Meu Perfil
Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



Email:
idelberavelar arroba gmail ponto com

No Twitter No Facebook No Formspring No GoogleReader RSS/Assine o Feed do Blog

O autor
Curriculum Vitae
 Página pessoal em Tulane


Histórico
 setembro 2015
 dezembro 2014
 outubro 2014
 maio 2014
 abril 2014
 maio 2011
 março 2011
 fevereiro 2011
 janeiro 2011
 dezembro 2010
 novembro 2010
 outubro 2010
 setembro 2010
 agosto 2010
 agosto 2009
 julho 2009
 junho 2009
 maio 2009
 abril 2009
 março 2009
 fevereiro 2009
 janeiro 2009
 dezembro 2008
 novembro 2008
 outubro 2008
 setembro 2008
 agosto 2008
 julho 2008
 junho 2008
 maio 2008
 abril 2008
 março 2008
 fevereiro 2008
 janeiro 2008
 dezembro 2007
 novembro 2007
 outubro 2007
 setembro 2007
 agosto 2007
 julho 2007
 junho 2007
 maio 2007
 abril 2007
 março 2007
 fevereiro 2007
 janeiro 2007
 novembro 2006
 outubro 2006
 setembro 2006
 agosto 2006
 julho 2006
 junho 2006
 maio 2006
 abril 2006
 março 2006
 janeiro 2006
 dezembro 2005
 novembro 2005
 outubro 2005
 setembro 2005
 agosto 2005
 julho 2005
 junho 2005
 maio 2005
 abril 2005
 março 2005
 fevereiro 2005
 janeiro 2005
 dezembro 2004
 novembro 2004
 outubro 2004


Assuntos
 A eleição de Dilma
 A eleição de Obama
 Clube de leituras
 Direito e Justiça
 Fenomenologia da Fumaça
 Filosofia
 Futebol e redondezas
 Gênero
 Junho-2013
 Literatura
 Metablogagem
 Música
 New Orleans
 Palestina Ocupada
 Polí­tica
 Primeira Pessoa



Indispensáveis
 Agência Carta Maior
 Ágora com dazibao no meio
 Amálgama
 Amiano Marcelino
 Os amigos do Presidente Lula
 Animot
 Ao mirante, Nelson! (in memoriam)
 Ao mirante, Nelson! Reloaded
 Blog do Favre
 Blog do Planalto
 Blog do Rovai
 Blog do Sakamoto
 Blogueiras feministas
 Brasília, eu vi
 Cloaca News
 Consenso, só no paredão
 Cynthia Semíramis
 Desculpe a Nossa Falha
 Descurvo
 Diálogico
 Diário gauche
 ¡Drops da Fal!
 Futebol política e cachaça
 Guaciara
 Histórias brasileiras
 Impedimento
/  O Ingovernável
 Já matei por menos
 João Villaverde
 Uma Malla pelo mundo
 Marjorie Rodrigues
 Mary W
 Milton Ribeiro
 Mundo-Abrigo
 NaMaria News
 Na prática a teoria é outra
 Opera Mundi
 O palco e o mundo
 Palestina do espetáculo triunfante
 Pedro Alexandre Sanches
 O pensador selvagem
 Pensar enlouquece
 Politika etc.
 Quem o machismo matou hoje?
 Rafael Galvão
 Recordar repetir elaborar
 Rede Brasil Atual
 Rede Castor Photo
 Revista Fórum
 RS urgente
 Sergio Leo
 Sexismo na política
 Sociologia do Absurdo
 Sul 21
 Tiago Dória
 Tijolaço
 Todos os fogos o fogo
 Túlio Vianna
 Urbanamente
 Wikileaks: Natalia Viana



Visito também
 Abobrinhas psicodélicas
 Ademonista
 Alcinéa Cavalcante
 Além do jogo
 Alessandra Alves
 Alfarrábio
 Alguém testou
 Altino Machado
 Amante profissional
 Ambiente e Percepção
 Arlesophia
 Bala perdida
 Balípodo
 Biajoni!
 Bicho Preguiça
 Bidê Brasil
 Blah Blah Blah
 Blog do Alon
 Blog do Juarez
 Blog do Juca
 Blog do Miro
 Blog da Kika Castro
 Blog do Marcio Tavares
 Blog do Mello
 Blog dos Perrusi
 Blog do Protógenes
 Blog do Tsavkko, Angry Brazilian
 Blogafora
 blowg
 Borboletas nos olhos
 Boteco do Edu
 Botequim do Bruno
 Branco Leone
 Bratislava
 Brontossauros em meu jardim
 A bundacanalha
 Cabaret da Juju
 O caderno de Patrick
 Café velho
 Caldos de tipos
 Cão uivador
 Caquis caídos
 O carapuceiro
 Carla Rodrigues
 Carnet de notes
 Carreira solo
 Carta da Itália
 Casa da tolerância
 Casa de paragens
 Catarro Verde
 Catatau
 Cinema e outras artes
 Cintaliga
 Com fé e limão
 Conejillo de Indias
 Contemporânea
 Contra Capa
 Controvérsia
 Controvérsias econômicas
 Conversa de bar
 Cria Minha
 Cris Dias
 Cyn City
 Dançar a vidao
 Daniel Aurélio
 Daniel Lopes
 de-grau
 De olho no fato
 De primeira
 Déborah Rajão
 Desimpensável/b>
 Diário de Bordo
 Diario de trabajo
 Didascália e ..
 Diplomacia bossa nova
 Direito e internet
 Direitos fundamentais
 Disparada
 Dispersões, delírios e divagações
 Dissidência
 Dito assim parece à toa
 Doidivana
 Dossiê Alex Primo
 Um drible nas certezas
 Duas Fridas
 É bom pra quem gosta
 eblog
 Ecologia Digital
 Educar para o mundo
 Efemérides baianas
 O escrevinhador
 Escrúpulos Precários
 Escudinhos
 Estado anarquista
 Eu sei que vivo em louca utopia
 Eu sou a graúna
 Eugenia in the meadow
 Fabricio Carpinejar
 Faca de fogo
 Faça sua parte
 Favoritos
 Ferréz
 Fiapo de jaca
 Foi feito pra isso
 Fósforo
 A flor da pele
 Fogo nas entranhas
 Fotógrafos brasileiros
 Frankamente
 Fundo do poço
 Gabinete dentário
 Galo é amor
'  Garota coca-cola
 O gato pré-cambriano
 Geografias suburbanas
 Groselha news
 Googalayon
 Guerrilheiro do entardecer
 Hargentina
 Hedonismos
 Hipopótamo Zeno
 História em projetos
 Homem do plano
 Horas de confusão
 Idéias mutantes
 Impostor
 Incautos do ontem
 O incrível exército Blogoleone
 Inquietudine
 Inside
 Interney
 Ius communicatio
 jAGauDArTE
 Jean Scharlau
 Jornalismo B
 Kit básico da mulher moderna
 Lady Rasta
 Lembrança eterna de uma mente sem brilho
 A Lenda
 Limpinho e cheiroso
 Limpo no lance
 Língua de Fel
 Linkillo
 Lixomania
 Luz de Luma
 Mac's daily miscellany
 O malfazejo
 Malvados
 Mar de mármore
 Mara Pastor
 Márcia Bechara
 Marconi Leal
 Maria Frô
 Marmota
 Mineiras, uai!
 Modos de fazer mundos
 Mox in the sky with diamonds
 Mundo de K
 Na Transversal do Tempo
 Nación apache
 Nalu
 Nei Lopes
 Neosaldina Chick
 Nóvoa em folha
 Nunca disse que faria sentido
 Onde anda Su?
 Ontem e hoje
 Ou Barbárie
 Outras levezas
 Overmundo
 Pálido ponto branco
 Panóptico
 Para ler sem olhar
 Parede de meia
 Paulodaluzmoreira
 Pecus Bilis
 A pequena Matrioska
 Peneira do rato
 Pictura Pixel
 O pífano e o escaninho
 Pirão sem dono
 políticAética
 Política & políticas
 Política Justiça
 Politicando
 Ponto e contraponto
 Ponto media
 Por um punhado de pixels
 Porão abaixo
 Porco-espinho e as uvas
 Posthegemony
 Prás cabeças
 Professor Hariovaldo
 Prosa caótica
 Quadrado dos Loucos
 Quarentena
 Que cazzo
 Quelque chose
 Quintarola
 Quitanda
 Radioescuta Hi-Fi
 A Realidade, Maria, é Louca
 O Reduto
 Reinventando o Presente
 Reinventando Santa Maria
 Retrato do artista quando tolo
 Roda de ciência
 Samurai no Outono
 Sardas
 Sérgio Telles
 Serbão
 Sergio Amadeu
 Sérgio blog 2.3
 Sete Faces
 Sexismo e Misoginia
 Silenzio, no hay banda
 Síndrome de Estocolmo
 O sinistro
 Sob(re) a pálpebra da página
 Somos andando
 A Sopa no exílio
 Sorriso de medusa
 Sovaco de cobra
 Sub rosa v.2
 SublimeSucubuS
 Superfície reflexiva
 Tá pensando que é bagunça
 Talqualmente
 Taxitramas
 Terapia Zero
 A terceira margem do Sena
 Tiago Pereira
 TupiWire
 Tom Zé
 Tordesilhas
 Torre de marfim
 Trabalho sujo
 Um túnel no fim da luz
 Ultimas de Babel
 Um que toque
 Vanessa Lampert
 Vê de vegano
 Viajando nas palavras
 La vieja bruja
 Viomundo
 Viraminas
 Virunduns
 Vistos e escritos
 Viva mulher
 A volta dos que não foram
 Zema Ribeiro







selinho_idelba.jpg


Movable Type 3.36
« Por que a metáfora do tsunami não interessa à esquerda :: Pag. Principal :: Blogueira convidada: Sexismos à parte, por Marjorie Rodrigues »

terça-feira, 31 de agosto 2010

Clube de Leituras: Rubem Fonseca e Roberto Bolaño

Este é um post do Clube de Leituras dedicado à discussão de Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca, e O Olho Silva, do chileno Roberto Bolaño. Caso você prefira ler o conto de Bolaño no original, em diagramação melhor, ele está disponível aqui. Vou escrever pouco, porque a ênfase é mesmo na conversa da caixa de comentários. A única regra do Clube é que você não pode se desculpar por não ser especialista em literatura.

********

Causou escândalo a publicação de Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca, em 1975. O livro chegou a ser proibido pela ditadura militar, não por motivos políticos, mas por “atentado à moral e aos bons costumes”. Fonseca inaugura uma tradição que teria longa história na literatura brasileira, estendendo-se até os dias de hoje. Não são poucos os ficcionistas (especialmente paulistanos e cariocas) que tomariam Fonseca como modelo para o retrato da violência urbana.

Em termos estilísticos, o conto apresentava certa novidade em relação às representações anteriores da violência. Desaparece o sóbrio narrador da antiga ficção realista, que descrevia os fatos a partir de uma posição distanciada. As frases são curtas, grosseiras, chulas. Já no início do relato, o texto nos instala no interior da reunião dos marginais que recebem as armas e preparam o assalto. Há que se notar a escolha do autor: em vez de narrar a partir do ponto de vista das vítimas (em cujo caso o conto se iniciaria, por exemplo, com a festa dos grã-finos, para depois passar ao choque provocado pela chegada dos assaltantes), Fonseca conscientemente escolhe o ponto de vista destes últimos. Ali se vê o ressentimento de classe, o machismo, a brutal distância que os separa do Rio de Janeiro dos burgueses da Zona Sul.

Outra marca característica da representação da violência que se inicia com Rubem Fonseca é que ela já não traz qualquer conteúdo socialmente redentor. Enquanto que em longa tradição anterior de literatura realista, a violência costumava estar associada a um projeto de transformação social, aqui ela é gratuita e irredimível. O emblema disso é a discussão entre os assaltantes, sobre se os corpos grudam ou não grudam na parede quando assassinados com metralhadora escopeta. A significação da brutalidade e da violência parece se esgotar em si mesma. Não aponta para nada que a transcenda.

