Meu Perfil
Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.
Como é que ninguém tivera essa ideia antes? Escolher um grupo de canções “adultas” (mas com algum apelo infantil, em geral na melodia), juntar instrumentos de brinquedo—pequeno set de bateria, baixo, piano, guitarra, xilofone, mas também autoramas, bichinhos de pelúcia, joguetes eletrônicos de primeira geração--, explorar as possibilidades deles, amplificar a bagaça, convidar um par de crianças e daí produzir versões dessas músicas: é a proposta do Música de Brinquedo (2010), décimo disco de estúdio do Pato Fu, banda mineira na ativa desde 1992. O Pato Fu é Fernanda Takai, John Ulhoa, Ricardo Koctus, Xande Tamietti e Lulu Camargo. John, guitarrista, é veterano da vanguarda roqueira belo-horizontina dos anos 80 e ex-integrante do Sexo Explícito. Fernanda é vocalista que já deixou marca na música brasileira popular de hoje.
Em Música de Brinquedo, essa espécie de viagem gulliveresca produz situações insólitas, como a de um microfone ser duas vezes maior que o amplificador do contrabaixo. A brincadeira é o aprendizado do som possível com aqueles instrumentos, acrescidos de sons de outros brinquedos. Um texto de John Ulhoa explica a concepção do disco:
A ideia pareceria absurda há poucos anos. No entanto, desde o CD Daqui Pro Futuro (2007) começamos a flertar com sons de caixinhas de música, realejos, pianos de brinquedo… Em algumas de minhas produções recentes usei muitos desses instrumentos, muitos comprados como presente à nossa (minha e de Fernanda) filha de 6 anos, mas que acabavam invariavelmente na frente de um microfone na sala de gravação do estúdio que temos em casa.
…
Um projeto como esse é mais complicado que um disco comum. A começar pelos próprios instrumentos. Não só são mais difíceis de se tocar, mas também de se encontrar. Nem todos os instrumentos de brinquedo são “tocáveis” e separar as tranqueiras das verdadeiras jóias é uma empreitada e tanto. Bastante pesquisa foi feita em lojas, oficinas artesanais e sites. Eu, por exemplo, em qualquer viagem que fiz nesse período, voltava com a mala cheia de cornetas de plástico, tecladinhos eletrônicos baratos e qualquer tipo de traquitana que pudesse fazer um som e tivesse um apelo infantil.
Mas esses arranjos de brinquedo teriam um efeito muito mais potente se aplicados a canções conhecidas. Aí é que estava a graça, que ficou muito clara quando fizemos “Primavera”: colar essa sonoridade em clássicos do pop, recriar todas as frases melódicas de músicas que não fossem só conhecidas, mas que tivessem arranjos emblemáticos. O que procuramos é o prazer de ouvir velhas canções adultas em seus arranjos originais, tirados praticamente nota por nota, só que com instrumentos de brinquedo. E assim fizemos. Descobrimos quais seriam estas canções. Foi mais difícil do que a gente pensava. Eram muitos os pré-requisitos que as candidatas tinham que trazer. Mas estão aí, e estamos muito orgulhosos de como ficaram ao final.
Entre as várias faixas possíveis, ficam aí como aperitivos as escolhas do blog das versões do Pato Fu (e crianças) para “Live and Let Die”, de Paul e Linda McCartney:
e Primavera (Cassiano e Sílvio Rochael), nesta com o adendo de que se você foi criança nos anos 80 é possível que reconheça algum brinquedinho aí:
Está no YouTube também o Making of (Parte 1 e Parte 2), que é uma graça.
O que Pato Fu realiza aqui não é bem "música para crianças", mas música adulta que convida adultos a uma audição infantil, encantada: o tipo de coisa de que muitas crianças costumam gostar também. É um marco entre os lançamentos de 2010.
Maravilhoso! Grande começo de dia. O baterista dá um show, e o "meu amooooorrrr" da Fernanda Takai em Primavera é deixa a garganta da gente suspensa no vácuo, né, não? E a idéia como um todo é lindíssima. Como dizia o Carlos Imperial, "Deeez. Nota DEZ!!!"
Algo me diz, porém, que a idéia toda só fica completamente acessível no vídeo, quando a câmera vai sublinhando a instrumentação. É música para ser vista - e vista em vídeo caseiro, mesmo, desse jeitinho que está aí, com a criançada dando o tom e todo mundo embarcando no clima. No palco, já não funcionaria tão bem - eu acho.
Rapaz, pior que teve! Meu namorado é músico e quando estava compondo seu Ep surgiu uma música com uma melodia infantil e ele pensou em colocar instrumentos de brinquedo.
Aí agora o Pato Fu vem e lança um disco todo..hehe. Deve ser o inconsciente coletivo.
Muito Bom essa do Pato Fu, é musica para se ouvir com espirito de criança..rsss
Me lembrou a velha rapaziada do samba, que com uma caixinha de fosforo, um balde vazio, duas garrafas de vidro se batendo e uma latinha com pedrinhas detro, vira a noite cantando desde Chico Buarque até Fundo de Quintal.
