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quinta-feira, 26 de agosto 2010
O que aconteceu com o PSDB?
Antes do post, dois avisos:
1. Este é um post para quem tem paciência de ler.
2. Este post utiliza trechos de um livro meu, já publicado. O post foi escrito por sugestão de Alexandre Nodari, a quem agradeço.
********
Depois do baile de Marcos Coimbra, do Vox Populi, no Datafolha, da revelação de que, mesmo de acordo com este último, Dilma já ultrapassou Serra até em São Paulo, da chegada do guru indiano, do abraço dos afogados, do pedido de Serra ao PSTU e da inesquecível estreia de Soninha como coordenadora do site de campanha de Serra, postando no Twitter uma foto do candidato com ….. Bento XVI! (pela repercussão já se vê quão apropriado era o gesto para o público do Twitter, né?), a verdade é que hoje eu não consegui preparar um post sério sobre as eleições.
Entremos em outra conversa. Afinal de contas, há um grande mistério a se desvendar. Como a campanha do PSDB se esfacelou desse jeito? Se eu acreditasse em teorias conspiratórias, diria que algum aloprado do PT se infiltrou lá dentro e está comandando a campanha.
Sou um total e absoluto viciado em eleições. Acompanho-as, bem de perto, aqui e aí no Brasil, desde 1982. Eu lhes juro que jamais vi um colapso parecido. Talvez o que aconteceu com os democratas, na eleição de 1984, nos EUA, chegue perto. Ou o colapso dos radicais, na Argentina, depois do governo de Alfonsín.
Já que não tem nenhuma graça tripudiar dos caras--deixemos essa tarefa para gente mais competente--, passemos a analisá-los, sério mesmo.
Nos últimos dias, foram publicados três excelentes textos sobre a história recente do PSDB. Tenho dois centavos a acrescentar-- e são realmente só dois centavos. Vladimir Safatle publicou na Folha um artigo intitulado O Colapso do PSDB, cujo tom era basicamente de perplexidade. Como é que o PSDB virou isso?, parece perguntar-se o texto. Safatle—pensador que admiro e de quem vocês ainda vão ouvir falar muito--rememora a época em que ele votava no partido e menciona a contradição: víamos uma geração de políticos que citavam, de dia, Marx, Gramsci, Celso Furtado e, à noite, procuravam levar a cabo o “desmonte do estado getulista”, “a quebra da sanha corporativa dos sindicatos”, ou “a defesa do Estado de direito contra os terroristas do MST”.
A perplexidade do Safatle se explica facilmente. As coisas não foram bem assim. Quando os tucanos começam a falar em “virar a página do getulismo”, Celso Furtado (quem dirá Marx ou Gramsci) já não eram exatamente ídolos por lá. Isso, o texto do João Villarverde mostra muito bem, ao detalhar que a equação que FHC tinha que resolver era unir a ala mais PUC-Rio de Bacha, Franco e Fristch, com outra mais heterodoxa, dos irmãos Mendonça de Barros, outra mais fiscalista, com Serra, e outra com visão sofisticada de gestão pública, como Bresser e Nakano e a turma mineira, que começava a dar as caras . O que faz FHC? Aposta tudo na ortodoxia da PUC-RJ. Por isso está corretíssimo o João quando diz que os números positivos que vemos hoje de desemprego baixíssimo, salários em alta e transferências de renda para redução da terrível desigualdade social que (ainda) temos, não vêm de FHC. Esses números vêm de escolhas feitas pelo governo Lula.
O Celso de Barros já trabalha mais o lado político da coisa. A tese do Celso é que foi o governo FHC quem possibilitou a unificação dessa turma. Para um partido que nascia de uma dissidência parlamentar, sem nenhuma base no movimento social, foi aquela conjuntura bem particular de 1993-4, do Plano Real, que tornou possível que se criasse ali uma unidade. A conversa que o João propõe ao PSDB-- entre os fiscalistas, os gerentes e os desenvolvimentistas--, se ela acontecesse, provavelmente levaria o PSDB a … ser base do governo Lula! É a conclusão do Celso.

Pois bem. Onde entram meus dois centavos? Numa tese simples: você não vai entender o PSDB se você voltar a 1988. Tem que voltar mais. Minha proposta é que voltemos a 1975. É a data de publicação de Autoritarismo e redemocratização, do FHC. Trata-se (e isso, só para esclarecer, é tese minha, não é fato histórico com o qual todo mundo concorde) do livro que estabelece a forma como a transição democrática entenderia a ditadura militar. O que faz FHC naquele livro? Por um lado, ele critica—corretamente, a meu ver—setores da esquerda que caracterizavam o estado ditatorial brasileiro como “fascista”. Por outro lado, ele propõe a tese de que a ditadura era fruto do interesse de uma burocracia estatal hipertrofiada. Dito assim, parece coisa de doido, mas a minha tese é que ali naquele livro, em 1975, se articula a concepção de estado que possibilitaria a hegemonia conservadora na transição de 1985.
Como? Vamos ao livro.
Segundo FHC, a razão de ser do estado ditatorial no Brasil deveria ser procurada menos nos interesses políticos das corporações multinacionais (que preferem formas de controle estatal mais permeáveis a seus interesses privados) do que nos interesses sociais e políticos dos estamentos burocráticos que controlam o Estado (civis e militares) e que se organizam cada vez mais no sentido de controlar o setor estatal do aparelho produtivo (pag.40).
Trocando em miúdos? Para FHC, já em 1975, a ditadura não era produto do interesse de classe capitalista, mas do excesso de burocracia do estado.
A eficácia ideológica dessa tese reside na curiosa identificação entre autoritarismo político e estatismo econômico, como se os dois caminhassem necessariamente juntos. O modelo explicativo de FHC pressupunha que um estado ditatorial é menos permeável a "interesses privados." FHC manufaturava a miragem de uma burocracia que atuava em seu próprio nome, uma "burguesia estatal"--e a expressão é do próprio FHC, não minha--com interesses misteriosamente não coincidentes com os do capital multinacional. Esta fantasia ideológica teve, não cabe dúvida, papel central na consolidação da hegemonia liberal-conservadora na "transição à democracia." Ao fim e ao cabo, a ditadura, FHC nos faz crer, nunca operou segundo o interesse da classe capitalista, mas de uma anacrônica burocracia estatal. Enquanto corretamente criticava o rótulo de "fascista," dado aos regimes militares por setores da esquerda (esses regimes, diferentemente do fascismo, não se basearam na mobilização popular, não fizeram uso de uma estrutura partidária e não precisaram de expansão internacional), FHC redefinia as elites dirigentes como "burocracia de estado". Leiam, por favor, com atenção, essa citação extraída da página 133. O grifo é meu:
Vê-se, portanto, que não há símile possível entre as burguesias dependentes-associadas da América Latina e suas congêneres dos Estados Unidos ou da Europa. O espaço econômico da burguesia internacionalizada (inclusive, neste caso, dos setores locais desta burguesia) transcende os limites nacionais sem que precise de ajuda dos Estados locais... O escudo real das burguesias locais internacionalizadas, neste aspecto, é o conglomerado multinacional, protegido, e aliado com os estados das sociedades-matrizes. Ao contrário, os estados locais servem de suporte político mais para os "funcionários", os técnicos, os militares, os fragmentos desgarrados da burguesia local não integrados à internacionalização do mercado do que aos grandes interesses burgueses internacionalizados.
Trata-se aqui de um pedaço sólido de ideologia: os mercado-livristas nacionais e internacionais se convertem em fatores marginais no regime ditatorial, já que este último supostamente havia atuado em nome de uma misteriosa capa burocrática não redutível ao interesse de classe capitalista. Mantenha-se em mente o lembrete de que uma burocracia estatal, diferentemente de uma classe social dominante, pode ser removida do poder sem que se faça dano algum ao modelo econômico hegemônico. A definição da ditadura como "estado autoritário" prepara o caminho para o próximo passo, uma aliança opositora fortemente hegemonizada pelo conservadorismo neoliberal, com vistas a uma redemocratização que se reduz à desconcentração do poder político do executivo e nunca questiona o modelo econômico imposto pelas ditaduras. Ao fim e ao cabo, aqueles em cujo interesse se sustentavam os generais haviam sido cuidadosamente isentos de toda a responsabilidade na barbárie ditatorial.