*******

roberto-bolano.jpg

Não sei a quantas anda a bolañomania no Brasil, mas ela vai se espalhando pelo mundo de língua inglesa com uma rapidez impressionante. "O Olho Silva" (do livro Putas Assassinas, de 2001) não é, em minha opinião, um de seus melhores contos, mas serve como introdução ao mundo de Bolaño: a melancolia dos jovens de esquerda que, nascidos na década de cinquenta, encararam nos anos setenta a derrota de seus projetos revolucionários. Bolaño é implacável com esse mundo. São temas recorrentes as idealizações retrospectivas do exílio, o egocentrismo e a mesquinharia, a vocação para a desgraça que parece acompanhar essa geração.

No entanto, Bolaño tampouco faz essa autópsia a partir de uma posição exterior. É nítida a empatia do narrador com o personagem que, em meio à homofobia da esquerda da época, demora um bom tempo para assumir sua homossexualidade. Os personagens de Bolaño perambulam pelo mundo (exatamente como seu autor, iconoclasta marginal que chegou a passar fome na Espanha) e vão tentando fazer sentido do que lhes ocorreu a partir de certas migalhas da experiência.

A castração de crianças na Índia aparece ao personagem como uma figura da fatalidade (O que aconteceu em seguida, de tão repisado, é vulgar: a violência da qual não podemos escapar. O destino dos latinoamericanos nascidos na década de cinquenta). O conto termina in media res, mas sugere que nada se alterará nesse ciclo de misérias ao qual os personagens parecem estar condenados. Parte da fascinação da literatura de Bolano advém, creio, do fato de que essa fatalidade não é representada em tintas naturalistas, ou seja, os personagens mantêm considerável iniciativa e individualidade. Mas ela não parece suficiente para reverter o movimento triturador da História.

Estes são meus dois centavos. O que acharam dos contos?



  Escrito por Idelber às 08:53 | link para este post | Comentários (88)


Comentários

#1

Bom, li primeiro o conto do Rubem Fonseca. E o que salta aos olhos é a diferença narrativa, no caso do Fonseca, um tanto chula, por ser o ponto de vista dos causadores da violência, no caso de Bolaño, rebuscada. Mas nesse ponto eu encontrei a maior diferença entre os textos, porque a um primeiro momento me pareceu que este contraste entre as escritas seria também o contraste entre a forma de se mostrar os temas: Chulo/Rebuscado, Violentador/Violentado. Mas não é isso que ocorre aqui. No conto de Rubem Fonseca é o causador da violência que nos conta a história, quem sofre a violência não tem voz. Porém, com Bolaño não ocorre o contrário (como eu pensei que pudesse ocorrer), pois, apesar do violentado ainda não ter voz, quem comete a violência também não tem. Aqui, o ponto de vista é o de quem assiste a violência e se compadece dela.

Stive Ferreira em agosto 31, 2010 9:22 AM


#2

Só pra constar: no conto do Fonseca os personagens discutem se as vítimas ficam grudadas na parede se forem alvejadas com ESCOPETA (uma arma muito mais violenta) e não metralhadora.

Ronnie em agosto 31, 2010 9:46 AM


#3

MESTRE ÁLVARO
by Ramiro Conceição

Sobre o Mestre Álvaro de Vitória
feito uma fria nuvem sem glória
uma senhora estranha se acomoda
com seu vestido plúmbeo da moda.

Ao mangue, então clamo com medo:
“Quem é aquela senhora que namora
com o monte mais bonito de Vitória?”
E os lamacentos caranguejos e siris
junto aos camburis, de pronto, respondem-me:
“Aquela não é daqui; e nem ama os bem-te-vis.”

Então, junto ao mar, grito à Iemanjá:
“Quem é a senhora que se mostra
ao monte mais faceiro de Vitória?”
E todas as musas abissais
junto às garças magistrais,
prontamente, respondem-me:
“Aquela senhora - não é daqui.”

Na fonte de um momento,
reclamo na terceira ponte
à Senhora do convento:
“Quem é aquela que mora
no monte mais alto de Vitória?”
E a Senhora daquela História,
prontamente, me responde:
“Aquela, outra, não é daqui.”

Então pergunto a Oxalá:
“Quem é ela que agora aqui está?”
E, das distâncias distantes
do Orun, Alguém me responde:

“Ela é o avesso da continuidade da vida.
Aquela senhora - é a violência maldita!”

PS: 1) “Mestre Álvaro” é o pico mais alto da Terra (adjacente ao mar, 820m);
2) “Camburi” (do tupi-guarani) é o “nosso” robalo;
3) “Terceira Ponte” é a ponte monumental de Vitória:
4) “Senhora do convento” é Nossa Senhora da Penha (padroeira do ES);
5) “Orun” é o Céu de Olorun, Deus-Pai-Criador de tudo, na Mitologia Yoruba.
6) Bem, Idelber, este é o meu meio centavo ao tema complexo em questão.

Ramiro Conceição em agosto 31, 2010 9:47 AM


#4

Valeu, Ronnie, corrigido!

Idelber em agosto 31, 2010 9:52 AM


#5

Para não perder a incoerência e a bricadeira da confrontação: gostaria de me desculpar humildemente por não ser
especialista em literatura! Não consegui ler o texto do Bolano todo, por isso vou comentar apenas o conto do Fonseca.
Eu sempre quis escrever algo sobre as minhas impressões de leitura do Feliz Ano Novo. No seu texto, Idelber, você coloca bem essa inovação de tratamento na temática da violência urbana nas opções narrativas do autor. Diria, porém, mesmo não sendo crítico, que parece existir uma continuidade entre o foco narrativo centrado no ponto de vista de Pereba e seu comparsa, e uma escolha narrativa como a de Graciliano Ramos que em Vidas Secas, optando pelo discurso indireto livre, gera uma espécie de empatia entre o narrador (que guia o leitor) e os seres embrutecidos que ele descreve. A se pensar...
Digo isso apenas para falar da impressão de um sociólogo que vê na narrativa de Feliz Ano Novo uma construção bastante tensa e aguda de uma realidade que é dada, como você diz:" A significação da brutalidade e da violência parece se esgotar em si mesma. Não aponta para nada que a transcenda." Diria, porém, que há algo na leitura que nos faz buscar uma transcendência. O texto nos causa uma "latente vontade sociológica", eu diria a partir de minha deformação profissional. Que tipo de socialização é capaz de gerar indivíduos que pensam, falam e agem daquela maneira? É curioso pensar que de forma hegemônica o debate sobre a violência no Brasil evite até hoje tratar o assunto a partir dessa opção narrativa.
Uma outra coisa que seria importante pensar fosse a relação entre essa tradição realista na literatura e sua relação histórica com as disciplinas intelectuais afins. Antonio Candido em algum lugar fala desse despreendimento do realismo do tipo de engajamento político que ele desempenhou na década de 30, por exemplo. E chega a sugerir que a institucionalização das ciências sociais fizeram perder o apelo analítico daquele propósito específico, isso talvez explique o Rubem Fosenca poder realizar uma proposta realista desvinculada formalmente de uma proposta direta de transformação social... A se pensar...
Bem, não me alongo mais.
Deixo um grande abraço pra você Idelber. E parabéns pela volta do blogue.

Jampa em agosto 31, 2010 10:37 AM


#6

O que me chamou atenção no conto de Rubem Fonseca foi quão inverossímil parece que pessoas fumem um baseado e tomem cachaça logo antes de fazer um assalto violento. Deveriam estar rindo de tudo e morrendo de sono, mal conseguindo se mexer.

Parece um pedaço de propaganda reacionária contra drogas.

Marcelo Castro em agosto 31, 2010 10:42 AM


#7

Como você comentou, Idelber, Rubem Fonseca inaugurou uma espécie de escola, que ao meu ver, encontra-se, talvez, sarturada de seguidores - poderíamos, quem sabe, estender à atual produção cinematográfica nacional -. Fato este que obviamente não diminui a grandeza do autor, mas torna a leitura no especificado contexto mais fatigada. Roberto Bolaño vem com refinamento, que entre o que diz e o que não diz se mostra mais rico em constelações de sentidos possíveis: resta-nos arma-las e tropeçar nestes astros.

João Guilherme Dayrell em agosto 31, 2010 10:44 AM


#8

É interessante o caminho de um conto moral, como o de Rubem Fonseca, para o outro, de Bolaño, meio lisérgico, como imerso em maconha e tequila. Enquanto o primeiro acende a luz vermelha da violência com seu realismo extremado e sujo, o segundo a incorpora como uma maldição como que incontornável, prostrando os personagens e o leitor que, em Rubem, recebe um tratamento de choque contra a letargia, enquanto, em Bolaño, constitui o banho de imersão em consciências perdidas no sonho/pesadelo recorrente de um universo em que os valores se diluíram, embora não tenha se perdido de todo, daí os sentimentos que afloram entre lamentos, culpas, ressentimentos, frustrações. A impressão que fica da leitura do conto de Rubem é a da revolta amargurada que se volta como que contra o leitor; já em Bolaño, estamos como que ao lado dele, de madrugada, conversando sobre toda a merda que deu, que somos e que, parece, já sepultou todas nossas pretensões morais.

marcos nunes em agosto 31, 2010 10:52 AM


#9

Idelber, pena, não vou poder participar de maneira correta. Hj to no trampo o dia inteiro. Se der pra ler durante a semana venho aqui e deixo minhas impressões. Já li o conto do Bolaño, de quem sou fã, mas faz já um bom tempo! Texto muito forte, parece ter uma violência gratuíta, que nos deixa desconfortáveis, mas que no final me deu a mesma impressão que, pelo visto, você teve, de lamento, de como o ser humano é pequeno frente ao mundo, focando mais na questão da geração dele.

Não sei, talvez eu esteja viajando, mas os textos do Bolaño (já li muita coisa dele) sempre me parecem mostrar que não somos nós que vivemos a vida, que fazemos o mundo. É o contrário, a vida nos vive e o mundo nos leva, não temos controle sobre essas coisas, apesar de acreditarmos e vivermos como se tivéssemos. Um mixto de medo e espanto.

Detetives Selvagens, 2666, Amuleto, Noturno do Chile, seus contos, são sempre situações em que as pessoas estão sem querer estar... há lamentos, lembranças, memórias, mas é como se todos eles quisessem estar em outro lugar, com outras pessoas...

Talvez seja essa questão geracional que é tão importante pra ele. Talvez esteja falando merda, mas ele me lembra muito A Náusea do Sartre... Uma lamentação onde não se vê uma saída, mas que não deixa de ser almejada, apesar de não ser a principal preocupação dos personagens...

Abraço!

Guilherme em agosto 31, 2010 10:53 AM


#10

Só pra corrigir, misto é com S!
Mal meu!

Guilherme em agosto 31, 2010 10:57 AM


#11

Um dos pontos de articulação que ligam os dois textos, aparentemente tão díspares, é justamente a sexualidade. Esse subtexto perpassa os dois contos. Enquanto Lambreta, que é homossexual, opta por um caminho violento. Olho, por sua vez, tenta a todo custo fugir dessa trajetória. A roda vida, no entanto, os coloca no mesmo turbilhão.
"Cara importante faz o que quer". Essa é uma outra chave de leitura. Com uma escopeta na mão, os assaltantes fizeram o quiseram. Tocaram o terror, como se diz. Colocaram-se no mesmo nível dos grã-finos. Tornaram-se importantes.
Olho era estrangeiro. Isso lhe permitiu tomar uma decisão drástica, assumir um risco impensado. Nesse sentido, ele se coloca em um nível diferente dos seus "anfitriões". Torna-se importante.
As observações acima, mais que fechar questão, buscam contribuir na leitura dos contos que possuem uma ampla possibilidade de interpretações, como todos bons textos. Depende do Olho de cada um(a).

