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sábado, 28 de agosto 2010
Montenegro pediu desculpas. E vocês, Datafolha?
Este texto também está publicado na Revista Fórum.
*********
Completaram-se exatos doze meses da imortal declaração de Carlos Augusto Montenegro, presidente do Ibope, à revista Veja, acerca da sucessão presidencial. Citemos, pois recordar é viver: O partido [PT] deu um passo a mais na direção do seu fim. . . A Dilma, em qualquer situação, teria 1% dos votos. Com o apoio de Lula, seu índice sobe para esse patamar já demonstrado pelas pesquisas, entre 15% e 20%. Esse talvez seja o teto dela. A transferência de votos ocorre apenas no eleitorado mais humilde. Mas isso não vai decidir a eleição. Foi-se o tempo em que um líder muito popular elegia um poste.
O gênio Montenegro, mais de um ano antes das eleições e diante do presidente mais popular da história do Brasil, decidira que o “poste” não seria eleito e que seu teto era 20%. Deixando de lado o desrespeito da referência ('poste') a uma mulher que já havia sido Secretária da Fazenda e das Minas e Energia do Rio Grande do Sul, Ministra das Minas e Energia e Ministra-Chefe da Casa Civil (assumindo este último cargo durante a maior crise institucional do país desde a queda de Collor), Montenegro colocou a credibilidade de seu instituto na berlinda, fazendo futurologia com nítidos de ares de torcida. Nada tenho contra quem torce pelos seus candidatos, mas em certas posições (presidência de institutos de pesquisa, ministério do Tribunal Eleitoral), convenhamos que é melhor esconder as preferências. Montenegro deixou que as suas interferissem na análise.
Além de tropeçar na futurologia, Montenegro também tropeçava nas referências ao passado. Na mesma entrevista, ele disse: Nas eleições municipais de 2008, entre as 100 maiores cidades, o PT perdeu em quase todas. Montenegro deveria ter consultado com mais atenção os números do Tribunal Superior Eleitoral, pois nos municípios brasileiros com mais de 200.000 eleitores, o PT foi o partido que mais venceu em 2008. Naquelas eleições municipais, no chamado G-78 o PSDB teve 13 vitórias, o PMDB teve 18 e o PT teve 20 [Contagem (MG), S.B.do Campo |(SP), Mauá (SP), Guarulhos (SP), Petrópolis (RJ), Anápolis (GO), Canoas (RS), Joinville (SC), Rio Branco (AC), Fortaleza (CE), Cariacica (ES), Vitória (ES), Betim (MG), Recife (PE), Belford Roxo (RJ), Nova Iguaçu (RJ), Porto Velho (RO), Carapicuíba (SP), Diadema (SP), Osasco (SP)]. Somadas às duas vitórias do PC do B (Olinda e Aracaju), às cinco do PDT (Macapá, Serra, Niterói, São Gonçalo e Campinas) e às quatro do PSB (Belo Horizonte, João Pessoa, São José do Rio Preto e São Vicente), as forças aliadas ao presidente Lula saíram das eleições municipais governando 59 entre as 78 maiores cidades do país. Mas, para Montenegro, o PT havia perdido “quase todas”.
Por tudo isso, o gesto de Montenegro é bastante louvável. Mas já que se desculpou de suas estapafúrdias certezas acerca do futuro, ele poderia ter aproveitado a oportunidade para se desculpar também por traficar informações falsas sobre o passado recente.
Enquanto isso, o DataFolha segue em seu autismo. Depois do estrepitoso fracasso da sua estratégia de inflar artificialmente os números de Serra, produzindo um monstrengo em forma de sanfona que nenhum analista político sério reconheceria como verossímil, o DataFolha repete a mesma prática com os números de São Paulo, recusando-se a registrar a subida de Mercadante que até mesmo o Ibope já reconheceu. No excelente gráfico feito por Alê Porto, é possível ver a discrepância entre os números da eleição presidencial do DataFolha e dos outros institutos:
Observando a evolução da corrida paulista e o impacto da "onda vermelha" nas eleições estaduais, cabe a pergunta: será que o DataFolha vai passar outra vergonha, agora em São Paulo?
Escrito por Idelber às 17:41 | link para este post
| Comentários (42)
#1
Idelber,
Olha só essa pérola do jornal OPOVO, do Ceará. Nessa última pesquisa realizada para o senado no Ceará (OPOVO/Datafolha), o candidato do PT Pimentel (não é o Pimentel de Minas), passou de 24% a 27%. Pois bem, no gráfico mostrado hoje no jornal (http://opovo.uol.com.br/app/opovo/politica/2010/08/28/noticiapolitica,2035692/tasso-cai-eunicio-e-pimentel-sobem-mas-ainda-nao-ameacam.shtml), a reta das intenções de voto do Pimentel está caindo!!!