Tese deste atleticano blogueiro: a teoria do autoritarismo foi a base ideológica dada pelas ciências sociais--e em particular, FHC--à hegemonia conservadora na chamada transição democrática. A teoria do autoritarismo é a língua da transição conservadora, não sua teoria. Não há contradição, portanto, entre FHC-o-firme-opositor-ao-regime-militar em 1975 e FHC-o-implementador-de-políticas- neoliberais em 1998. O primeiro foi, de fato, a condição de possibilidade do segundo. Não tem sentido, portanto, perguntar-se o que aconteceu com o valente soldado da democracia. FHC jamais "traiu" nada. O que ele entendia por "democracia" estava dado já em 1975.
Segundo FHC, o êxito das políticas econômicas oficiais dependia da capacidade que o estado tivesse para tornar-se, mais e mais, empresário e gestor de empresas. Com isso, em vez do fortalecimento da "sociedade civil" - das burguesias - como parecia desejar a política econômico-financeira, foi robustecendo a base para um Estado expansionista, disciplinador e repressor (pag.199). Qual é o gesto de FHC, então, em 1975? Apresentar a ditadura como produto de uns poucos burocratas estatais, opostos em tudo à "sociedade civil," esta segunda estranhamente reduzida à burguesia liberal. Posto de tal modo o assunto, a eleição política se limitava inevitavelmente a um cardápio de duas alternativas: democracia ou autoritarismo. A aliança liberal-conservadora que levaria Tancredo Neves e José Sarney ao poder podia agora aparecer como a encarnação de uma ânsia universal de democracia.
Por isso, acredito que erram os amigos de esquerda que lamentam que FHC "traiu" os seus ideais dos anos 70. O projeto do estado mínimo, e a essa curiosa associação entre empreendedorismo estatal e excessiva concentração burocrática, com tendências ditatoriais, já estava dada em 1975. Depois desse passeio histórico, não há como manter a tese de que a saída para a democracia brasileira é uma aliança entre PT e PSDB. Essa aliança já era impossível desde antes que esses partidos fossem criados.
********
PS: O blog do Noblat publicou o baile de Marcos Coimbra no Datafolha com título falso. O título correto do texto é "Pesquisas polêmicas" e não inclui a palavra "vexame".
PS 2: O blog do Josias de Souza mentiu ao dizer que no almoço de Lula na Folha de São Paulo, em 2002, onde ele foi destratado, Frias Filho não lhe havia perguntado como ele poderia governar sem falar inglês (episódio relatado por Lula no comício de anteontem em Campo Grande). Perguntou, sim. A pergunta foi relatada por Ricardo Kotscho, testemunha ocular, no livro Do Golpe ao Planalto (Companhia das Letras), publicado em 2006. Quatro anos se passaram desde a publicação do livro de Kotscho.
PS 3: A charge que ilustra o post vem do Diário do Nordeste.
Escrito por Idelber às 05:59 | link para este post
| Comentários (73)
Fernando Serboncini em agosto 26, 2010 8:25 AM
#2
Ótimo texto Avelar.
Ainda mais por recuperar o "Alegorias...", do qual gosto muito e que me foi de grande ajuda no mestrado.
Obrigado pelos textos sempre lúcidos.
Abraço!
França Almeida em agosto 26, 2010 8:32 AM
#3
O que me incomoda mais não é saber da impossibilidade de uma aliança entre o PT e PSDB, segundo a tese do post.
Mas a aceitação pacífica de antigos colegas de "trincheiras" do coronelato na garupa do sucesso social, assim como uma galera pelega de vida fácil.
Se é pra ficar calado, me permito voltar pra trincheira e continuo atirando.
Uma coisa é aplaudir o sucesso do cara que não fala inglês mas, em não sendo míope, soube melhorar a vida de quem mais precisa e, como corolário óbvio, acertou e consertou o rumo de toda uma História canalha.
Outra é aplaudir tudo em uma perigosa complacência. Aqui me aparto de muitos colegas com uma enorme tranquilidade.
Pax em agosto 26, 2010 10:09 AM
#4
Eu nunca li, e jamais leria, o FHC. Pelos trechos que leio em crônicas com esta sua, acho que o estilo dele é muito "gosmento", sem nexo, sei lá. Talvez seja preconceito meu, por não gostar dele.
fernando romero em agosto 26, 2010 10:24 AM
#5
Lá pelos idos de 1975 ele escrevia melhor, Fernando. Nos últimos livros, realmente, o texto virou uma gosma sofrível.
Por incrível que pareça, eu li quase toda a obra do FHC.
Sim, eu sei. A minha mãe tentou me tratar, me deram remédio, não adiantou, não.
Idelber em agosto 26, 2010 10:31 AM
#6
belo post, Idelber - como sempre, aliás.
essa tese de FHC faz parte de uma tradição de leitura da política brasileira q vem desde o Império, com um autor como Aureliano Tavares Bastos, q chamava o Estado de então de *asiático*; passa, depois, por Raymundo Faoro e seu Os Donos do Poder, q consagrou o termo *estamento* pra falar da burocracia estatal. Simon Schwartzman, em Bases do Autoritarismo Brasileiro tb joga no mesmo time...
Do outro lado, temos gente q sempre viu o Estado como grande indutor do desenvolvimento do país: José Bonifácio, Oliveira Viana, Vargas, chegando até os dias de hoje.
o fato curioso do pós-1985 é q as duas tendências mudam de lado: quem tava na direita passa pra esquerda, e vice-versa.
Sobre a permanência dessas duas correntes, recomendo o livro do meu falecido orientador, Linhagens do Pensamento Político Brasileiro (Ed. Hucitec, 2007), para quem ainda não o conhece...
forte abraço!!
dra em agosto 26, 2010 10:36 AM
#7
Valeu a sugestão, dra, está anotada. Veja só, eu nunca tinha parado para pensar que era uma dicotomia que se remontava ao império.
Idelber em agosto 26, 2010 10:42 AM
#8
Idelber, não sou sociólogo, não li o tal livro do FHC e pra falar a verdade nem sei nem se entendi o seu post direito, mas na minha condição de leigo em análise política, fico com a dúvida:
Se os artífices da ditadura eram burocratas estatais defendo seus pequenos interesses, em favor de um estado inchado, por que eles organizariam um golpe pra tirar Jango do poder, se este não apresentava nenhum indício de que iria diminuir o poder da burocracia estatal?
Sei lá, pra mim o país dos sonhos de um burocrata estatal seria a URSS de Stalin, não, então pra que esse "medo do comunismo"? Quem deveria ter medo de uma ideologia que em tese propunha redistribuição de renda e poder, é quem tinha algo a perder com isso, isto é, poder demais ou renda demais, então o mais lógico não seria apontar como base do golpe esses que verdadeiramente estavam incomodados com o que poderia vir, e não alguns que poderiam até ganhar alguma coisa?
Tá, eu sei que é uma réplica meio óbvia, de aula de história de colégio mesmo, e que FHC não é tão bobo pra não ter pensado nisso e posto alguma resposta pra isso no livro, mas, bem, foi o que me ocorreu.
JG_ em agosto 26, 2010 11:03 AM
#9
Idelber, sua análise não está equivocada não, mas pra recontar esta história direito, você teria que remontar à própria constituição da chamada escola sociológica paulista, nos idos dos anos 1950, berço no qual FHC nasce. Antes da tese do estado autoritário, pensadores daquela matriz já elencavam o patrimonialismo estatal e o "populismo" como chaves explicativas da modernidade brasileira. Isso está inclusive em Florestan, no seu "Mudanças Sociais no Brasil", onde o destravamento da "ordem competitiva" é tido como processo fundamental para democratizar a sociedade brasileira. Enquanto no ISEB do Rio gente como Guerreiro Ramos sonhava com um projeto de libertação nacional com condução estatal, a escola uspiana já elegia a sociedade civil e seus agentes como eixos fundamentais da modernidade. Se você pega os trabalhos de Weffort e Moisés sobre sindicatos, verá que a denúncia do PCB e do Estado varguista está lá, e isso esteve na raiz da cultura política petista, que, assim como a do PSDB, foi refratária ao tema do Estado e privilegiou a dinâmica dos interesses operários e da "sociedade civil". Neste sentido, PT e PSDB operavam no mesmo campo político-cultural, que negava a tradição de esquerda pré-1964 e lia a História do Brasil pela chave do "populismo".
