dar uma entrevista no Jô Soares, onde se saiu muito bem, com respostas inteligentes e espontâneas. Agora eu olho para a mesma mulher na TV e não a reconheço, não só pela transformação radical na aparência, como pela imposição de sorrisos falsos e de um discurso cuidadosamente estudado.

A criação desse personagem, dessa "mãezona do Brasil", não é sexismo? Isso não foi obra da imprensa.

Marcus em setembro 2, 2010 11:38 AM


#42

Ótima sua anedota pessoal, Idelber. Eu vejo o mesmo com a minha mãe. Minha mãe e Dilma têm uma postura e tom de voz muito parecidos. Minha mãe só pôde estudar até a quarta série do fundamental, engravidou aos 17 anos de idade. Só depois de "velha" é que ela terminou os estudos até o colegial e passou num concurso público. Hoje, manda em gente com nível universitário, etc. Ela parece brava e dura até quando está apenas conversando, fazendo piada. É o jeito dela. E eu acho que muito dessa atitude foi necessária para que ela chegasse onde chegou, sabe? Para enfrentar as barras da vida e tal. Quem vem de baixo tem de se impor. Mulheres em posição de comando geralmente têm de se impor para que não tripudiem sobre elas. E coisa e tal.

Chefes grosseiros há em tudo quanto é canto. Políticos grosseiros também. Não estou dizendo que está certo (pelo contrário), mas isso nunca pareceu uma questão relevante para a imprensa. Por que o é agora, com Dilma? Esse negócio da "grosseria" implicar em falta de aliança é descabido. Até porque o que criticam no governo Lula são justamente as alianças "excusas". Oi, foi pergunta do JN isso. A mim, cheira só a patrulha mesmo. "Mulher, abaixa esse dedo em riste. Cruza essas pernas. Seja delicada".

Quanto ao PT tb ter transformado a imagem dela, tentando suavizá-la, embelezá-la, concordo. Também a campanha está jogando as regras do jogo, uai. Sabe que o sexismo existe e que é preciso jogar com ele para se ganhar eleição.

Marjorie em setembro 2, 2010 1:30 PM


#43

Apesar de ver inúmeros estereótipos tipicamente machistas nessas eleições (como tornar relevante apenas aspectos estéticos de candidatas), vejo que nesse artigo houve também muitos estereótipos tipicamente femistas. Não estou taxativamente criticando nada, pois reconheci reflexões aí que foram minhas, entretanto, acredito que o grande problema do sexismo é o problema que também se discute em questões de "como criar uma criança". Um exemplo é melhor explicativo. Quando uma criança volta pra casa chateada porque foi chamada de feia, e a mãe cria muito alvoroço e se magoa com isso, a criança torna a situação muito mais dramática, o que pode levá-la a certos complexos psicológicos. Chego a raiz da questão daí: o grande problema do feminismo é que tudo vira machismo ou femismo. Tem-se que parar de complexificar toda situação porque ela pode ter um ponto de vista sexista. Eu não voto na Dilma porque ela será a primeira presidente do Brasil. Também ela não é considerada testa de ferro pois é uma mulher. Ela está pra vencer na primeira fase porque é a candidata do Lula! E ficar procurando femismos na questão é absurdo, e dá voz à midia que fica se preocupando com o fato de que ela é mulher. Ela tá ali como política, e é nosso passo pensar na candidatura dela desta maneira, não taxá-la de a primeira mulher presidente, porque, assim, o mandato dela para por aí mesmo.

Camila em setembro 2, 2010 3:44 PM


#44

Ah, Camila, acho que você está querendo colocar a eleição no vácuo.

Não dá pra eliminar a questão de gênero, como se ela não existisse. Essas eleições acontecem numa sociedade machista, uai. Esses signos estão aí e participam das eleições também.

A maior força da Dilma jaz no fato de dar continuidade a um governo com 80% de aprovação, claro. E a oposição dos jornais se dá por conta disso também, fundamentalmente. Mas daí a dizer que é "só" isso, como se o sexismo nao tivesse nenhum papel em nada, acho ingenuidade. Sexismo é um dos fatores do processo, sim, como não?

Marjorie em setembro 2, 2010 5:08 PM


#45

Off-topic ma non troppo. http://nextwaving.wordpress.com/2008/08/14/is-queen-fascist/

Será que a Marjorie já viu isso?

Não ponho lá no blog dela porque sou acusado de trollagem! lol

Danilo A. em setembro 3, 2010 1:42 AM


#46

Camila, a situação não está sendo dramatizada, ela É dramática e não se revela somente nos números da violência contra a mulher mas também nos da violência contra o homem, tão ou mais vítima da cultura patriarcalista do que as mulheres. A briga que deve ser brigada, portanto, por homens e mulheres, é a da superação dessa cultura autoritária e não a da supervalorização do feminino. Eleger Dilma não levará à implantação da República das Amazonas no Brasil mas simplesmente ajudará a temperar com maiores doses de empatia e cooperação o meio competitivo e agressivo no qual ainda estamos imersos.

Cláudia em setembro 3, 2010 1:11 PM


#47

Sem querer discordar sobre toda a patrulha em relação às mudanças de visual da Dilma e da Marina, mas na época da campanha do Lula à Presidência também se falou muito sobre o banho de loja, de etiqueta, de tudo que ele recebeu. O foco da patrulha não é sexual. Pelo menos, não só sexual

Teresa em setembro 3, 2010 5:16 PM


#48

Marjorie, arrasou! Obviamente, a crítica de que seu texto precisaria ser "polido" só poderia ter partido de um homem. Exceções à parte (e que estes me perdoem), dificilmente um homem tem noção da patrulha ideológica que persegue as mulheres porque não sofrem isso na pele, cotidianamente. Além do mais, seu argumento de que liberdade de expressão não pode jamais ser confundida com liberdade midiática é imbatível. Bons entendedores sabem disso.

Siomara em setembro 22, 2010 2:43 PM