Ou seja, o cara subiu nas pesquisas, mas o gráfico deles está caindo. Parece besteira, mas não é! Para quem vê só de relance acha que ele caiu.
Abs.
Alexandre em agosto 28, 2010 6:03 PM
#2
respondendo a sua pergunta: SIM. O datafolha e a folha não conhecem o verbete "vergonha".
aiaiai em agosto 28, 2010 6:26 PM
#3
Mais uma coisinha: seria delicioso se o ceará não reelegesse o tasso, né não?
aiaiai em agosto 28, 2010 6:29 PM
#4
A questão é que se você pedir pro Montenegro se desculpar por ter brincado de Nostradamus ele vai vir com argumentos do tipo "não foi isso só isso que eu disse, a Veja escondeu outras coisas".
O curioso é perceber como alguns antipetistas e Serristas exaltados viviam tecendo loas pro Datafolha e pro Ibope quando eles mostravam Serra no topo das pesquisas, eram tiodos como "divulgadores da verdade" enquanto o Sensus e o Vox Populi eram tidos como "divulgadores de mentiras". Agora que todos os institutos mostram a vitória da Dilma, a direita nacional enfiou o Datafolha e o Ibope no mesmo saco do Sensos e o Vox Populi.
Creio que caso Dilma ganhe, a direita nacional vai ficar dizendo que a eleição foi roubada.
Gabriel Caio em agosto 28, 2010 6:43 PM
#5
A questão é que se você pedir pro Montenegro se desculpar por ter brincado de Nostradamus ele vai vir com argumentos do tipo "não foi isso só isso que eu disse, a Veja escondeu outras coisas".
O curioso é perceber como alguns antipetistas e Serristas exaltados viviam tecendo loas pro Datafolha e pro Ibope quando eles mostravam Serra no topo das pesquisas, eram tiodos como "divulgadores da verdade" enquanto o Sensus e o Vox Populi eram tidos como "divulgadores de mentiras". Agora que todos os institutos mostram a vitória da Dilma, a direita nacional enfiou o Datafolha e o Ibope no mesmo saco do Sensos e o Vox Populi.
Creio que caso Dilma ganhe, a direita nacional vai ficar dizendo que a eleição foi roubada.
Gabriel Caio em agosto 28, 2010 6:43 PM
#6
Seria bom sim, mas é bem improvável!
Alexandre em agosto 28, 2010 6:44 PM
#7
Enviei o comentário duas vezes por acidente.
Gabriel Caio em agosto 28, 2010 6:46 PM
Airton em agosto 28, 2010 8:48 PM
#9
Idelber,
O caso Ibope, por conta dessa declaração do Montenegro, foi tosco, mas o do Datafolha foi uma das coisa mais odiosas que eu já vi um instituto de pesquisa fazer numa eleição. Primeiro, ele concordava com todos os demais, depois, seus dados começaram a discrepar sem muita explicação e, pior, a Folha de São Paulo começou a desacreditar os demais institutos. Isso foi grave. O PT deu uma pressão, ele voltou atrás e em umas pesquisas - e tudo voltar a coincidir - para depois começar a destoar do coro novamente, o que durou meses. Só quando não deu mais que, de repente, ele voltou a bater com o Sensus e o Vox. Se eu fosse dirigente do PT de São Paulo, investigaria essas pesquisas para o governo do estado - fica a dica.
abraços
Hugo Albuquerque em agosto 28, 2010 10:44 PM
#10
Não me esqueço do anúncio no Jornal Nacional: "Só utilizaremos as pesquisas do Datafolha e do Ibope"!
Inaiara em agosto 28, 2010 11:20 PM
#11
idelber, em governador valadares-mg tambem deu pt em 2008, entao sao 21.
sidnei santos em agosto 28, 2010 11:43 PM
#12
O Movimento dos Sem Mídia (Eduardo Guimarães) entrou com uma representação no MPE, a fim de averiguar essa discrepância. No despacho da Procuradora foi solicitado à PF para apurar os fatos.. vamos aguardar, aliás, vou no blog do Eduardo para ver se ele tem notícias.
Wagner em agosto 28, 2010 11:45 PM
#13
Oi, Sidnei, é que Valadares ainda não é parte do chamado "G-78" (ou G-79, há controvérsias), as cidades com mais de 200.000 eleitores. Se formos contar todos os municípios do Brasil, aí dá bem mais, claro. Eu só me referia ao G-78.
Sei que há mais de 200.000 pessoas em Valadares. Mas são menos de 200.000 eleitores. Se quiser conhecer a lista dessas cidades, com os resultados de 2008, é só dar uma clicadinha aqui.