Em suma, faço uma provocação: é impossível usar o conceito de "populismo" (que reputo ser um troço analiticamente frouxo e incapaz de dar conta da República de 46) sem, de alguma maneira, flutuar ao lado dessa grandes linhagens interpretativas que deram no programa que você denuncia. É claro que desde 1990 o PT mudou, e passou a interpelar (no sentido Laclau) a grande tradição do nacional-popular,com todos os acertos e equívocos disso.
João Marcelo em agosto 26, 2010 11:13 AM
#10
JG, não existe nada de óbvio nem de bobo no seu comentário, e ele demonstra que você entendeu o post perfeitamente.
Para fazer justiça ao FHC: ele não diz que esse estamento burocrático deu o golpe militar. Como é um livro que não narra as coisas historicamente, essa questão acaba não se colocando, pelo que eu me lembre. Mas ele diz, sim, que a ditadura servia principalmente a ele.
Idelber em agosto 26, 2010 11:21 AM
#11
A propósito do que você diz, João Marcelo, é bem interessante observar a recuperação recente da figura de Vargas no PT. O Emir Sader escreveu um texto bem laudatório outro dia. Há outros exemplos.
Concordo com sua provocação: o próprio uso do termo "populismo" já termina nos levando para essa tradição que você está detalhando aí, e que culmina no FHC. Mas aí eu volto à minha velha resistência à tese da "origem comum" do PT e do PSDB. Porque--e o Celso explica isso bem no post dele--se ambos privilegiavam a sociedade civil, o PSDB é um partido que claramente nasceu sem sociedade civil. A crítica ao populismo no PT apareceu de forma muito mais orgânica, me parece: como expressão das próprias "trombadas" daquela classe operária do ABC contra os limites da estrutura sindical na qual nasceu.
Enfim, não invalida nada do que vocÊ disse, mas eu sempre gosto de matizar essa tese acerca da origem comum dos dois partidos.
Idelber em agosto 26, 2010 11:34 AM
#12
Excelente texto Idelber!
O FT não entende como pode parecer um programa para prefeito o guia do PSDB, e como eles não falam mais nas "reformas", no "projeto de país".
Claudio Lembo abriu metralhadora giratória ligada para FHC recentemente, neste mesmo sentido.
Como pode ser dissimulado o Serra, prometendo dobre o bolsa-esmola enquando a Mônica diz o que disse no Paraná.
Tiago Aguiar em agosto 26, 2010 12:13 PM
#13
idelber, uma dúvida: para FHC, estado mínimo era sinônimo de combate à ditadura?
boto - ssa em agosto 26, 2010 12:17 PM
#14
Boto, não sei se dá para colocar nesses termos. Mas o livro associa, sim, a ditadura à hipertrofia da burocracia estatal.
Idelber em agosto 26, 2010 12:21 PM
#15
Bem Idelber, se esse não é um post sério, vc deveria preparar um post sério por dia, pq com eles o PSDB não se elegeria mais nem na "última reserva natural de tucanos" (também conhecida pelo nome de um time que tem um estádio no Morumbi), quanto ao post interessante, não conhecia essa obra do FHC, isso como cientista social, só tive contato com o clássico dele sobre a teoria da dependência e um ou outro texto dele com o Octávio Ianni quando por exemplo eles editaram algumas obras do Parsons no Brasil. Mais interessante é ver que a "venda" do FHC foi mais complexa do que pareceu, pq sempre aparentou ele ter se vendido entre inicio dos anos 80 e a fundação do PSDB. Interessante ver que ele criou até uma teorização sobre isso. O que só ajuda a compreender mais e mais o abismo que existia entre ele e o seu monumental mestre Florestan Fernandes.
Bem ótimo post. Obs. Já pensou em fazer algum post justamente sobre a situação política no Estado de SP, eleitorado anti-petista, malufismo e principalmente a ditadura tucana??
João Vicente em agosto 26, 2010 12:34 PM
#16
A tese é interessante, mas, penso eu, superestima a sobreposição ideológica de Efeagagá no seu próprio partido, o PSDB, e estica em demasia uma tese de 1975 para a execução de um programa partidário em 80 e blaus para o efetivo governo de 90 e blaus. O processo político desintegra ficções acadêmicas e, no correr dos dias, as ideias que são postas em prática correspondem somente aos interesses momentâneos de poder.
marcos nunes em agosto 26, 2010 1:00 PM
#17
esse realinhamento do PT com o varguismo é realmente um fenomêno interessante. Me parece que o Lula percebeu no segundo mandato que so poderia contar com os movimentos sociais e que não existia saida pro capitalismo no Brasil se não incluisse as massas, uma lição de Vargas. Assim como é interessante, descontadas as circunstâncias históricas, o PSDB se apropriando cada vez mais do nicho ocupado pelo PRP da República Velha. Não é a toa que um dos maiores ideológos do partido, Marco Antonio Villa, é um fervoroso apologista da revolução de 32, o golpe de 64 que não deu certo. Como faz total sentido a rede globo naquela mini-serie que produziu em homenagem aos 450 anos de SP glorificar o golpe da oligarquia cafeeira como uma revolução constitucionalista. Ou seja, o espaço da social democracia já foi ocupado pelo PT. Ao PSDB resta a direita. Ou se assume como tal numa fusão com os demos ou vai implodir. Grande texto, Idelber.
Rodrigo em agosto 26, 2010 1:17 PM
#18
Pois é, Rodrigo, é a minha discordância com o pessoal que sonha com eliminar o fisiologismo na política brasileira promovendo uma aliança entre PT e PSDB. Não dá. Às vezes acham que é sectarismo meu, "hegemonismo petista" e tal. Mas é uma impossibilidade estrutural mesmo. Eu acho.
Golpe de 64 que não deu certo é a melhor definição que já ouvi do movimento de 1932.
Idelber em agosto 26, 2010 1:30 PM
#19
Idelber,
de acordo, não acho que PT e PSDB tenham a mesma origem ou composição, apenas sugeri que eles gravitavam num mesmo universo específico dos anos 1980. Eram e são diferentes.
O maior defensor da origem comum é o Luiz Werneck Vianna, sociólogo do IUPERJ que foi meu orientador. Sugiro um artigo dele chamado "Weber e a interpretação do Brasil" (tá naquele site Gramsci Brasil, foi publicado na revista do CEBRAP em 99) onde ele faz uma espécie de arqueologia das interpretações do Brasil alimentadas pela intelectualidade paulista, desembocando no PT e no PSDB.
João Marcelo em agosto 26, 2010 1:37 PM
#20
Idelber, você deve ter lido hoje que o Clovis Rossi apresentou outra versão para este agora famoso encontro entre Lula e Otavinho. Querendo parecer elegante, escreveu que "Para não dizer que o presidente Lula mentiu sobre o que aconteceu no almoço de 2002 nesta Folha, em que se sentiu discriminado, digamos que ele contou uma fábula, com escasso parentesco com a realidade." Escreveu ainda que a pergunta capciosa sobre o Maluf teria sido "sobre a ligação do PT com o fisiologismo"...
Esse deve chamar o "seu" Frias de colega.
Leo Vidigal em agosto 26, 2010 1:41 PM
#21
Texto bom, Idelber, como sempre.
Indo um pouco na linha do JG, lembro o livro do Gildo, linhagens do Pensamento Político Brasileiro.
Lá você vai encontrar, retomado do Oliveira Viana, a distinção entre idealismo orgânico e constitucional.
Nesse sentido, a crítica do FHC é filha da crítica ao Patrimonialismo que encontramos em Os donos do Poder, e é também na mesma linhagem da crítica ao Estado que sufoca a sociedade civil. Seria a vertende do idealismo constitucional.