Ricardo Moura em agosto 31, 2010 10:57 AM


#12

Marcelo, será que é realmente inverossímil que bandidos cariocas fumem maconha e bebam cachaça antes de um assalto? Sei lá, acho que não é, não...

Idelber em agosto 31, 2010 10:57 AM


#13

Ainda estou lendo os contos. Por enquanto, fica uma pergunta: Por que Bolaño inclui Rubem Fonseca em seu livro sobre a Literatura Nazi na América? (http://tinyurl.com/2aapmqn) Creio que esta pergunta faça sentido para o Clube porque talvez isso tenha a ver com o modo como a violência está representada nos contos de Fonseca. Ou seria apenas por razões biográficas, já que Rubem Fonseca flertou com os generais? Sobre um comentário de seu post, Idelber: creio que a bolañomania brasileira, com a publicação de 2666, nunca foi tão grande. Volto a comentar. Abraços,

Victor da Rosa em agosto 31, 2010 10:57 AM


#14

Ainda quero ler de novo os contos esta manhã. O de Fonseca eu lera anos atrás. A narrativa tem imagens intensas, das quais nunca me esqueci de uma, a do assaltante defecando sobre o lençol da cama dos proprietários da mansão, ato que, se não estou enganado, era uma prática comum na época em que o texto foi escrito. Uma das características do conto que você ressaltou foi justamente aquela que mais me interpelou, Idelber: “a brutal distância que [...] separa [os assaltantes] do Rio de Janeiro dos burgueses da Zona Sul”. Distância que me parece que se manifesta de forma paroxística no momento em que o anfitrião ou um dos convidados da festa diz aos assaltantes que podem levar tudo o que quiserem, bem como comer e beber à vontade. Trata-se de uma reação comum entre pessoas que estão sendo assaltadas, independentemente da classe social a qual pertençam, uma reação de quem está atemorizado ou, pior, sente, desesperado, que a vida está gravemente ameaçada: não opor resistência e oferecer todos os bens disponíveis ao ladrão. (Os pais ensinam aos filhos a jamais reagir durante um assalto e a entregar ao ladrão tudo que ele pedir.) Entretanto, naquela situação de comunicação que se estabelece, em que um dos polos manifesta um profundo ressentimento, o outro polo perde toda a capacidade, que é seu privilégio, de restringir e de estabelecer o significado de um enunciado. As palavras que deveriam assegurar a salvação convertem-se no indício da culpa, no catalizador do ódio e na justificativa da condenação. A distância que separa os assaltantes não é somente o espaço da desigualdade econômica e social, mas também o espaço do direito à enunciação, que contrapõe, de um lado, aqueles que falam, que podem falar e que, não apenas falam, mas, ao falar, determinam os significados que seus enunciados devem ter; de outro, os afásicos, os que não tem acesso à palavra e que devem interpretar os enunciados que recebem em conformidade com a significação que lhes é imposta. No assalto, um dos ladrões, que, decerto não por acaso, é também aquele que relata a história, subverte a hierarquia de enunciação dominante: quem fala é ele, quem produz os significados dos enunciados é ele.

Em relação ao conto de Bolaño gostaria de fazer uma comparação entre Olho Silva e os dois meninos indianos. Silva se identifica com os meninos e se projeta neles. O corpo do castrado é um corpo masculino mutilado, incompleto, que não possui a parte essencial da anatomia masculina, aquela que consubstancia a masculinidade. O corpo do castrado é reduzido a um corpo feminino, considerado inferior, e ao indivíduo que foi castrado o único destino possível é agir efetivamente como uma mulher deve agir, permitindo-se ser penetrado. Nas sociedades latinas, nas décadas de 1950 a 1970, a representação exclusiva do homossexual masculino o imagina como um homem que não utiliza o falo e que permite ser penetrado. Como sabemos, o homem que mantém relações eróticas com outro homem mas apenas penetrando, desempenhando o papel de ativo, não é um homossexual. Portanto, o homossexual é um homem que renuncia à masculinidade, porque, conquanto tenha um falo, conduz-se como se não possuísse um órgão sexual masculino, como se fosse castrado, e, cumulativamente, consente, como faz a mulher, que um homem o penetre. Castrado simbolicamente, ele é um invertido – palavra corrente naqueles tempo, como recorda o narrador –, uma mulher. Ao conhecer os meninos, Silva, castrado simbólico, reconhece neles uma condição idêntica a sua, um deles é um castrado e o outro está prestes a ser tornar um castrado, párias, cujo destino é a discriminação, a subalternidade e a exclusão social.

Um abraço!

Fabiano Camilo em agosto 31, 2010 11:08 AM


#15

Puxa, genial, Fabiano, essa observação acerca das relações entre a castração e uma certa representação do homem homossexual. Elas não me ocorreram durante a leitura do conto. Agora, que você as apontou, faz todo o sentido.

Idelber em agosto 31, 2010 11:13 AM


#16

Alguém comentou, no outro post, que "Feliz Ano Novo" estaria datado. Reli e me pareceu tão terrível quanto nos anos 70. Sem uma ruga, mesmo com uma gíria meio em desuso, como "adoidado". Impressionam ainda o humor que torna o conto ainda mais terrível, sua precisão elíptica e seu ritmo extraordinário. Um pesadelo hiperrealista.
"O Olho Silva" também é um sonho mau, ainda do tipo angustiante. Os elos entre as estórias dentro da estória se fazem pelo jogo dos pontos de vista, marcados sempre pelas referências ao olhar e ao vísível, ainda mais se atentamos para o óbvio apelido do personagem que nomeia o conto e ainda é fotógrafo.
As narrativas são bem diferentes, mas são ambas são poética e alegoricamente indissociáveis da violência das ditaduras e da vida social, nos anos 70, em Nuestra América, e mesmo fora dela, no Tercer Mundo Global em que as crianças castradas ao Deus são relegadas aos bordéis miseráveis, divinizadas e prostituídas. No irônico presépio de presepadas de "Feliz Ano Novo", os bandidos são a contraparte das "pessoas da sociedade", dos homens de negócios: "Muito obrigado pela cooperação de todos".

Jair Fonseca em agosto 31, 2010 11:26 AM


#17

Rubem Fonseca fala do niilismo na sociedade brasileira. E esse conto é exemplar. Ou será que não?

Bruno Marcondes em agosto 31, 2010 12:19 PM


#18

Desde que terminei de ler 2666, fiquei com a idéia de que Bolaño escreve mais sobre o medo do que sobre a violência. Em uma parte de 2666, uma personagem diz ao outro sobre os vários tipos de medo – fobias – que existem. Não se pode negar que exista violência na literatura de Bolaño, mas é como se ela não fosse o fim em si, como acontece com Rubem Fonseca – ou, de outra maneira, com Tarantino. Para mim, esta é uma diferença fundamental entre ambos. Neste conto, O Olho Silva, o ponto de vista do personagem do Bolaño, desde o primeiro parágrafo, é de quem sofre a violência – ou, melhor, de quem pode sofrer a violência, e este “pode sofrer”, acho, muda um pouco as coisas. “A notícia não impediu que o Olho continuasse tendo pesadelos”, diz o narrador. Ou seja, prefiro pensar que a ênfase está mais no pesadelo. Diferente dos personagens de Rubem Fonseca, o personagem de Bolaño tem sua subjetividade implicada na violência. Em Fonseca, a violência é nua, digamos. Ela não afeta os personagens. Ou afeta de modo contrário: causa prazer. Por isso, acho, pode-se tanto dizer que o conto de Bolaño se trata de uma narrativa sobre a violência quanto sobre o medo.

(Por coincidência, li as memórias de Buñuel paralelamente a 2666, de Bolaño. O livro chama-se O último suspiro. Buñuel comenta que no México – como em nenhum outro país em que viveu – a vida não vale nada. É comum as pessoas andarem armadas, a violência é uma contingência, casual. Talvez o tempo em que Bolaño passou no México tenha certa importância para a presença da violência em sua literatura)

Uma curiosidade no conto de Fonseca é que os personagens se tratam pelo nome próprio apenas quando estão no meio do assalto, diante de outras pessoas. Isso causa estranheza no próprio assaltante, que se esqueceu que se chama Gonçalves. Entre si, se tratam com apelidos. E o apelido está colocado também no conto de Bolaño desde o primeiro parágrafo. Não é o Maurício, mas o Olho. É como se fosse preciso inventar outro nome, outra linguagem, pra representar a violência?

A leitura da homossexualidade com a violência parece sugestiva nos dois contos. Muito boa a relação do Fabiano. Creio que ainda há outras que podem ser feitas. É curioso que no conto de Fonseca a homossexualidade acaba sendo aceita, depois de ser questionada, pois “Cara importante faz o que quer”. Já o Olho sofre preconceitos “dos companheiros de esquerda”, exilados chilenos no México. É uma “inversão”, pra usar uma expressão do próprio conto.

Bem, são comentários inacabados, abertos, pouco conclusivos. Apenas um modo de tatear os contos e as possíveis relações entre eles.

Abraços!

Victor da Rosa em agosto 31, 2010 12:41 PM


#19

Victor, ao que parece, "Gonçalves" e "Inocêncio" (este é demais!) seriam nomes falsos. Daí o estranhamento de Pereba e a dura que leva do chefe.
Claro que a coisa é ambígua, e o humor do episódio se deve a isso.

Jair Fonseca em agosto 31, 2010 1:27 PM


#20

Reler "Feliz Ano Novo" foi estranho, porque sem o mesmo impacto da primeira leitura, o conto me pareceu (difícil encontrar o termo adequado) menos robusto, talvez?...

"O Olho Silva" - primeira leitura, meu primeiro Bolaño - provocou, sobretudo, duas sensasões: a de bem perceber a atmosfera (incorpórea) e o ambiente (físico, material) em cada situação; e a do mesmo impacto que menciono acima - mais vigoroso, posto que novo.

Até.

Marcello em agosto 31, 2010 1:43 PM


#21

Muito boas as reflexões do Victor da Rosa. Idelber, se tem uma coisa que neste teu blog é este clube de leitura!

Ricardo Moura em agosto 31, 2010 1:46 PM


#22

Jair,
Fui eu q falei q Rubens Fonseca era datado. E vou tentar explicar por que. Não é uma questão de literatura. É uma questão da vida cotidiana.
Hoje, vc vê esse tipo de violência em um assalto de rua. Quem entra e "fecha" um condomínio tem outra visão. Aposto que nenhum dos caras q entra tá chapado. Quem faria um "Ano Novo" atualmente ia entrar em um condomínio de luxo, estariam todos de cara limpa, monitorando segurança, levando o máximo possível no menor tempo possível. Seriam efetivos, do ponto de vista de que não hesitariam em matar ninguém que comprometesse a segurança. Mas não são nem sádicos, nem perversos. Nem gastariam munição só pra brincar.
Bolaão entende um pouco isso, mas não consegui ainda pegar como. Preciso reler com mais calma (ou reler mais coisas dele).
Os dois mexem com nossa segurança relativa. No meu entender, é o que os une, do ponto de vista conceitual.
[]s

Mario Abramo em agosto 31, 2010 1:48 PM


#23

É verdade, é uma alegria ver vocês conversando sobre literatura por aqui. É tão simples de fazer. O meu post não diz quase nada, mas vocês chegam e dão o show.

Idelber em agosto 31, 2010 1:48 PM


#24

Essa menção aos nomes é uma via fecunda para interpretações. De posse do controle da situação - com reféns no chão e sem nenhuma possibilidade de reação - os criminosos deixam de ser nomeados por seus apelidos (coisa de bandido pé-de-chinelo) e passam a se tratar por nomes e sobrenomes (ainda que possam ser falsos). Há claramente aí uma mudança de status. Vale ressaltar que antes de ser executado, é perguntado à vítima seu nome. Não basta o ato de violência em si, é preciso estabelecer uma igualdade de condições. Igualdade essa baseada em sujeitos com nome e sobrenome.