Idelber em agosto 29, 2010 12:00 AM
#14
Idelber,
Você não acha que será ruim para a democracia e para o Brasil se a oposição ficar fraca demais?
Se isso acontecer, o PMDB e principalmente Michel Temer não poderiam ser estimulados pela mídia para, no caso de algum escândalo envolvendo o governo, assumissem alguma independência?
Na sua opinião, qual poderia ser o "risco PMDB", num futuro governo Dilma?
Sidarta em agosto 29, 2010 1:10 AM
#15
Sidarta, olha, eu acho que as pessoas estão se apressando um pouco com essa história de "país sem oposição" ou "oposição fraca demais". Outro dia li um blogueiro importante dizendo que a oposição será "varrida do mapa". Que realidade paralela é essa?
É verdade que estamos ganhando, mas a coisa está bem longe de ser esse regime de partido único que, ironicamente, alguns governistas entusiasmados em excesso e alguns ultra-direitistas conspiratórios estão pintando.
Sobre a oposição, eu vou repetir o que o Paulo Candido disse outro dia no GReader: querem que façamos o quê? Ir lá construir um partido pra eles, ensinar como se faz política, mostrar onde fica o povo? Ora, eles que se virem!
A oposição se enfraqueceu porque apostou no denuncismo, no discurso "ético" vazio, no udenismo, na criminalização da assistência social e da transferência de renda. Enfraqueceu-se porque seu projeto político foi derrotado e eles ainda não encontraram outro.
Sobre "o risco PMDB", a única coisa que se pode fazer agora é tentar eleger a maior bancada de esquerda possível. Não se "despeemidebiza" o Brasil por decreto. Só com uma reforma política mesmo. É como eu vejo a coisa.
Idelber em agosto 29, 2010 1:51 AM
#16
"Sobre a oposição, eu vou repetir o que o Paulo Candido disse outro dia no GReader: querem que façamos o quê? Ir lá construir um partido pra eles, ensinar como se faz política, mostrar onde fica o povo? Ora, eles que se virem!
A oposição se enfraqueceu porque apostou no denuncismo, no discurso "ético" vazio, no udenismo, na criminalização da assistência social e da transferência de renda. Enfraqueceu-se porque seu projeto político foi derrotado e eles ainda não encontraram outro."
Como diz o velho ditado, quem não tem competência não se estabelece. Achavam que seu grande eleitor, o PIG, era suficiente, deram com os burros n'água e agora Inês é morta. Bem feito!
Marola em agosto 29, 2010 9:07 AM
#17
Idelber
o caso aqui de Minas também é interesante
aqui parece que a clivagem é outra: DATAFALHA e SENSUS dão resultados favoráveis a Hélio e Patrus (12 a 20% de frente) e IBOPE e VOX favoráveis ao PSDB
lembrando que SENSUS e VOX são sediados aqui, dá para concluir que ninguém é santo nessa história.
será que o SENSUS que se mostrou correto na eleição nacional, aqui em Minas atende aos interesses de seu maior contratador, a CNT do Clésio que está apoiando Hélio?
idem para o VOX, que seria umbilicalmente relacionado com o PSDB e o Aécio?
como pode haver tanta disparidade a essa altura do campeonato?
com certeza a explicação é política, não é tecnica
e com certeza as pesquisas mineiras ajudam a conturbar o quadro, e não a fornecer dados para esclarecer nada.
as campanhas chave dessa eleição serão as de SP e MG
se o Lula vai jogar suas fichas para levar o Mercadante ao segundo turno e à vitória, aqui o boato é de um acordão entre Lula, Aécio e o prório Hélio
mas será que o Patrus entraria nessa? acho que não
de qualquer modo a campanha Hélio e Patrus é extremamente tímida, idem a a participação de Lula e Dilma, confundindo a nós, que, gostaríamos de afastar o PSDB por um tempo do poder, para modificar esse quadro de inércia que caracteriza social e politicamente Minas Gerais
a esperança é que depois do Ibope de ontem dando 2 pontos de frente para Anastasia, iniciou-se uma intensa troca de e-mails, telefonemas e bate-papos dizendo que temos de perder a timidez e vestir a camisa da chapa Hélio ( ai, ai, ai ) e Patrus
rabbit em agosto 29, 2010 9:29 AM
#18
salve, idelber,
duas coisinhas bem breves.
qual a credibilidade do ibope junto a seus clientes corportivos após essas desastrosas declarações de seu presidente? passou incólume, sem nenhum arranhão? eu, hein?
a oposição sendo derrotada em outubro servirá de estímulo pros seus representantes repensarem suas posições. democracia, grosseiramente, funciona assim. feito o amigo: se virem, ora mais!
abçs
carlos, eng°,fort,CE em agosto 29, 2010 10:24 AM
#19
Muito boa essa bola que você está cantando, Rabbit. Parte da explicação, acho, é que o Planalto não percebe Aécio (e o tucanato mineiro em geral) como uma força tão hostil como Alckmin, Serra e cia. Comparado com o visível entusiasmo de Lula e Dilma na campanha de Mercadante, o esforço deles no apoio a Hélio-Patrus tem sido quase nulo.