Enfim, eu fiz , há algumas semanas, analisando um texto do FHC publicado no Estadão. Lá eu falo disso...
abçs
Manoel
Manoel Galdino em agosto 26, 2010 1:45 PM
#22
Ótimo texto e muito bons os comentários sobre brocracia estatal. O curioso é que o próprio PSDB fomentou um tipo de burocracia necessariamente articulada ao setor privado. Era uma tecnocracia para-estatal que pensou nas políticas de privatização e depois tomou conta das empresas que foram gerir os serviços públicos: Daniel Dantas, Sicupira, André Lara, Pérsio Arida e Eike Batista (que é filho de um ex-presidente da Vale são só alguns personagens dessa história).
Qto ao restante da oposição, parece que já se esboça uma debandada:
http://colunistas.ig.com.br/poderonline/2010/08/26/roberto-brant-calcula-que-apos-as-eleicoes-metade-do-dem-va-para-o-governo/
Lauro Mesquita em agosto 26, 2010 1:47 PM
#23
sensacional texto. excelente comentário do dra. fico sempre mais feliz qd podemos levar as coisas para o século q eu entendo. nossa milagrosa biblioteca tem o livro mencionado pelo dra e vou lá pegar amanhã.
alex castro em agosto 26, 2010 1:48 PM
#24
Idelber, o texto é muito bom,muito mesmo. No entanto, discordo que no governo FHC o estado fosse mínimo. Um estado mínimo não faria o PROER e nem a privatização das teles. Na verdade se tornou uma prioridade do estado redefinir as elites nacionais. Era um novo pacto, que tem muita consonância com a sua interpretação do Autoritarismo e redemocratização (que ao meu ver reelabora certo weberianismo do Sérgio Buarque).
No entanto, no livro dele com o Paretto, encontramos muitas consonâncias com o diagnóstico Cardoso de política econômica. A impossibilidade do estado brasileiro romper com uma posição associada ao sistema produtor de mercadorias internacional mostra muito de sua dependência do capital estrangeiro (sobretudo dos investimentos externos) e da vulnerabilidade do país durante os oito anos de governo do ex-sociólogo.
Por fim, acho que vale a pena ler o livro sobre o empresariado paulista para entender a tese da burocracia estatal. Vale muito também reler o Florestan Fernandes.
Tiago Mesquita em agosto 26, 2010 1:54 PM
#25
Porra, se vocês continuarem sugerindo livros nessa velocidade o meu não sai nunca!
Alex, você já viu alguma coisa que aquela biblioteca não tenha? Realmente, é uma benção.
Idelber em agosto 26, 2010 1:59 PM
#26
Só para concluir. Acho que o trabalho sociológico do Cardoso o ajudou no diagnóstico sobre o Brasil, não nas políticas públicas. Claro que as idéias dele contam, mas também uma conjunção de causalidades que escapam à interpretação que ele fez do país.
Aliás, nunca aprendi grande coisa com a geração que ele formou. Bolívar Lamounier, Antonio Lavareda, Guilhon ...
Tiago Mesquita em agosto 26, 2010 2:06 PM
#27
Idelber, gostei bastante deste texto e posso resumi-lo em poucas palavras: FHC combatia a ditadura nao para implantar democracia direta mas para favorecer os interesses das classes ditas liberais, alinhadas aos interesses do capitalismo internacional. Embora a principio o autoritarismo do estado militarizado tivesse surgido com o apoio do governo americano, após um certo momento, os interesses das grandes corporaçoes passou a ser confrontado e por isto precisava ser removido este obstaculo.
Ricardo Pereira em agosto 26, 2010 2:40 PM
#28
Caro Idelber,
Seu texto é esclarecedor. Contudo, eu não posso deixar de lamentar o fato de PT e PSDB terem se transformado nos dois pólos da política brasileira. Eu penso que o Serra está muito mais próximo do PT que o Michel Temer. E por mais que o governo Lula tenha dado um banho no governo FHC e que existam diferenças ideológicas entre os dois partidos, não penso que sejam estas últimas que inviabilizem uma eventual reaproximação. Há, na verdade, algo muito curioso sobre o PSDB nessas eleições. O partido viu-se na incômoda obrigação de se colocar como alternativa a um governo de sucesso incontestável. Com isso, acabou se transformando em opção para aqueles 5% da, como você gosta de chamar, República Morumbi Leblon, que odeiam o Lula e adotam uma espécie de neoudenismo, desta vez, sem os militares para "salvá-los". Essa ínfima parcela da população brasileira, iluminadas pelos "gurus" Diogo Mainardi e Reinalinho Azeveja, está muito a direita do Serra. Essas pessoas são contrárias ao bolsa família e o Serra já disse que vai ampli-alo, só para dar um exemplo. O que eu quero dizer é o seguinte: O PSDB não representa seus eleitores mas ferrenhamente e ideológicamente antilulistas. não pode sequer dizer na campanha o que essas pessoas querem ouvir, sob pena de afundar mais ainda e amargar uma derrota histórica. Enquanto isso, entre as pessoas que poderiam votar no Lula ou no Serra, que aliás são a maioria dos eleitores, que não têm nada contra nenhum dos dois, a Dilma é a preferida simplesmente porque em time que está ganhando não se mexe e as pessoas querem ampliar as conquistas desse governo. Assim, se o Serra vai para a direita e assume o discurso neoudenista, perderá votos e estará indo contra si mesmo, contra a própria história. Se não o fizer, irá perder de qualquer jeito, porém de forma mais honrosa, preservando a própria identidade e o respeito que eu julgo que ele ainda merece.
Eu torço para que essa derrota, que talvez seja mais amrga que as duas anteriores, reaproxime os dois partidos, uma vez que ficará mostrado que o PSDB não é mais forte o suficiente para disputar o poder, mas pode contribuir com o PT. Até porque, quando futuramente avançarmos mais nas conquistas sociais, certamente não teremos o apoio das oligaquias que hoje nos apoiam e teremos que buscar apoio entre as forças mais progressistas. E neste sentido, quando o Temer e o Sarney pularem do barco, o Serra pode até ajudar.
Abraços
Pedro Rangel em agosto 26, 2010 3:15 PM
#29
Interessante, Idelber, não conhecia isso. Parece um requentado do “Os donos do Poder”, um livro que eu gosto muito. A diferença é que, pelo que eu me lembro, acho que o Faoro também colocava as camadas mais privilegiadas do setor privado (dos donatários das capitanias hereditárias aos coronéis) como agentes do poder, bem pagos, por sinal, voltados para a alienação da sociedade civil do processo decisório.
Concordo que a aliança com o PT é inviável, mas acredito que o problema, aí, seja de cálculo político, o PSDB teria que renunciar a ser o partido protagonista da oposição. Acho que isso aconteceu na Inglaterra: os Liberais se aliaram aos conservadores, abrindo espaço para os Trabalhistas crescerem, e afundaram. No entanto, penso que a substituição do nacional-desenvolvimentismo pelo liberalismo, no Brasil, foi positiva e abriu espaços para avanços posteriores. Acho que esse não foi um grande pecado do PSDB.
Creio que o erro grosseiro da oposição nessa eleição (e na outra) foi não perceber que, desde o início, era evidente não dava pra ganhar. Então, a eles restava perder com dignidade. Apesar disso, escolheram, primeiro, tentar ganhar no grito e, depois, partir para uma campanha eleitoral totalmente experimental. Parece que vão levar uma surra. O problema que surge disso tudo é se alguém vai ser o receptáculo das idéias liberais, porque o que sobrou foi só a extrema direita autoritária e preconceituosa, estilo Sarah Palin. O que é preocupante.
gabs em agosto 26, 2010 4:50 PM
#30
Para um torcedor do patético, vc me parece ser um sujeito com um Q.I. superior aos seus congêneres de MG. cuidado som a segundona, rsrsrsrsrsrss
Mineiríssimo em agosto 26, 2010 5:22 PM
#31
Adorei o comentário do Ricardo Pereira (#27). Eu ia falar outra coisa, mas nem preciso mais. Porque n importa se ele estava certo ou errado, mas entra na coisa da motivaçao. O motivo para combater a ditadura seria, entao, esse etc.
mary w em agosto 26, 2010 5:56 PM
#32
Há semelhanças com o argumento do "Donos do Poder", mas este é bem mais incisivo no seu liberalismo. O Faoro atribui os males do Brasil à persistência de um Estado hipertrofiado que paira sobre a sociedade civil, controlando os atores sociais e "direcionando" o capitalismo. Ele chega a usar o conceito weberiano de "capitalismo politicamente orientado" para dar conta da dinãmica capitalista brasileira, recusando explicitamente a interpretação marxista do Estado. Para o Faoro, o Estado NÃO É um representante dos interesses das classes dominantes, pois se constitui em ator autônomo dotado de vontade própria, alienando-se do mundo social e o gerindo de forma autoritária. É um argumento liberal.