Ricardo Moura em agosto 31, 2010 1:52 PM


#25

Ôpa, deixa corrigir aqui logo: "sensaSões" não, carapálida (comentário 20), mas "sensaÇões" (putz!, outro ato falho...).

Marcello em agosto 31, 2010 2:26 PM


#26

Embora sejam dois modelos bem distintos de abordagem, e com exemplares de caráter e arquétipos de vida diversos, eu senti em comum um mergulho sobre a mão silenciosa da sociedade, aquela mesma sutil, porém nem um pouco misericordiosa mão.

Viver à margem pode ser algo visto com ternura e poesia, ou com crueza. Pode ser tempero de quem quer mudar o gosto amargo como os personagens de Bolaño, ou feridade de quem se entrega ao instinto da selva.

A cada leitura que cada um pode fazer, creio que o asco individual grita a cada garganta de modo diferente. A total perda de humanidade nos personagens de Fonseca, parafraseado e definindo com letras do Bolaños: “por sua juventude perdida, por todos os jovens que já não eram jovens e pelos jovens que morreram jovens”, mostra o comum modo de vida, apátrida, exiladas nos dois casos.

Creio que possivelmente os personagens festivos de Fonseca nutruriam em seu íntimo mais temor para os chilenos, que para os assaltantes. Eles em verdade negociariam com socialistas?

Tiago Aguiar em agosto 31, 2010 2:56 PM


#27

salve, idelber,

só lí o conto do bolaño. o do rubem fonseca não reli.
a perplexidade do narrador do olho, aliada com a surpresa do voluntarismo do personagem em terras estranhas, me emocionaram como leitor. fiquei estarrecido e embevecido com o conto.
resultado: vou vexado atrás de seus livros, ora se vou.

abçs

carlos -fort-ce em agosto 31, 2010 3:03 PM


#28

Idelber, Vitor, obrigado pelos elogios.

O comentário do Vitor me fez pensar novamente acerca do conto de Bolaño. Talvez eu esteja esticando deeemais a corda, mas como sei que neste espaço temos liberdade para extrapolar, vou compartilhar as reflexões às quais fui conduzido pelo que o Vitor escreveu.

O Vitor se referiu aos pesadelos do Olho.

O encontro do narrador com o Olho é descrito de uma forma um tanto quanto irreal, onírica. A atmosfera de irrealidade e de onirismo também conforma o relato lacunar do Olho: uma noite sendo levado de um bordel a outro, pelas ruas de uma cidade que não conhecia, sempre sem saber aonde estava indo; o tempo transcorrido no terceiro bordel, do qual ele transmite ao amigo a sensação de estar perdido em um lugar estranho, sombrio, labiríntico; a fuga sem rumo, durante a qual, ele descobre depois, andara em círculos; o período ao lado dos dois meninos, cuja língua não compreendia, em uma vila do interior; o retorno ao bordel, que desaparecera como se nunca tivesse existido.

O Olho não tinha retornado ao Chile ou ao México, permanecera na Europa, exilado, estrangeiro. Ao lado dos meninos, ele constitui, por um breve período, a família que nunca tivera e que provavelmente nunca imaginara ter. (O amigo, ao contrário, casara-se e tivera um filho.) Em uma terra onde era ainda mais estrangeiro do que na Europa, ele, que condenava a violência, torna-se, por um ato de violência, outro e encontra uma felicidade precária, que o faz se doar aos meninos, aos quais trata como se fossem seus filhos. Contudo, esse período, simultaneamente feliz e terrificante, termina se revelando fugaz.

O ato de violência original, criadora e constitutiva, do Olho não poderia ser interpretado como uma metáfora do passado recente das sociedades latino-americanas? A resistência, a fundação de um espaço alternativo, de uma comunidade nova, a muitos, sobretudo aos jovens nascidos nos anos 1950, não se revelava possível apenas mediante o recurso a uma violência criadora e constitutiva, na impossibilidade da discussão e da ação no espaço público, suprimido? (Nenhum diálogo é possível entre o Olho e os homens que administram o bordel.) O relato parece afirmar que uma comunidade nova é factível, mas que, como toda comunidade, não será perfeita e estará a mercê do tempo e do imponderável, e seu devir jamais estará submetido aos desejos e aos planos humanos.

Fabiano Camilo em agosto 31, 2010 3:22 PM


#29

"Depois a doença chegou à aldeia e os meninos morreram."

Acho que a questão da homossexualidade, da castração (são dois meninos, um castrado, outro não; um macho, outro fêmea) é muito forte no conto do Bolaño, por isso fico imaginando se "a doença" não seria a AIDS, que surgiu justamente no período em que se passa o conto... Viajei, né?

Marcelo P. em agosto 31, 2010 3:51 PM


#30

De jeito nenhum, Marcelo! Acho que é uma boa hipótese. Nós teríamos que fazer as contas. Será que há suficientes elementos no conto para se calcular exatamente em que ano ele se passa?

O golpe no Chile aconteceu em 1973. Alguém que tenha a leitura do conto mais fresca na memória--ou que tenha a paciência de rastrear as referências temporais--poderia fazer os cálculos? Segundo me lembro, há várias dicas, do tipo: ficou tantos anos em tal lugar, tantos anos no outro... É só ir somando.

Idelber em agosto 31, 2010 3:59 PM


#31

Victor, eu acho que tem mesmo uma pista aí nos nomes. Gonçalves parece ser o codinome que garante o anonimato, como o Jair colocou, mas é também, você tem razão, uma persona que dá conta daquela outra realidade. Gonçalves, Inocêncio são nomes adultos, né? Muito diversos dos apelidos pueris pelos quais eles se chamam...Zequinha, Pereba e Lambreta. Bem diverso da gentileza de que eles são capazes entre eles, como por exemplo, esperar o terceiro para ceiarem juntos ao final. Ironia bacana, aliás.

Lembrei do Cidade de Deus...
"_Dadinho é o caralho, meu nome agora é Zé Pequeno, porra!"

Cibele em agosto 31, 2010 4:08 PM


#32

"Em janeiro de 1974, quatro meses depois do golpe de Estado, o Olho Silva foi embora do Chile. Primeiro esteve em Buenos Aires, depois os maus ventos que sopravam na república vizinha o levaram para o México, onde morou um par de anos e onde eu o conheci."

Ou seja, o Olho deixou a Argentina entre 74 e 76 (ano do golpe). Mais dois anos no México.

Dali foi pra Paris, mas não achei uma referência de quanto tempo passou por lá... Finalmente, a Índia:

"Quanto tempo você ficou na Índia?, perguntei alarmado. Um ano e meio, respondeu o Olho, mas com toda certeza não sabia."

Marcelo P. em agosto 31, 2010 4:17 PM


#33

Pois é. Começo dos anos 80. Época da AIDS.

Cibele, que bom te ver aqui :-)

Idelber em agosto 31, 2010 4:19 PM


#34

putafaltadesacanagem... não tive tempo de ler o conto do bolano e o do Rubem Fonseca eu li há muito tempo...só lembro que fiquei fascinada com a linguagem violenta e chula...

ou seja, não vai dar para participar, mas depois virei aqui e lerei todos os comentários.

aiaiai em agosto 31, 2010 4:42 PM


#35

Oi, Mario, entendi. Certamente tanta a alegoria quanto a forma da violência seriam outras, hoje.
Penso que a coisa estaria mais marcada pelo pragmatismo do que pelo ressentimento.
Chamo a atenção para uma referência literária importante em Rubem Fonseca, quanto à violência. É o russo Isaac Babel, o grande contista do século XX, e um poeta da violência.
Bem, se der retomo isso depois. Aulas, o dia inteiro!

Jair Fonseca em agosto 31, 2010 4:49 PM


#36

Fabiano,

queria dar uma pequena contribuição à sua análise da representação do homossexual com um comentário de cunho um pouco impressionista de minha parte. É que, depois da História do Olho, de Georges Bataille, eu não consigo ler Olho, sobretudo com essa maiúscula, de forma neutra, sem relacionar a palavra à obsessão do protagonista bataillano pelo ânus da sua amiga. Também lembro da capa de disco do Tom Zé, em que o olho é na verdade um cu.

Talvez os nomes não carreguem algo de tão fatal, mas sim os apelidos. E tal fatalidade já está posta desde o início do conto de Bolaño: Maurício é Olho desde o título. (Isso talvez explique também a tentativa malograda de negar os apelidos em Fonseca: Pereba não pode evitar o estranhamento quando vira Gonçalves. E Pereba, como vimos, é uma figura tão repugnante quanto seu apelido...). A simbologia anal do olho faz com que todo contato com o Olho esteja mediado pela caracterização da personagem com alguma sodomia e, por conseguinte, com sua homossexualidade. O Olho não pode evitar: pode ser gente fina, mas é homossexual; pode ser de esquerda, mas é homossexual; pode não ser nada, mas é homossexual. Como se a homossexualidade fosse uma mácula, coisa que não é, indelével e sempre-pertinente, eis que impossível de ocultar por causa do apelido. Isso reforça a identificação com o castrado - sem falo, puro olho.

O Olho, portanto, sofre essa dupla fatalidade, de origem e de apelido: a do jovem latino-americano nascido nos anos 50 e a do homossexual latino-americano nascido nos anos 50. Conquanto guarde alguma iniciativa, como colocou o Idelber, essa iniciativa parece aquele joguete dos deuses nas tragédias: é a corda que se dá para que a personagem se enforque.

Felipe em agosto 31, 2010 5:14 PM


#37

Oi, Idelber,

Os contos são bem diferentes, né? O do Rubem publicado em 1975 e o do Bolaño contando uma história que começa em 1974, meses após o golpe. No primeiro a ação é mais contundente, transgressiva e incorporada, no segundo o Olho serve também como alusão ao olhar que posteriormente se pode ter da ditadura. As fotografias servirão, à revelia da crítica, como possibilidades de leitura e não como documento.
Lendo o Bolaño fiquei pensando no Bataille por causa da História do Olho, que ele escreve duas vezes. A princípio pensei que fosse absolutamente aleatória essa leitura, mas depois com o clima da “festa”, da castração, do “baixo-materialismo” e do culto aos deuses indianos vi que era possível (ou será que não? hehe). Mas isso fica para uma elaboração futura.
A função do olho é bem central no conto do Bolaño. Primeiro porque Olho é fotógrafo e ele diz coisas bem interessantes sobre a fotografia, por exemplo, que tem coisas que nem vítimas, nem carrascos, nem os espectadores podem explicar, só quem pode é uma foto. (Nadie se puede hacer una idea. Ni la víctima, ni los verdugos, ni los espectadores. Sólo una foto.). Aqui eu percebo uma diferença bem em relação ao Fonseca porque Bolaño não aposta na fenomenologia (estar lá de corpo presente para poder testemunhar e narrar) como acho que tende o Feliz Ano Novo com a imediaticidade da violência, etc. Mas cabe perfeitamente ao período histórico e acho interessante a idéia do corpo lacerado dessa literatura da violência (ou, mais adequadamente, da violência que a literatura pode empreender). Mas voltando ao Bolaño, ali ele nos diz que a história é uma construção que é feita também através de imagens e impressões. É por causa da fotografia que ele vai para Índia e é uma foto que desencadeia a série de acontecimentos com os meninos. E com relação aos meninos acho óbvia a expansão da função do olhar que caberia bem com a noção de punctum do Barthes: a foto é um corte, uma pungência, que implica o corpo. Diz o Olho: “Sabía que estaba condenándome para toda la eternidad, pero lo hice”. E o que se sucede, creio, pode ser lido por aí também: a convivência com os meninos, o cuidado, a tristeza da perda, etc.
A fotografia, poderíamos pensar, é muito presente no texto porque a memória da catástrofe, sobretudo, não pode ser capturada como imagem total (a totalidade é a guerra, uma imagem total, pressupõe uma verdade, o que é extremamente nocivo). Daí o caráter fragmentário do texto: o golpe não pode ser explicado só na fuga do Chile, ou no México, ou em Paris, ou na Índia.
Para finalizar, juro. Agamben fala uma coisa linda sobre a fotografia: “Se trata de uma exigência: o retratado na foto exige algo de nós (...) Mesmo que a pessoa estivesse hoje completamente esquecida, ainda que seu nome tivesse sido apagado para sempre da memória dos homens – e apesar disso; é mais precisamente por isso – , essa pessoa, esse rosto exigem seu nome, exigem não ser esquecidos”. A fotografia tem essa capacidade de não nos deixar esquecer, ela se posiciona entre a recordação e a esperança, por isso Olho chora em nome de todos.
E foi assim que li =)

Estou muito feliz pelo retorno do Clube. Ai, como você fazia falta, Idelber!
Beijos

Flávia Cera em agosto 31, 2010 5:25 PM


#38

Olha aí, dois comentários redigidos ao mesmo tempo--acredito que a Flávia não havia ainda lido o Felipe quando escreveu--notando mui pertinentemente o vínculo do texto do Bolaño com História do Olho, de Bataille.