Dilma vem subindo muito em Minas (e eu guardo, hehehe, com cuidado, o link da Veja em que a revista e os tucanos previam "sair de MG com 2 milhões de votos de frente sobre Dilma"). Mas ela tem subido basicamente graças ao voto "Dilmasia". Há também, claro, uma compreensível falta de entusiasmo da militância do PT em fazer campanha para Hélio Costa.
Ainda não ouvi nada sobre esse boato do acordão. Se tiver mais detalhes, mande aí.
PS: Parece que estouramos a banda do blog do Alê...
Idelber em agosto 29, 2010 10:29 AM
#20
Idelber, o endosso desse blog para a Jô Moraes para Deputada Federal por Minas Gerais é de uma coerência incontestável. Meu voto aqui no Rio de Janeiro vai para o Brizola Neto que, a exemplo do seu avô, tem mantido uma luta incessante contra as mentiras e manipulações da mídia.
Cléverson Faria Costa em agosto 29, 2010 1:56 PM
#21
Curiosa calmaria da imprensa neste final de semana.
Ou eles estão trabalhando duro (sentados numa cadeira na redação) para criar factóides, ou desistiram completamente.
É curioso pelo fato de que a Dilma, com a vantagem que tem, poderá (e será com toda certeza) se tornar a primeira mulher a assumir a presidência do Brasil.
Ou seja, uma mulher de esquerda preste a ser presidente do Brasil, um país com com um histórico patriarcal de doer.
Se isto não for notícia, se não for pauta para matérias...
A arrivista Veja, por exemplo, preferiu dar uma capa aos mineiros chilenos presos na mina.
A última semana foi de critica à campanha de Serra, e ainda teve a barrigada da folha no caso do restaurante 'canibal'.
Eu nunca pensei que a derrocada da imprensa se daria de forma tão claramente abrupta. Não imaginava que fosse tão fácil, era só deixar o 'combate' por conta deles.
Como eles amam balear os pés!
fm em agosto 29, 2010 3:10 PM
#22
Idelber,
Pois é, essa história do risco de um país sem oposição é duro. É provável que Serra tenha uma votação menor do que em 2002 ou que Alckmin teve há quatro anos - e que o peso parlamentar do bloquinho PSDB/DEM/PPS diminua mesmo -, mas não vejo isso como um problema para o país, especialmente pela via que escolheram para fazer política. Não dá para a esquerda democrática se preocupar com eles, existem demandas reais que precisam ser resolvidas no decorrer dos próximos anos que são, na verdade, o nosso dever. Se o PSDB está com problemas, não sei se é um problema para o país, mas tenho certeza que não é um problema nosso - quem diz isso desconhece por completo como o PT funciona internamente, trata-se de um partido de massas que consegue ser mais plural que a oposição inteira...
Hugo Albuquerque em agosto 29, 2010 3:26 PM
#23
Idelber,
Independente da (falta de...) qualidades do Hélio Costa e do "jeitão" menos hostil do Aécio ao PT, eu acredito que Lula e Dilma cometerão um grande erro estratégico se não entrarem fortemente na campanha de Hélio/Patrus e do Pimentel e tentarem assim enfraquecer um pouquinho o Aécio. Creio que eles estarão ajudando a criar um líder inconteste na oposição muito mais capaz de articular politicamente do que o Alckmin ou o Serra eram.
Arthur em agosto 29, 2010 4:49 PM
#24
Pois é
hoje, esquina de Nossa Sra do carmo com Contorno, grande movimentação da campanha do PT
muita gente, muita bandeira da Dilma e muita bandeira do Pimentel
da campanha Hélio-Patrus, nada!
perguntando aos cabos eleitorais, a maioria dos quais pagos, do porque de não haver campanha para o governo, ninguém sabia explicar
esse PT é sempre misterioso!