A tese da "captura" do Estado por parte dos interesses privados está em outros autores.
João Marcelo em agosto 26, 2010 6:10 PM
#33
Diogo Mainardi e Reinalinho Azeveja, está muito a direita do Serra. Essas pessoas são contrárias ao bolsa família e o Serra já disse que vai ampliá-lo, só para dar um exemplo.
Pedro, sem querer ser chato, mas já sendo: você realmente acreditou no Serra quando ele disse que ia dobrar o Bolsa Família? O mesmo Bolsa Família que o partido dele passou anos chamando de Bolsa Esmola? O mesmo Bolsa Família que a própria mulher dele acusou de impedir as pessoas de trabalhar?
Foi Serra, não outra pessoa, quem colocou Reinaldo Azevedo na posição em que está (Mendonção lhe deu a revista; hoje, quem o banca é Serra). RA é o homem de Serra ali naquela turma. Foi ele quem escolheu estar ao lado do RA. São íntimos. Vamos desembarcar dessa miragem do Serra de centro-esquerda, gente.
Idelber em agosto 26, 2010 6:54 PM
#34
Eu vou adicionar uma outra questão, que parece que não tem nada a ver com o post mas tem: a opção preferencial de Malan e cia no Governo FHC de utilizar os ministérios econômicos e o Bacen para servir aos interesses de quem, em última análise, os colocou lá - o mercado financeiro - dando uma banana para o país.
Em última análise, todo o ferramental liberal adotado entre 1995/02 tem muito mais a ver com o atendimento a interesses inconfessáveis de mercado financeiro que a proposições politico-economico-ideológicas.
Um dado que escrevi no Ouro de Tolo algum tempo atrás e que é representativo das mudanças no país: os grandes bancos ganham tanto dinheiro hoje quanto naqueles tempos, mas hoje basicamente através de operações de crédito, não girando títulos públicos.
E função de banco é ganhar dinheiro emprestando. não entro aqui no mérito das taxas de juros.
Desculpe-me a digressão econômica, mas queria acrescentar um pouquinho.
abraço forte
p.s. - tem um livro do luis Nassif chamado "Os Cabeças de Planilha" em que ele explica muito bem a captura do Estado por elementos privados no Governo FHC
Pedro Migão em agosto 26, 2010 7:37 PM
#35
p.s. - ué, os comentários estão entrando direto, sem moderação ?
Pedro Migão em agosto 26, 2010 7:41 PM
#36
Idelber, fica mais nítida a opção ideológica de FHC por um uso conveniente de ditadura da burocracia quando confrontado com Florestan, que diz textualmente sobre o golpe de 64: "ditadura de classe" - a classe burguesa, capitalista. O que sempre me estranha é que esse contorcionismo do FHC parece não ter diminuido a admiração do mestre pelo pupilo, mesmo que, ao final, as divergências teóricas entre o deputado Florestan e o senador Fernando Henrique sejam tão claras.
juliano em agosto 26, 2010 7:52 PM
#37
pt psdb foi a concertação chilena. murcha. feita pra não acontecer nada.
o avelar sabe que fla é fla.. e flu é flu. fora com a panqueca geral.
e conhece nietzsche.. ao contrário dos 'especialistas'. que vão de sambadoido.
é acadêmico mas é nosso.
deu um perdido malandro na galera.. pra voltar sabendo mais.
mas não ia perder a festa. o adeus zelite colonial entreguista.
idelber. abraço.
..
francisco.latorre em agosto 26, 2010 8:08 PM
#38
Você se lembra dos discursos do então MDB contra as "obras faraônicas" dos governos militares?
E eu também não me esqueço dos editoriais do estadão, na década de 1980, "acusando" o Brasil de ser praticamente uma "república socialista".
Parabéns pelo texto, é bom cultivar a memória, faz bem para a Democracia.
Ricardo Melo em agosto 26, 2010 8:24 PM
#39
Creio que você acertou na mosca, Idelber. Aliás, imaginar uma aliança entre PT e PSDB no plano nacional dependeria, no mínimo, de uma reconstrução radical do segundo, sobretudo, com uma autocrítica feroz em relação à sua atuação nos anos 90 - o que duvido que ocorrerá. Ainda assim, pelos fatores estruturantes de ambos, mesmo que esse milagre acontecesse, seria apenas um acordo de governabilidade, jamais uma parceria mesmo.
Sobre Serra e os blogueiros de ultra-direita, o fato é que o candidato tucano passou anos colado nessa gente, pouco importa se ele está tanto quanto ou menos à direita do que eles; se estiver junto, tem de passar por tratamento psiquiátrico agora, se estiver mais à esquerda e tolera-los mesmo assim, é pior do que eles.
Pode ser uma droga o país ficar sem oposição, mas essa oposição, eu dispenso.
P.S.: Fiz um post agregando as postagens sobre o assunto, colocando umas ideias lá e ligando com a questão que se tornou chave para o PSDB agora: Não perder o governo do estado de São Paulo.
Hugo Albuquerque em agosto 26, 2010 8:29 PM
#40
Excelente texto. Realmente denota o embrião da "tucanagem" no livro do FHC:
1) Limpa a barra do capital internacional
2) Reforço de um discurso hipócrita que ao mesmo tempo que defende o estado mínimo estimula a concentração burocrática, exemplos: Instituição da carreira de gestor de políticas públicas, criação das agências reguladoras
Luciano em agosto 26, 2010 8:30 PM
#41
efeagá sempre foi entregão.
o livro com paretto.. ou 'do' paretto já avisa.. dependência ao norte.
pediu que esquecessem o que escreveu pra agir com mais liberdade. tá tudo lá. a essência. o anti-celso furtado.
detalhe.. o cara escreve feio e mal desde sempre.. desde o opinião.. o colega que apreciava era zombado na escola.
e na época a gente dava desconto. não sabíamos que o professor era da ford-cia. nem que ia entregar o brasil.
..
francisco.latorre em agosto 26, 2010 9:00 PM
#42
Simples: a base de sustentação do Serra desde da sua campanha no Senado foi sempre a classe média alta paulistana, e a paparicação que a imprensa paulistana o colocou, além dos diversos erros do PT paulista, fizeram com que ele superestimasse suas habilidades. Pessoalmente, sempre achei que esta era uma eleição para Dilma perder.
Os estrategistas da campanha também erraram ao centrar-se demais em temas abstratos com biografias. É uma campanha que fala para a classe média alta da cidade de São Paulo, não para o país. E claro, com os problemas que Serra enfrenta de segurança pública e educação nunca o fizeram tão popular quanto a Veja queria nos fazer acreditar.
Serra é elitista demais. Só falta ele aparecer em cima de um tanque com capacete na cabeça.
André Kenji em agosto 26, 2010 9:17 PM
#43
O JN de hoje deu uma amplificada no caso dos tais dados da Receita de figuras do PSDB que teriam vazado. Deu o nome completo das funcionárias da Receita que teriam acessado os dados e um bom espaço para o "Zé" e a Marina se "indignarem", com direito a Marina dizer que o que era feito na campanha também seria no governo. Pelo menos também abriu espaço para Dilma, em campanha na Bahia, dizer que Serra já entrou em "desespero", que ele apela para a "calúnia". Foi firme e cobrou apuração da Receita e da PF sobre o vazamento. Além disso, o JN fez uma breve incursão pelo caso da Papel Prensa, dando voz a representantes dos jornais La Nación e Clarín que disseram ser as ações do governo argentino "parte de uma campanha para desacreditar a imprensa independente" e que o governo "manipulou fatos e apresentou um falso relatório". Mostraram imagens da coletiva da presidenta portenha quando, segundo o JN, ela teria mostrado "supostas provas" de envolvimento dos jornais com o regime militar argentino. Nenhum outro representante do governo Kirchner foi ouvido. O presidente Lula também continua desaparecido do noticiário global.