São aquelas coisas que você não nota quando lê, e no momento que alguém aponta, você pensa "claro, porra, como eu não tinha visto isso?"

Idelber em agosto 31, 2010 5:29 PM


#39

Hummm...excelente sacada essa da inversão da lógica do apelido. O apelido Zequinha (ou Pereba ou Lambreta, não importa)dá lugar ao Gonçalves...um sobrenome importante desejado.

O que talvez marque uma diferença grande da violência, hoje. Por um lado acho que esses laços de solidariedade interna da bandidagem se perderam para dar lugar a um ethos muito elaborado e hierarquizado. Além disso, o outro lado da lei, muito mais crítico e marcado por identidades e culturas locais, não quer mais o sobrenome do rico. Quer o dinheiro do rico e troca o apelido de infância por um terceiro apelido.

Tô sempre aqui Idelber...nem sempre com tempo pra comentar, mas sempre aqui...
: )

Cibele em agosto 31, 2010 5:44 PM


#40

Não tinha lido! Que ótimo! Isso quer dizer que faz sentido, por enquanto, para nós três. A idéia do baixo materialismo do Bataille cai muito bem com a idéia do cu, que gosto de ler como os subterrâneos do Hélio Oiticica - o que vem de baixo e que pode emergir a qualquer momento. Gosto de pensar que é um estado de emergência e aí tem tudo a ver com o reprimido, com a história da sexualidade, a psicanálise.

Flávia Cera em agosto 31, 2010 5:45 PM


#41

Por acaso estou lendo Bolaño pela primeira vez, O Terceiro Reich, estou na metade e agora lendo este conto senti um mesmo, hum, cheiro de medo no ar, uma violência difusa. Mais não saberia dizer que pudesse acrescentar aos comentários acima. Só que adorei o link onde o conto está e tem muitas coisas mais, valeu Idelber!

Marcia W. em agosto 31, 2010 6:00 PM


#42

No texto “Feliz Ano Novo” identifico que devido a narração ser realizada pelos autores do assalto e da violência decorrida deste, a uma tentativa de humanização do assassinos, a partir da compreensão, assim o choque que seria provocado pela descrição de assassinato e do estupro é amenizada , pois o ato de violência é uma simples reação da exclusão social e da violência moral e física sofrida pelos autores da ação, esses que a tanto tempo são assassinados e violentados. Ou seja, o conto coloca o assalto e a violência como reação da ação feita pelas supostas vitimas. E ao mesmo tempo que o autor busca um nova visão dos fatos, e entendimento da reação de violência , surgi a ironia que reflete no leitor, a piedade dos ricos e não dos pobres, pois numa primeira leitura o que fica marcante é a descrição do corpo do jovem rico grudado na parede, e em nenhum momento se recorda das descrições dos primeiros assassinatos da historia do conto, que são os amigos de infância de Zequinha “Dezesseis tiros no quengo. Pegaram o Vevé e estrangularam. O Minhoca, porra! O Minhoca! crescemos juntos em Caxias, o cara era tão míope que não enxergava daqui até ali, e também era meio gago - pegaram ele e jogaram dentro do Guandu, todo arrebentado Pior foi com o Tripé. Tacaram fogo nele. Virou torresmo.” Assim o autor faz uma critica social usando o próprio leitor, tornando-o um espelho da sociedade, manobra os fatos de maneira que mesmo sensibilizados por vermos os fatos pelos olhos do assaltante, ainda os enxergamos como cruéis e frios , diferentes dos ricos que ainda seriam as verdadeiras vitimas.

PS; Foi a primeira vez que li os textos minha interpretação pode ser um pouco limitada e superficial.

Michelle Mendonça em agosto 31, 2010 6:20 PM


#43

Você tem certeza de que queria dar uma pequena contribuição, Felipe?

;)

Fabiano Camilo em agosto 31, 2010 6:49 PM


#44

Nós estamos discutindo a questão dos nomes tanto no conto de Fonseca como no de Bolaño, e eu me apercebi de um detalhe que me pareceu importante, o qual, salvo engano, ninguém comentou em relação ao “O Olho Silva”, um detalhe que merecia ser explorado pelo Felipe e pela Flávia. No relato, como o Felipe bem observou, o apelido (Olho) é mais importante do que o nome (Maurício) do protagonista. Todavia, ele é a única pessoa que possui um nome, acompanhado de um sobrenome, e, adicionalmente, um apelido. Ele é duas vezes nomeado. Os demais personagens, ao contrário, nenhum deles têm um nome – ou um apelido.

Fabiano Camilo em agosto 31, 2010 7:07 PM


#45

Agradecido, Fabiano!

Bem, quanto ao sobrenome, quer algo mais abundante na América Latina que Silva? Pelo menos depois do Lula o Silva ficou bem simbólico na região...

Assim, forçando um pouco a barra, temos Olho Silva: homossexual e latino-americano.

O paradoxal disso é que justo a personagem mais individualizada - com história e experiência individuais, com nome, sobrenome e apelido - ganha um status de tipo.

Ah, eu que sou fã do mundo-abrigo fico bem contente de ter feito a mesma associação da Flávia! Aliás, a opinião dela de que Bolaño é menos fenomenológico é uma boa formalização de algo que tava tentando tatear sobre o chileno aqui com meus botões. =)

Felipe em agosto 31, 2010 7:45 PM


#46

Sobre o conto do Bolaño fui contemplada por muitos, e só para pontuar, percebo que a semelhança entre os dois contos, decorrem do sentido simbólico de inversão dos papeis . Como o Fabiano explicitou muito bem, sobre o termo de inversão, determinando o castrado simbólico, que desfigura homem em mulher. Onde o homem seria o sujeito dominador e ativo, e que após sua castração, sem opção torna-se passivo e dominado. Já o conto de Rubem determina uma inversão, dos dominadores para os dominados. Como exemplo, no final da festa, onde todos estavam de cabeça baixa e quietos, a mercê dos “bandidos”, sem resistir ao risco eminente de morte, demonstrando novamente a inversão de posições entre quem detem ou nao o poder.
Tendo assim uma atmosfera de transições entre ativo e passivo no contexto sexual e de dominador e dominado do contexto social.

Michelle Mendonça em agosto 31, 2010 8:30 PM


#47

Então, Fabiano, não fui levada a pensar os nomes quando li, mas eu ficaria na linha de raciocínio que montei da fotografia. O paradoxo apontado pelo Felipe faz todo sentido e é a partir dele que eu arriscaria uma leitura: Olho Silva é quem monta a história, quem ficcionaliza a história vivida por Maurício (seja do golpe, das crianças castradas na Índia). O sujeito se des-subjetiva na medida em que se subjetiva.
Felipe (agora que eu vi que é você), querido: a admiração é recíproca =)

Flávia Cera em agosto 31, 2010 9:04 PM


#48

Olá Idelber, saudações corinthianas especiais de centenário!

O Bolaño é alguma coisa, se é que vocês me entendem. E no clube aprendo muito mesmo. Que demais!

O Rubem Fonseca li pela primeira vez. Me transportou para quando eu era criança nos anos 70 e as conversas que rolavam na sala lá de casa. A Michelle Mendonça matando a minha charada: E ao mesmo tempo que o autor busca uma nova visão dos fatos, e entendimento da reação de violência, surgi a ironia que reflete no leitor, a piedade dos ricos e não dos pobres, pois numa primeira leitura o que fica marcante é a descrição do corpo do jovem rico grudado na parede, e em nenhum momento se recorda das descrições dos primeiros assassinatos da historia do conto (...).
Anos 70 classe média branca ascendente. Eu tava lá, meus pais "vencendo na vida", eu com meus 10 ou 12 anos e o papo pra entender as coisas lá em casa era assim mesmo, surreal. Tendo o Rubem Fonseca marcado época na literatura, eu só preciso deste texto para na tv ver sua influência como por exemplo no CQC. Passo.

Boa notícia aqui de São Paulo é que nos ônibus tá todo mundo lendo!

Bartira G. em agosto 31, 2010 9:57 PM


#49

Como em alguns comentários acima, o que mais me chamou a atenção no conto do Bolaño foi o caráter onírico, a imprecisão com que a narrativa do Olho trata de lugares, datas, pessoas; salientado ainda mais por algumas observações: o Olho chora ao contar a história para o narrador, o Olho chora muitas durante e "sem parar" no fim de sua narrativa. E aí, a frase "A história do Olho transcorria na Índia", me remete ao Hinduísmo e à questão do "terceiro olho", como até poderia ser considerada a máquina fotográfica.
É interessante notar também que os hijras, os "eunucos" indianos, aqueles que "não gostam de ser fotografados", não são considerados nem homens nem mulheres, e por isso mesmo nem trans ou homos, mas um "terceiro gênero", identificados com a deusa Bahuchara Mata ou com Shiva. Então, eles poderiam ser tratados como uma "casta" (uau! viajando um pouco mais: castRa?) ou um culto. Aí acho que acontece a verdadeira identificação sentida pelo Olho: um homossexual pode ser visto como um ser impotente, incapaz de fecundar ou procriar, e a "emasculação" sofrida pelos hijras, apesar de torná-los impotentes, faz com que sejam ritualisticamente identificados com deusas da fertilidade, potência e procriação. Ou seja, torna-os aceitáveis e até mesmo desejáveis dentro de uma sociedade machista, homofóbica e falocêntrica (se não considerarmos os fatores econômicos).
Aí volta à questão inicial da imprecisão da narrativa, da falta de "provas materiais": não teria sido a viagem do Olho à Índia, mais uma "viagem" interna, uma necessidade de se conhecer e se aceitar?
Tá, posso estar "viajando"... mas foi isso que o conto me passou.

Quanto à relação com o conto do Rubem Fonseca, para mim o foco está nisto da afirmação da masculinidade ou da busca de uma identidade (aí pode entrar a questão dos nomes e apelidos) muito mais do que na questão da violência. Afinal, o que é o uso dessas armas (ou da máquina fotográfica?*), senão como metáfora do próprio falo, principalmente no caso do Lambreta?

* alguns indígenas acreditam que a fotografia rouba a alma do fotografado.

Ana em agosto 31, 2010 10:19 PM


#50

Felipe, Flávia, obrigado por aceitarem minha sugestão de discussão.

Marcelo, Idelber, discordo de vocês em relação à hipótese de que a doença possa ser a AIDS. Na Índia, o vírus HIV somente se disseminou entre um elevado contingente populacional na década de 1990. Se os meninos tivessem morrido de AIDS, parece-me mais verossímil que o Olho dissesse “os meninos adoeceram”, “os meninos ficaram doentes”, “os meninos pegaram uma doença”, ao invés de “a doença chegou à aldeia”. A imagem de uma doença que avança, vinda do exterior (o mundo além da aldeia), e atinge um local afastado não condiz tanto com a forma de difusão do HIV, remete antes para doenças como cólera, febre tifoide, malária, não por acaso comuns na Índia, porque em condições de miséria e de higiene precária espalham-se velozmente, podendo matar um número muito grande de pessoas. “A doença chegou à aldeia” indica que várias pessoas adoeceram rapidamente, ao mesmo tempo. O quadro não me sugere muito AIDS.