de qualquer forma, em conversa com amigos do PT eles me chamam a atenção para a pesquisa IBOPE em MG apresentar 25% de indecisos, contra 8 ou 6 % em SP e RJ
quanto ao boato do acordão, é isso, é só boato, mas depois da misteriosa postura do Pimentel e do PT entregando a prefeitura de BH para o Aécio (isso mereceria um post, depois das eleições), todos estamos desconfiados
rabbit em agosto 29, 2010 7:09 PM
#25
Salve todos. Idelber, no interior dessas versões sobre o fim da oposição e do psdb, certamente contém erros. Primeiro, não houve derrota ainda. Nesse sentido precisamos tirar todas as consquências analíticas dessa diferença que vc observa entre o enfraquecimento do projeto político e sua derrota. Enfraqueceu, mas não desapareceu. Segundo, algo importante ocorreu ai: me parece que fora, definitivamente?, derrotada a concepção de que havia uma única aristocracia de méritos para governar o Estado brasileiro, em suas diversas dimensões e concepções. Isso é o que, de forma ou de outra, estamos vendo, isso sim, ir pro ralo. Tbm., parece que a intermediação entre Estado e Nação através da ''circulação das elites'', mudou. Uma relação mais pura, entre as classes sociais e a maneira pela qual essas disputam a apropriação dos diversos tipos de riqueza social, viabilizou-se como uma dimensão legítima pela e na disputa eleitoral. Aqui a oposição se perdeu e se perde completamente e, me parece, a tal ausência de um discurso e de um programa se faz sentir aqui sim, efetivamente. Uma consequência disso é que frente a uma posível bifurcação da transição, talvez surja finalmente a condição para a disputa eleitoral democrática, onde as classes contam. Aqui o programa da ''aristocracia sem méritos'', derrubou e superou os vários tipos de psedebismos e pefelismos, de forma antes nunca vista. Porém não vejo derrota política ainda dessas forças, pois essa abrange o governo da transição para uma sociedade democratizada. E isso aparece apenas como uma suposição no atual momento pelo qual passamos e não se firmou como pressuposto para aquela alteração que me referi acima. Um outro também é que: continua sendo muito importante escancarar a historicidade que possui o próprio Estado brasileiro e isso é muito bacana mesmo.Onde as tais conversas sobre chavismo e mexicanização, por parte daqueles tipos de conservadorismo, que querem ocultar e impossibilitar o surgimento dessas outras dimensões que devem atingir a própria forma de ser do espaço político que vai se configurando. Caramba, mesmo com os recortes, ficou longo. Abçs.
albério em agosto 29, 2010 9:03 PM
#26
Rabbit, também tive uma experiência dessas neste fim de semana próximo à Praça da Liberdade, mas em relação à Anastasia. Cabos eleitorais tentavam distribuir adesivos para carros e NINGUÉM aceitava (eu, inclusive). Confesso que fiquei um tanto admirado. Mas isso não deve querer dizer nada. Acredito, na verdade, que a campanha para o governo do Estado em BH está morna. Talvez os candidatos estejam investindo mais no interior, quem sabe por acreditarem que em Belo Horizonte o quadro já esteja mais ou menos definido. É sempre bom ter em mente que Minas é o estado que possui o maior número de municípios no país, quase 900, com regiões tão importantes quanto a própria região metropolitana.
Cajueiro em agosto 29, 2010 9:50 PM
#27
Idelber, alguma chance de você comentar mais detidamente a eleição para o governo de São Paulo? Eu gostaria muito de entender por que o PSDB segue tão forte por aqui. Eu sei que a resposta deve ser bastante óbvia para quem entende do assunto, o que definitivamente não é o meu caso. Sempre que leio sobre o PSDB em SP, já se parte do pressuposto de que Alckmin vencerá no primeiro turno e é natural que assim seja, afinal SP é o último bastião do partido no Brasil etc. Mas por quê, ora raios? Você já viu alguma análise interessante explicando por que a maioria dos paulistas continuam votando (ou pretendendo votar) no PSDB para o governo do estado, sendo que Dilma e Marta encabeçam as outras pesquisas? Algo me diz que as hipóteses do preconceito de classe e da rejeição ao PT não são suficientes para explicar a grande vantagem do Alckmin nas pesquisas até agora (mesmo considerando a recente subida do Mercadante). Elas podem até explicar o voto da República Morumbi-Leblon, mas nem só de Morumbi é feito o estado de São Paulo. Alguma ideia? Beijos e obrigada!
Camila em agosto 29, 2010 9:57 PM
#28
Eu também já tentei entender essa questão.
Uma coisa que pode explicar o Psdb no brasil é, entre tantas, o atual paulistanismo da legenda.
Mas esta eleição também me deixou confuso, já que a Dilma cresceu muito em sao paulo, a Marta leva e me parece que netinho emplaca. Mas quem tende a levar o governo estadual é o Geraldo.
Meio esquizofrênico isso.