Leo Vidigal em agosto 26, 2010 9:40 PM
#44
Serra no horário eleitoral de hoje: "não sou de parar nada que esteja andando". Marta que o diga. Apareceram mulheres do nada para dizer que Serra "continuou obras que Marta deixou paradas". Agora ele fala em "corrigir o que está errado" e "acelerar o que está devagar", mostrando imagens da rodovia 381 em Minas e outras obras do PAC que estariam "paradas". "Não estou aqui para pegar no pé de ninguém"... Ao final, um ator começou a falar de uma nova "armação" contra Serra, citou os "aloprados" e disse algo como "até quando iremos suportar isso" ou coisa assim. Enquanto isso, segundo o JN, a distância entre os dois já chegou a 20 pontos na pesquisa "Globo/Datafolha". O horário do PT reforçou que "depois de Lula é Dilma" e em um depoimento ela foi chamada de "mãe do povo". Mostrou também pessoas que conseguiram caminhar "sem a ajuda do Bolsa Família".
Leo Vidigal em agosto 26, 2010 9:50 PM
#45
Enfim, o "Zé" parece ter começado a focar um pouco mais nos pontos que considera fracos do governo atual que se relacionam com a Dilma, para parecer mais oposicionista, "sem querer partir do zero". Algumas mulheres deram depoimentos de que não votariam na Dilma "só por ser mulher". Não mencionou mais o presidente. O seu marqueteiro talvez tenha ouvido alguns articulistas da FSP, que hoje publicaram as receitas para o tucano sobre onde bater na candidata do PT, além de lamentar o fato de que com Aécio não haveria oposição (CastenheDEM). A sincronicidade entre Serra e FSP é fascinante, só faltou ele citar o discurso de Lula no Mato Grosso do Sul. Continua chamando a atenção o isolamento e o modo como ele sempre aparece sozinho. Hoje o presidente apareceu apenas como uma foto na parede no programa de Dilma, talvez ela queira mostrar que anda com as próprias pernas. A campanha estaria entrando em nova fase?
Leo Vidigal em agosto 26, 2010 10:18 PM
#46
>"Veja só, eu nunca tinha parado para pensar que era uma dicotomia que se remontava ao império."
Idelber (e Alex):
acabei de ficar sabendo q vários livros da coleção Brasiliana foram digitalizados e podem ser lidos online.
De Tavares Bastos, com certeza vale a pena dar uma olhada em A Província, as Cartas do Solitário e Os Males do Presente e as Esperanças do Futuro.
do outro lado da dicotomia, são representativos os escritos de Bonifácio, por ex. Projetos para o Brasil (Companhia das Letras, 1998) e do Visconde do Uruguai, como o Ensaio sobre Direito Administrativo, (Ed. 34, 2002).
abs!
dra em agosto 26, 2010 11:01 PM
#47
Já que colocaram o livro do Gildo na roda, não custa fazer propaganda do Seminário do Grupo Temático do CEDEC, que o Gildo coordenava, e que acontecerá na USP agora em setembro. O link com a programação: http://bit.ly/b42h7G
Sobre o debate que remonta ao Império, tem o livro da Gabriela Nunes Ferreira, "Centralização e Descentralização no Império: o debate entre Tavares Bastos e Visconde de Uruguai" e o artigo do também já citado aqui, Luiz Werneck Vianna, "Americanistas e iberistas: a polêmica de Oliveira Vianna e Tavares Bastos", que tá no livro dele "A revolução passiva: iberismo e americanismo no Brasil".
Andre em agosto 27, 2010 12:08 AM
#48
Idelber,
O que eu quis dizer é que o Serra não faz o discurso que esses 5% da população quer ouvir. Ele não assume a bandeira da direita e se coloca como um candidato de centro-esquerda, mesmo que ele não seja. O que ele faria com o bolsa família só ele sabe, mas o fato é que muitos eleitores dele gostariam que ele disesse que vai acabar com esses programas e ele não diz isso. Não há um candidato declaradamente de direita que assuma a opinião desses 5%. É claro que ele pode estar escondendo o jogo por questões eleitorais, mas há muito direitista que se ressente de ter um candidato que respeita o legado do Lula. E eu não acho que o Serra e o RA sejam iguais. O RA gostaria que o Serra endossasse as coisas que o Indio fala e o Serra não endossa. Agora, num futuro em que o PT precisasse levar mais adiante o processo de transformação social que vivemos, você acha que o Milton Temer ajudaria?
Se o PSDB acabar, o problema é dele. Não vai fazer falta. Mas se transformar-se num partido pequeno sem grandes pretensões pode vir a ser um aliado sim. Pelo menos, assim penso eu.
Abraços
Pedro Rangel em agosto 27, 2010 1:06 AM
#49
Sempre soube, mais a torcida do Atlético, que o PSDB era social-democrata só no nome e que o PT, sim, seria social-democrata na real.
Mas cheguei a me iludir com a vã esperança de que alguns tucanos esclarecidos forçassem uma revoada ao centro, aproximando-se do PT. Foram todos pra direita e lá vão se esborrachar.
Jair Fonseca em agosto 27, 2010 2:19 AM
#50
Caro Idelvar,
Conheci seu blog a pouco tempo e já esta nas minhas leituras obrigatórias. Parabéns.
Sobre FHC, concordo com sua análise de que não precisa esquecer o que ele escreveu, o que iria fazer no governo já estava lá.
O safatle foi um pouco inocente acredito, como muitos, que acreditavam num partido de intelectuias modernizentes.
Em sua análise sobre a dependencia, FHC já afrimava sem impossível o desenvolvimento de uma economia capitalista moderna e independente na periferia. Sua solução então foi o que chamou de "desenvolvimento associado", dando como exemplo o Canadá.
Foi isto que ele buscou em sua administração, se associar ao capital internacional.
Alexandre em agosto 27, 2010 8:44 AM
#51
Caro Idelber: tenho muito apreço pela tua análise sobre FHC (a ponto de sempre me lembrar quando surge a discussão sobre o projeto do PSDB), e concordo completamente com ela. Tenho apenas uma discordância quanto ao post: o salto de FHC à totalidade do PSDB me parece apressada; é algo ainda a ser provado. Mesmo que a assumamos, não vejo como isso impede uma aliança entre PT e PSDB (pra mim a única forma viável de ter uma maioria série - a meu ver, chega a ser meio óbvia a necessidade dessa aliança, algo como a unificação das polícias civil e militar - risos): eles têm em comum a idéia de que a burocracia estatal, digamos, "tradicional" não funciona (aparelhada que é pelo que atende pejorativamente pelo nome de "populismo", ainda que esteja mais do que na hora de revisar o conceito a partir da visão de Laclau). Ainda que as soluções para o problema sejam diferentes (a minimalização de tal burocracia - PSDB, o melhor direcionamento e capacitação dela - PT), a base comum da crítica permite, ao menos, uma aliança pragmática, na medida em que os dois projetos esbarram com uma dificuldade prática: pra realizar seus projetos ambos precisam aparelhar o Estado (ou órgãos pára-estatais, como as agências reguladores), devido à necessária aliança com PMDB (mais a vasta gama de outros partidos fisiológicos) para governar. O PMDB impede os dois projetos de operar a contento: torna o Estado ineficiente, no caso petista; impede a real desburocratização, no caso tucano (torna a suposta racionalização irracional).
Abraço
Alexandre Nodari em agosto 27, 2010 12:26 PM
#52
Sua observação 3 me parece errada, a charge não é do jornal O Povo?
regina em agosto 27, 2010 12:48 PM
#53
Regina, é só seguir o link...
Idelber em agosto 27, 2010 12:51 PM
#54
Será que um dos comentaristas não está se confundindo? Conheço um livro do FHC com o FALETTO (não sei que letra é dobrada: o L ou T ou os dois ) não com PARETTO (que deve ser o cara do Ótimo de Paretto)
bruno em agosto 27, 2010 1:11 PM
#55
No que diz respeito à "tripudiar" do candidato da direita, sugiro leitura do blog da Tia Carmela, que tem me propiciado cólicas de tanto rir, ombreando ali com o Seo Cloaca.
gilson em agosto 27, 2010 5:07 PM
#56
"Não há como se implantar, um hiper presidencialismo no Brasil
Esta América Latina sofre surtos esquizofrênicos com regularidade. Os seus intelectuais visitam universidades no exterior retornam com a cabeça feita.