Ana, gostaria de fazer uma pergunta. Sua descrição dos hijras é muito interessante, sobretudo pela informação de que eles não gostam de ser fotografados, o que nos reconduz, por outra via, ao excelente comentário da Flávia. Todavia, a valorização dos hijras não contrasta com as palavras do Olho a respeito dos castrados? Da história dele, a impressão que subsiste é de que os hijras são desprezados na sociedade indiana. Ah, gostei muito também de sua hipótese de que a viagem do Olho possa ter sido uma viagem em si mesmo.

Por hoje chega...

Abraços a todos!

Fabiano Camilo em setembro 1, 2010 12:14 AM


#51

Queria só chamar a atenção para uns detalhes no começo conto do Rubem Fonseca:
1. Antes de contar aos outros que tem armas escondidas, Zequinha comenta que "os homens não estão brincando" e faz uma lista de companheiros de ofício que foram massacrados pelo Esquadrão da Morte - precursores e sucessores dos aparelhos repressivos.
2. Esses três caras são pé-rapados que estão usando sem permissão as armas do Pereba, que é um assaltante de bancos - know-how aprendido com a guerrilha urbana.
3. A casa do narrador é num edifício sem água com elevador quebrado, claramente um conjunto habitacional para famílias carentes do tipo Cruzada de São Sebastião ou Cidade de Deus [o primeiro é na zona sul, como enfatiza o orgulhoso narrador], para onde moradores de favelas em pontos nobres do RJ era "removidos", política acelerada com 1964.
4. Os assaltantes convivem através da televisão com os padrões de alto consumo da festa da burguesia nos anos do milagre, enquanto literalmente passam fome e moram num chiqueiro.

Enfim, estão aí cifrados vários fantasmas dos anos de chumbo, desejando aos brasileiros dos anos Geisel, da "abertura lenda, gradual e segura", e de nós todos até hoje, o seu "feliz ano novo".

Paulo Moreira em setembro 1, 2010 12:31 AM


#52

Na mosca, Paulo. Muito bem visto. Caramba, como eu aprendo com vocês neste Clube.

Idelber em setembro 1, 2010 12:33 AM


#53

Na comparação com esse conto do Bolaño, "Feliz Ano Novo" ganha disparado. "O Olho Silva" é uma narrativa muito bem conduzida até o episódio da fuga do bordel, mas que, a partir desse ponto, se perde completamente. Bolaño não sabe mais o que fazer com aqueles três personagens, e alinhava um final completamente inverossímil, que não aponta para lugar nenhum.

O conto, tal como eu o leio, se constroi na interseção de duas oposições. Em primeiro lugar, temos a oposição entre o observador passivo, que simplesmente "olha", "fotografa", e o ativista, que vence o medo e intervém na realidade, pondo às vezes a própria vida em risco. Em segundo lugar, temos a oposição entre a violência política, no sentido mais estrito, e a violência que se volta conta o indivíduo em função, por exemplo, do preconceito homofóbico ou de uma religião que usa a vida humana como elemento de um ritual.

Embora tenha fugido da ditadura de Pinochet, Maurício Silva "não se vangloriava de ter participado de uma resistência mais fantasmática do que real", nem frequentava o círculo dos exilados. Logo ficamos sabendo que esse distanciamento tem raízes pessoais. Maurício é homossexual, e sua homossexualidade era mal vista nos círculos de esquerda a que ele pertencia no Chile. Ele é vítima, como todos os outros exilados, da violência política de Pinochet, mas é também vítima do preconceito de seus próprios colegas de luta.

A cena no interior do bordel é bem conduzida. Há pequenas incongruências e lacunas, mas elas acabam tendo alguma funcionalidade, na medida em que reforçam o clima de "sonho" (ou de "pesadelo") de toda essa parte do conto. Um "puto de uns vinte anos que falava inglês" aparece de repente no meio da narrativa, sem maiores preâmbulos. O menino emasculado, que tinha ido embora, ressurge a um bater de palmas, não se sabe bem de onde. Caminham por corredores escuros, e vão dar num quarto em que o médico encarregado das cirurgias cochilava junto da próxima vítima - uma menino de seis ou sete anos apenas. Tudo isso está perfeitamente de acordo com a dinâmica do conto, e é perfeitamente cabível.

A cena em que Maurício fotografa aquela criança (em que se define, portanto, como mero expectador externo, que não tem nenhum tipo de envolvimento com aquilo que está à sua frente) é muito bem construída. "Eu sabia que estava me condenando por toda a eternidade" é uma sentença perfeitamente cabível naquele contexto. Se se limitasse a ser um "olho", a "fotografar", Maurício seria um covarde. Então, de repente, ele resolve agir, mas não é movido pela coragem típica dos herois masculinos. O que o move é um sentimento tipicamente feminino - ele se transforma, de repente, na MÃE daqueles dois garotos. Pratica uma violência não especificada (mata o médico?), e foge pelas ruas, levando as duas crianças consigo.

Aí, de repente, aquele conto que vinha tão bem acaba se embrenhando num final caótico, sem pé nem cabeça, em que a falta de verossimilhança e as lacunas narrativas já não cumprem função nenhuma. Pensem nessa cena no interior do Brasil. Faz sentido? Um estrangeiro, que não fala a língua do país, carrega duas crianças que falam o idioma local, e supostamente se comunica com outras pessoas da vizinhança, e conta sua verdadeira história, ou pelo menos desmente a versão apresentada por Maurício de que é pai de ambos. De repente, não mais que de repente, como Bolaño não tem a menor ideia do que pode ser feito daquelas duas crianças, e tem que levar o conto para o final, o que ele faz? Dá uma de Janete Clair e mata os dois. (A hipótese da AIDs é só uma tentativa heróica de um leitor que deseja salvar um conto que não tem salvação. O menor ainda não se prostituía, não nos esqueçamos disso.) O choro no telefone é patético. Nada funciona nesse final destrambelhado.

É uma pena.

Jotavê em setembro 1, 2010 1:40 AM


#54

Oi, Camilo,
É aquela coisa: sempre que se atribui características, representações ou representatividade do divino ao humano, alguma coisa pode sair do controle; vide o caso de alguns padres, pastores, baba e ialorixás, cartomantes etc... Tradicionalmente, os hijras são identificados com a deusa, mas aí a gente não deve esquecer o entorno, a pressão social, a homofobia, o medo e o desprezo pelo diferente... E aí, alguns dos que seriam marginalizados, também tentam se adaptar como hijras. (um parênteses para uma informação que achei super curiosa: outro dia li, mas não pesquisei para saber se é mesmo verdade, que depois da Tailândia, com as Kathoey, o Irã é o segundo país que mais realiza cirurgias de readequação sexual, porque lá a homossexualidade é proibida). A categoria serve então como uma "umbrella" para abranger pessoas com as mais diversas necessidades, e entre essas pessoas há uma parte que, não encontrando espaço dentro dos cultos, dedica-se à prostituição e à extorção (se você pensar que, como representates da deusa da fertilidade e da prosperidade, podem ser imbuídos do poder de dar ou retirar tais "presentes"). Mas se há oferta, é porque há demanda (como no caso dos travestis brasileiros, por exemplo, e se há explorados, é porque há exploradores, e esses muitas vezes vão atrás de pais que queiram "oferecer" suas crianças à deusa em troca de alguns presentes uma vez por ano. Em meio à pobreza, é tentador, e assim muitas esses meninos se tornam escravos sexuais em bordéis, como parece ter sido o caso do bordel visitado pelo Olho. Daí o estigma...

Quanto à questão da fotografia, acho que provoquei uma confusão. O conto nos diz que os "índios", que depois diz se tratar dos indianos, não gostam de fotografias. Eu já ouvi isso sobre algumas tribos indígenas brasileiras, porque eles acham que a foto "rouba" a alma, ao separá-la do corpo, que é o único ali representado. Eu nunca li Agamben, e então pergunto para você ou para a Flávia: ele vale também para essa crença indígena? Bem, isso pode já não ter mais nada a ver com o conto...

Abraço,

Ana em setembro 1, 2010 1:58 AM


#55

Fiz algumas reflexões sobre os contos e publiquei no meu blog. Não só está grande para colar, como tb vou ter preguiça de diagramar. Fica o link: http://incautosdoontem.opsblog.org/2010/08/31/mocinhos-e-bandidos/

Espero que valha para a conversa.

Abraços.

Ulisses Adirt em setembro 1, 2010 2:14 AM


#56

Se me permitem umas associações meio picaretas.

O supereu lacaniano costuma instigar o eu com um mandamento sádico: "Desafia o Pai, porque sabes que não podes".

Freud dizia que os pesadelos são, também, como os demais sonhos, a realização de um desejo inconsciente. No caso dos pesadelos, porém, trata-se de desejo tão profundo e terrível que não pode aceder à consciência senão como essa sensação de horror/angústia característica dos sonhos ruins.

Já foi dito aí por cima que o conto de Bolaño parecia um pesadelo. Foi dito também que o Olho se identifica com o menino castrado.

Seguindo nessa linha, acho que seria interessante viajar no conto de Bolaño como um sonho de realização do desejo incestuoso.

O Olho identifica-se com o menino castrado e com o menino cuja castração ele impede (que poderiam bem ser, dialeticamente, um único menino, pela lógica onírica).

Mas também, quando resgata os meninos, é o papel da Mãe que o Olho desempenha. É a Mãe do desejo infantil, que desafia o Pai em favor do filho, impede a castração e permite o incesto.

A violência do conto, portanto, seria a violência da realização do desejo incestuoso, da morte do Pai, da negação da castração.

"Desafia o Pai, pois sabes que não podes", ordena o supereu.

E o pesadelo do Olho demonstra bem o que acontece a quem ousa desafiar: o exílio (como o de Édipo?), as crianças que morrem (como os que morreram de Aids)...

O choro final também lembra o de quem acaba de acordar de um pesadelo, aliviado mas com a sensação de vazio de um desejo que não se completa.

Por delizamento simbólico pode-se compreender também as relações com a política, o sentimento de impotência (!), a fuga, o medo da violência.

E só pra fazer alguma comparação:

A violência em Bolaño é violência recalcada, que transborda apenas nesse episódio meio delirante, esse "pesadelo".

Em Fonseca, temos uma violência plenamente perversa, escancarada, sem vestígio de supereu.

Se a neurose é o negativo da perversão, como dizia Freud, a violência recalcada e cheia de remorso de Olho é o negativo da violência perversa, sem culpa, dos personagens de "Feliz Ano Novo".

Mas já viajei demais.

Gustavo em setembro 1, 2010 6:58 AM


#57

Há um erro gigantesco na interpretação que ofereci mais acima. O final do conto do Bolaño é maravilhoso. É uma grande metáfora, e só fui perceber isso agora de manhã, ao reler o conto. Estou atrasado, mas volto depois.

Jotavê em setembro 1, 2010 8:31 AM


#58

hehehe, este é o Jotavê!

Idelber em setembro 1, 2010 8:34 AM


#59

Ana, obrigado pela resposta a minha pergunta.

Pelo que sei, a Tailândia, pioneira no desenvolvimento de técnicas, é um dos países que mais realizam cirurgias de redesignação sexual por ano. Talvez o primeiro. (Cingapura também realiza muitas cirurgias anualmente.) O alto número de operações deve-se à reputação dos médicos e ao custo relativamente mais baixo dos procedimentos. Consequentemente, transsexuais do mundo inteiro, brasileiros inclusive, viajam à Tailândia para se submeter à cirurgia.