Fm em agosto 29, 2010 11:18 PM
#29
Difícil a pergunta da Camila... Por que este meu pobre Estado fica reelegendo tucanos por 20 anos e reclama de falta de alternancia de poder quando o PT passa oito anos no governo federal?
São Paulo é uma incógnita eleitoral. É um Estado que se acha superior aos demais e aponta uma suposta ignorância eleitoral do resto do pais, mas é o Estado que mais elege candidatos estapafúrdios: Eneas, Clodovil, MALUF, Tiririca, Palocci...
É fácil encontrar malufistas em são paulo. Acho que isso explica muita coisa.
Daniel em agosto 29, 2010 11:32 PM
#30
Pelo Ibope Dilma tem 24 pontos de frente, pelo Datafolha 20 e pelo Sensus 18. Aposto que agora o tucanato só acredita na Sensus e vai exigir que o JN só divulgue as pesquisas da Sensus
Daniel em agosto 30, 2010 12:56 AM
#31
Puxa, Camila, responder sua pergunta demandaria não um post, mas uma sequência de posts. Não há nada de simples na resposta, aliás, e eu, com certeza, não sou a melhor pessoa para oferecê-la. Simplificando grosseiramente a coisa--mas grosseiramente mesmo--, São Paulo saiu de um regime em que o voto se dividia, mais ou menos, em 1/3 petista, 1/3 tucano e 1/3 malufista, para um regime em que o malufismo quase desapareceu e o voto se divide entre petismo e antipetismo. Os tucanos são fortes, mas o antipetismo é mais forte ainda: vide o exemplo Kassab, que se elegeu prefeito por um partido que tem muito pouca base aí.
O PT é forte em Belo Horizonte, Salvador, Porto Alegre e São Paulo (entre outras, claro). Mas só nestas duas últimas o antipetismo também é forte. Em BH ele praticamente inexiste. O PT compete bem em Sampa, mas no interior a coisa fica feia mesmo. Há muito que se dizer aqui, mas vou deixar a coisa pendente por enquanto.
Sim, eu sei, não expliquei nada :-)
Idelber em agosto 30, 2010 8:16 AM
#32
Arthur, é brilhante o seu último post, sobre o aecismo. Assino o texto. Já é mais que hora do Lula baixar em Minas de verdade e dar um saculejo na campanha por lá. Aécio vai se eleger, evidentemente, mas o Palácio da Liberdade e a segunda vaga para o Senado são muito mais importantes para a esquerda do que o PT (e os analistas em geral) parecem crer.
Incrível como o Pimentel não percebeu que ia levar o xeque-mate do Aécio. Nós cantamos essa bola aqui, em 2008.
Fundamental, o seu post. Bem-vindo ao blogroll.
Idelber em agosto 30, 2010 8:47 AM
#33
O interior de São Paulo sempre foi fundamental na interpretação dos dados das urnas.
Sem grandes indústrias, tradição ou cultura de sindicatos fortalecidos por grandes exportadoras, pouco engajado ou envolvido politicamente, tem sido sucessivamente deixado ao largo de analises enviesadas justamente pela composição da Grande São Paulo (onde esta proporção de três terços certamente é bem precisa), e pela idéia de que se "alinhariam" automaticamente a ideologias.
Não conseguiria lembrar de cabeça, em quais cidades, o petismo é especialmente relevante como força política. Ribeirão me vem pelo Palocci, mas não conheço tanto as outras.
Mas enfim - o interior foi onde o Quércia surpreendeu o PMDB como força política, que levou à ejeção dos fundadores do PSDB, foi onde ele definiu seu sucessor, onde o Alckmin realmente garante a capilarização e sua força, pela lealdade de prefeitos e de deputados.
Fora isso, sempre que se analisa as forças do PSDB, escasseiam análises e mea culpa da oposição, que ainda que fosse minoritária (como é), certamente teria alguma maneira de se articular de forma inteligente, coisa que, se foi feita, também foi muito bem silenciada nesses "20 anos".
Uma oposição raivosa e espumante, do tipo que atira ovos, pode fazer pirraça, mas tem força zero de articulação.
Neste momento, fico imaginando como é que a oposição tem se envolvido com tantas forças que se chocaram com o governo, como os professores, os policiais civis. Se há "feudos" de sectários segmentos, pouco dispostos à união, ou se é tudo mesmo falta de competência e articulação.
Livio em agosto 30, 2010 10:27 AM
#34
Olha, Idelber, acho que o Malufismo não sumiu não... O Maluf que anda sumido. Mas a coisa mais fácil é achar malufistas por aí, tristes porque este nobre político de origem árabe não está concorrendo nem prá presidente nem prá governador.