Nada mais fácil que convencer um intelectual sul-americano. Acostumado à escassez, torna-se dócil e bom expositor de ideais alheias depois de conhecer a riqueza e as possibilidades de seus colegas estrangeiros.
O professor de tal academia falou: é verdade. Por mais absurda que seja a tese exposta. Muitas vezes sem conhecer profundamente as sociedades analisadas eles oferecem conclusões acabadas sobre o futuro."
tac!paf!pow
Tiago Aguiar em agosto 27, 2010 6:17 PM
#57
Alexandre,
Na real, podemos identificar no funcionamento formal de PT e PSDB certas semelhanças, facilmente explicáveis pela cópia de modelos - nos voltamos sempre para a luta pelo domínio da técnica pelo uso, não pela sua criação, com a Política não é diferente. No entanto, se o PSDB guarda certos aspectos social-democratas nessa dimensão - a crença do partido como organização técnico-burocrático autônoma que conduz, por meio de procedimentos econômico-políticos transformações -, por outro lado, sua materialidade, que o Idelber identificou bem no post, dá mesmo numa outra conotação ao partido.
A "racionalização do Estado" que o PSDB propõe é apenas uma cortina de fumaça que serve apenas ao funcionamento do Capital e à realização eleitoreiro-profissional de seus quadros - e é repetido com convicção apenas pelos ideologizados, jamais pelos seus ideólogos do aparelho. O PT assumiu já há alguns anos a doutrina de ocupação da hegemonia do Estado como forma de promover uma articulação entre Capital e Trabalho, permitindo que o primeiro mantenha seu crescimento esquizofrênico ao mesmo tempo em que, curiosamente, constrói meios de controle da produção capitalista para sua seguida canalização de parcial - isto é, de parte do efeito - para sua imediata redistribuição, tendo em vista a geração de utilidade para o Trabalho. São projetos antagônicos, em uma alteração brusca da conjuntura econômico-política do país, poderíamos imaginar, em alguns anos , uma aliança pela governabilidade, mas jamais uma aliança para governar o país mesmo; Para a concretização dos projetos atuais de ambos, só mesmo tentando fazer maioria no Congresso ou buscando meios de racionalizar a irracional aliança com os fisiológicos, construindo algum modus operandi; a outra hipótese seria a da democratização do país, construindo espaços para que o debate público, historicamente esmagado neste país, vicejasse de uma maneira efetiva e transformadora - o que vai contra o que o PSDB quer, mas que remotamente pode ser desenvolvido pelo PT atual, ainda que ele caminhe para uma direção inversa já tem um tempinho.
abraços
Hugo Albuquerque em agosto 27, 2010 6:42 PM
#58
Excelente texto. O 'Social-democrata' na sigla do PSDB sempre foi um embuste.
Francisco Boni Neto em agosto 28, 2010 12:29 AM
#59
Hugo: é a aliança com o PMDB e seus 20 irmãos menores que trava a "democratização do país, construindo espaços para que o debate público". Eu acho que só um pacto de coalizão entre PT e PSDB (nossa, quase cometi um ato falho grafando pMdb) pode construir estes espaços. Seria um projeto muito mais institucional(izante) do que política (em sentido estrito).
Dito isso, tenho minhas ressalvas à própria idéia de um debate público. Acho que é um mito, algo que nunca existiu. A esfera pública é constitutivamente esfera privada de efeitos públicos - mas, enfim, aqui não é o espaço pra desenvolver esse argumento; o que, aliás, eu deveria estar fazendo na tese em vez de estar aqui comentando - risos.
Agora, acho que nem o Idelber acredita que o governo Lula esteja criando "meios de controle da produção capitalista".
Abraço
Alexandre Nodari em agosto 28, 2010 12:56 AM
#60
Achei a análise muito interessante, algo para se pensar.
A minha primeira impressão quando terminei seu texto é a de que o FHC estava sendo pintado como um membro do partido republicano nos EU nos anos 70 [igualando capitalismo liberal com democracia], uma espécie de companheiro de aventuras do Milton Friedman, um profeta de Reagan e Margaret Thatcher.
Suponho que o que ele queria mesmo na época era seduzir a burguesia paulista para forjar uma aliança contra a ditadura. Em outras palavras, estava fazendo política como opositor "moderado" dos milicos, preparando mais um capítulo de "modernização conservadora".
E concordo com o Alexandre que o salto do FHC para o PSDB como um todo parece um pouco precipitado.
De qualquer maneira quem ainda tiver dúvida sobre o DNA neo-liberal do PSDB deveria prestar atenção na atuação do Paulo Renato na educação [tanto no governo federal como em SP] e na política externa PSDBista inclusive as barbaridades que disse o Serra, dignas de Uribe. No Brasil as pessoas acham que a direita vai ter cara de ACM no século XXI.
Ao contrário de muita gente que eu conheço, acho que o PT peca quando se parece com o que o PSDB, não o contrário. Mas enquanto o Brasil não eleger um congresso de maioria de esquerda, a gente tem que se contentar com o que está acontecendo. Gostaria muito de ver a esquerda pelo menos crescer no próximo congresso.
E se o PSDB perder em MG, acho o partido do Morumbi está em vias de se transformar numa reencarnação coletiva do velho Ademar de Barros, o cacique conservador que dominava o eleitorado de São Paulo mas não conseguia ir mais além.
Paulo Moreira em agosto 28, 2010 1:57 AM
#61
OI, muito bom o post. Vc poderia me arrumar o arquivo com a montagem da Dilma "verás que um filho teu não foge a luta"...
Jefferson Pacaembu em agosto 28, 2010 1:50 PM
#62
Alexandre
Eu discordo. Uma coisa é você se aliar no plano do Congresso ao PMDB, que se trata de uma federação de oligarcas regionais sem muita ambição nacional - e se alinham com grande parte do projeto petista -, outra, é uma suposta aliança com um partido como o PSDB, uma agremiação que tem projeto nacional - e ele é tecnocrático e completamente alheio (não raro, oposto) às demandas dos trabalhadores e dos movimentos sociais. Não sei se o Idelber concorda que o Governo Lula esteja criando meio de controle da produção capitalista, mas parte significativa dos próprios capitalistas pensa algo assim - o que faz sentido ou pelo menos eu penso que a candidatura Serra não brotou do nada...
abração
Hugo Albuquerque em agosto 28, 2010 10:53 PM
#63
Hugo: tem muito, muito empresário e banqueiro com Lula/Dilma. A conta da redistribuição não recai diretamente sobre o Capital, mas do remanejamento tributário (e não aumento, não houve aumento significativo da tributação no governo Lula). E o PMDB não se alinha com "grande parte do projeto petista. Quer dizer, se alinha, mas se alinha com qualquer coisa, como se alinhou com a privataria tucana.
Paulo: o PSDB não vai perder MG, em parte por culpa do PT.
Abraço
Alexandre Nodari em agosto 29, 2010 12:25 AM
#64
Meu caro, sem ter lido como você o FHC, uma coisa me intriga: ele escreve isso aí em 1975, governo Geisel, de forte nacionalismo e constituição de um enorme aparato estatal, os PNDs, e tudo. Havia um projeo nacional no Geisel, inclusive de confronto com os interesses norte-americanos com a busca de contrapesos, no Japão e Alemanha (claro, não havia nada de anticapitalista nisso). Não fazia sentido, então, ver nesse movimento do governo um reflexo dos interesses da chamada tecnocracia, dos gestores e planejadores do chamado capitalismo de Estado?
SLeo em agosto 29, 2010 5:32 PM
#65
Bruno, confundi o Enzo Faletto com o Vilfredo Paretto. Scuzza.
Tiago Mesquita em agosto 29, 2010 9:27 PM
#66
Faz uns dois anos que li "Instituições Polítcas Brasileiras", de Oliveira Viana (1883-1951) e desde então, me convenci: o homem era um gigante.
Esse debate está todo lá. O que chamava idealismo utópico das elites brasileiras X o que chamava metologia sociológica (a dele é óbvio...)