Desconheço o número de operações de redesignação sexual realizadas no Irã todos os anos. Todavia, parece que o número é mesmo alto. Ao contrário da homossexualidade, um pecado abominável, a transsexualidade é compreendida como um distúrbio ou uma doença passível de tratamento e cura. O problema é que, como o cotidiano de um homossexual masculino é muito penoso, muitos homens que não são transexuais, que não possuem nenhum transtorno de identidade de gênero, submetem-se à cirurgia na esperança de uma vida melhor. (Eu me recordo de ter lido uma entrevista com um homem, não sei se homo ou transexual, que se arrependia de ter modificado seu gênero, porque, conforme constatou após a operação, a vida das mulheres no Irã é terrível. Perdão pela ironia, mas não resisto: era preciso se tornar uma mulher para perceber o óbvio?) Nos últimos anos, o número de intervenções cirúrgicas aumentou, porque, atualmente, o governo oferece uma ajuda de custo, para as pessoas que queiram se operar, bem como um empréstimo para quem, após a mudança de gênero, queria iniciar um negócio próprio.

A crença de que a fotografia, mas também o gravador e o vídeo, capturariam ou roubariam a alma de uma pessoa é de fato compartilhada por algumas sociedades ameríndias. Não tenho muito conhecimento sobre o tema, mas, anos atrás, li um artigo interessante, de Regina Pollo Müller, a respeito das transformações ocorridas nessa crença, conforme professada pelos Asuriní do Xingu: “Corpo e imagem em movimento: há uma alma neste corpo”.

Não li o texto de Giorgio Agamben citado pela Flávia. (A propósito, Flávia, qual o título do texto?) A partir da explicação dela, eu ousaria afirmar que, no caso dos Asuriní, não é um corpo que exige não ser esquecido, mas a sombra do corpo, ou seja, o princípio vital, a alma (ynga), que é capturada por um dispositivo, que dela produz uma imagem (ayngava). Para os Asuriní, seria antes um ynga que exigiria não ser esquecido.

Um abraço!

Fabiano Camilo em setembro 1, 2010 10:12 AM


#60

Como salvar o final aparentemente destrambelhado do conto do Bolaño?

Compreendendo que Olho Silva é simplesmente um símbolo. Ele simboliza a LUTA POR UM IDEAL - simboliza a ideia da aceitação do risco pessoal em nome de uma causa (no caso dos opositores de Pinochet) ou simplesmente de uma outra pessoa que depende de nós para não ser destruída. Olho Silva simboliza o oposto da "razão cínica" que se instalou no mundo contemporâneo a partir do fim da Guerra Fria. Na verdade, ele simboliza a DERROCADA da ideia da luta política tal como a entendia a geração a que ele pertence.

Todo o final do conto é simbólico, e por isso a verossimilhança é mandada às favas. Os dois meninos simbolizam os ideais que Ojo Silva carrega, peregrino, "lutador latino-americano errante", por uma terra estrangeira, onde ninguém fala a sua língua, onde ninguém saberia reconhecer seu ato pretérito como um gesto de heroísmo, tendendo antes a tomá-lo por um gesto criminoso. (Dilma Rousseff) Se toda a primeira e a segunda parte do conto OPÕEM Ojo Silva à esquerda latino-americana, denunciando os preconceitos que ela reproduzia, a terceira parte o INTEGRA Ojo Silva nos destinos desses "lutadores errantes", fazendo de seu destino uma espécie de "revelação" do drama clandestino (condenado à intimidade) que continua se desenrolando muito tempo depois que o teatro original de lutas já desapareceu (o bordel que já não existe).

As duas crianças morreram. Como os ideais pelos quais tantos lutaram também morreram. Pouco importa do que morreram essas crianças. Elas não são organismos vivos. São símbolos de uma situação impalpável. Símbolos de uma morte simbólica.

Se a datação é significativa? É claro que é. Nada a ver com AIDs. Tudo a ver com... BERLIM.

Agora, esse lindo, maravilhoso personagem-símbolo pode chorar em paz por toda sua vida naquele telefone, se quiser. O conto escapará ileso de suas lágrimas. Elas fazem TODO o sentido.

Jotavê em setembro 1, 2010 10:20 AM


#61

A chave para toda a leitura:

"Recuerdo que terminamos despotricando contra la izquierda chilena y que en algún momento yo brindé por los luchadores chilenos errantes, una fracción numerosa de los luchadores latinoamericanos errantes, entelequia compuesta de huérfanos que, como su nombre indica, erraban por el ancho mundo ofreciendo sus servicios al mejor postor, que casi siempre, por lo demás, era el peor. Pero después de reírnos el Ojo dijo que la violencia no era cosa suya. Tuya sí, me dijo con una tristeza que entonces no entendí, pero no mía. Detesto la violencia. Yo le aseguré que sentía lo mismo. Después nos pusimos a hablar de otras cosas, libros, películas, y ya no nos volvimos a ver."

A palavra "entelequia" tem que ser entendida no seu sentido figurado ("coisa irreal", segundo o dicionário da Real Academía, "mítica ficção", na tradução publicada pela Cia das Letras), mas TAMBÉM nos seu sentido filosófico original. O termo é um neologismo cunhado por Aristóteles, e indica a atualização de uma potência, a realização de um certo "télos" constitutivo da própria coisa. Ao dizer que os "luchadores latinoamericanos errantes" eram uma "entelequia compuesta de huérfanos", Bolaño está dizendo que eles são (i) a realiazação ("atualização") de um ideal (de uma "potência"), mas que são também "órfãos" desse ideal que morreu (como os dois "órfãos" do conto). Em virtude disse, caminham errantes pelo "ancho mundo", oferecendo seus serviços ao "mejor postor". Um "postor" (sempre segundo o dicionário da Real Academía) é alguém que oferece lances numa hasta pública. O "mayor" ou "mejor postor" é aquele que oferece o maior lance e, com isso, arremata a mercadoria. É o que faz Ojo Silva, oferecendo seus serviços de fotógrafo a quem pagar melhor.

Ojo Silva não havia aderido à resistência armada contra Pinochet. "La violencia no era cosa suya", como ele confessa com uma tristeza que o narrador, naquela época, não entendeu - mas que, anos depois, entenderia.

É um grande conto. "Feliz Ano Novo", com sua perfeição de relojoaria, com cada coisa em seu lugar, é também uma obra admirável, principalmente por sua capacidade antecipatória. "Cidade de Deus" (o romance) é só um corolário. Mas "Ojo Silva" é outra coisa.

Jotavê em setembro 1, 2010 10:48 AM


#62

Ana, Fabiano,

O texto do Agamben é O dia do Juízo e está no Profanações. Ali ele trabalha a relação da fotografia com a memória e com a presença (que pode ter deixado de ser presença, mas continua pela foto). Ele diz que os rostos, ou silhuetas, ou sombras exigem alguma coisa de quem as olhas e que nas fotografias podem estar representadas a humanidade inteira.
Então, eu falei da fotografia porque Bolaño se refere ao golpe e com a fotografia ele pode expandir a atuação desse golpe, ele mostra "a violência que não podemos escapar".
Ana, a mortificação através da fotografia, nos que eu citei ali, está mais presente em Barthes do que Agamben.

Abraços

Flávia Cera em setembro 1, 2010 11:48 AM


#63

Ana, essa noção barthesiana de mortificação pela fotografia, que a Flávia cita, vem do livro Câmara Clara.

Tem aqui em casa, em português :-)

Idelber em setembro 1, 2010 11:50 AM


#64

Isso mesmo, Idelber! Ana, desculpe-me porque esqueci, de novo, de dizer o nome do livro.

Flávia Cera em setembro 1, 2010 11:54 AM


#65

Alguns comentários:
1) O caráter onírico da narração de Bolaño e a fuga circular me lembraram um estilo meio Borges (em O jardim das veredas que se bifurcam, por exemplo).

2) Achei ótimo o parágrafo onde ele descreve o jornal em que Olho Silva trabalhava, ele já mostra logo de cara um estilo narrativo baseado na imprecisão dos fatos, estilo esse que dará tom ao texto inteiro.

3) Muito bom o comentário de Fabiano Camilo sobre a homossexualidade e a castração dos meninos. Só um comentário levemente jocoso: não sei o que te disseram na sua adolecência, mas o homem que é ativo na relação com outro homem também é homossexual, ao contrário do que você disse em "Como sabemos, o homem que mantém relações eróticas com outro homem mas apenas penetrando, desempenhando o papel de ativo, não é um homossexual". Gostei também dos comentários do Felipe sobre o mesmo tema.

4) Vale mencionar o contexto político que cada um teve como referência. Se quisermos entender o texto de Bolaño como uma metáfora política, eu diria que ele escreve com certo ressentimento sobre o passado, dizendo algo como "poderia ter sido diferente, deveria ter sido". Bolaño é bem politizado e apesar de mais questionar do que dar respostas, deixa isso bem marcado em seus textos (quem leu Detetives selvagens sabe BEM disso). Já Fonseca está no olho do furacão, no meio da ditadura e, apesar dos comentários de sua aproximação com o regime opressor, acho que esse texto não condiz com essa suposta posição conservadora (até mesmo porque foi censurado, e pode muito bem ser interpretado não como uma apologia à violência, mas sim uma apologia a não se conformar - bandidos não se conformam em ser pobres e, no contexto da ditadura, os cidadãos que não se conformam com um regime opressor são aqueles que lutarão contra ele). É claro que essa é uma opinião meio simplista, não dá pra querer entender a posição política do cara apenas lendo um conto. Mas foi só um conto que lí e essa foi a impressão que tive.

5) A morte é um elemento presente e determinante para os dois contos, apesar de se manifestar de forma bem diferente em cada um deles: Em Bolaño, sob a forma de desastre natural, mudando radicalmente o curso da história. Em Fonseca, é a morte que faz o texto ter a força que tem (tente imaginar o mesmo conto sem as mortes). Logo, em ambos a conclusão é a mesma: nos sentimos impotentes perante aquilo que não podemos mudar.

6) Em se tratando de comunicação, temos semelhanças nos textos: Olho Silva não entendia a linguagem de seus filhos "...a ensinar inglês aos meninos, um pouco de matemática e a vê-los brincar. Entre eles, falavam um idioma incompreensível". O mesmo se dá no ambiente de Fonseca, onde não há comunicação possível entre os burgueses e bandidos (que, observe, não moram no suburbio "Este edifício está mesmo fudido, disse Zequinha, enquanto subíamos, com o material, pelas escadas imundas e arrebentadas. Fudido mas é Zona Sul, perto da praia. Tás querendo que eu vá morar em Vilópolis?". Portanto, a distância não é de ordem física, mas sim, moral.

Daniel Cobucci em setembro 1, 2010 12:04 PM


#66

Desculpe por mudar um pouco assunto...Para quem gostou de "O Olho Silva" vale pena investir uma grana em 2666 ou seria melhor enveredar pelos livros de contos de Bolaño?

Ricardo Moura em setembro 1, 2010 12:12 PM


#67

Ricardo, depende muito do seu gosto. Se tiver fôlego, tempo pra ler e a disposição de gastar alguns caraminguás a mais, 2666 é uma grande opção. Além dos livros de contos, eu gosto muito dos romances curtos: Estrela distante e Noturno do Chile.

Idelber em setembro 1, 2010 12:16 PM


#68

Ricardo Moura: sempre vale investir uma grana em 2666. É um livro incrível.