O que Livio falou do interior é interessante. A cidade de onde venho, são josé do rio preto, é a terra natal do kassab e do Fleury (e do Amaury Jr., mas não vem ao caso). Um grande ajuntamento de carolas direitistas. Ao mesmo tempo, já elegeu uma enorme série de prefeitos de esquerda. Vai entender...
Daniel em agosto 30, 2010 4:48 PM
#35
O interior paulista é, em sua grande maioria, antipetista.
E sim, de fato nota-se um não envolvimento da maioria com a política. Às vezes penso que seja um sintoma decorrente do coronelismo de outrora (séc.XIX), juntamente com um certo trauma do regime militar.
Até me veio uma lembrança aqui:
No ano de 2000(acho), o presidente Lula esteve presente em uma solenidade na ESALQ - Acho que o Rodrigues havia sido o patrono, não sei... Mas enfim, me recordo perfeitamente do meu filho balançando uma bandeirinha do PT(que havia ganhado de um dos militantes presentes no evento), até minha mãe censurá-lo, afirmando que ele(uma criança de 5 anos!) não devia estar fazendo aquilo, pois os outros estavam vendo.
Naquele momento, não senti um antipetismo presente na minha mãe(tb paulista, com 3 gerações em terras paulistas), mas sim um certo pavor daquela exposição declarada.
Olha, e isso tudo é somente um comentário bobo de uma paulista que nasceu/viveu boa parte da vida em Piracicaba. Também já passei por Araras e hj moro em Campinas. E na boa, mas o clima político é praticamente o mesmo em todas.
Vanessa em agosto 30, 2010 5:23 PM
#36
Espero mto q passe... E uma vergonha gigantesca.
Ulisses Adirt em agosto 31, 2010 7:12 PM
#37
"Depois do estrepitoso fracasso da sua (do Datafolha) estratégia de inflar artificialmente os números de Serra"
Desculpe, talvez eu tenha perdido a lógica mas... você tem algum fiapo de evidência de que os números foram inflados artificialmente?
Falar de inflados artificialmente me dá a impressão que alguém foi lá e apagou parte da base de dados, mudou os números na mão ou algo assim. Pode até ser mas, você tem alguma evidência disso fora o fato dos números discordarem dos que você considera corretos?
Na minha opinião, baseada apenas no que entendo de pesquisas (você pode achar que é pouco), esse tipo de variação pode muito bem acontecer, ainda mais quando a opinião das pessoas está em movimento (como seria típico numa eleição qualquer).
Se reconheço que isso pode acontecer, e se não tenho mais evidências de que houve manipulação dos resultados fora o fato de discordar do resultado final, por que a estridência do "inflou artificialmente"?
Rafael M em setembro 2, 2010 1:18 AM
#38
Desculpe, talvez eu tenha perdido a lógica mas... você tem algum fiapo de evidência de que os números foram inflados artificialmente?
Não sei se perdeu a lógica, mas talvez tenha perdido parte do noticiário das últimas semanas. Não lhe culpo: o noticiário não anda saindo nos jornais ou na TV.
Claro que eu e a torcida do Corinthians temos bem mais que fiapos de evidência de que os números de Serra apareciam inflados no DataFolha:
1. Suponho que saiba que os mais pobres votam no lulismo em porcentagem maior. A pesquisa Datafolha se restringe aos que têm telefone.
2. Suponho que saiba que nos grotões do Brasil Lula é mais popular que Padim Ciço. O Vox Populi vai até a casa das pessoas. O Datafolha pega entrevistados nos pontos de afluxo.
3. Suponho que saiba que, por exemplo, no Paraná, a liderança de Beto Richa é maior em Curitiba que no interior. A última pesquisa Datafolha conduziu 1/3 das suas entrevistas em Curitiba, mesmo representando os curitibanos proporção bem menor que essa no total de paranaenses. Aí, não há ponderação posterior que dê jeito.
Assim se produzem as linguiças. Mais detalhes aqui, aqui e aqui .
Claro que os números das pesquisas variam com o tempo. Mas, na ausência de fatos novos, escândalos ou grandes acontecimentos políticos, não costumam variar em forma de sanfona ou de tesoura abrindo e fechando. Dê quatro clicadinhas lá no gráfico do Alê (Datafolha, Ibope, Vox, Sensus) e confira a diferença.
Idelber em setembro 2, 2010 5:20 AM
#39
"1. A pesquisa Datafolha se restringe aos que têm telefone.