O livro é dos seus últimos. Final dos anos 40 e parece-me que sistematiza as idéias de Viana.
O cara lia tudo. Da elite fluminense, tinha biblioteca pessoal com tudo que era publicado no Brasil e exterior. Ele cita até Florestan (deve ter sido uma das primeiras citações de FF).
Naquele então (imediato pós-guerra com o stalinismo no auge do seu prestígio) ele dizia que o socialismo sovíético fracassaria e explicava porque (para mim explicação bem razoável, a propósito).
Fernando Trindade em agosto 30, 2010 6:27 PM
#67
Na mosca, Fernando. Recentemente reli Populações meridionais do Brasil. Ele não só pensava com muita lucidez. Escrevia com uma clareza impressionante. Frase límpida, cristalina.
Idelber em agosto 30, 2010 6:43 PM
#68
Estranho esse seu post. Reputo certa confusão da sua parte tomar o último trecho citado da obra de FHC como uma sustentação de que somente poder-se-ia derrubar o Estado ditatorial com a redução do seu tamanho, e para isso deveria se vestir a camisa do liberalismo...Teria que ler o livro inteiro para tirar maiores conclusões, mas a impressão que me passa o trecho citado é mais no sentido da necessidade de sucesso do estado como indutor da economia para legitimar sua sustentação do que propriamente a incapacidade de conviver com a iniciativa privada.
aliás estudiosos do período são unissonos em afirmar que houve mudança de rumos após a saída do Castelo Branco, com equipe mais liberal. Ademais, a teoria do tripé no que tange a industrialização do país, refuta esse entendimento do FHC.
No que diz respeito à burguesia liberal, o próprio FHC em perfil feito pela Revista Piauí, aparentemente mudou de opinião, afirmando que "O Brasil é isso que aí está. Não tem nada que o una, família, religião, estado. Eventualmente vai resolver suas pendências de infraestrura, mas não espere nada de muito diferente. Empresário no Brasil adora juro baixo..."
Nono em agosto 30, 2010 11:45 PM
#69
Muito bacana o texto!
Me parece que não foi um salto assim tão grande do FHC opositor-da-ditadura pro FHC presidente-neoliberalista-entreguista-privatizador. Uma coisa levou a outra num processo natural de evolução da logíca de raciocínio.
Pelo menos foi o que eu entendi.
Bárbara em agosto 31, 2010 11:38 AM
#70
Alexandre,
se dependesse de mim o PSDB nunca mais punha os pés em minas.
Estou disposta a fazer uma campanha mais explícita contra essa corja Aécio Never, Anestesia e cia. Alguém topa?
Bárbara em agosto 31, 2010 11:41 AM
#71
Idelber,
A sua análise é preciosa e concordo nela em geral. Entretanto, a sua citação da pag. 199 do livro de 1975 e a interpretação que segue não me parece lá tão convincente. Vejamos, nesse trecho específico o FHC estaria "reduzindo" a sociedade civil à burguesia liberal, segundo sua leitura. Mas isso não é bem correto, já que ele reduz a sociedade civil à burguesia - liberal ou não - apenas no que se refere à política econômica, apontando uma suposta contradição do Estado empresarial com o que desejaria a própria política econômica do governo. Há outras formas de relação entre estado e empresários, que não passa necessariamente pelo liberalismo. O FHC parece apontar para o desejo do Estado no seu núcleo em construir uma burguesia moderna, empresas modernas (possivelmente num modelo japonês ou coreano mais ou menos avant le lettre), e que esse desejo não se concretizou por conta da burocracia estatal. Seria uma consequencia perversa da burocratização, não prevista pelo topo dos formuladores da política econômica da ditadura. Não tem nada de reduzir a sociedade civil à burguesia aí. Resumindo, no que se refere às empresas, a sociedade civil se reduz... às empresas que não são do Estado. Bom, isso não é reducionismo. É quase um silogismo, na verdade. A intersecção entre o conjunto "empresas" e o conjunto "sociedade civil" resulta na burguesia. Nada de especial aí, me parece.
Qual a importância dessa retificação? Bom, se o FHC não reduz a sociedade civil à burguesia - como aliás é fácil perceber pelos textos dele dessa época - então percebemos que ele vislumbrava a sociedade civil como o conjunto das forças que não estavam no Estado, e que obviamente inclui os movimentos sociais. Então o que o FHC é porta voz aqui é de uma agenda que pretendia aliar essa sociedade civil num frentão anti-estabilishment - o que de fato ocorreu.
Se isso é verdade - e acho sinceramente difícil que assim não o seja, dada a conjuntura da época, as posições políticas do FHC à época tais quais evidenciadas no seu discurso, e a sua tradição intelectual no campo da sociologia, que não comporta um conceito de sociedade civil que não abarque os movimentos sociais, uma redução tosca desse tamanho como aparentemente ele faz no livro de 75 - então o que temos é que o afastamento de FHC e do grupo que viraria o PSDB das forças mais progressistas só se torna possível no pós-democratização, e mais fortemente no pós-88. Porquê? Porque é no pós-88, quando as forças conservadoras e progressistas da sociedade civil já não tem mais uma agenda comum, isto é, a redemocratização, que há que se tomar um "lado" de forma mais clara. O que ocorreu é que, por um lado, embora o PSDB pretendesse falar em nome da social democracia, ele não tinha enraizamento sindical ou na luta dos trabalhadores de forma mais geral. Seu enraizamento em movimentos populares ou de defesa de direitos de minorias também era muitíssimo limitado. Por outro lado, os empresários liberais acharam bacana esse papo do Fernando Henrique - como você bem coloca - e se aliaram a esse partido novo que rompera com o MDB devido, entre outras coisas, à entrada nesse último de diversos políticos vindos da Arena (o número de arenistas neomdbistas na constituinte é pavoroso) - portanto, do estabilishment. E aí se tem um elemento imprescindível para entender essa mutação, que certamente tinha sido plantada anteriormente - acho que antes de 75 para dizer a verdade, como já comentaram aqui - mas que só conseguiu sair da potencialidade e virar um fenômeno real porque o solo do pós-88 era, digamos assim, seletivamente fértil.
Se é assim, o livro de 75 é importante e explica parte do processo, e você trás portanto uma contribuição importante. Mas há elementos já colocados anteriormente nas pesquisas do FHC com o empresariado paulista - em outros lugares dentro do escopo da agenda de pesquisa do pessoal do Florestan - e elementos que só viriam à tona no ambiente pós-88.
Resumindo a história, a aliança com o empresariado liberal já estava presente em 75 e antes, só que não da forma como se colocou na prática, visto que havia a expectativa de que os mesmos fossem apenas uma parcela desse partido que se pretendia social democrata. Parafraseando o Mané, faltou combinar com a classe trabalhadora.
Marco Natalino em agosto 31, 2010 10:14 PM
#72
Como disse acm, toninho marvadeza, "fhc nunca foi de esquerda".
E não é que o coroné acertou?
E voce mostrou isso muito bem.
Aprendi mais um pouco, valeu!
Flavio Lima em setembro 1, 2010 7:47 PM
#73
Excelente reflexão Idelber!
Imperdíveis também os comentários.
Mas só não ficaria tão entusiasta com o PT, afinal os companheiros também não têm mostrado tanta afinidade com Marx ou Gramsci...
Lula, em maio-junho deste ano, chegou a comparar os servidores públicos em greve a traficantes de droga. Disse que greves de servidor público são férias. Esnobou o movimento, atacou os sindicatos. Mandou cortar o ponto e tentou multar de modo escorchante os sindicatos, mas acabou colhendo uma derrota atrás da outra no Judiciário.
O pior de tudo: depois que os trabalhadores aceitaram a proposta (muito ruim, aliás) do Governo e saíram da greve, o Governo "democrático e popular" retirou-a da mesa! Isso tudo, sob o silêncio cúmplice dessa imprensa. Dessa imprensa.
Quando a esquerda renuncia a seu papel histórico, a curto e médio prazo lança as bases para uma vitória de longa duração da direita (tenha ela que nome ou partido que tiver).
A Itália berlusconiana está aí como bom exemplo dessa tragédia anunciada.
Espero estar errado.
Rogério Junqueira em setembro 2, 2010 9:42 AM