Victor da Rosa em setembro 1, 2010 12:20 PM


#69

Tavez venha bem a propósito esta matéria da FSP:

FIDEL FAZ MEA-CULPA SOBRE PUNIÇÃO A HOMOSSEXUAIS NA DÉCADA DE 60


DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS - O ex-ditador cubano Fidel Castro admitiu ontem que seu governo perseguiu homossexuais entre 1960 e o começo dos anos 1970. "Aqueles foram momentos de grande injustiça, grande injustiça!", disse ao jornal mexicano "La Jornada".
Na entrevista, Fidel disse que foi um erro demitir membros homossexuais do governo e enviar gays e lésbicas para campos de trabalho.
"Sim, nós fizemos isso", disse. Para em seguida completar: "Eu estou tentando limitar minha responsabilidade nisso tudo, porque, óbvio, eu pessoalmente não tenho esse tipo de preconceito".
Porém, ao ser pressionado para dizer se foi o Partido Comunista ou alguma outra entidade que estava por trás das perseguições, Castro disse: "Não. Se alguém é responsável, sou eu".
Segundo Fidel, eventos como a crise dos mísseis, em 1962, impediram que as perseguições fossem paralisadas. "Tínhamos tantos e tão terríveis problemas, problemas de vida ou morte, que não prestamos atenção suficiente."
Campanhas do governo agora desencorajam a homofobia, e o Estado cubano já paga por operações de mudança de sexo para transexuais.
Mariela, sobrinha de Fidel e filha do atual líder do regime, Raúl Castro, é atualmente uma das lideranças dos direitos homossexuais no país. Numa série de entrevistas entre 2003 e 2005, Fidel disse que os "velhos preconceitos " serão cada vez mais "coisas do passado".

Jotavê em setembro 1, 2010 12:21 PM


#70

PS. Ops, não tinha lido o teu comentário, Idelber.

Victor da Rosa em setembro 1, 2010 12:22 PM


#71

Valeu Idelber e Victor! Perguntei porque tô com o Arco-Íris da Gravidade na fila há mais de ano e não queria colocar outro tijolão no modo stand by!

Ricardo Moura em setembro 1, 2010 12:30 PM


#72

Perfeito, Jotavê, mas se formos ler matéria da Folha, melhor ler também a entrevista completa no original, não acha?

Idelber em setembro 1, 2010 12:30 PM


#73

É claro, Idelber. É sempre melhor ler a entrevista completa. Reproduzi a matéria da FSP apenas para fornecer um pano de fundo para o conto do Bolaño. Só isso.

Jotavê em setembro 1, 2010 12:46 PM


#74

Vou procurar o texto, Flávia. Muito obrigado!

Fabiano Camilo em setembro 1, 2010 1:33 PM


Marcia W. em setembro 1, 2010 1:46 PM


#76

Fabiano,

nesse link tem o Profanações em português:
http://letrasuspdownload.wordpress.com/2010/06/28/livro-profanacoes/

Flávia Cera em setembro 1, 2010 1:53 PM


#77

Muito obrigado, Flávia!

Um abraço!

Fabiano Camilo em setembro 1, 2010 3:29 PM


#78

São dois contos que os li há tempos e não me recordo muito bem, principalmente o do Fonseca, mas vou arriscar comentar. Na verdade o do Bolaño li no ano passado, mas as Putas Assassinas não me impressionaram muito _ não ficou nenhum conto que eu pudesse dizer ser ao menos mediano (e, de um modo pouco ortodoxo aos dogmas da bolanomania, sou leitor assíduo desse chileno). Rubem Fonseca foi leitura fugaz da juventude. Lia mais para atenar-me com um autor nacional ao qual Pynchon teceu umas loas devidas. Mas me falta a percepção da substancia de uma autor_ a sua justificativa para escrever _ quando julgo descobrir de uma sentada todos os segredos de seu estilo e da sua motivação. Fonseca é agil, ultra-violento, e, ás vezes, efetivamente cõmico (há um conto dele sobre uma revista feminina escrita apenas por machos radicais e inveterados). Não vi nada nele além disso, tanto que sua produção ulterior foi fucando cada vez mais inexpressiva e cheia de caçoetes. A Grande Arte, seu romance celebrado, nada mais é que uma ficção policial mal realizada em que ele pretendeu dar um escopo sério juntando fatos da história brasileira, assim como o fez com Agosto. A enologia do protagonista é irritante, e algumas partes cai no mais descarado comp~endio amador sobre bons vinhos. James Ellroy, nesses quesitos, é muito superior a Fonseca (escreveu romances policiais soberbos imiscuindo o assassinato de Kennedy, etc).

O conto referido de Fonseca, presumo que é aquele em que uma trupe de assaltantes violentos invade uma festa de alta sociedade carioca, e, num dado momento, entre outras barabaridades, estupra uma mulher. Lembro do detalhe lúbrico que o bandido fizera a madame gozar várias vezes. Afora a sustentação de necessidades masturbatórias adolescentes, essa obra é lamentávelmente prosaica e rasa. Na mesma esteira das ficções de ultra violencia, peca por não instigar á reflexão _ como o faz, em alto grau, alguns romances de Cormac McCarty; ou como o faz, com um humor pop bem engendrado, alguns filmes do Tarantino. Parei de ler Fonseca, nunca tendo nenhum exemplar dele em casa. Alguns contos são realmente divertidos, o que por si só já torna tolerante sua leitura, desde que o leitor, por gosto a Fonseca ou por limites próprios, não queire se aprofundar em leituras mais sofisticadas.

Eu achava que Bolaño era melhor nas novelas (Noturno do Chile), ruim em romances longos fragmentários (não achei grande coisa Os detetives). Mas,não esperando surpresas, ams as tendo de montão, 2666 me deixou embasbacado. Nessa altura de meus quase 40 anos de vida, sinceramente não apostava que encontraria pela frente choques literários. 2666 me arrebatou. O romance bolaniano por excel~encia, talvez sua única grande obra. Faz as mesmas coisas que nos outros livros, mas com mais desenvoltura; sai-se bem em divagações e frases bombásticas (coisas que até então não ousara fazer)

Mas o Olho Silva...é como um improviso de clarineta, um take alternativo insuficiente, mas curioso, de uma peça que não se teve a paci~encia de se aprimorar (como em quase todos os contos de Bolaño).

charlles campos em setembro 1, 2010 5:09 PM


#79

Caro Idelber,

Infelizmente não estou podendo acompanhar como queria essa retomada do Biscoito, mas vamos lá. Gostaria de deixar aqui o link pra minha dissertação de mestrado, "Jagunços, pivetes e outros inocentes: violência e identidade em Guimarães Rosa e Rubem Fonseca" (http://www.bdtd.ufjf.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=176). Ela tb tá lá no Domínio Público(http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=156763). Pra quem se interessar por algo mais resumido, tenho um artigo, "Inocentes homicidas: descontinuidades e permanências
da violência em Guimarães Rosa e Rubem Fonseca", que é uma versão da conclusão da dissertação e foi publicado na revista Em Tese, da UFMG, aqui: http://www.letras.ufmg.br/poslit/08_publicacoes_pgs/Em%20Tese%2013/TEXTO%2012_jj.pdf. Desculpa a autopromoção, ok? É só a pressão da qualificação me exigindo concentração em outro autor...
Parabéns, inda que tarde, pelo tão aguardado retorno.
Abração,

Beto em setembro 1, 2010 9:17 PM


#80

Valeu, Beto, autopromoção totalmente relevante para o tema. Obrigado pelos links. Um abração.

Idelber em setembro 1, 2010 9:21 PM


#81

O link para o artigo "Inocentes homicidas: descontinuidades e permanências
da violência em Guimarães Rosa e Rubem Fonseca" está com um ponto a mais e, portanto, a página não está sendo encontrada. Espero que assim funcione: http://www.letras.ufmg.br/poslit/08_publicacoes_pgs/Em%20Tese%2013/TEXTO%2012_jj.pdf
Abraços,

Beto em setembro 1, 2010 9:22 PM


#82

Ninguém lembrou de laranja mecanica? Porque sinceramente achei esse Rubens um plagio.
Bolano, como alguém já disse, foi o meu primeiro, e achei que apesar do tema pesado ele tem um jeito leve de levar a história.

valem atrasados? rs

quais são os próximos, vai ficar nessa violencia toda mesmo???

Pri em setembro 1, 2010 11:17 PM


#83

Boa esta iniciativa do Biscoito.Gostei de tudo que li.
Nao encontrei o conto do Rubens Fonseca , mas conheço o situação dramática,para usar um termo ameno,que é estar com uma arma apontada para a sua cabeça. Enquanto o nome de guerra, (carapuça), estiverem postos significa que existe alguma possibilidade de vc sair com vida,o que costuma -se chamar de negociação,quando o nome real aparece ou a carapuça é tirada,vc se dá conta que está f,que a casa caiu. Creio que é o que Rubem Fonseca deseja expressar. O estar completamente a mercê da vontade do outro. O Poder total.
Quanto ao conto do Bolano,li e gostei. Aponta para vários problemas tanto da esquerda quando do exílio e tb da cultura chilena., era um país careta,conservador.Tanto a direita como a esquerda. Conheci gente que foi sair do armário depois de 10 anos de exílio. Entendo bem a razão do escritor. Lembro que a palavra "desbunde" é uma invenção da esquerda brasileira,o pelo menos da esquerda que eu pertencia,o que nao significava abandonar a luta,mas mudar o comportamento com respeito aos postulados libertários do mov.de 68. Por um lado estavam "los cojones castristas" e do outro a esquerda européia ,com a RAF (Baden -Meienhof) tomando banho de sol nus nos campos de treinamento da PLO .
2. O exilio
Lembro que um político brasileiro,quando ainda era de esquerda e nao esta coisa que é hoje,costumava dizer que se fossemos levados para a Sibéria,encontraríamos uma maneira de nos divertir e aproveitar o exílio da melhor forma possível,pois tb era uma atitude política,uma resposta ao poder.
Até hoje se discute se Bolano participou do processo chileno de Allende ,eu acho que nao. sua visão e seu comportamento é posterior. Via a coisa de fora e talvez porrisso seja interessante sua literatura. Consumir drogas era comun dentro da esquerda vender nao, (como nos Detetives Selvagens,para financiar as publicações dos poetas viscerais )
El Ojo, sim é o exilado,perde o nome ,a família , a classe social,principalmente , esta solto no mundo, a liberdade é total,nao existe despedidas. Por um tempo funciona, mas como dizia Aristoteles "um homen só ou é uma besta ou é um deus.
Busca nos meninos recuperar o afeto perdido. O companheiro francês representa uma grande parte da cultura gay ,da rotatividade, da coisa física,um pouco parecido ao exilio . Hoje se discuti aqui na Suécia , a possibilidade de casais gays adotarem crianças. Campanha que apoio pois daria possibilidade para muitos meninos perdidos no mundo poderem dormirem em lençóis limpos.

Marconi em setembro 2, 2010 8:58 AM


#84

Pri,

Rubem Fonseca plagiando Kubrick em "Feliz ano novo"? Isso me parece tão estranho... O que te levou a essa consideração?
Abraços,

Beto em setembro 2, 2010 10:09 AM


#85

Litteraturtips
Serena Nanda, Neither man nor woman: The Hijras in India, 1999.
Idelber.
A seita que El ojo descreve existe na India,quem quiser aprofundar sobre o tema pode ler algo no livro citado acima .

marconi em setembro 3, 2010 6:48 AM


#86

Litteraturtips
Serena Nanda, Neither man nor woman: The Hijras in India, 1999.
Idelber.
A seita que El ojo descreve existe na India,quem quiser aprofundar sobre o tema pode ler algo no livro citado acima .

marconi em setembro 3, 2010 6:49 AM


#87

Olá a todos!

Gostaria tão-somente de parabenizar o Clube de Leitura, pricipalmente o Idelber, e incentivar a sua continuação. As discussões foram profundas e me despertaram para interpretações que haviam passado batidas!

Abraços!

Henrique em setembro 3, 2010 4:57 PM


#88

Já que estão falando do Rubem Fonseca, vale ler PANDEMONIUM de Zeca Fonseca que, por sinal, fez a capa do primeiro livro do RF e, além de escritor da editora Faces, atua também como capista!
www.pandemonium.blog.br
Zeca foi de uma visão notável ao retratar em seu livro o que está acontecendo hoje na cidade do Rio de Janeiro!

Bia Willcox em novembro 28, 2010 5:17 PM