É a batucada e a levada que é envolvente..rss
Hmm, pelo visto serei dos primeiros (ou talvez o único) a destoar...
A ideia é bem interessante, os vídeos são bem feitos, uma graça mesmo, e o resultado dessa pesquisa para a escolha de instrumentos também é legal. O clima que os vídeos passam é super simpático, mineiramente caseiro, e o post é bem bacana, claro. Mas para o meu gosto, essa inventividade não me parece sustentar as coisas tão bem assim, ou pelo menos a ponto de me fazer comprar o CD e assistir ao show. Instrumentos criativos por instrumentos criativos, fico com as invenções do Uakti, do Walter Smetak, do Hermeto Pascoal. (Tudo bem, reconheço que a concepção e as experimentações destes últimos são de outra natureza, só pretendi frisar a questão da criatividade no uso de instrumentos não convencionais.)
Se eu fosse parente ou amigo da turma do Pato Fu, teria adorado entrar na casa deles, participar desse projeto como espectador mesmo, bebendo uma cervejinha vendo todos tocarem e divertindo-me muito com eles, de tão gente boa que parecem ser. Mas não sou parente, tampouco tenho filhos pequenos (nem grandes). Vai ver foi por isso que não me encantou.
É um disco totalmente convidativo, principalmente pela ambientação sonora criada pelo Pato Fu para regravar estes clássicos. Tanto para áudio como para vídeo.
Creio que a ideia que Takai e cia. tenta passar é que devemos atentar mais para o ensinamento lúdico que damos as crianças. É como se mostrássemos o caminho do ensinamento, mas tivéssemos ignorado, deixado ele para trás. Senti uma certa nostalgia com os instrumentos de brinquedo e isso acaba passando batido com o passar dos anos graças aos inesperados rumos que a vida nos traz.
Foi um trabalho arriscadíssimo, ainda vou escutar o álbum inteiro para conferir o resultado como um todo. Pela ousadia e pela energia que Música de Brinquedo transborda, está entre um dos melhores lançamentos nacionais de 2010.
Pato Fu é sempre sempre uma surpresa! Lembro que me apaixonei pelo álbum "Daqui Pro Futuro", o que me fez buscar mais. Quando fiquei sabendo do "Música de Brinquedo", pensei que nenhuma outra banda brasileira teria a mesma criatividade, ousadia e competência. Aliás, esta iniciativa me lembrou muito o álbum "Let's Go Everywhere" do jazz trio Medeski Martin & Wood. Vale muuuito a pena tb!
Conhecendo meu velho parceiro John, ele nunca faria algo que não funcionasse (bem!) no palco. Além de perfeccionista no estúdio (certamente já despontou como um de nossos melhores produtores musicais), o cara é perfeccionista, ponto.
Imaginem o meticuloso trabalho de pesquisa e experimentação necessário a essa "brincadeira"!
John Ulhoa se inspirou num disco de versões dos Beatles, gravado com alguns instrumentos de brinquedos. Concordo que o CD será um dos grandes lançamentos do ano e prevejo seu sucesso, embora pense que é significativo que um dos melhores discos brasileiros do ano seja de "covers" de grandes sucessos da música pop das antigas.
Época de entressafra...
É, em música brasileira, jamais diga "isso nunca foi feito". Tentei ver os vídeos da Calcanhoto, Márcio, mas como moro em Gringolândia, o conteúdo está bloqueado para mim.
Ordens da Sony.
É, cês acham que esse negócio de internet é terra livre?
Foi o que achei também, Tiago, a escolha da concepção do disco foi arriscada, era muito fácil dar num resultado piegas ou desastroso. É isso que o Jair disse: quem é músico imagina a quantidade de pesquisa e experimentação que entrou na escolha desses instrumentos.
Obrigado pelo link, Márcio. Muito legal sua dica, Thaís, valeu :-) Gracias pelo "vulcão", hugo.
Ah, nós falamos desse projeto do Pato Fu lá no Quintarola. Achei muito legal...não se trata só de experimentação com sons e objetos...isso realmente o UAKTI faz melhor...os instrumentos-brinquedos trazem um tipo de som específico que são os sons da nossa memória, das nossas próprias experimentações com eles. É outra experimentação...
Sobre o show da Partimpim...inesquecível a cena do Moreno Veloso tocando um pianinho vermelho de brinquedo.
Mais três vivas para a volta do Idelber...Viva!Viva!Viva!
Sensacional... ando meio desligada e já nem sinto meus pés no chão... e nem tinha me ligado nessa delícia do Patu Fu. Sou fã deles e a cada novo disco, eles se superam. Esse é mágico.
Maravilhosa dica.
Cheguei aqui e acho que vou aportar. Adorei.
Idelber, terei imenso prazer se vc for conhecer meu blog e tomar um chocolate comigo.
Beijos.
Seguindo...