2. O Datafolha pega entrevistados nos pontos de afluxo.
3. A última pesquisa Datafolha conduziu 1/3 das suas entrevistas em Curitiba"
Bom... Voltamos ao ponto inicial. Sei lá se a metodologia do Datafolha é boa ou ruim (ao meu ver, qualquer pesquisa tem algum viés). Talvez não seja tão boa quanto você gostaria. O fato é que 1, 2 e 3, até onde sei, são maneiras plausíveis de se conduzir uma pesquisa. (Eu já fiz pesquisas de mercado no passado usando 1 e 2, em coisas nada a ver com eleição, com bons resultados -- são formas possíveis metodologicamente de se conduzir pesquisas).
Mas você falou de "inflou artificialmente". De novo, me parece coisa de manipulação explícita. Pela sua explicação, significaria que:
A. O Datafolha ia à casa das pessoas e entrevistava pessoas sem telefone antes (e por isso, as pesquisas concordavam)
B. O Datafolha parou de fazer isso quando o Serra passou a perder pontos em relação a Dilma. Fez isso com objetivo de alterar artificialmente o resultado porque sabia que, dessa forma, o Serra ganharia pontos. Foi assim que eles teriam "inflado artificialmente" os números
C. O Datafolha voltou a ir à casa das pessoas e entrevistar pessoas sem telefone depois que viu que não teria jeito de salvar o Serra "inflando artificialmente os números". Fazendo isso, os números da Dilma "saltaram" e o Datafolha "quebrou a cara"
E aí, pergunto outra vez: Tem algum fiapo de evidência de que A, B e C aconteceram? Porque senão, desculpe, mas sua tese não se sustenta.
E pergunto outra coisa: É sério que você acredita em uma história dessas de "inflar artificialmente" os números, da forma como você explicou? Juro, eu não consigo crer que você acredita nisso.
Desculpe de novo, mas o caso me lembra algo que li recentemente:
http://www.dailykos.com/storyonly/2010/8/29/897297/-I-got-Obamas-Back-at-Starbucks-this-Morning
E minha última pergunta: É sério que você acha útil essa estridência?
Rafael M em setembro 3, 2010 2:21 AM
#40
Ponderei um bocado, mas a resposta é muito mais simples do que parece.
Do mesmo jeito que em outros lugares, um eleitorado não politizado, tende a oscilar, mas ele tende a ficar no centro, salvo grandes aflições.
Lula entendeu isto, quando foi eleito em 2002.
Alckmin vai ter mais votos que o Serra ou que o Covas (as eleições dele com o Maluf eram embates duríssimos, voto a voto). Depois de ter sido rifado para a prefeitura em SP, e de ter perdido a eleição dois anos antes, para presidente, ele parecia acabado.
Não estava, e isto é ainda mais impressionante quando lembramos que ele não está sozinho no seu espectro político (que ainda tem as opções Russomano e Skaf).
Mas ele está sozinho, quando se diz respeito ao eleitorado do centro. Aquele cara que não tem filiação partidária, identificação com esquerda ou direita. E que SEMPRE vai decidir as eleições, seja aqui, nos EUA ou em qualquer lugar.
Livio em setembro 3, 2010 11:42 AM
#41
Tem uma importância danada essas questões que envolvem probabilidade e levantamento estatístico. Acho que houve pouca entrada em cena aqui do especialista, que poderia ter ajudado muito no entendimento das diferenças observadas entre os diversos institutos de pesquisa. Faltou algo mais escolar ai. Olha ai o comentário do Rafael: presume que questões metodologicas começam apenas com a pesquisa em campo. Segundo, faz valer a premissa de que a intenção de adquir sabonetes é a mesma que capturar intenção de votos. Nos dois casos ficamos frente a absurdos. As concepções teóricas prévias, as definições, os supostos necessários são vitais para a melhor entrada na pesquisa de campo. Para resumir: um problema dantesco ai serão sempre o amostral (desvios aqui torna tudo impreciso apenas pelo fato de que, como em vários exercícios empíricos, não há como verificar possíveis erros, por comprovações repetidas depois. Tudo mudo ai) e segundo, o problema das inferências e das correlações. (Para ser notado, quando entre o tempo, pqp). Terceiro, o custo da pequisa. (nunca subestime isso, até pq o tempo tb. tem seu custo específico aqui). Bem, parece que o Rafael não entende muito bem a complexidade de todas essas coisas. Abçs.
albério. em setembro 5, 2010 1:04 PM
#42
"Bem, parece que o Rafael não entende muito bem a complexidade de todas essas coisas."
Talvez não, talvez sim. Mas a certeza é a que você não entendeu meu ponto.
Ou se entendeu, não quis argumentar contra, fora o fato de querer dizer eu não sou especialista em pesquisa. Até aí, tudo bem, mas se ninguém aqui é (como você começou dizendo), como é que se afirma de boca cheia que se inflaram artificialmente os números (meu ponto central)?
Rafael M em setembro 5, 2010 8:30 PM